por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

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Gostaria de desenhar um árvore de natal com velinhas acesas. Desejar ao mundo de paz. Uma eterna paz que nos garanta a vida sobre a terra. A vida que é esta forma mais dinâmica da matéria. 

Gostaria de abraçar todas as coisas com as quais não concordo. Mas não posso. Elas são conformadas com arrogâncias, soberba e exclusão. Uma aderência a privilégios vis que não têm a menor importância quando um de nós abraça ao outro.

Gostaria de ter um natal diferente de guerras. Das promessas de um império que se desintegra e pela qual nada podemos. Que se desintegra com um navio afundando, arrastando tudo que flutua em sua volta.

Gostaria de muito mais do que tenho e posso. Pois sermos história, termos o que contar, o que traduzir, é como a edição destas imagens que acompanham esta música de John Lennon.

Gostaria que nenhum ser que admirei, admiro e admirarei se imagine um Ícaro com as penas desmanchando. Pois sei dos seus vôos exuberantes no planisfério das nossas contradições. E sei que sol nenhum descolou os móveis de sua evolução.

Gostaria que a minha terra se transforme numa marca inconfundível da história do seu povo. Pois entre erros e acertos, apegos e desapegos, é a experiência pela qual o que acontece é o que tem por acontecer. Mas tudo que é afinal a conclusão, pode ser previsto. E por previsto ser revisto. 

Quintal

E os anos se vão sucedendo,  sem que a gente nem perceba. As primeiras décadas parecem a lenta subida de uma rampa: dá para curtir a paisagem, prazerosamente dividir com os companheiros de jornada as sensações da viagem. De repente, chegamos a um  topo que é sempre imprevisível  e é como se o carro disparasse , ladeira abaixo. As imagens passam estroboscopicamente, os amigos se dispersam, como por encanto,  e a vida segue num estranho frenesi, enquanto esperamos  a beira do precipício e o ruflar inconsequente das débeis asas do Ícaro.   
                                   Pouco a pouco, ante a perspectiva do voo, nossa viagem vai se tornando mais e mais solitária. Os companheiros tomam estradas paralelas, seguem cursos inesperados, buscando todos um inexistente Shangri-lá. Como Fernão Dias Paes Leme, acabaremos cedo ou tarde descobrindo que eram falsas as almejadas esmeraldas. O tesouro terá ficado , talvez, espalhado pelas trilhas :  no bem que possamos ter partilhado, nas lágrimas que por ventura ajudamos a enxugar, nos etéreos momentos de simples e cristalina felicidade que dividimos com os que estavam no caminho,  ao nosso lado. Quando levantarmos o voo final, logo ali, na plataforma do despenhadeiro que nos aguarda   à frente, essas certamente serão as imagens que brilharão nos nossos olhos,   antes do impacto derradeiro nos imperceptíveis rochedos pontiagudos  do fundo do abismo.
                                   Abaixo, a visibilidade é pouca, a bruma feroz. O que nos espera naquelas abissais regiões , quando as asas se partirem e o remanso último   nos venha a sorver para  goela do tempo ? Alguns imaginam que , lá embaixo, exista um éden nos esperando, como conforto final do nosso mergulho : cascatas, música inebriante, paz.  Uns até garantem que nos será permitido voltar e tentar outras trilhas mais amenas e menos penosas, para outros  mergulhos menos turbulentos e  outras aterrisagens mais dóceis. Asseguram até que exista uma grande Torre de Controle invisível e poderosa ( com um estranho e enviesado censo de justiça)  que controla todos  percursos aéreos e decide sobre pousos, decolagens e colisões. Difícil compreender  as reais regras e objetivos  desse rali vital com partida “no nada” e fim “no coisa nenhuma”: sem louros, sem prêmios aos vencedores. À beira do pélago, são meros sonhos todas as conjecturas: apenas o vórtice é real.

                                   Dentro de cada piloto, no meio da vertigem, no entanto, existe um menino, escondido em algum cantinho do bólido. É preciso, na disparada, encontrar esse garoto. Ele nos reensinará  que a essência de tudo reside na brincadeira de hoje e não na perspectiva do Papai Noel que poderá ou não vir no Natal. Ele mostrará que  alegria está aqui ao alcance das nossas mãos: na simplicidade do pião de goiabeira e da bola de meia. Papai do céu está longe  a cuidar das suas estrelas, pouco nos interessa o que existe do outro lado do muro. Deixemos lá a vida com seus bichos-papões.  A felicidade está segura aqui no nosso quintal, brincando conosco de esconde-esconde .

J. Flávio Vieira