por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



domingo, 28 de agosto de 2016

"CARTÓRIOS", PARA QUÊ ??? - José Nílton Mariano Saraiva


Na antiguidade, “cartórios de registro de imóveis” eram responsáveis por emitir documentos de fé pública, atestatórios da legalidade e da certeza de que qualquer mortal comum era, sim, proprietário legítimo de um dado imóvel, sobre o qual exerceria plenos poderes.

Assim, o ato de compra, venda ou simples aquiescência em ser fiador de alguém numa transação imobiliária de aluguel, só se realizaria ou validaria se o “cartório de registro de imóveis” emitisse o competente “registro” comprobatório da “propriedade” do referido bem.

Como, entretanto, vivemos outros tempos, onde um juizeco de primeira instância (Sérgio Moro) estupra diuturnamente a Constituição Federal, contando com a omissão e passividade criminosa do próprio Supremo Tribunal Federal, isso já não é possível (na verdade, o “ex-guardião” da nossa Carta Maior acoelhou-se, vergonhosamente abriu as pernas e se deixou usar; tanto que a “agenda” do STF quem determina é o Moro, o ritmo da dança é o Moro que impõe).

Assim, se você aí do outro lado da telinha acha é o “proprietário” do apartamento, casa ou sítio que adquiriu depois de “ralar” muito, de economizar trocados anos e anos até, finalmente, poder adquirir e quitar seu imóvel, é bom tirar o cavalinho da chuva; o juizeco Sérgio Moro e seus raivosos procuradorezinhos de Curitiba, pode muito bem decidir que não, que na realidade o “proprietário” é uma outra pessoa, que você talvez nem conheça (estamos TEMERosos, a respeito).

Em São Paulo, por exemplo, os senhores Fernando Bittar e Jonas Suassuna estão na iminência de perder um sítio adquirido anos atrás e devidamente registrado no cartório de registro de imóveis competente (e o “registro” de propriedade foi exibido publicamente), simplesmente porque o juiz Sérgio Moro “cismou” que o real dono é o ex-presidente Lula da Silva e sua mulher Marisa, que o frequentam com assiduidade, a convite dos donos. Ou seja, o documento emitido pelo cartório competente não tem nenhuma validade, é falso, irrelevante, não condiz com a realidade. O que vale é o que “pensa” Sérgio Moro, mesmo que não tenha nenhum documento sobre, a fim de comprovar suas ilações (bom lembrar, que o mesmo modus operandi foi usado para atribuir a propriedade de um apartamento na praia de Guarujá ao ex-presidente, embora não haja nenhum registro, a respeito e, agora, tenha surgido a proprietária do próprio).

Fato é que o golpe perpetrado por políticos corruptos e comprovadamente ladrões, visando destituir uma presidenta democraticamente eleita com quase 55 milhões de votos, contou com a inestimável e decisiva colaboração dos “togados” do Supremo Tribunal Federal, que desde o começo chancelaram as arbitrariedades patrocinadas por uma juizeco-partidário e que tem como objetivo maior inviabilizar a candidatura invencível de Lula da Silva, em 2018.

Agora, “dose” é você ter que aguentar um Aécio Neves (atolado até o pescoço nas falcatruas de Furnas e Petrobras), o Cássio “procrastinação” Cunha Lima (que foi cassado quando governador da Paraíba, por roubo), um Agripino Maia (também comprovadamente ladrão do erário), um Aloisio “300 mil” Nunes (que recebeu dinheiro do assalto à Petrobras), um Michel Temer (que atuou com desembaraço - $$$ - nas “docas” de Santos), um Ronaldo Caiado (acusado de manter empregados em regime de escravidão) e por aí afora, virem a público para atacar uma pessoa honrada como a presidenta Dilma Roussef.

Alfim, a constatação horripilante: “cartórios de registro de imóveis” hoje são desnecessários, já eram, não têm mais qualquer validade e não mais merecem fé pública. O que vale agora é o que o juiz Sérgio Moro pensa e determina (e tudo por culpa do Supremo Tribunal Federal).





sábado, 27 de agosto de 2016

É GOLPE

Editorial do Le Monde: ou é golpe ou é, no mínimo, uma farsa

Se esse não é um golpe de Estado, é no mínimo uma farsa. E as verdadeiras vítimas dessa tragicomédia política infelizmente são os brasileiros.”
Dilma Rousseff, a primeira presidente mulher do Brasil, está vivendo seus últimos dias no comando do Estado. Praticamente não há mais dúvidas sobre o resultado do julgamento de sua destituição, iniciado na quinta-feira (25) no Senado. A menos que aconteça uma reviravolta, a sucessora do adorado presidente Lula (2003-2010), que foi afastada do cargo em maio, será tirada definitivamente do poder no dia 30 ou 31 de agosto.
Dilma Rousseff cometeu erros políticos, econômicos e estratégicos. Mas sua expulsão, motivada por peripécias contábeis às quais ela recorreu bem como muitos outros presidentes, não ficará para a posteridade como um episódio glorioso da jovem democracia brasileira.
Para descrever o processo em andamento, seus partidários dizem que esse foi um “crime perfeito”. O impeachment, previsto pela Constituição brasileira, tem toda a roupagem da legitimidade. De fato, ninguém veio tirar Dilma Rousseff, reeleita em 2014, usando baionetas. A própria ex-guerrilheira usou de todos os recursos legais para se defender, em vão.
Impopular e desajeitada, Dilma Rousseff acredita estar sendo vítima de um “golpe de Estado” fomentado por seus adversários, pela mídia, e em especial pela rede Globo de televisão, que atende a uma elite econômica preocupada em preservar seus interesses supostamente ameaçados pela sede de igualitarismo de seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT).
Essa guerra de poder aconteceu tendo como pano de fundo uma revolta social. Após os “anos felizes” de prosperidade econômica, de avanços sociais e de recuo da pobreza durante os dois mandatos de Lula, em 2013 veio o tempo das reivindicações da população. O acesso ao consumo, a organização da Copa do Mundo e das Olimpíadas não conseguiam mais satisfazer o “povo”, que queria mais do que “pão e circo”. Ele queria escolas, hospitais e uma polícia confiável.
O escândalo de corrupção em grande escala ligado ao grupo petroleiro Petrobras foi a gota d’água para um país maltratado por uma crise econômica sem precedentes. Profundamente angustiados, parte dos brasileiros fizeram do juiz Sérgio Moro, encarregado da operação “Lava Jato”, seu herói, e da presidente sua inimiga número um.
A ironia quis que a corrupção fizesse milhões de brasileiros saírem para as ruas nos últimos meses, mas que não fosse ela a causa da queda de Dilma Rousseff. Pior: os próprios arquitetos de sua derrocada não são santos.
O homem que deu início ao processo de impeachment, Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, é acusado de corrupção e de lavagem de dinheiro. A presidente do Brasil está sendo julgada por um Senado que tem um terço de seus representantes, segundo o site Congresso em Foco, como alvos de processos criminais. Ela será substituída por seu vice-presidente, Michel Temer, embora este seja considerado inelegível durante oito anos por ter ultrapassado o limite permitido de doações de campanha.
O braço direito de Temer, Romero Jucá, ex-ministro do Planejamento do governo interino, foi desmascarado em maio por uma escuta telefônica feita em março na qual ele defendia explicitamente uma “mudança de governo” para barrar a operação “Lava Jato”.
Se esse não é um golpe de Estado, é no mínimo uma farsa. E as verdadeiras vítimas dessa tragicomédia política infelizmente são os brasileiros.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

PRESIDENTA, SIM SENHORA - José Nílton Mariano Saraiva

Na grotesca (e infrutífera) tentativa de “gozar” com a cara da Presidenta Dilma Rousseff, a ministra do Supremo Tribunal Federal, Cármen Lúcia, ao ser consultada como gostaria de ser tratada quando assumir a presidência daquela corte (se presidente ou presidenta), afirmou: “eu fui estudante e eu sou amante da Língua Portuguesa; acho que o cargo é de presidente, né ???”.

A despreparada ministra bem que poderia ter consultado a página 2292, do Dicionário Houaiss, a fim de não proferir asneiras e babaquices do tipo. Confiram abaixo o que consta na referida página:

Presidenta s.f.
1 - mulher que se elege para a presidência de um país;
2 - mulher que exerce o cargo de presidente de uma instituição;
3 - mulher que preside (algo).

Portanto, Dilma foi (e continua sendo) PRESIDENTA do Brasil (e quem não gostar que vá reclamar ao Papa Chico).

Babacas.



segunda-feira, 1 de agosto de 2016

"CRATO... É FINAL DE LINHA" - José Nílton Mariano Saraiva

Condição “sine qua non” de todo administrador público que se preze, a probidade administrativa encontra bons e imprescindíveis aliados na transparência, bom senso, equilíbrio e/ou, principalmente, ponderação na hora da tomada de decisões ou no simples ato de expressar-se perante os munícipes.

Em sentido contrário, sob pena de inviabilizar suas ações, obstando-lhe o acalentado caminho em busca de voos políticos mais altos, a improbidade administrativa, possessividade, pessimismo e afobação não devem constar do dicionário de referida autoridade, por mais pressionada que se encontre.

As reflexões acima têm a ver com um determinado “encontro”, que vivenciamos aqui em Fortaleza (2009), quando o então prefeito do Crato (Samuel Araripe), atendendo convite da Associação dos Filhos e Amigos do Crato (AFAC), compareceu ao auditório da Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), a fim de discorrer sobre sua gestão à frente da municipalidade.

Depois de muita rasgação de seda nas preliminares e da exibição de belos slides da cidade, lá pras tantas e aí já visivelmente incomodado com as interrupções da sua fala e os recorrentes questionamentos a respeito do “marasmo” da sua administração ou do “porque” do Crato não conseguir acompanhar o pool desenvolvimentista da cidade vizinha, Sua Excelência literalmente perdeu as estribeiras e foi incisivo e contundente (ipsis litteris): “PESSOAL, VOCÊS TÊM DE ENTENDER QUE O CRATO É FINAL DE LINHA; SÓ VAI AO CRATO QUEM TEM NEGÓCIOS LÁ”.

Ou seja, não mais que de repente, a posição geográfica do Crato (em relação à capital ou a Brasília ???) foi usada e responsabilizada como justificativa primeira e única para a sua visível estagnação, seu progressivo esvaziamento, sua parada no tempo, sua inexorável caminhada rumo a tornar-se uma “cidade-dormitório” da urbe vizinha.

não nos foi explicitado como é que a cidade vizinha, que dista apenas 12 quilômetros da nossa, tudo consegue, o tempo todo e com relativa facilidade, daí o acirramento da rivalidade (e aí, querendo ser engraçado num momento que exigia seriedade, o prefeito referiu-se a um certo cratense que teria plantado em seu quintal um coqueiro enorme, objetivando não enxergar a estátua de Cícero Romão, lá na serra do horto; desnecessário dizer que não deu Ibope algum).

Pelo contrário, estupefatos, os componentes da plateia se entreolharam abismados e pasmos, num misto de espanto e decepção, à procura de entender aquele testemunho patético sublinhado de capitulação, acomodação ou simples descaso para com o destino da cidade.

Definitivamente, não estávamos ali para ouvir aquilo, mas a verdade é que, ao vivo, perante todos nós, aquele que deveria representar a esperança e o porvir de novos tempos, se nos mostrava, sim, a impotência em forma de gente, o pessimismo em estado latente, a desesperança em sua mais completa acepção, a incapacidade de alinhavar palavras minimamente confortadoras aos seus munícipes.

E então, lembramo-nos do “testemunho-narrativa” que pessoalmente ouvimos de um dos integrantes da comitiva que esteve em Fortaleza quando da reunião com o então reitor da UFC (Renê Barreira), onde definitivamente se bateria o martelo na definição da localização do “Campus Cariri” da UFC (embrião da UFCA): segundo ele, o prefeito do Crato (Samuel Araripe) estava, sim, naquele dia em Fortaleza (onde tem residência fixa à beira mar), mas teria se negado terminantemente a comparecer àquele importante e decisivo evento para o futuro da cidade do Crato, sob a justificativa de que a decisão já houvera sido tomada e, pois, a sua presença, não alteraria em nada o desenrolar do processo. Que os “bois de piranha” (Jurandir Temóteo, Nezim Patrício e outros) representassem a cidade e galhardamente enfrentassem a travessia do rio, sozinhos.

Fato é que, nessa balada, por preguiça, inaptidão para a função pública da sua autoridade maior e/ou reconhecido isolamento político (apesar de apoiado pelo mesmo Tasso Jereissati, de agora), o Crato perdeu o Sesi, o Sebrae, a Universidade Federal do Cariri, a Delegacia da Polícia Federal, o Hospital Regional do Cariri, o Aeroporto da Região, a Procuradoria da República, o Centec, a Justiça do Trabalho, o Centro Cultural do BNB e por aí vai (não esquecer o criminoso fechamento de diversas escolas municipais, mormente nos distritos e zona rural).

Por essa razão, hoje nos invade um sentimento de enorme desesperança, pesar e decepção, quando tomamos conhecimento que o PSDB, coligado com partidos “barriga-de-aluguel” de matizes ideológico-progmático os mais díspares possível, oficializou a candidatura da mesma figura (Samuel Araripe) para concorrer à prefeitura da cidade, e com um adendo pra lá de desestimulante: terá como candidato a vice-prefeito um jovem cratense que passou boa parte da vida curtindo as praias cariocas (Thales Macedo), espécie de genérico do “playboy do Leblon” (Aécio Neves), que não mais que de repente descobriu que o Crato existe.

A pergunta que se impõe, então, é: se “o Crato é final de linha” porquanto “só vai ao Crato quem tem negócios lá” (como publicamente declarou em 2009 o senhor Samuel Araripe), como pensar em reconduzi-lo ao trono, já que o atraso e a inoperância político-administrativa caracterizaram seus 8 anos à frente do município ??? Acharam pouco ???


Será que Sigmund Freud explica ???

domingo, 31 de julho de 2016

DEUS É BOM PAI

Deus é Bom Pai

                             (Demóstenes Ribeiro – Médico Cardiologista)

          Não sei quando vou terminar esse rodízio de pizza. O último funeral me deixou esfomeada, jazz-singer não tem que ter cara de fome e o excesso de peso combina com a minha cor.

          Pra uma filha da rua, fui bem longe, pois nem sei onde nasci e é um milagre ter chegado aqui. A velha com quem andava pelo mundo, foi o que mais parecido eu tive como mãe e pai. Vagávamos de cidade em cidade, não tínhamos o que comer, dormíamos ao relento e ela sempre a repetir que Deus era bom pai.

          Depois, ela me deixou com uma senhora bondosa e não tive mais notícias, desapareceu pra sempre, certamente morreu. Essa dona parecia gostar de mim. Teve muitos filhos, mas vivia quase sozinha, eles estudavam longe. Acho que eu aliviava a sua saudade. Passei a chamá-la de mãe, ela me deu nome e carinho, farda e colégio, era bem diferente do marido. Pra ele e a família, sempre fui negra e saco de pancada.

          Quase habituada a um resto de vida, eu sofria muito em silêncio, mas não transparecia. Tinha planos, sonhava em ser artista, achava que tinha algum talento, cedo ou tarde, o mundo e a fama sorririam para mim. E quando o Michael Jackson começou, eu logo aprendi o moonwalk.

          Um dia, cansei de ser escrava e me mandei. De carona em carona, motorista a motorista, cidade em cidade, cheguei a Fortaleza. Perdida no centro, entrei numa igreja evangélica. Um velho se aproximou de mim e começamos a conversar. Ele se comoveu com a minha história e fui morar no seu barraco. Virei faxineira, doméstica, entrei pra igreja e me convidaram para o coro quando me viram cantar.

          Certa vez, cantei no velório de um irmão e a viúva disse que iria me ajudar. Tempos depois, não lembro agora, morreu o pai do pastor. No final da cerimônia, sem que ninguém esperasse, ataquei de “Meu Querido, meu Velho, meu Amigo.” Cantei num ritmo mais lento, alternei graves e agudos e fiz todo o mundo chorar.

          Um agente funerário assistiu e me convidou pra trabalhar na sua empresa. Ele assinou minha carteira e virei a atração dos funerais. Nunca mais me faltou trabalho.
Já comecei a estudar inglês e estou me sofisticando. No futuro só cantarei “spirituals  and blues.”

           Ontem mesmo, uma adolescente, filha única, voltando pra casa mais cedo, ouviu gemidos na penumbra e flagrou a mãe com a vizinha sapatão, inteiramente peladas, fodendo uma a outra, com um caralho de plástico, na cobertura da Beira-Mar. A mocinha não suportou o pesadelo, saltou do vigésimo andar e se estatelou no asfalto. Foi um belo salto e o céu recebeu a sua alma. O pai está arrasado. Hoje, vou cantar no velório. Ensaiei “Tears in Heaven” e será uma consagração. Ninguém vai ficar sem chorar.

           O garçom não está gostando, mas tão cedo eu não saio. Diva não tem que ser esbelta.  Espero morrer antes de ficar velha e se exagerar na comida o sono vem mais fácil. Outro dia, depois de um rodízio desses, dormi profundamente no meio das minhas bonecas e sonhei legal. Fui até o Mississipi. Fazia um luar bonito e participei de uma jazz-session. Quando cantei Summertime, Ella Fitzgerald, sem que ninguém percebesse, falou no meu ouvido que eu era a sua continuação. Deus realmente é bom pai.














segunda-feira, 4 de julho de 2016

Quase uma vez, o Japão - (Demóstenes Ribeiro – Médico Cardiologista)

Na cadeira de balanço, iniciando a sesta e de olhos semicerrados, um riso silencioso invadiu o rosto do meu avô.
- “Rindo do que, vovô?
- Das mulheres, sempre as mulheres.
- Mas não há mulher nenhuma aqui.
- Como nenhuma, elas estão sempre presentes!
- Mas eu continuo sem enxergá-las, o senhor enlouqueceu?
- O espírito feminino é onipresente.
- Onipresente, só Deus.
- Ora, Deus e as mulheres, não percebe?
- O senhor não está legal, tomou seus remédios direito?
- Estou ótimo e lembrei de uma delas. Foi engraçado e assustador.
- Uma delas... O senhor e sua mania de grandeza.
- Mais respeito com o velho. Ainda vai aprender muito se tiver a humildade em me escutar.
- Qual é a história de hoje?
- Muitos lugares, muitas mulheres, o mistério feminino a desvendar. Naveguei
muitos mares... Fossem calmos ou revoltos, desbravei!
- Mentiroso!
- Mais respeito com o seu avô, eu nunca faltei com o meu dever!
- Fala então, garanhão!
- Atravessei o mundo inteiro, mas faltava completar uma missão.
- Faltava o quê, vovô?
- O Oriente, o extremo Oriente, a terra do sol nascente... Quando cheguei a São
Paulo, não saía da minha cabeça o inacessível Japão.
- E daí?
- Daí, a espera paciente, não forcei a natureza das coisas. No entanto, nem o mais
sincero e esperançoso amor escapa ao sobrenatural.
- Como assim?
- Era uma sansei delicada. Nariz afilado, traços ligeiramente ocidentais. A alma-
gêmea. Quem sabe em vidas passadas eu não fora um samurai. De origem humilde, alguma semelhança havia entre o drama nordestino e a saga dos seus avós. E, sem sair de São Paulo, fui lhe mostrando o sertão. No Cantinho do Nordeste, ela riu com as emboladas e os versos de cordel. Dançou xaxado e forró. Queria saber de histórias, Padre Cícero, Lampião... Apaixonados, meu filho, até haver o pior.
- O que aconteceu, vovô?
- Num feriado, tivemos o dia inteiro e, após uma manhã no Ibirapuera, fomos ao
Restaurante Oxumaré. Comida baiana, ela nunca havia provado. Cansada de sushis e sashimis, foi ao self-service e ficou deslumbrada. Iniciou com uma batida de pitanga, comeu um acarajé, outra batida de cajá. Moqueca de peixe, bobó de
camarão, adorou sarapatel, repetiu o vatapá. Carne-seca com purê de aipim.
Avançou no caruru. Serviu-se de tudo um pouco. Findou com baba-de-moça e
cocada de mamão. Já era tardinha, quando saímos pra casa, e um orixá esfomeado, ela parecia incorporar.
- Qual a tragédia, afinal?
- À noite, iniciando o amor, conhaque, calabresa e amendoim. Eu fiquei desconfiado, pois ela queria sempre mais e a seguir veio o desastre.
- Conta logo, vovô!
- De repente, a japonesinha saltou na cama, deitou de bruços e gritou feito uma
louca: agora, cabra da peste, vais conhecer o Japão! Seguiu-se uma explosão fétida e furiosa, um pum atômico, mais de mil megatons, Hiroshima e Nagasaki. Quase pedindo socorro, abri portas e janelas, sacudi os lençóis e esvaziei o bom-ar até que aquele Exu presepeiro fosse embora.
- Uma hecatombe, vovô!
- Cabeça baixa e olhos úmidos, ela repetia desculpe. Sayonara, sayonara, com a
timidez ancestral. Foi um adeus definitivo. Maldita comida baiana! Nem conheci o Oriente e casei com a sua avó!”
Tudo verdade. Vovô nunca mentiu pra mim.



















sábado, 18 de junho de 2016

FILHOS SÃO COMO NAVIOS (Içami Tiba)

Ao olhar um navio no porto, imaginamos que ele esteja em seu lugar mais seguro, protegido por uma firme e indestrutível âncora. Mal sabemos que ali está em preparação, abastecimento e provisão para se lançar ao mar, ao destino para o qual foi criado, indo de encontro das próprias aventuras e riscos. Dependendo do que a força da natureza lhe reserve, poderá ter que desviar de rota, traçar outros caminhos ou procurar outros portos alternativos. Certamente retornará fortalecido pelo aprendizado adquirido e mais enriquecido pelas diferentes culturas percorridas. E haverá muita gente no porto à sua espera.

ASSIM SÃO OS FILHOS. 
Estes têm nos pais o seu porto seguro, até que se tornem independentes. Mas, por mais segurança, sentimentos de preservação e de manutenção que possam sentir juntos aos seus pais, eles nasceram para singrar os mares da vida, correr seus próprios riscos, viver suas próprias aventuras, traçar o próprio destino.
Certo que levarão consigo o exemplo dos pais, o que eles aprenderam e os transmitiram, bem como os conhecimentos da escola; mas a principal provisão, além das materiais, estará no interior de cada um: a capacidade de ser feliz. Sabemos, no entanto, que não existe felicidade pronta, algo que se guarda num esconderijo para ser doada, transmitida a alguém. O lugar mais seguro que o navio pode estar é no porto. Mas ele não foi feito para permanecer ali.
Os pais também pensam ser o porto seguro dos filhos. Mas não podem esquecer do dever de prepará-los para navegar mar adentro e encontrar o seu próprio lugar, onde se sintam seguros, certos de que deverão ser, em outro tempo, este porto para outros seres. Ninguém pode traçar o destino dos filhos, mas deve estar consciente de que na bagagem devem levar VALORES herdados, como: humildade, respeito, humanidade, disciplina, honestidade, gratidão e generosidade.
Filhos nascem dos pais, mas devem se tornar CIDADÃOS DO MUNDO.
Os pais podem querer o sorriso dos filhos, mas não podem sorrir por eles; podem desejar e contribuir para a felicidade dos filhos, mas não podem ser felizes por eles. A felicidade consiste em ter um ideal a buscar e ter a certeza de se estar dando passos firmes no caminho da busca.
Os pais não devem seguir os passos dos filhos e nem devem estes descansar no que os pais conquistaram. Devem os filhos seguir de onde os pais chegaram, de seu porto e, como os navios, partirem para as próprias conquistas e aventuras. Hão de singrar “mares calmos e tormentosos” e saberão vencê-los pelas valiosas lições recebidas dos pais. Mas, para isso, precisam ser preparados e amados, na certeza de que, quem ama educa.

COMO É DIFÍCIL SOLTAR AS AMARRAS."