por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



domingo, 30 de setembro de 2012

Lili Marlene - José do Vale Pinheiro


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Estão aí a versão da Marlene Dietrich e uma das versões brasileiras


Em julho 1914, durante a crise do liberalismo econômico e uma vez esgotada a fórmula da belle époque, a guerra abriu a fenda sobre o solo da Europa. Começava ali uma das maiores carnificinas já vistas entre seres humanos. A guerra das trincheiras em que generais e marechais filhos diletos da velha oligarquia e da nova burguesia europeia torravam a vida de jovens deixando um vazio demográfico jamais recuperado pela Europa.

Em 1915 Hans Leip, um professor de Hamburgo é convocado para o matadouro da juventude. O Exército Imperial Alemão indicava-lhe a lama, a pulga, a gangrena, a fome e o destroço das bombas nas trincheiras. Hans Leip preserva sua humanidade escrevendo um poemas para duas mulheres: sua namorada e sua amiga, configurando uma junção chamada Lili Marleen.

Em 1937 já nos espantos do Nazismo e de outra onda de carnificina o poema é publicado com o nome de “A Canção de Um Jovem Soldado em Watch” com a adição de dois novos versos aos três já existentes. Em 1938 Norbert Schultzer escreve uma canção perfeita para o tom lastimoso do poema.
A guerra espalhou-se sepultando jovens em valas comuns, arrasando os campos, consumindo os meios de subsistência das populações, destruindo as fábricas e estradas e deixando uma vasta fome entre todos. A guerra era ao mesmo tempo o mito imbecil da glória pela pátria e a insanidade destrutiva onde tudo deveria ser vida.

Em 1939 uma cantora alemã, de pouco sucesso, com a necessidade de sobreviver numa Alemanha irregular, grava a canção para o esquema de propaganda nazista. Era o improvável: uma canção doce para um momento marcial. Enquanto o panteão da simbologia nazista não admitia outra coisa que não o espírito guerreiro, retilíneo e duro, uma doçura tomou conta das fileiras.

A Rádio Belgrado das forças nazistas, que transmitia músicas, propaganda do regime e notícias para os soldados alemãs, na falta de coisa melhor tocou o obscuro disco com a canção Lili Marleen na voz de Lale Andersen. O Marechal Rommel com o pulso do sentimento dos seus soldados nas areias quentes da batalha dos desertos, gosta da música e pede para repeti-la com frequência. 

Os soldados queriam mais vida do que morte e a melancolia era um borralho em sua alma. E foi nesse clima que a canção se tornou o grande hits nas trincheiras. E por incrível que pudesse parecer naquele ambiente de confronto e ódios: foi o sucesso entre todos os soldados em guerra. Em todas as línguas, mesmo que não sabendo a tradução da letra em alemão, a canção era tão perfeita para a letra que todos entenderam.

Os americanos rapidamente fizeram uma versão para os seus soldados e gravaram com Marlene Dietrich, uma alemã que abdicara de seu país em favor dos EUA. O sucesso mundial da Dama Dietrich foi superior ao original de Lale Andersen. Mas história não ficou aí: existem versões em Francês, Russo, Italiano, Espanhol, Húngaro, Estoniano, Português entre tantos outros. Aqui na minha coleção tenho mais de 30 versões da canção.

Os brasileiros fizeram duas versões, ambas militarizadas e feitas para os soldados nos campos de guerra da Itália. Uma das versões segue abaixo.  O poema original em alemão é assim:  

Vor der Kaserne vor dem grossen Tor 

Stand eine Laterne, und steht sie noch davor, 
Wollen wir uns da wiedersehen 
Bei der Laterne wollen wir stehen, 
Wie einst Lili Marleen, wie einst Lili Marleen.

Unsre beide Schatten sahn wie einer aus 
Dass wir so lieb uns hatten, das sah man gleich daraus 
Und alle Leute solln es sehn, 
Wenn wir bei der Laterne stehn, 
Wie einst Lili Marleen, wie einst Lili Marleen.

Schon rief der Posten: Sie blasen Zapfenstreich 
Es kann drei Tage kosten! Kam'rad, ich komm ja gleich. 
Da sagten wir auf Wiedersehn. 
Wie gerne wöllt ich mit dir gehn, 
Mit dir Lili Marleen, mit dir Lili Marleen.

Deine Schritte kennt sie,deinen schönen Gang, 
Alle Abend brennt sie,doch mich vergaß sie lang. 
Und sollte mir ein Leid geschehn 
Wer wird bei der Laterne stehen? 
Mit dir, Lili Marleen.

Aus dem stillen Raume, aus der Erde Grund 
Hebt mich wie im Traume dein verliebter Mund. 
Wenn sich die spaeten Nebel drehn, 
Werd' ich bei der Laterne stehn 
Wie einst Lili Marleen, wie einst Lili Marleen



 (Português)
Em frente ao quartel, diante do portão 

Existe uma lanterna e ainda está em frente 
Queremos vê-la outra vez

Sob a lanterna nos reencontrar 

Como outrora, Lili Marlene!

Como outrora, Lili Marlene!


Nossas duas sombras, qual uma só 
Que o amor era, você veria é igual 
E tudo é o que povo pode ver 
Se ficarmos junto à lanterna 
Como outrora, Lili Marlene!

Como outrora, Lili Marlene!


Gritou o sentinela, para nos avisar 
Pode custar três dias!

Camarada eu ainda sou o mesmo 

Como dissemos adeus 

Como gostaria de estar contigo
Com você, Lili Marlene!
Com você Lili Marlene!



Ela sabe que o seus passos, seu agradável caminhar,
Durante toda a noite a espera, mas há muito me esqueceu,

E se me acontecer algum mal, 
Quem estará sob a lanterna? 
Com você Lili Marlene!

Com você Lili Marlene!


Da minha existência tranquila, a partir deste solo, 
Assim teu lábios levanta-me como num sonho. 
Quando se demore o redemoinho de névoa,

Devo ficar sob esta lanterna
Como outrora, Lili Marlene!
Como outrora, Lili Marlene!


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Versão original da Lale Andersen