por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quarta-feira, 8 de julho de 2026

 Pancho - Dr. Demóstenes Ribeiro (*)

     Nos anos cinquenta, quando eu era secundarista no Rio de Janeiro e sonhava tornar-me advogado, recebi um telegrama amargo e seco: venha urgente, seu pai muito mal. Logo que pude tomei o ônibus e cheguei quase três dias depois.

      Agonizando, o velho balbuciou: estou partindo, tome conta do Zé Antônio, das meninas e do Barreiro. Combati o bom combate. Agora é com você.

      Dei adeus ao sonho de me formar advogado, mas guardei a Cidade Maravilhosa para sempre. O meu irmão, indefeso e pequenino, tornou-se o centro da minha vida, e me reintegrei ao sertão.

      Não foi fácil, pois adorava o Rio. Um paraíso, apesar de morar no alojamento dos estudantes, da comida do Calabouço e das gozações dos cariocas. Mesmo a pé, sempre o Rio de Janeiro! Copacabana, Cinelândia, Maracanã, o centro da cidade. Que maravilha a descontração do povo e a alegria do carnaval. Lá, pela primeira vez estive num cinema. Assisti a muitos filmes mexicanos, uma paixão da vida inteira, me rebatizaram de Pancho, e até me emociono ao lembrar.

       No Barreiro, tínhamos um cavalo manco, chamado Rocinante -, e Zé Antônio tratava aquele pangaré como um irmão. Vestindo calça farwest, bigode à Clark Gable, camisa de manga comprida e lenço vermelho no pescoço, reassumi a vida no campo e o passado não me interessava mais.

       Por algum tempo, com aquele figurino, a mulherada não me dava sossego, mas uns invejosos passaram a se incomodar com o meu tipo e me chamavam, permanentemente, valete de pau.  A molecada se apropriou do apelido e mal eu apontava na rua, vinha o coro infeliz e insolente: valete, valete, valete de pau! Claro que eu não gostava. Um dia, assustando a todos, dei um tiro pro alto e me diverti bastante com a correria geral.

         Zé Antônio cresceu muito... Foi pro Rio de Janeiro, formou-se em Veterinária e regressou anos depois pra me ajudar no Barreiro. Era agora um moço alto, curvado, de boca entreaberta e ligeiramente retardado – os cariocas cravaram-lhe o apelido de babão.

       Na cidade modorrenta, a vida eram as missas e, à noite, os passeios na praça; a visita ocasional de cupido, uma médica feia e, tempos depois, a surpresa geral: a doutora e o Zé Antônio estavam namorando!

       Estão casados há cinco anos, mas ainda sem filhos. Ele, sempre babando. Ela, com a santa virtude da feiura extrema. Embora bondosos, nunca se viu tanto heroísmo junto. Muito me preocupam as futuras crianças daquele casal.

       Hoje, dia de feira, tirei uma folga do Barreiro e vim à cidade. Dei uma passada na igreja, fui ao barbeiro e aparei o bigode. Tomei um aperitivo e almocei bem. Breu do cinema falou que no fim-do-ano haverá filme de Cantinflas e de Sarita Montiel: assistirei várias vezes e já espero com ansiedade!

        O sol começa a se pôr e estou voltando à fazenda. Só eu e o Rocinante pela estrada poeirenta. Após cinco anos de seca, o crepúsculo ainda é mais triste. Outra vez, lembrei do Rio. Quem me dera a Cinelândia e as chanchadas: o sorriso da Eliana, as coxas da Virginia Lane e a bunda alegre da Renata Fronzi. No rádio de pilha ouvirei Bienvenido Granda e talvez volte a chorar.

        Rocinante percebendo a minha tristeza, parece escorrer duas lágrimas e me olha diferente. Aliso a sua cabeça e falo ao seu ouvido: é isso mesmo, amigo velho, ninguém consegue fugir ao seu destino.

       Solteirão para sempre, pois o Rio de Janeiro destruiu toda a minha esperança nas mulheres. Depois das cariocas, nenhuma me interessa mais. Mas, se algum dia o cupido me flechar novamente, tenho por precaução um velho cinto de castidade feminino comprado na Lapa.

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(*) Dr. Demóstenes Ribeiro, médico cardiologista, é natural de Missão Velha, estudou no Crato durante muito tempo, e atualmente reside e exerce a nobre profissão em Fortaleza-CE

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