por José do Vale Pinheiro Feitosa
Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.
José do Vale P Feitosa
quarta-feira, 20 de abril de 2011
AURORA MIRANDA - por Norma Hauer
A OUTRA PEQUENA NOTÁVEL, como a cognominou César Ladeira.
Ela foi grande, tão grande quanto sua irmã famosa (Carmen Miranda) mas esta, mais exuberante, mais ousada, quase a ofuscou.
E quem foi ela?
Seu nome: Aurora Miranda da Cunha, que se tornou conhecida como AURORA MIRANDA.
Ela nasceu no dia 20 de abril de 1915, aqui mesmo no Rio de Janeiro.
Depois de Carmen ter gravado "Taí", Assis Valente que também a "descobrira", deu-lhe a marchinha para as festas de São João, de nome "Cai, Cai, Balão", que Aurora gravou com Francisco Alves.
Foi ela quem primeiro gravou "Cidade Maravilhosa", em dupla com o autor (André Filho).
André Filho, que já lhe dera para gravar um bonito "Bibelô", ao compor sua
“Cidade Maravilhosa", deu-a para que ela tivesse a primazia de gravar aquele que, anos mais tarde, se tornaria o Hino de nossa Cidade, ainda maravilhosa.
Foram, ela e sua irmã Carmem, as primeiras "Cantoras do rádio".
“Nós somos as cantoras do rádio
Levamos
a vida a cantar
De noote, embalamos teus sonhos,
De manhã nós vamos te acordar..."
Antes de o rádio abrir-lhes as portas para a fama, os cantores populares apresentavam-se em teatros, circos, feiras e qualquer lugar onde houvesse público para aplaudí-los.
O rádio levou-os para as casas desse público e ali, Aurora Miranda desabrochou com sua voz afinada, bonita, parecida com a de sua irmã, mas com personalidade própria.
Ela também esteve em Hollywood. Com as figuras de Walter Disney (Zé Carioca à
frente) foi a atriz principal de "Você Já Foi à Bahia?", "dançando" com Pato Donald e companhia.
Em plenas festas natalinas, ela despediu-se, sem mesmo esperar Papai Noel. Quem sabe ele a levaria para encantar as crianças de outras paisagens? Ou mesmo se transformasse naquela Aurora Boreal tão amada em terras gélidas?
Ela viveu 90 anos, nascida que foi em 1915, no mês de abril (dia 20), sob o signo de Áries, que abre o ano zodiacal. Faleceu no mês de dezembro , mês que fecha o calendário oficial.
Era o dia 23, do ano de 2005.
Norma
Dois lados que se completam - Emerson Monteiro

Essa mania de confrontar, em tudo, por tudo, sujeita encher de tormentas o mar das embarcações, nos movimentos de tornar cinzentas as manhãs até doer nos ossos, a ponto de reverter em drama aquilo que deverá ocorrer de modo sadio, auspicioso. Insistir na tecla de viver em paz consigo e com os colegas chega a parecer teimosia, quando, na verdade, ser alegre e sonhar querendo calma muda o instinto da miséria humana, já que quase esqueceram isso jogado fora, nas ribanceiras do caminho.
Conquanto o mundo às vezes ofereça cantos de carroceria aos circunstantes, a história fala diferente e confirma sequências de acontecimentos suficientes para acreditar nos aspectos positivos, todo tempo. Quanto de heroísmo oculto nos lugares improváveis. Quanta esperança na juventude, nas escolas. Luzes acesas em noites escuras, clareando prosperidades nos céus.
Ver isto, o que a natureza equilibra em forma de organizar condições, nos momentos desencontrados. Olhar aspectos que definam o seguimento das variações, permitindo sorrir e continuar, independente das opiniões contrárias e dos desistentes empedernidos, endurecidos.
Somar pontos favoráveis; significar transposição dos obstáculos, desde que firmes os pensamentos no sucesso dessa longa estrada. Contar, sempre, com as estações felizes, que alternam viagens, no jeito dos alimentos gostosos, repousos e sonos tranqüilos nas madrugadas silenciosas, prazeres familiares e conquistas obtidas. Deixar de fixar os fracassos apenas quais dolorosas perdas, enquanto podem representar lições de esquecer e aprender os efeitos neles contidos. Ninguém, que se preze, repetirá erros dolorosos, no mínimo por instinto de conservação e amor próprio.
A religião de viver elabora, destarte, frutos na casa das consciências, livros abertos da condição das criaturas. Trazer para si dias dourados em jeito de sabedoria. Crescer sobre raízes que estabelecem passos em sentido da formação de novos seres dentro do mesmo ser. Plataformas de progresso. Visões brilhantes, portas abertas ao gosto de conhecer pessoas e descobrir amigos, nas muitas diversas oportunidades. Mundo feliz de existências. Cura de males antigos. Visualizar possibilidades a todo instante, no trabalho, nas ruas, nos pensamentos e sentimentos; estabelecer formulações de imagens mentais qual revelar o mistério da fé nos planos maiores das maiores circunstâncias.
Isto, sim, fomentar mudanças no universo dos objetos de aparentes contradições, no meio das quais circulam pessoas e instintos de satisfação, pois a perfeição dos elementos pulsa na mão tal matéria prima do desejo harmonioso de paz. Gestos e falas que elevam e jamais escondem a eterna força da criação aos protagonistas desta cena, diante do palco infinito das oportunidades, boas e semelhantes às maravilhas.
"Fetiche" - José Nilton Mariano Saraiva
Grosso modo e sem maiores delongas, sob a ótica da Ciência Econômica “fetichismo” seria o artifício de se “dourar a pílula”, valorizando um determinado produto ou mercadoria (aplicando-lhe um caprichado “banho de loja”), agregando-lhe, consequentemente, um valor simbólico ou irreal, calcado na mais pura fantasia, e estimulando, assim, pessoas dos mais diferentes extratos sociais (mesmo aqueles que não têm onde cair morto) a o adquirirem avidamente (pra consumo ou pra presentear alguém), em conformidade com a bem elaborada ditadura do marketing.
O exemplo acabado e perfeito de tal definição se nos apresenta exatamente nesta época de Semana Santa, quando as grandes redes de supermercado literalmente bombardeam os consumidores, via telinha, apresentando-lhes desde o “suculento” processo de produção até a exibição de gôndolas apinhadas de “ovos-de-pascoa” dos mais diferentes e variados matizes, privilegiando: embalagens chamativas e atraentes, tamanhos variados, ovos com com recheio ou não (normalmente um vagabundo “sonho de valsa” de R$ 0,50), e por aí vai. E haja exploração em cima do pobre e indefeso coitado.
E, no entanto, se nos déssemos ao trabalho de friamente analisar a relação “custo-benefício” embutida em transações da espécie, constataríamos a mais absoluta e pura “enrolação”, a desonestidade em essência, bastando para tanto nos darmos conta que uma simplória barra de chocolate, também embalada com esmêro, com o mesmo peso do tal “ôvo-de-pascoa” e de valor nutrivo semelhante, poderá custar a metade do dito-cujo.
Isto posto, não há como deixar de reconhecer que sábio foi o Marx, que lá atrás já profetizara, definitivo: “...o fetiche relaciona-se à fantasia (simbolismo) que paira sobre o objeto, projetando nele uma relação social definida, estabelecida entre os homens”.
E aí, vai um ôvo-de-pascoa, no capricho (de 100 gramas e custando os olhos da cara) ??? Com ou sem recheio especial ??? Quer embalado pra presente ou vai deglutí-lo aqui mesmo ???
Augusto dos Anjos
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos (Cruz do Espírito Santo, 20 de abril de 1884 — Leopoldina, 12 de novembro de 1914) foi um poeta brasileiro, identificado muitas vezes como simbolista ou parnasiano. Todavia, muitos críticos, como o poeta Ferreira Gullar, preferem identificá-lo como pré-modernista, pois encontramos características nitidamente expressionistas em seus poemas.
É conhecido como um dos poetas mais críticos do seu tempo, e até hoje sua obra é admirada tanto por leigos como por críticos literários.
A árvore da serra
— As árvores, meu filho, não têm alma!
E esta árvore me serve de empecilho...
É preciso cortá-la, pois, meu filho,
Para que eu tenha uma velhice calma!
— Meu pai, por que sua ira não se acalma?!
Não vê que em tudo existe o mesmo brilho?!
Deus pos almas nos cedros... no junquilho...
Esta árvore, meu pai, possui minh'alma! ...
— Disse — e ajoelhou-se, numa rogativa:
«Não mate a árvore, pai, para que eu viva!»
E quando a árvore, olhando a pátria serra,
Caiu aos golpes do machado bronco,
O moço triste se abraçou com o tronco
E nunca mais se levantou da terra!
Por Dentro - José do Vale Feitosa
Que dor é esta? É dor doída e nunca fica roncha.
Ocupa toda pessoa e não está em lugar nenhum.
É dor que vara dum lado a outro do peito e não aparece buraco algum.
Num tem meizinha, reza de rezadeira, colher de açucareiro, é dor que queima feito mel fervente no tacho.
Dor de esquina, é como inteiro apartado, é um pedaço que falta onde nunca se deu conta.
É dor cheia, ocupa todos os limites do continente.Mas, também é dor de vazio, as águas de um riacho seco.
Dor de espírito buliçoso, nenhum canto é suficiente para lá se encontrar.
Parece mesmo é raspa de juá, faz espuma, clareia os dentes, para depois mascar fumo.
Dor de arribaçã, voando para pousar bem em frente da espera do caçador.
Dor de trânsito engarrafado: pára onde era para andar, anda onde era para dobrar.
E com tudo isso dito, continua esta dor sem explicação.
Quando a vi pela primeira vez, senti uma dor cá dentro de mim.
Apalpei-me e a dor não estava no corpo. Fixei meus olhos em busca daqueles e a dor era ela.
Uma dor de urgência.
Que o fluxo do tempo não se desse sem que me ouvisse sobre a agonia que a sua existência em mim causava.
Era linda? Mais ainda. Era luz? Cegava sem a perda da visão dela.
E o chão parecia uma onda gigante, na Praça da Sé, girando com todos os sanfoneiros e zambumbeiros dos sertões, num samba zombeteiro da emergência sem socorro.
E uma palavra poderia aplacar aquela dor sem solução, mas tudo em volta se movia como roubando toda a energia do ambiente.
Especialmente daquele estado acelerado, quando a dor é uma sentença da plenitude do aqui e agora.
E das minhas cordas vocais grunhidos saíram, grunhidos roucos, abafados, fugidios, em cascata, fazendo um turbilhonamento nas palavras.
Ela franziu o cenho em primeira mão.
Minha agonia acelerou ainda mais as sílabas, que saltavam em torno dela como a metralha de projéteis de plumas de algodão, com caroço e tudo.
Tenho a impressão que terminaria aquele ato transformado num saco vazio se não percebesse a tempo uma leve vírgula de botão de rosa pelo canto direito de sua boca.
Acho que a breve história daquele átimo de tempo me salvou quando já estava a ponto de me levar por aquela dor.
Depois o outro canto da boca se fez um roseiral. Os olhos me receberam com uma aceitação que jamais imaginei merecer.
Nunca imaginei que fosse possível ver as abas do nariz se afastarem e abrir um riso franco de satisfação.
Estava como ganhador da loteria numa chance em milhões. E daquela riqueza toda o mundo me fez milionário.
Deu-me muito mais que jamais ousei lutar. E sigo assim....com esta dor que não sei o quê é.
Uma dor de urgência. Que nunca se acaba.Ainda mais se a causa não está.
Roupa no varal - por socorro moreira
A chuva voltou
Trouxe sementes do frescor
Umedeceu minha samambaia
Deixou molhada a roupa do varal
Minha poesia é fungada
Preciso tratá-la...
Interna e ternamente !
As lembranças deixaram de me inquietar
O presente me chacoalha,
me faz tirar leite de pedra,
e com esses pingos, sobrevivo !
Expiro fumo
Aspiro vida sem conflitos
Tudo claro, e nisso me abstraio.
Apago o cigarro,
e com o isqueiro ativo a minha história
Manhã clara de abril
Coração sonolento
Corpo querendo viço, sem petisco !
UM DIA PARA O ÍNDIO
Oswald de Andrade
Canoa, Canoa
Canoa canoa desce
No meio do rio Araguaia desce
No meio da noite alta da floresta
Levando a solidão e a coragem
Dos homens que são
Ava avacanoê
Ava avacanoê
Avacanoeiro prefere as águas
Avacanoeiro prefere o rio
Avacanoeiro prefere os peixes
Avacanoeiro prefere remar
Ava prefere pescar
Ava prefere pescar
***************
![]() |
| Rondon... primeira tentativa |
UM ÍNDIO
(Caetano Veloso)
E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
Surpreenderá a todos, não por ser exótico
Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
Quando terá sido o óbvio
******
"Deixa o índio vivo no sertão
Deixa o índio vivo nu
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa, deixa"
Música:
Borzeguim de Tom Jobim
*********

Cariús... Crateús...
Cariris não usavam fuzis
Desterrados de seus potes
Serão revisitados
E revelados
Guerreiros
DA
MORINGA
PARA
COIMBRA
........................
Desterrados de seus potes
Serão revisitados
E revelados
Guerreiros
DA
MORINGA
PARA
COIMBRA
........................
"Tupi, or not tupi that is the question"
Oswald de Andrade
Hoje é dia de Índio
Que importância tem?
"Tupi, or not tupi that is the question".
"Tupi, or not tupi that is the question".
Eles não fizeram revolução!
Apenas ensinaram o branco imundo
A tomar banho, a dormir de rede
A respeitar as crianças...
Restaram alguns outros
...VÁRIAS FORAM AS ALDEIAS
JÁ EXTINTAS NO BRASIL
ALGUMAS JÁ TINHAM
EM SUAS LENDAS A HISTÓRIA
DE SUA PRÓPRIA EXTINÇÃO...
...A V Á - C A N O E I R O S ...
A grande maioria de nossos foram enterrados
na curva de um rio...
Tio Sam que o diga!
A grande maioria de nossos foram enterrados
na curva de um rio...
Tio Sam que o diga!
Ulisses Germano
terça-feira, 19 de abril de 2011
CRÓNICAS FRANCESAS (I) - Por Barbosa Tavares
Num daqueles plúmbeos e ensimesmados dias, em que a alma rodopia em torno das cogitações vividas, dei comigo a debulhar as minhas imberbes e contristadas convoluções francesas.
Meu pai, tocado pela mais protectora das intenções patriarcais, dizia-me numa voz sombria a roçar o fatídico: "Olha rapaz. Eu andei na tropa, em exercícios, todo molhadinho, roupa colada ao corpo, a rastejar e era tempo de paz. Escreve ao teu tio que te arranje um contrato de trabalho e vai para França."
Num domingo aziago, no longínquo e desditoso ano de 1965, surgiu um engajador de recente extracção luso-gaulesa na tabernória da qual meus pais retiravam um terço da magra côdea da vida — os outros provinham de um salário de guarda nocturno e do amanho esmerado de um quintal, na ruela das Cancelas, pertença de uma senhora donairosa, de rosto luzidio e açafroado, eternamente vestida de luto.
Da terra acarinhada, brotava fertilidade a rodos: legumes, hortaliças vicejantes que minha mãe carregava no dealbar da matina rumo ao mercado. Na véspera relembrava-me, com a tónica colocada no meu dever filial "Rapazinho. Amanhã no quintal, sete da manhã, para me ajudares no carrego."
Confinava esta quintarola, arrendada a mil e duzentos escudos ao ano, com a casa de um dos irmãos Pachachos, nome terno como a terna simplicidade de quem calcorreava descalço as veredas da vida, invocativo de extrema humildade, paciência e carro de bois gemicante no seu chilrear, atrelando cargas de areia, lenha e sacos de milho, na serena pacatez da tarde modorrenta.
Revejo-me neste cenário das sementeiras, regadios e colheitas, ajudando meu pais. Nas manhãs de Inverno, uma geada finíssima resplandecia cristais de sol sobre a horta e das couves desprendiam-se gotículas orvalhadas.
De mãos regeladas, eu ateava uma fogueira para aquecer num enorme latão as nabiças, couves e farinha com que os bacorinhos — enlevo e orgulho de meu pai — germinavam a olhos vistos, saboreados na antecipação dos rojões, vinha-d'alhos e lombos arrecadados na salgadeira.
Vinha o António Maneta, homem enxuto de carnes, lépido e aligeirado no andar da vida, senhor de, pelo menos, quatro ofícios, a saber: lavrador, manobrador exímio da carreta funerária, engraxador domingueiro e adestrado matador de porcos.
Estou a vê-lo: de fato azul escuro, camisa domingueira, bigode farfalhudo e gravata escura a rigor, no campo do sagrado silêncio. Movia-se lesto entre filas de mármore, buxo estatuetas de santos e jarros ornados a esmero, floridos na saudade que os vivos tributam com doçura aos seus finados.
Engraxador aos fins de semana, adestrado matador de porcos, sempre que o meu pai lhe solicitava, munia-se do seu facalhão, fincava destro e certeiro o pobre do bicho. Num repente o animal surgia vertical e pendente do chambaril, com um fio de sangue coalhado no focinho.
Nesse tal domingo, na dita tasca onde os homens consumiam a tarde a bebericar entre tremoços, pevides, alarido e comoção do relato da bola, o tal figurão decidira-se pelo malfadado ofício de engajador de almas mitificadas no sonho francês, urdido e tecido nos penosos salários da época.
Exímio e sagacíssimo meliante na sua juventude, mais temido que respeitado, aparentemente regenerara-se, abrindo uma barbearia. Mais tarde, vagamundeara pelas Franças e Araganças, sucumbindo, segundo se constou, vítima da sua audácia, em condições deveras trágicas.
Habilmente, convencera meu pai, com a sua finória e refinada lábia de malabarista dos incautos, que o meu futuro residia além Pirinéus.
Aproveitando a vinda a Portugal para levar um sobrinho de "assalto" — felizmente vivo e são na terra Ílhava — testemunha ocular desta e outras peripécias, eu serviria de muleta no financiamento da aventura pirinaica.
Meu pai, impregnado na sua boa fé de salvar o filho dos horrores da guerra, crente que lhe daria os utensílios celestiais da salvação francesa, desembolsaria cinco lustrosas notinhas de mil escudos, equivalente ao salário de três meses de um bem instalado funcionário público da época.
Sobre uma mesa quadrada de mármore, com uma tolha de linho pintalgada a pontinhos vermelhos e farinha poalhada das padas de Vale de Ílhavo, uma bilha de barro rústica e tosca debruada a listas azuis — ainda existente — amendoins, tremoços, pevides e dois copos do vinho tinto, seria gizado o meu destino.
De uma penada, eu escapulia-me aos tentáculos da guerra, amealhando rendoso pé de meia no recém_mítico eldorado francês.
Brampton, Setembro 2005
MUITO ANTES ... - Por Rosa Guerrera
MUITO ANTES de plantares uma árvore , verifica se o terreno é fértil.
Muito antes de colheres uma rosa , cuida que os espinhos não vão ferir teus dedos.
Muito antes de navegares no azul do mar , presta atenção se não existem correntes traiçoeiras que possam afundar tua embarcação.
Muito antes de provares o fruto , vê se no seu interior não existe uma morada de vermes.
Muito antes de admirares o sol, olha se nas nuvens existe algum sinal de tempestade.
Muito antes de ofertares o carinho e a confiança , escuta o que te aconselha a razão.
Muito antes de procurares Deus nos templos e nas igrejas , vai até o teu coração ... Por certo irás ENCONTRÁ-LO sempre a tua espera .
Quando tudo isso se fizer presente na tua estrada , encontrarás e saberás viver um grande amor!
SER "NORMAL"
“E aqueles que foram vistos dançando, foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música" ( Friedrich Nietzsche)
NORMOSE - A doença de ser normal
"Todo mundo quer se encaixar num padrão.
Só que o padrão propagado não é exatamente fácil de alcançar. O sujeito "normal" é magro, alegre, belo, sociável, e bem-sucedido. Bebe socialmente, está de bem com a vida, não pode parecer de forma alguma que está passando por algum problema. Quem não se "normaliza", quem não se encaixa nesses padrões, acaba adoecendo. A angústia de não ser o que os outros esperam de nós gera bulimias, depressões, síndromes do pânico e outras manifestações de não enquadramento.
A pergunta a ser feita é: quem espera o quê de nós? Quem são esses ditadores de comportamento que "exercem" tanto poder sobre nossas vidas?
Nenhum João, Zé ou Ana bate à sua porta exigindo que você seja assim ou assado. Quem nos exige é uma coletividade abstrata que ganha "presença" através de modelos de comportamento amplamente divulgados.
A normose não é brincadeira.
Ela estimula a inveja, a auto-depreciação e a ânsia de querer ser o que não se precisa ser. Você precisa de quantos pares de sapato? Comparecer a quantas festas por mês? Pesar quantos quilos até o verão chegar?
Então, como aliviar os sintomas desta doença?
Um pouco de auto-estima basta.
Pense nas pessoas que você mais admira: não são as que seguem todas as regras bovinamente, e sim, aquelas que desenvolveram personalidade própria e arcaram com os riscos de viver uma vida a seu modo.
Criaram o seu "normal" e jogaram fora a fórmula, não patentearam, não passaram adiante. O normal de cada um tem que ser original.
Não adianta querer tomar para si as ilusões e desejos dos outros. É fraude. E uma vida fraudulenta faz sofrer demais.
Eu simpatizo cada vez mais com aqueles que lutam para remover obstáculos mentais e emocionais e tentam viver de forma mais íntegra, simples e sincera. Para mim são os verdadeiros normais, porque não conseguem colocar máscaras ou simular situações.
Se parecem sofrer, é porque estão sofrendo. E se estão sorrindo, é porque a alma lhes é iluminada.
Por isso divulgue o alerta: a normose está doutrinando erradamente muitos homens e mulheres que poderiam, se quisessem, ser bem mais autênticos e felizes."
(Michel Schimidt Psicoterapeuta)
Pincei nos comentários !
Stela disse...
Dá vontade de sair postando um monte de poemas de Bandeira.
Gosto muito do poeta!
"Estrela da vida inteira
da vida que poderia ter sido
e não foi.
Poesia
minha vida verdadeira"
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor
Imagino Irene
entrando no cèu
- Licença, meu branco.
E São Pedro bonachão:
- Entre Irene,
você não precisa pedir licença.
Vou-me embora pra Pasárgada
que lá sou amigo do rei
..............
Vesper caiu cheia de pudor da minha cama....
Café com pão café com pão
Virge Maria, que foi isso maquinista?
.......
quando me prenderam no canaviá
cada pé de cana era um oficiá
................................
E Evocação do Recife?
E A Morte Absoluta?
E Alumbramento ?
Belo, belo
???
Saí digitando aí os versos decorados, por isso os versos podem estar ligeiramente desarrumados.
No entanto, mais vale meu amor pela poesia de Bandeira!
Stela Siebra
GETULIO DORNELLES VARGAS- Por Norma Hauer
Hoje seria o aniversário de GETULIO VARGAS.
Foi Ditador ? Foi !
O trabalhador, o "povão" não sabia disso. O que ele sabia é que antes seria demitido sumariamente, de qualquer emprego e depois da criação das leis trabalhistas passou a ter "direitos"
Getulio não foi eleito; assuimiu o Poder na "marra".
Mas quem o foi ? Julio Prestes (o que ganhou mas não levou) ? Wasghinton Luiz; Arthur Bernardes ? e todos que vieram antes destes.?
Havia eleições? Sim!
Mas quem votava? Somente uma oligarquia tomava parte em eleições farjutas. O povo, o trabalhador, a classe média, o pobre...Esses sabiam que um "presidente" fora eleito através dos jornais ou pelo amigo mais esclarecido. Eles votavam ? Claro que não!
Também Getulio prometeu mas não realizou eleições; precisou ser deposto para que, pela primeira vez em nossa História, houvesse uma eleição de verdade, que foi realizada em 2 de dezembro de 1945.
Era tão grande, ainda, a popularidade de Getulio que lá do Sul, ele disse "Votem em Dutra!" e este foi eleito.
E porque?
O Brigadeiro Eduardo Gomes tinha o apoio da oligarquia, mas a mentalidade do povo "pós Getulio" predominou e, de tal maneira, que 5 anos depois Getulio voltou eleito.
A partir de sua nova "deposição" (do Governo e da vida) embora já haja transcorrido mais de 50 anos o que hoje se vê (depois de outra ditadura ) ´é o que está constantemente nos jornais e daí tiramos nossas conclusões sobre o que representa a data de hoje.
Norma
À distância-Por Rosemary Borges Xavier
A felicidade brilha como uma estrela mesmo estando longe dos nossos olhos. E logo o sentimento se transforma em saudade, entretanto, é bom tê-la, pois sentiremos que a vida estará sempre por perto, com toda sua esperteza, delicadeza, sutileza e nobreza. Uma feliz páscoa a todos.
EU NASCÍ ASSIM ... - Por Rosa Guerrera
Quem de nós não vive rodeado de lembranças ? Quem não se reveste diariamente em esperanças ? Faz muito tempo entendi que a esperança é o único sentimento dentro desse complexo chamado “ vida “, que se encontra no processo regressivo e no movimento progressivo do desejo de cada um Afinal o que somos senão peregrinos vindos de terras distantes onde fomos praticantes de virtudes e erros , onde cantamos as mesmas canções de hoje , e choramos as mesmas lágrimas de ontem. É pura insensatez , acredito , querermos penetrar o Universo daquilo que foi vivido e do que permanece agora , pois iríamos sempre voltar ao ponto de partida. . E é dessa maneira que costumo me situar dentro da própria vida . Sem análises, sem sofreguidão, ora destemida , ora preguiçosa , sem planos edificados , alheia aos caducos e falidos padrões impostos por regrinhas criadas por pessoas que se auto denominam de sábias , e que lá no âmago não passam de frustradas por culparem a vida da própria incapacidade em não saber vivê-la.
E dentro desse meu pensar e viver meio maluco, já deixei faz muito tempo de guardar mágoas ou colecionar erros cometidos . Quando me atiram tijolos, construo edifícios .
Quando me presenteiam limões , aproveito para fazer um gostosa limonada ! E assim nessa mistura do vivido, da verdade do hoje e com aquela pontinha de esperança para o amanhã , eu carrego na bolsa a minha carteira de identidade . E não tenho nenhuma inibição em mostrá-la a quem quer que seja . Ser reconhecida ou não como cidadã livre ,sem papas na língua , sem condecorações no peito , e sem vergonha de ainda sonhar .....cabe a cada um , a maneira de me aceitar . Eu nasci assim ....vou morrer assim ..... fazer o que ? .!
rosa guerrera
POETA MANUEL BANDEIRA - 125 ANOS, HOJE 19 DE ABRIL
Belo Belo
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Tenho o fogo de constelações extintas há milênios.
E o risco brevíssimo — que foi? passou — de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia adentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos.
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
— Quero a delícia de poder sentir as coisas mais simples.
Liturgia dos Olhares de Esquina - por José do Vale Pinheiro Feitosa
Andei pelos caminhos da política. Na planície em que as partes de afastam.
E ela dizia: poesia.
No contraste entre o vale e as montanhas. E ela publicava um poema.
Quando eu dizia disputa, ela versejava.
Se falasse em vitória, ela rimava.
E quando disse movimento, ela colhia uma flor de maracujá peroba.
No alto da Chapada do Araripe.
Daí, nesta manhã, o encontro na rua Jardim Botânico:
Nossos olhares separados,
Na esquina de cada lado,
Com mel todo esparramado,
O dela no outro perfumado.
Meu olhar descobriu,
O dela, num lance, seduziu.
Enquanto o sinal nos separava,
Meu olhar ao dela se juntava,
Em simbiose digestiva,
O meu intrusivo,
O dela eruptivo.
O verde moveu os olhares,
O meu? Farol de milha!
O dela, véu em oração.
Passou de pálpebras abaixadas,
Toda exposição de corpo nu,
Assim como sempre fazem,
Na distância nos laçam,
Perto, trêmulas se acalmam,
Por meu olhar em ebulição,
O dela, guia da liturgia da fusão.
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