por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



domingo, 30 de junho de 2013

Imoral, Predatório, Corrupto e Anti-Humano - José do Vale Pinheiro Feitosa

Eike Batista está quebrando. A frase não expressa a realidade: quem está quebrando são todas as pessoas que aplicaram seus capitais nos projetos de Eike. Projetos que estão indo para o fosso financeiro e junto com eles os capitais das pessoas que acreditaram neles ou não acreditaram mas os bancos onde depositaram suas reservas acreditaram.

Os derivativos deram água e os bancos faliram. Errado, além dos impostos de todos que salvarem os bancos da bancarrota, a poupança de muita gente foi para o ralo. Com ela a aposentadoria dos americanos e europeus, além dos empregos dos netos.

Um operador do mercado financeiro italiano teve uma grande sacada. Tornou-se padre e foi operar os seus “conhecimentos” na contabilidade analítica da Sé Apostólica e como membro destacado no instituto que administra o grande patrimônio imobiliário do Vaticano. Resultado a polícia acaba de prendê-lo como um grande lavador de dinheiro e como proprietários de imobiliárias e operador de negócios ilegais.

Indo do capitalista em busca de ampliar seus capitais, passando pelo mundo material das famílias em suas poupanças até o domínio físico do reino dos céus o jogo com os fundos financeiros é uma irracional atividade predatória. É como um depósito de queijo infestado por ratazanas. Não importam as ratoeiras, o roedor sempre estará subtraindo materialidade ao queijo.

Os depósitos desde o início da revolução agrícola sempre foram alvo de comensais de todas as espécies. Por incrível que pareça é o mesmo com a coisa mais subjetiva que existe a que todos chamam dinheiro. Que aliás podia até ser alvos de traças e cupim, mas agora no meio eletrônico é pura virtualidade.  

Trocou-se o projeto da ação coletiva e contínua, por cifras que externamente determinam esta ação. Ao invés do convencimento e da vontade extraída do trabalho (que é a ação) criaram-se mecanismo de poder para extrair deste trabalho uma parcela virtual sobre a forma de capital e assim determinar o comportamento geral de todos. Ao se tornar um poder determinante do trabalho, transformou a espontaneidade e alegria em obrigatoriedade e sofrimento. Fez do trabalho uma danação.

Este é o ciclo imoral, corrupto, predatório, anti-humano que atuar sobre a história neste momento e a ele por sua natureza cumulativa, privada e concentradora chama-se capitalismo. Não é um demônio, não é um ícone, é apenas a forma de organização da produção que existe nesta fase e que todos precisam analisar para melhor compreender e superar.  



sábado, 29 de junho de 2013

Abaixo reproduzo postagem do jornalista Mário Magalhães em seu blog. Pensava em escreve algo sobre esta contradição, porém o Mário diz tudo. Pensara pois se estamos numa onda de justiça, anti-corrupção e pelo despertar da política a ação da polícia na Favela da Maré aqui no Rio e a de São Paulo para desalojar moradores de um terreno invadido estariam no mesmo escopo das chamadas revoltas do acordar do país. Apenas que o discurso da grande mídia é pura manipulação a favor do lado que ela representa. Se você é de classe média e acha que tudo isso que acontece com os pobres é apenas a ordem, comece a contar o minutos da violência que o atingirá ali na esquina e na elevação dos muros e da grana para proteger o inseguro mundo em que vives.

E se os mortos da Maré fossem no Leblon?

Foi nesta semana, mas, a considerar o noticiário, parece que ocorreu no século retrasado: depois de um sargento do Bope ser morto por traficantes, a PM invadiu uma favela do complexo da Maré, aqui no Rio, e matou nove pessoas. Duas não tinham antecedentes criminais, como um garoto de 16 anos. O governo prometeu investigar as circunstâncias.
Se os dois mortos sem vinculação comprovada com a bandidagem fossem moradores do Leblon, será que a cobertura jornalística teria se extinguido tão rápido?
Será que as autoridades e o jornalismo falariam em “excessos”, como agora, ou em possíveis “crimes”?
Quantos editoriais não haveria nos jornais, nas TVs, nas rádios e na internet?
Quantos bambambãs já não estariam alardeando a existência de um “Estado policial” no Brasil?
Informados pelos meios de comunicação, quantos milhares de estudantes não promoveriam greves exigindo o esclarecimento dos fatos?
Quantas senhoras não lançariam campanhas com o mote “Podia ser seu filho”?
E as passeatas, não seriam talvez maiores do que as que tomaram as ruas na semana passada?
Quantas denúncias de extermínio haveria por minuto?
Seriam publicadas reportagens falando em um “menor” morto, como li, ou ele teria nome, idade, sua história contada?
Quanto tempo demoraria para que tudo fosse esquecido, sobretudo a cobrança por apuração?
Mas o garoto era da Maré, e não do Leblon.





Por Everardo Norões

  1. Em tempos de futebol, a tradução de um e-mail que me foi enviado pelo poeta Hildebrando Pérez Grande:

    Recebi, ontem, este e-mail de Hildebrando Pèrez Grande, poeta peruano, nosso amigo. E corintiano. Traduzo:

    “Querido poeta, há alguns anos, lá pelos anos 80, conversava com uma amiga, esposa de um bom narrador peruano dos anos 40: José Diez Canseco, autor de romances e contos, cujos personagens eram marginais tanto das classes mais altas, quanto das mais humildes. Um bom narrador. Ela me contou esta história que nos pinta o real e maravilhoso que somos.
    Eles tinham duas filhas primorosas e, uma delas, Carmen Rosa, era muita minha amiga; casada, com três filhos, e o menor, José, de uns dez anos, amante de futebol e da equipe daqueles anos. Certo domingo, na sobremesa, José surpreendeu sua avó quando ela lhe perguntou o que ele gostaria de ser quando fosse grande. O futebolista em promessa disse, sem hesitar: Quero ser como Sócrates.
    A avó, após derramar umas lágrimas de emoção e de recordar o marido já morto, disse ao neto: Pois bem, José, terás a chave da Biblioteca de teu avô, lembra que era muito valiosa essa biblioteca, nela poderás preparar-te muito bem para tua carreira de filosofia.
    Que filosofia, disse o neto. E a avó respondeu, mas como, se acabas de me dizer que queres ser como Sócrates. E o neto: Não preciso de biblioteca, mas de um campo onde possa treinar todos os dias depois do colégio. Obviamente, a avozinha não sabia que havia um jogador que era uma estrela que muitos admiravam, entre eles José e eu.
    Saúde, contigo e com Sonia, e com Sócrates, não o grego, o brasileiro."

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Tributino Cover



Calixto Tributino retornou a Matozinho já velho , com a cara parecendo um papiro da III Dinastia. Saíra ainda menino, perambulara pelo mundo,  e terminou por se fixar em Codó no Maranhão,  onde fez a vida e de lá trouxe histórias para colorir a opacidade da sua velhice. Ainda rapazote,  metera-se com roubo de gado em Matozinho -- coisa de adolescente, diz-se hoje, mas que naquelas brenhas considerava-se crime inafiançável, no mínimo apenado com tiro de trabuco no toitiço. Por isso mesmo,  os pais de Calixto anteciparam sua arribação inevitável. Ele partiu com passagem apenas de ida e, como bom sertanejo,  não mais deu notícia. Parte de uma récua infindável de filhos, quebrada a casca do ovo, o matuto percebe que é hora de alçar vôo: vira  uma página desta vida que não tem marcha ré.  Todo adeus, afinal, carrega consigo aquele gosto de nunca mais. Quando Tributino resolveu retornar,  já tinha o ninho sido desfeito, os pais e irmãos haviam obedecido ao inevitável chamado da velha da foiçona. Ali encontrou poucos amigos da sua geração. Não trazia no matulão muitos recursos, apenas um dinheirinho da venda da casa em Codó que usou para comprar uma outra em Matozinho,  e uma aposentadoria minguada do FUNRURAL.
                                   Ninguém nunca compreendeu bem porque Tributino voltara. Toda uma existência plantada em Codó, onde, certamente, devia ter mais amigos sobreviventes que em Matozinho, alguns filhos residindo por lá e outros espalhados mundo afora, esperava-se que seu outono no Maranhão fosse menos rigoroso do que na sua cidade natal. O retorno ,possivelmente, teria alguma relação com sua fuga e sua folha corrida na adolescência. Calixto , homem de bom coração , deve ter carregado eternamente consigo aquela mácula, aquele sentimento de culpa. O filho pródigo voltara para se redimir : não sou nada daquilo que vocês estão pensando!  Aposentado, para espairecer e não ficar numa cadeira de balanço, de butuca esperando a morte, Calixto meteu-se a marchante de bode. Abatia uns cabritinhos nos fins de semana e saía vendendo a carne, numa burrinha, rua afora. Acompanhava-o Fantico, um cachorrinho pé-duro, amigo inseparável e que chegara com ele na viagem de volta.  A profissão não se mostrava das mais glamorosas e,  claro , sem muitas vitórias para se vangloriar, derrotado em quase todas as batalhas que empreendera,   teve que criar um personagem, uma espécie de Tributino Cover,  um ser quase mitológico  impregnado de poderes mil: uma espécie de Ulisses Matozense. Dia a dia, entre uma rodinha e outra nas calçadas, debulhava suas peripécias em terras maranhenses. E eram muitas e muitas estripulias para um super-herói só.
                                   Nosso personagem dizia-se trabalhador incansável. No maranhão trabalhava no roçado o dia todo e, não bastasse isso, mandara fazer um candeeiro de cinco bicos  que instalara com uma alça de flandes  na cabeça, possibilitando-o, com a iluminação,  trabalhar na lavoura também à noite. Um dia, contou ao Coronel Serapião Garrido que as roças de Matozinho eram muito pequenas. Lá em Codó , num roçado pequeno, ele situara dez cuias de gergelim. O Coronel fez um cálculo rápido das covas necessárias para se colocar a quantidade imensa das pequenas sementes de gergelim que perfaziam as dez cuias e , sem arrodeios,   desconfiou da empreitada.
                                   --- Você deve estar enganado, Calixto! Não pode ter sido dez cuias não! Eita lapa de roça danada ! Se fosse, você teria vindo plantando do lá e passava por aqui ainda semeando...
                                   De pouco estudo, Calixto procurava  alguém para ditar as cartas que enviava aos filhos. Apesar da pouca instrução , gostava de ser pomposo nas suas missivas, não interessando muito a mensagem a ser enviada. Queria, no fundo, impressionar  os circunstantes e eram comuns os períodos truncados , a dubiedade de algumas frases, o emprego atravessado de algumas palavras.
                                   --- Escreva aí Giba !   
                                   “Caro Laurentino,
                                   Relativamente, com relação à bausa do procuro do comerço, ponto. Os atavios, os loro e os talabardão das cangaia tão mais destiolado que os pau de sebo das quermesse de Padre Arcelino, benza-te-Deus, quanto mais, principalmente, vírgula...”
                                   Matuto olhava aquele discurso de queixo caído:
                                          --- “Vôte ! Esse Tributino devia ser era adevogado”!
                                   Como sempre, Calixto tendia a levar suas estripulias para o ramo da caça e da pesca. No item pesca, os peixes maranhenses , segundo nosso marchante, ganhavam do pirarucu em tamanho. Calixto abria os braços nas narrativas para dar uma idéia apenas do tamanho da cabeça das traíras que desenovelava dos landuás de lá que mais pareciam empanadas de circo. Um dia, quando começou contar uma dessas pescarias, o soldado severo estava no meio da platéia. Avançou, calmamente, e colocou algemas nos punhos de Calixto, na tentativa de evitar a medida desmesurada do peixe que viria com a abertura dos braços logo a seguir. O pescador algemado não perdeu o fio da história, quando chegou nos finalmentes : “Era um peixão desse, desse... as mãos atadas impediam-no de apontar o tamanho. Ele então, usou um artifício. Fechou os dois polegares junto com os dois indicadores, fazendo duas rodas grandes e completou:
                                   --- Ói o tamanho dos ói do bicho !
                                   Na seção caça,  Tiburtino dizia sempre que Fantico, seu companheiro de caçadas, tornara-se um verdadeiro exterminador de onças pintadas no Maranhão. Saiam à noite, soltava o cachorro e rapidamente o pé-duro fazia alarde: acuava uma onça , ela temerosa subia em alguma árvore, ele vinha, apontava a soca-soca, era a espoleta cortar e a bicha cair baleada. Aí, Fantico pulava em cima e estraçalhava o felino. Ficara conhecido o cachorrinho por lá, pela sua valentia, já carregava no cartel mais de duzentas maracajás trituradas pelos seus dentes.  Calixto enjeitara dinheiro muito nele, chamavam-no naquelas brenhas  de “Traça Onça”, afirmava o caçador impávido e orgulhoso.  As proezas de Fantico eram difíceis de ser testadas, uma vez que as onças quase não mais existiam por ali. Uma ou outra fora notificada na Serra da Jurumenha, comentava-se que a caça predatória tinha praticamente exterminado a espécie . Nosso caçador, no entanto, afirmava, de cátedra ,que a escassez devia-se ao medo de Fantico. A fama do cão se espalhara em toda a região e as bichas fizeram bunda de ema !
                                   Um dia, soube-se de uma novidade na cidade. Um caçador armara uma armadilha e pegara duas onças : uma preta e outra pintada. Colocou as duas em jaulas e trouxe a Matozinho, como um zoológico particular. Alugou um puxado da Bodega de Giba , cobriu a porta com uma empanada e ficou lá, cobrando ingresso para quem quisesse ver. O velho Serapião Garrido soube da novidade antes de Calixto e resolveu pôr a limpo a veracidade das astúcias de Fantico. Esperou o caçador na entrada da cidade e convidou-o  para  uma surpresa. Tirbutino segui-o curioso. Fantico , como sempre, veio atrás, no rastro de dono. A bodega de Giba ficava do outro lado da praça da matriz, confrontando a Igreja . O sacro e o profano em vis-à-vis. Serapião e Triburtino cruzaram a praça. Só , então, perceberam que Fantico havia empacado no meio : orelhas empinadas, ventas dilatadas e olhos assustados. O faro privilegiado já o havia alertado do perigo iminente. Serapião pediu , então, a Calixto para estumar o cachorro. O caçador estralou os dedos, assoviou, chamou : “nego, nego, nego...” e nada ! Fantico, olhos esbugalhados,  permanecia imóvel. Garrido quis saber porque Fantico andava tão sem apetite. Continuaram, pagaram os ingressos e entraram. As duas onças , enormes, lá estavam, com aquele cheiro forte de felino e dentes e rosnados  ameaçadores. Serapião deu um passo atrás e observou , ao longe, Fantico que não tirava os olhos deles. O coronel, então, balançou a empanada de repente. Fantico esturrou! Quase não conseguiu, a princípio,  fazer a largada porque deslizou no próprio mijo, saiu, rua abaixo, juntando perna com cabeça. Nunca mais se soube dele. Calixto ficou meio triste, mas não perdeu a pose:
                                   --- Deve ter voltado para o Maranhão! Decepcionou-se com esses gatinhos aqui de Matozinho! Deve ter dito : Taqui, ó ! Eu mijo é prá vocês !

J. Flávio Vieira

Mais Perigosos e Cruéis - José do Vale Pinheiro Feitosa

Os maiores constrangimentos dos EUA nos últimos quatro anos surgiram dentro do que o velho General Eisenhower chamou de Complexo Industrial Militar. Uma nefasta aliança que consume recursos do tesouro do país numa eterna necessidade de inventar guerra para manter os lucros. Evidente que isso é apenas uma peça bem encaixada na máquina imperial dos EUA no domínio de mercados e saques de riquezas pelo mundo todo.

E os constrangimentos estão surgindo com ares libertários, de defesa essencialmente de valores subjetivos de ordem moral, social e política. E foi assim que surgiram “heróis” mundiais que se tornaram “traidores” do império nos termos das leis dos EUA. Primeiro Bradley Manning que pode pegar prisão perpetua e praticamente deu conteúdo ao Wikileaks, depois foi Edward Snowden e agora a segunda maior patente militar dos EUA General James Cartwright já agora reformado.

Aliás o General em escala menor. Ele, igualmente aos outros, vazou informações ditas secretas: o desenvolvimento e implantação de um vírus de internet Struxnet que atacou mil das seis mil centrifugadoras do programa nuclear Iraniano. O vírus fora desenvolvimento pelo alto-escalão da inteligência americana em colaboração com os israelenses que de modo independente dos EUA sabotou (terrorismo) o Irã além de que o vírus surgiu em vários países do Oriente Médio e no Leste Europeu.

Foi aberto um processo investigativo contra o General e não ficou claro os motivos pelos quais ele vazou a informação. Provavelmente agastado com uma certa “traição” israelense que causou constrangimento aos EUA e a ele próprio junto ao governo. O General era um dos principais assessores de segurança do presidente Obama.

A verdade é que com o Snowden e Cartwright fica cada dia mais complicado os EUA se mostraram ao mundo em roupa de cordeiro a denunciar os mal feitos dos outros.


E tem uma fato subjetivo e emocional essencial: quando os próprios membros de um povo denunciam os problemas com a condução da política externa isso demonstra uma decadência e um andar que pode levar a um descontrole progressivo. Não apenas desse tipo, mas de outros mais perigosos e cruéis.   

Um "pequeno grande gesto" - José Nilton Mariano Saraiva

Como o Brasil é o “país do futebol”, nos dias atuais a atenção da torcida verde-amarela tem sido a Copa das Confederações, com a seleção brasileira já classificada para a partida final contra a Espanha.
Por conta disso, quase ninguém atentou que já há alguns dias teve início a Liga Mundial de Vôlei masculino, com jogos em diferentes países. A seleção nacional, bastante renovada pelo “garimpeiro” técnico Bernardinho (que optou por dispensar os excelentes medalhões Giba, Gustavo, Serginho, Marcelo e demais), vai bem obrigada, porquanto venceu a Polônia duas vezes e a Argentina idem, lá na casa deles.
Em sua estréia aqui no Brasil, hoje, contra a França, quase que fraqueja, depois de alguns momentos de instabilidade, mas, alfim, venceu por 3 x 2 (amanhã tem mais).
No entanto, o que marcou a partida foi algo inusitado: tal qual já acontecera com a seleção de futebol, quando da execução do hino nacional brasileiro jogadores e torcida “desrespeitaram” acintosamente aqueles segundos padrões determinados pelo protocolo da federação internacional respectiva e fizeram questão de “esticar” a cantoria até pelo menos aquela primeira metade dos versos.
E aí a grata surpresa flagrada pelas câmeras, algo verdadeiramente atípico: dentre os grandalhões jogadores da França, perfilados respeitosamente, um deles, baixinho, o número 5, “ajudava” os jogadores brasileiros, entoando a plenos pulmões, emocionado, o hino do Brasil. Só depois o locutor global colocou os pingos nos is: tratava-se do levantador Rafael, jogador brasileiro com nacionalidade francesa, que fazia questão de demonstrar, ali, todo o seu orgulho de ser brasileiro.

Sem dúvida, um pequeno grande gesto.

Quase... - José Nilton Mariano Saraiva

Pois é, quase entregamos o ouro ao bandido. Sem jogar nada (de novo), beneficiando-se de um gol de “canela” (outra vez) e sofrendo uma pressão terrível ao final do jogo (novamente), a seleção de futebol do Brasil conseguiu passar pelo sofrível time dos velhinhos do Uruguai, com o gol salvador já na fase crepuscular do jogo. Sem contar que o ancião Forlan houvera perdido um pênalti no começo da partida que, se convertido, certamente nos complicaria mais ainda. Destaque (negativo) para as “pixotadas” da nossa zaga: o estabanado David Luiz cometeu um pênalti infantil sobre o outro ancião uruguaio (Lugano), enquanto que o Tiago Silva deu de bandeja o gol de empate ao desprezar a velha máxima “bola pro mato que o jogo é de campeonato”, preferindo sair jogando dentro da área com toquinho comprometedor.
Como de praxe, o queridinho da mídia esportiva nacional (Neymar) não fez nada de produtivo, tanto que para poder aparecer apelou pra palhaçada, ao mandar “beijinhos” para o marcador adversário, quando aquele saia de campo substituído.
Como não comungamos com a teoria de que “o importante é ganhar, não importa como”, vamos torcer (muito) para que o nosso time se encontre e resolva jogar bola na partida final. Partida final que será disputada no Maracanã, Rio de Janeiro, contra a Espanha que, “parada” pela eficientíssima marcação da Itália, só conseguiu classificar-se através da cobrança de penalidades máximas, após desgastantes 120 minutos de um jogo em que por alguns momentos chegou a ser dominada pelo adversário.
Sorte nossa, pois, que vamos pegar o time da Espanha bastante cansado e reclamando uma barbaridade do calor sufocante (para eles) aqui dos trópicos. Claro que temos sobejas condições de ganhar, bastando, desde o começo, adiantar a marcação em todas as linhas e obstar o refinado toque de bola do adversário na saída do jogo (como o fez a Itália). E como os zagueiros espanhóis, os grandões Piquê e Sergio Ramos, são lentos e deficientes no jogo por baixo, jogar em cima deles, em velocidade, pode ser o “mapa da mina” (torçamos pra que o tal do Neymar não trema ou queira ser gentil com os futuros companheiros do Barcelona).
Há que se considerar, ainda, que embora composta de jogadores experientes, a Espanha deverá sentir, sim, os nervos, ao adentrar num Maracanã repleto de torcedores a hurrarem a plenos pulmões o refrão “Brasil, Brasil, Brasil”.

Deve ser um bom jogo e com um adendo estimulador: o mundo todo estará de olho.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

O CIÚME - José do Vale Pinheiro Feitosa

Nos final dos anos 60 as marchas continuavam encantado a MPB, as versões de músicas estrangeiras inundavam nossas rádios (depois perderam o pudor e passaram a dominar no original) e foi quando Caetano estourou com sua música tropicália. Juntando tudo isso uma dupla de cantores típica da Jovem Guarda, chamada Deny e Dino chupou o arranjo da Tropicália e ao sabor do tipo do Eu te amo meu Brasil gravaram esta canção chamada O Ciúme.

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Para contribuir com a breguice de então e d´agora segue um discurso sobre o mesmo tema:

Desprezo maior que o desprezo,
A pupila opaca da indiferença
E aquele canto de olhar ao diferente,
Eis o ciúme.

Gelosia, jaloezie, jealousy,
Jalousie, gelosia, em catalão,
Alemão, inglês, francês ou italiano,
Do mesmo que Celos em espanhol,
O ciúme em português é ponta de punhal.

Mais do que apenas o medo da perda,
É a permanente iminência do perdido,
É o zelo com o fluido que some pelos dedos
A insuficiência pelas demandas do outro
O teu amor em busca de um novo ícone.

Se uma prova havia de tanto amor,
O ciúme que irrompe na alma,
Que apena cada ciclo da respiração
Corta em cacos de vidros a face dos pés,
Que até então rompia léguas pelo encontro,
Faz descer tempestades de dúvidas sobre a existência,
É a prova terminal da eternidade esgaçada.

E se em português entendes ser outra palavra,
Engana-te pois é a mesma que sentiam os romanos,
Se tanta gelosia do italiano a assemelhar-se a outras línguas   
O ciúme português originou-se igualmente daquele zalus latino,
Daquela ameaça amorosa, daquele desejo incontrolável de conter o outro.

Eis que os ciúmes corroem o coração,
Na mesma infiltração que vai até o mais íntimo,
Que inunda todo o conteúdo subterrâneo da mente,
E pinta com cores tinta de sangue os olhos inseguros,
Aquela ventania que inevitável apagará a chama frágil do amor,
Pois o ciúme é o mesmo que zelumen um derivado do latim zalus.

Eis que o nosso zelo tem a mesma origem grega,
Que expressava o ardor, emulação, ódio,
E então os latinos deram-lhe o formato de zalus,
Que é o nosso arrasador ciúme no mesmo diapasão,
Na mesma linha incomensurável do encontro,
Doar-se, abraçar-se, reproduzir, tornar-se sedentário,
Entrar sob o abrigo de um teto e a proteção de paredes.

O edifício erguido pelo amor se faz com pedras de zelo
E a argamassa do ciúme. 

quarta-feira, 26 de junho de 2013

A Fala do Babaquara - José do Vale Pinheiro Feitosa

O debate político é como uma liturgia: é uma narrativa do mundo com a finalidade de elevar-se do rés do chão. É composto simultaneamente do húmus da terra e das chuvas do céu. É um regar o presente e o brotar o futuro. Aliás nem debate é: na verdade é a construção da história.

Este matraquear de pitbul; esta raiva de dar dentadas em bandeiras que afinal é um pano; o azedume que despeja argumento como uma diarreia incontrolável; aquele ar indignado para atacar o momento em defesa de um passado perdedor; este oportunismo de saber bater apenas para promover o nocaute. Estas coisas todas que ainda dançam de par com as mais defasadas, mentirosas e irreais informações não são política. Aliás, são o mero interesse de que tudo fique e nada mude. Prenda o inimigo para soltar os amigos. Condene o frágil para absorver os fortes.

Todos querem uma melhor saúde e educação. O que mais escuto em certos segmentos da classe média é que a educação no Brasil é um lixo, o SUS uma desgraça, que as políticas de Estado não existem. Para esta microcefalia congênita o dinheiro do mensalão daria para salvar todas as pessoas e permitir a elas encherem os shoppings do mundo e se empanturrarem de pipoca e Coca-Cola. Coca-Cola, Coca-Cola isso faz um bem (uma homenagem aos mais velhos).

Quando escuto certos argumentos não sei se rio, se choro ou dou uma chupeta para o bebê chorão. Aí vem um babão ou um nenê a repetir páginas e páginas do amarelão da indigência intelectual a dizer que o SUS é engodo. E o mantra faz a cabeça das redes sociais e a classe média que paga planos de saúde caros repete a ladainha. Só que para esta gente este Brasilzão de milhões de quilômetros quadrados, a metade do continente sul-americano, é apenas ocupado por eles, o restante das pessoas não existem.

Pois bem os planos de saúde que cobrem ambulatório e hospitais atingem apenas 43 milhões de pessoas, mas a realidade mostra que o mundo é maior: somos 193 milhões de brasileiros. Ô Mané adivinha onde estão atendidos os outros 153 milhões de brasileiros. Explique como a mortalidade infantil caiu como um tobogã (eita imagem antiga), as doenças infecciosas despencaram, o país esteve entre os pioneiros a eliminar inúmeras doenças infecciosas imuno-preveníveis. Adivinha gente boa onde se encontram as vacinas universais, a vigilância epidemiológica e sanitária. Vossa ignorância já leu alguma relatório sobre os números da produção do SUS (exames, internações e consultas) ou sobre o quase 130 bilhões de reais gastos em saúde no setor público? Os milhões de empregos, especialmente municipais, espalhados por todo o Brasil.

Vamos parar com a lenga-lenga e partir para o seguinte ponto: construímos uma coisa fenomenal e uma das maiores instituições de saúde do mundo e podemos tirar melhor proveito dela. Vamos apostar nela, empurrar sua qualidade, seu acesso, sua melhor distribuição. Abandonemos a empulhação e partamos para a conquista que muitas gerações levaram de sacrifício e agora ainda tem que receber esta sandice alienada.

Ia usar o termo que considero de gosto duvidoso: babaca. Fui ao dicionários e a acepção do termo é: ingênuo, simplório, babaquara. Bem para o povo do meu querido Ceará o termo Babaquara até que faz um enorme sentido ao nos relembrar o texto O Babaquara escrito por Antonio Salles desancando a oligarquia atrasada de Nogueira Acioly. Pois é essa a natureza de certas análises que se fazem sobre a educação no Brasil.

O povo Brasileiro por seus educadores, por sua história de educação, pelo nascimento do ensino público, pelos modelos de escola que experimentou, por políticos como Brizola, Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira, pela Constituinte de 88 e por governos como os de Fernando Henrique (de quem me oponho em convicção ideológica) e de Lula constroem um país e uma educação das mais amplas do mundo. E não pense que estou brincando com eventuais ignorâncias.   

A BBC (aquela inglesa que tem uma edição brasileira) revela o seguinte: o investimento com educação no Brasil passou de 3,5% para 5,6% do PIB brasileiro entre 2000 e 2010. Os padrões de investimento em educação neste Brasil - neste mesmo viu gente - alcançaram a média dos países da Comunidade Econômica Europeia. São 34 países da OCDE e a maioria é de países desenvolvidos incluindo algumas meninas dos olhos dos adjetivados anteriormente: México e Chile.

Considerando a parcela do PIB aplicada em educação (o PIB é a nossa anualidade na economia capitalista): o Brasil aplica maior parcela em educação do que a Áustria, comparável à França e à Grã-Bretanha e eita lasqueira de uma banda a outra: superior aos EUA (com 5,1% do PIB). E tem alguma coisa que incomodará mais ainda o pensamento dos babaquaras: a Argentina aplica um pouco mais que o Brasil, mas o México do novos liberais e o Chile do sonho Pinochetista da livre economia ainda menos (3,9%). Resultado, ali encostado no primeiro lugar que é a Argentina o Brasil vem logo a seguir em segundo lugar na América Latina.

Na quantidade do investimento aplicamos mais em nível superior do que na educação básica em termos comparativos com outros países, mas isso não compromete a qualidade geral do nosso investimento e aponta o caminho de nossas soluções. Segundo o relatório da OCDE: na última década o Brasil melhorou sensivelmente o desempenho dos seus alunos; os recursos federais foram aplicados mais em estados pobres de modo a equipará-los em investimento aos estados ricos (política redistributiva); ampliou a qualificação do professorado, criou índices nacionais de desenvolvimento da educação básica.

Mas para os babaquaras que se informaram com aquelas piadinhas das respostas dos alunos durante o vestibular vai aqui uma informação central: o Brasil avançou em uma década 16 pontos no quesito compreensão escrita, 15 pontos em ciências e 30 em matemática dentro do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA). Eis uma coisa que não seria bom os babaquaras entenderem pois isso é a morte desta minoria que se imaginava o “crème de la crème”.

Então eis o motivo pelo qual o Impostômetro, a Prisão dos Mensaleiros, as Páginas Amarelas da Veja, os editoriais dos jornalões além do furibundo horror neoconservador a Cuba e a Hugo Chávez tanto salta da língua bífida do discurso babaquara. Para risco de todos a luta nas ruas vai no sentido de se ter 10% do PIB em educação (superior ao padrão do países nórdicos) e a elevação do investimento em saúde.

Para finalizar este que já reconheço ser um longo texto: ouvindo uma rádio de Paracuru lá estava uma garota revoltada com a morte do avô de 88 anos de idade numa Santa Casa conveniada ao SUS. Ela se queixava do atendimento e da arrogância do atendimento. E foi quando lá pelas tantas ela se deu ares de snobismo: o meu avô não precisava do SUS não. Ele tinha plano de saúde. Aí vem o más que não é um simples más e é o tudo: os planos de saúde não têm serviços em Paracuru para aquele atendimento. Não tem em Paracuru como não tem no Brasil profundo. Plano de Saúde, como todos sabemos, é para o pessoal do sudeste e um pouco do sul, custa caro e só descentraliza meios quando tem muita grana para lucrar. O resto é o impostômetro.



    

Tá devendo - José Nilton Mariano Saraiva

Honestamente, apesar do ufanismo pra lá de exacerbado da imprensa esportiva tupiniquim, não dá pra engolir a rasgação de seda, o oba-oba desmedido, o festival de asneiras que nos querem empurrar goela abaixo, no tocante à seleção brasileira de futebol.
Por exemplo, no jogo com o México, uma seleção sofrível e que encontra dificuldades até pra classificar-se prá próxima Copa do Mundo (tá atrás dos Estados Unidos e Costa Rica), ganhamos com dois gols de “canela” (é só consultar o vídeo), um no começo do jogo e o outro já nos acréscimos, depois de levarmos uma pressão danada em todo o segundo tempo; com a Itália, a rivalidade tratou de acirrar os ânimos, daí a correria desenfreada e o jogo bruto, e findamos ganhando por 4 x 2 com a graciosa ajuda da arbitragem da partida, porquanto dois gols em impedimento (Dante e Fred) e um outro resultante de uma falta que não existiu (Neymar).
Daqui a pouco vamos pegar os “velhotes” do Uruguai (Forlan, Lugano, Maxi Pereira e outros menos votados) e a tendência é que vençamos de goleada e o tal do Neymar pinte e borde (para gáudio dos seus fãs) ante a inexistente defesa adversária (aliás, já está passando da hora dos integrantes da mídia esportiva brasileira pautar a Copa do Mundo de 1950 como prova de que o Uruguai merece respeito; acabemos com essa babaquice jurássica).
Em sendo assim, o pragmatismo da FIFA tende a impor-se, com Brasil e Espanha (deverá vencer a Itália) disputando a grande final, no próximo domingo. E aí, diante de um Maracanã lotado, e com o time (apesar das limitações) entusiasmado por ter chegado até ali, a defesa espanhola (apesar de toda a experiência) tende a claudicar e se adiantarmos todas as linhas e exercermos uma marcação rigorosa, arrebataremos o caneco.

Agora, duro vai ter que agüentarmos as manchetes do dia seguinte...     

terça-feira, 25 de junho de 2013


O "histórico" da Globo - José Nilton Mariano Saraiva

Para os que não conhecem ou simplesmente teimam em ignorar o “histórico” da Rede Globo, aí está o Editorial do jornal “O Globo”, do dia 02 de abril de 1964 (há 49 anos, portanto), apoiando a Ditadura Militar. Depois disso, o Roberto Marinho (dono) foi agraciado pelos generais com canais de TVs, que até hoje são usados (agora pelos herdeiros) de forma a atender as conveniências de quem chegava ao poder. Mas, de repente, surgiu um tal de Lula no caminho e contrariou interesses poderosos, daí a campanha difamatória contra ele e, agora, Dilma.
Reflitam e tentem entender a “razão” da TV Globo ter estuprado sua própria grade (programação) a fim de passar cerca de cinco horas ininterruptas incitando a população contra a presidenta Dilma Rousseff. Se isso não foi tentativa de “golpe”, procurem outra denominação mais apropriada.

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EDITORIAL
“Ressurge a Democracia”
Vive a Nação dias gloriosos. Porque souberam unir-se todos os patriotas, independentemente de vinculações políticas, simpatias ou opinião sobre problemas isolados, para salvar o que é essencial: a democracia, a lei e a ordem. Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições.
Como dizíamos, no editorial de anteontem, a legalidade não poderia ser a garantia da subversão, a escora dos agitadores, o anteparo da desordem. Em nome da legalidade, não seria legítimo admitir o assassínio das instituições, como se vinha fazendo, diante da Nação horrorizada.
Agora, o Congresso dará o remédio constitucional à situação existente, para que o País continue sua marcha em direção a seu grande destino, sem que os direitos individuais sejam afetados, sem que as liberdades públicas desapareçam, sem que o poder do Estado volte a ser usado em favor da desordem, da indisciplina e de tudo aquilo que nos estava a levar à anarquia e ao comunismo.
Poderemos, desde hoje, encarar o futuro confiantemente, certos, enfim, de que todos os nossos problemas terão soluções, pois os negócios públicos não mais serão geridos com má-fé, demagogia e insensatez.
Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares, que os protegeram de seus inimigos. Devemos felicitar-nos porque as Forças Armadas, fiéis ao dispositivo constitucional que as obriga a defender a Pátria e a garantir os poderes constitucionais, a lei e a ordem, não confundiram a sua relevante missão com a servil obediência ao Chefe de apenas um daqueles poderes, o Executivo.
As Forças Armadas, diz o Art. 176 da Carta Magna, “são instituições permanentes, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade do Presidente da República E DENTRO DOS LIMITES DA LEI.”
No momento em que o Sr. João Goulart ignorou a hierarquia e desprezou a disciplina de um dos ramos das Forças Armadas, a Marinha de Guerra, saiu dos limites da lei, perdendo, conseqüentemente, o direito a ser considerado como um símbolo da legalidade, assim como as condições indispensáveis à Chefia da Nação e ao Comando das corporações militares. Sua presença e suas palavras na reunião realizada no Automóvel Clube, vincularam-no, definitivamente, aos adversários da democracia e da lei.
Atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal.
Este não foi um movimento partidário. Dele participaram todos os setores conscientes da vida política brasileira, pois a ninguém escapava o significado das manobras presidenciais. Aliaram-se os mais ilustres líderes políticos, os mais respeitados Governadores, com o mesmo intuito redentor que animou as Forças Armadas. Era a sorte da democracia no Brasil que estava em jogo.
A esses líderes civis devemos, igualmente, externar a gratidão de nosso povo. Mas, por isto que nacional, na mais ampla acepção da palavra, o movimento vitorioso não pertence a ninguém. É da Pátria, do Povo e do Regime. Não foi contra qualquer reivindicação popular, contra qualquer idéia que, enquadrada dentro dos princípios constitucionais, objetive o bem do povo e o progresso do País.

Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. Confiamos em que o Congresso votará, rapidamente, as medidas reclamadas para que se inicie no Brasil uma época de justiça e harmonia social. Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor.”

Beirando ao "anarquismo" - José Nilton Mariano Saraiva

Como até um índio de uma dessas tribos fincadas na mais recôndita área do “Alto Xingu” deve saber, o poder de influência de uma televisão é, indiscutivelmente, algo sério e determinante, porquanto tanto pode alavancar como destruir reputações, eleger um desconhecido ou acabar com o político tradicional que se julgue inatingível, catapultar do anonimato um desconhecido qualquer elevando-o aos píncaros da glória e por aí vai.
Pois bem, depois de tudo o que assistimos nos últimos dias, não há como não desconfiar que, quando uma emissora de televisão do porte da Rede Globo (uma concessão governamental, lembremo-nos), que cobre todo o território nacional, detém a liderança da audiência e onde 30 segundos de inserção comercial custam os “olhos da cara” optou por renunciar a tal receita (suprimindo a veiculação de qualquer propaganda por cerca de quatro/cinco horas ininterruptamente, contemplando inclusive o seu horário nobre) e, valendo-se de todo o seu exército de correspondentes dedicou-se a um único tema (as manifestações, em todo o país), provavelmente buscava atingir a mais sórdida das intenções: um levante popular de peso objetivando estimular um “golpe” contra um governo democraticamente eleito. Ou não foi isso que acompanhamos durante os últimos dias quando da eclosão do movimento paredista que, iniciado em São Paulo e após a entrada em campo “full time” da Rede Globo espraiou-se como um rastilho de pólvora por todo o Brasil, de norte a sul, leste e oeste ???
E aqui cabe uma ressalva: claro que o objetivo primeiro do movimento paredista (barrar o aumento abusivo no transporte coletivo) foi e é perfeitamente justificável, assim como ficou evidente que faltou jogo de cintura às “autoridades competentes” (de São Paulo) que pisaram feio na bola e, conseqüentemente, devem ser responsabilizadas pelo acirramento dos ânimos, ao procrastinarem uma decisão que, ao fim, acabaram por ter de tomar: o recuo do aumento nos preços das passagens de ônibus, trem e metrô.
Pois, foi justamente no vácuo propiciado pela irresponsável demora em decidir, que o movimento paredista engrossou, houve a entrada de oportunistas e irresponsáveis novos atores em cena, pautas outras foram agendadas às pressas e, enfim, se deflagrou o caos, a balbúrdia e por muito pouco beiramos o anarquismo.
É oportuno ressaltar que, apesar dos notáveis avanços, principalmente na área social, obtidos desde o primeiro governo Lula até os dias atuais (reconhecidos aqui e lá fora), em sã consciência ninguém pode concordar com determinadas coisas e situações que aí estão postas, e que figuras abjetas e desprezíveis da estirpe de um Sarney, Renan, Agripino e outros se achem na posição que ocupam; só que não podemos esquecer terem sido ungidos pela vontade soberana do povo e, portanto, temos de suportá-los até que uma ampla reforma política seja providenciada.
E aqui (mesmo que “por tabela”), chegamos ao mérito maior de tal movimento paredista: forçar a que se desfralde a bandeira de uma mudança radical no nosso sistema político, com a inclusão de dispositivos que permitiam ao próprio povo “destronar” aqueles que, postos no trono por ele (povo), não correspondam à expectativa depositada; assim, através de uma espécie de “recall” político, tal medida seria imediatamente efetivada e os “reprovados” dispensados, de pronto. Só que aí teríamos que contar com a boa vontade dos próprios congressistas (votariam contra seus próprios interesses ???), a fim de emendarem a Constituição Federal e/ou convocarem uma Assembléia Constituinte para tratar a respeito.

Não é de estranhar, pois, que a presidenta Dilma Rousseff, que vivenciou tal quadro em sua juventude e conhecedora de onde poderia desaguar tal movimento, não se tenha deixado levar pela “corda” que lhe foi dada pelos próprios manifestantes (reagir de forma impulsiva e violenta) se antecipou e, pacientemente, além de elogiar e reconhecer a legitimidade das manifestações, de par com medidas pontuais (considerar a corrupção um crime hediondo, por exemplo) tomou a iniciativa de sugerir a adoção de um plebiscito popular visando aprovar tal dispositivo (Constituinte exclusiva). Deixou claro, ainda, Sua Excelência, que os excessos a partir de então terão que ser coibidos, porquanto soa injustificável a depredação do patrimônio público, bem como o impedimento do ir e vir das pessoas.