por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Deslembrança




Não me lembro de ti - por José do Vale Pinheiro Feitosa 

Logo tu, esse sinônimo de lembrança,
Esta exuberância de Chapada do Araripe,
De acordar a sonolência da preguiça,
De mover as moendas do engenho,
E depois aproveitar as águas levadas.

Como me esqueceria desta presença?
Capaz de flutuar no mais escuro da tristeza,
Submergir no manto inconcluso desta vida mutante,
E como as baleias esguichar alto as lágrimas sentidas,
Colhidas, firmes como o frutos de buriti da segunda-feira.

Não me lembro de ti,
Como nem lembro de mim,
De nós, deles, daqueles minutos selecionados,
Como o relógio da estação de trens,
A estátua da samaritana,
O Cristo de braços abertos,
A cidade a brincar de golfinho,
Fugidia, pulando e mergulhando nos abismos da lembrança.

Não me lembro de ti,
E mesmo que me digas,
mas eu me lembro de ti!

Juntemos a afirmação à minha “deslembrança”
Ambas se anularão como a antimatéria,
E ao final teremos:
Inteiros, destacados, com todos ângulos e lados,
Nós os deslembrados,

A nossa própria natureza.
A natureza que não precisa de lembranças,
Sobretudo energia a gerar no presente,
As lembranças quando o presente se tornar futuro.
Mas aí o futuro já será presente e tudo se resolve.


Socorro Moreira disse... 

Esses versos me deixam no presente do futuro,
sem deixar a saudade chegar.
Lembrar um papel,
quase em branco...
Sentir falta da mensagem
que chega, sem atrasos.
Que importa o esquecimento
e as lembranças ?
Elas são únicas, e nos deixam
confinados,
num sentimento estranho.
Nem quero dar nome aos bois...
O vaqueiro é José
O santo do Seminário é José
A festa de março
de quem é ?
E agora, José ?
Jesus , Maria , e todos os anjos
são velhos índios de uma tribo ambulante , mas confiante !
12 de março de 2010

Encontro


A prosa foi crescendo, crescendo, despropositadamente, e desejou ser manhã. Pediu café pra não adormecer pensamentos. Uma roda pequena de grandes figuras : Nocodemos, Rogério, Gaby, Dihelson , Aucy, e eu na escuta , interferindo com lembranças musicais , e um tom de desafino. É que viajo , e me acho, nas discussões que me embalam.
Olha que parecia uma lombra de vinho, de wisque, de um ópio qualquer, imaterial. Todo mundo no café com bolo, e as conversas conectadas com o resultado dos nós.
Só daria pra reproduzir ou comentar, se eu pudesse tocar essa canção que continua omissa e misteriosa.

Alô, alô pessoal... O dia já começou. Tem lasanha gelada , que a noite do ontem deixou.

Amor imprevisto


Você chega sem barulho,
nas asas dos sonhos.
Pousa na pira do enlace
Traz no bico o mel da flor,
e nas penas o cheiro do amor.
Cheiro de mato, malva, alecrim ...

Preciso incensar a vida
O amor sempre chega nas horas ( im) previstas !

Entre o choro e o riso


A paixão me fez, me faz chorar ...
O amor me faz, me fez feliz !
As desgraças são inevitáveis ...
As alegrias são contraídas.
Os amigos nos acompanham
e nos deixam acompanhados de nós mesmos
Os amantes nos desacompanham
Os maridos nos trocam por qualquer "barato",
quando não são amigos !
Não entendo de inveja feminina
Batom vermelho
deixa qualquer mulher sedutora
Independente da idade, peso...
O que faz a diferença é o cheiro ,
o brilho do olhar, a leveza da palavra,
a verdade do sorriso,
e o pulsar dos sentimentos !
Posso morrer amanhã,
mas quero viver todo dia
das auroras , dos poentes,
e dos sonhos que assaltam
as minhas madrugadas.
Quero a adrenalina
do imaginar ,
sem a dor do arriscar...
Quero todas as doses de alegria,
em pessoas,
que me deixam embriagada de vida.
Quero os meus amigos, no acaso,
e nesse ocaso do dia !
Pode ser em pingos, em fatias,
em raios de luz, em flash da lembrança,
ou vestidos de qualquer pano...
O que vale é a presença constante !

Susto e encanto



A noite passando
O sono viajando
Tua lembrança
num vai e vem constante
- Meu susto,
e meu encanto !

A madrugada me consome
As auroras tardam
O amor que nem chegou
Adormece noutro dia
E desabita minha alma

Sopra vento frio
Sopra um luar
que eu respiro
Suspiro ...
-A lua me traz um recado !

Despertador


A madrugada me acorda
Quer chova,
quer faça calor.
Acendo as luzes do computador
Acendo as luzes da casa
E a madrugada silenciosa
me acorda !
Tento lembrar meu sonho...
Aconteceu numa cidade distante
Cidade passeio
Cidade do encontro
Despedida na pauta ...
E as luzes da cidade
na pista , no alto
Acesas !
Os sonhos delatam a realidade
Os sonhos fazem acontecer
desejos reais ...
Momentos de amor:
Eu e você !

Pintando o sete



A cor me transporta para a forma
Forma uma realidade nova
uma nova pessoa
que brinca de lembrar
e pinta o sete, nos sonhos de inverno
Acho que depois da chuva
toda alegria se inunda...
As tristezas viram pó
E o eco, no deserto
avisa, que estamos sós!

Amanhã é outro dia



A cidade adormecida comporta milhares de sonhos
Insone, espero o embalo do silêncio.
Emoções escondidas, inanimadas, resistem aos apelos da memória.
Todos os dias , pedaços da minha vida desfilam numa passarela imaginária. 
O passado resolvido vai abandonado aos poucos , o presente solitário.
Deixo para lá todos os mal-entendidos.
Espero o que não sonhei, ou simplesmente não espero ! 
O cansaço já me deixou sem desejos.
Uma brisa tímida me visita. 
Parece cochichar no meu ouvido : Dorme , amanhã é outro dia !

pedaço de azul- socorro moreira


O silêncio é fria
No calor de Novembro
Me lambuzo no mel das frutas
E vivo o inverno que não chega
Agasalhada em mim mesma.
O sol diz que é verão
Que aclara os sentidos e a compreensão ...
Mas eu quero a prima das cores
Pintar de novo a parede
Que o meu coração desbotou

Apostas



A chuva embala a minha dor
O gelo a faz adormecer
Trilax ...
Parece água do pote
Mata a sede
Não resolve !
É madrugada manhã
A cidade sonha
Banhada de chuva.
Os pensamentos dispersos
Não buscam soluções,
Nem versos.
Entram e saem
De recantos diversos.
Canção da chuva
Um arranjo dos céus
Um maestro do tédio
uma toada encantada
No mistério dos véus.

Umedece o tempo
Pede calma
Cala o amor
Agradece a passagem da dor.

O silêncio de todos
A surpresa vindoura
- Um alô!
Vem de lá
Vai de cá ...
Nem sei quem
Nem sei mais ...
Tudo passa
Tudo cala
Tudo volta
Tudo traz
Num sol dourado
O azul imortal.

A manhã vai chegar
E os meus olhos estarão cerrados
No sonho que se aquietou
Sem esperar happy hour.
Clareou
Apago a luz
Me aconchego
Nos muitos travesseiros

Descarto o papel
Mas antes,
Rabisco outras palavras
Que estão no bico da pena
Pena dos amores
Pena das dores,
E a esperança da alegria.

Como um dia
Mais um dia...
De café, fruta e arroz
Ds descidas e subidas
De relógio e celular desligados
De TV ligada
Na novela dos outros.
Poker !
Apostei mais uma vez
Na paz do meu desejo !

Dona Valda

Minha picoense querida : Dona Valda !
Ela me embalava cantando o Hino do Piauí,
e como se não bastasse chamava o boi do Piauí,
quando eu custava a dormir.
Essa mulher tão bela, que encantou meu pai,
falava-me das carnaúbas, das tempestades no céu,
dos conflitos na terra , dos galopes nas estradas,
dos caminhões rumo ao Crato...

Foi minha professora primária
Foi mestra por toda vida
Pregou-me a pacência
Esclareceu coisas em mim
Algumas mal resolvidas !

Ensinou-me a cozinhar
Ajudou-me com meus filhos
Cuidou das minhas tristezas
e vibrou com as alegrias
Foi cumplice dos meus amores
Foi sogra de muitos deles,
e sofreu nos desencontros...

Eu sai dela, e ela entrou em mim.
TER mãe é melhor do quer SER mãe. O TER ajuda na compreensão do SER.

Meu coração está em paz. Minha mãe dormiu e acordou bem. Estamos tranquilos.

Saudade



Ninguém vive sem saudades
A saudade inquieta é a que mais maltrata.
Saudade confortável
é quando ela me deixa em calma
Nem triste, nem alegre ...
Apenas ela,
num sumidouro com porta dianteira.
.
Amar em segredo, mata !
Amor é Vida, e gostamos dela !
Meu pai não gostava de filme brasileiro. Eu adorava Mazarropi ( o meu jeca Tatu). Assisti repetidas vezes, até sair de cartaz. Hoje eu sei, exatamente porque ! Era linda a trilha sonora , e eu cheguei a decorar as letras das músicas do filme "Jeca Tatu", como : Estrada do Sol, Ave Maria dos Andores( com Dalva de Oliveira) e uma outra com Cely e Tony Campelo. Chorei copiosamente , quando incendiaram a casa do Jeca , e ele pegou a estrada , num carro de boi com a família, cantarolando :"Botei o meu boi, no carro, e não tive nada pra carregar... "
Acho que, naquela época eu até gostava de música sertaneja , e Mazarropi era muito parecido, fisicamente, com o meu pai. ... Lindo ! ( risos).

Flor da serra



Vírgínia é uma grande mulher. Cheia de paixão e de força. Alguém que ama a vida, apesar das intempéries. E alguém que - embora saiba muito - não troca sua intuição e seu sentimento pelo frio racionalismo.
Ela é capaz de amar profundamente, mesmo com o coração em frangalhos. Consegue dar abrigo e conforto aos amigos mesmo enquanto padece de intensas dores na alma. Na casa dela tudo é feliz e estamos sempre bem alimentados! rs. Lá, o sono é tranqüilo, a música é agradável e as companhias são magníficas. Ela é dona da morada mágica onde todos os sonhos se realizam. Virgínia é uma pessoa abençoada por anjos, santos e pássaros encantados. É uma professora que ensina coisas que não encontramos nos livros; com ela, a gente aprende a alegria, o amor à vida e a coragem diante dos temores.
Ela é tudo isso e muito mais. Áries, áries! Virgínia é fogo!
Eu vou quando posso, nas manhãs azuis dos dias de sábado. É um chamado do meu coração. Abro o portão , e me sinto em casa, naquela casa. Olhos azuis nos recebem , beleza e amigos por todos os lados. Fátima mima os convidados, os chegantes , com a delicadeza dos nobres de alma. Ontem ela fez um arranjo de "brinco de princesa" para comemorar a Páscoa. Vermelho -amor, delicadeza e vida ! No cardápio variado, não faltou nem a canjica. João Marni fica perto da churrasqueira , entretendo com a música da melhor qualidade, o papo inteligente e descontraído, quem de lá se avizinha.
Esse programa sabatino, vale a pena repetir de vez em quando ... Provar os quitutes de Luciana, ouvir as conversas engraçadas de Eleonora, brincar um pouquinho com a graça de Maria Alice ,curtir a inteligência sensível de Monalisa , e conhecer novas e boas pessoas.
Meu agradecimento e de Victor a esse casal que vive partilhando o que a vida lhes concedeu pelo trabalho e pela devoção.
Fátima e João Marni , vocês teem a nossa admiração e gratidão !

Netas



Eu tive poucas bonecas.
Uma que andava, abria e fechava os olhos, e chorava...
Outra inesquecível, feita pelas mãos amorosas da minha avó materna... Uma bruxinha de pano !
Não tive a graça de ter filhas mulheres ... Mas tenho a graça de ter duas netas !
O tempo de brincar nunca passa . O tempo de chorar , às vezes seca...Mas o coração nunca deixa de se enternecer , e desejar o amor com muita pressa.
Eu digo que mesmo em todos os artifícios , sonhos e atropelos da vida, o que fica é a vontade de amar o amor (e)terno !

Cheiros




Eu quase sempre não beijo... Eu cheiro !
Eu cheiro no ar...
Café, chuva e pimenta de cheiro !
O passante diz
ou pensa da calçada...
A comida dessa mulher
tem cheiro !
O cheiro do jasmim
eu gosto sempre,
um pouco longe de mim!
Conheci teu cheiro ...
Em um, em dois, três abraços,
mas foi teu riso,
que ficou em mim !
Me dá um cheiro ?
Eu gosto tanto
desse cheiro em mim !


José do Vale Pinheiro Feitosa disse...
Socorro,

Quanta saudade daquele tempo de cheiros. Daquela quantidade enorme de gentes que nascera antes de nós e índo até quase ao céu nos pedia um cheiro. Quanta saudade das crianças evoluindo em movimento sideral e pedir-lhe um cheiro. Cheiro é a nossa alma nordestina.




Socorro Moreira disse...
Do Vale,

Pois é...
Os raminhos de rosmaninho e alecrim. O cocó da minha avó tinha um cheirinho especial ; o cheiro do arroz com pequi; canela , na canjica da terra...
E os cheiros na pele, no ouvido, no pescoço, na bochecha... Gostamos dos cheiros !
Memória olfativa ,acordando saudades ...
Quando meu filho mais velho era pequeno ( menos de 4 anos), e fiz uma viagem, ele ficou todos os dias sem deixar que lhe trocassem o lençol, pra que não fosse lavado o meu cheiro.Isso até hoje me comove.

frutos do mandacaru



Eu estou perdendo a fórmula poética ... Eu estou sentindo a poesia , em todos os átimos da vida !
-Ontem foi um dia leve e mágico !
Subi a serra com amigos , andei nas trilhas da floresta , buscando identificar os matinhos floridos.
Esbarrei no velho mandacaru, "que só flora na seca , quando a chuva chega ", e me deparei com seus frutos ... Exuberantes, lindos ! Pedimos licença aos duendes, fadas, e todos do encantamento, e colhemos aquelas bolinhas ( nem tão pequenas) vermelhas, incandescentes ! Descasquei, provei a entre casca, e descobri um miolo bárbaro, mas nele estanquei, e pensei : dá pra fazer uma máscara de beleza... ; as sementinhas serão jogadas à ermo, devolvidas ao chão , que a gente chama de mãe .

Nas voltas , a tarde se despedia.
Barulhos urbanos não se ouviam
A paz dos feriados
deslizava, se infiltrava, e corria...
Como um rio , em tudo que se via.
Banhei-me nessas águas ,
e fechei o dia com uma noite morna ,
serena e sem curvas tortuosas...
Respirei no alívio de um pesadelo findo,
e de um sonho colorido
com frutos do mandacaru,
ainda inteiros, vivos !

Enquanto escuto o barulho da chuva ...- por Socorro Moreira


Chove
Estive entre o PC e a varanda.
Na cabeça uma preocupação
No peito uma ardência ...
Tenho pensado em mamãe.
Já tentei rezar as orações que ela me ensinou.
Lembrei todas as suas fases de vida
Suas dores e alegrias...
É tão viva a sua presença !
E é com essa mulher que eu entendo
todos os dias da minha vida.
Fui a baunilha do seu bolo...
"O avental todo sujo de ovo... "
Como começar tudo de novo ?
De onde viemos?
-É pra lá que a gente vai,
do jeito que imaginamos.
Meu céu é boêmio.
O dela é sagrado...
Como nos cruzaremos?
Pro amor,
deixo o encargo !

salpicando flores

Com pretensões coloridas
Aguardo um presente do tempo
que prepara um papel
pra enrolar minha vida !



Quando aberto está um caminho
é bom soltar flores
Nele ser vento
Ser passarinho.

Viuva alegre



Ando sem poesia, e sem lirismo. Sonolenta demais , a preguiça poética me domina.
Ontem sonhei colorido, e tenho encontrado os amigos.
Minha mãe se recupera devagarzinho, e eu vou ficando menos triste.
Amanheci ouvindo Raphael Rabellho. Qualquer música que ele interpreta é linda ! Naturalmente prendo-me à melodia. A poesia até esqueço, na maioria das canções, com muitas exceções !
Hoje é dia de ouvi-lo !
Mas é dia também da Empregada Doméstica .Esse personagem tão família , que a vida nos empresta !
Descobri a vida, nos braços de uma delas : Sá das Dores - minha doce Dôra !
Viúva , herança da minha avó paterna, Dôra vivia comigo nos braços , passeando nas praças, nas ruas, nos açougues. Batia pernas por horas a fio, comigo nos braços procurando Zé de Mãe , um velho pedreiro, que tinha um chapéu pintado de azul celeste. Com meus ouvidos e todos os sentidos de menina precoce, atenta ao diálogo dos dois, não perdia uma oportunidade de corrigir o português da roça .
- "Pro mode ", Dora?
-" Por causa , menina sabida ! Vamos aviar , que estamos atrasadas pro dicomé !
Dôra é inesquecível ! Tinha um cheirinho de sarro de cachimbo, mas um sorriso misto de pureza e malícia. Eita viúva danadinha !
Com ela descobri logo cedo, que o destino de todas as viúvas é a alegria !
Ainda hoje luto na conquista das Ajudantes Domésticas . Apego-me , desapego-me , porque elas nunca chegam pra toda vida !
Reconheço e valorizo esses anjos encarnados , que pingam de suor , nas tarefas que nos pesam . É pesado lavar e passar a roupa, arrumar a casa, lavar os pratos da pia, e outras coisinhas mais... !
Agora a coisa mudou. Estudam , se formam, reivindicam seus direitos , e até sabem brigar na Justiça, quando se sentem lesadas ou coisa parecida. Tudo certo !
Se eu não morasse no Crato, se precisasse de emprego, numa cidade qualquer, eu seria com certeza, cozinheira !

Nos bastidores



Amigo Zé Nilton , as canções falam por nós!
E, quando estamos sem preguiça , no caso dos poetas e compositores, as falas escritas, mesmo dizendo pouco, vencem a timidez, e se declaram , mesmo escondidas .
Acho que guardamos no coração alguma paixão ou talvez um amor , que nunca será de mentira.
Eu amo, tu amas, e eles amam ? ( risos)
"Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura"?
O amor é lança
O amor é luz
Como fugir
se queremos ser alvo,
e vivemos na sua mira?
Até dormindo,
nossa disponibilidade,
se oferece aos sonhos,
e o amor emplaca !

O amor é de verdade na mentira
o amor é de mentira ,
quando não pode ser de verdade.
O amor de verdade é
a construção de muitos dias,
em um único ou muitos amores.
Amor de verdade é o que restou em mim
por ti, e pela humanidade.
Amor de verdade é feliz
porque não conta com o desencanto ...
Não tem começo, nem fim...
Está pronto para ultrapassar o umbral da eternidade.
Mesmo quando o teu olhar se afasta,
eu fico com teu amor a me espiar !

Perfume de flor



A paz desejada
tem notas dissonantes
tem tristeza no canto,
esperança vazia.
-Custa muito terminar o dia !

De repente
o céu escurece,
a cidade se ilumina,
e eu acendo em mim todas as velas.

Cheiro de perfume no ar...
Uma flor acabou de desabrochar !

Por Socorro Moreira


Quando descobri a vida , vi o seu rosto: nariz aquilino, boca vermelha, sobrancelhas arqueadas, cabelo preto.
Cuidava de mim com extremosa delicadeza.Exigente capricorniana...Quem conhece, sente !
Depois foi o ensino...A matemática, a gramática , os livros de estórias,arguição dos pontos
para as provas escolares. Cobrava-me a nota máxima !
Depois foram os vestidinhos acinturados, as calcinhas modeladoras, os corpetes primeiros,o batom , os sapatos de salto, e todas as reprimendas do mundo...Mas soube fazer pudim pro meu primeiro namorado.
Logo, logo, (antes dos meus 18 anos) foi a compra do meu enxoval de noiva. Uns lençóis bordados, camisolas de cetim, um conjunto de malas ... Ah, e os aventais !
Dizia-me com um sorriso no olhar : a gente conquista o marido é pelo estômago ! Será ?
Em seguida, a doce ama dos meus filhos. Deixá-los com ela era a minha paz. Paz pra viver a festa, a viagem, e as minhas alegrias juvenis.
Cuidou das minhas enfermidades, das minhas perdas amorosas, da minha falta de qualquer coisa...Parou de me obrigar a rezar, parou de me censurar, de aconselhar, quando percebeu que eu havia crescido, que doravante e no mínimo, seria uma cúmplice, apenas isso : uma cúmplice de vida !
Esta é minha impressão de filha !

sujeito



Poucos sabem ser " deixados "
Cristo,Buda,e outros, conseguiram se libertar dos tesouros materiais,
dos egos centrismos ...

Um dia me encontrei
num canto,
ferida , sem poder voar,nem mesmo caminhar


Estava totalmente exposta aos elementos
Agora me sinto forte , muito mais forte, do que pude imaginar

Eu sou o meu projeto, objeto e objetivo
verbo e substantivo da minha oração

Só no Crato




Passado e presente se misturam
Como aroma e sabor
Um gosto de vida e ternura
na boca de quem provou !
Como esquecer ...
a biblioteca de Dona Liô
a canjica de Eunice
o doce de Isabel
a tapioca de Erice
o "amor em pedaços " da minha mãe,
a peixada de Paulo Frota ,
o sorvete de Bantim,
o pirão do Pau do Guarda ,
os desenhos do meu pai ,
a paciência de Dr Eldon ,
os sermões de Pe. Frederico ,
as aulas de Alderico ,
e a Casa do Pintor ?
Sessão de cinema nas tardes
sapotis no beco de Pe. Lauro,
as injeções de Dona Soledade ,
tertúlias na Pedro II,
matinais no Tênis Clube
Festa da Padroeira
Natal com missa do galo ,
São João com bandeirolas ,
quintal enfeitado,
camisas de riscado ,
vestido de chita ,
tranças no cabelo ...
Acho que dormi o tempo inteiro
Acordei com vontade de comer pipocas ,
beijar na boca ,
escrever uma carta de amor ,
acabar o namoro ,
devolver a aliança ,
rasgar o vestido de noiva ...
Pari três vezes
Pelas minhas crias não retoco o passado
Nem nos sonhos, ouso alterá-lo !
Quero apenas ,
um caderno e um lápis ,
pra anotar o que deixei ficar
Meu brinco de pérolas ,
meu reino encantado ,
um cavalo sem príncipe ,
um amor infinito ,
que entrou pela perna do pato ,
e saiu pela perna do pinto ...
Não consigo contar vinte e cinco ...
A vida é breve , e um dia finda !

Estrela viajante


Viajar é encontrar
a poesia
no vento e nas nuvens...

Preciso do sol
pra pintar de moreno
a palidez do meu rosto

Catalisar processo bloqueado
é esperar que um açude sangre,
surpreendentemente!

Da inquieta vontade de ser
nasce a decisão de não ter!

Faz de conta

Que hoje é um dia qualquer da minha vida
Que ele foi recortado do passado
ou que chegou do futuro, ainda novinho

Faz de conta que o meu presente é esse dia
E nele eu reponho a poesia, o verde, a minha alegria.

Faz de conta que você contracena comigo
Que sorri, e me fala num carinho.

Faz de conta que estamos numa estrada,
Em busca de uma serra, em busca de um cantinho...
Que o dia está no infinito,
e de lá viver a eternidade
É preciso !

Faz de conta que contigo sou fada sem varinha
Que tu és mago com cajado, e lanterninha
Que a água está gelada, que a fonte de mim
É você quem mina e mima!

Pára um só minuto...
Abraça-me com todos os beijos que eu perdi
Como certo dia,
em que eu vi teus olhos,
e nem versos , fiz!


Quem cala, consente ?
O compromisso com a verdade,as vezes nos cala
a mentira piedosa,nem sempre agrada
Se alguém nos descobre,ela assume,proporções inestimáveis
O contrato da verdade,sem cláusulas de omissões,
nos torna livres de tudo que nos inquieta
Machucar alguém, porém,
dói mais do que qualquer verdade!
"quem cala consente..."
O não é um grito ...
Mesmo sussurrado
tem valor de sim !

paladina do amor



Tem jeito pra acabar , embora saia enorme, e aos pedaços, diferente de como entrou - uma simples intenção de encanto , preservada dos malefícios e sortilégios, que entram de quebra , nas crateras do coração minado.
Amo sabendo que é pra sempre, porque não tenho direitos , nem deveres... Apenas cultivo um sentimento perfeito !
O que desejo, além de tudo, se o amor é tudo?!
Depois de tantos anos de exercício ( considero-me eterna paladina do amor) descobri que amor não precisa sair por aí, e nos deixar por dor.
Amo ainda, e cada vez mais...
Não amo o antigo, nem o passional.
Amo tudo, que não me faz mal !
Doravante e sempre
Vou amar você
que não é meu sempre !

Céu Abstrato- por socorro moreira




Entro em contato com as minhas diversas realidades, e contabilizo o passado passivo e o presente ativo. As reservas futuras alcançam os prognósticos naturais, e o imprevisível!
Mesmo assim sinto medo do desconhecido. Medo maior das verdades conhecidas, mesmo que sejam administráveis.
Tudo que vai, volta. A gente só enxerga o que foi significante. As voltas na tortuosidade da vida chegam foscas ou resplandecidas!
Ontem eu revi, vi, revi-me!
O que poderia ter sido e não foi; o que foi e poderia ter sido... E o que nunca foi, eu apenas imagino!
Sai da canseira do entendimento.Estou na plenitude da aceitação... Mas sei que, daqui a pouco ,a roda da vida indispõe minha paz, e eu preciso dizê-la, que ela não aceite os convites das novas tempestades!

Paz ou Guerra




Voltou a inquietação...

Meu amor se declara...

É paz ou guerra!

E o passado some

misturado em tantos

que eu já não espero

Agora és tu...

presente no futuro

apronto esse tormento,

em ventos mensageiros

Chegas em perfume

pele imaginada

esboço enluarado de obscuro êxtase!

Ópio que penetra...

Sem perda de tempo

te concedo a chave

dessa nova casa!

Ele é louco

Lobo e claro

como as manhãs de maio

Caminha para mim num passinho lento

chega descansado, mas com fome intensa...

E nesse entrelaçado de tantos segredos

Eu procuro em versos matar seu desejo!

Tudo ameaça nascer

Tudo chegou outra vez

Explode como bomba,no contentamento!

Ainda pode ser

E pode também não ser...

O verbo desconjugado

Alínea eu e você!

Beijo a boca que fala pelos dedos

Beijo esse corpo com muito desvelo

E nesse engate

de sentido fálico

A poesia é sexo...

Verso, eu te desejo!

vícios



Os dias me enchem de ideias
No entardecer, elas adormecem
E eu vivo o sonho
guardado pela madrugada,
na espera serena
que o dia amanheça.
Aprendi a não correr atrás dos meus desejos
Eles são tão ofensivos,
que cheiram a vícios ...
Aprendi a esperar que o prazer tenha um conta-gotas,
e que pinguem nos meus olhos,
e se espalhem no meu corpo.

eternidade



Nas esperas prolongadas
A sucessão das horas
contam dias,
contam anos,
e param na eternidade!

A espera é vazia ou apipocada...
Com clássicos do cinema,
um samba de Chico,
cigarros e líquidos...

Esperas nutrem o aprendiz!
A grande espera
É amorosa...
As pequenas esperas
são vaidosas!
Outras são ilusórias,
Inesperadas...
Impactam a alma!

Existem esperas
Piedosas, chorosas
Dolentes, gementes...
O alívio é sempre a morte...

Amanhece, entardece
O sono e o sonho...
Enquanto a pele envelhece!

Espera do encomendado
Espera do que virá
Espera do que não chega
Espera por esperar!
Mortes e nascimentos
Festas e casamentos
Atraso no entendimento,
e a pressa no esquecimento!

Um lugar vazio



No entardecer , meu coração se aperta... É que meu pai já não volta pra casa ; minha mãe não me chama pra tomar café; meus filhos não voltam da escola ; nenhum dos amores antigos , telefona, vem me ver... !
É que o presente , embora às vezes cor-de-rosa, sabe escurecer. E eu olho pro céu, esperando a fila das estrelas...Que caiam, uma por uma, ocupando um lugar na noite ,que está pra chegar . Trocamos confidências duvidosas, mascaro a nostalgia falando sozinha, que tudo vai bem... E vai ! Vai sem o mistério deslumbrado de esperança !
Não consulto relógios, nem ligo o rádio procurando a música que mais gosto... Elas estão decoradas , e cantam , no mental, e na lembrança. Algumas me adormecem, outras me entristecem ... Cadê aquele povo, aquela casa, aquele lugar, aquela festa ?
Hoje vou tecer uma noite diferente... Depois eu conto !

Novos ciclos



Na medida em que a televisão nos tirou da praça Siqueira Campos, das calçadas, das tertúlias , do cinema, a Fotonovela foi substiuída pelas novelas da Globo.
Era uma leitura velada, proibida. Minha mãe abominava, mas meu pai gostava. Eu lia escondida. Corria pro banheiro, que ficava na área externa da casa , e entre o pé de mamão e o pé de coco, fugia dos olhares de vigília. Adorava ! Por ser proibido , eu adotava outro tipo de leitura , mas não dispensava uma revista em quadrinhos : Luluzinha , Bolinha, Zé carioca...Tudo bem ! Essas eu tinha permissão para comprar...Mas, e Sétimo Céu, Grande Hotel, Capricho, Ilusão...?
Essas eu lia do meu pai, e das amigas.
Passando férias em Recife , eu fiz amizade com uma vizinha dos meus tios. Justo a nossa colaboradora ROSA GUERRERA ( jornalista). Ela comprava todas, e eu não sosseguei, enquanto não li sua coleção. Depois de um mês, quando as férias findaram , eu sabia tudo do amor que não dava certo; tudo do amor romântico; tudo do perfil de homem certo, e dos errados também!

Não sei até que ponto sou produto daquelas estoriazinhas, mas sei que elas me ensinaram a namorar, e a gostar de me apaixonar. Os príncipes não tinham cavalo branco, nem título de nobreza; as princesas eram belas e pobres, e o final era sempre feliz ! Destarte o caráter de sub-literatura, em cada estória , ficava uma lição de moral, mesmo que na maioria, nos alienassem.
Mas a síndrome de Gata Borralheira, Cinderela, Rapunzel, perdiam feio, diante das estórias contadas pelos astros da Fotonovela. Li , sim ! Lia e gostava ... Ainda me entristeço por terem desaparecido das bancas de revistas ( ficou sem mercado), e por ter deixado de por elas me interessar. Há 45 anos atrás, fechei o ciclo !
Por Socorro Moreira

pinceladas




Eu pinto com o pensamento

desboto com o esquecimento

mancho com beijos

retoco o desejo

sopro a poeira dos medos

risco recados no espelho

e brilho no sol das manhãs .


Esta noite , uma surpresa ...

o riso da vida , na cor do batom !


Areia de Itapoan

macaubeira do Crato

pequi na sopa de feijão

zoada de informação


Parece que nunca cortou os cabelos ...

tem versos no shampoo de aroeira

Um cheiro de Juazeiro

um corpo fino , mente solar

inteligência poética , no imaginar


Tudo é livre , menos a lembrança ...

Se mudar o filme , morre a canção !
Santeiro das formas

poeta dos anjos

escarrra beleza

exala paixão ...

Primeiro de Maio



É primeiro de Maio
e a primeira flor
tem a cara do trabalho.
A vida cobra caro:
o ócio, o amor,
a saúde, a morte ...
Se nada temos a perder
a vida oferece tudo,
o que acreditamos ser.
O cansaço é ouro derramado
A vitalidade gera a felicidade
A paz é conquista inexorável
A inquietação chama o fim,
o desfecho , e ensaia a cena final...
É noite madrugada
O sono às vezes some
e vadia como lua
num céu insólito
Eu já nem busco, nem chamo
o que de mim se afasta
Eu apenas canto como cigarra
embriagada.
Amanhã ou daqui a pouco
as horas acordarão meus sonhos
e o dia me obrigará a viver ,
até o último trago !

grisalhos



E o tempo passou ...
O cheiro dos filhoses , dos eucaliptos, do estrumo do gado ,
o doce do rolete e da garapa de cana,
a música de Luiz Gonzaga , ainda pairam nas lembranças.
Essa festa anualmente se repete.
O povo se reencontra , entre rostos estranhos ,
entre abraços, novo encanto ... Saudade é felicidade !
Que importa o resfriado , a poeira quente , nas tardes?
Que importam as roupas do passado ?
Que importam os olhares, na surpresa, descruzados ?
Nosso coração ainda saltita de juventude e esperança .
- Aquele lá , aquele moço grisalho...É o meu passado !

Relógios ?



Desacostumei-me dos relógios.

Não tenho horário pra nada.Sou desescravizada !

Mas tenho o tempo, que estico ou encolho, que pinto e bordo de todas as cores.

Esse é implacável ...Atua, inexorável !

Mesmo assim nos entendemos e produzimos, no mínimo uma oração por lua .

Tenho o tempo passado, que pisca imagens e poucas falas.Tenho o tempo presente que me vexa, e me convida ao ócio, em simultâneo.

Tenho um tempo com curvas, no futuro...Neste ainda invento, preguiçosas construções.

Mas tenho pressa de amar nas linhas e entrelinhas, antes que chegue a hora.

Efemérides

 
Corro atrás das efemérides diárias. Acendo a luz dos artistas: do cinema, da música, da dança, literatura, poesia, pintura...! Hoje duas figuras me comoveram, sobremaneira: Orestes Barbosa e Gary Cooper.
O primeiro pelo clássico da MPB "Chão de Estrelas”, tão tocada, na radiola da minha infância. Tocada e repetida, em todos os cantos da casa. Fecho os olhos e escuto a voz bonita do meu pai... Boêmio e seresteiro inveterado!
Gary pelos seus papeis nos filmes caubóis. Meu pai o desenhava, e caprichava nos aparatos do cavalo, e no figurino country e heróico do artista!
Mas o que me encheu os olhos d'água foi escutar Tchaikovsky, na sua famosa página: Conserto nr. Um!
Cine Educadora. Escurinho. Coração adolescente disparando, no primeiro aperto de mãos... Essa emoção é patente da minha geração!
Uma sucessão de fitas e presenças desfilam, nas saídas do coração... : Noviça Rebelde, Sabrina, Dio, come te amo...
É só abrir a gaveta das lembranças, e a música acorda momentos breves que se fizeram eternos!

destino

Consistente e insistente
Persiste minha agonia
Processo da dúvida,
Que se afasta todo o dia .
Dias de silêncio
Coração em guerra,
Passa frio...
Come o que sobrou do ontem
Engorda de esperança
Para morrer de alegria!


Risos, gargalhadas
Numa sintonia errada
Sinalizando caminhos
Quando eu crescer
Quero ser gueixa ou ameixa...
Um doce, que se derreta.
Na boca do teu carinho!

Nem tudo pode
No tempo,
Desenhar o seu destino
Fica faltando um arabesco
O nome de um brinquedo,
Um cofrinho ou um potinho...
Nem tudo dói, quando falta ...
Mas a dor de uma saudade
Machuca e deixa roxinho
O canto de qualquer braço!

Se não fosse a poesia
Que me transporta a um oásis
Eu morreria de tédio!

Oásis que mata a sede
Mostra a beleza do céu
O poder do sol,
A magia da lua
E verdeja o sono
No vento de uma palmeira,
Enquanto você não chega!

Vem...
De capa e espada
Como um personagem de fadas
Ou um cavaleiro antigo
Vem,
Meu bem...
A espera é ansiosa, cansada.
Aflita e medrosa
Vem, que a vida é curta
E não quero encurtar a vida
Sem provar a tua volta!

Vitalina



Moça , oficialmente, a gente só era considerada, quando completava 15 anos. Depois dos 30, se continuasse solteira, já era vitalina.
Mas eu tinha menos de 13 anos, quando viajamos em excursão para Salvador. Eu era a caçula do grupo, e só me dei conta das desvantagens, na noite em que todas nos preparávamos para um concerto musical , no teatro. Eu estava de luto do meu avô materno, e preto era considerado luxo. Mas, e os sapatos sem saltos? Deselegância pura ! Enquanto as meninas se "emperiquitavam" , eu timidamente fui ficando, literalmente amuada.
Não afirmo que Regina Vilar tenha sido a mais amiga...Todas nos dávamos muito bem ! Mas, sem dúvidas, naquela hora foi a mais sensível.
- Socorro, você não pode sair com esse sapato baixo.Que número você calça ?
- 35 , respondi baixinho...
-Pois é justo o meu número ! Venha escolher um dos meus sapatos.
Ela tinha um exemplar para cada vestido. Todos novos, na moda, brilhantes !
Sem muita exigência fiquei com um de trancelim preto , de bico fino, e saltos altíssimos.
Era a primeira vez que eu calçaria um sapato alto !
Até que pisei legal... Aproveitei pra usar batom, pela primeira vez, e sai vestida de moça, antes de chegar a hora !
Acho que nem contei pra minha mãe, nem pras pessoas de casa... Esse simples fato, poderia ser motivo de escândalo !
Pois então ... Fui precoce , em todos os tempos :
Precoce nas letras, nas fantasias dos adultos, no casamento e maternidade. Fui precoce também no divórcio, na aposentadoria... Só não quero ser precoce na morte, mas acho que já sai da garantia !
Agradeço, mais uma vez à generosidade da minha colega Regina...Daquele dia em diante, ficamos todas do curso com a mesma idade !

a flor e o espinho



E o espinho disse pra flor:
De ti aspiro o perfume,
a sombra da tua cor
Existo porque te protejo
Sou teu ponto fálico
Sou teu amor!
Se te amar
Marca-me de solidão
Aquieto minha alma
No vazio da tua mão !


Olhos atentos te descobrem
E não adiantam todas as voltas
As meias, as teias...
Nem o decote, que decora
Lá fora a lua some,
engolida por um dia.
Adormeço dos meus olhos,
E sinto que estou sozinha!

Ensolarado



Domingo com Frank Sinatra.
Caprichei no almoço. Fiz camarão ensopado, arroz à grega e salada de acelga. Salguei o molho. Não sei se a batata salvou o paladar. O sal precisa de mãos leves e olhos experientes. Costumo tê-los, mas hoje eu errei a mão, e consertei o prato com os meus olhos de fome... Nem por isso menos exigentes.
Lembro a minha mãe e os seus conselhos: “a gente conquista o homem pelo estômago”.
Engordei meus amores. Quando aprendi a cozinhar, já me faltava a magia da sedução. Alimentar um amor faz parte do kit de manutenção. Está fora dos preâmbulos... Nos primeiros tempos visitamos juntos os rangos de todos os restaurantes.Depois utilizamos a verba, no supermercado, lotando o carrinho de temperos exóticos, vinhos e latinhas especiais.Já comprei “ Chat neuf du pape “, figos Ramy, tâmaras, “ Drambuie”, nozes...Já flambei meus quitutes com o melhor dos destilados.Depois começa a simplificação: café com torradas, baião de dois com ovos caipira, carne de sol com macaxeira, guisado com batata doce... E esse trivial, representado por café com pão, arroz e feijão, bife e batata frita é o cardápio que segura a união.
Minhas experiências culinárias evitaram doenças primárias, como: anemia, gastrite ... Ficaram as mais complexas: diverticulite, diabetes, hipertensão...
Agora sou adepta do arroz integral, do mingau de aveia, das sopinhas de legumes, frutinhas, integrais e grelhados. Saudades da quase total irresponsabilidade alimentar. Dos biscoitos amanteigados, dos molhos a quatro queijos, da comida incrementada com tudo que não pode.
Tenho a limitação da paixão... Ou melhor, tenho a transcendência da paixão. Ela hoje é ocular. Observo-a nos personagens do cinema e das novelas. Sei que representam um papel. Um papel que vivi, sem representar.
Frank continua na agulha. Danço em pensamento, e desacompanhada. A fila é finita. Não tenho um par de olhos que me enlace. Tenho um par de óculos, que me fazem enxergar o que está próximo. Rodopio, na ponta dos pés... “I’ve got you under my skin”.
Matematicamente não voltarei a ouvir todos os meus CDs, nem tão pouco aqueles, que ainda comprarei, por mais de uma vez.
Assim conto o tempo que me resta. Assim conto o que farei da vida nos intervalos do dia.Conto os tempos das surpresas. O melhor da vida é o que está fora do script... E o pior é o que está fora também.
Que venham as chuvas
Que venham os silêncios
Os encontros ensolarados
Os sonhos por baixo das cobertas ...
Olho a Chapada nesse marasmo domingueiro. Parece estática.Mas tudo é móvel , e é passado.Como é passado a manhã desse dia, que já se fez tarde, e precisa da noite para amanhecer.
por Socorro Moreira

Filhas da natureza



Amor marginal
Se descoberto sob mantas
nas esquinas,nos muros pinchados...
Deixe a declaração...
Não assine!

A máxima do amor é quando ele perde a cara
Mistura-se na luz,
e enche o coração do mundo!

Elos físicos
são frágeis laços de fita
Elos espirituais
são fios invisíveis...
conjugam no infinito!

No silêncio das manhãs
vou fiando, o terço do meio dia
e quando o céu se avermelha,
meu coração se inflama,
e acende uma poesia!
Tonta e branca,
a lua descobre a pauta,
e compôe a melodia!

Belo, alto,rico de encanto
Leve, baixo,preso de lamento
Voz de auroras que se repetem
luas lastimosas que reclamam canto
como gotas de orvalho,
aspergindo a terra...
fêmeas colcheias atiradas pelo ar
repousam, renascem...
Filhas da natureza!