por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Referências-socorro moreira

A vitória de Obama; a violência  na capital Paulista; os julgamentos do Mensalão; a decisão do Congresso em modificar  os percentuais de distribuições dos royalties gerados pela  produção do petróleo; a liderança  do Fluminense,  na reta final do Brasileirão; eleição da primeira senadora gay, nos Estados Unidos;a queda da produção industrial da Alemanha, maior parceira da região do euro...Temos pensado sobre os assuntos!
Enquanto isso aguardamos a semana das artes, produzida pelo SESCCariri ( 8 a 13.11.2012), e as sucessivas confraternizações de fim de ano, já tão próximas. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Os odiosos odientos - José do Vale Pinheiro Feitosa

A UDN ainda é uma teia de aranha em algumas memórias do passado. Ela não existe mais, porém o udenismo do "mar de lama" faz parte da realidade política, social e cultural atual. Impossibilitada de apresentar uma projeto alternativo para promover a ascensão social de grandes massas da população. esse "udenismo" espectral se refugia no ódio. 

Faço ressalva: existia uma militância udenista no exercício legítimo da política e esta não é um zinabre do tempo, isso é um lustro da vida em sociedade. Aqui quem critico é a corrente udenista furibunda, magoada, perdedora, que não media consequências e usava os piores métodos para combater os adversários e além do mais era golpista. Só para medir a diferença procurem no Google algo sobre a banda de música da UDN para entender que não falo amplamente do partido. Ou leia a recente entrevista de Aécio Neves na revista Carta Capítal. 

Mas o que tenho recebido de e-mails odientos sobre o julgamento do Mensalão é algo que expõe o que os repassadores são por sucessão das práticas atuais em alguns partidos ou são os velhos golpistas de sempre, que apoiaram a ditadura militar, tinham ódio de tudo que combatesse o regime e depois com a democracia esconderam a vestimenta até que o baile à fantasia os reconvocasse.

Aliás li um texto lúcido no blog da Cynara Meneses sobre Lobão, Roger Moreira e Leo Jaime em que os "rebeldes" dos anos 80 desvestiram as fantasias libertárias e rebeldes e hoje mostram o que realmente foram e são: filhinhos de papai com direito aos uns muxoxos adolescentes. Os meus repassadores de e-mail com os piores xingamentos contra Bolsa Família, Cotas Raciais, ENEM, Lulas, Dilmas, PT e outras secreções dos canais biliares terminam descendo pelas alças intestinais aos destino dos canais que os coletam.

O que me fez vir a esse desabafo, não apenas pelo conteúdo, mas por receber tais e-mails de pessoas a quem considero como de valor equilibrado foi o que escreveu Bob Fernandes no seu Terra Magazine: Brasil afora há quem venere Lula. E ele sabe disso; é muito mais agradável informar e ser informado sobre isso. Mas certamente Lula deve saber, alguém deve dizer a ele de quando em quando: além de fazer oposição, um direito de todos, há quem lhe devote um ódio profundo.

Sem dúvida que é preciso se antecipar aos fornos do fascismo, mas também é alentador que a humanidade ainda mantem o espírito de sobrevivência ou de permanecer em vida de modo a jamais aceitar os foguistas destes fornos.     



Traduções Cariris com Luiz Carlos Salatiell, Abidoral Jamacaru, João Do Crato, Zabumbeiros Cariiris e participação de Luciano Brayner dia 11/11 na Praça da RFFSA -Crato
Foto Pachelly Jamacaru

A Luta dos Contrários - José do Vale Pinheiro Feitosa


As culturas das grandes civilizações expressam toda a grandeza, no sentido matemático, do que seja uma civilização, isso para contrastar com as culturais tribais de sociedades coletoras e caçadoras ou apenas agrícolas. Uma grande civilização normalmente abriga muito mais contradições, pois as classes dominantes e dominadas são mais claras, a expansão territorial é uma marca, a face guerreira por consequência e principalmente a grande rede de produção e comércio. Por certo entendemos que nessa complexidade dialética se encontra os povos dominados pelas expansões territoriais.

Se pegarmos qualquer manifestação de uma cultura da grande civilização vamos encontrar não só os elementos em conflito como, também, o evoluir desta relação ao longo do tempo. Peguemos o cinema americano como exemplo. Ele expressa toda fricção das classes sociais americanas, sua expansão, seus ciclos econômicos, as transformações urbanas e rurais ao mesmo tempo em que acentua, ao longo do tempo, o papel de fonte de discurso e propaganda do “sonho americano” que é afinal o domínio das elites com a natureza já imperial.

Por isso Hollywood é visto essencialmente como máquina de propaganda da política imperial, fazendo por vezes um discurso escapista em relação à realidade e, por outra, fazendo uma pregação ideológica da elite imperial (incluindo instituições como a indústria, bancos, bolsas de valores, impérios midiáticos, universidades etc.). Não estranhemos esta enorme capacidade de “articular” vontades traduzidas numa inteligência estratégica nem sempre baseada em pessoas isoladamente, especialmente grandes lideranças.

A evolução empresarial globalizada evoluiu de tal modo que apenas 147 empresas dominam 40% das riquezas controladas pelas maiores empresas em todo o mundo. Isso numa escala globalizada é uma dimensão nunca dantes vista na história: 1% das empresas controla uma rede estratégica inteira. Neste sentido até mesmo instituições como o cinema de Hollywood já não é parte do projeto apenas americano, mas de toda a ideologia e cultura forjada pelo comando estratégico de poucos agentes. Embora os EUA sejam a grande fonte do modelo imperial e concentrador, o espírito privatista domina a cultura globalizada especialmente pelas estruturas bancárias que são os representantes majoritários daquele comando de apenas 1% das maiores empresas do mundo. A “austeridade” em prol dos bancos pode gerar a força política contraditória a esse comando privado do mundo e essa é a perspectiva política da atual crise. Os desdobramentos nos dirão.

Dois filmes de produção americana expressam muito bem o evoluir da cultura americana ao longo do século XX e início do atual século. O primeiro é um filme que retrata o breve casamento de Ernest Hemingway e Martha Gellhorn considerada a maior correspondente de guerra americana. A essência desse filme é de um país em expansão, mas vivendo ainda uma crise interna de pobreza que por isso mesmo tinha enorme simpatia pelos povos do mundo em crise. Hemingway como escritor do “Por quem o Sinos Dobram” e Gellhorn como correspondente da revista Collier´s na Guerra Civil Espanhola ainda tinham o espírito de solidariedade social pelos povos. O jornalismo aceitava que correspondentes como Gellhorn fizesse matérias arrasadoras sobre violações humanas mesmo que isso contrariasse e ideologia imperial ou os acordos estratégicos do grande capitalismo americano. O livro da Martha a Face da Guerra relatada toda esta questão.

O outro filme é “O Informante” que aparentemente mostra o poder avassalador da indústria do cigarro americana quando surgiram as evidências que ela manipulava o tabaco para ampliar o vício e que o consumo de cigarro era uma nova forma de epidemia. A indústria como é da natureza de todo cinismo privado reagiu dizendo que não reconhecia o vício e jogava toda a responsabilidade do fumar aos fumantes como se não houvesse essa manipulação física e a de psicologia social através da propaganda e marketing.

O filme trata não apenas do poder desta indústria, mas essencialmente demonstra o quanto a imprensa no ambiente imperial, globalizado e privatista tornou-se a função ideológica da hegemonia estratégica do núcleo (elite) imperial avassalador. A observação da cultura é uma fonte inesgotável do aprendizado histórico e da fricção dialética.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Os Carbonários - José do Vale Pinheiro Feitosa


Nos tempos áureos da ditadura, em razão do programa econômico na época chamado de arrocho e hoje, austeridade, os ditadores inventaram uma instituição para acalmar o povo onde se venderiam alimentos por preços mais baixos. Mas como era da natureza social da dita cuja, o foco era a classe média tradicional já existente e o destino, por consequência, barrar a mobilidade econômica e social da maior parte da sociedade. Era o tempo do crescer o bolo para depois dividir.

Então os senhores do acordo conservador, nascido nas manifestações da ”família com deus pela liberdade”, inventaram uma coisa chamada COBAL e não sem razão dois mercados foram implantados na Zona Sul do Rio: no Humaitá e no Leblon. Com o tempo e o fim da ditadura a COBAL foi se modificando e os espaços livres foram se transformando em bares e restaurantes muito bons. No Leblon, por exemplo, todos os sábados era uma festa de figuras da cultura nacional, tomando uma e comendo outras, enquanto compravam um horti-frutti aqui e acolá. Tom Jobim era uma das figuras de destaque.

Na COBAL aqui perto, a do Humaitá, igualmente aconteceu de se multiplicarem restaurantes e bares e não só para o almoço, mas como para noitadas. Aí começa de fato a nossa história. Falo da meninada que até pode ter sido arrastada para as tais manifestações do conservadorismo golpista. Mas que, também, pertenceu a alguma família perseguida pelo furor punitivo de quem praticou um ato ilegal e que fora treinada para botinadas. Acontece que esses meninos entre os cinco anos e os vinte anos no 31 de março de 64, logo era parte da revolução dos costumes que rebentava a face interna do conservadorismo, das passeatas estudantis que expunham a truculência econômica e social da política ditatorial e, claro, forçaram o aumento de vagas nas universidades e ali viveram uma liberdade maior que os pais, embora ao final alguns concluíram que “somos os mesmos e vivemos como nossos pais.” Um exagero depressivo por certo.

Ontem à noite na COBAL do Humaitá, num mezanino, um local um tanto ajambrado, de panos pretos e iluminação precária, chamado Espírito das Artes uma festa do estilo pleno daquela meninada. Toda ela dos cinquenta anos em diante. Cabelos brancos é a moda, roupas à vontade e largadas o estilo, cabelos longos, bonés, mesas, copos, bebidas e comidinhas. Três apresentações com a chamada Prata da Casa. Não do Espírito das Letras, mas dos donos da festa.

Era uma festa do corpo docente e ex-alunos do mestrado e doutorado da COPPE (Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro). O Mário Vidal completava 60 anos com a camisa do Tricolor para comemorar suas raízes: criado na Rua General Glicério em Laranjeiras onde jogara bola e criara conjuntos musicais da época com a turma da rua.

Mas antes vamos ao estilo da festa. Quando o tempo se move e o atacado toma conta das emoções, dos sentimentos e da memória, jamais o tempo volta. Mas ontem no a granel ambiente, entre goles e goles, belisco e belisco, luzes e música as pessoas circulavam pelo espaço vazio a moda de salão de festa. Entre uma mesa e outra, falando aqui e acolá, sentando-se a observar quem circulava e quem circulava movendo o corpo como se numa passarela a mostrar-se.

As “moças” e os “rapazes” eram a rebeldia não localizada lá nos anos setenta, mas esta daqui e de agora. Aqueles caras de “pós”, “pós-doctor”, longos enfrentamentos pelo hemisfério norte nas vetustas universidades ocidentais e alguns até transitado pelo oriente, são a expressão do que nada é sólido e tudo se move. Compreendem as leis conservadores da mecânica newtoniana, mas alguns se afoitam no impreciso conceitual da quântica, descem à observação no campo teórico do modelo matemático, não apenas para exploração capitalista, mas vão ao centro filosófico da matéria, pelo menos aquele mais atual: a partícula.

Ninguém é “saradão”. De academia, pelo menos na aparência. Mas certo que usam alguns paradigmas atuais: dieta, exercícios, pilates, RPG e o regular check-up. Mas todo mundo era rebeldia expressionista. Paqueras certo que houve. Trocas de olhares proibidos entre outros quando a cada um a parelha estava ao lado. Era o clima geral das festas destes Steve Jobs do Brasil. E já vou adiantado para os mais apressados: a diferença não se encontra entre nós aqui e os engenheiros de lá, não é medida por QI e nem melhor cultura: é tão somente o desenvolvimento capitalista dos EUA e do Brasil. Como sabemos é uma visão de momento. Não tardam que alunos dessa meninada se tornem o mesmo que o símbolo do engenheiro criativo e revolucionário. Basta o Brasil manter a trajetória de grande centro acumulador e irradiador aqui no Hemisfério Sul.

Vamos ao programa. O Mário Vidal, aniversariante e engenheiro de produção e a Betinha Gomes médica começaram o show com San Francisco de Scott McKenzie, Preta Pretinha do Moraes Moreira e Twist and Shout dos Beatles. Sacaram a seleção? Uma transgressão de estilos distintos como típico daquele embate entre a indústria fonográfica de origem americana: os da casa e o peso da música em inglês. Foi essa a formação musical desta meninada.

Depois veio o conjunto Comitê de Ética formado pelo Mário, Paulo Soares, Renato Bonfatti e José Mário Carvão. Todo mundo entre docência e discência da COPPE. No programa A volta dos VIPS, Honk Tonk Women dos Rolling Stones, A Hard Day´s Night dos Beatles, Gatinha Manhosa do Erasmo, Adivinha o quê?, Lulu Santos; Primavera do Tim Maia e Simpathy For The Devil dos Rolling Stones. O Simpathy tornou-se o símbolo da meninada: o Paulo fez uma voz baixa e gutural e o Zé Mário era o próprio adolescente, um tanto destrambelhando no balançar, com uma mão num bolso e outra largada, mas um pouco tensa. Era aquele que todos eram: sem jeito, mas prontos para pegar desde novos rumos até o amor.
Gatinha Manhosa - Erasmo Carlos

Sympathy for the Devil - Rolling Stones

E a noitada entrou pela meia noite com a música instrumental, do exposto através do canto solista de cada instrumento. O outro conjunto formado pelos físicos Celso Alvear e Ricardo Amorim, pelo matemático Mario Jorge e pela professora de letras Sonia Mundim. O Celso no violão, o Ricardo no sax tenor, o Mário baixo elétrico e Sonia no teclado. Esse pessoal é mais músico, todas as semanas se encontra e toca em conjunto. O Mário Jorge toca em bares na noite do rio. O Ricardo Amorim é o protótipo homem da rebeldia, fora do mercado de música, mas fazendo música ininterruptamente, tem duas graduações, pós-graduações e hoje mesmo faz o ENEM para a faculdade de Música do UFRJ.

O Celso Alvear embora um corpo ousado que coleciona carros porque tem dificuldade em vendê-los, escala as montanhas do Rio, pinta bem, entre outras atividades físicas, é na verdade uma mente flutuando numa região imprecisa. Se tentarmos observar onde se encontra, essa observação já é o suficiente para movê-la para outro espaço. Não é que seja uma incerteza absoluta, é uma precisão local tocada pela imprecisão conceitual. O Mario Jorge o conheci jorrando sonhos para quem pretendeu fazer uma grande saúde pública: modelar fluxos hospitalares para tornar estas instituições inteligentes e voltadas para as pessoas que a procuram.

A Foggy Days  - Chris Fleischer

Esse pessoal como se vê são os rebeldes um tanto quanto de garagem, não gostam tanto das passeatas, mas vão, não quebram o pau, mas indicam os pontos frágeis de fratura. A Sonia conheci ali e não tenho nada a acrescer ao que não seja a sua própria performance no grupo que tocou: a belíssima A Rã do João Donato, Just Friends de Klemmer e Lewis, Satin Doll de Duke Elington, A Foggy Day de Gershwin, There Will Never be Another You - Warren e Gordon; Vou Vivendo do Pixinguinha, Eu quero é Sossego do K- Ximbinho, Acariciando, Abel Ferreira; Migalhas de Amor, Jacob do Bandolim; Inclemência, Guerra Peixe e Flores do saudoso maestro Moacyr Santos que como dizia Vinicius de Morais: não és um só, és tantos.

Eu gosto é de sossego - K-Ximbinho

Daí que de fato em rebeldia advogo: abaixo o controle remoto, os veículos automotores e a cultura comercial do atacado. Viva o varejo e o a granel. Ou viva a rebeldia sem comércio algum que é afinal a mensagem de tudo.  
  

A cultura do bom negócio no Ceará não dever ser exemplo no Crato

Rosemberg Cariry um exemplo de Secretário de Cultura  Foto: Alexandre Lucas 

Por Alexandre Lucas

A Expocrato vem a cada ano sendo alvo de críticas no que diz respeito a sua programação cultural. As argumentações são justas e pertinentes diante das atrocidades de exclusão dos artistas da região do Cariri num dos principais eventos regionais. É notório, que esse evento público (privado) só serve para encher os bolsos dos empresários das grandes bandas que fazem parte de um monopólio musical e das produtoras. 

Vale destacar que a concessão para exploração privada do evento é publica e não estabelece critérios para que seja garantida a diversidade musical e a inclusão dos artistas neste mega evento.
O fato é que a Expocrato tornou-se um bom negócio para poucos. Poucos estilos musicais, poucos artistas do Cariri, poucos que lucram. Pouco desenvolvimento e rendimento para região, do ponto de vista, de formação de platéia, afirmação de identidade e diversidade cultural e de turismo cultural e sustentável.

O fato é que essa política do “pão e circo” é recorrente em todo o Estado do Ceará e vem provocando uma insatisfação generalizada por parte dos artistas ligados a música cearense que vem perdendo espaço com políticas equivocadas como o “Férias no Ceará” (O secretário de Turismo do Estado possivelmente nunca estudou nada sobre turismo cultural e sustentável, se estudou nunca entendeu)  e as descaradas inaugurações ou anúncios de obras regadas pelas bandas ligadas ao monopólio da música ou seja as bandas que estão a serviço da reprodução do machismo, da homofobia, da violência, da vulgarização sexual, enfim da forma pela forma, que  agora tem o sustentáculo financeiro do Governo do Estado. Fato que só nos faz lembra algo típico da política desenvolvida nos tempos dos coronéis, aonde por qualquer motivo se fazia uma festa banhada através do desperdício de recursos públicos.

O dinheiro gasto com esse “bom negócio” (termo utilizado pela política desenvolvida pelo governo tucano de Fernando Henrique Cardoso que considerava a “cultura como um bom negócio”) possivelmente poderia ter proporcionado a circulação de grandes shows dos cearenses para os cearenses potencializando a diversidade musical do nosso povo, bem como poderia ter servido para a gravação de milhares de Cds, muitos artistas  tentam há anos conseguir o mínimo de recursos para  gravar o seu trabalho. Já as bandas do tipo “chupa que é de uva” basta piscar os olhos para fazer um “bom negócio”.

Essa postura assumida pelo Governador é contrária a conjuntura nacional e estadual no campo das políticas públicas para a cultura. Contraditória até mesmo com a política defendida e executada pela Secretária de Cultura do Estado do Ceará, apesar das severas criticas merecidas das ultimas gestões desta pasta.

Essa pratica despeita e rasga as resoluções da constituinte cultural, das conferências municipais e estaduais da Cultura. Será que o Governador nunca teve acesso as informações destes fóruns? Será que ele desconhece as reivindicações dos trabalhadores da arte? Será que ele sabe que nestes fóruns os cearenses defenderam o nosso patrimônio, inclusive da música e do direito a diversidade musical? Acredito que sabe sim! Mas enquanto isso prefere financiar a chacina do “jogaram uma bomba no cabaré”.

Esse modelo não deve servir de exemplo para os municípios do Ceará. O Crato que recebe esse extraordinário evento deve ter a sua programação musical pensada no sentido de atender outra lógica, que ao meu ver seria a lógica da diversidade musical e da sustentabilidade do setor musical cearense.
Lembro-me de uma experiência exemplar que aconteceu no Crato na década de noventa do século passado quando a Expocrato era administrada pela Secretaria de Cultura do Município e tinha a frente nomes como Rosemberg Cariry, Cacá Araújo e Dane de Jade o que possibilitou que a programação musical tivesse a alma e a  efervescência da diversidade nordestina, aonde o popular e o contemporâneo comungasse no mesmo palco, como aconteceu com os Irmãos Aniceto e Hermeto Pascoal.           
Enfim uni-vos contra a barbárie cultural e as produtoras culturais mercenárias!     

* Pedagogo,  artista/educador, integrante do Programa Nacional de Interferência Ambiental – PIA e do Centro Universitário de Cultura e Arte – CUCA.
  

domingo, 4 de novembro de 2012

Quem puder contactar Pachelly e outros fotógrafos da região

Não sei se ainda o Pachelly e outros fotógrafos do Cariri frequentam os blogs e por isso a quem tiver contato com eles que informem este endereço de site http://www.gordonparksfoundation.org/archives/535

Temos ali um trabalho espetacular deste fotógrafo americano. Chamo a atenção para as imagens do Archive / Documentary / Civil Rigths.

Lenine abre 14ª Mostra Sesc Cariri de Culturas

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Lenine / Foto: Hugo Prata
“Isso é só o começo” – canção que abre e fecha o novo show de Lenine, intitulado Chão, dá o tom perfeito à nova fase da turnê. Desde março deste ano, o espetáculo foi visto em mais de 20 cidades brasileiras, passando também por Chile, Argentina e Uruguai. No dia 8 de novembro, o cantor estreia no Crato apresentando a turnê, na abertura da 14ª Mostra Sesc Cariri de Culturas. O show acontece na RFFSA, às 22h, e é aberto ao público.

Em junho, foi a vez do lançamento europeu, com apresentações em Paris, Toulouse, Milão e Vienne. De volta ao Brasil, Chão recomeça seu giro nacional por Paraty, abrindo a décima edição da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty.


Com direção musical do próprio Lenine, em parceria com Bruno Giorgi e JR Tostoi, o show tem em cena os três num espaço repleto de instrumentos e equipamentos eletrônicos, responsáveis por reproduzir os ruídos orgânicos que permeiam nove das dez faixas do disco, como “Chão” (Lenine / Lula Queiroga), “Envergo mas não quebro” e “Isso é só o começo” (Lenine/Carlos Rennó).

Juntos, Lenine, Bruno e JR Tostoi ainda têm a incumbência de transpor os sucessos do compositor – indispensáveis – para essa nova atmosfera. “Jack Soul Brasileiro”, “Leão do Norte” (Lenine/Paulo César Pinheiro) e Paciência (Lenine/DuduFalcão) são alguns deles.

Paulo Pederneiras, diretor de arte do espetáculo, criou um cenário em tons vermelhos, que ocupa apenas o chão da caixa cênica, em contraste com o entorno totalmente negro.  Três lâmpadas simples, uma sobre cada um dos músicos, compõem a cena. À equipe de Paulo somam-se Fernando Maculan e Gabriel Pederneiras.
Lenine / Foto: Beto Figueiroa
Lenine / Foto: Beto Figueiroa

Para Lenine, levar Chão ao palco é mais do que simplesmente tocar as canções do álbum. A ideia é ambientar o espaço com os sons como o canto do canário belga Frederico VI, o ruído ensurdecedor das cigarras no verão da Urca, a agoniada derrubada de uma árvore por uma motos serra, entre outros.

Chão, produzido e tocado por Bruno Giorgi, JR Tostoi e por Lenine, é o décimo álbum de carreira do cantor e compositor. Numa evidente opção estética – instigada pelo canto de um pássaro, que invadiu a gravação de uma das faixas - o trabalho revela-se “eletrônico, orgânico e concreto”, com dez músicas inéditas, imersas na delicada intimidade de ruídos sem edição.

“No início, havia apenas a palavra e meu principal significado de chão: tudo aquilo que me sustenta. Chão, quase onomatopeia do andar – que soa nasal, reverbera no corpo todo. É pessoal, passional e intransferível” – conta Lenine, explicando como surgiu a inspiração para o nome do disco e, consequentemente, da turnê.

SERVIÇO
Turnê Chão – com Lenine

Local: RFFSA (Crato)
Data: 8/11
Horário: 22 horas
::: Gratuito :::

Fuja do Atacado e Venha para o Varejo - José do Vale Pinheiro Feitosa


Cidade Brinquedo - marcha de Silvino Neto e Sílvio Bretas - cantada por Orlando Silva

Uma longa e especial caminhada: do Bairro Jardim Botânico até a Rua Primeiro de Março no Centro da Cidade. Destino: Centro Cultural do Banco do Brasil. Isso tudo passando pelos palácios da Rua São Clemente, a claridade aguda da enseada de Botafogo e um dos mais lindos jardins botânicos do mundo: o Aterro do Flamengo.

A exposição sobre o impressionismo do CCB nos foi impossível após 13 quilômetros de jornada: fila com o mínimo de hora e meia de espera. Mas ali mesmo por volta do CCB, um quadrado envolvendo as ruas do Mercado de um extremo e dos Mercadores e Visconde de Itaboraí no outro e verticalmente as ruas do Ouvidor, Rosário e a Travessa Tocantins o Rio é continuamente o Rio. Claro com as novidades da época, mas são dezenas de bons e até sofisticados restaurantes inclusive com conjuntos de chorinho para seus frequentadores. Não sem razão terminamos numa Brasserie como foi central a cultura francesa na primeira metade do século XX aqui na cidade.

Aí o relato geográfico termina e começo outro sentimental. Relato esse vivido por quem nasceu e criou-se numa terra e depois se mudou para outra. Ou seja, grande parte da população brasileira, especialmente da minha geração. Quando chegamos à nova terra, trazemos todo aquele matulão de cores, sons, gostos e paisagens que somos nós. Chegamos com os falares, os costumes, roteiros e trilhas do viver do mundo original. De modo que tudo é novidade. O Rio de Janeiro de cada esquina era novidade, desde compreender o que fosse um condomínio para quem apenas em casa vivera até qualquer detalhe de sua arquitetura. Isso sem contar a mais bela geografia de todas as cidades do mundo.

Hoje as ruas são entes conhecidos, transitados, estacionados e usufruídos. Por uma razão especial trabalhei em toda a Rosa dos Ventos da cidade. De modo que a cidade como um todo é um planisfério igualmente transitado e equalizado na memória. Em outras palavras: poucas novidades. Mas então a beleza dialética entre o sabido e aprendendo, entre o conhecido e a novidade cessou? De certo modo aquilo que um dia foi novo, agora é cotidiano e isso reduz o sentimento que tão bem se fotografou como um flash na saída do túnel da Rua Alice e dali o Pão de Açúcar surgiu com um pedaço da Baia da Guanabara abaixo de onde me encontrava.

Naquela ocasião, é bem verdade que estimulado por uns dois copos de cerveja especialmente porque tomados numa birosca da Favela do Escondidinho com o povão mais carioca que existe, eu comemorei comigo por morar nesta cidade. A cidade que de algum modo fora a essência da realização urbana, cultural e política do país e que todos tínhamos como desejo de ida. Depois é que São Paulo tornou-se este atrativo em particular para os cearenses.

Como disse agora tudo é conhecido e aí tudo é reduzido em sentimento e emoção? Em parte para quem é muito caseiro, circula em veículos automotores, metrô ou trem é isso mesmo: um cotidiano acrescido de rotinas. Porém quem estica nos bares, planta os pés nas areias da praia, samba, ouve chorinho e frequenta praças, algo permanece de primavera. E agora sei de algo que os pensadores, poetas, pintores entre outros que foram cultivadores do bucólico nos séculos XVII e XIX em longas caminhadas rurais descobriram. Poetas como Byron, Shelley, por exemplo, ou pensadores como Kant ou Nietzsche.

Quem também descobriu foi o nosso Humberto Teixeira em conjunto com Luiz Gonzaga tal qual nos cantam na Estrada de Canindé: “vai oiando coisa a grané, coisas qui, pra mode vê, o cristão tem que andá a pé.” É isso aí: quando o físico recupera-se da preguiça do automóvel, tem força e liberdade para andar nas ruas, estradas e trilhas o novo que se esconde no velho se manifesta como não se imagina. É neste apanhar o mundo e sua vida a granel que o sentimento de pertença ao lugar retorna sem o zinabre do tempo. Andar a pé não é coisa pru matuto desentupir apenas as veias do coração. Andar nos trajetos da vida passo-a-passo é desentupir as manifestações do grande movimento do ser.

Estrada de Canindé - Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira - cantada por Luiz Gonzaga


Mas o assunto tem mais e paro aqui, pois a postagem já está demasiada. Amanhã continuarei para quem conseguiu chegar nesta coisa a granel. 

sábado, 3 de novembro de 2012

Parabéns, Marlísia!

Aniversaria amanhã, Marlísia Sobreira-  pessoa do nosso coração!

Desejamos-lhe  dias futuros plenos de paz, amor e saúde!

Abraços especiais dos amigos e familiares

A Líbia e os Cadáveres Assassinados de São Paulo - José do Vale Pinheiro Feitosa


É só para lembrar. Quando trucidaram Kadhafi e agora se sabe com a participação de agentes da OTAN, alguns entre nós comemoramos. Acharam aquilo justiça para um ditador. Não todos, porém os mais radicais gozavam a morte do ditador como a senha para que se fizesse o mesmo com Fidel, Hugo Chávez, Ahmadinejad e outros do “coração” das viúvas da Guerra Fria.

Aliás, ontem a Rússia publicou um relatório sobre Direitos Humanos nos Estados Unidos e o Império não tem muita lição a dar a ninguém. Foi um relatório bastante sustentado posto que baseado em dados da ONU, de ONGs como Human Higths Watch, Repórteres sem Fronteiras. A posição dos EUA no ranking dos direitos humanos é 47ª, melhor do que a Rússia, mas a ideia é que não têm lições a dar a ninguém.

Mas também surgiram alguns dados preocupantes no noticiário de ontem. A guerra civil na Líbia anda solta. A truculência de grupos armados é horizontal e vertical. Ultrapassa as fronteiras da religiosidade e das lutas ideológica, é uma violência aparentemente sem causa, metafisicamente é a tortura e a morte. E a querida e civilizada Europa e mais os EUA abandonaram a Líbia à própria sorte. De fato os “civilizados” devolveram à Líbia a liberdade. A liberdade de se matarem uns aos outros.

Mas tem algo mais grave. Os grandes bancos Europeus e mais alguns Americanos que por ordem do boicote de países como França, Itália, EUA, Inglaterra entre outros bloquearam 157 bilhões de dólares de contas do governo e de membros do governo Líbio. O certo que é que com o fim da ditadura este dinheiro fosse devolvido ao povo Líbio ao menos para recuperar os estragos dos bombardeios da OTAN. Segundo o mesmo relato os bombardeios da OTAN destruíram dez vezes mais a estrutura do país do que os ataques aéreos de Rommel na Segunda Guerra Mundial.

Mas o dinheiro sumiu. Escafedeu-se. Funcionários dos bancos lavaram o dinheiro em paraísos fiscais e agora ninguém sabe, ninguém viu em que mãos o saque europeu foi parar. Rapinaram um país que havia acumulado reservas e infraestrutura e as hienas ideológicas ainda assinam colunas louvando tais práticas.  

No jornal o Globo uma explicação para o aumento da violência em São Paulo. O jornalista Bob Fernandes já havia chamado a atenção para um fato estranho. Se a guerra era de bandidos contra as forças policiais por qual motivo as mortes só ocorriam entre agentes da Polícia Militar e não da Polícia Civil?

O Globo aponta uma especificidade que pode explicar esta seletividade homicida. A guerra entre bandidos e a PM paulista é fruto da briga por pontos de caça níquel. As “milícias” incrustadas na Polícia Militar avançaram sobre o domínio dos caça níqueis e claro como em todo jogo mafioso o pau comeu. E assim como a briga entre Sampaio e Alencar do Exu nunca tem um paradeiro, sempre há uma camisa manchada de sangue, a barbárie paulista migrou para a pura carnificina.  

Agora vem a pergunta: os Tucanos que governam São Paulo há tantos anos têm parte da culpa? Claro que têm. E culpa maior porque ao invés de levantar a questão da corrupção dentro da corporação policial, tratam de ficar com um jogo besta de oposição e situação. Eles são os anjos e o PT os demônios. Não é bem assim cara pálida: o mundo cá fora é independente do PT e do PSDB e se estes não traduzirem o mundo em que atuam, ambos ficam cada vez mais parecidos. 

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Dia dos Começos - José do Vale Pinheiro Feitosa


“Olha, a melhor coisa do mundo hoje é a paz. É a paz, é a união. Porque a paz é saúde e a união é a grande coisa boa no mundo. E hoje em dia é pouco o que a gente vive: é a paz. Mas o quê eu gosto mais é a paz e união.”

“O quê é que eu acho da vida é que nós mora aqui em cima desse chão, mas aqui não tem nada nosso. O pessoal briga por terra, por isso por aquilo outro, mas nenhum tem terra. Ele (Deus) deixou tudo para o homem viver. Para o homem viver e não mendigar o pão do outro. Tudo o quanto é feito na terra é da terra. A fonte mais forte que existe no mundo é a água. Nosso povo faz e acontece, faz tudo, mas tem que ter a água. Nós passa sem o feijão um dia dois, nossa passa sem carne três ou quatro, cinco dias, nós passa sem essas coisas, mas sem a água nós não passa.”     

Afinal de conta todos nós vamos morrer. Mesmo quem está nascendo hoje, que tem toda a esperança da vida, de viver uma vida longa vai morrer também e quando a gente morre o quê que acontece?   

“O quê é que acontece é que nós vamos ficar no limbo do esquecimento. Vamos ficar no limbo do esquecimento. Eu posso morrer hoje minha família chora, cai por aqui, por acolá, faz tudo em conta, quando é com os tempos estão cantando, estão dançando, tão tudo, não se lembrou, acabou-se, eu estou no limbo do esquecimento. Aquilo que eu pratiquei na terra aquilo esqueceu-se, aquilo eu morri mas não vou me lembrando daquilo não.” (Entrevista com Manoel Galdino, camponês, barbeiro e pescador de jangada nascido no lugarejo de Siupé, morador de Paracuru e que tinha 87 anos na data da entrevista para o Programa Paracuru Minha Terra Minha Gente).


Duas palavras têm força de presença universal na nossa cultura: finados e defunto. Ambas funcionam na dinâmica do coração como um eclipse na luz da vida. Nós os nordestinos temos por hábito ao falar de alguém que já morreu apostando antes de seu nome a palavra “finado”. A palavra defunto é usada com mais raridade, pois tenho a impressão que suas sombras são muito mais amplas.

Hoje é o dia de finados, daqueles que já se findaram. Viveram e por isso conquistaram o fim. Quem nunca findou encontra-se num impreciso nada que admitimos existir como forma de se contrapor com a continuidade do tempo, pois no tempo continuamente brota existência que sabemos autoalimentada do que já existe. Em outras palavras: nada vem do nada.

A palavra defunto por mais que escureça meu coração tem uma raiz latina muito interessante, assim como seu Manoel Galdino soube expressar. A raiz da palavra latina para defunto tem o significado de aquele que cumpriu a vida, mas pode ser também, a junção da partícula negativa “de” com o verbo que em latim significa funcionar.

Por isso, embora não seja um cultor do dia de finados, bem sei que ele é a liberdade do limbo do esquecimento. E com certeza é o repatriamento dos nossos nesta continuidade do tempo. Maria do Carmo, a segunda esposa de José do Vale Arraes Feitosa acaba de ligar-me dos Currais, a terra em que um dia ele plantou pés de acerolas.

Naquele exato momento Paulo César o mais novo do primeiro casamento e Diana Maria a mais nova do segundo casamento, estavam na cidade em alguma padaria comprando pão e leite para a noite em família. E assim, todos nós fugimos do limbo do esquecimento.  
  

Cortejo das artes no Crato




foto by Gaby

Cheiro de velas e de flores
Corações soltos ou apertados de saudades
Reencontros adiados, riscados, antecipados...
Reencontros... Quem sabe?

Música clássica ou fados?

Panelas, torneiras, aquietadas
Um bando de almas do outro lado
Almas agitadas do lado de cá
Vidas nascentes
Olhos sem vida

Estrelas brilham nos teus
Como é que pode?
Tão lindo!

Tua pena imaginária
Desliza na tecla real
Da ponta dos teus dedos
Recados amorosos,
Informações valiosas
Desabafos críticos

A vida pulsa em alguns
Acelera o coração de muitos
Vivos e mortos
Num universo comum

- Reverencio a  soberania de todas as existências.

É A GRANA, ESTÚPIDO! - José do Vale Pinheiro Feitosa


É a grana, estúpido! Repetindo a frase do marqueteiro James Carville na campanha de Bill Clinton de 1992. A grana é fonte do poder absoluto e só a sociedade diretamente ou pelo Estado pode controlar este poder. Os liberais acreditam mais na liberdade das “mãos-cheias-de-grana” do que no bem comum da sociedade. O discurso desta corrente econômica evoluiu do dinamismo pessoal e das possibilidades criativas dos sujeitos para a defesa franca e bastarda dos ricos.

Os liberais navegaram tão mais além de suas raias singradas que se tornaram meros “capitães-do-mato” a “serviço” das “mãos-cheias-de-grana”. Por isso é que enquanto os comuns afiliados às correntes ideológicas da direita neoliberal, abrigadas no Brasil no PSDB e DEM, mas espalhada em todos os partidos, afinam sua fé confessional, apenas são a correia de transmissão daquelas ditas “mãos-cheias”.

Na verdade a essência, o núcleo ideológico, “núcleo duro” como os “intelectuais” do PSDB gostavam de dizer nos anos das privatizações, são economistas, jornalistas, dono de mídia e funcionários de bancos de investimento no jogo financeiro do mais absolutismo do capitalismo em todos os tempos.

Quando falamos de absolutismo estamos nos entendendo: é a contrarrevolução ao movimento liberal burguês dos velhos tempos. Afinal uma parcela “golpista”, por meio de uma enorme concentração financeira, criou a hegemonia absolutista que enforca as empresas produtivas, as contas dos Estados Nacionais e os caraminguás das famílias.

Na base de toda a crise atual está esse poder absolutista operando sob a forma da chamada “austeridade” gargalando as instituições, promovendo a recessão ampla geral e irrestrita e destruindo a renda das famílias. E o pior é que não existem reações “pacíficas” à “austeridade”, mesmo o exemplo da Islândia que levou o povo a escrever a própria constituição através de um plebiscito, não tem nada de manso ou mera passagem de bastão.

A verdade é que o salve-se quem puder dos momentos mais agudos deste abalo sistêmico levam os ratos a pularem dos barcos. E foi assim que um funcionário do Banco HSBC levantou os depósitos de lavagem de dinheiro e fuga fiscal de milionários de todo mundo. Entre estes “mãos-cheias-de-grana” muitos gregos. Isso mesmo: os gregos que hoje não têm emprego, passam fome e agitam as ruas. 

Esta lista acabou nas mãos de Cristine Lagarde, atual mandatária do FMI quando ainda era ministra francesa. Cristine por algum sentimento de raiva ou para criar instrumento para salvar o Euro e a União Europeia, entregou a lista para o Ministro das Finanças da Grécia. Esse não fez nada. Nada aconteceu no poder executivo, no poder legislativo e no judiciário. Todos fazem parte do mesmo esquema absolutista de enforcar o povo grego.

Há poucos dias o jornalista grego Costas Vaxevanis teve a lista em suas mãos e não mediu consequências. Publicou a lista das “mãos-cheias-de-grana” com suas contas ilegais na Suíça e outros países. Como o sobrenome do homem lembra para nós de fala portuguesa: foi um Vexame. Empresários, advogados, médicos, jornalistas, ex-ministros e até pessoas jurídicas de companhias gregas escondiam a mufunfa do fisco grego.   

O jornalista foi processado. O jornalista! Não os sonegadores. O jornalista foi processado e pegaria até três anos no xilindró. Só que o clima nas ruas da Grécia não está para peixe e os gregos devem muito aos europeus para que o espírito de grupo funcione favoravelmente a quem esconde grana quando os cobradores querem receber.

Ora o jornalista foi inocentado. Talvez esqueçam de fato das consequências para os nomes da lista, mas uma coisa é certa, o jogo desse povo está exposto. Mas não é impossível que algum leitor que chegue até estas últimas linhas diga: a culpa é do excesso de impostos. Mas como cara pálida? Você é contra o liberalismo? É pelo superávit primário e pelos juros que as “mãos-cheias-de-grana” recebem mais notas entre os dedos.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Lettres D´Amour - José do Vale Pinheiro Feitosa


Quando ao cego se deu a luz, bilhões de coisas visíveis se apresentaram aos outros sentidos que já as sentiam, de outro modo e nem sempre das longas distâncias em que a vista alcança e outros sentidos não. Mas é desta liberdade de ir cada vez mais longe que a luz se perde, sai do foco, se torna uma mancha sem significado.

E o fabuloso reino de Portugal, das epopeias dos Lusíadas, tão de vanguarda e livre para ir cada vez mais longe e tantas terras conquistar que terminou sendo conquistado. A aventura de Dom Sebastião e seu tropeço de Alcácer-Quibir encantou os sonhos de liberdade dos portugueses e a coroa espanhola fez de Portugal quase uma província.

Mais de quarenta anos após, em 1640, houve a restauração do reino com a dinastia bragantina. As guerras da restauração duraram mais de vinte anos e esta história acontece no clima. Neste mesmo período Richelieu controlava o reino francês, os reinos europeus viviam a guerra dos trinta anos e a Inglaterra passou pela revolução puritana que foi a primeira grande revolução da burguesia no mundo.
No tal ano de 1640 nasceu na cidade de Beja em Portugal uma jovem de família abastada, sujeita a lei dos vínculos em que os filhos mais velhos recebiam a integridade do patrimônio familiar para que esse não se dividisse, restando aos irmãos mais jovens a dependência, a aventura, o serviço militar ou os conventos. Aos onze anos a menina é entregue num convento na cidade de Beja onde nascera e aí se torna madre. Com o tempo se torna escrivã do convento.

A restauração portuguesa, como dito, foi no clima geral das guerras europeias de modo que até oficiais holandeses e franceses foram parte dela em pleno território lusitano. Entre os comandantes de guerra esteve o Conde Noel de Chamilly. A freira tinha vinte e poucos anos e ambos se encontram através dos membros da família dela.

Três anos após ter estado em Portugal, Chamilly retorna à França e dois anos passados sai publicado em Paris as “Lettres Portugaises traduite em François” por Claude Barbin. Eram cinco cartas sobre um grande amor envolvendo Chamilly e uma freira portuguesa. As cartas foram escritas por ela.

E aí se montou uma narrativa semelhante à veracidade sobre a existência ou não de Shakespeare. Estamos falando de Mariana Alcoforado. A freira suposta autora das cartas traduzidas para o francês se tornou um grande e contraditório diálogo literário e biográfico.

Adotando os dois temas falaram dela Camilo Castelo Branco, Rousseau, Saint Simon, Stendhal, Rilke entre muitos. Mas o que se tem é uma grande escrita literária em cinco cartas apenas. Reflexo de uma época de grandes paixões, de profunda lealdade ao ser em si, mas também da ambiguidade entre duas profundidades de se perder: a dubiedade do amor de um ser humano por outro e ao mesmo tempo do amor universal representado pela divindade.

Ambas as profundidades apontam o indestrutível, o eterno e contraditório ao desgaste, a metafísica do amor, o amor como a extração da essência e a semente permanente da lealdade a um só.

E nisso as cartas da Madre Mariana Alcoforado são uma grande luta de contrários já com as sínteses extraídas: entre o amor por Chamilly e o seu dever a Deus como freira. Como se trata do dramático advindo do confronto do particular do amor entre os humanos e o geral do amor a Deus, ambos com o mesmo sentido das características da profundidade como dito no parágrafo anterior, o drama serve para expressar de forma inigualável a natureza desta dita profundidade.   

Eis que passados mais de trezentos anos as Cartas de Mariana Alcoforado continuam sendo o que são: a paciente capacidade de entendermos a nós mesmos através das palavras. E das palavras escritas em textos com estilo que aos pouco afeitos à leitura incomoda ou que acham tudo que não mensagem no twitter algo chato. Vindo daí o raso em que viver se tornou um mero reduzir-se a drops de muitos sabores. Fugazes e propícios a cáries mentais.

Acho que se você leu até aqui, já estamos no excesso que não se espera dos leitores inabituais. Mas se chegou me anima a trazer alguns trechos da primeira carta:

“E contudo – parece-me que até aos infortúnios de que és o causador, eu tenho apego! Ofertei-te a minha vida desse a primeira hora em que te vi e é ainda um prazer para mim fazer-te o sacrifício dela.”
“Só me queixo do rigor do meu destino. Apartando-nos, fez-nos ele o maior mal que poderíamos recear. Não conseguirá, porém, apartar os nossos corações. O amor, que é mais poderoso do que ele, reuniu-os para toda a vida”

“Adeus, não me atrevo a deixar este papel que vai estar nas tuas mãos e quereria ter a mesma dita. Ai, que desvairada ando! Como se não soubesse que tal não me é dado. Adeus, falta-me o ânimo. Adeus, ama-me sempre e faz-me padecer ainda mais.”

Ficamos por aqui com a canção portuguesa a seguir. O livrinho com as cartas é da coleção Nossos Clássicos da editora AGIR e tem o título Mariana Alcoforado.

Não venhas tarde - Carlos Ramos - por excesso coloquei esta música para que estranhes mas ao final atenta-te aos versos finais:  "sem alegria eu confesso tenho medo, que tu me digas um dia, meu amor não  venha cedo. Por ironia pois nunca sei onde vais que eu chegue cedo algum dia e seja tarde demais."
  
  
As meninas de Rogério e Selma sob o céu do Cariri


Simone e Raquel: Belas!