por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



terça-feira, 11 de janeiro de 2011

No céu das margaridas

Onde anda

Com quem se deseja andar?

Mergulhando o seu olhar

Em qual céu, açude ou mar?

No coração feminino

Há sempre um impulso infantil
de correr para um ninho

De achar o tal caminho

no qual se vive a sonhar

Dormir de alma colada

Sem relógio despertar

Desejo filogénetico,

de amar, e de amar!



Ocultos

Que culpa tem aquela mulher,

De nos labirintos do coração,

ficar atordoada?
Ela se espreguiça em todas as praias

Queima a pele de lembranças

Lava a mágoa e a saudade

Enquanto isso,

Seu barco perdido,

Veleja no mar



Esqueça...

Nem julgue,nem desculpe

Siga entre os jasmins

Respire o jardim

O que podia ter sido

Deixou de existir!



Aprenda sobre ti...

Não é em mim que te escondes
Em ti não consigo ficar pronta.
Fevereiro
vida  em parafuso

Atolada de amor e medo

Vejo tudo no escuro

Mas tudo passa,

Como passou janeiro
existem tardes, em que a lua chega,

antes do anoitecer



Olhos são canteiros de flores,
Onde perfumes e cores,

Acasalam-se!


Chove

Roupa no varal

Rosa no jardim se embebeda

Dança e versa!
Segunda encomprida a semana
Noites chuvosas

Dias de tédio
Voz calada

Corpo cansado

Alguns restos, na mala

Rua vazia...

Onde estamos?

Onde estão as noites de verão,

Os dias de primavera,

A voz cantante, o corpo dourado,

As praças cheias,

Os banhos de cascata,

O refresco de cajá,

O pão com nata..

Onde estão todos?

Do lado de cá nada está !
Fim do dia

Mais um Domingo que finda

Sem passeio no campo

Sem a tua companhia

Meu canto é no travesseiro

Que arrumo noite e dia

Fica difícil aturar

A falta que não existe

Mas a morte

Tem seu dia!


Nestas horas lentas,

Em que o dia se escoa,

Como um rio na planície

Vivo um abraço imaginário,

Esperando a noite chegar.


Quem te acorda

Da corda e do som?

Uma angústia, uma ausência.

Gole amargo é fel do não!


Abre a janela.

A luz te invade

Como em labirintos

A deixar passar o vento
Que se sente, sem se ver

Sono que se vai

O lado vazio e silencioso da cama

Arrumo o lençol que fala.
resposta ao tempo,

Que a cor vem tomar...

Exposta ao vento,

Que seu calor vem esfriar

Mesmo assim quero ativo,

Na primeira,

Na Segunda,

Pessoal, sempre, interno,

Silente

Céu eterno!


Chão acaba

Falta o ar.

Respirar para aturar.

Respirar para esperar,

Presente com tinta

Futuro sem papel

Passado amarrado

Pipas voam alto do além para cá...

Conquista espaço,

Na janela do quarto

Vejo um pedaço do céu!

E os bruxos?





Poções mágicas , nas palavras

Encantam , mordiscam

se entocam , e se calam

Hoje é dia delas ...

Não tenho o instrumental

que preciso :

Caldeirão , vassoura,

e um punhado de ervas ...

Não sei fazer mandingas

Basta um cheiro de carinho

e o feitiço se completa !
Já fui queimada tantas vezes

Que o fogo do inferno

apenas me alumia.

Já rezei sortilégios

e tudo

já perdeu o seu mistério

Fiquei com medo

Perdi o jeito

meu nariz cresceu!

E aquela ruga ,que ficou no peito

Rebelde

não volta pro nariz

A metade da maça ...?

-Nunca comi !
Pensamento te libera

Suave e alegremente

Tal qual soltamos um pássaro

Da gaiola ou do viveiro!

Solta de ti,

Ainda seguro teu cheiro,

No fio do teu cabelo,

Que não se aparta de mim


Brusca, abrupta

Inconseqüente demência

Qualquer coisa justifica.

O impulso do desejo

Mas o vazio que fica

Na dor de qualquer partida

É fruta que não almejo

Na fome do meio-dia!


A fonte não secara

A festa mal começara

As noites iluminadas

E a vida nos sorria!

O terreno nem foi estrumado

O enredo foi cortado

E as palavras nunca ditas

Morreram desajustadas

Mas o que resta de pendência

Também pode ser zerado

Na conta do nosso tempo

Tudo já foi perdoado!

Escondida no tempo

Consistente e insistente
Persiste minha agonia
Processo da dúvida,
Que se afasta todo o dia .
Dias de silêncio
Coração em guerra,
Passa frio
Come o que sobrou do ontem
Engorda de esperança
Para morrer de alegria!

Risos, gargalhadas
Numa sintonia errada
Sinalizando caminhos
Quando eu crescer
Quero ser gueixa ou ameixa
Um doce, que se derreta
Na boca do teu carinho!

Nem tudo pode
No tempo,
Desenhar o seu destino
Fica faltando um arabesco
O nome de um brinquedo,
Um cofrinho ou um potinho
Nem tudo dói, quando falta
Mas a dor de uma saudade
Machuca e deixa roxinho
O canto de qualquer braço!

Se não fosse a poesia
Que me transporta aos oásis
Eu morreria de tédio!
Oásis que mata a sede
Mostra a beleza do céu
O poder do sol,
A magia da lua
E verdeja o sono
No vento de uma palmeira,
Enquanto você não chega!

Na trilha de Maria



Na trilha de Maria
Você corta o filme,
amarga o recado;
deixa o mel,
na porta do enxame;
deixa a flor ,
na madrugada aberta,
morrer na manhã .

Tudo começou, nem sei quando.
Buscando na arte,
o caminho da expressão?
Quem me ajudou foi o amor,
e um grande professor,
que pelos meus descuidos,
aproveitei tão pouco!

Meu nome é Maria.
Filha de um casal de artistas.
Arte e religião.
Uma melada de tinta,
e um pensamento cristão ?

Ousei ser criança
Ousei todas as idades,
e aqui estou...
em versos brincando,
no azul sonhado!

Apenas ser humano
quero banhar-me na fonte de todos os desertos.

Quero delírios de todas as sedes,

e ao fim , apenas um oásis .

Quero o céu causticaste

A agonia da visão que esmaece
 ao fim , um céu de estrelas

Quero no direito a todos os erros ,
anar-me da realidade

Cometer pecados , encerra-los no sótão,

E ao fim , apenas os acertos.

Quero navegar no mar das dúvidas,

naufragar sob o seu peso ,

E ao fim, emergir

com um punhado de certezas !

Quero clamar pela chegada ,

mesmo sem encontrá-la.

Sangrar nas mãos,

as tranças das incertezas...

E ao fim, apenas a relva da campina

Quero ser apenas humano ,

E ao fim, disto ter certeza !

(Perseu)



amarga o recado;

deixa o mel,

na porta do enxame;

deixa a flor ,

na madrugada aberta,
morrer na manhã .


Tudo começou, nem sei quando

Buscando na arte,

o caminho da expressão?

Quem me ajudou foi o amor,

e um grande professor,

que pelos meus descuidos,

aproveitei tão pouco!

Mas da vida...aproveitei foi muito!




Meu nome é Maria.

Filha de um casal de artistas...

Arte e religião.

Uma melada de tinta,
e um pensamento cristão ?


Ousei ser criança

Ousei todas as idades,

e aqui estou..

em versos brincando,

no azul sonhado!


Durmo ouvindo o sol

do teu ronco

Teu coração sacoleja,

no trilho de Maria,

por novas fantasias!



Escondida no Tempo

Consistente e insistente

Persiste minha agonia

Processo da dúvida,

Que se afasta todo o dia

Dias de silêncio

Coração em guerra,

Passa frio.

Come o que sobrou do ontem

Engorda de esperança

Para morrer de alegria!

Risos, gargalhadas

Numa sintonia errada

Sinalizando caminhos
Quando eu crescer

Quero ser gueixa ou ameixa.

Um doce, que se derreta.

Na boca do teu carinho!

Os fios não ligam nós...
que a vida desata !


Alminha branca,
que tudo enxerga
numa tela de paz
Se todos te entendessem
o mundo seria azul
cercado de branco,
por todos os lados !


Estou num sonho
País de mascarados
Casca de beleza
alegria e bondade.
Onde está você meu palhaço?
Vestida de bruxa,
descalça lhe procuro
No castelo dos subterfúgios
você foi internado.
Serpentinas no meu rosto,
soltam-se, desenhando lágrimas
Máscara de amizade,
escondendo paixão
Máscara de humor,
escondendo angústia
Máscaras...
Descolem-se de mim !


O itinerário dos ventos
intriga e confunde
Sem trilhas e senhas,
arrasta gente !
Se você ainda dorme,

Vive no azul de mim

Neste imundo rumo,

limpos vagabundos

exploram um mundo

que guardei pra ti !




Construímos tantos corpos de papel

Pichamos muros

pintamos telas no céu

fizemos abrigos subterrâneos

descobrimos mapas de labirintos;

Nossa floresta era imensa

nos perdemos no caminho

catando flores
e destruindo ninhos

Olhei demais pro céu.
Pensando que você,

fosse um passarinho !
Poeta, nada mais

Poetas não tem corpos, para serem tocados
Sentidos, para serem feridos

São penas, tinta, papel.

Poetas não têm dor,

Não sofrem, e sentem

Mas mentem, em corpos de papel.

Poetas não são vários, diferentes, diversos

É a tinta, benta, aspergida aos ventos

Em gotas, em versos.

Poetas não são plurais, mortais

Poetas são fatais,

São versos.

Nada mais !




À toa...


Vamos ser juntos,

em separados ?

Galho e folha

Céu e mar...


II


A solidão

nos leva a qualquer pão:

de queijo, de gente

Solidão no olhar

perdido no mar

Solidão humana,

Deus preenche !

III

Voltou esfuziante
Olhou para o céu,

e viu estrelas no dia.

Viu passarinhos

rouquinhos de cantar

Viu a poesia
entristecida e comum,

dançar de alegria

Brando é o vento

da sabedoria !


IV

Vira-lata cibernético

Homem das esquinas e meninas

É minha cachaça,

meu porre diário,

minha poesia

É meu chapa

mestre da prosa,

atiçador da palavra.

meu número de sorte!

Meu Lancelot, mito,

vício,
homem e lorde !
Estou num bonde sem desejos

Onde alegrias fazem coro

Mas o solo é contralto

A estrada de sonhos é planalto

O córrego azulado

Esverdeia goticulas de fel

Pedras soltas

Interceptam a caminhada
Saímos uns
Chegamos outros

E nos perdemos antes do começo

e muito antes do fim.


Colher trevos

Em quatro mãos

Se me atrevo

O que se torna?

Companhia?

Solidão ?


Num quadro

Eu fico na parede

Da nossa ficção !

Lua do Crato





Bela noite

Agora madrugada

Durma, encontre a aurora
Sonha mulher ,sonha criança

Dança a tua fantasia

Que a manhã em breve

Te dará como presente

um novo dia !



Cara na Lua

Ele pintou minha cara na lua

E eu engordei de lua a minha cara


Ruga no nariz

Define silhueta bruxa

Queixo pontiagudo

Define o destino da senilidade

E o céu da testa
Ondulado de conflitos

Encolhe-se, adormece.

O tempo passado.

Do futuro será cativo.
Eu sou o meu projeto, objeto e objetivo

verbo e substantivo da minha oração...

Até achar o portal do Nirvana!




Queria que o futuro esperasse

A minha esperança acordar!






Por indisciplina mexi com a tua calma

e perdi de veza parte que faltava!


Não gosto da zoada do besouro

prefiro o motor da minha velha geladeira


Falta grana para pintar a cara do velho

Estamos em sintonia com o destino

Podemos afrouxar as rédeas do carro!



Chove poesia.

Minha mina

que cavo com uma velha pena

onde estou?

as vezes me procuro

e o telefone não funciona

extraviam-se cartas e telegramas

que envio pra mim mesma

assim...não me arrependo de mim...sou assim!

e quando me encontro...um verso apronto!
na calada da vida

deixo que as minhas águas

escoem pelos canos

dos meus olhos.


Valha-me noite

Que me cobre de lua;

Salvem-me estrelas

Que me cobrem de luz .


Naturalmente

No próximo encontro
não quero falar do passado

quero todo o presente

(que desconheço...)

na ponta da língua.


Pássaro

peixe ensaboado

tudo voa

tudo escapa.

Mas tua presença

é luz

que não se apaga.

Chave do mistério

Você é luz em forma de gente,


você é poema de Drumond,


você é sonho em forma de luz,


você é minha teimosia amorosa,


você é o desafio constante num poema,


você é a resposta poética da vida ,


que cortou a perna,


e passou a usar asas


no imaginar!




Tua luz brilhando


em mim


caindo em pingos,


parece choro


de vela!





Chega logo manhã


neblina o meu caminho verde;


ilumina o meu destino de sozinha...


tolice tentar acertar


o que nunca entortou;


me perdi na zoada


do que já sou;

Faz de conta ...


Que hoje é um dia qualquer da minha vida.

Que ele foi recortado do passado.

ou que chegou do futuro, ainda novinho...


Faz de conta que o meu presente é esse dia

E nele eu reponho a poesia, o verde, a minha alegria.


Faz de conta que você contracena comigo...

Que sorri me fala, e segura meu pé, num carinho.


Faz de conta que estamos numa estrada,

Em busca de uma serra, em busca de um cantinho...


Faz de conta... Que o dia está no infinito,

e de lá viver a eternidade...é preciso!


Faz de conta que contigo sou fada sem varinha..

Que tu és mago com cajado, e lanterninha...

Que eu sigo ao teu lado, no silêncio do teu dia


Faz de conta... Que só nós dois existimos...

Que a água está gelada, que a fonte de mim

É você quem mina e mima!


Pára um só minuto...

Abraça-me com todos os beijos que eu perdi...

Como certo dia...

Em que eu vi teus olhos,

e nem versos , fiz!


olhos cor-de-petróleo

apertadinhos e atentos

me descobrem

apesar das voltas

das meias

dos brincos

do vestido longo,

você pára no decote...

me decora,

me põe nua no mundo!

sono e sonho...

lá fora a lua se esconde

e o dia me beija,

me acorda dos teus olhos,

ao teu lado,

ganho o mundo!


Viajar é encontrar

a poesia

no vento e nas nuvens...


Preciso do sol

pra pintar de moreno

a palidez do meu rosto,


catalisar processo bloqueado

é esperar que um açude sangre,

surpreendentemente!


Da inquieta vontade de ser

nasce a decisão de não ter!

Eremita

Passou 2007
Os últimos dias resolveram mudar o ritmo
Fizeram coreografia com um bando de tartarugas...
Céu nublado, tardes quentes, tudo mudo
Comida com cheiro de festa
doce, acastanhada...
Em algumas janelas do tempo o dia esqueceu a neve, o saco de Papai Noel,
e a renas não foram importadas...
Em algumas janelas, existe apenas uma vela!
Ninguém chegou, nem partiu
As bolsas ficaram vazias,
e as sacolas... repletas de plástico, de fios, de futuros descartáveis.
Um pote de balas vazio, um vestido surrado no armário, um sapato apertado
Um perfume de amêndoas, quase enjoativo
Um coração em saltos... Aflição dentro do carro
Falta de um riso largo, e de um choro comovido.
Próxima semana é 2008
sem prata e sem ouro no bolso
Contas na farmácia,carrinho vazio, no supermercado
Arroz, feijão e pão!
E o vinho espera abril
o milho espera S.João
Até dezembro voltar com cestas de intenções.
Há uma possibilidade de felicidade no ar
Resgatar o coração, perdido na contramão
Há uma possibilidade de alegria no final do dia,
quando o sol esfria
Uma bola prateada, que se chama lua,
enche de volúpia toda nossa vida!
Há uma possibilidade de viver bem
E que Deus permita!

Falando sozinha

Eu te quero sem pé, nem cabeça...
Um querer libertário
Você em você... Nunca em mim!


Procurei-te nos pontos... Só te achei nas canções
Os teus hachurados me incompreendem
Área de intersecção?


Lúdico latido
tem cachorro
brincando de ser menino!

Por indisciplina
mexi com a tua calma
e perdi de vez a parte que faltava!


Estamos em sintonia com o destino
Podemos afrouxar as rédeas do carro!
O vento do teu assobio... É escocês?

Chuva insistente atola meu chamado!
Desenhar é riscar claros e deixar o escuro acontecer!


Juntar pedras no caminho... E apedrejar o Ego!
Quando a gente não pode ser a letra "z"
Conformamos-nos em ser um pingo?


Meus nervos entendem a verdade... Porisso explodem!

Uma gota de vinho na taça... Acho sacrílego lavar tua presença!


O pipoqueiro vai passando... É assim todas as tardes... E todas as tardes,
Amoleço de tédio!
À mercê do sentimento, sempre volto,
quando me procuram...
Linha, casa, botão, gaveta de armário...
Sempre espaçam pra você ficar!

Nunca prendo no abraço
Nunca acordo pra sonhar
Fico à toa numa espera tonta
de janela aberta pro amor chegar!

Ele passa... Não chega!
Ele voa... Não pousa!
É uma borboleta de asa prateada
flor em flor... Não pára de brincar!

E neste sumidouro aonde te encontro
Afundamos todos dentro de algum plano
que Deus permitiu para nos juntar!

Esperas

Madrugada escura

sem cheiro de flor.

De novo, o amor faltou

Aflição no ar

Comum, alastraste

Promessa sem esperança,

e o coração preso em algum vagar

Medo da soltura,

e de no vazio nunca mais amar!

Pesada dos anos, ainda caminho

Me arrasto no tempo sem saber sonhar!

E o amor perdido onde dormirá?

Mudo a cor da parede que me enclausura?

Pinto de amarelo ou da cor da lua..

Infiltro meu olhar em um novo achar!

Espera vazia, surta...

Espera serena, cura

Uma velha dor que não quer passar!

Sumidouro

Fim do amor

Parece música de bar, no final de tarde

Sentimentos dissolvidos como algodão doce

Sempre será como sempre

Dor de amor à gente cura,
Quando o tempo cura a gente!


II


O amor empresta inocência ao coração,

E torna a busca contínua!


III


Ao entardecer, vislumbrando o céu, misturo tintas... Tudo violáceo!


IV


Peço licença ao teu sonho

E entro em tuas ondas

Como flor, no bico do beija-flor!

V


Onde estás, menino do anel de prata?

Teu silenciar me maltrata

Como fruta esbagaçada,

Da mangueira, na calçada!


VI

Estrelas migram

Céu escurece

Luz eremita

Acende caminho

Amores impossíveis

Encontros no infinito!
Vejo o mundo cortado em telas
Fascinam-me os caminhos
Entre buracos e flores vejo cores
borro a vida com tintas
faço marinhas
casas de taipa, em pé de serra


Abriram janelas e portas
nem me importa
Estás onde queres
não me feres
fico imóvel, no teu caminhar em mim
Há de ser assim
Uma eternidade basta!

Sinto falta da minha companhia
Aquela que insiste em ficar contigo!


Se o paraíso é colorido
por que insistir no preto ou no branco?
O preto no branco...Parece cinema antigo!


Um sonho termina, outro recomeça
Quem diria que esta tarde escurecida
Fosse a minha paz?


Um triângulo deixa de incomodar
quando se parte em pedaços
ou vira pirâmide de paz!

Dia nublado
sopa na panela
pingos de saudade
escorrem numa tela
tempo abre espaço
afrouxa laço
olha verde, no firmar azul

terra roxa...saída do túnel
Enfim vejo a luz!

Brincando no sol

Devolve a nuvem rosada
que enchia o meu olhar
quando eu te avistava!


Vem
toco em você com jeitinho
Corto as unhas do carinho
para nunca te ferir

Vem
traz o perfume do mato
o frescor da madrugada
o luar lá do quintal...

Traz o amor que se expande
que corre livre no tempo
ao encontro do destino!

Mar que avisteie nele me banhei
barulho na concha do ouvido
canção nunca esquecida
solfejo, e grito!


Olhos no teto
papo pro ar
alma soltinha
querendo te achar
coração batuca um verso
boca reza mistério
nariz fareja jasmins... Volta pra mim?

Você saiu... Sem senha para voltar!

sem começo nem fim

Amor até quando?
Amor desde quando?
Amor que devolve não guarda
não sabe o lugar do canto
fica encantado num pássaro
mas não voa do seu pranto!


Distâncias que não transponho
pontes quebradas pelas tempestades
pássaros feridos
vôos cancelados...
Estou na lista de espera
estou sempre na janela
de asas cortadas!


Relógio gira lento
nada pra esquecer ou fazer
tudo varrido, sem teias...
Baratas se escondem em buracos...
Eu me escondo no quarto
daquele sol que me queima!

Céu rosado, vento trancado...
Lágrimas soltas,
escorrem caudalosas,
no leito solitário!

Fico onde estás
letra do teu livro
pétala seca
som de um mosquito
livre em mim
Solta em ti!

Tem um poste de luz que incomoda
tem silêncio que não ilumina
tem ausência que geme na distância
tem vôos sem destino
Ponto de saudade que não sai do canto!


Tarde
envelheço de saudade...
Quando finda, esperança nasce
Noite... Traga-me versos!
Quero te acenar
em cada parada de estrada
seria bom,
se você me enxergasse... sem lenço!


O queijo acabou
O amor faltou
A birra nem começou...
Sem atiços, nem pedidos,
tudo num canto ficou!


Pelos vales secos,
a terra em cio,
aguarda um rio...que nunca veio!


Fogo queimado
Mata dourada
Espelha desejo!

Toques e Magia

Não tire seu sorriso...não desconverse!
Contigo sou sozinha...caminho que não finda!
Não fuja de propósito
Não fuja pra valer
Brincar é coisa séria
Difícil é esquecer!
Toque aonde meu corpo deseja,
aonde a alma precisa...
Esse ritual é quase erótico
Toque e magia!
Cada toque jorra verso
leite do nosso mistério!
Que volte a luz
o cheiro das canelas
como antes, como nunca
como num futuro incerto
Que volte a zoada do vento,
no trinco da nossa janela
O calor nas madrugadas,
o roxo da paixão,
o azul da alegria!


Quem provoca,
nem sempre tem coringa na manga
Mas tem manga no pé,
do pomar de outubro!
E tem pano pras mangas?
Com vestido decotado,
o sol castiga...
e ninguém é santo!


O mal é viver de mãos dadas
com o passado esgotado
Se ele persiste,renove-o!

Nesga do olhar

Fácil identificar você com uma festa

Teus textos te desnudam

Fecho os olhos e deixo aberta a fresta

Vejo tua pauta escrita na tela

nua , tímida e bela

Festejo teu desconhecido

solto em degraus

para chegar até você

Sigo o teu mapa

Com minha nesga de olhar

Tua poesia despida

Não se intimida.

Sobre ela,repouso o meu olhar!
Na face escorrem,

em cacos de lágrimas,

luas na lágrima a orvalhar a terra ..

Se fossem sementes,

flores de lua ,

da terra brotariam!


Tenho tanto papel em volta.

Dá pra fazer sapatos, vestidos ,

e até um barraco de papel e papelão.

Mas se chover

se desfará em letras pelo chão!

Antes do carnaval

Quando um busca, encontra!

Um andar pára...

Um silêncio se quebra em duas vozes


E tudo que não existia passa a acontecer,

se um dia começar de novo a correr!


Casa abandonada , ervas no jardim


telha de vidro, fresta de luz ,


resto de lenha para acender a chama


da paixão infinda ...


Por um atalho, volto ao teu quintal ,

em baixo da tua copa , antes do Carnaval!

Viver e sonhar

"Com quem sonha o Saci?


Saci, com quem será?


- Eu sonho com duas pernas


saltando de lá pra cá... "


A gente sonha com o que não se tem...


E se na vida, algo nos falta...


nos sonhos ,tudo se completa!


Mas, por que sonhar à toa?


"VIver é melhor que sonhar..."


As vezes estou cansada de viver...


mas o sonho não pesa...


É transporte em Delta


pro Alfa da alegria!



Estrada do verso





A vontade de amar



busca a unidade do eu fragmentado



Uma estrada curta em cada breve vida



De tão intensa,



paixão resolvida,comprende amor



Acontece da noite pro dia...



numa aurora-madrugada,num verso achado...



Nada em pedaços...



Inteireza contida,ora revelada!



Chave e fechadura ?



Só falta arrumar a casa ...



Corpos de papel,barraco de versos



Se chover ,vai molhar letrinhas



E a permanente vontade de secá-las



decantando o amor inverso



em versos cristalinos!

Lembranças

Dia amarelo

Se puder podá-lo...verde ficará?

Mas, verde é a cor do fel...

Preciso do vento,

que faz a árvore dançar...

bate em meu rosto,

resseca-me a boca,

enxuga o suor

do meu caminhar.

Tudo acaba em lembranças?

Porisso há dor,

quando fecha um círculo ...

Mesmo que botões,

perfilem, o desabrochar!

Não nasci pérola...

Por que me sinto ostra?

A falta de cortinas

continua me fazendo madrugar

telhas de vidro ofuscam a vista...

Falta energia nas lâmpadas do meu corpo

Minha veia poética, mesmo obstruída,

me protege da solidão.

Sem sair da trilha,

cumpro o meu destino...

O bem-querer é mais terno,

quando libera a paixão?

Nas noites tenho a lua,

que nem precisa falar...apenas brilha!

-Parece uma foto de Buda!

Preciso ir à luta...

Com a garra de uma jovem

e a parcimônia adulta !

Estou em casa

No trecho, em que vivi minha infância encantada:

Pais,avós,bonecas,doce no tacho,

primeira escola,primeiro livro de estória...

O cheiro da "Pedra Lavrada"

é de chuva, , macaúba , manga-rosa...

Que mistura maluca!

Sons na vitrola...

Orlando, Emilinha Borba...

Folguedos na calçada...

Tardes rosa...cor de Aurora!

Cadeiras na calçada, colo de avó,mimos de avô,

assobio de pai,bolos de mãe : pão-de-ló e palmatória!

E o tempo passa...

como o doce do pirulito...

Dissolvido, findo!

E assim , o cabelo fica gris ...

Como as tardes solitárias,

queixosas e saudosas...

-Tudo , em meu coração descansa!

..Vida de aposentada



Vida de aposentada cria uma rotina particular.



Encaixes de atividades impossíveis , num tempo de trabalhador ativo :

Conjugação do verbo " blogar" ! Sem intenção de ganhar.

A não ser a leitura compulsiva do presente e releitura do passado ,

antecipando um destino mais sensível ou talvez mais esquisito.


Vivam !

Cansem as vistas com novas paisagens; e as pernas com caminhares.

Fiquem tortos e calejados , na condução de sacos, pacotes e malas.

O futuro nos encontra, antes do dia.


Uma ruga a mais, um sinalzinho novo...

Muitos sinais, pintando o nosso corpo.

Cansaço crônico para vencer desafios.

Perda da ingênua confiança de acreditar em todos.

Fartura nos comes, bebes, fumaças ,e tentativas de restauros.

Saudades sem carências.

Tudo quase pronto.

Tudo quase nu , nas intenções .

Amor por todos.

Ódio nenhum !



veículo do pensamento

qualquer sentimento

me faz chegar lá


entro em sintonia

sinto frio

me aconchego na palavra

que cala e consente

Sinto a paz

do filho adormecido

e a saudade me inquieta

Bem que dizia minha mãe :

Sinto saudades de você,

pequena,

apesar dos sobressaltos

tosse , pesadelos ...


Mãe ,

agora te entendo !


Sou cheia de saudades

apaziguadas pelo tempo

As pessoas entram minúsculas

e saem enormes

rasgando o coração

onde cresceram


Mas tudo se restaura, se renova

Outros afetos chegam

e a florata do amor recomeça

Coração suspira paz

ausência da dor

na suavidade das lembranças

Gosto de preencher as horas

de muitas formas

e o tempo na medida

entrega de bandeja

alternativas

Vivas !


Bendita solidão

que nos deixa perto de nós

e chama , e chama !

Chama que não se apaga

feito vela de uma era.


Daqui a pouco o dia

de novo acontece

Água fazendo zoada na pia

cheiro de café

e a canção da vida

nas buzinas

de quem apressa caminhos.


Desacelero o tempo

e paro num momento ...

momento que chega do futuro

"Olá, como vai"?


"Deus está no meio de nós..."

Creio ,sim !

Mas não gosto de rituais

nem de música gospel.

Sou filha da lua e do sol

Irmã de quem me ilumina !

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Na beira do Apa



Na beira do Apa
tinha uma casa rosada
Onde Marina morava,
Bonita, sem batom!

Na beira do Apa
tinha um pé de manacá
debaixo dele eu fiava
amava e olhava as águas
no turbo turco de um olhar.

Na beira do Apa
a vista era de amizade
uma ponte separava
solo nosso e paraguaio.

Na beira do Apa
uma guarânia ou o Floyd
no bar Getúlio tocava.
A Baby de Bela Vista
fazia doce de abóbora
com ela e os seus filhotes,
comia sempre uns pedaços.

Na beira do Apa
o sol, o céu, estrelas e luas
Não tinham nação, nem noção...
Da saudade que eu sentia
do meu antigo torrão.
.
Um amigo cantava "Marinalva”
Tocava "Mercedita”
florzinha singela,
lembra bem aquela época
onde o tempo era harpa!
(SocorroMoreira)


Quando desligo o telefone
Percebo que permaneces em mim
O som passeia nos meus sumidouros
acorda sentimentos e instintos
me faz desejar o impalpável
aspiro o cheiro que imagino
Entrego ao travesseiro o meu abraço
Fecho os olhos
e sinto teu beijo me fazendo cócegas

Amores Clandestinos


O filme “Amores Clandestinos” fez sucesso , nos anos 60. Vinha bem a calhar, dentro do contesto da época.Depois de comprar o ingresso, passar pelo porteiro, delegado de menor, entrava na penumbra da sala, e esperávamos o apagado de todas as luzes.
O único que conhecia todos os segredos ocultos era o Lanterninha. Focava cadeiras vazias, e focava por “descuido” aquelas ocupadas pelos casais, justo, os que fugiam da luz... Dos olhos da família, do preconceito social, e da própria timidez.
Tinham naturezas diversas, posto o dito: amores impossíveis, amores nascentes e crescentes...Amores dos amasses ( puro cheiro, puro sarro)...Amores tímidos, ingênuos e trêmulos ; amores despudorados, explícitos na “safadeza” do poder hormonal...Todos eram instigados , pela cumplicidade de um escuro técnico.
Muitas “pernas gordinhas”, (como a canção do Tiago Araripe), molhadas, sedosas, balançavam pés nervosos. Beijos de língua, de pescoço, de outras partes, outros pedaços do corpo... Como mãos, e bochecha do rosto!
Enlevada no enredo do filme, desligava-me da terra. , mas perdia meu olhar, muitas vezes, na doce tensão da espera.Um dia, ele chegou, e sentou-se numa fila adiante de mim. Encostou sua cabeça numa peruca canecalon, loura com a da Marilyn... Meus olhos desviados da tela ficaram lá, pregados e chorosos, naquele bandô total, que recebia afagos, e abraços.
Quando a fita anunciou o “THE END”, sorrateiramente mudei de lugar, e aproximei-me mais um pouquinho, pra descobrir na saída, se era azul, os olhos daquela diva.. O moço correu apressado, antes do acender das luzes. Enfim tudo claro! Eram dois olhos morenos. Olhos conhecidos, subservientes, corajosos e apaixonados....
Covarde, o meu gato!Estava lá, a musa de tantos brotos!Era assim, o cotidiano do maior entretenimento da City....
Divertia, aproximava, e escondia.
Transportava os nossos sonhos para o glamour hollydiano. Se não existisse a censura do Bispo, colada no mural do Café Crato, acho que não teria perdido nenhum drama escandaloso, que o cinema ensinava. Mas eu estava lá... Em todos de Marisol. Joselito, Shirley Temple, Walt Disney...Nunca, em “Amores Clandestinos” – (clássico com Sandra Dee e Troy Donahue – trilha sonora - Theme From A Summer Place... Linda!!!).
Namorei sem pegar na mão... Só no roçar dos braços. Mas não nego a presença do tesão, nas orelhas afogueadas. Namorei com cochichos no pé do ouvido. Com mordidas no pescoço, e balas pepper, zorro, ou anis.Namorei com os meus ídolos... Puros, românticos, sofredores, heróicos, belos, e gentis.
No Cinema não faltava: assovios, suspiros, gemidos, choros... Alguns até convulsivos. (Chorei assim, no filme Irmão Sol e Irmã Lua, e até na Paixão de Cristo).
A vida se harmonizava na sala de projeção.
Tempos sem analistas, psiquiatras...Tempos de sessão de risos com Jerry Levis, Cantinflas, o Gordo e O Magro, e Zé Trindade.
O Cassino de hoje é um campo de energia obscura. Ficou apenas o escurinho do cinema, na beleza deteriorada.
Perdemos a cortina grená. O lanterna iluminando a paixão dos casais...Foram-se o misturado dos perfumes, o mascarem dos chicletes Adams, o estouro das bolas do ping pong, na falta do beijo amado.
Era bom, até cochilar de viver, naquele ninho! Nada mais excitante, aventureiro e libidinoso, do que um encontro clandestino, na sessão das 4, no Cine Cassino.
O Lanterninha que ressuscite essa “Cratíadas”, como já fez Zé do Vale, noutro contexto.


Socorro Moreira


Pra você



A Linha e o Linho
Gilberto Gil
Composição: Gilberto Gil

É a sua vida que eu quero bordar na minha
Como se eu fosse o pano e você fosse a linha
E a agulha do real nas mãos da fantasia
Fosse bordando ponto a ponto nosso dia-a-dia
E fosse aparecendo aos poucos nosso amor
Os nossos sentimentos loucos, nosso amor
O zig-zag do tormento, as cores da alegria
A curva generosa da compreensão
Formando a pétala da rosa, da paixão
A sua vida o meu caminho, nosso amor
Você a linha e eu o linho, nosso amor
Nossa colcha de cama, nossa toalha de mesa
Reproduzidos no bordado
A casa, a estrada, a correnteza
O sol, a ave, a árvore, o ninho da beleza

Insigne




Tantas curvas nos separam
Venha pelos ares
Chegue se puder
Fique se quiser
Não discuto com o destino
Encho-me de todas as vontades
que o possível  nos permite.
Quem sabe  estávamos inscritos
e agora fomos convocados?
Quem sabe você sempre foi
o anjo da minha guarda?
Aprendi com a vida
Sou imperfeita no amor
Trabalhemos  pelo melhor
O mais feliz
Com  a certeza  de que nos  merecemos !

Anos azulados


Anos Azulados


Nasci na década de 50, em agosto de 51. Nada existia de plástico, quase nada de enlatados . O doce era caseiro, o parto era doméstico, tudo se comprava na feira, até o rouge das moças, que não eram tímidas!

Mala de feira, geladeira a querosene, água de quartinha, pote de barro, caneca de alumínio, formas de sonhos (salpicados de açúcar e canela) e chupetas de umburana.

Minha primeira caneta foi Parker; mata - borrão, tinteiro, merendeira, goma arábica, farda com avental, caderno de borrão e caligrafia... De tudo isso só ficou o lápis-de-cor para avivar lembranças!

B A BA... Bá! Soletrávamos para aprender a ler, e depois partíamos para o mundo dos Contos de Fada, das Sherazades, dos Ali Babás... Acho que não perdi um conto, de todos os infantis! Quando a biblioteca se esgotava, a gente botava o povo grande pra inventar estórias, mesmo que fossem mentirosas que não terminassem com uma bela festança, e o desencanto dos sapos! Os personagens eram sempre órfãos, pequenos condes, princesas, madrastas, e um lobisomem. Meu sonho maior de consumo era ganhar uma varinha mágica, com o condão de me fazer moça, antes de ser tia; lua-de-mel no casamento, sem viuvez por chamados de guerra, impaludismo, angina do peito, e por aí afora! Foram tantos os pedidos, que vivi a lua por inteiro, e o sol, no pingo do meio dia!

Existiam as radiolas, tocando seus mambos, suas babalús, seus boleros, e samba - canções .

A Usina de Algodão dos Alminos era o nosso relógio. Ainda existiam as sirenes, nas escolas, avisando recreio, hora de cantar um hino, hora de correr pra casa, e se ocupar das fadas! Minha infância foi num mundo encantado, e mal - assombrado... Escapei das varíolas, cataporas, e falsos crupes... Nas mãos de Dr. Eldon (o meu preferido), Tarcísio Pierre, Júlio Felício, Macário, Gesteira, a gente vivia!

As mães também cooperavam com leite do peito, e comida natural... As modistas nos vestiam com tecidos de Anarruga, Lese, Filó, Tule, Organzas, Cambraias, sem dispensar as Chitas, nos dias de quadrilha. Zenira Cardoso marcava os nossos passos com sotaque francês, e energia festiva.

Hugo Linard já tocava acordeom... Era o caçula de todos os músicos! Os demais eram seresteiros, ou faziam parte da Banda Municipal com todos os dobrados da alma!

Festa de Padroeira tinha tontura de carrossel, cheiro de filhoses, e gosto de caldo de cana. Pipocas... Ora bolas! Chicletes Adams ou ping-pong!

Amendoim Torradinho, nos saquinhos ou no vinil... Mesmo que o corpo, ainda estivesse branco, longe da Cor do Pecado.

Ninguém aprendia a ler, sem passar pelo Externato 5 de Julho, sem conhecer Dona Anilda Arraes, Dona Chiquinha Piancó, Dona Rute e Dr. Zé Newton, Madre Feitosa, Monsenhor Montenegro... Sem falar nas freiras do Sta. Teresa, Patronato, que guardavam no internato, as meninas de outras cidades! O Ensino Público era valorizado, e nada deixava a desejar aos Colégios Particulares! Ser professora primária era o pódio da maioria das moças!

As Academias eram nas calçadas, com muito pula-pula , ou pra achar o cinturão-queimado. Os meninos jogavam futebol para entortar as pernas, e as meninas jogavam chibiú para encontrar o equilíbrio, nos malabarismos domésticos!

Quem não teve uma foto "by" Telma Saraiva? Quem não tomou sorvete em Bantim? Quem não usou Angel Face, Cashemere Bouquet, Vale Quanto Pesa, creme dental Gessy, Contourée, Madeira do Oriente, e perfumes da Coty?

Crato das noites frias de junho, dos balões encantados, das amplificadoras e rádios... Tocando "O GUARANI" ou "LENDA DO BEIJO ".

Calcei sandálias pisa-na-fulô, fiz primeira comunhão em traje de noiva, e arranjei os primeiros namorados, desfilando na Praça Siqueira Campos ( com saltos) ou nas procissões (com farda de gala). As tertúlias nas casas de família, os passeios nos açudes e cascatas eram permitidos... Faziam a nossa felicidade!

Tenho lembranças tão antigas, que a minha mãe diz: "Eu tenho é medo que você se lembre da hora em que nasceu". Tava muito escuro de onde eu sai. Precisava da luz desta cidade cearense, e não tive dúvidas: cheguei, sem vontade de partir!

Suspiros





Depois de alguns uivos,
novos suspiros..
E traição existe?
Existe a crudelíssima vida
que interrompe,
o bom da harmonia
A cura da dor
É um porre maior
que o próprio amor!

"Curare”

Doutor,
o antídoto da dor
é a dor?

Sentimento
despido de sonhos
teimoso, vive!

Sem fotografia na bolsa
Sem telefone no bolso
Te ligo, e me ligo
Dia e noite
Noite e dia!

Guerra fria



alma em agonia
o amor acaba,
o conflito fita
Rugas
marcas,
sinais do tempo
fora das fotos
que foram nuas
Olhar fugitivo
amor esquivo
perdido e esquecido,
na primeira mágoa
no primeiro instante
-Vinho envelhecido ,
me aguarde!

Triângulo Natural


Triângulo natural
O mar banhou-me com seu olhar
Nuances de azul e verde
espumas num delírio contido
Areia batida, salgada de mar
sereno tempo
Nublada vida
Ares desobstruídos
Vôos inalcançáveis
Compromissos cancelados,
antes de um veredicto.
meus pés pousam em terras desconhecidas,
mas não se atrevem a trilhar novo caminho
Fixo-me na linha do horizonte,
e na terra eu finco a vida.
Pensamento foge da morte
Brinca no mar...
Busca o céu que habitas.



E SE EU TE PEGAR, NO SENTIDO DO ALÉM?

E se eu te pegar com os olhos
Trazer-te pra dentro de mim?
Mostro o luminoso e o assombroso
Que a Pandora soltou, e ficou em mim

E se eu te tocar em todas as tuas letras
E com elas compor, uma nova sinfonia?
E, na hora “h”, descobrir no “g” do teu “x”,
Que sou o “z” da tua vida?

“Vês”? Meu “cê” é teu...
Eu "te" aprendi, nos "erres" da minha língua!
Meus médicos, nossos médicos !

Se é pra homenagear médicos, cada um tem os seus. Eu procuro viver sem procurar a doença , mas a gente tem que viver é sem provocá-la. Do tempo que eu nasci até 1975 só conhecia um doutor : Eldon Cariri. Depois que voltei, ele estava aposentado, e fiquei aos cuidados do Dr. Zé Flávio. Mas o Crato sempre rendeu bem , na área da saúde, tendo em vista a qualidade dos seus profissionais.Hoje o médico de família foi substituído pelos diversos especialistas.

Não posso esquecer as corridas que a minha mãe deu para Dr.Tarcísio Pierre, Dr Humberto Macário, Dr.Luciano Brito, nas nossas crises de garganta, nas suas crises de vesícula , e nos pequenos dodóis dos meus filhos, quando eram crianças. O Victor( meu menino do meio) é tão estudioso, que na maioria das minhas indisposições , permito que me cuide. Guardo os males maiores para a perícia incontestável do meu amigo e médico Dr. Zé Flávio.

A saúde, bem tão precioso , sem dúvidas , depende mais dos nossos hábitos de vida do que do péssimo atendimento público . Saúde no Brasil , se você não pagar caro por ela , pode mesmo morrer à míngua , como dizia minha avó , que era cliente de dois médicos de antigamente : Dr. Macário e Dr. Gesteira.

Imagino que, se eu comer e beber com disciplina e parcimônia, praticar alguma atividade física , evitarei os males que nos pegam de surpresa, mas que vivem latentes, no nosso organismo. Mesmo quem é portador de doenças graves , mas controláveis, pode ter qualidade de vida, e longevidade.

Acho que esse arrodeio todo foi pra expressar o meu carinho especial por Dr. Eldon, a quem muito considero, que me fez falta, e de quem sinto uma grande e terna saudade. Felizmente continua vivo e ativo. Estudiosíssimo , e paciente, sempre resolvia os nossos casos com sabedoria. Preciso fazer-lhe uma visita qualquer dia. Uma amiga próxima me contou que, depois de aposentado ele começou a estudar grego, tocar piano, e navegar na internet. Às vezes nos encontramos , e é sempre um momento de emoção.Nem vale ficar falando...Abraços a quem está vivo, e mora no Crato, eu posso fazê-lo , pessoalmente.

Quando ele chegou no Crato ,depois de formado ,tinha como especialidade a Pediatria. Foi meu primeiro médico. Um dia chegou para visitar-me a chamado da minha mãe, que desconfiava que eu estava com crupe. Na realidade era um falso crupe. Eu tinha dois anos e lembro do fato, perfeitamente. Ele me examinou, e falou: Maria do Socorro , eu quero ouvir sua voz. Eu pedi a minha mãe que armasse uma rede. Comecei a empurrar o pé na parede pra impulsionar o balanço, e cantei em toda altura ( roucamente) uma canção que estava em voga : Índia. Ele achou muita graça, claro !

Depois especializou-se em obstetrícia , e ajudou a nascer todos os meus irmãos , os meus filhos e sobrinhos. Todo mundo da minha família tem um caso de amor com aquele doutor. Porisso , devemos-lhe tanto !

Que Deus proteja a sua lucidez , por muitos e muitos anos.

Que deus ilumine a administração pública do país , no sentido de priorizar a saúde , valendo-se da sua competência e sensibilidade. Nem todo cidadão comum, em tempo algum, tem condições de pagar um plano de saúde ,que lhe garanta atendimento integral.

Da minha parte sou feliz e segura , nas mãos do Dr. Zé Flávio.

Insone




Um movimento insone
Um jeito insano de varar a noite
Eclipse mental
Ensaios de luz
Holografias ?
Eu pensei , você chegou !
E a sinastria ?
A intersecção é o conjunto União
Um diagrama luminoso como a lua cheia.
- Os elementos são estrelas !

Versos são pingos do céu
na minha rosa calma
Dançam nas entrelinhas
Acalmam sentimentos
Mergulham paixão dentro de um tempo
Escapam do momento sem perdão.

Meu pedaço de rua

"Se essa rua fosse minha, eu mandava ladrilhar..."

Uma travessa entontecida ,

quando fico de lá pra cá

É quase o fim e o começo

É esse , o meu endereço.


Daqui avisto a Igreja

Escuto o badalar dos sinos

A voz do Padre
A reza dos fiéis
Daqui não saio

Daqui alguém me tira

Um dia

No amanhecer ou entardecer.


Agora é hora do ângelus

O silêncio é fato

O astral é fado.

Todo mundo se entoca

Pra tomar café

Pra ver TV

Ou pra fazer o quê ?


Cada pessoa que passa

É como um ovni

Capto o sinal de vida

Sinto-me abduzida

Por essa fauna,

que parece flora

E o meu pensamento colhe !


Deus do céu

Protege essa tarde morena

e silenciosa
Protege os passos e pensamentos

De quem por ela corre

Lenta, absorta

ou devotadamente

Pérola


Uma pérola...
Nem é negra, nem é dela
É da ostra que a guarda
É da praia que a espera!