por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 30 de abril de 2015

UM VÍDEO TREME A CENA NO NEPAL - José do Vale Pinheiro Feitosa

Volto ao assunto. Naquele momento. Quando tudo acontece.

Um vídeo feito pelas câmaras de segurança de shopping em Katmandu. Numa rua movimentada pela qual passei há um ano.

Bem poderia tentar fazer um downloanding do mesmo. E postar para que todos vejam. Mas não vou fazê-lo. Prefiro as letras que, uma a uma, pingam como lágrimas pelo acontecendo, acontecido e suas consequências para o futuro do Nepal.

País que depende muito do turismo.

Pessoas pelas calçadas movimentadas de larga avenida de sentido único. De um lado o conjunto de prédios comerciais e do outro um pequeno prédio com mais as grades de um parque de grama verde. Vê-se que o número de vans é superior ao de veículos individuais. No entanto, muitas motos transitam pela avenida.

Metade da avenida é usada pelas Vans para embarcar e desembarcar passageiros. Por isso mesmo um guarda de trânsito se encontra no meio da rua orientando este movimento de tomada do transporte coletivo.

Ao lado de um cone de demarcação do trânsito, o guarda dá sinais para aquele momento da operação de trânsito. Duas mulheres esperam o transporte que lhes é adequado. Um grupo, incluindo uma criança se encontra em frente a uma loja.

De modo geral as pessoas transitam por ambas as calçadas da rua. Sendo que no lado esquerdo o footing é mais intenso. Alguém passa empurrando uma bicicleta por entre as Vans paradas. Outras embarcam, Vans param para desembarcar alguém e logo a seguir embarcar outras.

Enfim a rua é dinâmica. A não ser eventuais paradas nestes momentos citados e as Vans estacionadas com pessoas junto a elas, tudo se move. Motocicletas, como fazem em todo o planeta, costuram no trânsito.

Uma mulher se move na faixa em que se encontra o guarda de trânsito. A Van para ao lado, escondendo-a por um breve tempo, mas ela que seguia em sentido contrário ao guarda permanece indecisa olhando para um lado e outro.

A sua indecisão não se resolve por si mesma. Enquanto tudo mais se move, ela apenas balança com se tivesse dificuldade de adotar um sentido específico. Neste momento se aproxima do guarda de trânsito e conversa com ele.

O guarda de costas para um lado da rua, fica dividido entre atende-la e controlar o movimento de sobe e desce nas Vans que param para pegar passageiros. A Van que encobria os dois termina a parada, segue enquanto o diálogo entre os dois permanece e outra Van estaciona um pouco antes dos dois.       

Desta Van pessoas sobem e descem. Famílias, incluindo crianças, transitam nesta faixa da rua dos transportes de passageiros. A Van começa a se mover lentamente adiante. Como se diz apenas segundos e tudo se transforma.

Durante cinco ou seis segundos a câmara do shopping faz a cena tremer e as pessoas continuam sem nada perceber. Na Van, que começara a se mover, pessoas entram para toma-la. O tremor da cena é intenso.

As pessoas começam a cirandar entre si, correr de um lado para outro. Algumas giram em torno do próprio eixo. A maioria se afasta dos prédios. Em ambas as calçadas e na rua as pessoas correm em direções diferentes.

Motociclistas começam a cair, corridas de um lado para outro da rua. As motos fazem movimentos para as laterais em função do desequilíbrio. Um caminhão velho, com um passageiro na carroceria passa do outro lado da rua.

A mulher que conversava com o guarda percebe algo vindo de trás e o puxa. Ele tenta ir em sentido contrário. Mas ela o puxa no sentido dela. O caminhão passa e no ângulo da cena começa-se a observar um prédio caindo em direção dele.

A mulher solta o guarda e corre em sentido contrário ao prédio desabando sobre o caminhão e quem mais por aquele ponto da rua passasse. O guarda fica perplexo por alguns segundos, mas logo percebe o volume predial vindo em direção de todos.

Uma moto que vinha junto à Van parada e tudo mais é atingido, especialmente o caminhão com aquele passageiro solitário sobre a carroceria. O guarda correndo com o pó da construção destruída atrás de si. A poeira cobre quase toda a cena.

Mas é possível se ver os fios e os postes balançando como uma vara de pescar. A folhagem das árvores está agitada como as ventanias das tempestades. Mas é uma agitação estranha, como se alguém as balançasse para derrubar seus frutos.

Entre os 47 segundos do vídeo e 1 minuto e 26 segundo a cena treme. Treme e as pessoas, tão logo a poeira baixa são vistas em corrida na direção do parque gramado. Se afastam das lojas comerciais.

Um homem sai da Van e corre na direção dos escombros e se abaixa para olhar algo embaixo deles. Ele tenta mover os escombros. O motoqueiro atingido perto da Van tenta ficar em pé mas logo em seguida senta-se. Em seguida o homem que se aproximara dos escombros junta-se a outro e tenta levantar uma pessoa ferida.

Esta pessoa é o passageiro da carroceria do caminhão que fora empurrado pelos escombros do prédio. O guarda de trânsito retorna para a posição em que se encontrava, próximo ao motoqueiro que nesta altura já consegue ficar em pé.

As pessoas já caminham. Tentam mover escombros. Mas outras ainda correm. O vídeo não termina.
Quer dizer a filmagem cessa. Mas não as consequências daquele intervalo de menos de um minuto continuam.


Serão anos para retirar o Nepal dos escombros. 

terça-feira, 28 de abril de 2015

LA CANCIÓN REVOLUCIONARIA POPULAR - José do Vale Pinheiro Feitosa

A origem do canto e da palavra se move na história e nos ocorridos ao imediato da vida das pessoas. Os violeiros nordestinos se movem nos romances provençais e nas estradas áridas e varandas patriarcais dos sertões. O rabequeiro das feiras minguantes da velha tradição toca o arco sobre as cordas desde o norte da África, passando por Portugal e, mitologicamente, ligada a São Gonçalo do Amarante e suas danças.

A voz do canto é a narrativa de suas vidas. Seus dramas. Seus conflitos, loas, aventuras e venturas desta vida severa, cruel como a covardia dos acólitos da Casa Grande. Vestidos no manto da salvação na Igreja, um respeitoso ajoelhar-se frente à ordem eclesiástica, para em seguida espalhar ordem e vinganças nas costelas magras do camponês.

Os cantadores sertanejos falam de tais coisas. Como frutos do destino, das vinganças abençoadas, da maldade destilada, cristalina e tênue como a hóstia que absorve todos os pecados, uma espécie de salvo conduto ao juízo final. Os violeiros nordestinos denunciam a miséria da ordem política e econômica, mas nunca cantaram uma revolução popular como o povo do México.

Aliás como o povo cubano. Pois todas as melodias extraídas da revolução cubana têm também raízes da península ibérica, especialmente dos romances espanhóis assim como os trovadores provençais das nossas cantorias. A famosa “Guantanamera”, que se refere às jovens do pedaço de Cuba sonegado pelos EUA e tornado uma prisão cruel, era originalmente uma canção espanhola assim com os sambas de terreiro com um refrão e uma melodia para se improvisar. Nos anos trinta a música era utilizada no rádio para dar notícias e fazer críticas à política. Depois recebeu os poemas de José Marti, por si, um herói revolucionário cubano.

E no México, parte do que conhecemos como a canção típica do país, incluindo os Mariachi, que chegou até o nosso país através do cinema de do disco, são melodias revolucionárias. Chamadas de “corridos”, as canções da revolução mexicana, enaltecendo os feitos dos seus líderes e do levante dos camponeses contra a ditadura de Porfirio Diaz.

E nelas se destacam os próprios camponeses e sua desdita, além de sua coragem e gana de vencer os tempos ruins. Se destacam as mulheres que não aceitaram ficar em casa enquanto seus homens peleavam pelas terras banhadas de sangue. Elas seguiram os homens naquele momento fugaz, onde o amanhã se resolve hoje pois a possibilidade de não se ver o próximo nascer do sol é enorme.

E temos os nomes de Francisco Villa (Pancho Villa), Emiliano Zapata, de Francisco Madero, os nomes anônimos, os pequenos se forjando em gigantes frente a transformação revolucionária. E temos nos corridos quatro fenômenos comuns à revolução: o trem, o cavalo, a carabina e os instrumentos musicais. A repressão veio com o trem que em seguida transportou a revolução. As mulheres seguiam penduradas ao lado do trem (las soldaderas), armadas e destemidas como só estes momentos as libertam.

São milhares de canções, que se originaram dos “corridos” que vieram da colonização do México, se adequaram ao espírito indígena, às canções religiosas de seu povo e as deixou para os seus descendentes, os camponeses quase escravizados pelos senhores latifundiários.  E todas elas criaram uma base sobre o futuro musical do México.

Um exemplo é La Adelita quando o máximo que um homem pode prometer a uma mulher é um vestido de seda. Não se tem futuro, apenas segui-la num navio de guerra se por mar ou num trem militar se por terra.

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La Cucaracha, é um corrido clássico, que se refere à Marijuana e que depois serviu para os "Louros do Norte", em sentimento de superioridade imperial, traçar o perfil dos mexicanos que, por necessidade, prestam serviços a preços baratos no comércios e lares americanos.

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Crisálida


J. FLÁVIO VIEIRA

                                   A constatação tem a textura de uma rocha magmática: a árvore frondosa desabou e está ali estendida, inerme,  no meio da estrada. Os transeuntes obstacularizados pelos galhos volumosos se postam diante da catástrofe : menos interessados em entender os meandros da hecatombe e mais  perplexos ante o  simples impedimento  de seguir em frente. Certo que um dia , inevitavelmente, esperava-se o desabamento : destino de todos os corpos imantados pela gravidade do tempo. Mas  a queda nos toca profundamente , sempre, como se nos impingisse a certeza absoluta da impermanência , da fluidez dos minutos e das horas   escorrendo , inflexivelmente,  para o  ralo tenebroso da inexistência.
                            Hoje, a árvore, mesmo tombada,  ainda parece fazer parte da nossa perspectiva diária, como se seu reflexo ainda ali estivesse indelével no horizonte. Amanhã, no entanto, se juntará à paisagem pretérita. Caule, folhas, galhos , flores,  pouco a pouco serão mastigados pelos incansáveis operários do nada e o pó teimará em retornar a  pó , numa ubíqua e carnal comunhão com toda a natureza.
                            Os observadores da árvore mais próximos, talvez já nem a percebessem : fazia parte do gasto panorama cotidiano. Agora, no entanto, com a queda repentina e o vácuo no horizonte, se hão de perguntar perplexos : o que fica do tronco e suas incontáveis ramificações  que ontem ali estavam, dependurados na estampa do infinito ?
                            Ficam as incontáveis lembranças do seu apogeu. A sombra que acalentou e protegeu os dias não apenas dos seu frutos, mas de todos os insetos, passarinhos e  viandantes que dela se aproximaram. Também a  aparente aspereza do seu porte que precisou criar raízes fortes e profundas para suportar o peso dos galhos imensos  que lhe davam fortaleza. O despojamento de livrar-se das folhas , seu vestido de gala, nos períodos de seca e estiagem, projetando a flora  nas futuras primaveras. Ficam também  as flores com as quais inundou o mundo de cores e aromas e as serviu, copiosamente, sem distinção, a todos que por ali passaram. Permanecessem, intocados pelo tempo, os frutos estendidos  numa mesa imensa e   servidos, irmanamente,  num banquete opíparo e magnânimo,   para degustação de pássaros, borboletas e peregrinos. E , por fim, o pólen : espargido aos sete ventos , disseminando a opulência e o milagre da vida  floresta afora.
                            Tronco e  ramada ao chão são apenas uma mera metamorfose da árvore.  Ela faz-se , misteriosamente, crisálida  enquanto aguarda , pacientemente, no casulo,  a eclosão das tenras asas para  o novo voo nupcial.
                           

Crato, 24/04/15

segunda-feira, 27 de abril de 2015

OS DEUSES GRITARAM - José do Vale Pinheiro Feitosa

O Deus à imagem e semelhança do homem é pura psicologia humana. E não é à toa que fosse entendido na região do mundo afeta à agricultura e à pecuária. Pastores e agricultores necessitam de ordem para cumprir as fases das plantas e do rebanho. A ordem patriarcal é uma forma e por isso o monoteísmo tende ao Deus Pai.

Os deuses naturais refletem toda a relação temporária, intempestiva e incontrolável dos indivíduos e grupos com os fenômenos planetários e terrestres, que envolvem atmosfera, terra, água e a luz solar. Onde se diz adense-se no monoteísmo no outro se diz disperse-se pois muitos se salvarão das iras dos deuses.  

E assim minha perplexidade frente ao terremoto no Nepal, com mais de 3.700 mortos, 60 mil feridos, desaparecidos, soterrados, montanhas de escombros. Falta de recursos de sobrevivência, pessoas isoladas a serem resgatadas, vias incomunicáveis, levas humanas em fuga dos tremores secundários e em busca de sobrevivência onde os recursos faltam.

Em março do ano passado estive no Vale de Katmandu, viajei por terra até a fronteira da China (na região do Tibete). O vale é denso de população. Uma época seca, o rio sagrado Bagmati era, então, um esgoto fétido e cheio de lixo, as pessoas costumavam usar máscaras de pano devido à poeira levantada pelo trânsito nas ruas.

Esta densidade está na raiz do desastre. O Vale de Katmandu fica exatamente nos limites da placa indiana e eurasiana, aquelas mesmas que, em choque, formaram o Himalaia. Uma região de grande risco de abalos sísmicos não deveria concentrar gente, como os deuses naturais revelaram.

Os animais, incluindo os humanos, recebem recados de que os desastres estão por acontecer. Recados históricos como este aspecto da junção de gente à beira de rios, oceanos, em montanhas, em locais de possíveis desastres. Mas recebem recados da própria natureza.

Estudo recente demonstra que animais pressentem um iminente terremoto. Quando as placas tectônicas começam a se atritar existe ionização das camadas mais altas da atmosfera que afetam o comportamento dos animais. Os humanos ficam agitados e confusos, mas não têm condições de mudar suas vidas imediatamente.

As agências de notícias dizem que o Nepal foi avisado por estudiosos que um terremoto era iminente. Até mesmo o Primeiro Ministro nepalês mostrou preocupação exatamente sobre este aspecto há poucos dias. No entanto o desastre do povo vivendo em prédios sem estrutura para abalos e correndo atrás da vida não pode ser evitado. A realidade do povo não pode ser modificada. Apenas o desastre, a morte e destruição podem acontecer.  

E por isso mesmo um dos destaques das matérias do jornalismo ocidental, profundamente comercial foi a morte de um executivo da Google na base do Everest. Fotos do jovem executivo, à frente de dois companheiros, com óculos espelhados, manchas branca nas maçãs do rosto e um porte destemido e enfrentador.

Um olhar de executivo de grande sucesso. Que tem uma performance descomunal no mundo aleatório da acumulação. Que precisa mostrar alto impacto a quem aposta em seus negócios. O olhar de desafio que precisa ser mantido para que o seu mito se mantenha visível na constelação das grandes estrelas da Bolsa Nasdaq.


Os deuses naturais avisam bem.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Será que a liberdade de imprensa é apenas a liberdade das empresas privadas fazerem o que lhes dá na gana? Ou a liberdade de imprensa também teria de compreender o que diz a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos, ou seja: o direito das pessoas receberem informação de muitas fontes, e de terem a oportunidade de se juntarem, de gerar e produzir informação a partir de muitas fontes?

Noam Chomsky

A SEDE DO TERRORISMO GLOBAL - José do Vale Pinheiro Feitosa

Quando se adota uma ideia do mundo o normal é que tomemos referências para orientar tais concepções. Uma parte de nós tenta refletir, busca se informar em fontes independentes e até checa os seus conceitos preliminares até formular a sua ideia de mundo. Mas há uma parte, no meu entender significativa, que não reflete, segue trilhas que demonstram tendências familiares e pessoais e apenas aprofunda este vício de origem.

Uma parte dos que desfilaram nas ruas com o descontentamento ao governo Dilma, era desta natureza obtusa, irrefletida. Vale salientar que existe uma matriz ideológica a fomentar tais obtusidades e por isso frases em inglês, defesa do estilo de vida Miami, frases contra Cubas, Venezuela e até a Bolívia.

Pesquisas feitas com esta parte dos desfilantes mostraram um quadro desolador de preconceitos, aversão a tudo que não se oriente pelos EUA, protestam contra as políticas de proteção social, negam o poder legítimo dos eleitores nordestinos, perseguem a luta por igualdade de gênero, a luta pela liberdade de opção sexual. E o pior de tudo, acreditam linearmente no que os seus canais de formulação ideológica dizem.

Nesta semana o pensador americano Noam Chomsky ao ser entrevistado num encontro internacional trouxe informações fundamentais para se entender o papel político e terrorista dos EUA ao citar três exemplos: Nicarágua, Honduras e Cuba. Vale salientar que o Brasil, mesmo de forma não muito firme, sempre esteve ao lado dos países agredidos desde que se instalou a democracia no país. E até mesmo quando na ditadura militar as lideranças adotaram políticas externas mais independentes do mando americano.

O primeiro se referia à Nicarágua, ainda no tempo do governo Reagan:

Por exemplo, em 1985, o presidente Ronald Reagan invocou a mesma lei (se referia às medidas de Obama contra a Venezuela) dizendo: “O Estado da Nicarágua é uma ameaça à segurança nacional e à sobrevivência dos Estados Unidos”. Mas nesse caso era verdade. Porque ocorria um momento em que o Tribunal Internacional de Justiça tinha ordenado aos EUA que pusessem fim aos seus ataques contra a Nicarágua através dos chamados “Contras” que agrediam o governo sandinista. Washington não o levou em conta. Por sua vez o Conselho de Segurança das Nações Unidas também adotou, nesse momento, uma resolução de que pedia, a “todos os Estados”, que respeitassem o direito internacional. Não mencionou ninguém em particular, mas todo mundo sabia que se estava a referir aos EUA. O Tribunal Internacional de Justiça tinha pedido aos Estados Unidos que pusessem fim ao terrorismo internacional contra a Nicarágua e que pagassem reparações muito importantes a Manágua. Mas o Congresso dos EUA o que fez foi aumentar os recursos para as forças financiadas por Washington que atacavam a Nicarágua. Isto é, a administração Reagan opôs o seu método à resolução TIJ e violou o que este lhe estava a pedir. Nesse contexto, Reagan pronunciou um célebre discurso dizendo que “os tanques da Nicarágua estão apenas a dois dias de marcha de qualquer cidade do Texas”. Ou seja, declarou que havia uma “ameaça iminente”.

Depois Chomsky falou sobre o caso Honduras:

Por exemplo, Obama é praticamente o único líder que deu apoio, em 2009, ao golpe de Estado em Honduras, que derrubou o governo constitucional (de Manuel Zelaya) e que instalou uma ditadura militar que os EUA reconheceram. Isto é, podemos deixar de lado a conversa sobre a democracia e os direitos humanos; não têm nada a ver: o esforço era para destruir o governo.

E agora Chomsky fala sobre os EUA e Cuba frente às iniciativas americanas para distender a situação até então praticada por eles:

Não se trata de “normalização”. É, primeiro, um passo para o que poderia ser uma normalização. Ou seja que o embargo, as restrições, a proibição de viajar livremente de um país a outro etc., não desapareceram...Mas efetivamente constitui um passo para a normalização, e é muito interessante ver qual é a retórica atual da análise de Obama e da sua apresentação. O que disse é que cinquenta anos de esforços “para levar a democracia, a liberdade e os direitos humanos a Cuba” fracassaram. E que outros países, infelizmente, não apoiam o nosso esforço, de tal maneira que temos de encontrar outras formas de continuar a nossa dedicação à imposição da democracia, liberdade e direitos humanos que dominam as possas políticas benignas com o mundo. Palavra mais, palavra menos, é o que disse. Quem leu George Orwell sabe que quando um governo diz alguma coisa, é preciso traduzi-la para uma linguagem mais clara. O que disse Obama significa o seguinte: durante cinquenta anos fizemos um terrorismo de grande escala, uma luta econômica sem piedade que deixaram os EUA totalmente isolados; não pudemos derrubar o governo de Cuba nesses cinquenta anos, portanto, tudo bem se encontramos outra solução? Essa é a tradução do discurso; é o que realmente quer dizer ou o que se pode dizer tanto em espanhol quanto em inglês. (...) Efetivamente, os EUA fizeram uma campanha grave de terrorismo contra Cuba sob a presidência de John F. Kennedy; o terrorismo era extremo naquele momento. Há um debate, às vezes, sobre as tentativas de assassinato de Fidel Castro, e fizeram-se ataques a instalações petroquímicas, bombardeamento de hotéis – onde sabiam que havia russos alojados – mataram gado, etc. Ou seja, foi uma campanha muito grande que durou muitos anos. E mais, depois de os EUA terminarem o seu terrorismo direto apareceu o terrorismo de apoio, digamos, com base em Miami nos anos 1990. Além da guerra econômica, iniciada por Eisenhower, ganhou realmente impulso durante a era Kennedy e intensificou-se depois. O pretexto da guerra econômica não era “estabelecer a democracia” nem “a introdução de direitos humanos” era castigar Cuba por ser um apêndice do grande Satã que era a União Soviética. E “tínhamos que proteger-nos”, da mesma maneira que “tínhamos de nos proteger” da Nicarágua e de outros países...”



Um Desastre Aguardado - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Voltamos repetir o que afirmamos no dia 1° de fevereiro de 2011, há mais de quatro anos portanto,  quando a população cratense enxugava a lama que tomou conta das ruas e de várias residências e prédios comercias, devido ao transbordamento do Rio Grangeiro. Ontem em chuva de menor intensidade do que a daquela época, as noticias revelam que a situação nada mudou. E quem são os culpados?

Dessa vez não podemos de modo algum responsabilizar a extrema pobreza da nossa subdesenvolvida região. Como vem ocorrendo há mais de sessenta anos, o Crato vive órfão de liderança. A população depositou toda a sua expectativa de dias melhores nessa última eleição para prefeito. Na minha modesta opinião, naquela eleição o povo do Crato não escolheu simplesmente um candidato, mas deu um recado claro, direto e gritante de que precisava mais do que um prefeito, precisava de liderança. Não adianta procurar culpados. Cada um de nós, cratenses somos culpados pelas nossas escolhas.

Mas se serve de ajuda, é claro que devemos ajudar, então vamos delinear algumas linhas de ação para solucionar esse grave problema das inundações, antes que de acordo com a crença indígena, a pedra da Batateira arraste o Crato.  
  
 Em primeiro lugar, o canal do Rio Grangeiro deverá ser redimensionado. A municipalidade deverá se apoiar em estudos presumivelmente existentes sobre os índices pluviométricos da bacia do Rio Grangeiro a montante da cidade do Crato. Quais são os registros dos volumes das cheias máximas? Será necessário aumentar a calha do canal? Caso positivo, cair em campo em busca dos recursos necessários. A população cratense a uma só voz deverá pressionar todos os deputados federais e estaduais que se lembraram do Crato nas últimas eleições. Todos aqueles que obtiveram expressiva votação em nossa terra, muitos dos quais, sem o voto dos cratenses, jamais teriam sido eleitos. 

Entretanto devemos olhar para o futuro. Existem recursos para demolir o atual canal e refazer outro, com melhor dimensionamento? Se tal resposta for negativa, busquemos outras soluções para evitar o pesadelo das inundações. Particularmente, eu vejo com bons olhos uma idéia externada pelo ex-prefeito do Crato, pela construção de duas pequenas represas para barrar o leito do Rio Granjeiro, a montante da cidade, com barragens de concreto armado, bem dimensionadas e, construídas criteriosamente para evitar danos ainda piores. Além de barrar as cheias, tal providência serviria para reforçar o abastecimento d’água da cidade, além de despoluir o canal e propiciar a irrigação dos canaviais a jusante da cidade do Crato nas estações secas.   

Enfim, lembrar que pela primeira vez na sua história, o Crato possui um governador eleito com o voto de mais de 83% dos seus eleitores, mais do que uma prova de confiança, uma súplica, salve-nos jovem Camilo. Seja a nossa recompensa e o líder que falta ao Crato.


Por Carlos Eduardo Esmeraldo 

Pérola da MPB


quinta-feira, 23 de abril de 2015


A ATLÂNTIDA AFUNDA NO MEDITERRÂNEO - José do Vale Pinheiro Feitosa

A certeza de nossas posições sempre estará no deslocamento da história, criando contradições, oxidando verdades, introduzindo novas coordenadas. Um dos temas jornalísticos mais dramáticos do momento é a tragédia da migração clandestina africana para a Europa, especialmente no Mediterrâneo.

Na semana um barco com 850 pessoas a bordo naufragou no estreito da Sicília. O comandante do barco, um Tunisiano, é acusado pelos passageiros de ter fechado as pessoas que vinham no porão e no estágio inferior do barco. Aprisionados, eles se afogaram.

Este drama leva nossas posições num sentido, para logo a seguir mudar de rumo frente a como se manifestam as autoridades europeias.

No primeiro sentido nos posicionamos contra este tipo de pirataria que carrega a mão-de-obra barata de um continente para outro em condições tão desumanas quanto os navios negreiros. O artista plástico Bruno Pedrosa, que vive na Itália, disse-me alguns meses passados que o nível de desumanidade tinha chegado ao ponto em que os tais agentes punham as pessoas em pequenos barcos, orientavam o rumo do leme em sentido do continente europeu e diziam: é por aí. E os barcos, sem piloto, levavam os desesperados de mar a dentro.

Mas em seguida, mudamos o rumo de nossas posições. A chamada à responsabilidade dos governos Europeus sobre o assunto representa o que exatamente? Aumento da vigilância aérea, marítima e por satélites e radares sobre o mediterrâneo? Ampliação de uma rede de informação secreta nos países africanos para detectar os movimentos? A rápida devolução dos migrantes? A perseguição estilo CIA da raia miúda dos contrabandistas de gente?

Afinal vamos tender a ficar contra os piratas e ao mesmo tempo contra os governos? É contradição tremenda em nossos espíritos (uma ressalva: na televisão estas coisas só têm um lado e a posição se resume à condenação dos piratas e, por tabela, dos migrantes).  Mas o que efetivamente temos?

Temos um sistema econômico e político desigual. Fazedor de misérias e supressor de oportunidades. Além desta inerência, é um mundo que cresce numa velocidade descontrolada como fetiche consumista, onde as pessoas se tornam peças performáticas e vivem numa eterna incompletude diante das ofertas inatingíveis.

Segundo análises prospectivas, em 2020 apenas 1% da população mundial controlará mais riquezas do que 99% da população. Esta riqueza organizada em redes de influência carregará a história num sentido mecânico consumista e degradante. Dados da ONU estimam que de cinco pessoas no ano de 2050, quatro estariam vivendo em regiões com problemas de abastecimento de água. Isso sem contar com esgotamentos naturais, danos ambientais, desflorestamentos, poluição dos mares e do ar.

A questão energética será mais crítica do ponto de vista de sua distribuição do que de sua geração. Quem tem acesso às fotografias da terra à noite já pode observar, pela iluminação dos países, como esta distribuição é brutalmente desigual. Este modo de distribuição do lúmen produzido pelo trabalho humano é o molde plástico ao olhar de como a sociedade ultra-capitalista atual funciona.

A questão da desgraça no Mediterrâneo é uma questão de consciência política, de organização e mobilização, refletida com o conhecimento até agora adquirido pela humanidade para que se possa, com escala de danos mais reduzida, se transformar e superar o estágio atual do sistema econômico e político. Existem muitas formulações políticas dedicadas a compreender os fatos históricos e lhes dar uma condução racional, normalmente revolucionária.


Não acredito que a dimensão destas contradições possa ser resolvida pelo consumismo, uma vez que ele mesmo é parte daquelas contradições anteriormente apontadas (concentração de riquezas, esgotamento da natureza, desigualdade e conflitos). 

Quero tanto!
No cotidiano apressado
Seu riso leve, o abraço apertado
Vales, luas, montanhas
Viajar
Café na cama
A delicadeza das flores no jardim
Ou enfeitando a sala
Pássaros no quintal
Quero o mar
Chuva no telhado e beijo no portão
Filme com pipoca, vinho no jantar
Amigos, violão, cerveja gelada
O brilho do olhar ao pôr do sol
Namorar
Quero as miudezas essenciais:
Afago nos cabelos, dançar abraçadinha
Ler poesia
Ouvir nossas músicas
Viver simplicidades com você

segunda-feira, 20 de abril de 2015


madrugada dos " bregas" e das lembranças...


Linda!


Aprendi na infância ou depois?


Gosto dos bregas do passado...


Bela interpretação!


Do baú... Alguém conhece?

madrugando com "Ausência"


domingo, 19 de abril de 2015

Rua André Cartaxo, 148


Naquele tempo, naquela rua
tinha um nome que ia e vinha,
nome de menina,
como se a rua fosse um fio
por onde passam as palavras
de um coração de angústia
numa cidade que não quer.

Tinham cartas com letras azuis
dizendo ser a saudade
uma coisa esquisita,
cortando por dentro,
e as noites de Fortaleza...
Puxa! Não lembro. Quem lembrará?

Tinha um menino que seria
um poeta sem livros,
de poemas para surdos,
poemas mudos de amor,
mas o que é o amor?

A Rua André Cartaxo foi ficando
um espinho onde o tempo cravou
os dentes e roeu lentamente
o que secaria em outras ruas
transfigurado pela distância,
por ver o que não queria,
cimento e aço, sangue e choro,
água podre e fumaça,
exílio cinzento.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

TEA PARTY BRASILEIRO - NASCEU COM A MARCA DA FARSA - José do Vale Pinheiro Feitosa

De modo simplificado. Reconheço fácil de errar. Mesmo assim vou adiante. Adiante em busca de explicações para o nosso momento histórico.

Comecemos pelo sistema econômico predominante na atual fase da história. Baseado na supremacia e no monopólio do dinheiro (capital) sobre todos os bens matérias e a ordem política. Ao transformar a ordem de todas as coisas em tabelas precificadas, incluindo os valores morais e portanto atinentes à justiça, se aproximou da natureza largamente conhecida do Deus bíblico.

Onipresente, onisciente e onipotente. Ao mercantilizar todas as relações humanas, este sistema econômico criou uma superestrutura, que abarca desde a cultura até a amamentação da criança no peito da mãe. E, neste momento, ele fere de morte alguns princípios e esperanças muito próximas das religiões semitas (judaísmo, cristianismo e islamismo), incluindo a religiosidade de natureza oriental.

O princípio do merecimento diante do amor ao Deus ou às regras de conduta estabelecidas. Atinge, portanto, o princípio da bondade eterna de Deus onde para ele todos somos iguais em piedade, benevolência e proteção de um pai compreensivo. Até mesmo o conceito da punição se corrompe neste tipo de ordem onde o efetor da ordem é meramente a acumulação numérica de moedas (sob a forma de bens e direitos particulares).

Por isso quando algumas correntes filosóficas procuraram entender o mundo sob a ótica possível do materialismo histórico muitos viram ali a mera negação de Deus, quando na verdade se fazia a leitura do sistema econômico que nascera com a revolução burguesa na Europa Ocidental. Qual seja, a revolução materialista que opera com os mitos, fetiches e crenças sobre a esfera material da acumulação e da extração de trabalho tudo mediado por relações matemáticas de moedas.

Baseado na acumulação, o sistema é por essência excludente, marginal às regras sociais (só presta devoção à regra da acumulação seja direta ou dissimulada), mas ao mesmo tempo detentor de regulações autoprotetoras de fluxo e status, onde o privilégio é de quem se encontra no topo tentando se sustentar.  

Acumulando até mesmo além dos limites do céu, o sistema é corrupto de todas normas históricas da cultura, das religiões e de certas normas morais assentadas em tradições antigas. Por isso na indústria se retira parcela do valor do trabalho para os donos do capital, no comércio se corrompem todas as normas pelo lucro.

Eles sonegam impostos que regulariam seus excessos de acumulação. Comparativamente às corrupções recém descobertas nas operações de empresas como a Petrobrás, envolvendo políticos, a sonegação é uma montanha em relação ao monturo. Dados da Tax Justice Network revelam que o Brasil perdeu em evasão fiscal só no ano de 2012 em direção a paraísos fiscais algo em torno de 280 bilhões de dólares (na cotação do dólar na época seriam 490 bilhões de reais).

E agora paramos nisso? Ao contrário. Precisamos argumentar, participar, lutar por uma sociedade mais justa, igualitária economicamente, que abra oportunidade para as pessoas que são diferentes historicamente até o limite da contradição deste sistema. A partir daí o momento definirá a ocasião desta superação, pois não é verdade que após ele só o caos.

De caos eles entendem bem. O caos, sob a face da irracionalidade e da supressão de oportunidades é a lógica virtuosa do seu porvir. Mas é no caos mesmo que uma nova ordem nasce. Isso muita gente conhece nas primeiras letras da antiguíssima narrativa bíblica da origem de tudo.


O novo Tea Party brasileiro ainda é um pastiche e não creio que tenha bases sociais para repetir a experiência republicana americana. Mas são eles na rua que apontam para uma agenda negativa, da disrupção, puramente aversiva e martelada na corrupção em parte para esconder a corrupção geral. 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

O giro dos tufões


Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos...
......................................................
Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

Antero de Quental, in "Sonetos"
 

                                                               A equação  parece simples e nem necessitaria da ajuda  da matemática. Imaginem uma garota  bonita, meiga, doce, filha de um médico renomado, nascida na capital, com todas os desejos de uma criança totalmente ao alcance das mãos. Os mais simples anseios adolescentes ali estavam perfeitamente atingíveis. O caminho mais previsível seria relegar os estudos a um segundo plano, meter-se em festas , ter a praia como uma extensão da sua casa e tomar o shopping center como seu templo  maior, onde passaria a fazer oferendas diárias ao mais sagrado deus da modernidade : o consumo. Depois, certamente, apareceria o casamento perfeito  e nem haveria a necessidade de se preocupar com o futuro. Viriam alguns filhos que seriam criados afetuosamente pelas babás, pagas regiamente, e a vida se resumiria a viagens, passeios e deleites. Os frutos da existência estavam ali pendentes em galhos baixos, prontos para a colheita diária.
                                               Este talvez seria o caminho trilhado por incontáveis dondocas dos dias atuais. A felicidade vista ali na prateleira da loja de departamentos pronta para ser adquirida , dia a dia, nas mais variadas sessões. O cartão de crédito seria o ingresso de cortesia para o Shangri-lá. Pois bem, pensem, agora, num anjo que , simplesmente, resolve nadar contra a corrente e escolhe trilhar, biblicamente, o caminho estreito ao invés da highway.  
                                               Ela se chamava Marinila e fez-se aluna dedicada, enveredou pela Medicina e formou-se com aquela chama hipocrática de tratar e curar os mais necessitados. Poderia escolher uma especialidade rentável, destas que enchem os olhos dos recém-formados da atualidade  tão afeitos às cabines duplas. Eles babam de satisfação e descobrem, rapidamente, sua vocação,  no sonho certo do pote de ouro ao pé do arco-íris. Ao invés disso, ela buscou o patinho feio da sua profissão : A Medicina Social. Poderia, mais uma vez, ter se dedicado única e exclusivamente ao bem-estar da sua própria família. Carregava consigo, no entanto,  a vontade de mudar o destino terrível de uma outra família que houve por bem adotar : a de milhões de desafortunados que migalhavam no país , diuturnamente, por uma consulta, um exame complementar, um medicamento. Profundamente religiosa – uma faceta que herdou indelevelmente da família—descobriu cedo que a doença estava intrinsecamente ligada à política e que , como diria Foucault, para ser sadio o homem necessitaria primeiramente ser liberto.
                                   Num crítico momento porque passava o Brasil, meteu-se na luta desigual que redundou na Constituição de 1988 e nos alicerces do Sistema Único de Saúde. Envolveu-se, logo a seguir, nas gestões municipais do SUS, no interior do Ceará, naqueles terríveis instantes da implementação do novo Sistema, nadando contra as fortes correntezas contrárias da Medicina Privada. Como Secretária de Saúde, deixou um legado inesquecível de trabalho árduo, técnica afiada, administração sóbria e solidária,  e honradez absoluta e irretocável. O Cariri viu, diante de si, a mais completa , justa e bem intencionada Secretária de Saúde de toda sua história. Depois, ascendeu à vida acadêmica, como professora e Coordenadora da Faculdade Federal de Medicina do Cariri, após cumprir, com galhardia, Mestrado e Doutorado na Itália. Os alunos liam facilmente nos seus olhos que a Medicina não era um ofício mas uma Arte,  que o médico trabalhava num templo e não em uma oficina.
                                   A batalha maior da sua vida, no entanto, estava ainda por vir. No auge das vidas profissional e pessoal,  eis que o destino lhe põe face a face com o inimigo contra o qual batalhara durante todos seus dias : a Moléstia. Enfrentou-a com  força hercúlea, instante a instante, minuto a minuto. Manteve-se impávida ante o sofrimento e a dor, fazendo tremular, até o fim, a verde bandeira da esperança. Nestas esquinas tortuosas da vida é que se percebe, claramente,  a religiosidade de superfície.  Do seu corpo já frágil, porém, brotava uma luz incandescente, reflexo da profunda espiritualidade que imantou toda sua existência. Ante o desespero dos amigos mais próximos, pedia que orassem simplesmente para que se fizesse a vontade de Deus e não para que Ele viesse a mudar os seus desígnios.
                                   Estas palavras saem apenas agora depois de quase um ano do voo último do nosso pássaro. É que para todos nós,  Marinila se mostra ainda tão vívida , parece que encontraremos aquele sorriso  aberto e largo na quebra da próxima esquina. E a  ausência se faz insidiosamente, como um caruncho que nos vai , lentamente, roendo as fibras da nossa alma.  A saudade, no entanto, esmaece um pouco quando vemos diante de nós um outro irmão que sofre, uma injustiça que precisa de luta para ser corrigida,  uma caridade que necessita transformar-se, urgentemente, em justiça social.  Marinila, como por encanto, chega então com o seu sorriso e sua meiguice de outrora, junta-se a nós no Amor sagrado, na comunhão universal do eterno Bem.

Crato, 16/04/15     

                                         

Um professor vocacionado!!!
Profissional que era, quando tudo que fazia era com amor e dedicação. Nossa Escola se orgulha de receber o seu nome e zelar por ele eternamente.

quarta-feira, 15 de abril de 2015

O BRASIL EM MOMENTO CRÍTICO - José do Vale Pinheiro Feitosa

Se fosse apenas uma ficção seria fácil o enredo. Mas é realidade. Dura. Dividida. De classes. Com preconceitos raciais, sociais, econômicos, comportamentais e religiosos. E que se sustenta em classes hereditárias que controlam os meios de comunicação, bancos, comércio, indústria e financiam os governos e por tabela controlam o Estado.

Assim um sujeito da classe média tradicional que foi privilegiado pelos anos de Ditadura e de algum modo alvo do modelo de desenvolvimento industrial e, agora, com a globalização se encontra numa situação de stress absoluto. Por duas percepções objetivas e por insuflação externa com razões geopolíticas.

As duas percepções provocam pavor pelas perdas de privilégios e os ameaçam ainda mais no futuro. Entre estes privilégios se encontram o da perda da mão-de-obra barata que servia à residência e aos serviços de lazer. A outra foi a ampliação do crédito “encarecendo” a vida do “empregado” agora consumindo gás butano, luz elétrica, linha branca e outros eletrônicos.

A classe média tradicional de repente viu suas reservas de consumo serem invadidas pelo “outro” em ambientes tais como aeroportos, shoppings, restaurantes, clubes, balneários e assim por diante. De algum modo, precariamente ou não, as classes menos favorecidas têm a educação pública e a saúde pública. Mas a classe média tradicional paga do bolso o plano de saúde e educação dos filhos e ainda tem a sensação de ser a única pagadora de impostos, em razão do imposto de renda com seus ajustes individuais.

Os pobres pagam relativamente mais impostos que estão embutidos em seu consumo básico, mas quem tem a percepção do desembolso é a classe média tradicional. E tem outro agravante de classe: os trabalhadores das grandes empresas recebem planos de saúde na negociação salarial e isso deixa os pagadores individuais mais revoltados ainda. Acontece que Plano de Saúde é sustentado pelos chamados Planos Coletivos (ou Planos Empresa) e não gostam de planos individuais. Aí a classe média tradicional sente-se mais desamparada ainda.

Existe uma contradição no país: seguimos o modelo inglês (com sistema de saúde e educação efetivamente universal) ou o modelo americano (com base em planos de saúde e ensino pago)? Um modelo com base em direito social e outro baseado num bem de consumo, como se educação e saúde fossem apenas consumo. Aqui coexistem e disputam espaço político os dois modelos. Os governos do PT não superaram esta contradição e o problema está posto.

As manifestações de rua de agora e aquelas de 2013 refletem este indefinido mundo. Qual rumo integralmente seguiremos? Não é possível adotar os dois modelos ao mesmo tempo pois a geração de contradições é a regra. Medos, invejas, revolta, sentimento de rejeição e ódios acumulados irão caracterizar o nosso universo político. Por isso ouvimos frases nas manifestações de agora em que o mesmo sujeito fala mal de Cuba e diz que quer uma saúde e educação pública. Ele quer a opção socialista deste direito e não as leis de mercado mas seu discurso é esquizofrênico.

A outra coisa é que fica cada vez mais evidente a interferência americana na política da sociedade brasileira com a finalidade de se apropriar de seus desencontros para proveito do seu plano imperial. Quando Snowden denunciou o bisbilhotar das agências do governo americano no Brasil se referia à Petrobrás e ao BNDES, dois importantes instrumentos do desenvolvimento nacional.

A operação lava jato junta a sua ponta com a espionagem americana desovando segredos. E tudo fica mais evidente pelo ataque especulativo dos investidores americanos da Petrobrás querendo destruir a empresa, em associação com “agentes” políticos brasileiros de modo a se apropriarem do cadáver. As estratégias e táticas dos “abutres” são exaustivamente esclarecidas e reconhecidos na sua atual ação.

Agora os chineses, observando a “operação americana” chegaram em socorro da Petrobrás, frustrando todos aqueles na operação desestabilizadora promovida pela Folha de São Paulo, Globo, Estado de São Paulo, políticos tipo José Serra e a classe média tradicional desamparada em seu caminho ao futuro.

É preciso superar a dureza destas contradições trazendo para o conjunto da sociedade a mesma expectativa de direitos sociais, de projeto de nação e de inserção soberana internacional. Não tenhamos ilusões, uma coisa é a saída individualista que pode amar os EUA ou a Europa e por lá viver melhor que aqui e a outra é a saída nacional, onde temos que preservar e considerar que todo mundo defende os interesses de nação: alemães, americanos, chineses Etc.


Como, obviamente, nós.   

terça-feira, 14 de abril de 2015

TIVE SIM - José do Vale Pinheiro Feitosa

video

Claro que ouviram e conhecem este belíssimo samba de Cartola intitulado: "Tive Sim". Não compreendido como nossas histórias de muitas pessoas, vários amores, onde o momento da palavra sempre será o incomparável. Mesmo quando de fato é incomparável.

A curiosidade é que este samba foi composto e exposto ao público pela primeira vez entre maio e junho de 1968. Era a 1ª Bienal do Samba, promovido pela Record. Ali se reconhecia a fantástica safra de jovens compositores brasileiros ao mesmo tempo que salvaguardava a velha guarda na altura sem oportunidades.

Foram três eliminatórias e a decisão da colocação das finalistas. Para se compreender o universo dos participantes, entre compositores e intérpretes estiveram Chico Buarque, Edu Lobo, Cartola, Aracy de Almeida, Sidney Muller, Moreira da Silva, Adoniran Barbosa, Demônios da Garoa, Baden Powell, João da Baiana, Clementina de Jesus, Jair Rodrigues, Elis Regina, Ataulfo Alves, Ciro Monteiro, Marília Medalha, Claudete Soares, Agnaldo Rayol, Jorge Goulart, Oswaldo Nunes, Paulinho da Viola e por aí foi.

Imaginem o privilégio dos paulistanos com um elenco como este por oferta em noites memoráveis. Agora vamos ao resultado final acontecido no dia 1º de junho de 1968.

Quem ganhou a Bienal foi a música Lapinha, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro, interpretada por Elis Regina. Quase não foi inscrita pois naquela altura Paulo César Pinheiro era desconhecido e muito jovem. Baden Powell disse que se retiraria da Bienal e tiveram que aceitar. Inclusive Lapinha foi controvertida por um jornalista que disse ser a composição uma peça do folclore baiano.

O segundo lugar foi “Bom Tempo” de Chico Buarque de Holanda e defendida pelo próprio (Um marinheiro me contou/Que a boa brisa lhe contou/ Que vem aí bom tempo...). O terceiro lugar foi para “Pressentimento” de Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho, defendido por Marília Medalha (ai! Ardido peito / Quem irá entender o teu segredo?...). O quarto lugar foi para “Canto Chorado” de Billy Blanco defendido por Jair Rodrigues (No jogo se perde ou se ganha / Caminho que leva/ Que traz.....).

Bem, logo a seguir falaremos do quinto lugar para “Tive Sim”. Antes vem o sexto lugar que foi para “Coisas do Mundo, Minha Nega” de Paulinho da Viola interpretado por Jair Rodrigues (Hoje eu vim minha nega / Como venho quando posso...). O destaque para esta canção é a leveza da melodia e um dos mais bem acabado poemas para um amor.


E “Tive Sim” de Cartola e cantada por Ciro Monteiro conquistou o quinto lugar diante de uma estrondosa vaia. Uma vaia própria de tempos agudizado em contradições, como foi 1968, onde as paixões afloram acima de qualquer referência. Onde a torcida prevalece sobre o debate e construção do melhor para todos. Assim como a direita brasileira, tocada pela grande mídia e o ódio dos privilegiados age em palavras e atos.
Vou colar do mesmo modo que encontrei num blog este texto de Albert Einstein traduzido do inglês tecendo considerações sobre as origens e o métodos para combater o fascismo. Considero que vem a propósito das manifestações conservadoras que democraticamente se expressam nas ruas das grandes cidades. Aliás manifestações bem diferentes das ocorridas na Europa submetida a programas de austeridade governamental. E tão diferentes que permitem setores se infiltrarem a pedir ditadura, golpes e truculência. 

Sei que os conservadores de natureza democrática não concordam com a ditadura que no primeiro ato proibiriam tais manifestações. A não ser que sejam a favor do ditador de plantão. Confesso que a vantagem desta postagem é ter sido escrita por uma unanimidade da categoria de gênio no século XX. Neste momento da "SOCIEDADE PERFORMÁTICA" nada como um texto de alta personalidade para aluir o zinabre de alguns espíritos empedernidos que acreditam na liberdade de conquista individual por sobre a derrota da maioria.

Por Albert Einstein
O New York Times convidou-me a exprimir-me brevemente sobre o perigo fascista. Em resposta a esse convite envio as linhas que se seguem. Pretendendo ser breve, exprimir-me-ia de um modo categórico e dogmático que poderia dar uma impressão de imodéstia. Pedirei, portanto, aos leitores o favor de serem indulgentes para com a forma das minhas considerações e de não se interessarem senão pelo seu conteúdo.
Quase toda a gente neste país considera o regime e o modo de vida fascistas um mal contra o qual nos devemos defender por todos os meios disponíveis. É reconfortante ver os espíritos concordarem nesse ponto. Mas uma tal unanimidade não existe nem acerca da natureza desse perigo nem sobre os meios a mobilizar para o afastar. Exprimirei o meu ponto de vista sobra este assunto nas linhas que se seguem.

Eu tive oportunidade de observar a propagação da epidemia na Alemanha. Não é sem dificuldades nem reticências que o homem renuncia às suas liberdades e aos seus direitos. Mas basta que um povo se veja, em grande parte, confrontado com uma situação insuportável para que se torne incapaz de um julgamento são e se deixe abusar voluntariamente por falsos profetas. "Desemprego" é a palavra terrível que designa essa situação. Também o recear do desemprego é igualmente lancinante.

A ausência constante de segurança económica engendra uma tensão que as pessoas são incapazes de suportar a longo termo. Essa situação será ali pior do que aqui porque, num país fortemente povoado e dispondo de recursos naturais extremamente limitados, as flutuações económicas fazem-se sentir com ainda maior dureza.

Existe também aqui uma situação semelhante; o progresso tecnológico e a centralização da produção provocaram um desemprego crónico e uma parte muito considerável da população em idade de trabalhar luta em vão para se integrar no processo económico. Sobreveio desde então que tanto aqui como lá os demagogos encontraram algum sucesso provisório mas, graças à existência neste país de uma mais forte e mais avançada tradição política, eles não duraram muito tempo.

Estou convencido de que só medidas eficazes contra o desemprego e a insegurança económica do indivíduo poderão realmente afastar o perigo fascista. Por certo é necessário contrariar a propaganda fascista levada a cabo do exterior. Mas é preciso abandonar a ideia errónea e perigosa de que alcançaremos o fim do perigo fascista através de medidas puramente políticas. Tudo se passa, pelo contrário, como quando existe uma ameaça de contágio pela tuberculose. É certamente bom que existam medidas de higiene impeditivas logo que entremos em contacto com os germes da doença, mas uma boa alimentação é ainda mais importante, dado que ela reforça as defesas naturais do indivíduo contra a infecção.

Todos os que se interessam pela salvaguarda dos direitos cívicos neste pais devem, por conseguinte, estar disponíveis também a procurar de forma sincera uma solução para o problema do desemprego, tal como devem prestar-se aos sacrifícios necessários para a alcançar. É preciso então perguntar se não é justificado sacrificar uma parte da liberdade económica se isso permitir em contrapartida garantir a segurança do indivíduo e da comunidade política. Não é preciso considerar estas questões de um ponto de vista sectário, pois trata-se de nos defendermos contra um perigo que a todos diz respeito [1] .

O desempregado não sofre somente por estar privado de bens de primeira necessidade. Ele sente-se ainda excluído da comunidade humana. Ele vê recusada a possibilidade de colaborar no bem-estar geral; não goza de nenhuma consideração, sendo mesmo percebido como um fardo. É absolutamente natural que ele tenha o sentimento de que nós procedemos incorrectamente perante ele e que, procurando desembaraçar-se por si mesmo, tenha pouco a pouco recorrido a meios ilegais, a actos criminosos.

Mas, se um dentre eles consegue mesmo assim encontrar um emprego, após um período mais ou menos longo de desemprego, ele não é mesmo assim um homem livre, porque é inevitável que receie encontrar-se, em breve, de novo no desemprego. Esse estado de tensão bem real dos que têm um emprego, junto ao desemprego bem real daqueles que perderam o seu, torna as pessoas amargas. Na busca de uma saída, eles concedem sem discernimento a sua confiança ao primeiro que chegue a prometer-lhes uma melhoria da sua situação. É aí que reside o perigo político do desemprego. O perigo de ver o desemprego ameaçar a democracia é particularmente elevado quando são jovens aqueles que devem suportar essas amargas decepções; eles preferem não importa que combate à resignação e a sua falta de experiência torna-os cegos aos perigos e aos riscos que comporta uma acção irreflectida.

É interessante constatar a que grau a atitude dos homens face ao trabalho se modificou ao longo do tempo. Quando Adão foi punido, escutou: "Ganharás o teu pão com o suor do teu rosto" [2] . O trabalho foi-lhe imposto como castigo e foi por isso considerado como uma maldição. O castigo do Adão moderno é o de ser desocupado e privado do seu trabalho. Aquele que tem um trabalho suscita a inveja. Se considerarmos o progresso económico da humanidade deste ponto de vista lá se acaba essa bela altivez tanto dá a impressão de termos, ao longo dos séculos, evoluído.

O desemprego é particularmente cruel em período de crise económica. Muitas pessoas têm por isso tendência a crer que uma vez ultrapassadas as crises, o desemprego tenderá também a desaparecer. Isto parece-me, no entanto, incorrecto. Mesmo em períodos de prosperity [3] , o desemprego é significativo. É por isso que penso que podemos, sem riscos de errarmos, abstrair-nos do fenómeno das flutuações quando reflectimos nas causas do desemprego.

Parece-me que a maneira mais convincente de elucidarmos a questão será recorrer a um modelo simplificado ao extremo. Imaginemos uma ilha isolada do resto do mundo, na qual a terra possui um rendimento suficiente para nutrir os seus 300 habitantes. Supondo que existem 100 campos nessa ilha e que 100 habitantes possuem um campo cada um, com a condição de que todos os cultivem produz-se mesmo à justa para sustentar os trezentos habitantes.

Para que todo este sistema funcione de maneira satisfatória aqui está o que deve passar-se: cada camponês cultiva o seu campo com dois empregados, a quem paga para o ajudarem. Com o seu salário estes compram aquilo de que têm necessidade para viver. Deste modo, tudo está em ordem.

É então que um dos camponeses inventa uma ferramenta de trabalho particularmente eficaz que lhe permite obter do seu campo o rendimento habitual com a ajuda de um só empregado. Resultado: temos um desempregado e um camponês para o qual o lucro é mais importante que aqueles seus colegas, porque este último pode vender os seus produtos mais baratos dado que tem que desembolsar menos em salários.

A satisfação é de curta duração. Ele faz, de facto, aos outros camponeses uma concorrência desmesurada. Estes vêem-se, deste modo, constrangidos a utilizar por seu turno a nova ferramenta que ele inventou, o que lhes permitirá também obter doravante com um só empregado o mesmo rendimento do costume.

Mas algo de grave se passou entretanto. Cem homens são forçados ao desemprego e os camponeses não mais chegam a desfazer-se de um terço da sua colheita, tanto mais que não existe mercado exterior. Produzir do mesmo modo de futuro não tem mais sentido algum. Não existe "procura" correspondente àquilo de que cem homens têm necessidade para viver. Pode-se, entretanto, produzir quanto muito um pouco mais que dois terços da quantidade normal a fim de evitar que os 100 desempregados morram de fome e se revoltem.

Eis que vejo os meus sensatos leitores torcerem o nariz de desdém e dizerem que nada percebo de economia. Esses cem desempregados, pensam, acabarão na realidade por descobrir na sua miséria um meio de fazer frutificar o seu trabalho utilmente e de receber em troca dinheiro e pão. Eles poderão, por exemplo, tornar-se cabeleireiros, actores, enfermeiros, etc., e dessa forma suavizar a vida da comunidade. Eis o que é perfeitamente verdadeiro. Mas que este processo não logra, contudo, compensar o facto de que a necessidade de mão-de-obra baixou em virtude do aperfeiçoamento do processo, eu o vejo revelar-se na nossa economia de verdade e não neste exemplo um pouco simplista que escolhi para clarificar a ideia.

Voltemos ainda ao nosso exemplo! Os nossos trezentos insulares quebraram a cabeça para encontrar uma forma de se desenvencilharem do desemprego de modo a recriarem o seu paraíso perdido. Para começar, é evidente que um só camponês não pode contratar duas pessoas e dividir o tempo de trabalho por dois. Isto porque lhe seria necessário gastar tanto dinheiro com os salários destes dois empregados que se tornava impossível a ele sustentar a concorrência dos outros camponeses.

De facto, sozinho um camponês não pode resolver o problema! Mas, todos juntos poderiam consegui-lo, e eis o que eles determinaram: cada um deles contrataria duas pessoas a meio tempo, mas com salário completo. A bem dizer, não era indispensável exigir um salário normal, porque se as pessoas passassem a receber um salário reduzido a metade os preços dos cereais teriam forçosamente que baixar, eles também, para metade, e seria oportuno evitar este choc [4] no mundo dos negócios.

Se estas pessoas tivessem podido dispor, como nós, de um vocabulário erudito elas teriam qualificado essa solução de "economia planificada" no quadro de uma sociedade capitalista. No caso da nossa estrutura económica actual, que é eminentemente complexa, o problema é muito mais complicado; [ainda assim] ele não permanece [por isso], no essencial, menos o mesmo. Como as pessoas da nossa ilha estavam longe de serem tão instruídas quanto o somos hoje em dia, não se encontrará pessoa alguma para combater essa proposição sob o pretexto de que se trata aqui de um entrave ao direito do cidadão de agir livremente, tal como o está garantido pela constituição; e, por outro lado, à falta de um Supreme Cour [5] , uma tal diligência não teria, por assim dizer, nenhum sentido.

Indiquei, no que precede, o que é preciso, quanto a mim, procurar o único remédio contra o perigo fascista. Impormo-nos voluntariamente limites em favor de uma ordem cuja necessidade reconhecemos é na verdade, em geral, o meio mais eficaz para chegar ao mais alto grau possível de liberdade e de segurança, inclusive no domínio da política internacional.

Notas
1- No seu manuscrito, Einstein riscou vinte e quatro linhas, dentre as quais as seguinte: "Hoje em dia não há ninguém que negue que as concessões da França e da Inglaterra a Munique desenvolveram a arrogância e a agressividade [da Alemanha e da Itália]."
2- No Génesis, 3, 19.
3- A palavra, em inglês no original, é assim, ao mesmo tempo, uma alusão ao passado compreendido entre a Primeira Guerra Mundial e a crise de 1929, nos Estados Unidos da América.
4- Em francês no texto.
5- O Supremo Tribunal dos EUA.

[*] Artigo publicado no número especial (para a Feira internacional) do New York Herald, de 30/Abril/1939.   Einstein intitulou primeiramente a sua contribuição de "O perigo fascista e os meios de o combater".   Tradução de Bruno Monteiro.