por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 3 de julho de 2014

Equício

J. Flávio Vieira

                          Equício vivia encafifado com aquele mistério quase que kafkiniano. Estava ali , como um Sócrates moderno,  tentando entender os destinos do mundo. Ou como  um Hamlet , reencarnado, com seu tablet erguido em feitio de caveira,   e sua dúvida remasterizada :
    
-- Ter ou não ter, eis a questão!
 Como teria sido possível, remói o nosso Equício, a humanidade ter sobrevivido por tanto e tanto tempo, sem o Smartphone ?  Houve vida neste planeta antes da Internet ? Para que serviam os dedos e as mãos se não podiam deslizar nas telas de LED ? Houve uma época em que as pessoas precisavam ainda falar, se encontrar, se locomover para terem qualquer atividade social! Já se imaginou uma loucura dessas? Hoje essa maquininha faz tudo isso por nós! O livro que gostaria de ter está aqui dentro, a musiquinha que quero ouvir está à distância de um toque, o filme , a voz da namorada, a pizza, as compras , tudo está perfeitamente ao alcance de Equício, com um simples deslizar de tela. A coisa ficou fácil, prática e sobra tempo e mais tempo para a gente curtir esta viagem leve e  curta chamada de vida. Nossos avós, pensa Equício, precisavam se desdobrar para conseguir a caça, para descolar o alimento, para sobreviver em meio às enfermidades, às guerras. As mulheres tinham, biblicamente, os filhos com dor, não existia energia elétrica, rádio, TV, cinema. Já pensou na loucura do  mundo sem shopping? Do almoço sem Mac Donald´s ?  De ter que fazer a própria comida? E o deslocamento em lombo de burro? Um mundo sem carro, sem moto, sem trem bala e sem avião ?  
            -- Como eram infelizes nossos avós !
            Equício  tem essa revelação na fila do ônibus, onde aguarda , pacientemente, a volta para casa. Tudo depois de um longo dia de trabalho, como office-boy num escritório de advocacia.  Com sorte chegará umas dez horas da noite e às quatro terá que recomeçar de novo o trabalho de Sísifo.  Aproveita e manda um SMS para a namorada que já não vê há uns dez dias. Pelo  WhatsApp  conversa com alguns amigos que lhe mandaram mensagens e vídeos.  Lembra que precisa organizar um fim de semana para visitar os pais. Internos   num abrigo de idosos , depois que se foram se transformando num estorvo para a família ( infelizmente ainda não existe, nesses casos a tecla “Deletar”) , ele já não os contacta há uns três meses.       
                          Quando o ônibus , por fim, sai em meio ao congestionamento, Equício  vai observando, hipnotizado, as luzes dos teatros, dos cinemas, dos museus da cidade grande. Quantas opções de divertimento nós temos!  Um fim de semana desses, vou tirar para visitá-los!  Chegando à parada, desce, veloz, na velocidade típica dos novos tempos : a número cinco do créu. Olha para um lado e para outro, temendo o trombadinha.  Nem percebe, no céu, uma lua cheia argêntea,  esplendorosa, totalmente supérflua nos dias de hoje, ao alcance de um simples olhar.  Nem sabe que , a despeito de tudo, as Cataratas do Iguaçu continuam caindo com clamor e sem chips; o mar persiste quebrando suas ondas, ritmicamente, em Paraty, sem nenhum App; o Amazonas corta a floresta sob a música  dos pássaros e o mergulho incontrolável dos peixes. Equício   pega, por fim, seu Santo Graal, o aparelho pequenino que lhe dá poder, magia e  segurança e que lhe serve como filtro do mundo.  Pronto !  Eis o  admirável mundo novo : A solidão está perfeitamente atingível a um simples toque !


Crato, 03 de Julho de 2014

"Duelos de Titãs" - José Nilton Mariano Saraiva

A priori, não há o que temer. Agora, a briga é de “cachorro-grande”. E a Colômbia nunca o foi (como não o é, atualmente). Assim, no lucro e com a certeza do dever cumprido, os esforçados jogadores colombianos voltarão pra casa cantando o “amor febril”. Ganharemos, e o faremos com relativa tranqüilidade, apesar da desconfiança de muitos, mas com o time finalmente se estabelecendo em campo (atentem para o Fred).

Já quem não deve ter tanta tranqüilidade, mas certamente seguirá na competição, será a poderosa Alemanha (cujo jogo realizar-se-á antes do embate do Brasil). É que o esquadrão da França, embora pratique um bom e vistoso futebol, não é dos mais competitivos. Portanto, Brasil e Alemanha defrontar-se-ão numa estupenda semifinal. E aí eles tremerão, porque o nosso time já terá engatado e a nossa camisa impõe respeito.

Do outro lado, um embate de arrepiar, verdadeiro teste pra cardíacos: Argentina e Bélgica têm tudo pra patrocinar um dos grandes jogos dessa “Copa de todas as copas” e de tantos grandes jogos. Se jogar o que jogou contra os americanos, os belgas têm tudo pra despachar “los hermanos” (que vêm ganhando, mas sem convencer).

E, finalmente, já sabendo do vencedor do jogo Bélgica versus Argentina, a Holanda entregará o bilhete de volta com uma singela dedicatória de agradecimento à “zebra” Costa Rica, que ficará pelo meio do caminho, sem perdão. Assim, a Holanda fará uma semifinal portentosa com o vencedor do jogo acima.

Enfim, após alguns memoráveis “duelos de titãs”, daqui a exatos 10 dias teremos oportunidade de presenciar um Maracanã (em azul e amarelo) “transbordando” de gente pra acompanhar um mui provável Brasil x Holanda (ou Brasil x Argentina ou um inédito Brasil x Bélgica), quando teremos oportunidade de acabar de vez com essa frescura de “maracanazo”.


Lembram da frase escrita no ônibus da seleção - “Prepare-se. O HEXA está chegando” ??? Pois é, tão feliz profecia há de materializar-se. E por uma razão simplória: porque o povo brasileiro se fez merecedor - e até os “gringos” hão de reconhecer isso, a posteriori.

Por Rejane G Santos

Guiomar
Guiomar vive na rua de cima. Hoje, desceu. Num vestido sem mangas, de saia rodada e flores verdes em salpico, cintura marcada, decote sedento por um pedaço de chão. Braços nus, abandonados ao longo do corpo, mas vivos. Braços de bailarina. Olhos acesos catando os céus, luz em foco na palidez de cera do rosto de santa. Andar roubado, leveza de garça e ondulações de serpente. Veio do alto. Venceu a terra barrenta da rua comprida com força de inundação. Chegou embaixo re...pleta, grandiosa, maior que seu próprio tamanho. Acumulada.
Vi os cabelos de Guiomar, cortados à faca pelos soldados que a conduziam, sumirem na escuridão do corredor da delegacia daquela cidade pequena. Minha quase aldeia, onde o tempo também vai devagar e arrasta-se pestanas adentro das janelas que olham.
Nunca esqueci.
rejane gonçalves
(Para uma certa "mulher da vida", cuja altivez eu nunca esqueci)

quarta-feira, 2 de julho de 2014

VTS 01 1CE TV Cariri /CE Jornal do Meio Dia

A Quem Interessa o Golpe? - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

O histórico de Golpes de Estado no Brasil é extenso e vem desde os tempos do Império, para decretar maioridade de Dom Pedro II antes dele completar 14 anos, no que ficou conhecido como "golpe da maioridade de Dom Pedro II ".

Em seguida houve o golpe militar da Proclamação da República, liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca. A mudança do sistema de governo foi realizada sem nenhuma participação do povo que ficou totalmente indiferente aos acontecimentos daquele 15 de novembro de 1899.

Os primeiros anos da República foram de muitas dificuldades, tanto econômicas, quanto administrativas. O país viveu sucessivas crises. O Marechal Deodoro, que assumira o cargo de chefe de governo, tentou solucionar essas crises impondo autoritarismo: dissolveu o Congresso e decretou Estado de Sítio, suspendendo todos os direitos individuais e políticos dos cidadãos. A reação a esse golpe foi intensa em todo o país e a crise se agravou a tal ponto que ao Marechal Deodoro, velho, doente e cansado, somente restou a renúncia em 23 de novembro de 1891. Seu conterrâneo, o também alagoano Marechal Floriano Peixoto, vice-presidente, assumiu o governo.
 
Em 1964, há 50 anos portanto, um governo legitimamente constituído foi deposto através de um golpe militar. Naquela época, temia-se a implantação de uma ditadura comunista, a exemplo da revolução acontecida em Cuba no ano de 1959. Partidos políticos  conservadores há mais de vinte anos na oposição, aliados aos meios de comunicação social, articularam a deposição do presidente João Goulart, pois segundo justificavam, o país  estava na iminência de um golpe de esquerda, às portas de uma ditadura sindicalista de inspiração comunista. Alguns setores conservadores do clero amedrontavam toda a classe média brasileira, com receio de que nos tornássemos vítimas de um regime comunista e ateu, no qual haveria a proibição de cultos religiosos e o fechamento das igrejas. A gestação do golpe foi lenta e contínua, com alguns períodos de calmaria. Mas resultou numa ditadura militar que durou 21 longos anos, camuflada para fins externos, como sendo um regime "democrático" de faz de conta. Mas internamente com censura à  imprensa, muitas prisões e torturas.

O histórico desse golpe teve início há mais de três décadas, nas eleições presidenciais de 1930, que como todas as eleições realizadas anteriormente, foram fraudadas e repletas de vícios. Júlio Prestes, o presidente eleito à "bico de pena", não chegou a tomar posse. Um golpe militar colocou no poder Getúlio Vargas, o candidato derrotado naquela eleição. A denominada "Era Vargas" durou 15 anos, incluído nesse período a "Ditadura do Estado Novo", que vigorou de 1937 até de outubro de 1945, quando Vargas foi deposto. Antes disso, pressentindo que o seu tempo se expirava,  Getúlio Vargas preparou o retorno do país à democracia permitindo a criação de novos partidos políticos, entre os quais: a UDN, o PSD, o PTB, entre outros, inclusive legalizando o Partido Comunista.   

Em dezembro de 1945 ocorreu o que se denominou como a "primeira eleição realmente democrática do país", tendo sido eleito o General Eurico Gaspar Dutra, cujo governo destacou-se pelo respeito à constituição.

A partir de 1950, com novas eleições presidenciais, quando então Getúlio Vargas foi reconduzido à presidência da república, intensificou-se a reação da UDN, sob a liderança de Carlos Lacerda. Havia acusações de corrupção, principalmente com relação ao empréstimo efetuado pelo Banco do Brasil ao jornalista Samuel Wainer, empréstimo esse autorizado pelo Presidente Vargas, para que seu amigo fundasse o jornal "Última Hora", cuja finalidade era defender o governo das constantes acusações da imprensa conservadora, acusações essas, cujo objetivo principal era a deposição de Getúlio.   

Em sua campanha para derrubar Vargas do poder, Lacerda usava o seu próprio jornal "Tribuna da Imprensa", fazia aparições na televisão, palestras em colégios, em associações de classe, onde quer que fosse possível. Por isso mesmo temia sofrer atentados. Então solicitou segurança ao Ministro da Justiça, na época, o Sr. Tancredo Neves. O Ministro colocou a policia à disposição de Lacerda e sugeriu que ele escolhesse o pessoal de sua confiança. Mas Lacerda preferiu cercar-se de amigos militares. E no inicio de agosto de 1954, ao chegar à sua residência em Copacabana, Lacerda sofreu um atentado à bala que atingiu o seu pé. Um outro tiro ceifou a vida de um de seus amigos, o major da aeronáutica, Rubens Vaz. Comandantes militares das três armas se revoltaram contra o presidente. A crise desencadeada com esse atentado, sob suspeitas de ter sido perpetrado pela guarda pessoal do presidente, levou Getúlio Vargas a optar pelo suicídio em 24 de agosto de 1954.

Em 1955, novas eleições presidenciais foram realizadas, com nova derrota da UDN e vitória de Juscelino Kubtschek do PSD.  Houve um breve período de crise, pois Carlos Lacerda desejava impedir a posse do presidente Juscelino, felizmente sem obter êxito.

A quem interessa um Golpe de Estado como o ocorrido em 1964? Em primeiro lugar aos políticos conservadores, submissos aos interesses das grandes potencias internacionais. Políticos esses  contrários ao combate à pobreza e à redução das desigualdades sociais. "Qualquer política voltada para extinção da pobreza é prontamente combatida pelos que detêm o poder econômico". Conclusão essa a que chegaram os bispos latino-americanos reunidos na III Conferencia Episcopal Latino-americana, realizada em Puebla no México em fevereiro de 1979.

Finalmente, um golpe como o de 1964 interessa diretamente às grandes potências mundiais que desejam para si as riquezas da nossa Amazônia e o nosso lençol petrolífero à águas profundas.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

terça-feira, 1 de julho de 2014

O "pragmatismo" alemão - José Nilton Mariano Saraiva

Embora sua história haja sido manchada indelevelmente em razão de ter sido espécie de ator principal nas duas Grandes Guerras Mundiais dos tempos modernos (1914/1918 e 1939/1945) a Alemanha, a partir de então e apesar da sua pequenez territorial (é um pouco maior que o nosso Maranhão, só que com uma população espantosa de mais de 82 milhões de habitantes), firmou-se como uma das maiores potências do mundo em termos técnico, científico, econômico-financeiro, esportivo e cultural, dentre outros.

O seu povo é, reconhecidamente, dotado de uma inteligência privilegiada e ímpar, o que, de par com a escolha preferencial do governo pela educação e pesquisa, propicia o surgimento de luminares e cientistas de escol nos mais variados segmentos da vida: da medicina à astronomia, da física nuclear à literatura jurídica, do automobilismo ao futebol, e por aí vai.

Assim, é fácil detectar que uma das características marcantes desse povo é sua idiossincrasia, sua determinação, seu “pragmatismo” por excelência; em tudo (ou quase, vide abaixo) que se mete o alemão se sai bem e dá o recado bem dado, exatamente porque preparado, culto e extremamente disciplinado.

Tomemos, genericamente, o futebol como exemplo e, particularmente, a atual Copa do Mundo que o Brasil tem a honra de patrocinar (e tem dado um verdadeiro show). Às 32 seleções que se habilitaram a participar do torneio, a FIFA concedeu o direito de livremente escolherem o estado e/ou cidade da federação que gostariam de ficar, durante a realização do torneio.

Pois bem, enquanto alguns optaram por hotéis localizados em cidades/praias badaladas (Ipanema, Santos, etc) e outros por cidades de porte médio (mas de fácil acesso dos nativos), os alemães adquiriram um imenso terreno numa praia pra lá de deserta, na Bahia, longe do burburinho das cidades, onde construíram o próprio hotel, que tem acomodado toda a delegação durante o torneio. Lá, isolados da badalação e, literalmente, do mundo, priorizaram o treinamento sob o causticante sol do meio dia (um verdadeiro tormento para quem tá acostumado com temperaturas siberianas) a fim de se adaptarem ao horário dos jogos que farão no país. Deslocamentos para as cidades onde jogarão somente às vésperas de cada pugna, com imediato retorno após. E ninguém reclama ninguém diz nada, porquanto sabedores que só através do sacrifício imposto por uma disciplina férrea terão chance de atingir o objetivo colimado. Essa uma das facetas do seu “pragmatismo” (no jogo de ontem, contra a Argélia, por exemplo, o preparo físico foi fundamental para uma vitória alemã na prorrogação, já que os africanos, mesmo habituados a temperaturas escaldantes, se “arrastavam” em campo em sua parte final, quando os germânicos fizeram os dois gols que os habilitaram a seguir em frente).

No entanto, a prova mais lídima desse mesmo “pragmatismo” já nos houvera sido concedida lá atrás quando, ao se classificarem pra disputar a Copa do Mundo, no Brasil, os alemães não se importaram em, literalmente, se “prostituir”, ao adotarem uma camisa com as cores e o padrão da do Flamengo, sabedores tratar-se de um time de massa, por aqui. E assim, fugindo da seriedade que os caracteriza e provocando uma “brecha” abominável em seu proceder, o discreto, austero e respeitado uniforme em preto e branco alemão foi substituído por um outro que não tem nada a ver com a sua tradição e história. O objetivo (velado naturalmente) foi o de ganhar a simpatia e apoio da torcida flamenguista (bem que poderiam ter adotado o uniforme do glorioso Vasco da Gama ou Corinthians, detentores de imensa torcida no Brasil, e cujas cores são similares às suas).

Fato é que, independentemente de tudo isso (e até como duro castigo por transmutar-se de alvinegro pra rubro-negro por mera conveniência) os alemães frustrar-se-ão quando, numa das semifinais, usando a camisa do Flamengo, enfrentarem a seleção brasileira com o seu uniforme tradicional (que lhes provoca fininhas,  comichões, caganeiras e arrepios). Ou seja, depois de todo esse cuidado, todo esse planejamento, toda essa discrição, terão que contentar-se com o terceiro lugar, em razão de terem inserido a “prostituição” em seu “pragmatismo”, via escolha de um uniforme inadequado e indesejado pela própria torcida alemã. Aí, então, esse “estranho no ninho”, o uniforme “rubro-negro-alemão”, será de pronto aposentado.

Alguém tem dúvida ???

domingo, 29 de junho de 2014

Vermelho pro "canibal uruguaio" - José Nilton Mariano Saraiva

Foi pouco, muito pouco, pouco mesmo. Apenas nove (09) jogos de suspensão de competições patrocinadas pela entidade, quatro meses na “geladeira” (banido que foi de jogar bola nesse período, e sequer poder adentrar um estádio de futebol) e mais uma multazinha irrisória (cerca de R$ 250 mil), esta a punição que a FIFA houve por bem aplicar ao “canibal” Luis Suárez, jogador de futebol da seleção uruguaia que se viciou em alimentar-se de partes do corpo dos colegas de profissão, durante as partidas de que participa (depois de “degustar” o sabor da carne de um holandês e um inglês, agora o “canibal uruguaio”, em plena Copa do Mundo, resolveu “deglutir” o pescoço de um italiano). É, pois, um tri-incidente cosmopolita.

Mas, como o futebol é pura “emoção”, porquanto desprovido de qualquer “razão”, principalmente quando o objetivo maior é o de ser campeão do mundo, depois da “palhaçada” que patrocinou na Copa do Brasil, Luis Suárez foi corretamente mandado de volta pra casa, pela FIFA, e aí se deu o inusitado: no aeroporto, centenas de torcedores à espera do “canibalzinho” para prestar-lhe “solidariedade”. Ou seja, corroboravam com o grave erro por ele cometido, transformando-o numa espécie de herói nacional. E mais inusitado ainda: entre tais torcedores, ninguém menos que o Presidente da República, que fora protestar contra tão severa punição.


Pobre do país que enaltece e cultua (pseudos) heróis, porquanto de pés-de-barro.
Para acalmar os nervos, regular os batimentos cardíacos, compensar tanto grito abafado, tantos olhos fechados e ouvidos tampados... vamos apreciar, meus queridos amigos, de alma leve e grato sentimento, a bela delicadeza do poema de Manoel de Barros.

O apanhador de desperdícios

"Uso a palavra para compor meus silêncios....
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
Sou da invencionática
Só uso a palavra para compor meus silêncios."

 

sexta-feira, 27 de junho de 2014

O sedento Deus Liberdade

J. Flávio Vieira

A violência sempre esteve ligada ao poder.
                                    E a violência masculina é um exercício perverso do poder.  
Affonso Romano de Sant' Anna

                                   A Violência é uma irmã siamesa da Civilização. A história da humanidade , desde os seus primórdios, tem sido escrita  com a rubra tinta do sangue. A evolução natural da nossa espécie nunca conseguiu debelar esse mal, apenas ele foi se metamoforseando e aparecendo com outras nuances e outras máscaras. A pólvora substituiu a espada, o canhão à espingarda, o tanque de guerra ao aríete. Se se reparar direitinho,  a Violência tem seu nascedouro nas nossas mais simples relações domésticas. Por trás dela sempre existe impulsionando-a o exercício do poder : seja de pai para filho, de patrão para empregado, do rico para o pobre, do político para o eleitor, do homem para a mulher, da nação mais favorecida contra as mais lascadas. A célula mater da Violência, no entanto, brota das nossas mais simples e domésticas  relações humanas. E ela nos aproxima, mais que nada, das nossas origens animalescas, quando abandonamos o racional e agimos como um lobo na matilha.
                                   No Cariri convivemos com uma chaga secular: a Violência contra a mulher. Entre 2009 e 2011, a cada 90 minutos,  uma mulher foi morta no Brasil , no mesmo período, só no Ceará, pereceram 684 mulheres. Estes índices são assustadores. Recentemente, aqui no Cariri,  nos espantamos, novamente, com dois fatos que, de tão comuns, parecem já corriqueiros. Duas médicas foram alvo impensável desta temida violência. Semana passada, Dra. Ângela Gimbo sofreu um atentado terrível, que quase lhe ceifou a vida, por razões estranhas e que estão em processo de investigação. Dra. Ângela é  uma profissional da mais alta qualificação, infectologista radicada na região há muitos anos e que atualmente assumia, com enorme desenvoltura,  o Cargo de Diretora da Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte. Não bastasse esta notícia triste, esta semana, uma outra médica, Dra. Elizabete Bernardo, viu-se vítima de um crime passional, perpetrado por seu antigo companheiro, perdendo a vida de forma trágica e brutal. Dra. Elizabete era professora também da Faculdade de Medicina de Juazeiro e profissional capacitada e de finíssimo trato. Aparentemente, se tratam de dois crimes totalmente isolados e sem qualquer ligação um com o outro, há, no entanto, um fio condutor ligando as duas tragédias.
                                   No caso da Dra. Ângela, possivelmente, há motivos relacionados diretamente à sua atividade como dirigente de uma empresa educacional.  Administrar é ferir interesses de um lado ou do outro. Não será difícil para os investigadores fecharem o firo. O desvendamento do crime é essencial para que os caririneses ao menos consigam dormir com alguma tranquilidade. No caso da querida Dra. Elizabete, homicício seguido de suicídio, deslinda-se,  imediatamente,  a causa , mas permanece o gosto de fel em todos os seus amigos e admiradores. Em ambas situações percebe-se , claramente, a questão de Gênero presente. Os últimos cinquenta anos se caracterizaram por um avanço expressivo nos horizontes femininos. A mulher passou a ocupar espaços até então tidos como um  monopólio masculino. Conseguiram uma invejável independência financeira, levando a que hoje já sejam cabeça de família de um terço dos lares brasileiros. Já não precisam se submeter ao julgo do varão que lhe dava o pão mas , em troca, as mantinha subjugadas. Já não necessitam ser infelizes, mantendo relacionamentos de fachada. No trabalho, também, têm as mulheres formas peculiares de administrar, são, em geral, mais corretas e menos propensas ao “jeitinho”. Todas essas transformações , no entanto, não foram percebidas, ao que parece, pelo sexo antigamente tido como forte. Amor não correspondido se torna uma afronta para aquele que sempre se achou proprietário universal  da sua  companheira. Regras e leis cumpridas à risca viram uma agressão para os adeptos das maracutaias tão tupiniquins.
                                   Dra. Ângela e Dra. Elizabete são mais  dois cordeiros imolados  ao sedento Deus Liberdade. Esperamos que sejam os últimos. É preciso se pensar num mundo melhor e mais justo, onde o homem não seja o lobo do homem. Que diabos de animal racional é esse e que ainda se diz feito à imagem e semelhança do Criador ? Se pensamos desarmar nossos espíritos e atiçar nossos corações é preciso provar que já conseguimos sair da Selva e que criamos leis mais humanas e mais justas de convivência social.


Crato, 27/06/14    

quarta-feira, 25 de junho de 2014

O "pequeno Drácula" - José Nilton Mariano Saraiva

Boa pinta, austero, comumente rigoroso e fluente em espanhol e inglês, Marco Antônio Rodriguez Moreno, o bom árbitro de futebol mexicano que foi selecionado para atuar na Copa do Mundo de Futebol, atualmente realizada no Brasil, é professor de Educação Física, tem 1,79 de altura e 81 kg. Pra ser infortúnio, no entanto, tem um apelido do qual não deve gostar nem um pouco, mas que aprendeu a aceitar por pura conveniência marqueteira: o “pequeno Drácula” (Drácula, como se sabe, era aquele vampiro famoso, que assustava a meninada, via telonas dos cinemas).

Pois bem, indicado para apitar o clássico Uruguai X Itália, de repente Rodriguez Moreno deixou passar um lance capital do confronto: aquele em que o atacante uruguaio Luis Sóarez, provando não ter nenhuma tendência “naturalista”, mas, sim, uma avidez carnívora desmedida, deixa o futebol propriamente de lado e quase arranca o ombro do zagueiro italiano Giorgio Chiellini, ao aplicar-lhe uma vigorosa dentada, à altura do pescoço (as marcas caninas foram mostradas pela TV e como é a terceira vez que faz isso (em campeonatos diversos), Sóarez corre o risco de ser suspenso do resto da Copa do Mundo).

No entanto, embora justificadamente o caso tenha sido explorado o máximo pela mídia, porquanto a imagem da televisão é pura e cristalina em relação à violência do lance, no relatório do árbitro à comissão de arbitragem da FIFA tal ocorrência não será citada, já que Rodriguez Moreno sequer apitou falta ou mostrou-lhe o “amarelinho”, que se fazia merecedor (alega não ter visto o lance).

Com o torneio se afunilando, tanto que metade dos concorrentes já voltou pra casa, a esperança dos que querem evitar um confronto com o Uruguai é que, tal qual procedeu em casos análogos, no passado, a FIFA puna com absoluto rigor o jogador, com base apenas nas imagens geradas pela TV (o que constituiria um desfalque de peso para quem quer chegar lá).


No entanto (e por enquanto), à espera de tal decisão a pergunta que todos se fazem é: será que o “pequeno Drácula” (o juiz mexicano) deixou propositadamente de punir o jogador uruguaio por ciúmes, ao entender que ali, naquele momento e com imagens geradas para todo o mundo, nenhum outro Drácula (“fajuto ou de araque”) seria alvo dos holofotes a ponto de ofuscar a imagem dele, o “verdadeiro Drácula”, primeiro e único vampiro no pedaço ???

segunda-feira, 23 de junho de 2014

"Decepcionante" - José Nilton Mariano Saraiva

Dez dias após seu início, com jogos quase diariamente, tem sido prá lá de “decepcionante” a Copa do Mundo de Futebol, que ora se realiza no Brasil, sob os auspícios da FIFA.

E os motivos são vários: a) os estádios (ou Arenas) além de “pebas”, não foram concluídos (deverão sê-lo somente em 2038, conforme preconizado por uma tal revista VEJA, vulgarmente conhecida por “ÓIA”); b) o clima de insegurança é “palpável” e notório, e espraia-se por todas as cidades sedes, do Rio Grande do Sul ao Amazonas; c) em razão disso, o fluxo de turistas não foi o esperado (afinal, só os mais corajosos aventurar-se-iam a vir participar de uma festa dessas num país subdesenvolvido e repleto de índios e marginais); d) como reflexo, os comerciantes, que investiram pesado (principalmente da rede hoteleira) já sentem no ar a perspectiva de prejuízos milionários; e) em termos de comunicação, a Internet no Brasil tá uma “merda” só, impossibilitando que os visitantes se comuniquem com familiares, bem como que os jornalistas de todo o mundo não tenham condições de enviar suas matérias às redações; f) o transporte mostra-se ineficiente (tanto o público como o privado), além do que as vias de acesso não oferecem condição de tráfego; g) o caos aéreo é uma dura realidade, já que as empresas que operam o setor  não têm estrutura nem aeronaves suficientes pra atender os que aqui aportaram (mesmo que em número reduzido); h) os aeroportos, funcionando a “meio-pau” são um péssimo cartão postal, envergonhando-nos; i) o povo brasileiro, deseducado por natureza, tem tratado os “gringos”com desdém e menosprezo, desferindo-lhes “patadas” a torto e a direito; j) os jogos até aqui realizados têm tido um público chinfrim, já que esse mesmo povo nunca concordou com a sua realização; k) enfim, paira o sentimento de que, por ser um país subdesenvolvido, o Brasil não atrai nenhuma atenção, mesmo sendo sede de uma competição de tal porte, tanto que os jornais do mundo inteiro não fazem a mínima questão de divulgar (a Copa e o país).

Em resumo, a Copa do Mundo, no Brasil, tem sido “DECEPCIONANTE” sob todos os aspectos que se possa imaginar, só que: para determinados segmentos da mídia nacional (capitaneados pela tal VEJA) que, desde o anúncio da sua realização, diuturnamente optaram por tentar esvaziá-la, a ponto de insuflar a própria mídia internacional, fazendo-a embarcar na canoa furada do caos que seria; tem sido “DECEPCIONANTE” para os profetas do caos, os maus brasileiros, os eternamente do contra, os sectários e radicais de plantão que, por questões político-partidárias (ou simplesmente por serem contra o atual governo), anunciaram em alto e bom som, com estardalhaço, que “não vai haver Copa nem Olimpíada” (para tanto, fizeram o possível e o impossível pra isso).

Pois é, APESAR DELES, a verdade verdadeira é que até aqui não temos apenas uma Copa do Mundo; temos a maior de todas as Copas, a “Copa das Copas”, a nossa Copa (do Brasil), com tudo pronto e funcionando às mil maravilhas (salvo questões pontuais); temos tido embates monumentais dentro das quatro linhas, tanto que o número de gols marcados já é um recorde: e, mais importante, temos a certeza de que os “gringos” literalmente “redescobriram o Brasil”, já que vivamente impressionados com a beleza do nosso país, com a segurança que encontraram em nossas ruas e, principalmente, com a recepção, o carinho e afeto que lhes estão sendo ofertadas pelo povo e governo brasileiro (ontem, na Beira Mar, aqui em Fortaleza, dava pra ver e sentir quão felizes estavam alemães, americanos, ganenses, suecos, mexicanos, portugueses, japoneses e mais uma “ruma de alienígenas”; um espetáculo digno de nos fazer sentir orgulho do Brasil). 

E mais: por paradoxal que possa parecer, a mesma mídia internacional que antes alertava sobre o perigo iminente de se viajar ao Brasil e, principalmente, sobre se tínhamos ou não condição de sediar um evento de tamanha magnitude como a Copa do Mundo, agora não só se penitencia publicamente como é pródiga em derramar fartos elogios sobre a organização e a nossa capacidade em fazê-lo.

Uma prova ??? 
A declaração de um antigo ferrenho crítico, o jornalista britânico Jason Davis: “SE A COPA DO MUNDO FOR ASSIM COMO ESTÁ SENDO NO BRASIL, QUE TODAS AS COPAS DO MUNDO SEJAM NO BRASIL” (ipsis litteris).

É pouco ou querem mais ??? 


sábado, 21 de junho de 2014

Artilheiros - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Futebol é um esporte que parece ter sido inspirado nas guerras de antigamente. Termos como linha de defesa, ataque, artilheiro, matador, penetrar pelos flancos, entre outros, são frequentemente usados pelos entendidos nessa modalidade de jogo. O pior de todos é esse tal de "arena" que arranjaram recentemente para denominar as praças onde se pratica esse esporte e que faz as delicias dos locutores da televisão. 

Para quem acompanha futebol somente em época de Copa do Mundo, artilheiro é a denominação que se dá para o jogador que marca o maior número de gols numa competição.

Todos escutam pela TV e Rádio que o nosso Ronaldo "Fenômeno" é o maior artilheiro de todas as copas com 15 gols. Isto significa que ele assinalou este total de gols em três das quatro copas das quais participou. E ainda acrescentam  que ele poderá ser superado pelo alemão Kloser que até agora já marcou 14 gols. Besteira muita! O maior artilheiro de todas as copas foi aquele que assinalou o maior número de gols numa única copa do mundo. E esta façanha foi conseguida pelo francês Just Fontaine na Copa do Mundo de 1958. Ele é portanto o artilheiro recordista de todas as copas. Suplantou grandes jogadores de sua época como Pelé, Maradona, Platini e Zidane, tendo sido considerado o melhor jogador francês nas comemorações dos cinqüenta anos da UEFA (Union of European Football Associations)

Just Fontaine nasceu no Marrocos em 18 de agosto de 1933. Como na época, o Marrocos era colônia francesa, portanto Fontaine é cidadão francês. Encerrou sua carreira em 1962, por haver fraturado a tíbia e o perônio da perna direita, vivendo desde então do seguro que fez para suas pernas.

Somente Ademir Menezes do Brasil com 8 gols em 1950;  Kocsis da Hungria com 11 gols em 1954; Eusébio de Portugal com 9 gols em 1966; Müller da Alemanha Ocidental com 10 gols em 1970 e Ronaldo, o "Fenômeno" do Brasil em 2002 com 8 gols se aproximaram do recordista Just Fontaine, o maior goleador de uma única Copa do Mundo. E com esses rígidos sistemas de jogo empregados atualmente pelas seleções de cada país, dificilmente a marca do francês em uma única copa será superada.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Eles "USAM" black tie - José Nilton Mariano Saraiva

Ao contrário do comportamento-padrão daqueles que nada têm a temer  ou esconder, mas, sim, sentem orgulho e satisfação em propagandear os feitos da agremiação a que pertencem, nas eleições presidenciais de 2002, 2006 e 2010 a “tucanalhada” (PSDB) fugiu como o diabo foge da cruz de qualquer referencia ou citação à gestão de oito anos (1995-2002) do tucano-mor Fernando Henrique Cardoso.

Como se sentissem vergonha e considerassem aquele nefasto e sombrio período uma espécie de nódoa irremovível na elitista elegância “black tie” tucana, permitir a presença de FHC no palanque nem pensar, porquanto representaria verdadeira afronta, perigosa sinalização de chuvas e trovoadas, adiante. Assim, a ordem foi enfática e contundente: “deletar” o chefe dos palanques de campanha e/ou de qualquer aparição pública. Foi o que aconteceu. E isso tem um nome, desaprovação.

É que, constatado restou, através de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, posteriormente publicizadas, (foram inúmeras) existia uma “quadrilha tucana” instalada no gabinete do então presidente do BNDES (Mendonça de Barros) que obtivera autorização expressa do “chefe-maior” pra usar seu nome (do Presidente da República) em transações prá lá de suspeitas, durante o processo de privatização (doação) do setor telefônico nacional, objetivando beneficiar, via fundos de pensão estatais, nada menos que o maior bandido do Brasil, senhor Daniel Valente Dantas. Foi o que aconteceu. E  isso tem um nome, corrupção.

Uma outra imoralidade que desnudou o mafioso modus operandi tucano de administrar à época FHC e que veio a público, foram as declarações espontâneas dos então deputados federais acreanos Ronivon Santiago e João Maia, confirmando terem recebido (assim como outros três colegas da bancada acreana) R$ 200 mil reais, cada, a fim de votarem pela reeleição de FHC. Foi o que aconteceu. E isso tem um nome, corrupção (um adendo: teriam sido “comprados”, a esse preço, 150 deputados, de diversos estados e siglas, segundo o senador gaúcho Pedro Simon).

Eis que agora, certamente que confiando na memória curta do povo brasileiro, o candidato do PSDB que irá disputar as próximas eleições presidenciais, o playboy Aécio Neves, à falta de um projeto para o país, resolve “fazer justiça” (palavras dele), ressuscitando FHC como se houvesse sido um grande administrador. Não foi o que aconteceu. E isso tem um nome, desonestidade.

O que podemos deduzir, é que ao espelhar-se num homem que deixou a ética de lado e corrompeu Deus e o mundo objetivando ganhos pessoais (nem que naquele momento o país literalmente estivesse afundando, tanto que valeu-se do famigerado FMI em três oportunidades), o senhor Aécio Neves implicitamente compactua e chancela toda a sujeirada e corrupção praticada pelo chefe.

Sinal de que, se algum dia chegar lá (e não será dessa vez), adotará idêntico proceder ???   


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Perigosa "depen(neimar)dência - José Nilton Mariano Saraiva

Ainda no alvorecer da competição, não mais que de repente uma nesga de decepção, desconfiança e pessimismo tomou de conta de boa parte da apaixonada torcida brasileira, depois da extrema dificuldade que a nossa seleção de futebol encontrou para suplantar o “ferrolho” da Croácia e, principalmente, do insosso empate sem gols com os aguerridos mexicanos.

E é fácil detectar que tal estado de espírito deu-se em razão do “óbvio ululante”: a dependência quase que visceral do bom time brasileiro, nesses dois jogos, ao tal Neimar, tido como o principal jogador do nosso selecionado (é que, mesmo jogando em casa, inexplicavelmente outras peças ainda não renderam o que podem).

No duro no duro, parece até que a partir do instante em que a mídia nacional “endeusou” o tal jogador de uma forma até que irresponsável, porquanto o ungindo e colocando-o no panteão de “salvador da pátria”, isso serviu de material de alta combustão para insuflar os torcedores, daí essa expectativa irracional e desmedida de que o tal jogador será capaz de decidir tudo, a toda hora e quando quiser. E, definitivamente, a coisa não funciona assim, como agora estamos a constatar. Até porque, se bem marcado ou mesmo se num dia não muito inspirado, temos que ter um plano B, encontrar alternativas outras que nos permitam avançar.

Assim, antes que a vaca vá pro brejo, o técnico Felipão, macaco velho no trato de questões sobre, ao tempo em que pedia paciência à torcida destacou exatamente isso: que o tal jogador não é um “astro-rei” ao redor do qual orbitam satélites inexpressivos, que o time tem que priorizar o coletivo em detrimento do individual, tem que remeter tal aura de dependência às calendas gregas e, enfim, tem que aprender a se virar nos momentos de dificuldades.

Afinal, temos, sim, outros jogadores que ainda não renderam o esperado, mas que, numa simples mudança de posicionamento durante os treinos ou até depois de uma conversa mais séria com o comando, se conscientizem que estão em débito com a nação e tratem de corresponder o que deles se espera (vide Daniel Alves, Paulinho e Fred, principalmente, jogadores passados na casca do alho, mas que até agora decepcionaram). O recado foi curto e grosso: se não atingirem o desejado, serão sacados (e já na partida seguinte).

No mais, a história está aí por testemunha: evoluindo para a segunda fase nosso time naturalmente encorpará, ganhará a consistência, solidez e confiança necessárias pra deslanchar rumo ao tão sonhado HEXA.

Até porque, queiram ou não os pessimistas de plantão (e/ou os eternamente do contra), a nossa camisa ainda impõe respeito, aqui e alhures e, apesar da exuberância e excelência do futebol que estão a praticar esquadrões como a Alemanha e Holanda, eles ainda tremem quando enfrentam o Brasil.

Portanto, a partir do “jogo da classificação’ (contra a seleção de Camarões) teremos que nos livrar dessa “depen(neimar)dência”, a fim de, no crepúsculo da competição, nos habilitarmos a disputar a finalíssima com as poderosas Alemanha e/ou Holanda (que num certo momento baterão de frente, sobrando uma delas).


Alguém tem dúvida ??? 



Minha mãe gostava de borboletas. Se uma delas entrasse lá em casa, ela nos dizia com voz de mando, quase ameaçadora: cuidado, não se espanta borboletas, elas são abençoadas, dão sorte. Minha mãe gostava de todas, mas especialmente de borboletas de asas quase translúcidas, delicadas, de um amarelo pálido. Talvez achasse que não merecíamos uma borboleta assim, feito esta, aí embaixo, harmoniosamente colorida, bordada com tantos desenhos, envolta em vários tons, ou quem sabe fos...se apenas o medo de não saber lidar com uma sorte tão avassaladora, trazida por uma borboleta tão ricamente vestida. Melhor as simplesinhas que entram aqui muito de vez em quando.
Minha mãe deixou-me por herança o gosto pelas borboletas, especialmente as simplesinhas, igual a esta de um amarelo anêmico, quase morto, que voa (agora) a esmo pela minha sala, num voo desgovernado, como se quisesse (mas) não soubesse sair. Faz tempo que a acompanho, meu olho corre de uma lado para o outro muito rápido; dou com ele no teto, pregado na porta, beirando o chão. Estão cansados, meu olho e a borboleta simplesinha. Pensei em espantá-la, em persegui-la de um canto a outro: venha, pequena, o caminho é por aqui. Mas minha mãe me disse que não se tange a sorte, não se espanta borboletas. Estou numa situação terrível, de pés e mãos atados. Se tanjo essa criatura por demais delicada, posso, num gesto desajeitado, despedaçá-la, aniquilar a sorte que ela me traz, além de desobedecer à severa ordem de minha mãe, que já faz muito tempo eu não vejo, ela não mora mais aqui. Por outro lado, se deixo que essas asas descoradas se encarcerem a si mesmas, que sorte posso eu pretender dessa borboleta simplesinha que vai morrer de tanto
voar?
(rejane gonçalves)
  •  

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A família "HEXA" - José Nilton Mariano Saraiva

Com a busca, por parte da seleção brasileira, do “hexacampeonato” mundial de futebol, pelo menos uma curiosidade veio à tona: é que em Brasília, capital federal, na família “Carvalho da Silva” nada menos que 14 dos seus 24 integrantes são portadores de “polidactilia” (para os que desconhecem, trata-se de uma mutação genética que leva uma pessoa nascer com dedos a mais).

Orgulhoso, o patriarca Francisco de Assis Carvalho da Silva (o “pioneiro” da anomalia) juntou toda a “família 6 dedos” (tanto nas duas mãos como nos dois pés) homens, mulheres e crianças e fez questão de posar para os fotógrafos, ao tempo em que aproveitou a oportunidade para, em tom de gozação, declarar ao jornal O Globo:  "Nós já somos hexa. O Brasil é que precisa correr atrás de nós".


Prometeu, também, levar a “família six” pra prestigiar a seleção brasileira no jogo contra Camarões, na próxima segunda-feira.

domingo, 15 de junho de 2014

A Avidez humana! – Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Desculpem-me o assunto ou a falta dele. Estamos em clima de Copa do Mundo e o tema não poderia ser outro. Sei que muitos dos leitores não gostam de futebol. Mas o que eu pretendo repartir com os amigos é o desejo insaciável que ser humano tem por lucros, vitórias e glória. Para isso, ignora-se os sentimentos de afetividade que nutre e engrandece as relações de amor. Chega-se ao extremo de escravizar o homem, se possível for. Que tem o futebol a ver com tudo isso?

Apesar das relações de trabalho de um jogador de futebol profissional terem evoluído para melhor nos últimos vinte anos, houve época em que o atleta era um verdadeiro escravo. Preso definitivamente ao clube, não lhe era facultado o direito de livre transferência ou escolha da equipe em que gostaria de jogar. Submetia-se a dias seguidos de confinamento, sem contatos com a família e o mundo exterior, numa ociosidade a que ainda hoje os dirigentes de futebol teimam denominar de concentração.

Em 1946, Ávila era um esforçado jogador de meio de campo do Botafogo, uma das quatro grandes equipes de futebol do Rio de Janeiro. Não chegou a integrar a seleção brasileira, mas era muito importante para o esquema de jogo do seu time. Era um desses jogadores que desarmam os ataques da equipe adversária e ajudam a empurrar o seu time para frente. Geralmente esse tipo de jogador passa despercebido aos olhos da torcida.

O time de Ávila estava concentrado desde a noite da segunda-feira anterior à partida do domingo seguinte, num casarão da zona sul da cidade do Rio de Janeiro. Preparava-se para um jogo decisivo do campeonato. A mulher de Ávila fora hospitalizada naquele mesmo dia, com uma estranha doença. Mas os dirigentes do clube não consideraram esse fato como um motivo justo para dispensá-lo da concentração. Não podiam prescindir daquele jogador na equipe.

A rotina na concentração era de treinos à tarde e o restante do dia na mais completa ociosidade. Naquele confinamento desumano, a nenhum atleta era dado o direito de sair à rua, visitar a família, ou pelo menos usar o telefone para um contato, saber como passavam os familiares. Era uma clausura absoluta!

No domingo pela manhã, dia do jogo decisivo, uma freira que trabalhava no hospital onde estava internada a mulher de Ávila, telefonou para a concentração procurando falar com o jogador. Disseram-lhe que ele não podia atender.
- “Por favor, digam a ele que o estado de saúde de sua esposa se agravou e ela pede desesperadamente para falar com ele.” - Insistia a irmãzinha reforçando a urgência da presença do jogador.

Os dirigentes da equipe acharam por bem nada comunicar ao seu atleta para que nenhuma preocupação viesse prejudicar seu rendimento no jogo. Afinal, iriam enfrentar o Vasco da Gama, um dos mais fortes rivais.

Na tarde daquele ensolarado domingo, Ávila se esforçou como sempre era seu costume, contribuindo para vitória do seu time, que se sagrou campeão.

Somente quando a partida terminou, entre tapinhas nas costas, os dirigentes comunicaram a Ávila para ir ao hospital com urgência, pois o estado de saúde da sua mulher havia se agravado. Ele imediatamente enxugou o suor do corpo com uma toalha, trocou de roupa, sem ao menos tomar banho e foi de taxi, o mais depressa quanto possível, ao hospital. Lá chegando, recebeu uma reprimenda da irmãzinha:
- “O senhor não tem coração? Telefonei várias vezes desde a manhã de hoje. Sua mulher passou o tempo todo querendo lhe falar e somente agora o senhor chega aqui?”
 - “Mas eu vim assim que me disseram. Estava no jogo e tão logo este terminou, vim o mais rápido possível.” - Disse-lhe Ávila preocupado.
- “Agora é tarde! Sua mulher faleceu às três horas da tarde.” -  Respondeu a freira.

Ao saber dessa notícia, Ávila desmaiou, voltando a si, alguns minutos depois. O desespero tomou conta dele. Voltou ao casarão da concentração e não encontrou mais ninguém do clube, somente o caseiro e sua mulher. Então, munido de uma barra de ferro, destruiu tudo que havia pela sua frente, mesas, cadeiras, camas, armários, não sobrando nem portas e janelas.

No dia seguinte, durante o enterro, diante dos companheiros do Botafogo e dirigentes do clube, Ávila desabafava, acariciando o rosto frio da sua amada:
- “Não me deixaram te dar um último beijo, mas você está vingada!”


(Adaptado de "Os subterrâneos do futebol" de João Saldanha, Editora José Olympio, Rio de Janeiro, 1980)

Por Carlos Eduardo Esmeraldo  
 

sábado, 14 de junho de 2014

"Burrice Siderúrgica" - José Nilton Mariano Saraiva

Um evento portentoso e de dimensões planetárias, como o é uma Copa do Mundo, não é apenas e tão somente um mero torneio de futebol. Trata-se, em verdade, de uma rara oportunidade do país-sede, seu povo e sua cultura serem divulgados pela mídia, planeta afora. E para um país de dimensões continentais, bonito por natureza, com uma fauna e flora exuberantes, costumes multifacetados e com integrantes de diversas etnias, como o nosso Brasil (e que ainda figura hoje com destaque entre os “emergentes” do mundo em termos de importância estratégica), nada mais apropriado que aproveitar a ocasião para convincentemente vender-se como um lugar receptivo e aprazível.

Afinal, a chamada “indústria sem chaminés” – o turismo – é na atualidade uma geradora de divisas em potencial, contribuindo para consistentemente alavancar o país que tiver competência para usá-la com sabedoria e discernimento (vide países como a França, Itália, Japão, China e por aí vai ).

Pois bem, o nosso povo, o povo humilde das ruas, compreendeu de pronto o significado desse momento histórico e, conscientemente, fez o seu papel, tratando os visitantes internacionais com carinho, desvelo, atenção e amabilidade. E como estamos numa “aldeia global”, o reflexo de tal recepção foi imediato: jornais e TVs de todo o mundo divulgaram opiniões dos visitantes, todos extasiados e a trombetear o nosso país, porquanto “bonito, grande, de boa comida, com mulheres lindas e, principalmente, um povo extremamente receptivo e cordato”. 

Mas, aí, a “burrice siderúrgica” pintou no pedaço. E no apogeu da festa. É que uma minoria de “iluminados” desprovidos de um mínimo de educação, civilidade e espírito democrático, acomodados na área VIP do estádio onde o Brasil faria sua estréia (vizinho à tribuna de honra, onde  ficam as autoridades convidadas) resolveu “saudar” ninguém menos que a nossa Presidenta da República, com o raivoso refrão: “Ei, Dilma, vá tomar no cu” (é vero, senhora, acreditem) mesmo conscientes, e até por isso mesmo, que a solenidade estava sendo transmitida para bilhões de pessoas, mundo afora. Algo inadmissível e difícil de acreditar, principalmente por tratar-se da nossa mandatária maior, eleita democraticamente pela maioria da população brasileira.

Ora, amigos, se não gostam da Presidenta, se por questões ideológicas lhe são oponentes, se discordam do modo como ela governa ou do partido a que é filiada, quer queiram ou não têm de admitir que ela ali estava representando o nosso país, cacifada pelo aval de milhões de patrícios (além do que, no mínimo a “instituição” Presidência da República merecia respeito).

Fato é que a “coisa” foi tão imoral e despropositada que mesmo alguns adversários políticos e parte da mídia que lhe faz uma crítica sistemática e diuturna se manifestaram contrários, reprovando o ocorrido.

Exceção para o senhor Aécio Neves, futuro rival na próxima eleição presidencial que, mostrando um caráter duvidoso, tentou tirar proveito da situação ao declarar que “a presidente está sitiada”.

Logo, Aécio Neves, cuja “folha corrida” não o credencia a tais tipos de arroubos (governador/senador de Minas Gerais vive “farreando” no Rio de Janeiro, onde já foi flagrado dirigindo embriagado e na companhia de prostitutas, e se negou, por motivos óbvios, a usar o bafômetro).

É esse o homem que os que xingaram Dilma Rousseff, querem pra ser Presidente da República ???

Colaboração de Eurípedes Reis

s

Anexo
                               
Não quero um grande amor.
Não me interessam mais os amores clichês das comédias românticas americanas.
Ou as grandes declarações com plateias e aplausos.
Ou o ‘na saúde e na doença’ para amigos e familiares.
Quero a simplicidade e a rotina da intimidade.
Me interessa sua companhia em silêncio às 18h no engarrafamento da Avenida Beira Mar ou Avenida Paulista.
Me interessa sua mão segurando a minha em conversas trocadas em uma roda de amigos.
Me interessa conversar sobre Woody Allen e você sempre me ensinar uma coisa nova.
Me interessa ter você em olhares trocados enquanto o jantar não chega.
Me interessa você fazer o gordo sozinho, comer milhares de calorias, e lembrar de mim.
Me interessa a cama amarrotada e os seriados compartilhados no PC, enquanto trocamos carícias.
Me interessa não te ter 24h ao meu lado e saber que te tenho assim mesmo.
Me interessa não ter contrato firmado em cartório ou rótulos.
Me interessa a intimidade que nós temos.
Intimidade em se ter sem sermos donos um do outro.
Intimidade em deixar ser livre.
Intimidade em se gostar sem paranoias.
Intimidade em ver defeitos e não apontar.
Intimidade maturidade.
Intimidade em sorrir sem precisar escancarar os dentes.
Intimidade em saber que o dia dos namorados para quem se gosta é todo dia.
Intimidade em compartilhar sonhos.
Intimidade em ser companhia.
Intimidade em não ser perfeição.
Intimidade em dividir saudade.
Intimidade em não ser conto de fadas.
Intimidade em compartilhar delicadezas.
Intimidade em saber o valor da poesia.
 
“O que acho que está em falta não é homem nem mulher, é intimidade. É uma coisa que tu cria e realmente tem que ter uma dedicação. Tem que estar aberto, disponível, com tempo, e isso acho que as pessoas não têm mais. Está todo mundo querendo solução mágica. Daí, fica todo mundo sozinho.” – (Martha Medeiros)
 
E assim como disse Martha Medeiros, não me interessa o sexo de uma noite só. Não me interessam os grandes romances. Não me interessa Shakespeare. Não me interessa a perfeição. Não me interessa o impossível. Não me interessa uma trilha sonora perfeita. Não me interessa uma foto bonita tratada no photoshop.

Me interessa sua cara amassada e o cabelo desgrenhado.
Me interessa escovar os dentes ao seu lado, dividindo a mesma pia.
Me interessa o romantismo dos pequenos detalhes no dia a dia.
Me interessa você carregar o refrigerante para mim, sabendo o quão desastrado sou.
Me interessa o tempo e a dedicação.
Me interessa o antes e o depois do pôr do sol.
Me interessa saber o ponto certo do seu prazer e você saber o meu.
Me interessa a reação química que as nossas peles produzem quando se tocam.
Me interessa o interesse que você tem em mim.
Me interessa a contramão.
Me interessa a poesia.
Me interessa a simplicidade romântica que não precisa ser semântica ou entendida.
Me interessa a rotina compartilhada.
Me interessa a intimidade.
(Texto de Mauricio Pascoal)