por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A Rama de Jerimum na Grota do Riacho do Meio - José do Vale Pinheiro Feitosa

Nas nove horas o sol já funga como o sopro da fornalha. O chão desta terra nordestina é o espelho da luz. Espelha tanta energia que arde como a trempe do fogão a lenha.

- Vó?

- Ôi meu fiii! – a cada sílaba os tufos de fumaça falava com a paisagem levando a mensagem do cachimbo.

- Eu tô cum vontade de ir lá na grota perto do riacho do mei e apanhar uns jerimuns caboclo que esperei dar no ponto.

- Vá meu fii! Vá! Dá tempo....

- Eu vou trazer todos eles. Tô com um vontade danada de comer jerimum.

- Traga meu fii! Traga eu vô cuzinha eles e nós come.

- Come Vó! Vô ino.

Se eu tivesse tempo ia mostrando todos os fragmentos que o mundo implantou dentro de mim. Mas são tantos fragmentos que nem sei de onde tirar. E quanto mais tiro mais os bichos aparecem. Assim como ouvir, pela primeira vez Nat King Cole, naqueles tempos que somavam as melodias de volta da gente, as mais ali, as acolá e até lá das lonjuras que nenhuma pisada conseguiria chegar. 

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Nat King Cole canta Mona Lisa feita para a trilha sonora de um filme da Paramount, composta por Ray Evans e Jay Livingston

Uma voz que se inveja matasse, eu já estava morto desde os idos dos anos sessenta do século XX. Ele também morreu em 15 de fevereiro de 1965. Uma vingança do tamanho da minha inveja: um câncer venceu sua garganta e a teia se espalhou pela voz e por toda a vida.

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Pretend gravada por Nat King Cole em 1952, composta por Lew Douglas, Cliff Parman e Frank Levere

Uma voz que honraria qualquer cultura. Qualquer família de bem. Mas Nat King Cole foi uma vítima contínua da discriminação racial. No Alabama, na cidade de Birminghan, ele foi derrubado no palco enquanto cantava Little Girl. Eram membros da North Alabama White Citizens.

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Little Girl - com letra do próprio Nat King Cole

 No tempo em que a Máfia mandava em Cuba junto com o ditador Fulgencio Batista, ele foi cantar, mas proibido de hospedar-se no Hotel Continental porque era negro. Comprou uma casa num subúrbio de Los Angeles, onde moravam brancos e de lá foi expulso.

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Ay Cosita Linda - do disco em que Nat King Cole cantava em Espanhol a música foi composta por Pacho Galan, músico colombiano

Nat King Cole mora na grota do Riacho do Meio e de vez em quando vou apanhar um jerimum por lá. 

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Além de descer até os povos de fala hispânica, Nat King Cole esteve entre nós, foi primeira página e alvo de reportagens da Revista O Cruzeiro. Até o presidente o recebeu.  
QUANDO É CONSIDERADO LEGÍTIMO DERRUBAR UM GOVERNO DEMOCRATICAMENTE ELEITO? 

EM WASHINGTON A RESPOSTA SEMPRE FOI SIMPLES: QUANDO O GOVERNO DOS ESTADOS UNIDOS DIZ QUE É.   


Mark Weisbrot – The Guardian

Vá para Cuba! Vá para a Coreia do Norte! Vá limpar banheiros! - José do Vale Pinheiro Feitosa

Resolvo falar de um ícone da canção portuguesa. Chama-se Fernando Tordo, tem 65 anos, viveu parte de sua vida sob a ditadura salazarista e outra na democracia. Sonhou um Portugal melhor para os filhos e os netos.


Vencedor de prêmios de festivais da RTP, Fernando foi gravado pela nata da canção portuguesa pós-ditadura como Dulce Pontes, Carlos do Carmo, Mariza, Carminho, Simone de Oliveira e muitos mais. Fernando fez belíssimas canções com o poeta José Carlos Ary dos Santos tais como Tourada, Estrela da Tarde, Lisboa Menina e Moça, O amigo que eu Canto e mais esta Balada para os nossos filhos, que poderemos ouvir abaixo na própria voz do compositor.

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Um Portugal melhor para os filhos e netos, Fernando Tordo viu sair pelo ralo com a crise que abala a Europa e Portugal em especial. Nos último ano vivia de uma aposentadoria de um pouco mais de duzentos euros (R$ 659,78) e, segundo seu filho o escritor João Tordo recebia uma pequena aposentadoria da Sociedade Portuguesa de Autores que dava para pagar a gasolina com a qual ia de cidade em cidade cantando suas músicas, ora com casa cheia, noutra mais ou menos e noutras vazias.
Fernando Tordo pegou uma avião e veio morar em Recife. Não conhecia bem o Brasil e o Brasil não conhece sua música admite o próprio filho escritor (que ele cita na música acima) numa carta que escreveu e publicou no jornal “Público” de Portugal. Mas veio e antes despediu-se no Facebook dos amigos e admiradores que ainda tem.

Fazendo as contas Fernando veio tentar uma nova e desconhecida vida aos 65 anos de vida.

No Face recebeu carinho e muitas pedradas no estilo que estamos lendo em revistas como Veja, a extrema insensibilidade humana tal qual aquela Australiana que disse que não iria se sujar ao se referir a uma manicure negra num salão de beleza de Brasília ou a tal Rachel do SBT apoiando a tortura de um menino de rua.

Para ilustrar estes tempos e intolerância anti-humana que é gerada nas redes sociais vou colar o próprio texto que se encontra na carta feita pelo João Tordo:

“Outros, contudo, mandaram-no para Cuba. Ou para a Coreia do Norte. Ou disseram que já devia ter emigrado há muito. Que só faz falta quem cá está. Chamam-lhe palavrões dos duros. Associam-no à política, de que se dissociou activamente há décadas (enquanto lá esteve contribuiu, à sua modesta maneira, com outros músicos, escritores, cineastas e artistas, para a libertação de um povo). E perguntaram o que iria fazer: limpar WC's e cozinhas? Usufruir da reforma dourada? Agarrar um "tacho" proporcionado pelos "amiguinhos"? Houve até um que, com ironia insuspeita, lhe pediu que "deixasse cá a reforma". Os duzentos e tal euros.

Esse tipo de discurso Fascista tem muito da intolerância a reinar a cabeça de muita gente. Por falar nisso um estudo americano recente feito numa amostragem bem calculada demonstrou que os ignorante desconhecem que o são e têm maior tendência para a arrogância. Claro que o ódio todo se deve às declarações de Fernando antes de embarcar de Lisboa ao Recife.

 “Ainda tenho muita coisa para fazer, muita música para escrever, muita canção para cantar, muita gente para conhecer, portanto é muito provável que aproveite estes últimos anos da minha vida porque não os quero consumir aqui, eu não quero. Não aceito esta gente, não aceito o que estão a fazer ao meu país” refere. “Não votei neles, não estou para ser governado por este bando de incompetentes”.
“O que é natural é que faça como foi aconselhado a muitos jovens mas também poderiam ter aconselhado a mim. Tenho 65 anos, quero-me ir embora, mas sem drama nenhum. Passou a ser insultuoso ao fim de 50 anos de carreira ter de procurar trabalho desta maneira, ter que viver quase precariamente. Não quero, não muito obrigado, vou-me embora. Mas satisfeito!”