por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



segunda-feira, 28 de novembro de 2016

MISSA DO GALO - Dr. Demóstenes Ribeiro


A minha alma canta e eu vejo o Rio de Janeiro. Estou morrendo de saudade, faz um domingo lindo, o sol é magnífico e a festa, universal. Saio do Cosme Velho e chego ao centro. Paro em frente à Academia, relembro patronos e colegas.

Como aceitar o suicídio do Pompéia? Ele escreveu o Ateneu, foi abolicionista e lutou pela república. Ainda era ainda moço e forte. Um Natal, um tiro no coração, silêncio e nunca mais. E o Gonçalves Dias? Tragado pelas ondas invejosas e não podendo dormir no chão amado, deixou a Canção do Exílio em todos nós.

Um dia, Castro Alves me procurou, recomendado pelo Alencar. Deu-me imensa alegria conhecer o poeta e sentir a força do gênio que iria cantar a liberdade, enfrentando a injustiça e a escravidão. Aliás, 13 de maio de 1888, um domingo, foi o único delírio popular de que me lembro de ter visto.
Agora é moda falar mal do Alencar, mas ele fez um retrato do Brasil como ninguém mais. Eu, quase um adolescente, o conheci de perto. Nesse tempo ele ainda ria. Depois, escrevi o prefácio de Iracema e me convenci de que nem tudo passa sobre a terra. José de Alencar é o meu patrono e a banalidade da morte jamais apagará aquele sol.

Olho essa estátua, recordo as palavras de Nabuco na sessão inaugural da Academia e as do Ruy Barbosa quando parti desse chão. Gostei muito do discurso do Ruy, mas, ao contrário de Nabuco, não éramos íntimos, tínhamos temperamentos diferentes, faltou-nos a prática necessária à amizade.

Não encontro a Livraria Garnier e na Rua do Ouvidor a confusão é geral. Sigo adiante, me emociono com um bater de sinos, a igreja da Glória me faz menino outra vez, mas a praia do Flamengo mudou demais. Muito mar e muito tempo, mar revolto, suicídio do Escobar... No calçadão, muita gente andando com cachorros. Aqui, Quincas Borba retomaria fumos de fidalgo e correria feliz.

Marcela e Virgília, Sofia e Flora, Sancha e Fidélia... Elas não eram para um tipo ciumento e permita-me cantar minhas saudades. Em direção à Ipanema, uma garota me lembrou Capitu. Não tirei os olhos dos seus quatorze anos, meu coração agitado, tempo infinito e breve até Carolina restituir-me o equilíbrio e a paz.

Saudades de mim mesmo... Rio de ontem e de sempre, lembranças e fantasias de um bruxo, ex-interno da Casa Verde, paciente do Simão Bacamarte. Dizem que Memórias Póstumas de Brás Cubas é um dos livros prediletos do Woody Allen, mas até hoje eu não sei se Capitu traiu o Bentinho ou se era ele quem desejava ardentemente o Escobar. Consultarei a cartomante – cedo ou tarde, ela descobrirá.

Por fim, lembrei do Astrojildo Pereira. Eu já estava partindo, quando um rapazinho, dizendo-se grande admirador, ajoelhou-se ao lado do meu leito, beijou-me a mão e saiu sem se identificar. Tempos depois ele seria um dos fundadores do Partido Comunista do Brasil. Euclides, que presenciou aquela cena, a descreveu numa crônica.

O Natal mudou, a noite caiu de todo e se não me apresso, perco a Missa do Galo. Ah, quase me esqueço, mas o Mário de Alencar não era meu filho: não transmiti a ninguém o legado da nossa miséria. 

Dr. Demóstenes Ribeiro (Cardiologista - Fortaleza-CE)

terça-feira, 22 de novembro de 2016

BANCOS DE "SEGUNDA LINHA" - José Nílton Mariano Saraiva


Não é possível que, principalmente os militantes do serviço público federal (aprovados em rigorosos concursos) e que ainda não foram vitimados pelo Mal de Alzheimer, hajam se surpreendido com o “anúncio fúnebre” do sem povo, sem voto e sem moral (Michel Temer), no tocante ao progressivo esvaziamento do Banco do Brasil (e demais bancos públicos), visando sua posterior extinção/privatização.

Afinal, na fase crepuscular da década de 90, o Governo Tucano (Fernando Henrique Cardoso), via Ministério da Fazenda (Pedro Sampaio Malan), firmou um Acordo Stand-By com o Fundo Monetário Internacional, onde, em troca de migalhas que teoricamente livraria o Brasil da falência absoluta, se comprometeu a entregar à iniciativa privada tudo que contribuísse para que o patrimônio nacional fosse pulverizado vapt-vupt (não houve jeito, perdemos parte expressiva do patrimônio e tivemos que se ajoelhar mais duas vezes, posteriormente).

Abaixo, só pra refrescar a memória, a prova do crime:

MEMORANDO DE POLÍTICA ECONÔMICA (de 08.03.1999), ENCAMINHADO AO FMI PELO MINISTÉRIO DA FAZENDA DO GOVERNO FHC (ACORDO STAND-BY)

Com determinação o governo dará continuidade à sua política de modernização e redução do papel dos bancos públicos na economia. O Banco Meridional uma instituição federal foi privatizado 1998 e em 1999 o sexto maior banco brasileiro, o BANESPA, agora sob nova administração federal será privatizado. Ademais, o governo solicitou à comissão de alto nível encarregada do exame dos demais bancos estatais (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, BNB e BASA) a apresentação até o final de outubro de 1999 de recomendações sobre o papel futuro dessas instituições, tratando de questões como possíveis alienações de participações nessas instituições, fusões, vendas de componentes estratégicos ou transformações em agências de desenvolvimento ou bancos de segunda linha. Essas recomendações serão analisadas e decisões serão tomadas pelo Governo antes do final do ano sendo que as determinações serão implementadas no decorrer do ano 2000. O Governo já se decidiu sobre a privatização da administradora de ativos afiliadas ao Banco do Brasil (BB) e do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB)” (ipsis litteris).
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Apesar da pressa, não deu tempo de “doar” tudo, face à defesa da sociedade e, posteriormente, com a assunção de Lula da Silva, quando o estado brasileiro foi retomado, tanto que de devedor do FMI passamos a credor daquele famigerado Fundo, de par com a adoção de uma política exterior independente, onde novas e poderosas parcerias foram estabelecidas (China, Mercosul, África e por aí vai). E a partir daí o Brasil ganhou o respeito internacional.

Vida que segue (e suas surpresas), fato é que hoje, após o “golpe” midiático, parlamentar, jurídico perpetrado, voltamos a uma fase de incertezas e pessimismo, principalmente ante a tenebrosa constatação que, embora fora do poder formalmente, a “tucanalhada” mais do que nunca se acha presente, porquanto o “gagá” enrolador que se acha Ministro da Fazenda (Henrique Meirelles) incapaz de uma ideia original, adotou definitivamente o modo/pauta tucano de ser e agir.

Assistir a tudo isso nos traz uma pesarosa e triste sensação de “DÉJÀ VU" (o equivalente popular a "eu já vi esse filme"), cuja medicação exige luta e enfrentamento, até porque ante um governo ilegítimo.

Mas, será que os famosos “coxinhas” que integram o serviço público federal (principalmente funcionários do BB, CAIXA, BNDES, BNB e BASA) que se esgoelaram, escreveram artigos e bateram panelas exigindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, estão satisfeitos com o papelão que fizeram e com o “presente” lhes está oferecendo o governo em termos de futuro ??? Teriam hombridade de ir às ruas defender seu emprego, o sustento da sua família ???




terça-feira, 1 de novembro de 2016

O FATOR "ELASTICIDADE" - José Nílton Mariano Saraiva

Na perspectiva de que possam influenciar decisivamente na hora do voto, entra ano e sai ano são recorrentes as reclamações contra a divulgação de pesquisas às vésperas da eleição. Se verdadeira ou não tal tese, contestá-la de verdade (judicialmente) parece que ainda não tentaram. Tanto que até agora ninguém conseguia obstar que os institutos patrocinadores (regiamente pagos) as divulguem a seu bel prazer.


Analisando-as (as pesquisas) racionalmente, o que se constata é que, embora às vezes apareçam divergências gritantes na totalidade dos números apurados pelos diversos institutos, uma variável permanece intocável e permanente em todas elas, a servir de poderoso handicap na hora da cobrança da fatura a quem as paga: uma tal “margem de erro” (para mais ou para menos), calculada dentro de uma certa “elasticidade” (percentual).


Na verdade, trata-se de um artifício estatístico que pode ser usado para, no caso específico de eleições, preventivamente “acomodar” os números apurados em relação àqueles que emergirão das urnas; ou, em português mais claro, uma conveniente “manobra numérica”, ancorada nessa tal “elasticidade” (percentual), de sorte que os números finais da eleição findem “batendo” com os vendidos a quem paga. Em assim sendo, quanto maior o número de eleitores, maior a “elasticidade” percentual usada, objetivando que não surjam surpresas desagradáveis, a posteriori. O “padrão”, recorrentemente usado para os embates políticos, é de magnânimos e generosos 3,0%, para baixo ou para cima (ou 6,0% entre os dois extremos, ao final).


Visando melhor entender essa tal “elasticidade”, vejamos, abaixo, os números dos dois institutos de pesquisas contratados na eleição de Fortaleza, recém-finda:


no Ibope (52,0 x 48,0), o candidato 01 largaria com 52,0%, que poderiam transformar-se em 55,0% para cima ou 49,0% para baixo; já o candidato 02 largaria com 48,0%, que poderiam transformar-se em 51,0% para cima ou 45,0% para baixo; e como aqui, em algum ponto da curva se encontrariam, teríamos o tal “empate técnico” (ou eleição não decidida, necessitando segundo turno);


no Data Folha (56,0 x 44,0), o candidato 01 largaria com 56,0%, que poderiam transformar-se em 59,0% para cima ou 53,0% para baixo; já o candidato 02 largaria com 44,0%, que poderiam transformar-se em 47,0% para cima ou 41,0% para baixo; aqui, não haveria chance de “empate técnico” e o candidato 01 poderia ser sagrado antecipadamente (não necessitando segundo turno).


Para alguns, o alargamento de uma presumível margem de acerto, propiciada pela ampliação do percentual da “elasticidade”, poderia ser considerada “esperteza” dos pesquisadores, já que lhes garantiria uma margem de segurança confortável. Assim, como em termos percentuais o resultado final da eleição de Fortaleza foi de 53,57% para o candidato 01 e 46,43% para o candidato 02, graças à generosa “elasticidade” de 3,0% de margem de erro o Ibope acertou para o candidato 01 dentro da margem para cima, e também no candidato 02, na margem para baixo; já o Data Folha inversamente acertou na margem de erro para baixo do candidato 01 e na margem para cima do candidato 02.


Há que se destacar que numa eleição com um universo eleitoral de 1.692.657 (como o foi a de Fortaleza) a tal margem de erro (para cima ou para baixo), representa uma “folga” em torno de 101.556 votantes (50.778 para cima e 50.778 para baixo). E como a “vantagem” do candidato 01 para o candidato 02 foi de exatos 90.396 votos, constata-se que situou-se dentro da tal “margem de erro”, propiciada pelo ampliado índice de “elasticidade” usado.


Em suma, graças ao fator “elasticidade”, os dois institutos erraram, mas… acertaram, ao final.




JUDEU EM SÃO PAULO - DR. DEMÓSTENES RIBEIRO

Aquele dezembro nunca mais sairia de mim. Ao completar dezoito anos e conseguir os documentos, eu deveria enfrentar o mundo. O arraial e a agricultura não me mereciam mais. Desde o tempo do meu avô era o Amazonas, o Maranhão ou São Paulo. Mas, se o Tio Fausto findou-se nos seringais e se o meu pai foi pro Maranhão e a malária o enterrou por lá, a saída era São Paulo.

- Viu como o Galdino vive feliz? Gordo, corado, roupa bonita e fala diferente, nem parece o matuto que saiu daqui. Trabalha numa usina de açúcar e álcool em Ribeirão Preto, ele certamente o ajudará.

Salgueiro, Conquista, Valadares, Taubaté, São Paulo... A sorte, o sul, a estrada, quase três dias depois, o semi-leito chegava a Ribeirão e encontrei o Galdino. Ele era chefe de turma, controlava os bóias-frias e logo eu estava entre eles, morando no barracão e cortando cana de sol a sol. Meu Deus, a vida no arraial era bem melhor.
Lembrei do Luiz Marcondes, acertei as contas no armazém e fugi prá São Paulo. Diziam que ele trabalhava num banco e morava em Santo Amaro. Fiquei surpreso, pois Lula morava num quartinho com outros baianos, de dia dormia num colchonete e à noite, na Avenida Paulista, fazia faxina de escritório. Morreu ingênuo e bom, pra sempre um escravo no norte e no sul.

Desempregado, eu quase me desespero até conseguir ser auxiliar de limpeza num prédio suspeito do Largo do Arouche. Anos depois, era o porteiro da noite. À tarde, antes de entrar no trabalho, sob a garoa, vagava pela Praça da República, lia cordel e ouvia Jackson do Pandeiro em lojas de discos na Ipiranga e na Avenida São João. Num desses dias, assisti o Joelma pegar fogo e o desespero das pessoas em chamas saltando para a morte.

Dormia pouco e voltei a estudar. Sara Levy, professora de História, se impressionou com a minha memória, o meu interesse pela leitura e o meu espírito inquieto. Aos poucos, terminei o segundo grau. Ela me achou parecido com um vizinho, me arranjou emprego de frentista no posto de gasolina do Isaac e me indicou uma pensão. Hoje moro no Bom Retiro e me sinto à vontade no bairro.

Sara é gordinha, ruiva, míope e num domingo me surpreendeu convidando-me a almoçar com seus pais. O seu pai me achou parecido com um parente distante e disse que no Nordeste houve miscigenação judaica. Ele me ensinou que no Brasil o descobrimento e a colonização devem muito aos cristãos-novos e que naquele tempo os judeus eram a elite intelectual da península ibérica. Com a perseguição da inquisição, Portugal e Espanha nunca mais se acertaram.

Ela me emprestou vários livros e o que rola entre nós não é somente amizade. Iniciei um curso de judaísmo e agora sei que os hebreus criaram o monoteísmo, aboliram o sacrifício humano como tributo aos deuses e que os dez mandamentos formam a base da civilização ocidental.

O Senhor não se esqueceu de mim. Hoje sou chefe dos frentistas e ando muito entusiasmado. Aos poucos vou me descobrindo. Fiz circuncisão, não trabalho aos sábados e frequento regularmente a sinagoga. O rabino aguarda o meu teste de DNA. Se revelar algum traço israelita, me casarei com Sara, e seu Moisés vai dar uma grande festa.

Porém, meu sonho mesmo é abrir uma sinagoga em Juazeiro e voltar pra minha terra. Aqui, quase não saio, quase não tenho amigos - mais uma rês desgarrada na multidão boiada caminhando a esmo.

Agora, o tempo inteiro, imagino a cara da minha mãe quando eu voltar pro Juá, com a barba batendo no peito, o quipá na cabeça e a estrela de Davi tatuada no braço: Vixe! Sei que os romeiros vão ficar furiosos, mas eu não sou um perdedor: Shalom!

DR. DEMÓSTENES RIBEIRO (CARDIOLOGISTA)

 


quinta-feira, 27 de outubro de 2016

O "EFEITO MORO" - José Nílton Mariano Saraiva


Independentemente da compreensível discordância (corporativa) por parte dos seus prolixos e arrogantes integrantes, as “digitais” do Supremo Tribunal Federal (STF) estão presentes, sim, no grave impasse institucional que o país atravessa nos dias presentes. A bem da verdade, até havia um certo quê de “previsibilidade” de que, mais cedo ou mais tarde, isto viria a ser reconhecido por quem tem um mínimo de consciência crítica.
 
Afinal, desde o nascedouro da Operação Lava Jato o abusado juiz de primeira instância que a comanda, Sérgio Moro, foi useiro e vezeiro em - valendo-se do apelo popular propiciado pelo tema “corrupção” - ousada e conscientemente transgredir diuturnamente o que reza a nossa Carta Maior, sem que o Supremo Tribunal Federal (em tempos outros galhardamente conhecido como guardião da Constituição Federal), sequer tenha ensaiado alguma admoestação ao próprio.
 
Assim, para as calendas gregas foram remetidas por Sérgio Moro, dentre outras, a presunção de inocência, a obrigatoriedade da existência de provas para se condenar qualquer pessoa, a necessidade de preliminarmente se notificar alguém antes de conduzi-lo coercitivamente, além da adoção e banalização das prisões temporárias para os infelizes que, ao ver de Sua Excelência, presumivelmente houvessem cometido algum ato ilegal (mesmo sem qualquer prova, mas, tao somente, por convicção do juízo); além do mais, para coroar todo esse corolário de transgressões, adotou-se como praxe a escuta telefônica ilegal (e seu posterior vazamento seletivo para a mídia) de conversas entre pessoas comuns e até - é vero, senhores, acreditem - da Presidenta da República e seus auxiliares. Em português curto e grosso, a intimidade da república foi, sim, estuprada e devassada por um oportunista e megalomaníaco juiz de primeira instância.

Por isso, era previsível, repita-se, que ante a condescendência, covardia e omissão criminosa do Supremo Tribunal Federal ao não punir as “barbaridades” perpetradas pelo juiz de Curitiba, que o “EFEITO MORO” se disseminasse tal qual fogo em palha, país adentro, com juízes de primeira instância ávidos e sedentos em ter seus 60 segundos de fama.

E o ocorrido agora em Brasília, quando, por determinação de um juiz de primeira instância da Capital Federal, alguns integrantes da polícia do Senado foram presos sumariamente nas dependências daquele poder, sob a alegativa de tentarem atrapalhar a Operação Lava Jato (ao procederem varredura eletrônica em gabinetes e apartamentos funcionais de alguns parlamentares), representaria o retrato emblemático da esdrúxula ingerência do Poder Judiciário sobre o Poder Legislativo. 
 
Confirmadas que tais varreduras ocorreram, sim, mas a “mando” do todo poderoso presidente do Senado, institucionalmente só o Supremo Tribunal Federal poderia se imiscuir na questão, em razão do foro privilegiado e, não, um “juizeco de primeira instância”; e mais, se alguém tivesse que ser detido seria o próprio mandante, o presidente do Senado Federal (que pode ser “agraciado” com um processo de impeachment a qualquer momento), e por decisão do STF.

Eis que, navegando na contramão do bom senso e da razoabilidade, ao prestar irrestrita solidariedade ao juiz de primeira instância que autorizou as prisões e dizer-se também agredida, a presidenta do Judiciário (STF) entrou em perigosa rota de colisão com o presidente do Senado Federal e as consequências dai advindas são difíceis de prever.
 
Fato concreto é que, ao coonestar quase todos os atos arbitrários e ilegais do juiz de primeira instância Sérgio Moro no âmbito da Operação Lava Jato, o Supremo Tribunal Federal (temeroso da reação popular) acabou por firmar uma perigosa jurisprudência sobre a validade do modus operandi por ele utilizado, porquanto escancarou de vez a porteira à entrada de uma enxurrada de ações patrocinadas por juízes despreparados e deslumbrados com a perspectiva de poder.

Agora, Sérgio Moro e procuradores da Lava Jato estão diante de um impasse monumental: ao fazerem da prisão do ex-presidente Lula da Silva um “objeto de desejo” ou “questão de honra” (já que sequer indícios para viabilizá-la existem, mesmo depois da caçada implacável de mais de dois anos), tornaram-se prisioneiros de si próprio; assim, não podem recuar, sob a perspectiva de, em o fazendo, desmoralizarem-se (e à Lava Jato), perante a opinião pública e à comunidade internacional.
 
Estão, pois (pelo menos teoricamente), condenados a condenar o mito Lula da Silva e a arcarem com a repercussão global negativa dai advinda, nociva à democracia e ao Brasil, mormente agora que órgãos e fóruns diversos (à frente a ONU) estão de olhos em nosso país e especificamente na Lava Jato.

Terá o intolerante e sectário juiz Sérgio Moro a humildade suficiente para retroagir e admitir ter ido longe demais na sua doentia e obsessiva perseguição ao maior presidente que o Brasil já teve ???
 
Difícil acreditar.








domingo, 23 de outubro de 2016

A "FARSA" DO DÉFICIT DA PREVIDÊNCIA - José Nílton Mariano Saraiva


Por privilegiar o “social”, a nossa Carta Maior, promulgada em 1988 e até hoje vigente, recebeu na pia batismal (plenário do Congresso Nacional) a denominação de “Constituição Cidadã”, conforme tão bem expressou à época o Deputado Ulysses Guimarães, então presidindo a sessão solene.

Dentre outros benefícios ali insertos, nascia o sistema de “seguridade social”, composto pelos setores de saúde, assistência social e previdência. Na arquitetura de tão importante projeto de proteção social, o “Congresso Constituinte” houve por bem que, de par com as obrigatórias contribuições de empregados e empregadores sobre a folha de pagamento, à seguridade social seriam garantidas fontes de recursos estáveis e perenes, conforme estabelece o Artigo 195 e seus incisos, a saber: Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (COFINS), Contribuição Social sobre o Lucro Líquido das Empresas (CSLL) e a Contribuição sobre os Prognósticos de Jogos Esportivos (loterias, patrocinadas pela Caixa Econômica Federal), que são pagas pelo conjunto da sociedade porque já embutidas no consumo (não esquecer que a Contribuição sobre Movimentação Financeira-CPMF, enquanto durou também fazia parte de tal portfólio).

Como geralmente na prática a teoria é outra, também aqui, paulatinamente, o próprio Governo Federal tratou de “avacalhar” com o projeto que houvera sido tão criteriosamente desenhado, a partir do momento em que (no primeiro governo FHC), instituiu o mecanismo conhecido por “Desvinculação das Receitas da União- DRU”, que permite a esse mesmo governo desvincular 20% (vinte por cento) das receitas de contribuições sociais (portanto, da seguridade social) para usar em outros gastos, especialmente na obtenção do tal “superavit primário” (pagamento dos astronômicos juros da dívida pública).

E assim, desrespeitando flagrantemente o texto constitucional, de lá até cá parte do volumoso superavit da “seguridade social” tem servido aos propósitos da política fiscal do governo, ao tempo em que, desonestamente, através de maciça campanha publicitária, tenta-se atribuir aos “velhinhos e velhinhas” da previdência social (mormente do setor público) a responsabilidade por um monumental e inexistente “rombo previdenciário”.

Agora mesmo, enquanto alardeia aos quatro cantos a necessidade de uma reforma urgente na “previdência social” (propositadamente isolando-a da “seguridade social”), o ilegítimo governo que se instalou no poder via golpe midiático parlamentar tenta avançar mais ainda sobre os recursos da seguridade social ao propor o aumento da tal Desvinculação das Receitas da União-DRU, de 20% para 30%.

Enquanto isso, visando “amansar o mercado” e convencer os investidores internacionais a manter as suas aplicações no país com a perspectiva de retornos reais elevados, o governo brasileiro remunera-os com a maior taxa de juros vigente no mundo (com dinheiro oriundo da seguridade social). É ou não uma verdadeira excrescência ???

Fato é que, atentos, e de olho no butim, os segmentos econômicos que se beneficiam com o resultado da política econômica de juros altos e com o falso discurso da falência da previdência social – bancos, fundos de previdência privada e seguradoras, dentre outros - literalmente lambem os beiços e afiam os dentes, reforçando a tese terrorista difundida pelo governo de privatização da previdência.

Alfim, uma certeza incontestável: o déficit da previdência social não passa de uma farsa grotesca, verdadeiro acinte, canalhice pura.



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

OPERAÇÃO "HAPPY BIRTHDAY" - José Nílton Mariano Saraiva

Em sã consciência, ninguém há de olvidar que ao Supremo Tribunal Federal devem ser atribuídos todos os créditos pela “instabilidade jurídica” vigente no Brasil nos dias atuais, mormente em se tratando da seara política. Isso em razão do chancelamento das comprovadas arbitrariedades e excessos do juiz Sérgio “Savonarola” Moro por parte daquela egrégia corte, permissiva a uma escalada crescente e contínua de desrespeito à Constituição Federal, não só por parte do respectivo, como de outros juízes (mesmo que de primeira instância, como o é a do Moro), assim como, agora, em níveis mais elevados (Tribunal Regional Federal de Brasília).

Fato é que, na prática, a nossa Carta Maior comprovadamente perdeu o sentido e não mais é respeitada por ninguém (em especial pelos detentores do vil metal), já que literalmente virou “letra morta”, transmutou-se numa espécie de abrigo de “palavras ao vento” e tudo, reafirme-se, graças à omissão criminosa do tal guardião da sociedade (STF). Afinal, presunção de inocência, prisões sem provas do crime, conduções coercitivas sem a competente notificação prévia ao suspeito, e por aí vai, demonstram que o Estado Democrático de Direito já era, não mais vige. Agora (e isso é deveras apavorante) basta que o nosso “Savonarola” e seus auxiliares (com base unicamente em “convicção”) cismem que você é um criminoso e, pronto, você tá ferrado, já era, tenderá a mofar nas masmorras de Curitiba.

Obstinado, intolerante, certamente que ferido devido ao retumbante fracasso quando comandou a Operação Banestado, e tendo como leitura preferida suas próprias reflexões sobre a Operação Mani Pulite/Mãos Limpas (que quase acabou com a Itália), desde o princípio da tal Operação Lava Jato o juiz Moro “Savonarola” não teve nenhum escrúpulo em demonstrar que, tal qual ocorrera lá (na Itália), cá (no Brasil) o objetivo seria o mesmo: exterminar o principal partido no poder (lá, o PSI; aqui, o PT) e desmoralizar o seu dirigente maior (lá, Bettino Craxi; aqui, Lula da Silva), inabilitando-o para a vida pública.

O instrumento usado objetivando viabilizar tal propósito foi valer-se das tais “delações premiadas”, firmadas por potenciais criminosos em busca de redução das penas respectivas, oportunidade em que são estimulados a citarem o nome de Lula da Silva, sob pena de não serem aprovadas (o vazamento de parte da delação da Odebrecht, temporariamente suspensa, é emblemática e um problema para o juiz Moro “Savonarola”, já que, além de não citar Lula da Silva, oportuniza a que se saiba da participação de membros graduados do PSDB e PMDB nos malfeitos da Petrobras).

No mais, face à decisiva colaboração de uma parte da mídia corrupta e desonesta desse país, a maciça campanha difamatória sobre o PT e seus dirigentes foi superlativada, ao ponto de acabar por incutir em boa parte da população um sentimento de “vingança” contra a agremiação que até pouco tempo houvera catapultado da pobreza mais de 30 milhões de pessoas. Daí a derrocada do PT nas últimas eleições.

Com a viabilização da primeira parte do seu plano, agora o juiz Moro “Savonarola” prepara-se para pôr em prática o lance mais audacioso, porquanto seu objeto de desejo desde sempre: depois de mais de dois anos de uma “caçada implacável”, prender Lula da Silva, mesmo que sem nenhuma prova que o incrimine, a fim de impedi-lo de concorrer nas eleições de 2018 (a ordem é encarcerar, para só depois encontrar um crime qualquer que lhe possa servir de carapuça).

As fichas estão sobre a mesa. E como o nosso “Savonarola” já demonstrou ter um quê de pernóstico e sarcástico, não se surpreendam se a prisão de Lula da Silva ocorrer exatamente no dia do seu aniversário (27.10) com a deflagração da Operação “Feliz Aniversário”; só que, para inflar ainda mais o ego do juiz de Curitiba, será bombasticamente anunciada no idioma universal que ele acha que domina (o que não é verdade): Operação “Happy Birthday”.

O que acontecerá a partir de então é difícil prever.


quarta-feira, 12 de outubro de 2016

DESVENDANDO MORO _ Rogério Cezar de Cerqueira Leitre

O húngaro George Pólya, um matemático sensato, o que é uma raridade, nos sugere ataques alternativos quando um problema parece ser insolúvel.

Um deles consiste em buscar exemplos semelhantes paralelos de problemas já resolvidos e usar suas soluções como primeira aproximação. Pois bem, a história tem muitos exemplos de justiceiros messiânicos como o juiz Sergio Moro e seus sequazes da Promotoria Pública.

Dentre os exemplos se destaca o dominicano Girolamo Savonarola, representante tardio do puritanismo medieval. É notável o fato de que Savonarola e Leonardo da Vinci tenham nascido no mesmo ano. Morria a Idade Média estrebuchando e nascia fulgurante o Renascimento.

Educado por seu avô, empedernido moralista, o jovem Savonarola agiganta-se contra a corrupção da aristocracia e da igreja. Para ele ter existido era absolutamente necessário o campo fértil da corrupção que permeou o início do Renascimento.

Imaginem só como Moro seria terrivelmente infeliz se não existisse corrupção para ser combatida. Todavia existe uma diferença essencial, apesar das muitas conformidades, entre o fanático dominicano e o juiz do Paraná -não há indícios de parcialidade nos registros históricos da exuberante vida de Savonarola, como aliás aponta o jovem Maquiavel, o mais fecundo pensador do Renascimento italiano.

É preciso, portanto, adicionar um outro componente à constituição da personalidade de Moro -o sentimento aristocrático, isto é, a sensação, inconsciente por vezes, de que se é superior ao resto da humanidade e de que lhe é destinado um lugar de dominância sobre os demais, o que poderíamos chamar de "síndrome do escolhido".

Essa convicção tem como consequência inexorável o postulado de que o plebeu que chega a status sociais elevados é um usurpador. Lula é um usurpador e, portanto, precisa ser caçado. O PT no poder está usurpando o legítimo poder da aristocracia, ou melhor, do PSDB.

A corrupção é quase que apenas um pretexto. Moro não percebe, em seu esquema fanático, que a sua justiça não é muito mais que intolerância moralista. E que por isso mesmo não tem como sobreviver, pois seus apoiadores do DEM e do PSDB não o tolerarão após a neutralização da ameaça que representa o PT.

Savonarola, após ter abalado o poder dos Médici em Florença, é atraído ardilosamente a Roma pelo papa Alexandre 6º, o Borgia, corrupto e libertino, que se beneficiara com o enfraquecimento da ameaçadora Florença.


Em Roma, Savonarola foi queimado. Cuidado Moro, o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai vosmecê sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes.

Ou seja, enquanto você e seus promotores forem úteis para a elite política brasileira, seja ela legitimamente aristocrática ou não.


ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE, físico, é professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha.

sábado, 8 de outubro de 2016

QUANDO PAUL MCARTNEY ESTEVE AQUI - Demóstenes Ribeiro


Quando Paul McCartney Esteve Aqui – Dr. Demóstenes Ribeiro (Cardiologista)

Ao saber do show do Paul McCartney em Fortaleza, Sindyjeine, minha mina mais recente, não me deixou em paz. Ela iria de qualquer jeito, pouco importava o preço do ingresso, e ficaria no melhor lugar – eu que me virasse!

Aos sessenta anos, tentei derrotar o destino e inutilmente argumentei que ela merecia repouso pela gravidez avançada, que havia despesas médicas inevitáveis e que tudo era extremamente caro. No entanto, não sei o que fez, mas ela conseguiu com o meu patrão o pagamento antecipado das minhas férias e do décimo-terceiro salário.

Daí em diante, não sossegou mais. O tempo inteiro ouvia Beatles e Paul McCartney, colocou um piercing no nariz, comprou um par de botas e tatuou “Imagine” bem no final das costas. No dia do show, pegamos um táxi e enfrentamos o desconforto da multidão. Por entre bacanas barrigudos e madames deslumbradas, eu me dei por vencido e, com a periguete cada vez mais louca, ingressei no camarote.

Macca” entrou no palco e eu vi um ser iluminado. Ele logo incorporou o garoto do Cavern Club e, na explosão de luz e som que se seguiu, deixou a multidão extasiada. Quando tocou Get Back,” a gata botou boneco, vibrou como nunca e se endiabrou numa dança diferente, saltitando que só uma guariba.

Paul, visivelmente saudoso, não esqueceu os companheiros que se foram. Ao violão, em “Here Today,” homenageou John Lennon; para George, tocando o que parecia um cavaquinho, deu uma volta por “Something” e quando a banda entrou com o inesquecível solo de guitarra, eu me comovi e fui às lágrimas; e foi emocionante quando ele se ergueu numa plataforma e cantou “Blackbird,” aquele protesto sutil contra a discriminação racial.

Quando rolou “All my loving,” não segurei a nostalgia, beijei de novo a garota e voltei a um tempo distante quando “Os Águias de Barbalha” começavam e encerravam o baile ao som de “From me to you.” Sindyjeine não se cansava e se empolgou como nunca com o refrão de “Hey Jude.” Passava a mão na barriga e disse que essa canção iria embalar “Maquinha,” - o irmãozinho de Jimmy - que chegaria em breve.

Depois de tanto agito, na volta pra casa, terminamos num hospital. Ela entrou em trabalho de parto e a criança nasceu prematura. O bebê é uma menina. Achei muito esquisito, pois a neném tem o olho puxado, Sindyjeine é um tipo bem cearense e eu não conheço nenhum parente oriental. Ela acha que foi o efeito do uísque, das bolinhas, do baseado antes do show ou presepada de alguma entidade.

A danadinha se chamará Yoko, mas ainda estou completamente atordoado. Prevendo zombaria, recorri a minha mãe. Quem sabe, ela soubesse de algum familiar distante no Japão e, assim, eu ficaria sossegado. Mas a velha negou essa possibilidade. Afagou a minha testa, sorriu de leve e disse compassivamente: meu filho, crie juízo e nunca mais se meta com menina nova!




















terça-feira, 4 de outubro de 2016

VITÓRIA ACACHAPANTE - José Nílton Mariano Saraiva


Embora as pesquisas divulgadas horas antes do pleito garantissem que os dois candidatos estavam “rigorosamente empatados” (41% a 41% nos votos totais e 48% a 48% nos votos válidos), após a abertura das urnas o que se viu foi algo totalmente diferente: o candidato José Aílton Brasil obteve contundentes 58,78% enquanto o adversário Samuel Araripe amealhou sofríveis 38,38% ou 20,40% de diferença (13.097 votos a mais, ante o comparecimento de 72.344 votantes).

Algumas constatações podemos extrair de tais números:
01) que, os “científicos” institutos de pesquisa não merecem a credibilidade que lhe querem atribuir, daí o erro retumbante nos números do Crato (se foram ou não manipulados, não se pode afirmar, embora se possa desconfiar);

02) que, se tivesse feito uma administração pelo menos razoável durante os 08 anos em que ficou à frente do município, o senhor Samuel Araripe teria feito um melhor papel na tentativa de voltar ao paço municipal;

03) que, o referido e experiente senhor parece ter apostado na velha máxima de que “o povo tem memória curta”, daí ter tido a coragem de voltar a candidatar-se, depois da tragédia que foram os seus dois mandatos à frente da municipalidade, quando comprovadamente o Crato quase que se acaba;

04) que, após anos e anos, a população do Crato finalmente parece ter acordado de vez para a importância e o valor do voto – ALELUIA, ALELUIA, ALELUIA - daí não mais aceitar sufragar alguém em razão unicamente de ser de “família tradicional” (o senhor José Aílton Brasil é filho de um agricultor do distrito de Dom Quintino, enquanto o adversário compõe umas das elitistas famílias cratenses).

Fato é que ressurgem as esperanças de que o Crato possa finalmente sair do atoleiro colossal em que está metido já há bastante tempo, por conta dos equívocos da sua população quando chamada a escolher o gestor da cidade. E aqui há que se destacar a imensa responsabilidade de senhor José Aílton Brasil e seu vice, André Barreto Esmeraldo, depositários de um transatlântico de votos de felicidade dos munícipes.

É agora ou nunca. O Crato tem jeito. É só tratarem de recolocá-lo nos trilhos. A VITÓRIA “ACACHAPANTE” do dia 02.10.16 foi só o primeiro passo. Boa Sorte, é o mínimo que podemos expressar.




sexta-feira, 30 de setembro de 2016

JUDICIÁRIO - UM PODER "AVACALHADO" - José Nílton Mariano Saraiva

Já se sabia que o Poder Judiciário brasileiro faz tempo que abdicou da nobre função de “guardião” da Constituição Federal para tornar-se num antro de conveniências e conchavos mil, além de potencial receptor de propinas e mimos de toda ordem, objetivando beneficiar quem tem “bala na agulha” (a bandidagem de alto coturno ou pessoas de influência).

E um exemplo grave aconteceu aqui mesmo em Fortaleza (atualmente é manchete dos principais jornais), quando Desembargadores de “plantão” nos tribunais da vida (ajudados por cerca de 40 advogados) em finais de semana adotaram a “praxe” de conceder habeas corpus “a granel” a bandidos (traficantes de alta periculosidade) ao “módico” preço de R$ 150.000,00 (cento e cinquenta mil reais, a “unidade”). E isso, descobriu-se agora, já dura cinco anos, pelo menos.

Fato é que, até ser descoberta a maracutaia, um festival de habeas corpus pôs na rua a nata da criminalidade, enquanto as “excelências togadas” se locupletavam junto às famílias por esse mundo afora (só um dos Desembargadores concedeu cinco deles em um único final de semana). Quando descobertos, e após julgados (quando o são) o “castigo” é uma verdadeira dádiva para Suas Excelências: são aposentados, compulsoriamente, recebendo o salário integral (algo em torno de R$ 35.000,00 mensais), além de plano de saúde e por aí vai.

Se direcionarmos os holofotes para o Sul do país, uma outra constatação da falência do nosso Judiciário: após o surgimento da Operação Lava Jato, um juiz de primeira instância consegue centralizar em sua Vara de Curitiba todos os processos que se referem à corrupção, independentemente de que ocorra no Acre, Ceará ou Rio Grande do Sul. Ou seja, para combater tal tipo de crime, o Brasil só tem um único juiz: Sérgio Moro.

E aí aconteceu o inevitável: deram tanto corda ao próprio, que ele se achou no direito de esquecer que temos uma Carta Maior, estuprando-o diuturnamente; assim, acabou a presunção de inocência, não mais existe necessidade de provas pra se condenar alguém (basta que o juiz tenha “convicção” que fulano ou beltrano é culpado), a condução coercitiva é feita na marra (sem necessidade de qualquer notificação antecipada ao suposto suspeito) e, enfim, o Estado Democrático de Direito foi pro beleléu, escafedeu-se. Com um agravante: as ações de Sua Excelência são seletivas e priorizam, comprovadamente, um único partido, o PT, em sua “caçada implacável”.

Em condições normais, ao Supremo Tribunal Federal caberia por um freio em Sua Excelência, mostrar-lhe os excessos e arbitrariedades praticadas e, enfim, fazer-se respeitar como poder autônomo. O que vimos, entretanto, foi decepcionante: aquela egrégia corte nega-se a julgar o “mérito” das questões, adstringindo-se a examinar tão somente o “rito” processual. Autentica cafajestice, que resultou no golpe que afastou uma Presidenta da República eleita com 54,5 milhões de votos, sem que os que a sufragaram tenham sido consultados.

Fato é que Sérgio Moro, incensado por uma mídia desonesta e embevecido pelo apoio de parte da população acrítica, chegou ao clímax da desonestidade e abuso: gravar uma conversa da Presidenta da República e depois publicizá-la através da mídia. E a única atitude de um dos membros do STF (os demais omitiram-se), foi repreendê-lo, sem maiores consequências.

Insatisfeitos e visivelmente incomodados com a baixaria do juiz, 19 advogados de escol solicitaram ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região a instauração de Processo Administrativo Disciplinar (PAD) contra o juiz Sérgio Moro, na oportunidade sugerindo o seu afastamento cautelar da jurisdição até a conclusão da investigação, por conta dos abusos perpetrados.

E aí deu-se a excrescência: o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, houve por bem arquivar tal pedido, sob o argumento de que... “a Operação Lava Jato constitui um caso inédito no Direito brasileiro, com situações que escapam ao regramento genérico destinado aos casos comuns” e, portanto, em tal contexto, não se pode censurar o magistrado, ao adotar medidas preventivas da obstrução das investigações”. Em português claro e cristalino: segundo Suas Excelências, embora as atitudes do Moro sejam flagrantemente ilegais e inconstitucionais... “são aceitáveis porque a Lava Jato é algo muito maior que a própria Constituição Federal”.

Face o exposto, uma alternativa seria o PT e o próprio ex-presidente Lula da Silva forçarem a barra e partirem para a ofensiva, através da impetração de uma ação substantiva e consistente junto ao omisso, medroso e covarde Supremo Tribunal Federal, forçando-o (o Supremo) a vir para o centro do ringue manifestar-se á sociedade sobre (se a Constituição Federal ainda tem alguma validade, ou se daqui pra frente será usada apenas como papel higiênico).

Por hora, a conclusão irretorquível é que no Brasil dos dias atuais vige um ESTADO DE EXCEÇÃO, para o qual decisivamente contribuiu a nossa avacalhada Suprema Corte.

Alguém tem alguma dúvida ???