por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



domingo, 4 de novembro de 2012


Lenine abre 14ª Mostra Sesc Cariri de Culturas

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Lenine / Foto: Hugo Prata
“Isso é só o começo” – canção que abre e fecha o novo show de Lenine, intitulado Chão, dá o tom perfeito à nova fase da turnê. Desde março deste ano, o espetáculo foi visto em mais de 20 cidades brasileiras, passando também por Chile, Argentina e Uruguai. No dia 8 de novembro, o cantor estreia no Crato apresentando a turnê, na abertura da 14ª Mostra Sesc Cariri de Culturas. O show acontece na RFFSA, às 22h, e é aberto ao público.

Em junho, foi a vez do lançamento europeu, com apresentações em Paris, Toulouse, Milão e Vienne. De volta ao Brasil, Chão recomeça seu giro nacional por Paraty, abrindo a décima edição da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty.


Com direção musical do próprio Lenine, em parceria com Bruno Giorgi e JR Tostoi, o show tem em cena os três num espaço repleto de instrumentos e equipamentos eletrônicos, responsáveis por reproduzir os ruídos orgânicos que permeiam nove das dez faixas do disco, como “Chão” (Lenine / Lula Queiroga), “Envergo mas não quebro” e “Isso é só o começo” (Lenine/Carlos Rennó).

Juntos, Lenine, Bruno e JR Tostoi ainda têm a incumbência de transpor os sucessos do compositor – indispensáveis – para essa nova atmosfera. “Jack Soul Brasileiro”, “Leão do Norte” (Lenine/Paulo César Pinheiro) e Paciência (Lenine/DuduFalcão) são alguns deles.

Paulo Pederneiras, diretor de arte do espetáculo, criou um cenário em tons vermelhos, que ocupa apenas o chão da caixa cênica, em contraste com o entorno totalmente negro.  Três lâmpadas simples, uma sobre cada um dos músicos, compõem a cena. À equipe de Paulo somam-se Fernando Maculan e Gabriel Pederneiras.
Lenine / Foto: Beto Figueiroa
Lenine / Foto: Beto Figueiroa

Para Lenine, levar Chão ao palco é mais do que simplesmente tocar as canções do álbum. A ideia é ambientar o espaço com os sons como o canto do canário belga Frederico VI, o ruído ensurdecedor das cigarras no verão da Urca, a agoniada derrubada de uma árvore por uma motos serra, entre outros.

Chão, produzido e tocado por Bruno Giorgi, JR Tostoi e por Lenine, é o décimo álbum de carreira do cantor e compositor. Numa evidente opção estética – instigada pelo canto de um pássaro, que invadiu a gravação de uma das faixas - o trabalho revela-se “eletrônico, orgânico e concreto”, com dez músicas inéditas, imersas na delicada intimidade de ruídos sem edição.

“No início, havia apenas a palavra e meu principal significado de chão: tudo aquilo que me sustenta. Chão, quase onomatopeia do andar – que soa nasal, reverbera no corpo todo. É pessoal, passional e intransferível” – conta Lenine, explicando como surgiu a inspiração para o nome do disco e, consequentemente, da turnê.

SERVIÇO
Turnê Chão – com Lenine

Local: RFFSA (Crato)
Data: 8/11
Horário: 22 horas
::: Gratuito :::

Fuja do Atacado e Venha para o Varejo - José do Vale Pinheiro Feitosa


Cidade Brinquedo - marcha de Silvino Neto e Sílvio Bretas - cantada por Orlando Silva

Uma longa e especial caminhada: do Bairro Jardim Botânico até a Rua Primeiro de Março no Centro da Cidade. Destino: Centro Cultural do Banco do Brasil. Isso tudo passando pelos palácios da Rua São Clemente, a claridade aguda da enseada de Botafogo e um dos mais lindos jardins botânicos do mundo: o Aterro do Flamengo.

A exposição sobre o impressionismo do CCB nos foi impossível após 13 quilômetros de jornada: fila com o mínimo de hora e meia de espera. Mas ali mesmo por volta do CCB, um quadrado envolvendo as ruas do Mercado de um extremo e dos Mercadores e Visconde de Itaboraí no outro e verticalmente as ruas do Ouvidor, Rosário e a Travessa Tocantins o Rio é continuamente o Rio. Claro com as novidades da época, mas são dezenas de bons e até sofisticados restaurantes inclusive com conjuntos de chorinho para seus frequentadores. Não sem razão terminamos numa Brasserie como foi central a cultura francesa na primeira metade do século XX aqui na cidade.

Aí o relato geográfico termina e começo outro sentimental. Relato esse vivido por quem nasceu e criou-se numa terra e depois se mudou para outra. Ou seja, grande parte da população brasileira, especialmente da minha geração. Quando chegamos à nova terra, trazemos todo aquele matulão de cores, sons, gostos e paisagens que somos nós. Chegamos com os falares, os costumes, roteiros e trilhas do viver do mundo original. De modo que tudo é novidade. O Rio de Janeiro de cada esquina era novidade, desde compreender o que fosse um condomínio para quem apenas em casa vivera até qualquer detalhe de sua arquitetura. Isso sem contar a mais bela geografia de todas as cidades do mundo.

Hoje as ruas são entes conhecidos, transitados, estacionados e usufruídos. Por uma razão especial trabalhei em toda a Rosa dos Ventos da cidade. De modo que a cidade como um todo é um planisfério igualmente transitado e equalizado na memória. Em outras palavras: poucas novidades. Mas então a beleza dialética entre o sabido e aprendendo, entre o conhecido e a novidade cessou? De certo modo aquilo que um dia foi novo, agora é cotidiano e isso reduz o sentimento que tão bem se fotografou como um flash na saída do túnel da Rua Alice e dali o Pão de Açúcar surgiu com um pedaço da Baia da Guanabara abaixo de onde me encontrava.

Naquela ocasião, é bem verdade que estimulado por uns dois copos de cerveja especialmente porque tomados numa birosca da Favela do Escondidinho com o povão mais carioca que existe, eu comemorei comigo por morar nesta cidade. A cidade que de algum modo fora a essência da realização urbana, cultural e política do país e que todos tínhamos como desejo de ida. Depois é que São Paulo tornou-se este atrativo em particular para os cearenses.

Como disse agora tudo é conhecido e aí tudo é reduzido em sentimento e emoção? Em parte para quem é muito caseiro, circula em veículos automotores, metrô ou trem é isso mesmo: um cotidiano acrescido de rotinas. Porém quem estica nos bares, planta os pés nas areias da praia, samba, ouve chorinho e frequenta praças, algo permanece de primavera. E agora sei de algo que os pensadores, poetas, pintores entre outros que foram cultivadores do bucólico nos séculos XVII e XIX em longas caminhadas rurais descobriram. Poetas como Byron, Shelley, por exemplo, ou pensadores como Kant ou Nietzsche.

Quem também descobriu foi o nosso Humberto Teixeira em conjunto com Luiz Gonzaga tal qual nos cantam na Estrada de Canindé: “vai oiando coisa a grané, coisas qui, pra mode vê, o cristão tem que andá a pé.” É isso aí: quando o físico recupera-se da preguiça do automóvel, tem força e liberdade para andar nas ruas, estradas e trilhas o novo que se esconde no velho se manifesta como não se imagina. É neste apanhar o mundo e sua vida a granel que o sentimento de pertença ao lugar retorna sem o zinabre do tempo. Andar a pé não é coisa pru matuto desentupir apenas as veias do coração. Andar nos trajetos da vida passo-a-passo é desentupir as manifestações do grande movimento do ser.

Estrada de Canindé - Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira - cantada por Luiz Gonzaga


Mas o assunto tem mais e paro aqui, pois a postagem já está demasiada. Amanhã continuarei para quem conseguiu chegar nesta coisa a granel. 

sábado, 3 de novembro de 2012

Parabéns, Marlísia!

Aniversaria amanhã, Marlísia Sobreira-  pessoa do nosso coração!

Desejamos-lhe  dias futuros plenos de paz, amor e saúde!

Abraços especiais dos amigos e familiares

A Líbia e os Cadáveres Assassinados de São Paulo - José do Vale Pinheiro Feitosa


É só para lembrar. Quando trucidaram Kadhafi e agora se sabe com a participação de agentes da OTAN, alguns entre nós comemoramos. Acharam aquilo justiça para um ditador. Não todos, porém os mais radicais gozavam a morte do ditador como a senha para que se fizesse o mesmo com Fidel, Hugo Chávez, Ahmadinejad e outros do “coração” das viúvas da Guerra Fria.

Aliás, ontem a Rússia publicou um relatório sobre Direitos Humanos nos Estados Unidos e o Império não tem muita lição a dar a ninguém. Foi um relatório bastante sustentado posto que baseado em dados da ONU, de ONGs como Human Higths Watch, Repórteres sem Fronteiras. A posição dos EUA no ranking dos direitos humanos é 47ª, melhor do que a Rússia, mas a ideia é que não têm lições a dar a ninguém.

Mas também surgiram alguns dados preocupantes no noticiário de ontem. A guerra civil na Líbia anda solta. A truculência de grupos armados é horizontal e vertical. Ultrapassa as fronteiras da religiosidade e das lutas ideológica, é uma violência aparentemente sem causa, metafisicamente é a tortura e a morte. E a querida e civilizada Europa e mais os EUA abandonaram a Líbia à própria sorte. De fato os “civilizados” devolveram à Líbia a liberdade. A liberdade de se matarem uns aos outros.

Mas tem algo mais grave. Os grandes bancos Europeus e mais alguns Americanos que por ordem do boicote de países como França, Itália, EUA, Inglaterra entre outros bloquearam 157 bilhões de dólares de contas do governo e de membros do governo Líbio. O certo que é que com o fim da ditadura este dinheiro fosse devolvido ao povo Líbio ao menos para recuperar os estragos dos bombardeios da OTAN. Segundo o mesmo relato os bombardeios da OTAN destruíram dez vezes mais a estrutura do país do que os ataques aéreos de Rommel na Segunda Guerra Mundial.

Mas o dinheiro sumiu. Escafedeu-se. Funcionários dos bancos lavaram o dinheiro em paraísos fiscais e agora ninguém sabe, ninguém viu em que mãos o saque europeu foi parar. Rapinaram um país que havia acumulado reservas e infraestrutura e as hienas ideológicas ainda assinam colunas louvando tais práticas.  

No jornal o Globo uma explicação para o aumento da violência em São Paulo. O jornalista Bob Fernandes já havia chamado a atenção para um fato estranho. Se a guerra era de bandidos contra as forças policiais por qual motivo as mortes só ocorriam entre agentes da Polícia Militar e não da Polícia Civil?

O Globo aponta uma especificidade que pode explicar esta seletividade homicida. A guerra entre bandidos e a PM paulista é fruto da briga por pontos de caça níquel. As “milícias” incrustadas na Polícia Militar avançaram sobre o domínio dos caça níqueis e claro como em todo jogo mafioso o pau comeu. E assim como a briga entre Sampaio e Alencar do Exu nunca tem um paradeiro, sempre há uma camisa manchada de sangue, a barbárie paulista migrou para a pura carnificina.  

Agora vem a pergunta: os Tucanos que governam São Paulo há tantos anos têm parte da culpa? Claro que têm. E culpa maior porque ao invés de levantar a questão da corrupção dentro da corporação policial, tratam de ficar com um jogo besta de oposição e situação. Eles são os anjos e o PT os demônios. Não é bem assim cara pálida: o mundo cá fora é independente do PT e do PSDB e se estes não traduzirem o mundo em que atuam, ambos ficam cada vez mais parecidos. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Dia dos Começos - José do Vale Pinheiro Feitosa


“Olha, a melhor coisa do mundo hoje é a paz. É a paz, é a união. Porque a paz é saúde e a união é a grande coisa boa no mundo. E hoje em dia é pouco o que a gente vive: é a paz. Mas o quê eu gosto mais é a paz e união.”

“O quê é que eu acho da vida é que nós mora aqui em cima desse chão, mas aqui não tem nada nosso. O pessoal briga por terra, por isso por aquilo outro, mas nenhum tem terra. Ele (Deus) deixou tudo para o homem viver. Para o homem viver e não mendigar o pão do outro. Tudo o quanto é feito na terra é da terra. A fonte mais forte que existe no mundo é a água. Nosso povo faz e acontece, faz tudo, mas tem que ter a água. Nós passa sem o feijão um dia dois, nossa passa sem carne três ou quatro, cinco dias, nós passa sem essas coisas, mas sem a água nós não passa.”     

Afinal de conta todos nós vamos morrer. Mesmo quem está nascendo hoje, que tem toda a esperança da vida, de viver uma vida longa vai morrer também e quando a gente morre o quê que acontece?   

“O quê é que acontece é que nós vamos ficar no limbo do esquecimento. Vamos ficar no limbo do esquecimento. Eu posso morrer hoje minha família chora, cai por aqui, por acolá, faz tudo em conta, quando é com os tempos estão cantando, estão dançando, tão tudo, não se lembrou, acabou-se, eu estou no limbo do esquecimento. Aquilo que eu pratiquei na terra aquilo esqueceu-se, aquilo eu morri mas não vou me lembrando daquilo não.” (Entrevista com Manoel Galdino, camponês, barbeiro e pescador de jangada nascido no lugarejo de Siupé, morador de Paracuru e que tinha 87 anos na data da entrevista para o Programa Paracuru Minha Terra Minha Gente).


Duas palavras têm força de presença universal na nossa cultura: finados e defunto. Ambas funcionam na dinâmica do coração como um eclipse na luz da vida. Nós os nordestinos temos por hábito ao falar de alguém que já morreu apostando antes de seu nome a palavra “finado”. A palavra defunto é usada com mais raridade, pois tenho a impressão que suas sombras são muito mais amplas.

Hoje é o dia de finados, daqueles que já se findaram. Viveram e por isso conquistaram o fim. Quem nunca findou encontra-se num impreciso nada que admitimos existir como forma de se contrapor com a continuidade do tempo, pois no tempo continuamente brota existência que sabemos autoalimentada do que já existe. Em outras palavras: nada vem do nada.

A palavra defunto por mais que escureça meu coração tem uma raiz latina muito interessante, assim como seu Manoel Galdino soube expressar. A raiz da palavra latina para defunto tem o significado de aquele que cumpriu a vida, mas pode ser também, a junção da partícula negativa “de” com o verbo que em latim significa funcionar.

Por isso, embora não seja um cultor do dia de finados, bem sei que ele é a liberdade do limbo do esquecimento. E com certeza é o repatriamento dos nossos nesta continuidade do tempo. Maria do Carmo, a segunda esposa de José do Vale Arraes Feitosa acaba de ligar-me dos Currais, a terra em que um dia ele plantou pés de acerolas.

Naquele exato momento Paulo César o mais novo do primeiro casamento e Diana Maria a mais nova do segundo casamento, estavam na cidade em alguma padaria comprando pão e leite para a noite em família. E assim, todos nós fugimos do limbo do esquecimento.  
  

Cortejo das artes no Crato




foto by Gaby

Cheiro de velas e de flores
Corações soltos ou apertados de saudades
Reencontros adiados, riscados, antecipados...
Reencontros... Quem sabe?

Música clássica ou fados?

Panelas, torneiras, aquietadas
Um bando de almas do outro lado
Almas agitadas do lado de cá
Vidas nascentes
Olhos sem vida

Estrelas brilham nos teus
Como é que pode?
Tão lindo!

Tua pena imaginária
Desliza na tecla real
Da ponta dos teus dedos
Recados amorosos,
Informações valiosas
Desabafos críticos

A vida pulsa em alguns
Acelera o coração de muitos
Vivos e mortos
Num universo comum

- Reverencio a  soberania de todas as existências.

É A GRANA, ESTÚPIDO! - José do Vale Pinheiro Feitosa


É a grana, estúpido! Repetindo a frase do marqueteiro James Carville na campanha de Bill Clinton de 1992. A grana é fonte do poder absoluto e só a sociedade diretamente ou pelo Estado pode controlar este poder. Os liberais acreditam mais na liberdade das “mãos-cheias-de-grana” do que no bem comum da sociedade. O discurso desta corrente econômica evoluiu do dinamismo pessoal e das possibilidades criativas dos sujeitos para a defesa franca e bastarda dos ricos.

Os liberais navegaram tão mais além de suas raias singradas que se tornaram meros “capitães-do-mato” a “serviço” das “mãos-cheias-de-grana”. Por isso é que enquanto os comuns afiliados às correntes ideológicas da direita neoliberal, abrigadas no Brasil no PSDB e DEM, mas espalhada em todos os partidos, afinam sua fé confessional, apenas são a correia de transmissão daquelas ditas “mãos-cheias”.

Na verdade a essência, o núcleo ideológico, “núcleo duro” como os “intelectuais” do PSDB gostavam de dizer nos anos das privatizações, são economistas, jornalistas, dono de mídia e funcionários de bancos de investimento no jogo financeiro do mais absolutismo do capitalismo em todos os tempos.

Quando falamos de absolutismo estamos nos entendendo: é a contrarrevolução ao movimento liberal burguês dos velhos tempos. Afinal uma parcela “golpista”, por meio de uma enorme concentração financeira, criou a hegemonia absolutista que enforca as empresas produtivas, as contas dos Estados Nacionais e os caraminguás das famílias.

Na base de toda a crise atual está esse poder absolutista operando sob a forma da chamada “austeridade” gargalando as instituições, promovendo a recessão ampla geral e irrestrita e destruindo a renda das famílias. E o pior é que não existem reações “pacíficas” à “austeridade”, mesmo o exemplo da Islândia que levou o povo a escrever a própria constituição através de um plebiscito, não tem nada de manso ou mera passagem de bastão.

A verdade é que o salve-se quem puder dos momentos mais agudos deste abalo sistêmico levam os ratos a pularem dos barcos. E foi assim que um funcionário do Banco HSBC levantou os depósitos de lavagem de dinheiro e fuga fiscal de milionários de todo mundo. Entre estes “mãos-cheias-de-grana” muitos gregos. Isso mesmo: os gregos que hoje não têm emprego, passam fome e agitam as ruas. 

Esta lista acabou nas mãos de Cristine Lagarde, atual mandatária do FMI quando ainda era ministra francesa. Cristine por algum sentimento de raiva ou para criar instrumento para salvar o Euro e a União Europeia, entregou a lista para o Ministro das Finanças da Grécia. Esse não fez nada. Nada aconteceu no poder executivo, no poder legislativo e no judiciário. Todos fazem parte do mesmo esquema absolutista de enforcar o povo grego.

Há poucos dias o jornalista grego Costas Vaxevanis teve a lista em suas mãos e não mediu consequências. Publicou a lista das “mãos-cheias-de-grana” com suas contas ilegais na Suíça e outros países. Como o sobrenome do homem lembra para nós de fala portuguesa: foi um Vexame. Empresários, advogados, médicos, jornalistas, ex-ministros e até pessoas jurídicas de companhias gregas escondiam a mufunfa do fisco grego.   

O jornalista foi processado. O jornalista! Não os sonegadores. O jornalista foi processado e pegaria até três anos no xilindró. Só que o clima nas ruas da Grécia não está para peixe e os gregos devem muito aos europeus para que o espírito de grupo funcione favoravelmente a quem esconde grana quando os cobradores querem receber.

Ora o jornalista foi inocentado. Talvez esqueçam de fato das consequências para os nomes da lista, mas uma coisa é certa, o jogo desse povo está exposto. Mas não é impossível que algum leitor que chegue até estas últimas linhas diga: a culpa é do excesso de impostos. Mas como cara pálida? Você é contra o liberalismo? É pelo superávit primário e pelos juros que as “mãos-cheias-de-grana” recebem mais notas entre os dedos.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Lettres D´Amour - José do Vale Pinheiro Feitosa


Quando ao cego se deu a luz, bilhões de coisas visíveis se apresentaram aos outros sentidos que já as sentiam, de outro modo e nem sempre das longas distâncias em que a vista alcança e outros sentidos não. Mas é desta liberdade de ir cada vez mais longe que a luz se perde, sai do foco, se torna uma mancha sem significado.

E o fabuloso reino de Portugal, das epopeias dos Lusíadas, tão de vanguarda e livre para ir cada vez mais longe e tantas terras conquistar que terminou sendo conquistado. A aventura de Dom Sebastião e seu tropeço de Alcácer-Quibir encantou os sonhos de liberdade dos portugueses e a coroa espanhola fez de Portugal quase uma província.

Mais de quarenta anos após, em 1640, houve a restauração do reino com a dinastia bragantina. As guerras da restauração duraram mais de vinte anos e esta história acontece no clima. Neste mesmo período Richelieu controlava o reino francês, os reinos europeus viviam a guerra dos trinta anos e a Inglaterra passou pela revolução puritana que foi a primeira grande revolução da burguesia no mundo.
No tal ano de 1640 nasceu na cidade de Beja em Portugal uma jovem de família abastada, sujeita a lei dos vínculos em que os filhos mais velhos recebiam a integridade do patrimônio familiar para que esse não se dividisse, restando aos irmãos mais jovens a dependência, a aventura, o serviço militar ou os conventos. Aos onze anos a menina é entregue num convento na cidade de Beja onde nascera e aí se torna madre. Com o tempo se torna escrivã do convento.

A restauração portuguesa, como dito, foi no clima geral das guerras europeias de modo que até oficiais holandeses e franceses foram parte dela em pleno território lusitano. Entre os comandantes de guerra esteve o Conde Noel de Chamilly. A freira tinha vinte e poucos anos e ambos se encontram através dos membros da família dela.

Três anos após ter estado em Portugal, Chamilly retorna à França e dois anos passados sai publicado em Paris as “Lettres Portugaises traduite em François” por Claude Barbin. Eram cinco cartas sobre um grande amor envolvendo Chamilly e uma freira portuguesa. As cartas foram escritas por ela.

E aí se montou uma narrativa semelhante à veracidade sobre a existência ou não de Shakespeare. Estamos falando de Mariana Alcoforado. A freira suposta autora das cartas traduzidas para o francês se tornou um grande e contraditório diálogo literário e biográfico.

Adotando os dois temas falaram dela Camilo Castelo Branco, Rousseau, Saint Simon, Stendhal, Rilke entre muitos. Mas o que se tem é uma grande escrita literária em cinco cartas apenas. Reflexo de uma época de grandes paixões, de profunda lealdade ao ser em si, mas também da ambiguidade entre duas profundidades de se perder: a dubiedade do amor de um ser humano por outro e ao mesmo tempo do amor universal representado pela divindade.

Ambas as profundidades apontam o indestrutível, o eterno e contraditório ao desgaste, a metafísica do amor, o amor como a extração da essência e a semente permanente da lealdade a um só.

E nisso as cartas da Madre Mariana Alcoforado são uma grande luta de contrários já com as sínteses extraídas: entre o amor por Chamilly e o seu dever a Deus como freira. Como se trata do dramático advindo do confronto do particular do amor entre os humanos e o geral do amor a Deus, ambos com o mesmo sentido das características da profundidade como dito no parágrafo anterior, o drama serve para expressar de forma inigualável a natureza desta dita profundidade.   

Eis que passados mais de trezentos anos as Cartas de Mariana Alcoforado continuam sendo o que são: a paciente capacidade de entendermos a nós mesmos através das palavras. E das palavras escritas em textos com estilo que aos pouco afeitos à leitura incomoda ou que acham tudo que não mensagem no twitter algo chato. Vindo daí o raso em que viver se tornou um mero reduzir-se a drops de muitos sabores. Fugazes e propícios a cáries mentais.

Acho que se você leu até aqui, já estamos no excesso que não se espera dos leitores inabituais. Mas se chegou me anima a trazer alguns trechos da primeira carta:

“E contudo – parece-me que até aos infortúnios de que és o causador, eu tenho apego! Ofertei-te a minha vida desse a primeira hora em que te vi e é ainda um prazer para mim fazer-te o sacrifício dela.”
“Só me queixo do rigor do meu destino. Apartando-nos, fez-nos ele o maior mal que poderíamos recear. Não conseguirá, porém, apartar os nossos corações. O amor, que é mais poderoso do que ele, reuniu-os para toda a vida”

“Adeus, não me atrevo a deixar este papel que vai estar nas tuas mãos e quereria ter a mesma dita. Ai, que desvairada ando! Como se não soubesse que tal não me é dado. Adeus, falta-me o ânimo. Adeus, ama-me sempre e faz-me padecer ainda mais.”

Ficamos por aqui com a canção portuguesa a seguir. O livrinho com as cartas é da coleção Nossos Clássicos da editora AGIR e tem o título Mariana Alcoforado.

Não venhas tarde - Carlos Ramos - por excesso coloquei esta música para que estranhes mas ao final atenta-te aos versos finais:  "sem alegria eu confesso tenho medo, que tu me digas um dia, meu amor não  venha cedo. Por ironia pois nunca sei onde vais que eu chegue cedo algum dia e seja tarde demais."
  
  
As meninas de Rogério e Selma sob o céu do Cariri


Simone e Raquel: Belas!

A "fatal omissão" de um líder - José Nilton Mariano Saraiva



Nas eleições recém-findas (em Fortaleza), juntos os candidatos Heitor Ferrer/PDT (262365 votos), Moroni Torgan/DEM (172002 votos) e Renato Roseno/PSOL (148128 votos), totalizaram no primeiro turno o expressivo montante de 582495 votos. Como não foram ao segundo turno, tal espólio foi disputado pelos candidatos Elmano de Freitas/PT (318262 votos) e Roberto Cláudio/PSDB (291740 votos), que totalizaram 610002 votos.
Evidentemente, largaria com respeitável vantagem no segundo turno quem conseguisse o apoio ou a simples indicação (individual), dos candidatos acima citados (mesmo sem contar com os representantes dos partidos “nanicos”), daí a gravidade extrema da “neutralidade” ou “omissão” manifestada pelo Deputado Heitor Ferrer, que durante mais de sete anos foi o mais cáustico, coerente, costumaz e consistente crítico do Governador do Estado; e, no entanto, na “hora H”, na hora da “onça beber água”, na hora de dá o troco ao Governador, Heitor Ferrer estranhamente “bateu-catolé” (ou pipocou feio), sob a pífia justificativa de que caberia ao partido, e não a ele, pronunciar-se. No entanto, no entender até dos seus próprios eleitores, moralmente Heitor Ferrer tinha a obrigação de, para manter sua postura e coerência do discurso, declinar seu apoio ou indicação ao candidato-rival do governo. 
Fato é que, com a abertura das urnas emergiu com toda crueza e pujança o profundo “estrago” provocado pela fatal omissão de um líder na condução do seu rebanho: o candidato do governo acresceu à sua votação estupendos 358867 votos (ou mais 123,00%) enquanto o seu opositor recebeu 258083 votos (ou mais 81,09%); na totalização final, a diferença foi de 74172 votos (650607-576435 votos).  
Se nos bairros considerados “elitizados” e “classe-média alta” (cujos insensíveis moradores não estão nem aí para a questão “social” e seus desdobramentos) o candidato governista manteve a supremacia do primeiro turno (Aldeota – 21348 x 9164, Edson Queiroz - 14842 x 8900, Centro - 14821 x 11541, Meireles - 10049 x 4835, Mucuripe - 8109 x 6829, Luciano Cavalcante - 3438 x 2592, Cidade dos Funcionários - 6636 x 3931, Dionísio Torres - 9777 x 4690, Praia de Iracema -  4931 x 2778, Papicu - 5212 x 3386 e Varjota - 6898 x 3839, dentre outros), certamente que nos bairros periféricos os eleitores do Heitor Ferrer ficaram “à deriva” ou “boiando feito merda n’agua” e expostos ao assédio implacável de propostas não tão republicanas assim (houve denúncias de generoso derramamento de dinheiro na periferia, na noite anterior à realização do pleito, por parte da turma do governo), findando por decidirem a eleição de modo que nem eles imaginavam.
Lembram daquela velha história de que “por falta de um grito se perde uma boiada” ???). Pois é.

 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O “ser digno” – José Nilton Mariano Saraiva



Se o senhor Moroni Bing Torgan já entrou na corrida pra eleição da prefeitura de Fortaleza pela porta dos fundos, já que com um (reprovável) objetivo pré-definido – provocar o “racha” dos votos da periferia, objetivando claramente ajudar o candidato governista (o que de fato findou acontecendo), além de apoiá-lo e recomendá-lo no segundo turno – temos o contraponto a tão desonesta manobra corporificado no candidato Renato Roseno, do raquítico PSOL que, sozinho, sem qualquer aliado ou tempo na TV, conseguiu estratosféricos 150.000 votos, E, como antes e no decorrer da campanha bateu forte e incisivamente tanto no candidato da Prefeitura como no do Governo do Estado, ao tempo em que conclamava a população a ajudá-lo na implementação de “um novo jeito de fazer política”, nada mais coerente que, não conseguindo o almejado passaporte para o segundo turno, anunciasse que não apoiaria nenhum dos dois e, portanto, liberados estavam seus eleitores pra escolher em quem votar.
Aliás, sua coerência é tamanha e seu eleitorado tão fiel, que, na eleição passada, quando se candidatou a Deputado Federal, obteve votação muito parecida, só que “não levou” (não foi eleito), em razão da esdrúxula lei eleitoral brasileira vigente, que privilegia a tal da legenda, possibilitando que candidatos com votação inexpressiva sejam “coroados” com os votos que “sobram” de integrantes do mesmo partido (assim, alguém que consegue míseros 10.000 votos entra, em detrimento daquele que consegue 15 vezes mais).
Mas, voltando ao mote inicial ou retomando o fio da meada, ao contrário de Moroni, que fez da eleição pra prefeitura de Fortaleza um rentável “balcão de negócios” (deve ganhar uma secretaria de governo) e de Heitor Ferrer, que pisou feio na bola ao “omitir-se” na hora de dá o troco ao Governador do Estado, Renato Roseno sai pela porta da frente e de cabeça erguida, mercê da altivez e dignidade demonstradas.
Isso, sim, é “ser digno” (e na política, por incrível que pareça); isso, sim, é “um novo jeito de fazer política”; isso, sim, é ter respeito ao seu eleitorado.