por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Infância



Ela acordou em 1959 aos 7 anos de idade.Morava num sobrado de família bem apanhada. Sabia que não era rica , mas tinha vida de princesa. Vestido de organdi e meias de seda. Tinha bonecas, livros de história, e uma coleção de fitas pro cabelo.Sua mãe era linda e triste. Parecia esconder mágoa ou segredo. Seu pai era boa pinta, gostava de desenhar , e cantava lindamente , no banheiro. Tão criança, e já apaixonada por um primo de 10 anos. Francisco estava por lá de férias, acompanhado pelo pai , irmão da sua avó. Ele jamais saberia ,ninguém jamais saberia , mas seu coração começou a bater mais forte.

A discoteca da casa era diversificada, mas só tinha coisa boa, coisa de muito bom gosto. Naquela manhã de domingo , Doris Day estava na agulha, cantando "que será será' ( Whatever wil be, will be).Tinha lido na Cinelândia, que a música era trilha sonora do filme :" O homem que sabia demais".Filme impróprio para crianças daquela idade, mas a música estava ali , no seu ouvido, entrando livre e maravilhosa !

A casa era enorme, e possuia muitos esconderijos. Sua avó sempre a encontrava . Vinha com um romance pela metade , debaixo do braço, e lhe pedia para ler, em voz alta, mais alguns capítulos - a história do "Moço Loiro"( Joaquim Manoel de Macedo) . O nome do personagem feminino era Honorina , mas ela achava que era "Mirtô" ( "... O ponto culminante, no entanto, situa-se quando, ao beijá-la, o moço rouba .... A fronte não cingi de *mirto e louro. Antes de verde rama engrinaldei-a ...")

- Vó, quando eu me casar, e tiver uma filha mulher, o nome será Mirtô. O que acha ?
- Mirtô é um nome lindo, e raro. Boa escolha !

-Mas existirão condes, herdeiros de castelo, ou posso casar-me com qualquer menino que toque bem acordeon ou realejo? Quero casar-me com alguém que toque todas as canções do mundo; que não precise sair para trabalhar; que fique brincando no jardim de criar rosas, e leve-me para o cinema todas as noites. Não quero perder uma película sequer... Quero assistir a todos os filmes proibidos, e tem mais : quero viajar de avião por todo o mundo, conhecer a Praia de Copacabana, Paris, e a Bahia de São Salvador. Não é lá , que a gente compra cocada , num taboleiro de damas ?Pois eu quero !

E a água de coco ? Papai diz que lá tem praias com muitos coqueiros. Eu quero conhecer a Igreja do Senhor do Bonfim.

Sentiu as mãos da vovó Ana , nos seus cabelos anelados.
- Não vá catar piolho, viu ? Hoje não... Cante uma moda do seu tempo de menina: " perdão Emília... Acho linda !

E a vó , numa voz de rouxinol , cantarola baixinho.
Lá na sala, Doris Day ainda canta. Seu pai deixa que o disco fique arranhado pelas repetições, enquanto traga o seu hollywood, e sorve uma Brahma do Recife, geladinha.

Dormiu. Dormiu no colo da vó, pés esticados numa cadeira.
Acordará entre lençóis quentinhos, provavelmente .

* Pensou, no seu entendimento de criança, que mirto, fosse um nome feminino ( Mirtô, na sua interpretação), uma vez que não conseguiu traduzir a palavra.

Formigas e Pirilampos


A festa acabou
o bolo sobrou
chuva de formigas
de um céu invisível
fertilizam o doce
que no sangue existe

incansáveis , dançam
nem a morte temem
mas estragam a folha,
que protege a flor,
bebem compulsivas
todo seu olor!

magistradas
por um dom divino
adivinham o mel
que na pele fica
ou se clorofilam,
numa fila infinda!

Piedosas,
ardentes,
ciganas...
num passinho curto
bailam pela vida!

Pirilampos
.
Lua nova , noite escura
Estrelas do solo , piscam pro destino
Beiram nas estradas , que nunca terminam
Brincam no asfalto sem pensar na sina
Desconhecem o sol - dele fragmentos
Desconhecem cores , mas respiram verde
Azul petróleo , mata e céu...
É por lá que morrem!

Caçando luzes
eu me perco sempre
Sempre me dispersa
este vôo ausente.
Pouso breve,
como um beijo tímido .
Pouso leve
com a alma voa!
.
Socorro Moreira

Para Rosa maria



Eu sempre adorei férias em cidades de interior, menores do que o Crato. Oscilava entre Mauriti e Várzea-Alegre. A última marcou mais, pelos amores lindos, lá vividos. Não foram tantos (exagerei), mas foram significativos. Um é pouco... Dois é ótimo!
Amores que o tempo aprontou reencontros, e se definiram, sem a mágoa do esquecimento... Muito pelo contrário, confirmou-se na escolha adolescente, o sabor da maturidade.
Naquele ano de 63, o destino foi Recife. Cidade já velha conhecida, uma vez que fora residência dos meus pais.
Nos domingos o programa era ir á praia de Boa Viagem. Catar conchinhas, e mergulhar com medo, nas ondas mais altas. Elas me arrastavam, e o desafio era sobreviver, e voltar pra segurança das areias. Passávamos duas noites com pasta d’água, depois nos “descapelávamos”, mas valia à pena. Durante a semana um cineminha entre O São Luiz, Moderno, Trianon, Polyteama, e até em alguns de bairro. Na Manoel Borba tinha um deles( o Cine Boa Vista).
Na Manoel Borba tinha uma jornalista, amiga da casa dos meus tios, cuja entrada cotidiana, animava o ambiente. Meu Tio Luiz adorava suas conversas e sua alegria. Em poucos dias, tornei-me próxima, e comecei a freqüentar a casa da vizinha. Era tudo de bom! Depois de subir as escadinhas, instalava-me na varanda, e começava a consumir tudo de bom que a aquela casa oferecia: revistas, livros, música, lanche, e o melhor: o papo de Rosa Maria, a voz e o violão.
Os episódios da sua vida... Viagem de navio para a Itália (ida e volta); a vida, na cidade eterna, pontos turísticos, e os amores lá vividos (pelo menos um).
Mostrava-me fotos, antes da cirurgia no nariz, e alertava-me: “Não faça plástica no rosto. A gente melhora o nariz, e piora a boca”. Mas Rosa tinha um rosto muito belo e expressivo.
Foi Rosa, que me fez desejar um beijo na boca... E aconteceu, depois daquelas férias. A danada tinha razão: eita, coisa boa!
Esses encontros repetiram-se, nas férias seguintes. Presenteou-me com o seu livro de poesias que li até decorar. E aí, a vida nos desagregou. Perdi o destino dos romances da Rosa.
- Eu já vivia os meus!
Depois de mais de 40 anos, a gente se reencontra na net. Podem entender a alegria? Pois foi!

Um abraço, Rosa Maria, a moça amiga, que me apresentou à vida com poesia!

Ser passarinho...

.
Já não mergulho em águas azuis

Prefiro a transparência da chuva

que desfaz a tempestade

Prefiro a partida

sem apelo ou despedida

-Alçar voos , além do arcoíris


A máxima do amor é

quando ele perde a cara,

mistura-se na luz e

enche o coração do mundo


Acorda meu sol

Mostra minha face invisível ,

presa no prazer do dia

Já não procuro a sarna...


Lembranças -trajetória finita


Nós se desatam

quando o tempo passa

e a gente fica.


A saudade carrega um samba no pé

A vida pode durar um verso,

que se imortaliza


Enquanto existir pedra no caminho

a vontade multiplica a força

É bom soltar florzinhas

Ser vento

Ser passarinho


Se você chegasse ...

Eu nem me despedia !

Silêncio



.A cantiga da chuva começa a ficar monótona.
Saudades dos meus óculos de sol.
O retiro que se indefine, encharca-se de uma preguiça nostálgica. As distâncias vão instalando valas ... Os abismos aprofundam-se. Nossas próprias águas avoluma-se , e nos asfixiam.
Olho para o céu ... Esse tempo nublado me deixa careta, e desapaixonada.
Meu amor platônico auto-deletou-se !
Meu amor virtual dorme antes e depois de mim.
Meus afetos reais ocupam-se dos seus dramas pessoais ...Não tocam... Se entocam !
A casa de janelas abertas ferrolha a sua porta. A vida consome-se lenta e corrosivamente. O tempo arranca meu velho papel de parede, num vendaval insubmisso. Pesam-me os pensamentos, e essa virada do tempo.
Caras desmotivadas e assaltadas por todas as angústias do mundo, impostam-me máscaras. Alegria sem eco...Tristeza sonora, como um disco arranhado ...Pinga em gotas...Conta-gotas ...Lágrimas da Terra.
Sinto que o os mensageiros de todas as novas estão a caminho. As mudanças aleatórias virão ! Esse aperto no peito explodirá um jeito verde de enxergar a vida .

Casa silenciosa , abandonada pelas baratas, pessoas e paixão. Meus tamancos zuadam pela escada interna .Passeiam nos recantos selados e desmemoriados. Lá fora a cidade corre. Meus templos são as calçadas ... Empoçadas , espelham um céu e um momento gris.
Vou e volto para os algodões ( verde - água) dos meus lençóis desarrumados pelo tormento dos sonhos. Pernas cruzadas, olhar .
Quando a minha energia voltar vou inverter a posição das telas do meu quarto, polir as lembranças;inocentá-las de todas as dores... Retirar essa energia senil .
É confortável o silêncio do corpo. O meu silêncio só abre a boca, quando encara a vida , e sente-se feliz !


É normal esse desalento ?
Essa incapacidade de salpicar
estrelas,nos meus escuros ?

Aprendizado :
processo e tempo
Quando o estágio finda
ficamos soltos e livres
Donos do destino !
Elos físicos
são frágeis laços de fita
Elos espirituais
são fios invisíveis
Conjugam no infinitivo
Amam no infinito

Chama violeta
transmuta a dor da saudade
Faz da falta que ela faz
doce momento de paz

O fogo purifica
Resta o nada...
O ponto búdico que aspiro !

Novelesca



É claro que assisti ao penúltimo capítulo de Caminho das Índias. A cena na Estudantina com Bibi Ferreira cantando "Minha palhoça" de J. Cascata foi impagável.
Esse povo que não assiste novela , mas gosta do que é bom, nem sabe o que perdeu.
A gente que mora no Cariri perde Bibi , em tantos atos...! Perde Bibi , e ganha a vista da Chapada, e um rítmo de vida leve ...de vez em quando, a voz do Abidoral , o violão de Pachelly , e outros tantos astros que clareiam a nossa esfera. Mas, falando sério, se eu pudesse, eu veria Bibi Ferreira, mais vezes !
Lembro que , quando chegou televisão por aqui, ela tinha um programa semanal, na TV Tupi, nos dias de segunda-feira. Ficou tão íntima nossa, que deu trabalho esquecer que ela é do palco, que é do Rio de Janeiro. Algumas vezes a vi por lá : em Gota D'água, em Piaf... Maravilhosa ! Hoje eu a vi, num pedacinho da novela , e o capítulo cresceu tanto, que a cena engoliu a trama.
Ah, tinha razão um amigo, quando me dizia : " Mulher, para de se emocionar com os dramas da ficção. Vive a tua emoção. 

O homem é a caneta

a natureza é a tinta

o papel é o guarda - poesia

As vezes ele solta um verso

As vezes prende o soluço,

ou se borra em lágrimas.

Quem não tem papel

cola na tela

Já não se faz papel almaço,

como antigamente

Ele acatava conceitos

aprovava e nos reprovava

Pachelly é nota dez

Olhar , e o resto dos sentidos

Só desconheço , o seu prato preferido

Mas a Socorro pode segredar ...

Aqui nesse Crato quente

de refrescante nascentes

-Um sorvete de cajá

para te agradar !
Eu não chego a envolver-me , depois dos meus tantos janeiros, mas não nego que me ligo na telinha, principalmente , em se tratando dos últimos capítulos de novela, quando tudo enfim, se concretiza , se esclarece, e vive o final feliz .
Acabei de dar uma espiada no céu . Cantarolei "Minha Palhoça" , numa interpretação tímida e silenciosa.
Bom é Moreira da Silva ou Bibi Ferreira !

Amores de internautas


Escrevemos sobre fatos da infância e adolescência , e pulamos para o presente .
Entre os meus 25 e 50 anos tenho histórias de tórridas paixões , que a lua do tempo esfriou. A paixão é tão cansativa e corrosiva , que deixa seus registro cansado, esvaziado...E mesmo as paixões poéticas , elas se perdem , nos novelos das rimas.
Os amores que vivi são personagens de novela , com finais definidos, bem resolvidos.
Praticamente não vivi nenhuma paixão neste século. Estive aberta, mas não rolou. Meu coração não é esperto , mas é amadurecido , e se encanta na dose certa. Meus encantos se expandiram, deixaram de fixarem-se num só ponto, abstraíram-se , num amor amigo.
Benditos os que só viveram o calor de uma única paixão, transformada no amor /destino.
Se uma cigana tivesse me dito , que eu terminaria a vida com grandes amores, e sozinha, eu teria enlouquecido de desgosto. Hoje esse amores identificados ou não é a taça da minha vitória afetiva.
Imagino como a internet mexeu com as emoções humanas.
Em 1997 , adentrei no mundo virtual, e com toda vulnerabilidade, vivi pelo menos duas paixões . As nossas ilusões e fantasias ganham pano, agulha e linha. Em pouco tempo , entendemos que a nossa alma ficou nua , e que o outro fotografou a nossa essência , sob todos os ângulos. A arte copiando a vida, e vice-versa. Depois da segunda experiência, e última , o jogo de sedução virtual perde o encanto, e a gente recupera as próprias rédeas. Agora, nem se a gente quisesse !
Muitos como eu viveram essa experiência, na realidade, de um amor simbiótico com o próprio ego. Não chamaria o processo de insane, mas quase o considero !
O primeiro morava no Canadá , algo um tanto irreal. Cheguei a tirar passaporte para conhecê-lo. Ainda bem que o sonho foi desfeito.
O outro era um poeta carioca , com quem troquei milhas de versos.No final, restou-nos um livro poético. Essa história valeu a pena , mas é tão irreal quanto àquela.
Agora estamos na era dos blogues. Ressuscitando o passado, e de pés no chão, vivendo o presente, sem as teias dos sentimentos ilusórios.
Viva a amizade , que prescinde da fantasia , mas é generosa no carinho.
O internauta é navegador cósmico.Um tanto viciado nas teclas , mas objetiva construções reais, possíveis e felizes como a expansão dos seus domínios de informações , e o exercício humano do afeto.

José do Vale Pinheiro Feitosa disse...
Socorro,

Tocas num ponto em se resolve uma subjetividade entre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno. Afinal estes sinais que vão surgindo, inclusive esta tela desenhada com fundo branco é um eco de natureza diferente. O eco é o retorno do som que se provocou, enquanto este tipo de eco que falo é aquele que ao contrário viaja adiante, como uma reverberação. Então estamos falando através do mundo do infinitamente pequeno (da natureza particular da matéria). E fazemos isso porquanto o internauta substituiu por absoluta falta de conquista o astronauta do tempos de Barbarela, de 2001 uma Odisséia no Espaço. Este é um ponto.

Mas tem outro ponto que agora lembro: tendo a achar que o engano é algo que tende cada vez mais para uma mera referência da eficiência capitalista. O quê é um erro nestas circunstâncias extremamamente pragmáticas? Fica cada vez mais uma simples medida. Não vejo engano na ilusão, na fantasia, no desejo, na famosa "viagem na maionese". Apenas sinto como um pós realizado como muitas outras coisas que nem são de qualquer destas naturezas.
23 de agosto de 2009 22:32

Socorro Moreira disse...
Zé do vale,

O pós realizado, se incompleto, no mínimo nos capacita para o bom entndimento da vida. Chega o novo, e tudo recomeça !
No infinitamente pequeno , a gente descobre a máxima que nos prende...Provavelmente , a mesma que nos solta... !

Dobras no papel




Há um lugar ao longe
onde a terra e o céu se dobram,
como folhas de papel
Há um lugar ao longe,
onde fica a juventude
Tarde e distante...
Queria-te no futuro!

Bemol ou sustenido
saudade e solidão
Nos fazemos nos silêncios,
nas ruas sem esquinas,
nos poemas e pensamentos!

Estação do Silêncio

Plataforma escura, silenciosa angústia
Meu coração já se apinhou de gente

chegando, e partindo
Já chorou, se descabelou...
Já dormiu em pé, já sonhou dormindo

“Café com pão
bolacha não
café com pão... "

-Olha a tapioca, olha a mariola...
(Tudo tão depressa, tudo já sumindo...)

-Corre menina, senão você perde o trem!
-Desce menino, o trem não espera por ninguém!

Naquele sacolejar...
Vi a roça, vi a rosa, puxei prosa
Vi a lua crescer, e a madrugada passar.

Queimei o braço no sol
Queimei o olhar, noutro olhar!

Viagens curtas e amorosas.
Outras desencarquilhadas,
impacientes, nauseantes...

E o apito, ainda soa em meu ouvido!
Encontros marcados
Trem atrasado,
que um dia deixou de chegar.

Pessoas também,
quebram-se nos trilhos da vida
Fragmentam-se,
viram pó de estrelas...
Perdem o trem!

A vontade do coração 

Sobra umn canto na mesa
um lugarzinho na rede
um sonho, e uma valsa

Falta um livro aberto
voz contando casos
olhar atônito
enxergando o poema,
e criando a canção.


Nos meandros do coração
existem águas claras
que banham e unificam
corações em vibrações

Almas nascem de uma força única
em tons diferentes ...
- A minha é castanha .( Serei do caju ?)
Só o coração consegue entender a correta expressão da vontade !

Socorro Moreira

Dó em versos



Depois da segunda idade,os namoros nada esperam .
Namorados são os encantados .Com eles vivemos momentos eternos .
A alma decidiu-se pela colagem de muitas pernas, muito olhar entre si.
O telefone tocou na madrugada
Não foi engano
Foram tragos
Travos da saudade.
E foram tantos...!
Quem gemeu,
no contraponto do meu pranto?

Empresta-me teus olhos de arte ?
Eu só tenho o meu sonho de Alice.
Ele faz do caos um ponto de luz.
Eu sou mariposa - vadio no brilho.

Mesmo belas
são heras
tudo na mistura
heranças nuas
flores do mato
parceira das trevas
cheiros diversos
evolaram da terra
boca no corpo
língua da noite
São elos...

Divagando na tarde


Entardeceu. O dia e eu. Acordei da sesta de todos os dias com a sensação de que os meus sonhos foram pequenos , ligeiros...Nem lembro quantos. Artigos de toialete, uns doces que eu não posso, e caras que eu não vejo, mas gosto !
Acordei e vim pra cá. Espiar quem chegou , quem deixou, e quem levou. Sou vigia de mim mesma.
Zé do Vale foi lá em Potengi , e já voltou pra janela do seu Corcovado. Fiquei conhecendo as tias : Rosa, Maria e Raimunda , que já dispensam o rosário. Essas mulheres de agora , quando não falam em novela, se viciam nos teclados. Sou uma delas , cansei de sofrer por ela ( a vida). Aposentei as janelas , mas nas minhas recaídas, ainda caço um nesga de sol, e um pedaço de azul pra costurar um novo sonho ou remendar um sonho roto.
Hora de comprar o pão quentinho , fazer o café( detesto) , e somar as contas de Agosto. Os trocados que não sobram , eu jogo no cofre das almas , que do céu e de toda parte, acompanham os meus passos. Um dia seremos juntas. Preparo minhas asas pra voar em bando.
E se o sono for eterno ?
Lembrei-me de Dona Rute, mãe de Ana Cecília : " E se o céu existir ?"
- Melhor é não pensar no assunto , e viver a ética do sentir !

Dia do Sorvete !




A luz de Paulo Afonso chegou ao Crato nos anos 60. Até então a geladeira doméstica era a querosene. Tínhamos três pontos principais de degustação do sorvete: bar social, Bantim e Joaquim Patrício, depois a sorveteria cariri. Em casa, as nossas mães não nos deixavam faltar o sorvete. Não usavam creme de leite, nem leite condensado. Faziam um mingau ralo do leite com a maisena e a ele agregavam a fruta ou a essência (baunilha, chocolate). Aos últimos elas incorporavam gema de ovo e uma colherzinha de manteiga. A regra era não pingar uma gota sequer de água (a água tirava a cremosidade). O sorvete de goiaba, por exemplo, era feito da massa da goiaba. Eram fervidas numa calda de açúcar, e passadas na peneira, acrescentava-se o mingau de leite e maisena, e pronto. Tinha um gosto especial, jamais encontrado em sorvete algum.
O primeiro sorvete de baunilha que provei na minha vida (desses caseiros) foi na casa de Francíria Alencar; o primeiro sorvete de chocolate foi na casa de Magali Figueiredo. Pedi logo as receitas, mas não consegui fazer igual. A especialidade da minha mãe era o sorvete de goiaba e ameixa, coco, manga e abacate. Todo mundo pegava um copo de alumínio, uma colher, e traçava aqueles cubinhos preciosos. Quando começamos a viajar trouxemos outras novidades para incrementar: farofa de castanha, banana, Waters, caldas de ameixa, caramelo e a calda de chocolate, e passamos a usar belas taças. O sorvete tricolor foi o ponto auge, inaugurando o uso generalizado do leite condensado e do creme de leite.

- uma camada de creme de baunilha; (leite condensado; três gemas; a mesma medida de leite de gado; uma colher de maisena; baunilha em gotas ou em pau)
-Uma camada de creme de chocolate; (a mesma receita acima, substituindo a baunilha pelo chocolate em pó)
-Uma camada de chantilly (as claras batidas. Para cada clara uma colher de açúcar; gotas de limão e creme de leite sem soro).
Mas, o bom do sorvete é o passeio; a companhia; a prosa depois do sorvete... Lugar de tomar sorvete é na sorveteria!

"Est(r)ilo Nico"


Lente e mente
.... Coração quente
..............não mente
.................... fria mente

Des(compasso)
............ o samba
........................canção
............................. dos meus ou
...........................................vi(n)dos
.................................................. de alguém.

.................... Vibra (a)ções
.........------------.......Sons e tons

............................................ Peito agoniza
........................................................amor tecido

....................................................................... Hospeda,
................................................................................a(dona) sentidos

Nós



Desiste
Salta do peito, a dor
Nunca somos,
quando colados
formamos nós.

Tudo nos separa
mas uma ponte invisível
sempre unirá
a tua e a minha saudade
.
Você vive protegido
Que tecido é esse?
quero um fio
pra entrar em tua teia

.
Sua tela escureceu
Sua energia escapou de mim
(a sensação de desconexão
abriu windows da saudade)
.
Não sou daqui nem de lá
sou silhueta escondida
nos muros da cidade.

.
Sinto falta da minha companhia
aquela que insiste em ficar contigo

.
Você me encontra
Sempre antes de mim ...
.

Futebol de salão - Crato




Quebrando as limitações da vida social dos anos 60, principalmente para quem não tinha ainda 15 anos (e só queria ser adulto), o Crato teve a sua fase áurea, no Futsal, entre os anos 64 e 68.

O dia da inauguração da Quadra Bicentenário foi marcado como um evento espetacular.

As famílias já haviam adquirido suas cadeiras cativas, e os times já se achavam organizados (Votoran, AABB, Tênis e Wolks). Em pouco tempo virou mania geral. Velhos e meninos viciados, torcendo pelo seu time de predileção. Meu pai não perdia um jogo, e não se incomodava de levar-nos (eu e as minhas irmãs) à tiracolo. Lotava. Os melhores dias configuravam-se, nas quartas e aos sábados.
Aos domingos tínhamos a Praça Siqueira Campos; na segunda um cineminha, no Moderno. E assim encontrávamos quem queríamos, em muitas oportunidades.

Lembro quando o América do Rio veio jogar no Crato. Foram três dias de jogos com o campeão brasileiro de futebol de salão. Não estou lembrada dos placares de resultados, mas sei que acabamos todos muito roucos de tanto gritar e torcer.

Quando os meninos que faziam os times começaram a viajar para estudar fora, ocorreu o esvaziamento e extinção do nosso entretenimento esportivo.

Nunca os colégios tiveram tantos times de vôlei, futebol e basquete. Nunca gostamos tanto de esportes.

O movimento na quadra foi retomado, na década de 70 com os acontecimentos dos festivais de música. Tempo em que eu já estava ausente das brincadeiras.

* Estive uma noite , na Expo Crato, e uma figura conhecida abordou-me para entregar essa imagem da inauguração da Quadra Bicentenário. Falou-me: olha, acho que é do teu interesse porque vejo teu pai, tua mãe e você. A qualidade é péssima , mas dá pra identificar várias figuras da época.

 Lembro de muitos atletas ligados à epoca : Paulo César, Zé César, Gledson, Zé Vicente, Careca, Manga, Carlindo, Freire, Dau, Bosco, Chico Pão, Gledson, Miguel, Gilton , Danja, Hibernon, Ítalo, Pernambuco,Assis ...!
-Convoco a memória de vocês para recompor em detalhes esse nosso tempo.

( Impressionante como não existem registros oficiais. Pelo menos não os encontrei).

Para uma estrela


Fantástico !
Sabe aquele riso feliz?
Não pela tua solidão( tão minha...) mas pela arte expressa, bem dita !

Às vezes brinco com elas, me vejo nelas, arquétipos , onde sou mais cinderela , sem final feliz. Minhas esperas adormecem uma vida, e acordam , sem as chegadas prometidas.
Ísis sem Osiris, esperando um plano eterno de refazimento, já que a alma não se aparta do amor que é terno !
Assim caminha a humanidade... Num labirinto de paixão , num clima de guerra e paz, ao som da melodia imortal, com música e lágrima . Em casa blanca, a gente espera o último pôr-do-sol, que o poderoso chefão , nos prepara e guarda ! Só faltou falar num raio de sol , que entra na minha varanda , e me acorda. Acaricia meu dia, e me faz acreditar que a liberdade é azul, que os brutos também amam, e que estamos a um passo da eternidade... E, se o vento levou meu amor, quando setembro chegar, um outro amor chegará, nem que seja de aldilá,porque o céu que nos protege , há de nos acobertar!
Pronto.Arrumei uns títulos de filmes pra animar esse encontro nos bastidores... O chão está cheio de pipocas. Só tá faltando a cajuína do Ceará !

Abraços, Stela, amiga !

Desapego



Pego o coação e arranco do peito ?
Encontro meu eixo
Deleto o cheiro
Escureço o sol que me iluminou ?
.
Saiu devagar
como se fosse natural
a despedida em silêncio
Coração puro
Coração menino
Só quem se torna seu dono
Pode entender seu destino
.
Fim de amor
Final de tarde
Parecem música de bar ...
Sentimentos dissolvidos no ar
Na boca , como algodão doce...
.
- Acabou !

Datilografado



E se eu te pegar com os meus olhos

Trazer-te para dentro de mim ?

Mostro o luminoso e o assombroso

que a Pandora soltou em mim.


E se eu te tocar com todas as minhas letras

e com elas compor nova sinfonia ?

E, na hora "h", descobrir no "g" do meu "x",

que és o "z" da minha vida ?


"Vês" ? Meu "c" que é céu é teu

Eu te aprendi, nos "erres" da minha língua.

Lucidez?



A primeira vez que eu fui a Várzea Alegre eu era menina de braços. Lembranças vagas.
A segunda vez, eu estava com 14 anos, terminara o ginásio, e fui passar as férias , na casa de Seu Mundim Tibúrcio com Ana Maria ( minha prima), Vilany e Maria Nilce.
Cheguei de tardinha, depois de muitas horas de viagem pela Serra de S.Pedro. De noite fui dar umas voltas na praça , querendo conhecer os meninos dos quais já tinha a ficha completa. Mas a praça estava vazia. Todos tinham ido para um forró, no Sanharol.
Quando o dia amanheceu, depois da primeira noite naquela cidade, fui pra calçada, apreciar o movimento. Míope, não enxergava o povo à distância. E, lá se vem, uma moça enfeitadíssima, de salto alto, colares, pulseiras e roupas vistosas... Parecia uma cigana !
Perguntei pra Maria Nilce : Vixe, quem é aquela tão pronta, que vem chegando , já com um sorriso imenso, na boca de batom vermelho ?
Ela riu muito, e deixou que a figura se aproximasse, e eu tirasse as minhas conclusões.
Era Francisca. Gostamos uma da outra de cara ( as doidas se atraem?). Aí foi logo se lamentando:
" Tenho um monte de apelidos... O povo daqui é gozador, sabia?
E, já que está chegando, se quiser minha amizade, não tome os meus namorados...O nome do atual é Rubens Diniz."
Eu pensei até em registrar tudo que Chica falava, nos 30 dias que passei em Várzea Alegre. A história de uma cidade contada pelas falas da Chica seria um livro de Filosofia !
Chica é uma, entre mil e umas , saudades minhas !
Eu só não nasci em Várzea Alegre porque nasci foi no Crato. Mas se tivesse sido ao contrário , eu também seria feliz !

Cheiro de infância


Carência e medo
Tempestade, trovão
Almas penadas, aparição
Pavor de espelhos, aconchego
Colchão e amônia
Cabelos embrenhados, rabo de cavalo
Balões, bonecas de pano
Bilas, birros, bambolês
Chão de mosaicos, sujo de infância.