por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



domingo, 23 de novembro de 2014

ANDANDO PELAS RUAS E O NOVO MINISTÉRIO DE DILMA ROUSSEF - José do Vale Pinheiro Feitosa

Andando pelas ruas. Desta imensa teia humana. Idosos cambaleantes pelas irregulares e estreitas calçadas. Crianças sonolentas com a marcada mochila às costas. Uma jovem, de cabelos louríssimos (naturais ou artificiais), masca, nervosamente, a borracha do chiclete, epilepticamente com o dedo indicador sobre a tela touch do palmtop.

O chiclete e a tela somam a alienação do mundo que imediatamente a cerca. À frente um jovem adulto, em roupa social, lentamente vai ao compromisso de trabalho, passos do preguiçoso despertar, cabelos rarefeitos no topo da cabeça, anda com a mão esquerda enfiada no bolso da calça e o outro braço fazendo o movimento auxiliar do caminhar.

A teia humana não é apenas um espaço urbano. É a trama do organizar-se para ser no mundo. É o papel carbono que primeiro gera uma cópia, se multiplica como mimeógrafo, uma gráfica, uma xerox e a viralização das redes sociais. Como outro jovem, de abundante cabeleira, tão plena que a repartição do penteado não fica ao lado, mas bem para o centro da cabeça. Anda acelerado, em roupa social, com a mão esquerda enfiada no bolso da calça e outro braço fazendo o movimento auxiliar do caminhar.    

E pronto! A agricultura nacional foi entregue à Kátia Abreu. Deu um nó no MST, nos eleitores de Aécio e em todos os admiradores ufanistas do nosso agrobusiness. Sonham com a morte cruel da agricultura familiar e com o incêndio de todos os acampamentos do MST. Os fabulosos latifúndios produtores de commodities terão seus interesses garantidos. Não igualmente à era escravagista da cana, tabaco e café, mas algo parecido, muito parecido.

Não agora. Na próxima semana. A equipe econômica anunciada. O capitalismo estará salvo. Personagens comensais da elite do dinheiro estarão sobre o comando da fazenda nacional, do planejamento estratégico e do banco central. Todos os lobbies para fazer “a” ou “b” agora se calam e se sujeitarão às forças “indicadoras” dos seus prepostos. Acrescente-se um Ministério da Saúde que se estreitará ainda mais com o “mercado” do Planos Privados de Saúde, uma educação superior com o PROUNI, saídas para fundir-se na mesma lógica fiscal o público e o privado.

E temos o escândalo da Petrobrás que vai mexer em dóis ícones da sociedade nacional: a mídia e as empreiteiras. A sequência de escândalos é o atendimento de reinvindicações estrangeiras para que o mercado se abra para empresas destes setores. Com todo mundo sendo pego no flagrante da mamata no Tesouro agora é que os “interesses nacionais” receberão de fato a concorrência internacional. Aliás a TV a Cabo já está dando conta do recado. O inglês domina os programas infantis. Até personagens com o nome de ROSE são escandidos num forçado sotaque.

 Assim o PT afinal chega aos termos da modernidade capitalista. Real. Tendo que atender à demanda de uma sociedade cada vez mais sofisticada. Com expectativas mais elevadas. Seguindo o modelo de outras sociedades que já chegaram por lá. E agora vamos gozar as benesses do tempo prometido e jamais cumprido, que é viver plenamente os sabores de um capitalismo avançado.

E avançado de tal maneira que logo mostrará o contraditório de seu espírito animal. Da busca incessante pelo lucro e acumulação. Onde os direitos trabalhistas estarão sob ataque. Pela terra feita de uma realidade afinal pronta e acabada, onde ilusões não serão mais cabíveis, onde o futuro não estará lá para nos entreter. Estaremos todos vivendo às margens do “Muro de Berlim” aquele que separa com pedras e armas a divisão entre pobres e ricos.

A realidade do capitalismo, afinal pronta, é a senha teórica da luta política pela superação do muro, para a luta pelo socialismo. E pensar que tanta gente, achava que votar na Dilma e não em Aécio, também era uma aposta do avançar, ao invés dos acordões da velha sociedade brasileira. Acontece que o reacionário brasileiro sempre teve esta característica anticapitalista. Armínio Fraga, que Aécio embandeirou, não passa da velha elite privilegiada, que precisa aplicar seus capitais em rentáveis negócios, anticapitalismo financista.  

Afluentes e efluentes do grande e estagnado lago do latifúndio, do emprego estatal, do clero patrimonialista, das forças armadas, da exploração infinita dos pobres e de uma tradição fortemente atrelada à memória escravagista, os reacionários têm horror à evolução capitalista. Isso não é contraditório, nem apenas brasileiro, toda a América Latina, setores atrasados nos grandes centros capitalistas, na África e na Ásia. É a luta entre o século XIX e o século XXI. Aliás certas bandeiras e argumentos são tão arcaicos que lembram a idade média com sua monocracia coroada.

E ao falar de anacronismo, não se tenha por certo uma ação política absolutamente irracional. Este reacionarismo brasileiro sabe pegar as mais avançadas bandeiras do capitalismo para consolidar a grossa capa oxidada de sua realidade. O liberalismo é uma teoria capitalista da primeira ordem. Uma dinâmica em que tudo seria virtuoso (sabemos que não) no mais avançado que se pensou para esta. No entanto, o neoliberalismo é mais anticapitalista das práticas reacionárias. Com ela os privilégios se tornam inamovíveis. Eternidade é o desejo de toda doutrina em processo de mortalidade.

Vejam agora as bandeiras neofacistas pelas ruas das capitais. Agora o neoliberalismo brasileiro, “aeciano”, “fernandohenriquiano”, do além, muito além de tenebrosas negociações, não pode mais se travestir de luta capitalista. Não precisa o PT, o PSB e tantos tributários mais, já o fazem com mais vigor e mais senso de oportunidade. Resta agora, a “face negra” deste neoliberalismo adotando a bandeira do privilégio de classe com as capas das revistas Veja e “outras mumunhas mais”, do mais atrasado que o atraso paulista já conseguiu formular em matéria de pensamento.

Por isso tudo, Dilma e o PT prometem o capitalismo pleno. É a vez dele. Com suas virtuosidades inclusivas até os limites impostos pela acumulação. E como esta acumulação que cria o “Muro de Berlim”, já está em curso, agora é o início da formulação de suas contradições e superação de suas incapacidades. A grande materialidade da luta pela solidariedade humana, pela racionalidade evolutiva, pelo progresso redistributivo, pelo socialismo. 


  

Você é Linda! - José do Vale Pinheiro Feitosa

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Em qual hélice do meu cromossoma, teu hálito se alojou feito um vírus? Que se reproduz a cada vez que os dias nascem como o novo.

Pergunto por que o dourado nascente é a cor que diz eternidade até sangrar de saudade de ti, no entardecer deste eterno renovar-se. E, serenamente, sentindo a brisa de Paracuru, com as notas das marés, chamando pelo brilho das primeiras estrelas.

Você é linda. Não por apenas ser este raio do amanhecer. É por todas as constelações desta infinidade que supera o design do meu consumo conspícuo. É linda além de muito bela. Além dos limites. Amada.

E se os olhos não constam, teus odores amanhecem o prazer. Os ouvidos despertam com os sentidos de te escutar. As pontas dos dedos incendeiam tramas infinitas ao toque de tua pele.  

E nas praias desertas. Plenas de toda a universalidade, a paralaxe zero entre o sol e o teu corpo. Tudo é equilíbrio, harmonia, unidade na identidade inseparável deste momento em que sou, apenas, a parte observadora.

Tudo é tão claro. Tão limpo. Tão dourado infiltrado de azul. De nuvens garças, que flutuam como acréscimos de uma inspiração agradável, de todo o conteúdo das estrelas, dos céus, do mar e da terra.


Suavemente. Lentamente. Como se nunca houvesse termo. Fim. Saudade. 

Casa de Caboclo - José do Vale Pinheiro Feitosa

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Sabe aquele abandono? Perdido no ermo de toda a nossa história? De séculos rurais que fizeram os dias até as horas de ontem? Havia um canto, uma poesia, uma pintura.  

Havia a viola. A valsinha brasileira. A modinha. A trama de terras, de paixões e traições. Do perdido na imensidão dos sertões, entre serranias e vales, entre veredas e matas fechadas.

Havia um quê de brasileiro. Mesmo cruel e afastado de todas as luzes que se acendiam nas terras europeias. Mas é que as luzes se acendiam pelos braços que aqui plantavam, que aqui transportavam. A Europa se acendia e o entardecer escurecia na varanda com cheirinho de cambucá.

Um caminho e tua casa de caboclo, no quintal o sabiá roubava o dom da ninfa eco. A mata era a caixa de ressonância da vida e de todos os mistérios. Nesta casa o desejo era como qualquer desenho de nossa cena.

No entanto, todos os desejos eram colimados num único raio. Das poucas almas dispersas naquele vasto mundo. Sem muitas opções, todas as opções se multiplicam numa só alma. Num só corpo.

Era ela e não mais ninguém. Na casa de caboclo, a única esperança do futuro em apenas um nome. Tão substantivo como as serras, o luar, a passarada, a corrida da seriema no capinzal daquelas terras altas tão distantes do terreiro de casa.

Da janela onde dois corpos se amavam aos olhares amargurados daquele desgraçado ausente. E naquele olhar se fez um hiato, onde antes fora um ditongo. Uma lâmina perfurante assentando duas cruzes entrelaçadas. 
  
As cruzes da vida rural e da modinha sertaneja.