por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Minha ansiedade rasgou a perfeita embalagem, num átimo !
Toquei, apalpei para confirmar se era de verdade. Parecia um sonho, e eu sentia o milagre acontecendo , na minha cara. O processo da metamorfose , configurado !
Lagarta transformada em borboleta com suas tenras asas...
Uma mulher entre veús, serenado espírito, brincando com seus delírios: lua, estrelas, pássaros, flores, borboleteando com as palavras, num vínculo onírico.
Olhos cerrados e coração pulsando em paz, entretido com lembranças pueris, e brinquedos infantis.
Iemanjá, rainha do mar
Princesa das águas claras, e Deus Oxalá !
E o mistério nunca esclarecido, fica pendurado, na parede do meu quarto... Dias após dia, será cultuado, como uma oração em paisagem, conecção abreviada, essência natural de poemas que irão brotar, em cada noite, na música divina de um amanhã singular.
Estás lá.
Estou lá.
Estamos todos, na viagem sideral, embarcados pelos anjos.
Terrestres são eles.. .Celestes , no azulsonhado, um dia seremos !
Meu olhar é sedento

Estou à mercê dos ventos ,

sem proventos.

Em todas as minhas encarnações

trabalhei os números...

Quero a redenção

Haverá tempo ?

Quem sabe eu furo o ciclo?

Pego carona na cauda dos poetas ,

e vou parar no céu que imagino :

Poesia , música, e um cineminha !

Vida itinerante de uma bancária- Mauriti!

Maio de 1984


De Macaé, a bagagem foi mínima. Não comprei móveis. Fui hóspede !
Comprei passagem de ida Rio X Porto Alegre, com escalas em S.Paulo, Florianópolis , e Porto Alegre.
A volta seria quase o inverso , mas houve a extensão , face ao novo destino :Mauriti !

Do Rio , passei por Vitória do Espírito Santo, Ilheús , Salvador, Aracaju, Maceió, João Pessoa, Campina Grande e Mauriti. .... E o dinheiro acabou ! Ficou a entrada para um carrinho , Chevette Hatch, que paguei em leves prestações, por dois anos.
Queria ver o olhar surpreso do meu pai, visitando novas paragens, pela primeira vez. Em cada lugar que chegávamos, ele escrevia cartões para a minha mãe. Sem dúvidas, meu pai, foi o grande companheiro da minha vida !
Gostávamos das mesmas músicas, da noite, e das coisas boas.
Em Curitiba fizemos excursões para Paranaguá e Foz do Iguaçu. Ficamos na estrada, sem o casaco de frio, e sem as malas. Rimos bastante da situação. O casaco de couro tinha sido emprestado de um amigo, e deu trabalho encontrar um novo para substituí-lo.
Em Gramado não encontramos pousada . Tudo lotado.Arriscamos passar a noite num hospital central.
Ele fez amizade com uma enfermeira, e ganhou para o seu cigarro, uma garrafa térmica de café.Nas situações mais incómodas, ríamos , e nos divertíamos !
Nos extasiamos com as Cataratas do Iguaçu, e com o por-de-sol, no Guaíba.
Quando retornamos pelo Nordeste , já estávamos cansados de tanta orgia e beleza.
A chegada em Mauriti foi tranquila !
Novamente me avizinhei das raízes. Todos os dias , depois do expediente, visitava o meninos , na casa da avó, e me encontrava no parque Municipal com os amigos, hoje ainda identificados ... Carlos Rafael , Geraldo Urano,Calazans, Pachelly, Normando , Salatiel, e Nicodemos (que chegou do centro Sul para somar )!
Por dois anos vivi esse trânsito.
Fiquei boa parte , substituindo o Gerente Geral , Nacélio Oliveira , que foi nomeado para outra cidade,até Rochinha chegar. Gente boa , cidadão do Crato !
Foi a experiência mais humana e apaixonante da minha vida de bancária. Financiávamos roças de milho, feijão, algodão, e rezávamos com o agricultor por chuva , em prol dos ganhos, e da boa safra.
Amei aquela gente sofrida e de coração grande.
Apaixonei-me pela dor humana.
Apaixonei-me, na verdade, em todos os sentidos !
Pelas artes, pelos amigos, pela terra , e por todas as suas potencialidades . Senti o Divino em mim !

Mas a vida me pedia estrada. Solicitei à Direção Geral , uma comissão de Supervisora, num lugar limítrofe do País. Ela resp0ondeu-me com uma nomeação para bela Vista- MS. Com o coração despedaçado, três filhos no colo, encaramos as estradas poeirentas do Mato Grosso do Sul, até o destino final. Mas, Bela Vista, fica para um próximo capítulo !

domingo, 2 de janeiro de 2011

Vida na segunda casa



O primeiro dia de aula da vida gente é inesquecível.
Lembro do material escolar, cujo encanto ofuscou todos os meus brinquedos. A partir de então apenas livros faziam a minha cabeça. Deixei de gostar de bonecas, justamente nesse dia. Uma pena, porque fiquei velha antes do tempo.
Lembro do primeiro dia de aula do meu filho mais velho. Era tão pequeno, e me pareceu um homenzinho. A vida começava naquele dia, quando o dia começara mais cedo.
A Escola sempre foi para mim um sanctum sagrado. Lugar de abastecimento para o futuro. E, nos estudos, fui faminta, voraz, como a fome de um diabético.
Passei essa carga de carência para os meus filhos.
Minha mãe brigava comigo para que eu encostasse os livros por momentos; que eu lesse de menos, nos dias de férias. Achava péssimo, quando o ano escolar terminava. Não sabia brincar, não sabia o que fazer da vida, sem aquela obrigação diária. Depois fui ficando cansada...!
Meu filho do meio é um nerd. Sua maior compulsão é estudar, estudar, estudar. Esse também não aprendeu a brincar.
Pais, oportunizem a infância dos seus filhos.Deixe-os brincar na terra !.
Sinto saudades do tempo mal aproveitado, nas brincadeiras de roda. Eu só queria mesmo era ouvir histórias !
Se o tempo voltasse, eu teria um bicho de estimação , e cataria borboletas e florzinhas pelos caminhos.
Não viveria os contos de fada com a emoção centrada, nos finais felizes.
A vida exige praticidade. Graças aos números , sai das viagens da Carochinha, e pisei no palco da realidade, onde a palavra de ordem é sobrevivência !

Mas, ser estudante é um dom da alma. Somos eternos aprendizes. O mestre é quem está por perto... Seja um sábio ou um menino !

O sol




Quando a sua luz poderá explicar o infinito?
Diário , sempre irrepetível!
No turno da noite, sempre escondido!
Nasce, brilha, possibilita vida!
Foge do olhar que se apaga
Queima a planta do destino

Ilumina  almas que viajam.
Põe-se no horizonte,
mar , nuvens
Verdeja a flora , que enfeita a casa
- O sol!
.

ao encontro da luz



madrugo
quando corro ao encontro da luz
o sonho se despede,
e parte numa nave azul
ficam cenas
olhares, sorrisos
e uma lágrima vertente
que molha o dia
preciso dessa paz
que as auroras me trazem
minha cama me chama
pra mais um conto pirotécnico
onde as emoções brincam,
e se escondem,
no meu travesseiro,
um surto lúdico.

O Patinho feio


Lembro que, quando descobri que sabia ler, só encontrava prazer, em descobrir o mundo, através dos livros. Deixei pra lá até as bonecas, e a brincadeira de roda com as meninas da minha idade. A leitura me preenchia!
O primeiro livro, que ganhei aos quatro anos de idade, foi “O patinho feio”. A identificação foi total. Certamente porque me considerava feinha com meus óculos de grau e as pernas gordinhas.
A partir de então me tornei insaciável. Queria compulsivamente, todos os livros de histórias que existiam. Quando faltava a novidade, pedia às pessoas, que me contassem histórias. E lá estavam meu avô, avó, Ricarda (uma Ba do Piauí), minha mãe, e todo mundo que tinha algo para contar.
As revistas do meu pai saiam das prateleiras, e os livros da biblioteca de Dona Liô, nossa vizinha da Pedro II, também!
Existia um programa de rádio, na Educadora, por Terezinha Siebra, que contava histórias, no final da tarde. Eu não perdia uma audição!
Gostava das férias no Mauriti, quando a meninada contava histórias, desenhando no patamar da igreja. Elas não tinham fim...Minha prima Socorro Montoril nos prendia, horas a fio, ou o tempo que queria. Geralmente a temática girava em torno de uma menina rica e feia, e uma menina pobre e bela. A beleza e a bondade, sempre compensavam a pobreza. Valores de uma época!
No Ginásio, fomos muito estimulados pelo nosso professor de Português: Dr. José Newton.Cobrava diário, vida escolar, em capítulos, relatório de férias, etc.
Adotei o diário íntimo, copiando um livro que toda menina do meu tempo leu : “O Diário de Ana Maria “. Aí, colava fotos, pétalas de flor, papel de chocolate, além de relatar fatos pitorescos que marcavam o meu dia a dia. Chegou um tempo, em que contei meus sonhos, na sua confusão de imagens e diálogos!
Escrevi cartinhas para tios, primos, e até namorados. Especializei-me em cartas de amor. Podia namorar através delas, com qualquer moço distante, inclusive os desconhecidos.
No São João Bosco existia uma boa biblioteca, complementada pelo acervo da Faculdade de Filosofia. Com isso, íamos trocando livros, revistas, entre os amigos, que apreciavam a leitura. Lambuzei-me de tanta coisa boa, romântica, mitológica, e até nostálgica. Mas optei pelos números, pelas exatas, e tomei o rumo das contabilidades.
Depois do exercício findo, tento resgatar o meu prazer original pelos livros e escritos, mas calculo alargado demais, o tempo de defasagem. Mesmo assim, tô na estrada. Colhendo palavras, encontrando o som e o sentimento que elas produzem em mim. Quem lê e escreve, tem a solidão compartilhada por uma infinidade de personagens universais.

Vida itinerante de uma bancária - Bahia !



Setembro de 1988

Voltando para o Nordeste, mas novamente para um ninho estranho. Nem sabia que Barra do Mendes existia. Encontrei uma casa para administradores à minha disposição. Pela primeira vez, gozaria do conforto de um ar condicionado, no quarto de dormir. Não faltavam pessoas pra ajudar na luta de casa, e era muito gostoso fazer a feira livre, e comprar as coisas da terra. A Bahia é festiva por excelência, e a gente sem querer, entra no ritmo. E haja dança, e pequenas viagens turísticas. Lençóis, Salvador, e até uma esticada no Rio, em feriados prolongados. O salário aumentara consideravelmente. Deu pra comprar um carro novo, e presentear o Caio, com um outro, no seu aniversário de 18 anos. Deu também pra comprar um Gradiente, última geração, com aparelho de CD (coisa rara, naqueles tempos).
Por problemas familiares, houve uma inadaptação social, e, depois de um ano fui removida, a pedido, no mesmo cargo, para a cidade de Valente, região do sisal. E começou um tempo negro, no funcionalismo. Meu cargo era desejado por todos, e acharam razões, para que eu fosse destituída da comissão. Os motivos, os mais absurdos: excesso de bebida alcoólica, comprometimento com agiotas. Provada a ausência de culpa, ofereceram-me reparação. Eu poderia escolher uma outra Gerência, a meu critério de escolha. Mas, naquelas alturas, eu já estava morando em Salvador. E, gostando! Havia comprado um apartamento na Pituba, carro na garagem, e marido nas cobertas. André cursava o pré-vestibular, Victor fazia Medicina e Caio estava vivendo o seu primeiro emprego, depois de concluir o ensino médio.
Trabalhava no Caixa da Metropolitana Brotas, e tinha um bom relacionamento interno. Quando me ofereceram um cargo de Gerente Especial (aquele que negocia diretamente com os grandes clientes), resolvi fazer nova escolha. Candidatei-me a agências impossíveis, como : Gramado, Ouro Preto, Maceió, Friburgo, Curitiba. E de imediato, chegou minha nomeação como Gerex de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro.
Dessa feita eu deixava para trás uma vida confortável, mas ainda tinha missões especiais a cumprir. Novamente, o caminhão de mudanças parou na minha porta, e eu peguei um avião para o novo destino. Agora conheceria a região serrana do Estado do Rio. Friburgo era o meu destino!

Mas, Jair tem razão ...!
Passados uns 5 anos na Bahia, eu fiz por lá, meu aniversário de 40 anos. Ainda cheia de sonhos e com algumas esperanças. Gostava de viver a vida , mas sentia já um certo cansaço das rodas de violão , ganhando as madrugadas.
Em Salvador tinha como compromisso de paz, visitar a família da minha prima Gracinha, em Itacimirim. Final de semana com guloseimas e aconchego da amizade. Meu companheiro sabia tocar bem violão, tinha voz belíssima, e um repertório fantástico. Todo mundo gostava, e cantava junto. Mas, nem só de pão vive o mundo !
Naqueles anos, meus filhos perderam o pai, e minha dor foi tripla.Já sabia o que era enfrentar as alegrias do mundo, com uma ferida aberta das saudades.
Mas Salvador era minha senhora. Devia-lhe os luares, o mar, as comidinhas apimentadas, o astral do carnaval, e a poesia ambulante dos baianos. Nunca esqueci aquela cidade... Cheguei em Friburgo cantando : "Eu vim da Bahia/ mas eu volto pra lá..."
João Gilberto tinha sido , de certa forma, uma presença real !

Vida itinerante de uma bancária : Acopiara !



Abril de 1981

A cidade de Acopiara me acolhe. Consegui uma casinha pequena, mas logo em seguida, mudei-me para uma casa ótima , propriedade dos Rufinos. A crise do algodão é fato. As usinas estão sendo desativadas, e a economia sofre pela busca de novas alternativas.. O clima é seco, a agricultura depende das chuvas , e a renda do povo é baixa.
Assumi como Aux. de Supervisão, e substituo o Supervisor , nas suas ausências.
Meu gerente é Carlos Alberto. Um cara legal, que reconhece os nossos predicados.
Frequentamos todos, a sede da AABB, para a descontração diária.
Casei-me pela segunda vez com um mineiro, que venceu-me pelo cansaço. Tentei acertar , mas foi complicado !
Afeiçoei-me aos seus pais, e tento ser o anjo da sua vida, como a sua mãe me intitula.. Arrendamos a churrascaria da cidade, e eu tento ajudá-lo , nos meus intervalos de trabalho. Não gosto de trabalhar com bebidas... Não suporto !
Estudamos desde o princípio , uma possível transferência para uma cidade mineira, mas tenho que esperar o tempo mínimo ( um ano) para não devolver as vantagens da comissão.
Estou coordenando a bateria de caixas, sem nunca ter sido caixa. Mas a turma é bem legal , e aprendo com a competência geral.Trabalho com Gideone, um moço amigo, que depois reencontrei no Crato, como um dos primeiros proprietários da Choupana.
Acopiara deixou boas recordações. Carnaval animado, férias com meus filhos, passeios em Orós com meus pais e amigos. Mas o tempo de andar, chegou ! Eis-me a caminho de Uberlândia-MG, no Posto Efetivo.
Serei lotado no Cesec, um trabalho interno, sem contato direto com o cliente. Mas isso é papo para o próximo capítulo !

Vida itinerante d euma bancária: Friburgo!



Maio de 1992

Olhei meu apartamento pela última vez, e deixe-o vazio para ser alugado por uma imobiliária. O caminhão seguiu por terra com a minha mudança, e eu me adiantei pelos ares, em companhia de André, meu filho caçula, vestibulando.
Chegamos no Rio, e fomos direto pra rodoviária. Menos de 3 horas de viagem. A cidade estava gelada , naquele mês de maio. Pedimos ao taxista que nos levasse a um hotelzinho bom e barato.Estávamos no Centro da cidade, perto do Banco do Brasil, no hotel e restaurante de Dona Mariquinha. No dia seguinte fiquei sabendo que lá era servida , a melhor comida caseira da cidade. Inesquecível. Os garçons passavam a bandeja, a toda hora , com pratos diferentes , e a gente podia se servir do que quisesse, à vontade. Adorava principalmente, os pastéis de entrada.Depois vinham as saladas, o feijão preto, a carne assada, a farofinha com bacon, os ovos estrelados, o arroz soltinho . Tudo fumegando, tudo no ponto, tudo deliciosamente servido. A sobremesa era morango com uma cascata de chantily , feitta com creme de leite fresco. Um sabor nada comparável ao creme de leite das latas.
A Agência era moderna e linda. A cidade , que eu já conhecia, quando morei em Macaé, me parecia um recanto europeu. Floriculturas , cafés, docerias, lojas que vendiam queijos finos, licores e amanteigados.
Enquanto procurava casa para alugar ia descobrindo os segredos da cidade. Ela tinha qualquer coisa de mística, de búdica. O Pico da Caledônia, se mostrava, exuberante ! Disseram-me que lá existia um mosteiro budista, pouco frequentado, mas interessante pra gente experienciar a meditação em silêncio.
E, na sequência, tudo que era alternativo foi se apresentando: centro de danças sagradas, acupuntura, I Ching, Curso de Astrologia e Taro, cozinha macrobiótica, grupo de ufologia, medicina natural, etc e tal.
Parece que Deus sabia que eu precisava de toda serenidade do mundo para encarar o clima competitivo do Banco.Minha função de Gerex havia sido concorrida por milhares de pessoas.A interrogação era grande : "como conseguiu ser nomeada para cá?"
A resposta estava na boca da Direção Geral. Era a minha compensação por uma possível injustiça , no passado recente, na Bahia.
Lotaram-me no atendimento. Mesa redonda e cadeiras para negociações com os clientes. Nos primeiros dias, senti que a minha bodega estava vazia. Precisava fazer algo, produzir, mexer com as estruturas de base. O atendimento aos aposentados era um tanto marginalizado. As filas eram imensas, e o povo da terceira idade, sofrido. Propus comandar aquele setor, que não era ansiado pelos outros gerentes. Transformei o andar , noutro Banco. Humanizei-o com o maior dos meus carinhos. Servia , nos dias de pagamento, café, chá, chocolate quente; biscoitos, e distribuía chocolates, nas datas especiais. Acho que acabei incomodando, bastante. Foi a minha experiência funcional mais árdua, e ao mesmo tempo , a mais gratificante. Culminei-a, pedindo destituição da comissão, por livre e espontânea vontade, desejando reunir-me aos filhos, na cidade de Campina Grande-Pb. Claro ,que fui considerada uma louca.!A coragem de perder uma situação de prestígio não é fácil para qualquer um. Eu já havia compreendido, claramente, que o bom da vida é SER ... ESTAR é passageiro demais, para que a gente possa nele se fiar.

Mas até completar meus dois anos, vivi muita coisa boa !
A natureza em Friburgo é prodigiosa. Só comparável ao nosso pé de serra.
Muitos shows, muita gente de fora com figurinhas para trocar, e a gastronomia especialíssima !
Os bosques de orquídeas eram nativos. Águas correntes , clima ameno, recantos paradisíacos !
Meu companheiro que tocava violão chegou pouco depois. Não sentindo clima de boemia , despediu-se em seguida. Eu aproveitei para um tempo de serenar o coração e a alma. Mas, vez por outra, dava uma passada no bar "Edoardo", onde as pessoas curtiam um Happy Hour. Aí era papo , que não acabava. Gente escolarizada, sensível... Nada a ver com o grupo bancário, onde também existiam pessoas afáveis.
Um dia, o Apto em que morávamos teve, literalmente, o teto desmoronado.André conseguiu alugar por amizade uma casa belíssima, onde ficamos até o nosso último dia em Friburgo. Foi massa !

Afora o diferente , ainda lembro com saudades das Escolas de Samba, na época do Carnaval. Sem os deslumbres do Rio, claro, mas com a essência no pé, e na alma. Cheguei a participar de uma delas , com grande entusiasmo. Na realidade eu vivia meu lado profano e sagrado, em perfeita harmonia... Se isso é possível !

Fomos visitados por todos amigos e familiares. Friburgo, encantava !
Passei inúmeros finais de semana no Rio, em Lumiar, e em São Pedro da Serra, sem contar com outros lugares, nas proximidades.
Foi sem dúvidas uma experiência rica , e no fundo feliz, morar em Friburgo.
Mas, com notas da responsabilidade materna, Campina Grande me esperava... E fui !

Era Agosto de 1994

Agosto



Agosto é o mês dos meus gostos ...
Nem todos !

Os desencontros acontecem,
mas se alternam,
com sonhos de encontros.
Rezo pra Santo Agostinho,
e assisto Hitchcock,

para aprender a desvendar ,
alguns dos teus mistérios.

Um exercício complexo...
O revelar-se
O aprender com retoques,
na miragem da calma .

pancada da brisa



Foco num beijo.
Vento carrega os meus , e sai por aí, beijando folhas,
que a sua força ,forte ou suave , deixou cair.
Beijo e suspiro combinam com a surpresa do carinho expresso...
É como um café, que a gente beberica,
e deixa na boca um gostinho de céu.
Beijo é remédio leve , sem tarja preta.
Ansiolítico do corpo e da alma.
Beijo está na pele
de quem levou uma pancada da brisa.

Vida itinerante d euma bancária- Lábrea !



Fevereiro de 1979

No Banco do Brasil, quando um funcionário desejava acertar as suas contas ou queria mudar sua rotina, pleiteava uma adição. Num tempo limitado, a partir de três meses, ganhávamos diárias, que representava a duplicação do salário.
Foi divulgado que por ocasião da inauguração da Ag. De Lábrea,(AM) existiriam vagas para adição. Fortaleza enviaria três funcionários. A lista de concorrentes era expressiva.
Numa noite de pleno Carnaval, na AABB, cruzei com o Gerente Maia, e confessei-lhe: “olha, eu estou precisando desta oportunidade!”.
Quarta-feira de cinzas, meu nome constava na lista dos indicados.
Dois dias depois estava voando para Manaus, em seguida para Porto Velho (Ro), de onde finalizaríamos o percurso para Lábrea, num avião pequeno ,mono- motor. Encontramos-nos, os adidos, na expectativa daquela aventura. Éramos 12, incluindo a implantadora.
Quando nos acomodamos na aeronave, o silêncio era mortal. Sobrevoar a selva Amazônica, sem a segurança técnica, nos atemorizava.
Uns 40 minutos depois estávamos aterrissando, na terra prometida. Fim do mundo, civilização primitiva. A cidade construiu um hotelzinho para nos receber. Saímos à noite, em grupo, para o reconhecimento da cidade e pessoas. Cervejinha, com sal e limão, nas bordas da lata.Nunca gostei de cerveja, optei pelo guaraná Baré (deliciosos!). Auxiliadora, a implantadora, mineira, tocava um violão maneiro. Minervino, potiguar, gostava de cantar.
Rômulo Rolim, irmão do Jair, pertencia ao grupo de adidos.
O tempo não passava. Os dias me pareciam infinitamente longos.
Curtíamos e sofríamos: a chuva diária , o pôr-do-sol deslumbrante, as picadas de carapanã, as pescarias e banhos no Purus, a natureza exuberante, as viagens para Porto Velho, Humaitá, e Letícia , na Colômbia, aproveitando o tempo de estadia. Nas pequenas viagens, nos cotizávamos e pagávamos os fretes de avião.
As vezes tínhamos dinheiro no bolso, e nada para comprar. Salvavam-nos as castanhas do Pará, o leite condensado, e a polpa de cupuaçu. A economia básica era borracha e madeira. Nada de agricultura e Pecuária.
O maior desafio meu, como bancária, foi elaborar a primeira folha de pagamento da Agência. Fiz os cálculos minuciosos, em cima da CIC, e trabalhei os “espelhos”, numa NCR.
A cidade era festiva. Dançávamos carimbó , quase todos os dias, no clube social.
Diziam do alto índice de lepra, na região, mas conseguimos não nos apavorar.
Quando cumprimos o tempo mínimo previsto, respirei aliviada pela não renovação.do contrato. A experiência tinha sido muito forte.Às vezes achava que havia morrido, e estava ora no céu, ora no inferno, ora no purgatório.
À volta, na parada em Manaus, enchemos as nossas malas de coisinhas importadas. Presentes pra todos os amigos e familiares!
Cortei meus cachos, pintei o cabelo de vermelho, e encarei Fortaleza com um novo visual... Quase ET!

Um ano depois, me despedia em definitivo de Fortaleza, transferida para o Cesec de Juazeiro do Norte, recém inaugurado. Era o ano de 1980!

Retrato da poesia



Existem riscos ,
que eu não petisco
A lua protege de luz
o beco escuro dos meus olhos
Ontem ela esteve soberba
grávida de todos os sonhos
ventre inflamado de encantos
Minha câmera invisível
encara o céu...
A janela dos meus hóspedes,
sempre aberta ,
É o porta-retrato da poesia

Ausência



Eu sei que você não veio
que você não chegou
que o vazio ficou...

Eu sei que não tivemos tempo
que foi tudo rápido,
como um sorvete na praça,
num domingo quente

Eu sei que podia ter sido diferente...
Não consegui felicidade plena
Senti todas as ausências
e abracei comovida todos os meus amigos
que a vida, naquela noite, reuniu !

Preciso agora de encontros próximos
no dia a dia...
Aqui ou alhures.
Com tempo para os silêncios , um cafézinho,
um papo, num banco da praça...
Estou carente de ficar mais tempo
com os meus amigos.
Que eles cheguem em versos, prosas,
e celebrem conosco as alegrias da vida .
Essa curta curva ,
que nos reserva vislumbres da eternidade
onde o que é verdadeiro, fica !

Vida itinerante d euma bancária : Fortaleza!



Agosto de 1977

Fortaleza do alto me pareceu pequena. Procurei sua personalidade física, e não identifiquei..Estava apaixonada por Recife!
Ag. Centro Fortaleza, na Pça do Carmo. Um novo tempo de vida, novos amigos!
O cearense é receptivo. Senti a alegria de voltar pra casa!
Praia de Iracema, e seus recantos boêmios: Bar de Tia Rosa, Nick Bar, ou ainda, onde Zivaldo Maia tocava. No Estoril, reunia-se uma tribo política, figuras estereotipadas, alguns da esquerda festiva, mas o papo era agradável..Tinha gente que fazia a diferença, e bebíamos consciência política, democratização, e cidadania.
Tempo em que passei finais de semana numa Canoa Quebrada à luz de lampiões, dormindo na casa dos pescadores, comendo peixe com farinha , e café com tapioca. Dançávamos na noite, ao som de uma vitrolinha, com um disco arranhado de forró. Mas os nativos sabiam dançar, e a gente pegava um embalo festivo.
Trabalhava no Câmbio ( setor considerado de elite), mas depois fui transferida para um setor de estiva. Meus filhos exigiam minha assistência, e eu não dispunha de tempo para prorrogação de expediente.
Frui alocada, no SEDIV (setor de serviços gerais), como provação ou castigo.
Enquanto expurgava documentos, ou fazia ordem no arquivo morto, cantava todas as canções que eu sabia. Trabalhava ludicamente, e as noites me esperavam com as suas rodas de viola.
Saudades do "Santiago Drinks" ! Saudades da voz de Otávio Santiago que, acompanhado de Zivaldo ,cantava “A mulher que ficou na taça”, " Dama de vermelho", "Foi Ela ..."
Um dia, acordei querendo uma mudança de vida. Já tinha completado minha faculdade de boemia. Cristiano Câmera, a quem visitava com freqüência, já tinha me contadas mil histórias sobre a música clássica, a música popular brasileira, e o cinema antigo. Foi um professor e tanto!
Antes de pedir nova transferência, vivi a experiência de uma adição no Amazonas. Depois, pedi remoção para o Cesec de Juazeiro do Norte, querendo ficar de novo perto da família, e melhor conduzir a vida dos meus filhos.
E, mais uma vez, com o coração machucado de saudades, segui a estrada do destino. Deixei o mar para trás.
Lábrea (AM) e Cesec Juazeiro do Norte, merecem capítulos à parte.

P.S. Dessa passagem por Fortaleza grandes amizades se firmaram :
Abraços em Maria de Jesus Andrade, Celeste, Dona Raimunda, Dorvina, Condé, Wilson Garcia, Luiz Ailton, Zivaldo e Maria do Carmo, Sérgio Rodrigues, Cecília, Luciano Lira, e tantas outras pessoas queridas

O doce e a traça



Enquanto falo da vida,
e vejo que tudo passa
também sinto o retornar
do muito que a vida traga
Traças não corroem
o véu da minha cara
Formigas não bicam
o doce da minha taça.

Vida itinerante d euma bancária - Uberlãndia!



Agosto de 1982

E um caminhão de mudança pegou a estrada de Minas.Uberlândia, no Triângulo Mineiro, meu próximo destino !

Assumi no Cesec, num horário especial : das 18 às 22 h. Tenho o dia pra cuidar da casa , e dos filhos, na idade escolar.
Trabalho na digitação, um trabalho manual, repetitivo, que nos permite intervalos de folga de meia, em meia hora. O lanche é bem legal, e dá pra papear com os colegas de sina. Nicodemos foi um deles. Nos conhecemos, justo nessa época ! Ele era um bancário querendo ser artista, músico ( sua verdadeira vocação).
Pegava carona no final do expediente, na garupa da sua moto. Frio imenso ! Parávamos num barzinho pra ouvir um violão, e bebericar um conhaque.
Uberlândia é uma cidade progressista, mercantilista, e por lá o dinheiro corre mais fácil do que no interior do Ceará. A festa de Exposição Pecuária é um evento anual de destaque !
Apesar da influência da música sertaneja, encontramos músicos que divulgam a MPB da mais fina origem, como o pessoal do Clube da Esquina. Lá aprendi a gostar dos meninos, mais ainda !
-Milton, Toninho Horta, Beto Guedes, Ivan Lins, L.Borges, etc.
Finais de semana passeando em Araxá, Patrocínio, Caldas Novas, Uberaba, e até Belo Horizonte e Sampa, mudavam a minha rotina.
As pessoas me ensinaram uma alimentação mais rica. De todo Brasil, Minas tem uma culinária especialíssima !
Mas não consegui me achar naquelas terras. Pedi remoção de volta para o Ceará, oito meses depois.
E ela chegou com desligamento imediato para a Ag. de Juazeiro do Norte, no Ceará.
O caminho de volta foi feito num chevette , cantando Chico e Francis Hime, e com um gostinho de pão de queijo na memória.. A chegada , fica para o próximo bloco.

Oracular



E Anita falou :
Deixe o passado para trás. Teu futuro é animado . Caminhos abertos, corpo fechado !
Vida longa precisa intercalar de festas, a solidão.
O amor , quando bate à porta , porque não o deixa entrar ?
Filha de Santa Clara por que desistiu de amar ?
Rasgue a fumaça com o olhar. Filha de Santa Clara não perde por esperar ...
Deixa a esperança voltar !
E Anita a chamou de birrenta, ciumenta, pavio curto, coração amoroso, apaixonado. ... E ela compreendeu que ser bom é esquecer o sofrido, e apostar na alegria.
Quem parte por qualquer motivo, tem o direito à liberdade de partir. Não podemos prender alguém com o pensamento... Liberar é poder ficar , sem abrir mão do bem estar !
E ela flutuou nas nuvens que achou no dia... O amor nunca a deixou , nem ficou preso em si.
Tem o mérito de poder voar, e pousar onde o seu coração deseja por escolha , por vontade...
A vida é longa , quando o amor é sagrado !

transcendência



dor de amor não mata
está no choro e no riso
(sem masoquismos).

Impossível amar
sem aperto no peito...

coração lato ,
seja abençoado !

depois de lamber a ferida
a gente transcende,
e ama de novo,
até doer na alma

Há um prazer místico e erótico
nesse processar divino,
tão humano...
um sentimento epidérmico,
que deixa cascas na alma.