por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sexta-feira, 7 de janeiro de 2011


Um amor e Adélia Prado
Adélia Prado me foi apresentada por José Ítalo de Andrade Proto, em 1981.
Recebi pelos Correios, o presente de um livro de poesias com a dedicatória:
“Adélia não é a tua cara?
-Insaciável, em termos de vida!”
Li, avidamente. Afinal, Ítalo fôra e continuara sendo o meu maior referencial afetivo de sabedoria, sensibilidade e inteligência.
Descobri na Adélia, a simplicidade que existia em mim... Pensar poeticamente, enquanto lavava a louça do café, varria a casa, cuidava do jardim, testava uma receita nova, me enfeitava para esperar um namorado.
Em 1987, Ítalo foi convocado pelos céus, e partiu. As pessoas que o amavam tiveram que conviver com a dor da separação, hoje transformada, na mais doce das saudades.
Ítalo amigo, cidadão, camarada, filho, irmão... "O Mimi" dos afetos mais próximos!
Com esta ponte sutil, permaneci ligada à suavidade do Ítalo, e sabedoria poética da Adélia.
Conheci o Ítalo, em Várzea Alegre, no ano de 1967. Época de férias. Juventude lúdica: dançante e cantante. Mas ele era diferente... Preocupava-se com as causas sociais. Instigava a nossa consciência crítica. Queria por idealismo, um mundo mais justo, mais fraterno, mais livre.
Correspondemos-nos por meses seguidos... Até que nos ligamos a outros destinos, sem jamais perder o fio da meada: boas lembranças!
Uma década depois, em 1977, nos reencontramos em Fortaleza. Ele me olhou e disse:
Socorrinha, você, Odalice e Dayse não ficam velhas, nem feias... Continuam lindas!
Já adultos, e com responsabilidades, curtimos uma grande amizade. Cantamos Nelson Cavaquinho, Chico, Vinícius... Voltamos a dançar, e a fazer poesia com o nosso olhar. E, por mais dez anos, nos correspondemos.
Cartinha vai, cartinha vem... Eu de vários recantos... Ítalo, no Rio de Janeiro. Dizia-me sempre: Você devia morar em Londres!
Até que um dia, as cartas tornaram-se telepáticas.
Visitou-me algumas vezes, e ainda me visita trazido pelo perfume de uma flor ou o som de uma canção de amor. Arrastado pelo vento, ou voando como um passarinho... Pousa nas minhas janelas diurnas e noturnas, e faz com a alma, um afago, um carinho.
"Love is a many splendored thing”...
-A voz de veludo e o verde esmeralda do olhar, que nunca esqueci!

Nem prosa, nem verso

Meu caminhar é solitário

Que adianta voltar e buscar o que não ficou ?

Nem gente, nem pacote atrasam

minhas idas , minas vidas

Volto no pensamento

quando o tempo é escravo

- No presente ele é senhor

Acelera ou adormece um desejo animado



Já disse tantos adeuses

Já fiquei de mãos vazias, embargada de saudades

Já tentei reconduzir algum caso terminado

Tudo acaba numa pia :

o resto do café, farelos de pão, flores despetaladas ...



Não gosto das despedidas

Elas estão nas pautas dos meus dias

-Prefiro os encontros inesperados

Seja de música ou pessoa

Seja um conto ou seja um fato

Chega e fica

Desfaz a mala

Cabe num canto da sala

Fica postado num quadro

Faz cafuné, coça o pé

Deixa dormir sossegado.

Quando eu me casei, em 1979 , todas as casas tinham quintal e pilão. Tratei logo de arranjar um, mas já não existiam em qualquer feira para se comprar, , nem quem os fizesse. Uma vez por semana, eu ia na casa da minha tia Ivone pilar a carne seca pra fazer paçoca , acompanhada do baião . A gente fritava a carne na gordura do toucinho , e adicionava bastante cebola roxa, e aí então , socávamos no pilão com um pouco de farinha de mandioca. Tínhamos então , a verdadeira paçoca . Ela nem se acompanhava de outra carne. Não era complemento. Era o prato principal. Ficava um pouco úmida , e a carne numa consistência fibrosa, fiapenta. Essa era a nossa paçoca original. Hoje , imaginem, a gente usa o liquidificador pra fazê-la, numa quantidade desproporcional de farinha, e achamos, enchemos a boca pra dizer, que adoramos paçoca... Ora, ora, a gente adora é farofa ! Nunca peço paçoca , nos restaurantes. Eu sei o que é uma paçoca gostosa ! Naquele tempo acompanhava o baião de dois com queijo de coalho e nata de leite com torresmos e cheiro verde. Se fazia mal isso é outra questão . Só sei que era tudo natural. Existe algo pior do que os conservantes dos nossos enlatados? A gente pensa que usando um creme de leite light tá tudo compensado...Cuidado !


Quando eu fizer um curso de fotografia com Pachelly , farei meu banco de registros , e a minha cabeça ficará mais leve.
Essa é a filha caçula de Ana Moreira ( minha avó paterna). Ontem estive em Mauriti para abraçá-la, nos seus 90 anos. Eu nunca sentira antes , a delícia de um carinho de tia, com tal intensidade e emoção. Estava lá, arrodeada de amigos, na paz do dever cumprido, reconhecendo
a gente, conversando , e ainda, pasmem...Preocupada com os trâmites domésticos. Vocês já se serviram ? Vocês já repetiram ?!
Minha tia é como foi a minha avó, meu pai e minha tia Ivone : almas apaixonadas e sensíveis !
Apaixonadas por todas as artes, e notadamente por gente !
De passos frágeis, voz delicada , rosto meigo , atesta no semblante e na palavra , que a vida foi comprida, mas a missão foi cumprida !
Ainda quero repetir com ela muitas festas semelhantes àquela !
Sua bênção, minha tia Auri !

Preciso encontrar meu olhar,
perdido na menina dos teus olhos.
Preciso do teu silêncio,
que tudo entrega,
no escuro da tenda.

Busco um sinal
Um arco-íris
Chuva molha, estraga
ou viça
o que há fora de mim.

O poema deve ressoar
como música suave ...
Não quero que a dor,
dite uma canção .

Conviver é "viver.com"
sem a solidão do nosso próprio eco.


Existem saudades de todas as idades
Todas um dia morrem
Algumas passam logo,
e as que ficam adormecem,
e deixam de doer... Têm sono leve,
acordam fácil, assustadas ou agradecidas
Por quem as trouxe de volta.
_ Sou solidária com todas as saudades!

Serei Zen...
No dia em que as ligações por engano não me irritarem
Quando as críticas incongruentes não me afetarem
Quando a vontade de fumar não existir
Quando todos tiverem consciência de si...
Serei zen, na eternidade?
.
Impossível ser zen numa noite profana
Impossível expulsar
O anjo que me acompanha !


A gente descobre o amor sem senti-lo
Ele é impositivo, embora nada cobre
Ele resiste depois que tudo passa
Amor não tem saudades
Amor nem ata, nem desata
O amor sendo livre nos deseja livres
Promover a liberdade do outro,
e viver a própria liberdade,
Tem fórum de amor, no infinitivo!


Nunca fiz dieta, nunca fui obesa - por Socorro Moreira

Sei que o problema é sério, e a obesidade sempre me preocupou. Mas tenho mantido um controle de peso, ao longo dos anos, sem fazer dieta, mesmo inclusive, sendo diabética.
Morei com uma pessoa, que precisava perder peso. Foi ao nutricionista e entregou-me o cardápio prescrito. Segui à risca, e no final do primeiro mês, ela tinha perdido menos de um quilo. Fuzilou-me com o olhar. Depois de alguns questionamentos, chegamos á conclusão de que não existe poder num regime, sem a prática de atividades físicas.
Minha experiência pessoal também diz o seguinte: a quantidade do alimento ingerido é que faz a diferença. Desde sempre como de vez em quando (a cada 2 h, de um tudo, mas em pequenas ou mínimas quantidades). Admiti essa prática, uma vez que não exigiu de mim nenhum sacrifício... Muito pelo contrário.
Claro que mantenho algumas regras: azeite ao invés de óleo; pouquíssima massa; pão de vez em quando, muita fruta, pouca carne, leite desnatado, e a possibilidade de experimentar qualquer prato.
Quase não uso açúcar, nem adoçante. Não gosto de margarina, nem frituras; nunca usei maionese, em sanduíches... Nem abusei das carnes gordas, presuntos, etc.
Mas, peço logo batata frita, quando chego num barzinho. É o meu tira-gosto preferido. Nos aniversários, provo dos doces e salgados... Ainda bem que ninguém completa anos todos os dias (amigos e familiares).
Bom, tenho o mesmo peso (nunca chega aos a 70 kg x 1,70 m), por várias e várias décadas.
Enfim... Coma com parcimônia, e faça várias refeições por dia. Você está sempre saciada, e apenas belisca!
Socorro Moreira
.



Mortal ,Imortal ?

Imortal,
antes e depois da vida
Imortal é Deus, criança
fantasma, louco...
Um pouco imortal, somos ...
quase o tempo todo!

.
Mortal é o presente
sempre tão corrente
Mortal é o passado
sempre acontecido!
Imortal é o futuro
eterno prometido!

Quando fui imortal ,
nem me percebi
Quando amanheci,
morri todo dia...

E agora,
que faço com os amores,
que se imortalizam?
Mortais são os sonhos
que em mim, terminam!


A Rua das Laranjeiras- Anos 60-
(Informações pautadas na memória de uma menina, que apenas nasceu naquela rua, e passeou suas alpercatas nas calçadas. Imprecisão histórica... O resumo de uma verdade ilimitada!).

Antes da Pedra Lavrada, eu nasci nas Laranjeiras, hoje José Carvalho.
No mesmo pedaço, onde morava Zé Cirilo, Salvina, os Libório, os Parente, os Cardoso, e onde ficava o Círculo Operário (que virou Escola, Cinema, salão de eventos, acolhendo discussões de base política social).
A rua começava com a Padaria de Seu Cirilo. Lá a gente escolhia o pão sovado ou aguado. Comíamos com nata batida do mais puro leite de vaca. Encostada à padaria viviam os seus familiares: Zenira, Zenilda, Zildenir, Francisco José (que foi meu colega no Instituto S.Vicente Férrer). Naquele Instituto, Zenira deu uma das suas grandes contribuições educacional. Tinha uma energia linda, vibrante, artística! Gritava as nossas quadrilhas de S.João de uma forma inconfundível. Mudou tão pouco ao longo dos anos...
-É a mesma Zenira!
Numa das casas seguintes, Gilvanda, primeira esposa do Compadre Zé Cirilo (como o chamava meus pais), criava a sua prole. Tia Fantina (irmã da minha avó Donana) e Gilvanda reinava na organização da casa. Zé Sérvio, Grijalva, Eugenia, João Antonio e Jorge já haviam nascido. Gilvanda confeitava os nossos bolos de aniversário. Sua casa tinha gosto de festa: limão glacê! Zé Cirilo entendia tudo de eletrônica, e trabalhava na Rádio Educadora, desde a sua fundação.
Mais na frente, a casa de Mário Oliveira (o dono do Cine Cassino) casado com Mildred, filha de Tia Fausta. Casa glamurosa. Mildred trazia das telas de Hollyood o astral do cinema. Tia Fausta era apaixonada por perfumes franceses, e tinha uma bela coleção em miniaturas. Foi lá que Miriam Magda completou seus 15 anos. Uma festa de arromba, que eu não tive o prazer de comparecer, pela pouca idade (menos de 15 anos). Mas eu assisti do meu jeito...!
Na mesma calçada, os Libórios. Salete, a musa maior: atriz e bailarina!
Parede com parede, o salão de beleza de Dona Estela Parente. Freqüentei aquele espaço, pela primeira vez, quando contava quatro anos. Cismei de cortar os meus dóceis cachos, irrefletidamente... E ficou horrível! Minha mãe pegou-me pelo braço, e conduziu-me até lá. Frisaram meu cabelo para consertar o estrago. Sai de cara redonda, cabelos curtíssimos, apipocados e com cheiro de queimado. Perdi naquele dia qualquer possibilidade de beleza romana, até os nossos dias. Na extensão do salão, a residência dos Bragas. Que menina da época não namorou com um deles? Ésio, Helder, Élcio, Hélio... Nem eu, escapei à regra!
Em frente morava Marta de Salvina.
Salvina, a mãe de metade das crianças, que vinham ao mundo, no Crato. Foi enfermeira do Dr. Gesteira e muito com ele aprendera!
Atravessando a rua, tinha (e ainda hoje existe) a ourivesaria do Seu Teophisto Abah. Grande artesão, amigo do meu avô Alfredo Moreira Maia (primo de Emília Moreira - avó da minha amiga Magali) e do Sr. Júlio Saraiva. Dizem as boas línguas que não existiam homens tão íntegros e habilidosos, quantos aqueles três. Era um trio famoso!
Na seqüência, os fundos do Moderno, propriedade de Seu Macário, por onde escorria meio mundo de pessoas, depois das sessões de cinema. A casa de Tia Pigusta (modista famosa), os Brizenos, os Duartes, Seu Euclides Lima Barros e Dona Nenê. Ali, Hamilton se achava!
No mesmo cinturão, a casa de Dedé França, Zeba, Dona Zélia (mãe de Nilo Sérgio), e a Sub-Estação, que gerava energia elétrica para toda a cidade (antes da luz de Paulo Afonso).
No quarteirão seguinte, depois do Beco de PE. Lauro, a sanfona genial de Hildelito Parente e um monte de irmãos: mais novos mais velhos e da minha idade!
Uma pequena concentração do Honor e Brito...
O casarão de Seu Pergentino (Pai de Dr. Eldon Cariri, Dona Eunir (mãe da Bela Piinha))
Do outro lado da calçada, a casa de Salgado, que nos assustava com seus vôos acrobáticos... Um dia a morte o assustou... Mas, pra que lembrar coisas tristes?
E a minha doce Mãe Candinha?
Quem nunca provou da chupeta de umburana e mel de abelha, que naquela casa vendia? Pois aquelas mulheres eram minha bisavó e minhas tias: Amália e Rosália. Lá tinha um papagaio que falava e repetia tudo que dizíamos.
“Tem café, minha Rosa”? Era o verdinho, imitando a voz de Vicente Cordeiro, meu tio por afinidade... Cego na velhice, mas compensado por um ouvido privilegiado. Tocava acordeom, gaita, realejo... e disso, eu também gostava!
Depois, a rua assumia outro nome...
Com preguiça não chego nesta carreira, na casa de Edméia Arraes...

-É outra circunferência, como diria meu amigo Blandino!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011



Saudade infantil
Manhã cor-de-rosa ,doce aurora ! Da janela o mundo parece foto - inanimado ! Se não fosse o latido dos cães , chilro dos pássaros , eu só teria o som do teclado .
O rádio na madrugada revive um samba antigo , e na minha memória, uma velha vitrola, soluça "Anaih".
Tempo do leiteiro à cavalo; do padeiro na carroça; do pirulito na tábua; das verduras no balaio.
Mingau na mamadeira, papa no dedo,chupeta no beiço, passeio nas calçadas com pijama flanelado. Casa varrida e aguada;cheiro de café torrado ; chão de tijolos, casa com chaminé; pinico nos quartos, banho de cuia , tina no quintal. Gritos de empregada e patroa : o que fazer pro almoço, carne cosida ou torrada ? E o pilão comendo frouxo. O abano cansando a mão; a boca soprando brasas.
Infância danada !
- Soltar barcos de papel , na rua alagada da chuva;chorar a morte do soldadinho de chumbo, derretido no fogão de lenha; Branca de Neve envenenada porque mordeu a maça; Bela adormecida, no sono do fuso encantado e eu, patinho feio, querendo presentear o meu gato com uma bota de mil quilômetros.
Estou no Crato, e em todos os lugares que vivi. Estou em Copacabana , onde um dia te vi. Estou no largo de uma saudade que não machuca , e me faz feliz !
Postado por Socorro Moreira às 06:22 7 comentários
Petit Gâteau - o bolo de coração mole



Existe sempre num quadro-negro

uma estudante que nunca cresceu

Ainda adormece nos livros

e carrega cadernos

nos braços dos sonhos

De farda azul

ainda sonha,

quando apaga a luz...

Fazendo castelos

ou fiando cachos!




Farda para mim tinha cheiro de prisão( a verde, principalmente ).

A farda colegial dava-nos o gosto do anonimato com responsabilidade.

Vesti poucas. Fiquei muitos anos , naquela de saia azul , blusa branca, com botões na gola- Igualzinha a esta que Edilma Rocha um dia também usou.

Não tínhamos contas para pagar, mas éramos preocupados com elas ; não tínhamos filhos para criar, mas éramos criados por pais e mestres.

Só fazíamos estudar , brincar e sonhar, mesmo que fosse à luz de velas.

-Claro que sou do tempo de queimar pestanas e cabelos, quando não existia no Crato , a luz de Paulo Afonso...

Depois de concluir o curso colegial nunca mais senti-me estudante. Tornei-me uma adulta cheia de lembranças.Sofro o remorso do parco aproveitamento, quando as oportunidades foram tantas !

Hoje aposentada , volto ao banco da aprendizagem com novos e amigos mestres : vocês !.


Abraço especial aos meus colegas, mestres e contemporâneos do Colégio São João Bosco ,Externato 5 de Julho, Instituto São Vicente Férrer , Colégio Diocesano e Colégio Estadual do Crato.



Perambulando nas ruas do Crato
Andei nas ruas do Crato pra lá e pra cá, entrando e saindo de filas , pagando as contas do mês.Sol pegando fogo.Senti vontade de usar sombrinha, como o povo de antigamente.
De repente comecei a dar defeito. .. Cadê nossa gente ?
Joaquim Patrício, Bantim; a roda dos literários , na porta da Livraria Católica ; Seu Ramiro Maia; o menino que eu flertava; meu pai...cadê meu pai ? Seus registros na porta do Cassino, anunciando o filme em cartaz. Minha avó com sua mantilha de viúva , caminhado apertadinho, rumo à casa de Tia Ivone. Tá lá a casa, na Rua Santos Dumont. Olhei para o interior, e escutei o pedalar da sua máquina de costura .Meu vestido da festa de Setembro, e das noites de novena , no final dos dias de Agosto.
Fico danada da vida, quando me deixo viajar nas lembranças boas, e acabo chorando.
Entrei em Hamilton, comprei mais um CD do Dihelson, e fiz um lanchinho na padaria : um sonho !
Arrastei as sandálias até em casa . Deparei-me com o sorriso do Victor : "Onde você foi ?"
-Eu fui em tantos anos , a procura de mim mesma e, perdendo a viagem, voltei pro nosso endereço.
Telefonei pra minha mãe, e aconcheguei-me na sua voz amorosa. Não falei do meu pai. Ela pareceu-me tão bem !
Liguei o computador , e vivi as alegrias desse ponto de encontro. Aqui é sede do passado e do presente.

Que o futuro nunca chegue - essa é a nossa esperança !



Renascimento chega com um amor maior,
que pode ser pior...
Amor é preto no branco.
A ficha contábil só pode ser imprimida,
depois que o amor levanta voo,
e deixa a conta por conta
das saudades que sentimos.



Paixão é uma loucura
que o amor cura.


"Os verdes campos da minha terra..."
1967 , 1968 ... E os estudantes do meu tempo começaram a seguir rumos diversos.
Foi o tempo de ficar ou partir. Eu fiquei, depois parti, e um dia voltei.
Os reencontros agora se concretizam ...Tempos felizes voltando com as pessoas , que de novo cantam !
1967, no Colégio Estadual Wilson Gonçalves. Segundo ano científico com Vieirinha, na Língua Portuguesa; Alderico ensinando História; João de Borba, Desenho; Laerti , Física ...E os Grêmios, os Grupos Teatrais: Zé do Vale, Leni Coriolano, Josimar Leonel, Nildo Ferreira Cassundé, Aline Luna...: "O Auto da Compadecida "!
Agnaldo Temóteo fazendo sucesso. Nildo , e o repertório de Agnaldo.Nildo , meu vizinho , cantando na Escola e no banheiro de casa: "Meu Grito".
Hoje é o aniversário do Agnaldo.E eu já voltei pros verdes campos da minha terra natal.Não tinha trem, cheguei pelos ares; malota sem cadeado; não corro como em criança, mas ando por aí, despreocupada, resgatando com o olhar o que ainda existe, e com a imaginação o que sumiu, deixou de existir.
2009- Todos retornando a um ponto dos sentimentos. Herança maior , na passagem do tempo.


Reencontro

Paixão

Um olhar profundo,

descolado da multidão,

aporta no mesmo plano .

Alice morava ali

Naquela varanda vazia...


Entrei no cheiro do cigarro

e na cor do campari

Gelo derretido , tremido ...

Sou onda !

Salgo a minha alma

Salvo o meu amor


Num álbum guardado

eu rasgo o teu olhar,

e me apaixono !



Desencanto - idas e vindas
Existem idas sem voltas
Momentos saem da órbita
Desistem do seu destino
Existem voltas sem malas
extraviam o amor
que brinca do outro lado
.
Existe o ausente
que não cabe no presente...

O riso palhaço
O olhar desconfiado
A palavra maldita
que sufoca cruelmente
o respirar de uma flor.


Desencanto apaga o riso por encanto

Pôe a lágrima no canto

Embarga a voz na garganta

Não canta

Não discute, leva a mala

Deixa a chave da casa ,

deixa perfume no ar

Irrita quem fica

Faz lembrar


O homem é a caneta


a natureza é a tinta


o papel é o guarda - poesia


As vezes ele solta um verso


As vezes prende o soluço,


ou se borra em lágrimas.


Quem não tem papel


cola na tela


Já não se faz papel almaço,


como antigamente


Ele acatava conceitos


aprovava e nos reprovava


Pachelly é nota dez


Olhar , e o resto dos sentidos


Só desconheço , o seu prato preferido


Mas a Socorro pode segredar ...


Aqui nesse Crato quente


de refrescante nascentes


-Um sorvete de cajá


para te agradar !


O filme “Os Dez Mandamentos de Cecil B. De Mille (1956) só foi exibido no início dos anos 60, no Cine Moderno do Crato.
A meninada (incluindo-me) marcou presença na sessão das 10h00min. Como era de longa metragem , 3 h de duração , foi dividido em duas partes , com um intervalo de 15 minutos. Perdemos os assentos, mas não prescindimos do lanchinho que trouxéramos de casa. Foi um verdadeiro piquenique, na área externa: frutas e biscoitos!
Naquele dia Cecil B. De Mille, Charlton Heston, se imortalizavam para nós. A história bíblica também passou a ser mais bem conhecida, e os “Mandamentos”, talvez tenham sido internalizados.
Parece que foi ontem, e ainda restam balas pepper, zorro, torrone, e chicletes Adams, nos bolsos do meu vestido de criança.


Ninguém é substituível !
Acabei de chegar de uma visita, e o meu coração me dizia , no caminho : ninguém substitui ninguém...Quando abri o e-mail enviado pela minha amiga Ismênia, justo num momento de tristeza e consternação para o Crato em peso. Elsa ( minha colega de Faculdade, colega de Banco) e Walter perderam hoje uma filha de 20 anos.Nem vou tentar explicar uma dor...Ela hoje não teria consolo.Apertei as mãos da minha amiga e ela perguntou-me : "Já passou por isso , Socorro ?" Eu respondi-lhe : já vivi muitas perdas , e não preciso perder um filho pra sentir a tua dor. Basta ser mãe, e pronto !

Não achei a palavra mágica do conforto , mas ela me confortou : " vou fazer de conta que a minha filha foi fazer uma viagem muito longa , sem data pra voltar , e um dia, a gente se encontrará.

Não adianta ter dez filhos...Cada um é insubstituível; cem amigos... Todos são insubstituíveis !

O que a gente pode é ser contente e harmonioso com todos os próximos.Os distantes nos farão falta ou no mínimo , deles nos lembraremos com saudades. Que perdurem as lembranças felizes. Vamos aproveitar cada minuto de todos os encontros que a vida nos predestina. Haverá o momento crucial da despedida, que pode ser suave , quando bem entendido.

Melgaço falou da Morte , como perspectiva de vida... Parecia adivinhar o momento nosso, seguinte.

Hoje eu preciso do meu próprio silêncio, na véspera da festa da Penha. Que ela sopre a dor do coração de Elsa , e receba no seu colo a sua filha .

"NAS CARTAS DO TARÔ


No mundo das cartas, o reino da mente.
Trajetória antes mesmo de virar semente
que germina inconsequente gesto Louco
sem medo ou ânsia tresloucado e mouco.

Com dedos joga os dados aleatóriamente
sente-se o Mago de tão desejo ardente,
sem reino de Imperador ou Papa.Em ouro
faz do Carro as rédeas por um tesouro.

Mas Enamora-se. Qual o caminho seguir?
Qual estrada se a Roda não pára um pouco
e a Estrela oculta-se na Lua e no Sol do dia?

E agora? Será que achou o caminho de ir?
Sem Julgamento o Mundo se torna Louco
recomeçando um novo ciclo que se inicia. "


Por : Solsempresoll

P.S. Solsempresoll é o apelido de Maia José , uma bruxinha amiga , poeta muito querida, que já consta como nossa seguidora.
Conhecemos-nos numa bela tarde de domingo. Uma daquelas tardes calmas e ensolaradas.
E o programa de quem não quis ver o mar foi caminhar nas ruas do bairro pra esticar os olhos , no silêncio vazio.
Um sorvete , pensei... Um sorvete com bastante calda !
Parei num lugarzinho aconchegante , e fiz o pedido. Por conta do horário estava sem a clientela, e a proprietária era justo a Masé.
Abrira um Tarô belíssimo , e estava lá a matutar ou intuir os prognósticos.
Fui vencida pela curiosidade :
- Você sabe jogar Tarô ?
-Sou apenas uma curiosa ...

Em poucos instantes , já estávamos trocando figurinhas como meninas de escola.
Eu também tinha o meu Tarô, em estudo. Estudo por sinal complicado , tal a iqueza e complexidade da simbologia.
Nos meus tempos de adolescência, fascinavam-me as cartomantes, mas em nada acrescentavam , quando me dispunha , com elas, a ler a sorte. Percebia a enrolação, e resolvi curar-me daquela compulsão, comprando um Tarô ,e estudando. Parecia uma cartilha em grego. Precisei de noções de Astrologia, Mitologia, e formar uma pequena literatura caseira sobre assuntos esotéricos. Cheguei até a fazer um curso relâmpago de Tarô, quando morei em Salvador.
Bom, finalmente consegui deitar as cartas , e usando a intuição , traduzir os recados que o Tarô
, pressupostamente , sugeria.
Durante muito tempo usei-o como instrumento para o auto-conhecimento. Recusei-me a assimilar a intenção adivinhatória. No mais era tudo uma viagem interessante.
De vez em quando e, ainda agora , pego as velhas lâminas, guardadas num saquinho de cetim, e tento interpretar as tensões do momento.
O exercício tanto repetiu-se, que eu converso com o Tarô , até virtualmnte.
Ele, na gaveta fechada;eu ,no meu pensamento.
No mental , acho que estabeleço a conecção entre o meu eu inferior e o meu eu divino, e as respostas começam a saltar , desengavetadas de algum lugar.
Engraçado como o ser humano é adepto de muitas crenças. O Tarô é apenas um pretexto pra gente se esclarecer, quando o terço saiu fora dos dedos.
Mas , confesso com ou sem aprovação, que o Tarô é uma entidade de respeito.

Voltando à minha amiga Mazé... Muitas outras afinidades foram despontando. Ela apresentou-me à Linda Godman (Signos Estelares), e presenteou-me com " Alice no País dos Espelhos!"
- Mulher amiga, sensível e sábia - com ela aprendi vários versos.