por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



domingo, 10 de dezembro de 2017

Vestígios da Itália em Missão Velha - Dr. Demóstenes Ribeiro


Na calçada em frente, suavemente ensolarada naquela manhã de maio, o Coronel dirigia-se ao barbeiro. Terno branco, chapéu e guarda-chuva fechado à mão direita, como se fosse bengala, ele lentamente caminhava. Baixinho e gordo, um ar feliz envolvia o semblante bonachão, realçado agora pelo domínio do alistamento nas frentes de serviço do DNOCS. Era a seca de 58, ele controlava o PTB local e seriam muitas as vantagens resultantes dessa missão.

A barbearia, parada obrigatória na cidade, local sempre descontraído e de informação. Todos a freqüentavam, exceto monsenhor Antonio Feitosa, ao qual o barbeiro atendia com orgulho uma vez por mês na casa paroquial. Semanalmente, o Coronel cortava o cabelo. Hipocondríaco, exigia esterilização prévia da tesoura e da navalha, com álcool, em chamas. Aliás, tamanho o seu temor de doença, no cinema sistematicamente levava o lenço ao nariz ao assistir cena de faroeste com muita poeira, por receio de ficar resfriado.
Sem a truculência de outros caciques, jamais se ouviu falar de violência da sua parte ou de seus comandados. Sua força política advinha da fidelidade extrema de uma família numerosa e de agregados, isolados em região serrana do município, parte mais alta e amena, onde o pai e antecedentes, imigrantes italianos, estabeleceram-se em meados do século dezenove. As urnas da Goianinha decidiam a eleição municipal.

Ao invés do sul do Brasil, por que esses italianos escolheram Missão Velha, confins do Ceará? Ao que se fala, emigraram de remota região da Itália, cheios de sonhos, fugindo de violência e miséria. Ao chegar a Recife, o patriarca, artesão, mestre na fundição do cobre, encheu-se de esperança ao saber dos engenhos de cana-de-açúcar no Cariri, espaço para o seu ofício e a sua arte.

Destinados à Goianinha, pouco a pouco, a língua, o sotaque, quase todos os hábitos e tradições foram sufocados pela cultura local. A pobreza nordestina foi mais forte. Diferente do sul do Brasil, a geografia e o clima pouco se assemelhavam à velha Itália. Entre outras coisas, sumiram a culinária mediterrânea e a tradição do vinho.
A família cresceu miscigenada, mas alguma coisa ficou. Cearenses a conservar modo de vida que lembra aldeias e cidadezinhas da Itália. Os laços familiares rígidos, o bom humor, o casamento entre primos, as residências próximas, as mulheres pequeninas, muitas de olhos azuis, discretas no vestir e no comportamento, apegadas à Igreja e quando viúvas, de preto e lamuriosas. Acima de tudo, cordialidade e alegria de viver contrastando com a agressividade local. Extroversão expressa em vários deles pelo amor ao jogo de cartas, à diversão, à bebida e à música popular.

Anos depois, em disputa com um sobrinho, o Coronel não conseguiu fazer do filho o prefeito da cidade. A luta pelo poder desagregou a família e ele partiu para a serra paraibana, local de outros familiares; quem sabe, inconscientemente atraído pelo clima vagamente parecido ao da Itália. Todavia, diferente do pai, era, no quase exílio, imigrante desesperançado, revolta e desilusão.

Envolvido em luta inglória contra a realidade cruel, findou os dias em um mundo imaginário, pleno de fantasia e recordação. Na rede, a mamma entoava uma canção de ninar ou era o irmão Horácio a lhe embalar o sono com uma ária napolitana de Caruso? Houve a alegria irreverente dos filhos no carnaval ou tudo não passou de uma velha história de Veneza, contada por uma tia idosa na infância? Voltaria ainda o prestígio dos anos atrás?

Muito tempo depois, o menino que vira o homem gordo e baixinho, dirigir-se à barbearia, naquela manhã de maio, observara um missãovelhense discretamente receber a comunhão na Igreja da Paz. Sequer herdara o sobrenome italiano, mas no comportamento cordial, reverente e cerimonioso, ele expressava traços do tio e, talvez, de algum familiar distante, perdido em aldeia remota da Sicília ou do Mediterrâneo.










quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

GILMAR MENDES - por RICARDO BOECHAT

Temos um ministro do STF que não teme ser defensor explícito do crime organizado. Gilmar Mendes nem deveria ser impedido, deveria ser preso. Os laços de Gilmar e sua mulher com Jacob Barata são de amizade, comerciais e profissionais. O cunhado do Gilmar é sócio do Jacob. Jacob tinha o contato direto da mulher de Gilmar em seus contatos.

Esse senhor Barata, pelos crimes revelados por vários delatores, vem roubando diretamente da população mais pobre do RJ, comprando toda a cúpula e política fluminense e a fetranspor. O senhor Barata roubou, 10, 20 centavos por dia da população mais pobre do RJ, por anos a fio.

A suspeição de Gilmar Mendes teria o efeito de mostrar que ele nada a tem a ver com esses crimes, que a sociedade do cunhado e que a benção no casamento, foram coincidências. Mas como ele não se declarou suspeito, mesmo quando o “rabo abanou o cachorro” e com todas as manifestações do MP, demonstrando claramente que os elos são pessoais, comerciais e profissionais, a única opção a crer é que Gilmar tem muito a esconder tanto nessa relação como nas outras em que se posicionou de forma imoral.

Jacob Barata é um bandido violento. Provavelmente está roubando dos cariocas há 30 anos. É um milagre da Lava-Jato e adjacências que estejamos trazendo esse esquema à vista, à tona.

O Judiciário e o MP precisam tratar Jacob Barata de forma especial, com o peso expressivo da lei, pois ele vai entregar Gilmar Mendes. As últimas atuações do ministro são claras evidências de obstrução intencional da justiça, mandando às favas qualquer resquício de moralidade e racionalidade. Um acinte, um deboche.

Está muto claro que Gilmar é um infiltrado do “status quo” para explodir os esforços anticorrupção e redirecionar os entendimentos do STF para a frouxidão ética e moral, apenas com seus “afilhados e amigos”.

Derrubar Gilmar Mences é atravessar uma das últimas muralhas de proteção do sistema corrupto que moveu a política brasileira, nos últimos, pelo menos, 30 anos.

Os brasileiros podem até ser impotentes para derrubá-lo, mas a cada atuação do ministro, mais gente desacredita no país e faz questão de não apoiar qualquer movimento de recuperação econômica.

Gilmar Mendes é a certeza da impunidade, portanto é a incerteza econômica. Gilmar Mendes é uma ode à concorrência desleal, portanto é um inimigo da governança e da ética nos negócios. Gilmar Mendes é o Alien parasita no organismo brasileiro.

Ou é ele, ou é a nação. Jacob Barata não deve entregar Cabral, que é outro cadáver político, esse pelo menos não está fedendo em nossas salas. Tem que entregar Gilmar.

Acreditem. Gilmar Mendes convence os brasileiros a não lutar para tirar o Brasil dessa crise. Convence os brasileiros com mais capacidade, mais recursos e maior grau de empreendedorismo a cogitar seriamente sair do país. Gilmar Mendes é nosso ministro bolivariano.

Amigos, entendam a importância de combatê-lo. Não se enganem, é um elemento fundamental para a manutenção do status quo. Está entre nós e a esperança.

Assinem tudo, reverberam tudo, tudo que for contra o Gilmar. Esse cara quase torna a sonegação de impostos um imperativo ético. Ninguém merece pagar o salário desse imperador da imoralidade judiciária.

sábado, 2 de dezembro de 2017

HOUVE OU NÃO ??? - José Nílton Mariano Saraiva


No curso de Ciências Econômicas, e especificamente no estudo da disciplina “Estatística”, normalmente o próprio professor faz a analogia entre tal disciplina e o biquíni usado pela mulherada. É que, segundo se convencionou no recinto da própria Academia, tal qual o biquíni, a Estatística mostraria tudo, tudo, menos o “essencial”. O que é “essencial”, na Estatística e na mulher, fica a critério de cada um elucubrar.


Tal lembrança ocorreu quando tomamos conhecimento das manchetes estampadas na grande mídia, nos dias atuais, nos dando conta que o abusado e arrogante ministro do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, pela terceira vez, em poucos dias, mandou soltar da cadeia o empresário Jacob Barata, incurso em sérias suspeitas de pagamento de propina à mafiosa classe politica do Rio de Janeiro, e por isso trancafiado repetidamente pela justiça daquele Estado.


No arrazoado divulgado pela mídia, inserto se acha que pesou em tal decisão o fato do ministro e esposa terem sido padrinhos de casamento da “Baratinha”, filha do meliante (o que demonstraria uma sólida amizade entre os dois), além do fato que o noivo seria sobrinho da mulher do ministro (o que justificaria tal privilégio).


Como, entretanto, foi a terceira vez em poucos dias que o ministro bate de frente com o Judiciário do Rio de Janeiro, com todo o desgaste que isso pode provocar, a mídia bem que poderia questionar não a amizade ou parentesco do casal com o empresário, mas, sim, se o ministro teria recebido “propina” para insistir e persistir na liberação do bandido.


Afinal, já restou comprovado, em diversas oportunidades, que no Judiciário brasileiro (principalmente no seu alto escalão) a corrupção corre solta e desenfreada, e, portanto, o “substantivo” a ser explorado por uma mídia séria e honesta seria: houve ou não pagamento ao ministro Gilmar Mendes ???

sábado, 18 de novembro de 2017

Princesa Isabel, Volte Aqui! - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Por favor Princesa, venha logo! Estamos precisando urgentemente de uma nova libertação dos escravos! A "Terceirização da Mão de Obra", inclusive no Serviço Público, combinada com o desmantelamento da "Consolidação da Legislação do Trabalho", mais carinhosamente chamada de CLT, um conjunto de leis posto em prática no ano de 1941, há 76 anos portanto. Era a única rede de proteção ao trabalhador, a parte mais frágil das relações trabalhista.
    
Tão logo soube da noticia, Manduca Corró, prefeito do município de Aroeira Ferrada, esfregou as mãos de contentamento. Afinal, iria conseguir recursos suficientes para ampliação do açude da Fazenda Ribeirão dos Angicos, a jóia da fazenda do Manduca. Além de se manter indefinidamente no cargo, tão duramente conquistado, à custa de E este imediatamente agendou uma reunião com o Secretário de Viação e Obras Pública, Tadeu Cipriano.

Manduca e Tadeu contrataram a "Companhia Força Trabalhadora de Aroeira", mais conhecida por CFTA, a principal locadora de mão de obra da região. E de comum acordo foi montada uma tabela para os salários do quadro técnico da prefeitura: Antão Victor Machado, o engenheiro, que recebia um salário fixo de $R 2.000,00 (dois mil reis) iria custar ao erário municipal pela tabela da CFTA $R 8.000,00 (oito mil reis), Mara Régia Chachado, a secretária, cujo salário era de R$ 600,00 (seiscentos reis), em seu nome, teria renda anotada pela empresa contratadora do pessoal terceirizado $R 3.000,00 (três mil reis). E Edson Grilo Junqueira, o contador e administrador do pessoal, recebendo um salário de $R1.000,00 (mil reis) teria anotado nas contas da locadora $R 4.000,00 (quatro mil réis). Isto tudo somado, sobraria para o grupo político de sustentação do prefeito uma renda mensal de $R 11.400,00 (onze mil e quatrocentos réis). Aí está um grande passo para exploração do assalariado. Conforme constatou a O.S.D (Operação Suja Devagar), este pequeno ítem lembra como ocorrerá a escravidão do assalariado da cidade de Aroeira Ferrada e suas vizinhas.

Sabe Deus o que poderá esperar o trabalhador brasileiro com o desmantelamento da CLT, o fim da Carteira do Trabalho e a implantação de um maldito sistema de ajuste da Previdência Pública, cujo objetivo principal é forçar os trabalhadores brasileiros a pagarem o rombo previdenciário gerado desde o financiamento da construção de Brasília, passando por sucessivos governantes, alguns eleitos, outros golpistas. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

POBRES ANALFABETAS” - José Nilton Mariano Saraiva

Até certo tempo atrás, eram comuns “homenagens” aos ídolos do futebol, música e cinema, por parte de pais “torcedores fanáticos”, através da tributação, preferencialmente ao primogênito, do nome de algum deles. No entanto, um outro tipo de homenagem era muito comum entre genitores normalmente humildes e de parca cultura, e que merece ser lembrada: batizar o rebento com um nome estrangeiro, uma “sopinha de letras” de difícil pronúncia, capaz de “enrolar a língua” de qualquer um “metido a besta”. Não importava a origem do nome, quem o usava (se se tratava de algum marginal ou uma autoridade constituída). O que valia era a “boniteza” da grafia e, principalmente, a dificuldade que os “analfabetos” tinham de pronunciá-lo.

Pois foi estribado em tais “conceitos revolucionários” que o pai de um nosso colega de trabalho resolveu batizá-lo com o pomposo nome de Zwínglio (aos desavisados, a principal referência sobre, é o suíço Ulrich Zwínglio, teólogo e principal líder da reforma protestante naquele país; portanto, um nome de peso e com história, mas que o pai certamente não conhecia).

Fato é que, de tanta ouvir o pai se “gabar” com os amigos do nome estrambótico e difícil que tinha posto nele, nosso amigo assimilou “ipsis litteris” todo aquele arrazoado laudatório e, ele próprio, a partir de uma certa idade, passou a se vangloriar do nome e, tal qual o nosso rei Roberto Carlos, a se achar “o cara”. Ria às escancaras quando, ao fornecer informações para um cadastro qualquer nas lojas comerciais, observava a extrema dificuldades e a cara de espanto daquelas moçoilas/entrevistadoras que preenchem as fichas respectivas: “Por favor, senhor, “Zu...” o quê ???”, lhe inquiriam. E nessa oportunidade, como se fora um paciente professor catedrático, todo “cheio de razão”, fazia questão de citar, uma a uma, aquelas letras famosas, caprichando na dicção: Z – W – Í – N – G – L – I - O. E se punha a rir com a cara de espanto daquelas “pobres analfabetas”.

A adoração pelo próprio nome virou mais que mania, tornou-se uma verdadeira obsessão, tanto que, 200 anos antes de casar, ele já decidira que o primeiro filho receberia na pia batismal o mesmo nome do pai (afinal, era uma rara oportunidade de homenagear o avô (seu pai), que mesmo pouco letrado, tivera a ideia brilhante de arranjar-lhe um nome tão “porreta”).

Assim, constituiu-se uma tremenda surpresa o nascimento de uma robusta criança do sexo feminino e não um “homem”. E agora, o que fazer, se perguntava atarantado. Eis que, como num passe de mágica, absorveu o choque rapidamente através da adoção de uma solução simplérrima - “feminilizar” o próprio nome, trocando o “O” final pelo “A”, daí que a filha chamar-se-ia “ZWÍNGLIA”. Pronto, resolvida a questão, até mesmo porque... com ele ninguém podia. Era um gênio.

Anos após, evidentemente que quando começou a se entender por gente (ao adolescer), a filha criou verdadeira ojeriza, aversão azeda ao próprio nome, a ponto de ter vergonha de citá-lo em conversas particulares e, principalmente, em público. Quando absolutamente necessário pronunciava-o quase sussurrando. Virava uma “fera ferida” quando o pai, na ânsia de mostrar ao mundo o que era um nome bonito e charmoso, a chamava pelo nome exótico, em voz alta. Para ela, seu pai “tava doido varrido ou bêbado” quando decidiu batizá-la com aquela “praga de nome”. Pra encurtar a conversa e já que não tinha jeito, Zwínglia resolveu que a partir de então seria simplesmente “Zu”. E não admitia tergiversações. Se o pai não gostasse que fosse à PQP. Se possível, sem passagem de retorno.

Enquanto isso, na solidão da sua última morada, Ulrich Zwínglio ainda hoje deve estar se contorcendo e se questionando se merecia tal tipo de homenagem de um habitante da terra “brasilis”.


Post Scriptum:

Nos dias atuais, o pai certamente preferiria homenagear o jogador da seleção alemã BASTIAN SCHWEINSTEIGER (alguém aí sabe pronunciar ???).



segunda-feira, 6 de novembro de 2017

VENTO, VIOLONCELO, CASARÃO... (Dr, Demóstenes Ribeiro (*))


Ninguém ressuscita um morto... Perda de tempo, doutor!”

Voz calma e segura, a transformação de Joaquim, desde a morte do professor Maciel, era o assunto predileto da cidade. No velório, ele de terno e gravata, a cabeça repentinamente branca, foi a surpresa geral. O último a se despedir, beijou demoradamente o morto, soluçando, sem se importar que lhe ouvissem, meu filho, meu querido, meu irmão... Desde então, segundo a acompanhante, não dormia, não se alimentava e nada lhe interessava mais.

É um morto a quem o senhor está atendendo agora... Eu tive uma vida sem graça, mesmo quando a Celeste ficou viúva e fui trabalhar no cartório. Ela era sem filhos e bem mais velha do que eu. Logo nos casamos e vivíamos a paz doméstica entre aulas de violoncelo, escrituras e certidões.

A cidade mudava lentamente. Os velhos partiam, as crianças ficavam jovens e um adolescente de olhos claros e cabelos encaracolados lembrava o Davi, de Michelangelo, a obra prima que o senhor conhece. Como tantos outros, ele foi embora, pois precisava estudar e trabalhar.

Quando um infarto levou a Celeste, a minha vida sofreu uma irrupção. Eu tinha quase sessenta anos e fui conhecer o Rio de Janeiro. Na rodoviária, muito educado, ele estava à minha espera. Agora, homem feito, não mais adolescente, parecia Marlon Brando em Sindicato de Ladrões.

E foi à noite, em Copacabana, entre vários chopes, que ele me contou das suas dificuldades iniciais. Morou na Lapa, comeu no Calabouço e sobreviveu à turbulência de sessenta e oito graças a um diplomata espanhol. A amizade profunda rendeu-lhe um emprego no consulado. Aprendeu línguas e boas maneiras. Não era mais um rude, falava francês e inglês, sabia de artes e encenação.

Então, fomos a Petrópolis, sorvetes no Corcovado, emoção no Pão de Açúcar e bicicletas em Paquetá. Mas, o Rio era outro e ele se sentia ameaçado. Mas, se eu ficasse ao seu lado, ele voltaria. Criaria na cidade a “Escola de Línguas e Artes Plásticas Professor Maciel.” Poderíamos reformar o velho casarão do pai da Celeste e, assim, a cultura chegaria à região.

Um mês depois, ele se mudou para minha casa. Certo amanhecer, lhe despertei com acordes de “In My Life” e a canção de Lennon e McCartney, no meu violoncelo, lhe causou uma profunda comoção.

Outro dia, empolgado e para que todos vissem, afixou uma placa em frente ao prédio: “Futuras Instalações – Escola de Línguas e Artes Plásticas Professor Maciel. Depois foi ao banco tratar do empréstimo para a reforma. No fusca, ao se chocar com um ônibus, somente ele morreu, somente ele... Esqueça o ressuscitar dos mortos e não perca tempo, Doutor!”

Preocupado, solicitei exames, prescrevi um antidepressivo, lembrei de “Morte em Veneza” e agendei um retorno muito em breve. Mas, Joaquim desapareceu e, dias depois, num amanhecer, foi encontrado enforcado. O corpo pendia da grande árvore que existia em frente ao casarão. Embora psiquiatra, eu nunca mais aceitei um paciente como aquele.

Até hoje, o casarão continua abandonado. E o povo conta que em noites de chuva, quando sopra o vento, suas portas batem, surge um gato preto e escapa lá de dentro, num misto de violoncelo e voz humana, meio grito, meio gemido: meu filho, meu querido, meu irmão...


(*) Médico-cardiologista















sábado, 4 de novembro de 2017

Exposição Rastrovestigium será realizada na URCA

 

Os artistas Fred Sidou, Leonardo Ferreira, Kakaw Alves e Marsonilia Duarte realizarão no período de 7 a 30 de novembro, no Espaço Célia Bacurau, vinculado a Pró-reitoria de Extensão,  no Campus Pimenta da Universidade Regional do Cariri - URCA, a exposição Rastrovestigium. 

A exposição reúne fotografias, jóias, objetos do cotidiano e junções de materiais como é o caso de cordas, cobre, latão, alumínio, couro, madeira, etc.

A Exposição  surgiu no grupo de pesquisa  JJAIO (Jóia Jogo Invento Artesania) composto pelos artistas expositores que é  orientado pelo professor  Dr. Frederyck Sidou,  da Universidade Regional do Cariri.  Os  matérias usados na exposição  foram coletados nas  praias  Redonda e Ponta Grossa,  em Icapuí. 

A exposição  reflete e demonstra o corpo desmoronando sobre pedras e  fragmentos, produzido numa bancada de ourivesária como a construção de anéis feitos de corais, cobre, prata e outros materiais.
...NÓS É QUE ESTARÍAMOS PRESOS”- José Nílton Mariano Saraiva


Metade do mundo e a outra banda sabem que a tal Operação Lava Jato, na perspectiva do seu arquiteto e executor, o deslumbrado juiz de primeira instância, Sérgio Moro, pretendia assemelhar-se e ser uma cópia fiel da Operação Mani Pulite (Mãos Limpas), levada a efeito na Itália em meados da década 90 e que, no entendimento do dito cujo, fora a redenção daquele país (na verdade, Mani Pulite quase destruiu a Itália).


Procuramos mostrar isso na postagem “O Catecismo do Moro”, de nossa lavra (quase dois anos atrás), onde destrinchamos, item por item, o trabalho de autoria do respectivo (“Considerações a respeito da Operação Mani Pulite”), onde Moro delineia, pari passu, o que pretendia executar depois do retumbante fracasso que houvera experimentado anos atrás quando da operação “Contas CC5” do Banestado, no Paraná (coincidentemente envolvendo o mesmo doleiro-bandido Alberto Yousseff, à época vergonhosamente absolvido por Sua Excelência).


Basicamente, a ideia era se valer de um tema de imenso apoio popular (no caso, o pretenso combate à “corrupção”) para, a partir daí, desencadear uma demolidora ofensiva contra partidos políticos e seus principais líderes, exterminando-os (só que, no caso, um só partido político (o PT) foi alvo, com o objetivo de impedir, por cima de pau e pedra, que o seu principal líder, Lula da Silva, retornasse ao poder, nos braços do povo).


Para tanto, pelo roteiro elaborado por Moro, a principal providência seria obter o necessário apoio das principais corporações midiáticas (claramente refratárias ao PT/Lula) como forma de convencer a população da necessidade de “passar por cima” da própria Carta Maior (Constituição Federal), a fim de atingir o objetivo colimado.


E aí, tivemos um verdadeiro “festival de abusos” de Moro e sua equipe, que, contando com o beneplácito e a inexplicável conivência dos frouxos e prolixos integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), desandaram a exorbitar das suas funções: prisões preventivas alongadas e sem necessidade de provas (objetivando forçar o detido a “dedurar” os demais), conduções coercitivas sem a antecipada notificação judicial, interceptações telefônicas ilegais (e a posterior criminosa divulgação do seu conteúdo para a grande mídia), censura dos processos aos defensores do acusado (impedindo-os de “advogarem”), e por aí vai.


A destacar, o encarceramento abusivo de "supostos" suspeitos e a posterior obtenção, a fórceps, das tais “delações premiadas” (que, por lei, deveriam ser voluntárias) principalmente envolvendo “portentos” da construção civil e outros “empresários bandidos” que se locupletavam com o dinheiro público, num ilusório aviso de que “dessa vez a coisa vai”. Só que “esqueceram” do efeito colateral daí resultante: que sem um prévio acordo de leniência, as grandes empresas nacionais envolvidas tenderiam a rapidamente “ir pra onde a vaca vai" (pro brejo). Por conta disso, desde então o desemprego campeia nas áreas atingidas, e está aí pra todos verem.


Fato é que, guindado à condição de pop-stars e de figurinhas-carimbadas das principais revistas, jornais e TVs, Sérgio Moro e seus procuradores, ao contrário do que recomendam os manuais, abandonaram de vez a discrição, recato e prudência necessárias e exigidas de um magistrado e passaram a pulular em eventos de qualquer natureza: sociais, políticos, midiáticos e por aí vai (holofotes e bajulação, não lhes faltam).


No mais recente (internacional), com Sérgio Moro e seus procuradores agora na plateia, eis que o inusitado se fez presente: o principal convidado, o italiano Gherardo Colombo, um dos magistrados que participaram da Operação Mani Pulite (Mãos Limpas) na Itália, inquirido a traçar um paralelismo das duas operações, contundentemente vociferou: “SE TIVÉSSEMOS FEITO O MESMO QUE A LAVA JATO, NÓS É QUE ESTARÍAMOS PRESOS” e, ainda, asseverando que “olhando retrospectivamente hoje, podemos entender que a corrupção na Itália não diminuiu, absolutamente”. Portanto, desmoralização pública e explícita do modus operandi adotado por Moro e cupinchas.


Assim, talvez a única certeza nisso tudo é que, se na Itália, por conta da Operação Mani Pulite, emergiu no cenário político o mafioso Sílvio Berlusconi, que acabou de destroçar com o país, no Brasil temos a temporária e perigosa ascensão do comprovadamente despreparado ultraconservador Jair Bolsonaro, que, na perspectiva da inviabilização da candidatura Lula da Silva (“objeto de desejo” de Sérgio Moro e seus procuradores), pode, sim, atingir o poder, conforme mostram as pesquisas.


E aí, que Lúcifer tenha pena do nosso Brasil.