por José do Vale Pinheiro Feitosa
Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.
José do Vale P Feitosa
domingo, 13 de julho de 2014
MEU ECUMENISMO - por José Almino Pinheiro
Minhas
noções de ecumenismo começaram bem antes de ter ouvido falar nessa palavra e
muito menos saber o que significava. Lá em casa, quando eu era acometido por
alguma doença, um parente médico era chamado. Logo após a saída do médico, atendendo
ao chamado de umas das funcionárias da casa, chegava a Comadre Chiquinha com
seus galhos de pinhão roxo e água de arruda, e com muita reza realizava os
trabalhos de afastamento e cura, que infalivelmente expulsava todos os
malefícios, feitiços e maus olhados, que com toda certeza tinha sido vítima.
Tratamento válido para todos os menores da casa, já para os adultos o trabalho
era feito à revelia, longe das vistas deles.
Tudo isso sob o olhar tolerante de minha mãe e tias, católicas
praticantes que, por não serem fundamentalistas, respeitavam as crenças dos
outros. Afinal, na família tinha de não crentes a crentes de vários credos,
todos aceitos sem censuras, além de que, por via das dúvidas era melhor não
arriscar com as forças ocultas.
Já adolescente,
por várias vezes na companhia da “tia” responsável pelo afastamento dos maus
olhados, visitava um Terreiro de Umbanda que existia no Alto do Seminário, no
Crato. Não acreditava muito naquilo tudo. Achava muito confuso, muitos deuses,
santos e orixás juntos, sincretismo complicado. Preferia acreditar nos
evangelhos. Mas, confesso que gostava do ritual do terreiro, música, dança, muita
cachaça, nenhum ensaio, cada um se manifestando como queria, espíritos
“baixando” para dar algumas ordens, pedir coisas e adivinhar
passado e até mesmo o futuro, como por exemplo que “breve iria chover ou que breve
algum figurão morreria”.
Fomos
alfabetizados no Instituto São Vicente Ferrer, escola pertencente à Paróquia do
mesmo santo. O pároco, padre Frederico Nierhoff, estava
alguns anos à frente do fundamentalismo religioso de muitos cratenses,
que entre outras coisas discriminavam as famílias protestantes que começavam a
se estabelecer na região. Com a maioria das escolas primárias particulares ligadas
à igreja católica e dirigidas por religiosas quase beatas, ficava quase
impossível matricular filhos dessas famílias. Mas, para o padre Frederico, matricular
filhos de famílias protestante era um ato, talvez de caridade, não era pecado
nem impedimento religioso.
Nos
anos 70 do século passado, em Praga, saindo da faculdade depois de uma prova
considerada difícil, rumo à estação do metro e passando em frente à Igreja
Ortodoxa dedicada aos Santos Cirilo e Metódio, um colega do Iraque me chamou
para entrar e orar para agradecer a Deus. Ponderei, já subindo os degraus, que
talvez fosse falta de respeito já que eu era católico e ele muçulmano, ao que
ele me respondeu: mas o Deus é o mesmo. sexta-feira, 11 de julho de 2014
O Mímico - Por Carlos Eduardo Esmeraldo
Participávamos eu e Magali de uma Reunião Festiva do Rotary Clube de Mauriti, por ocasião da visita do Governador do Rotary do Distrito 4490, o saudoso companheiro Agerson Tabosa, em setembro de 1984. Ao final da reunião, foram apresentados aos convidados diversos números artísticos de jovens da comunidade local. O que mais nos marcou foi a apresentação de um jovem mímico. O número por ele apresentado representava um faxineiro limpando uma fictícia parede de vidro, com uma perfeição tão grande, que parecia real.
Após a apresentação, o presidente do Rotary Clube de Mauriti apresentou aquele jovem artista ao Professor Agerson Tabosa, solicitando que o Rotary interferisse para conseguir uma Bolsa de Estudos na França para que aquele jovem artista tivesse um aperfeiçoamento. E o governador simplesmente respondeu que ele me procurasse na Coelce, em Juazeiro. A principio, pensei que fosse me dar algumas instruções sobre o andamento daquele merecido pleito. Mas ele voltou para Fortaleza sem nada me orientar.
Dois ou três dias depois, quatro jovens de Mauriti me procuraram na Coelce. Um deles era o mímico. Tentei um contato telefônico com o companheiro Agerson, sem obter êxito. Então dei a eles o telefone do Governador do Rotary e que o procurassem em Fortaleza. A coisa ficou mais difícil, pois eles desejavam ir os quatro para Fortaleza, não tinham a passagem e nem dinheiro para tal viagem. Alguém sugeriu uma apresentação dele em Juazeiro, mas eu não sabia como fazer isso. Então me lembrei de Divani Cabral, contei toda essa história a ela e pedi que os recebesse, pois eles gostariam de fazer uma apresentação no Crato. Para minha surpresa, na volta para casa na noite daquele mesmo dia, ao passar pelo Teatro Rachel de Queiroz vi uma movimentação de pessoas e alguns cartazes anunciando o espetáculo. Se não me engano houve duas ou três apresentações que infelizmente não pude assistir por conta do meu trabalho à noite.
Em janeiro de 1990, fui transferido para Fortaleza. Aqui, pela televisão víamos os anúncios dos espetáculos de humor com novos artistas que surgiam àquela época: Meirinha, Rossicléa; Adamastor Pitaco, Falcão, Lailtinho Brega e um certo Zé Modesto, que eu imaginava ser aquele mímico de Mauriti. Mas somente, quando ele fez parte da "Escolinha do Professor Raimundo" é que fiquei sabendo que o personagem "Zé Modesto" era uma criação de João Neto, o mímico, para quem eu não pude dar uma ajuda mais substancial. Jamais soube se ele conseguiu a bolsa de estudo que sonhava. Mas em todo caso foi mais um cearense vitorioso.
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
Após a apresentação, o presidente do Rotary Clube de Mauriti apresentou aquele jovem artista ao Professor Agerson Tabosa, solicitando que o Rotary interferisse para conseguir uma Bolsa de Estudos na França para que aquele jovem artista tivesse um aperfeiçoamento. E o governador simplesmente respondeu que ele me procurasse na Coelce, em Juazeiro. A principio, pensei que fosse me dar algumas instruções sobre o andamento daquele merecido pleito. Mas ele voltou para Fortaleza sem nada me orientar.
Dois ou três dias depois, quatro jovens de Mauriti me procuraram na Coelce. Um deles era o mímico. Tentei um contato telefônico com o companheiro Agerson, sem obter êxito. Então dei a eles o telefone do Governador do Rotary e que o procurassem em Fortaleza. A coisa ficou mais difícil, pois eles desejavam ir os quatro para Fortaleza, não tinham a passagem e nem dinheiro para tal viagem. Alguém sugeriu uma apresentação dele em Juazeiro, mas eu não sabia como fazer isso. Então me lembrei de Divani Cabral, contei toda essa história a ela e pedi que os recebesse, pois eles gostariam de fazer uma apresentação no Crato. Para minha surpresa, na volta para casa na noite daquele mesmo dia, ao passar pelo Teatro Rachel de Queiroz vi uma movimentação de pessoas e alguns cartazes anunciando o espetáculo. Se não me engano houve duas ou três apresentações que infelizmente não pude assistir por conta do meu trabalho à noite.
Em janeiro de 1990, fui transferido para Fortaleza. Aqui, pela televisão víamos os anúncios dos espetáculos de humor com novos artistas que surgiam àquela época: Meirinha, Rossicléa; Adamastor Pitaco, Falcão, Lailtinho Brega e um certo Zé Modesto, que eu imaginava ser aquele mímico de Mauriti. Mas somente, quando ele fez parte da "Escolinha do Professor Raimundo" é que fiquei sabendo que o personagem "Zé Modesto" era uma criação de João Neto, o mímico, para quem eu não pude dar uma ajuda mais substancial. Jamais soube se ele conseguiu a bolsa de estudo que sonhava. Mas em todo caso foi mais um cearense vitorioso.
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Perder, Ganhar, Viver- Carlos Drumond de Andrade
(Após desclassificação da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982)
Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.
E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?
Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabeças, o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se. Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.
E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?
Não vamos À FINAL - José Nilton Mariano Saraiva
UMA SÓ PALAVRA DEFINE A RIDÍCULA ATUAÇÃO DO
BRASIL, ONTEM:
V E R G O N H A
V E R G O N H A
V E R G O N H A
V E R G O N H A
V E R G O N H A
V E R G O N H A
V E R G O N H A
terça-feira, 8 de julho de 2014
A Força dos Meios de Comunicação - Por Carlos Eduardo Esmeraldo
No inicio do ano de 1965, um comentarista esportivo de uma emissora de rádio de Salvador, conhecido por Cléo Meireles, torcedor fanático do Bahia e por isso mesmo critico feroz do rival Vitória, foi violentamente surrado, segundo "diz que me diz", por ordem de dirigentes do Vitória. O fato gerou uma crise no futebol baiano, com a proibição de jogos de clubes locais pela Conselho Nacional de Desportes até a apuração dos fatos. Entretanto os clubes baianos estavam autorizados a realizarem partidas amistosas. Mas houve uma unânime omissão de toda crônica esportiva, que nada noticiava sobre os amistosos que os clubes baianos realizavam, nem mesmo sobre o campeonato estadual, quando esse foi reiniciado.
A atitude tomada pela crônica esportiva gerou um esvaziamento das arquibancadas. Mas colocava em risco o emprego de muitos que dependiam do futebol para continuarem no rádio e jornal. Não tardou que uma saída honrosa fosse encontrada. Promoção semanal de jogos com equipes do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, todas às quintas-feiras, seguida de um bingo, cujo premio era um automóvel fusca zero km.
Naquela época, eu cursava o 2° ano do Curso Científico no Colégio Central da Bahia, distante do Estádio da Fonte Nova pouco mais de um quilômetro e meio, quando muito. Morava com uma tia, que comprava os cartões dos bingos e pedia que eu fosse marcar. Graças a isso, mesmo tendo que marcar o bingo após as partidas até duas horas da madrugada, pude assistir a jogos do Santos, São Paulo, Vasco da Gama, Flamengo, Botafogo, Fluminense, Cruzeiro, Palmeiras, Grêmio, Portuguesa de Desportos, enfim, somente times de ponta. Oportunidade que tive de ver jogar os consagrados campeões Pelé, Belinni, Mauro, Tostão, Piazza, Raul, Jairzinho, Gerson, e tantos outros craques. O jogo que mais me impressionou foi a partida Santos X Cruzeiro. Havia chovido e o campo estava muito molhado. Dava gosto ver a tabelinha de Pelé e Coutinho, sempre municiados pelo jogador de meio campo Mengálvio, alto, magro e muito elegante. O restante dos jogadores dos Santos estavam com as camisas todas encharcadas de lama. Somente Mengálvio estava impecavelmente limpo.
A promoção executada pelos profissionais da imprensa esportiva quase falia os clubes baiano. Mas foi um grande exemplo como os meios de comunicação usam a enorme força de que são possuidores, força essa que pode ser construtiva, mas muitas vezes destrutiva. A Rede Globo sabe bem como usar essa força, eleger quem ela quer e derrubar num golpe qualquer presidente. O exemplo de Fernando Collor de Melo jamais deverá ser esquecido.
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
A atitude tomada pela crônica esportiva gerou um esvaziamento das arquibancadas. Mas colocava em risco o emprego de muitos que dependiam do futebol para continuarem no rádio e jornal. Não tardou que uma saída honrosa fosse encontrada. Promoção semanal de jogos com equipes do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre, todas às quintas-feiras, seguida de um bingo, cujo premio era um automóvel fusca zero km.
Naquela época, eu cursava o 2° ano do Curso Científico no Colégio Central da Bahia, distante do Estádio da Fonte Nova pouco mais de um quilômetro e meio, quando muito. Morava com uma tia, que comprava os cartões dos bingos e pedia que eu fosse marcar. Graças a isso, mesmo tendo que marcar o bingo após as partidas até duas horas da madrugada, pude assistir a jogos do Santos, São Paulo, Vasco da Gama, Flamengo, Botafogo, Fluminense, Cruzeiro, Palmeiras, Grêmio, Portuguesa de Desportos, enfim, somente times de ponta. Oportunidade que tive de ver jogar os consagrados campeões Pelé, Belinni, Mauro, Tostão, Piazza, Raul, Jairzinho, Gerson, e tantos outros craques. O jogo que mais me impressionou foi a partida Santos X Cruzeiro. Havia chovido e o campo estava muito molhado. Dava gosto ver a tabelinha de Pelé e Coutinho, sempre municiados pelo jogador de meio campo Mengálvio, alto, magro e muito elegante. O restante dos jogadores dos Santos estavam com as camisas todas encharcadas de lama. Somente Mengálvio estava impecavelmente limpo.
A promoção executada pelos profissionais da imprensa esportiva quase falia os clubes baiano. Mas foi um grande exemplo como os meios de comunicação usam a enorme força de que são possuidores, força essa que pode ser construtiva, mas muitas vezes destrutiva. A Rede Globo sabe bem como usar essa força, eleger quem ela quer e derrubar num golpe qualquer presidente. O exemplo de Fernando Collor de Melo jamais deverá ser esquecido.
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
segunda-feira, 7 de julho de 2014
Vamos à "FINAL", sim !!! - José Nilton Mariano Saraiva
Contestar que a
Alemanha tem um time forte, duro de bater e bem treinado, quem há de ??? Negar a
excelência de alguns dos seus craques, como ??? Inadmitir que em termos de estratégia-planejamento
extra-campo eles são exemplo, pra que ???
Entretanto, a
perspectiva de bater de frente com o Brasil no meio do caminho, nessa fase - não
prevista no pragmatismo alemão objetivando disputar a final da Copa do Mundo - acabou
por acontecer. E, em acontecendo, acabou por abalar seus fundamentos, balançar
com a sua estrutura (inclusive e principalmente psíquica).
Assim, os alemães terão
que obliterar tal pretensão, porquanto se defrontarão (antes da final) com uma
seleção que lhes provoca calafrios e temores. Tanto que, em 21 confrontos (aqui ou lá fora, inclusive em Copa do Mundo) vencemos 12, empatamos 05 e deixamos de ganhar apenas 04. Portanto, o favoritismo é nosso, sim senhor. Para
eles, reservado se acha o terceiro lugar no pódio.
O fato do tal Neimar
não jogar, que os pessimistas de plantão tentam transformar numa monumental tragédia,
verdadeiro fim de mundo, ao contrário, só nos beneficia e favorece. É que o
time, agora não dependente (ou não centralizando todas as jogadas) numa só
peça, tenderá a render mais em termos coletivos. E, historicamente, em qualquer
ramo de atividade quando a individualidade é olvidada o conjunto tende à superação,
ao crescimento.
No mais, como já
expressamos numa postagem anterior, um evento milionário e do porte de uma Copa
do Mundo de Futebol tem, nos bastidores, interesses inconfessáveis. E é, pois,
digno de registro, o depoimento e a atitude extremamente corajosa do chefe da Departamento
Médico da seleção, Doutor Runco, ao garantir, em horário nobre, ao vivo a a
cores, num dos programas da emissora global, que o tal Neimar não tem a mínima
condição de jogar as partidas restantes e, definitivamente, não será escalado,
tá fora.
A importância de tal registro
é vital, porquanto a própria mídia já começa a ventilar com insistência tal
possibilidade, numa “forçação de barra” sem precedentes, evidentemente que “dirigida
e pautada” pelos patrocinadores (por motivos óbvios); além do que, inflado pelo
“disse-me-disse”, pela possibilidade de transformar-se numa espécie de “salvador-da-pátria”,
o próprio jogador já manifestou sua intenção de entrar em campo, sim, de qualquer
maneira (mesmo que de muletas e empacotado em coletes ortopédicos). Não
escalaram o Ronaldo-Gordo, por imposição do patrocinador, na final da Copa de
1998, sem a mínima condição de jogo ???
Particularmente, desacreditamos
que, em passando pela Alemanha (como o faremos) Felipão e sua comissão técnica se
vergarão à pressão descomunal da torcida e ao rolo compressor de uma mídia desonesta
e hipócrita (inclusive internacional) escalando o tal Neimar. E por uma razão objetiva:
seria aético e uma “desmoralização pública” e sem precedentes dos integrantes
do Departamento Médico da seleção, chefiado pelo Dr. Runco. E o perfil do comandante-técnico
da seleção não nos encaminha nessa direção.
Alfim, uma pertinente indagação:
será que o uso do uniforme “genérico-prostituto-rubro-negro-alemão” (igual ao
do Flamengo) de alguma forma atiçará a fome de gols do “carente” atacante
Fred, useiro e vezeiro em balançar as redes de tal time, nos jogos do Fluminense
???
Quem sabe... Torçamos para
que sim.
domingo, 6 de julho de 2014
Será armação? - Por Carlos Eduardo Esmeraldo
Primeiramente
houve o tal "Não vai ter copa", campanha de cunho aparentemente fascista, promovida
sabe-se lá por quem. Iniciada a Copa, ela somente tem recebido elogios,
segundo a própria imprensa nacional e internacional. Até o Secretário
Geral da Fifa, Jerôme Volcke, aquele que reclamava dos atrasos nas obras
prometendo chute no traseiro dos brasileiros, declarou ser essa "a
melhor Copa de todos os tempos".
Com a bola rolando, tenho cá minhas suspeitas, que espero sejam infundadas. A violenta contusão sofrida pelo atleta Neymar, nada mais foi que outra campanha articulada por aqueles cuja miopia política, fazem-no acreditar que a conquista dessa Copa influenciará nas eleições do corrente ano. E principalmente suspeito dos interesses publicitários das empresas patrocinadores do evento.
Desde o inicio da Copa, tenho assistido pela televisão a todos os jogos. E sinceramente não vi nenhuma falta violenta cometida contra os jogadores de outras seleções, como os extraordinários Robben da Holanda e Lionel Messi da Argentina, para citar apenas dois exemplos de jogadores fora de série como Neymar. Pois se observarem as reprises dos lances de jogos anteriores, verificarão que os melhores jogadores da Holanda, Alemanha, França e Argentina, entre outros, não tiveram sobre eles nenhuma falta desleal, como as que foram cometidas contra Neymar, desde as partidas contra a Croácia, México, Camarões, Chile e Colômbia. Observei pelas repetições, que houve um lance no qual um jogador chileno cometeu uma falta quase idêntica àquela do colombiano, só que o chileno foi mais incompetente, atingiu somente a coxa do jogador, enquanto o colombiano seguiu à risca as supostas instruções recebidas sem nenhuma preocupação de deixar o outro sem condições de algum dia voltar a praticar futebol. Nesse aspecto, a mordida do jogador uruguaio no italiano foi menos danosa, pois não causou nenhuma lesão.
Acredito firmemente que o resultado dessa Copa, qualquer que seja ele, não influenciará na eleição de quem quer que seja. Em 1950, numa Copa do Mundo também realizada no Brasil, quando a seleção brasileira foi derrotada na partida final pelo Uruguai, não houve nenhuma influência no resultados das eleições daquele ano.
Deus permita que minhas suposições sejam falsas. Mas até a atuação dos juízes se voltam contra o Brasil. Gostaria que alguém me convencesse do contrário.
Esperamos que todos os brasileiros unidos, formem uma corrente positiva e possamos comemorar mais um título. Um grande abraço!
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
Com a bola rolando, tenho cá minhas suspeitas, que espero sejam infundadas. A violenta contusão sofrida pelo atleta Neymar, nada mais foi que outra campanha articulada por aqueles cuja miopia política, fazem-no acreditar que a conquista dessa Copa influenciará nas eleições do corrente ano. E principalmente suspeito dos interesses publicitários das empresas patrocinadores do evento.
Desde o inicio da Copa, tenho assistido pela televisão a todos os jogos. E sinceramente não vi nenhuma falta violenta cometida contra os jogadores de outras seleções, como os extraordinários Robben da Holanda e Lionel Messi da Argentina, para citar apenas dois exemplos de jogadores fora de série como Neymar. Pois se observarem as reprises dos lances de jogos anteriores, verificarão que os melhores jogadores da Holanda, Alemanha, França e Argentina, entre outros, não tiveram sobre eles nenhuma falta desleal, como as que foram cometidas contra Neymar, desde as partidas contra a Croácia, México, Camarões, Chile e Colômbia. Observei pelas repetições, que houve um lance no qual um jogador chileno cometeu uma falta quase idêntica àquela do colombiano, só que o chileno foi mais incompetente, atingiu somente a coxa do jogador, enquanto o colombiano seguiu à risca as supostas instruções recebidas sem nenhuma preocupação de deixar o outro sem condições de algum dia voltar a praticar futebol. Nesse aspecto, a mordida do jogador uruguaio no italiano foi menos danosa, pois não causou nenhuma lesão.
Acredito firmemente que o resultado dessa Copa, qualquer que seja ele, não influenciará na eleição de quem quer que seja. Em 1950, numa Copa do Mundo também realizada no Brasil, quando a seleção brasileira foi derrotada na partida final pelo Uruguai, não houve nenhuma influência no resultados das eleições daquele ano.
Deus permita que minhas suposições sejam falsas. Mas até a atuação dos juízes se voltam contra o Brasil. Gostaria que alguém me convencesse do contrário.
Esperamos que todos os brasileiros unidos, formem uma corrente positiva e possamos comemorar mais um título. Um grande abraço!
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
sábado, 5 de julho de 2014
"NO" BRASIL e "DO" BRASIL - José Nilton Mariano Saraiva
A rigor, nas duas
últimas partidas (contra Chile e Colômbia), embora com 11 jogadores em campo o
time do Brasil jogou com 10, tal a omissão do jogador Neimar (que, aliás, já
houvera atuado apenas razoavelmente nos três jogos anteriores). É que, segundo
a filosofia reinante no meio futebolístico, mesmo não jogando nada, aquele que
é considerado o “craque” do time não pode ser sacado, na perspectiva de que num
átimo de segundo decida o jogo (ou não é isso que o Messi vem fazendo na
Argentina, na atual Copa ???). Assim, centralizando todas as manobras do time
em um só jogador, temos que torcer para que ele não “amarele” (o que aconteceu).
E foi pensando nisso, que
já havíamos aludido, aqui mesmo, que a perigosa “depen(neimar)dência” da nossa
seleção poderia causar-nos preocupações futuras, como agora, quando o jogador,
lesionado, não poderá entrar em campo para a semifinal contra a poderosa
seleção alemã.
Mas, como há males que
vêm pra o bem, paradoxalmente o time do Brasil vai realizar contra a Alemanha
uma de suas melhores partidas (até agora não o fez), classificando-se para a
partida final. E por razões simplórias: a) porque agora o time não atuará em
função apenas e tão somente de um só jogador, em detrimento do conjunto (que, assim,
será privilegiado); b) porque o “espírito de superação” se fará presente, com
todos se doando ao máximo pelo objetivo comum; c) porque temos um técnico com
ascendência sobre os atletas e capaz de motivá-los ao máximo; e d) porque,
mesmo quando no auge da sua forma, os jogadores alemães “tremem” quando têm o
Brasil pela frente. Definitivamente, como dois mais dois são quatro.
Há que se atentar,
entretanto, que existem interesses inconfessos por trás de um evento portentoso
e de cifras milionárias, como o é uma Copa do Mundo de Futebol. Assim, o perigo
é: 1) que o(s) “patrocinador(es)” da seleção (e até o do atleta) exija(m) sua
presença em campo na partida final, mesmo que de muletas, isso, claro, após
passarmos sem ele pelos alemães (exemplo emblemático de tal situação foi a final
da Copa da França, em 1998, quando o Brasil jogou todo o tempo com 10 atletas,
tendo em vista que o tal Ronaldo-Gordo, após um ataque epiléptico momentos
antes do jogo, sem a mínima condição de atuar foi irresponsavelmente escalado
pelo patrocinador, com o aval do comando da CBF. Tanto que o jogador Edmundo,
cujo nome já constava da súmula, foi “deletado”. Deu no que deu: França 3 x 0
Brasil, fácil fácil); 2) assim, por mais esdrúxulo e imoral que possa parecer,
não nos surpreendamos se um outro laudo médico for emitido nos próximos dias
atestando que a lesão não foi tão grave quanto anunciada anteriormente e que,
em razão de se tratar de um atleta jovem, livre de vícios e blábláblá, estará
habilitado a participar da partida final (mesmo que “entupido” de analgésicos e
“empacotado” por diversos coletes ortopédicos); e é aí que mora o perigo. Urge,
pois, não olvidar o passado.
No mais, como a Copa é “NO
BRASIL”, vai ser “DO BRASIL”. Com ou sem choro, ninguém nos tira.
O resto... é perfumaria
barata, de quinta categoria.
"NO" BRASIL e "DO" BRASIL - José Nilton Mariano Saraiva
A rigor, nas duas
últimas partidas (contra Chile e Colômbia), embora com 11 jogadores em campo o
time do Brasil jogou com 10, tal a omissão do jogador Neimar (que, aliás, já
houvera atuado apenas razoavelmente nos três jogos anteriores). É que, segundo
a filosofia reinante no meio futebolístico, mesmo não jogando nada, aquele que
é considerado o “craque” do time não pode ser sacado, na perspectiva de que num
átimo de segundo decida o jogo (ou não é isso que o Messi vem fazendo na
Argentina, na atual Copa ???). Assim, centralizando todas as manobras do time
em um só jogador, temos que torcer para que ele não “amarele” (o que aconteceu).
E foi pensando nisso, que
já havíamos aludido, aqui mesmo, que a perigosa “depen(neimar)dência” da nossa
seleção poderia causar-nos preocupações futuras, como agora, quando o jogador,
lesionado, não poderá entrar em campo para a semifinal contra a poderosa
seleção alemã.
Mas, como há males que
vêm pra o bem, paradoxalmente o time do Brasil vai realizar contra a Alemanha
uma de suas melhores partidas (até agora não o fez), classificando-se para a
partida final. E por razões simplórias: a) porque agora o time não atuará em
função apenas e tão somente de um só jogador, em detrimento do conjunto (que, assim,
será privilegiado); b) porque o “espírito de superação” se fará presente, com
todos se doando ao máximo pelo objetivo comum; c) porque temos um técnico com
ascendência sobre os atletas e capaz de motivá-los ao máximo; e d) porque, mesmo quando
no auge da sua forma, os jogadores alemães “tremem” quando têm o Brasil pela
frente. Definitivamente, como dois mais dois são quatro.
Há que se atentar,
entretanto, que existem interesses inconfessos por trás de um evento portentoso
e de cifras milionárias, como o é uma Copa do Mundo de Futebol. Assim, o perigo
é: 1) que o(s) “patrocinador(es)” da seleção (e até o do atleta) exija(m) sua
presença em campo na partida final, mesmo que de muletas, isso, claro, após
passarmos sem ele pelos alemães (exemplo emblemático de tal situação foi a final
da Copa da França, em 1998, quando o Brasil jogou todo o tempo com 10 atletas,
tendo em vista que o tal Ronaldo-Gordo, após um ataque epiléptico momentos
antes do jogo, sem a mínima condição de atuar foi irresponsavelmente escalado
pelo patrocinador, com o aval do comando da CBF. Tanto que o jogador Edmundo,
cujo nome já constava da súmula, foi “deletado”. Deu no que deu: França 3 x 0
Brasil, fácil fácil); 2) assim, por mais esdrúxulo e imoral que possa parecer,
não nos surpreendamos se um outro laudo médico for emitido nos próximos dias
atestando que a lesão não foi tão grave quanto anunciada anteriormente e que,
em razão de se tratar de um atleta jovem, livre de vícios e blábláblá, estará
habilitado a participar da partida final (mesmo que “entupido” de analgésicos e
“empacotado” por diversos coletes ortopédicos); e é aí que mora o perigo. Urge,
pois, não olvidar o passado.
No mais, como a Copa é “NO
BRASIL”, vai ser “DO BRASIL”. Com ou sem choro, ninguém nos tira.
O resto... é perfumaria
barata, de quinta categoria.
sexta-feira, 4 de julho de 2014
Marxismo cultural é um paradoxo - cuidado com quem evoca este termo por Gary North
sexta-feira, 4 de julho de 2014
Na década de 1960, os marxistas da URSS tratavam o movimento conhecido como 'marxismo cultural' com o mesmo grau de ceticismo que os cristãos seguidores da Bíblia tratam o modernismo teológico. Em outras palavras, eles negavam veementemente que aquilo representava o marxismo.
Quando você abandona os princípios fundamentais de uma determinada ideologia, mas ainda tenta manter o nome dessa ideologia — porque há muitos seguidores dela —, você será tratado pelos defensores da ideologia original como um invasor.
O marxismo cultural está para o marxismo assim como o modernismo está para o cristianismo. Qualquer indivíduo que considere que marxismo cultural é marxismo não entende nada de marxismo. No entanto, tal postura é muito comum em círculos conservadores. Trata-se de um grande erro estratégico porque representa, acima de tudo, um erro conceitual.
O coração, a mente e a alma do socialismo marxista ortodoxo é um só: o conceito de determinismo econômico. Marx argumentou que o socialismo é historicamente inevitável porque haverá uma inevitável transformação do modo de produção da sociedade. Ele argumentou que o modo de produção é a subestrutura de uma sociedade, e que a cultura geral é a superestrutura. Segundo ele, as pessoas se apegam a uma visão específica das leis, da ética e da política de uma sociedade somente por causa de seu comprometimento a um modo específico de produção. Se esse modo de produção for alterado, o apego das pessoas às leis, à ética e à política será alterado.
Em 1850, o modo dominante de produção era o capitalismo. Marx assim rotulou esse modo de produção. O nome pegou, ainda que o marxismo original esteja culturalmente morto.
Essa posição de Marx ganhou vários defensores exatamente porque ela era puramente econômica/materialista. Marx criou uma teoria que descartava a necessidade de qualquer explicação histórica; no fundo, era uma teoria que se baseava na ideia de que ideias não são fundamentais para a transformação da sociedade. Marx acreditava que a arena decisiva da luta de classes é o modo de produção, e não a batalha das ideias. Ele via as ideias como um desdobramento secundário do modo de produção. Sua visão era essa: ideias não têm consequências significativas. Retire esse postulado do marxismo, e o que sobra não mais será marxismo.
É por isso que sempre me espanto quando vejo analistas conservadores aceitando a ideia de marxismo cultural. Eles recorrem aos escritos da Escola de Frankfurt para pegar notas de rodapé que dêem sustento a essa ideia. Os analistas mais sagazes recorrem aos escritos de Antonio Gramsci feitos dentro de uma prisão na década de 1930. Gramsci oficialmente era um comunista. Ele era italiano. Ele passou uma temporada na União Soviética durante a década de 1920 e voltou de lá acreditando que a tradição leninista estava incorreta. O Ocidente havia demonstrado não ser um terreno fértil para o comunismo precisamente porque o Ocidente era cristão. Gramsci entendeu claramente que, enquanto o cristianismo não fosse destruído e permanecesse uma tradição precípua no Ocidente, não haveria nenhuma revolução proletária aqui. A história certamente o comprovou correto. A revolução proletária jamais veio.
Gramsci argumentou, e a Escola de Frankfurt seguiu seu caminho, que a maneira de os marxistas transformarem o Ocidente era por meio da revolução cultural: daí surgiu a ideia do relativismo cultural. Esse argumento está correto, mas o argumento não era e nem nunca foi marxista. O argumento era hegeliano. Tal argumentou virava o marxismo do avesso, assim como Marx havia virado do avesso as ideias de Hegel. Em seus primórdios, toda a ideia do marxismo era baseada na rejeição do lado espiritual do hegelianismo. O marxismo original estabelecia que o modo de produção deveria ser o núcleo da análise da cultura capitalista.
Em 1968, no auge do movimento contra-cultural, escrevi um livro sobre Marx intitulado Marx e sua religião de revolução. Já era claro para mim, em 1968, que o marxismo era uma religião de revolução, uma visão que remetia aos festivais de Cronos, na Grécia antiga. O marxismo não era uma análise científica da sociedade, e nem de sua economia. Para escrever esse livro, não perdi tempo com o marxismo cultural. No entanto, teria sido muito mais fácil mostrar o lado religioso do marxismo recorrendo aos marxistas culturais. Eles claramente haviam entendido que, na cultura ocidental — a qual é um desdobramento do cristianismo —, todas as questões culturais envolviam religião. Mas isso acabaria com o propósito do meu livro. Meu objetivo era mostrar que o marxismo original era em si uma religião própria. Invocar o marxismo cultural iria desviar o foco dos leitores. Marxistas culturais teriam sido alvos mais fáceis, mas discuti-los enfraqueceria o argumento do meu livro.
Os marxistas culturais dividiram o campo marxista. Seus ataques à cultura podem ser interpretados como uma tática, mas eram mais do que uma tática: eram uma estratégia. Eram uma estratégia baseada no abandono do marxismo original.
Podemos discutir essa cisão no marxismo em termos de uma família específica. O mais proeminente defensor intelectual do stalinismo nos EUA durante as décadas de 1940 e 1950 era Herbert Aptheker. Sua filha Bettina era uma das líderes do Movimento da Liberdade de Expressão, o qual havia começado no segundo semestre de 1964 na Universidade da Califórnia, Berkeley. Ela se tornou bem mais famosa que seu pai stalinista. Foi aquele evento no campus que lançou a rebelião estudantil e o movimento contra-cultural. Mas o próprio termo "contra-cultura" é um indicativo do fato de que tal conceito nunca foi marxista. Era sim uma tentativa de derrubar a cultura dominante, mas Marx jamais teria perdido tempo com tal conceito. Marx não era um hegeliano. Ele era um marxista.
Bettina e seu pai romperam relações em 1968, quando a URSS invadiu a Tchecoslováquia. Bettina foi contra a invasão. O Partido Comunista dos EUA, onde seu pai era uma figura proeminente, foi a favor e defendeu a URSS.
Anos depois, Bettina revelou que seu pai havia lhe abusado sexualmente dos 3 aos 13 anos de idade. No fundo, na visão de mundo de seu pai, ele estava apenas conduzindo sua própria agenda gramsciana; ele estava atacando a cultura ocidental desde dentro de sua própria casa. Mas isso não afetou seu marxismo ortodoxo. Afetou o de sua filha.
Bettina Aptheker é hoje professora da Universidade da Califórnia, e leciona estudos culturais: feminismo. O movimento que ela lançou em Berkeley morreu no início da década de 1970. Ela ainda é uma crítica fervorosa do capitalismo, mas suas críticas não se baseiam nos escritos de Karl Marx. A contra-cultura também não baseou em Marx.
A contra-cultura
Sejamos claros e diretos: Marx estava errado e Gramsci estava certo. O marxismo ortodoxo não foi a causa primária da contra-cultura. A contra-cultura era um movimento progressista que visava a atacar as bases fundamentais da cultura ocidental. Já o marxismo estava comprometido em alterar o modo de produção. Com efeito, ele também queria alterar a cultura, mas queria fazer isso por meio de alterações profundas nos modos de produção.
Eis o problema: os conservadores de hoje levam excessivamente a sério as declarações dos marxistas culturais da Escola de Frankfurt, que na realidade não eram marxistas. Eles eram basicamente progressistas e socialistas. Mais ainda: eles facilmente teriam sido alvos de Marx em 1850. Marx passou a maior parte de sua carreira atacando pessoas assim, e praticamente não gastou tempo nenhum atacando Adam Smith ou os economistas clássicos. Ele jamais respondeu aos economistas neoclássicos e aos economistas da Escola Austríaca que surgiram no início dos anos 1870. Marx teve muito tempo para responder a essas pessoas, mas ele nunca o fez. Ele passou a maior parte de sua vida atacando indivíduos que hoje seriam rotulados de marxistas culturais. Marx os considerava inimigos infiltrados no campo socialista. Marx os atacava porque eles, quando atacavam o capitalismo, não fundamentavam seus ataques utilizando a teoria do socialismo científico de Marx, a qual era toda baseada no modo de produção.
Na década de 1920, Gramsci havia entendido claramente que, se ele permanecesse da União Soviética, ele acabaria sendo mandado a um campo de concentração. Ele poderia até ser executado. Ele havia percebido que Stalin provavelmente teria mandado matá-lo. Portanto, ele voltou para a Itália sabendo perfeitamente bem que também acabaria sendo enviado a um campo de concentração italiano, o que de fato ocorreu. Mas os fascistas o deixavam ler e o deixavam escrever. Ao permitir isso, eles solaparam o comunismo marxista.
É difícil rastrear a influência histórica da Escola de Frankfurt. Sair de uma ínfima seita e alcançar toda a cultura geral é algo que requer um estudo de causalidade complexa. O movimento básico rumo ao relativismo cultural começou no final dos anos 1880, e os principais marcos disso foram o modernismo teológico e o movimento progressista. A psicologia freudiana já fazia parte disso em 1925. Freud fornecia a justificativa para o relativismo; a Escola de Frankfurt só veio depois. Só que o modernismo teológico ganhou muito mais adeptos do que a Escola de Frankfurt jamais sonhou ganhar.
A contra-cultura que começou após o assassinato de Kennedy era muito mais um produto dos Rolling Stones do que da Escola de Frankfurt. O sexo, drogas e rock 'n roll em meadas da década de 1960 substituiu o sexo, cerveja e rock 'n roll do final da década de 1950. Era uma mistura mais poderosa. Não tente rastrear a contra-cultura à Escola de Frankfurt. É melhor rastreá-la à Primeira Guerra Mundial, que arrancou pela raiz as instituições do Ocidente. O que ocorria nos bancos traseiros dos automóveis após 1918 tinha mais a ver com a contra-cultura do que com os escritos da Escola de Frankfurt.
Conclusão
O Ocidente jamais chegou perto de uma revolução proletária. No entanto, quando o Ocidente decidiu que "não roubarás" deveria ser reescrito como "não roubarás, exceto por votação majoritária", a visão de mundo keynesiana havia nascido. Essa visão é dominante hoje.
O marxismo está morto. O marxismo cultural também. Estamos na época do keynesianismo social-democrata.
Para vencer essa batalha é necessário persuadir as pessoas de que "não roubarás" significa exatamente isso: é imoral roubar, com ou sem voto majoritário.
E isso não tem nada a ver com o modo de produção.
Gary North , ex-membro adjunto do Mises Institute, é o autor de vários livros sobre economia, ética e história.
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Equício
J. Flávio Vieira
Equício vivia encafifado com aquele
mistério quase que kafkiniano. Estava ali , como um Sócrates moderno, tentando entender os destinos do mundo. Ou
como um Hamlet , reencarnado, com seu tablet
erguido em feitio de caveira, e sua dúvida remasterizada :
-- Ter ou não ter, eis
a questão!
Como teria sido possível, remói o nosso Equício,
a humanidade ter sobrevivido por tanto e tanto tempo, sem o Smartphone ? Houve vida neste planeta antes da Internet ?
Para que serviam os dedos e as mãos se não podiam deslizar nas telas de LED ?
Houve uma época em que as pessoas precisavam ainda falar, se encontrar, se
locomover para terem qualquer atividade social! Já se imaginou uma loucura
dessas? Hoje essa maquininha faz tudo isso por nós! O livro que gostaria de ter
está aqui dentro, a musiquinha que quero ouvir está à distância de um toque, o
filme , a voz da namorada, a pizza, as compras , tudo está perfeitamente ao
alcance de Equício, com um simples deslizar de tela. A coisa ficou fácil,
prática e sobra tempo e mais tempo para a gente curtir esta viagem leve e curta chamada de vida. Nossos avós, pensa
Equício, precisavam se desdobrar para conseguir a caça, para descolar o
alimento, para sobreviver em meio às enfermidades, às guerras. As mulheres
tinham, biblicamente, os filhos com dor, não existia energia elétrica, rádio,
TV, cinema. Já pensou na loucura do mundo
sem shopping? Do almoço sem Mac Donald´s ? De ter que fazer a própria comida? E o
deslocamento em lombo de burro? Um mundo sem carro, sem moto, sem trem bala e
sem avião ?
--
Como eram infelizes nossos avós !
Equício tem essa revelação na fila do ônibus, onde
aguarda , pacientemente, a volta para casa. Tudo depois de um longo dia de
trabalho, como office-boy num escritório de advocacia. Com sorte chegará umas dez horas da noite e às
quatro terá que recomeçar de novo o trabalho de Sísifo. Aproveita e manda um SMS para a namorada que
já não vê há uns dez dias. Pelo WhatsApp
conversa com alguns amigos que lhe
mandaram mensagens e vídeos. Lembra que
precisa organizar um fim de semana para visitar os pais. Internos num
abrigo de idosos , depois que se foram se transformando num estorvo para a
família ( infelizmente ainda não existe, nesses casos a tecla “Deletar”) , ele
já não os contacta há uns três meses.
Quando o ônibus , por fim, sai em meio ao
congestionamento, Equício vai
observando, hipnotizado, as luzes dos teatros, dos cinemas, dos museus da
cidade grande. Quantas opções de divertimento nós temos! Um fim de semana desses, vou tirar para visitá-los!
Chegando à parada, desce, veloz, na
velocidade típica dos novos tempos : a número cinco do créu. Olha para um lado
e para outro, temendo o trombadinha. Nem
percebe, no céu, uma lua cheia argêntea, esplendorosa, totalmente supérflua nos dias de
hoje, ao alcance de um simples olhar. Nem sabe que , a despeito de tudo, as
Cataratas do Iguaçu continuam caindo com clamor e sem chips; o mar persiste
quebrando suas ondas, ritmicamente, em Paraty, sem nenhum App; o Amazonas corta
a floresta sob a música dos pássaros e o
mergulho incontrolável dos peixes. Equício pega,
por fim, seu Santo Graal, o aparelho pequenino que lhe dá poder, magia e segurança e que lhe serve como filtro do
mundo. Pronto ! Eis o
admirável mundo novo : A solidão está perfeitamente atingível a um
simples toque !
Crato, 03 de Julho de 2014
"Duelos de Titãs" - José Nilton Mariano Saraiva
A priori, não há o que temer. Agora, a briga é de
“cachorro-grande”. E a Colômbia nunca o foi (como não o é, atualmente). Assim, no
lucro e com a certeza do dever cumprido, os esforçados jogadores colombianos
voltarão pra casa cantando o “amor febril”. Ganharemos, e o faremos com
relativa tranqüilidade, apesar da desconfiança de muitos, mas com o time
finalmente se estabelecendo em campo (atentem para o Fred).
Já quem não deve ter tanta tranqüilidade, mas certamente seguirá
na competição, será a poderosa Alemanha (cujo jogo realizar-se-á antes do embate
do Brasil). É que o esquadrão da França, embora pratique um bom e vistoso futebol,
não é dos mais competitivos. Portanto, Brasil e Alemanha defrontar-se-ão numa estupenda
semifinal. E aí eles tremerão, porque o nosso time já terá engatado e a nossa
camisa impõe respeito.
Do outro lado, um embate de arrepiar, verdadeiro teste pra
cardíacos: Argentina e Bélgica têm tudo pra patrocinar um dos grandes jogos
dessa “Copa de todas as copas” e de tantos grandes jogos. Se jogar o que jogou
contra os americanos, os belgas têm tudo pra despachar “los hermanos” (que vêm
ganhando, mas sem convencer).
E, finalmente, já sabendo do vencedor do jogo Bélgica versus
Argentina, a Holanda entregará o bilhete de volta com uma singela dedicatória
de agradecimento à “zebra” Costa Rica, que ficará pelo meio do caminho, sem
perdão. Assim, a Holanda fará uma semifinal portentosa com o vencedor do jogo
acima.
Enfim, após alguns memoráveis “duelos de titãs”, daqui a exatos 10
dias teremos oportunidade de presenciar um Maracanã (em azul e amarelo) “transbordando”
de gente pra acompanhar um mui provável Brasil x Holanda (ou Brasil x Argentina
ou um inédito Brasil x Bélgica), quando teremos oportunidade de acabar de vez
com essa frescura de “maracanazo”.
Lembram da frase escrita no ônibus da seleção - “Prepare-se. O HEXA
está chegando” ??? Pois é, tão feliz profecia há de materializar-se. E por uma
razão simplória: porque o povo brasileiro se fez merecedor - e até os “gringos”
hão de reconhecer isso, a posteriori.
Por Rejane G Santos
Guiomar
Guiomar vive na rua de cima. Hoje, desceu. Num vestido sem mangas, de saia rodada e flores verdes em salpico, cintura marcada, decote sedento por um pedaço de chão. Braços nus, abandonados ao longo do corpo, mas vivos. Braços de bailarina. Olhos acesos catando os céus, luz em foco na palidez de cera do rosto de santa. Andar roubado, leveza de garça e ondulações de serpente. Veio do alto. Venceu a terra barrenta da rua comprida com força de inundação. Chegou embaixo re...pleta, grandiosa, maior que seu próprio tamanho. Acumulada.
Guiomar vive na rua de cima. Hoje, desceu. Num vestido sem mangas, de saia rodada e flores verdes em salpico, cintura marcada, decote sedento por um pedaço de chão. Braços nus, abandonados ao longo do corpo, mas vivos. Braços de bailarina. Olhos acesos catando os céus, luz em foco na palidez de cera do rosto de santa. Andar roubado, leveza de garça e ondulações de serpente. Veio do alto. Venceu a terra barrenta da rua comprida com força de inundação. Chegou embaixo re...pleta, grandiosa, maior que seu próprio tamanho. Acumulada.
Vi os cabelos de Guiomar, cortados à faca pelos soldados que a conduziam, sumirem na escuridão do corredor da delegacia daquela cidade pequena. Minha quase aldeia, onde o tempo também vai devagar e arrasta-se pestanas adentro das janelas que olham.
Nunca esqueci.
rejane gonçalves
(Para uma certa "mulher da vida", cuja altivez eu nunca esqueci)
Nunca esqueci.
rejane gonçalves
(Para uma certa "mulher da vida", cuja altivez eu nunca esqueci)
quarta-feira, 2 de julho de 2014
A Quem Interessa o Golpe? - Por Carlos Eduardo Esmeraldo
O histórico
de Golpes de Estado no Brasil é extenso e vem desde os tempos do
Império, para decretar maioridade de Dom Pedro II antes dele completar
14 anos, no que ficou conhecido como "golpe da maioridade de Dom Pedro
II ".
Em seguida houve o golpe militar da Proclamação da República, liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca. A mudança do sistema de governo foi realizada sem nenhuma participação do povo que ficou totalmente indiferente aos acontecimentos daquele 15 de novembro de 1899.
Os primeiros anos da República foram de muitas dificuldades, tanto econômicas, quanto administrativas. O país viveu sucessivas crises. O Marechal Deodoro, que assumira o cargo de chefe de governo, tentou solucionar essas crises impondo autoritarismo: dissolveu o Congresso e decretou Estado de Sítio, suspendendo todos os direitos individuais e políticos dos cidadãos. A reação a esse golpe foi intensa em todo o país e a crise se agravou a tal ponto que ao Marechal Deodoro, velho, doente e cansado, somente restou a renúncia em 23 de novembro de 1891. Seu conterrâneo, o também alagoano Marechal Floriano Peixoto, vice-presidente, assumiu o governo.
Em 1964, há 50 anos portanto, um governo legitimamente constituído foi deposto através de um golpe militar. Naquela época, temia-se a implantação de uma ditadura comunista, a exemplo da revolução acontecida em Cuba no ano de 1959. Partidos políticos conservadores há mais de vinte anos na oposição, aliados aos meios de comunicação social, articularam a deposição do presidente João Goulart, pois segundo justificavam, o país estava na iminência de um golpe de esquerda, às portas de uma ditadura sindicalista de inspiração comunista. Alguns setores conservadores do clero amedrontavam toda a classe média brasileira, com receio de que nos tornássemos vítimas de um regime comunista e ateu, no qual haveria a proibição de cultos religiosos e o fechamento das igrejas. A gestação do golpe foi lenta e contínua, com alguns períodos de calmaria. Mas resultou numa ditadura militar que durou 21 longos anos, camuflada para fins externos, como sendo um regime "democrático" de faz de conta. Mas internamente com censura à imprensa, muitas prisões e torturas.
O histórico desse golpe teve início há mais de três décadas, nas eleições presidenciais de 1930, que como todas as eleições realizadas anteriormente, foram fraudadas e repletas de vícios. Júlio Prestes, o presidente eleito à "bico de pena", não chegou a tomar posse. Um golpe militar colocou no poder Getúlio Vargas, o candidato derrotado naquela eleição. A denominada "Era Vargas" durou 15 anos, incluído nesse período a "Ditadura do Estado Novo", que vigorou de 1937 até de outubro de 1945, quando Vargas foi deposto. Antes disso, pressentindo que o seu tempo se expirava, Getúlio Vargas preparou o retorno do país à democracia permitindo a criação de novos partidos políticos, entre os quais: a UDN, o PSD, o PTB, entre outros, inclusive legalizando o Partido Comunista.
Em dezembro de 1945 ocorreu o que se denominou como a "primeira eleição realmente democrática do país", tendo sido eleito o General Eurico Gaspar Dutra, cujo governo destacou-se pelo respeito à constituição.
A partir de 1950, com novas eleições presidenciais, quando então Getúlio Vargas foi reconduzido à presidência da república, intensificou-se a reação da UDN, sob a liderança de Carlos Lacerda. Havia acusações de corrupção, principalmente com relação ao empréstimo efetuado pelo Banco do Brasil ao jornalista Samuel Wainer, empréstimo esse autorizado pelo Presidente Vargas, para que seu amigo fundasse o jornal "Última Hora", cuja finalidade era defender o governo das constantes acusações da imprensa conservadora, acusações essas, cujo objetivo principal era a deposição de Getúlio.
Em sua campanha para derrubar Vargas do poder, Lacerda usava o seu próprio jornal "Tribuna da Imprensa", fazia aparições na televisão, palestras em colégios, em associações de classe, onde quer que fosse possível. Por isso mesmo temia sofrer atentados. Então solicitou segurança ao Ministro da Justiça, na época, o Sr. Tancredo Neves. O Ministro colocou a policia à disposição de Lacerda e sugeriu que ele escolhesse o pessoal de sua confiança. Mas Lacerda preferiu cercar-se de amigos militares. E no inicio de agosto de 1954, ao chegar à sua residência em Copacabana, Lacerda sofreu um atentado à bala que atingiu o seu pé. Um outro tiro ceifou a vida de um de seus amigos, o major da aeronáutica, Rubens Vaz. Comandantes militares das três armas se revoltaram contra o presidente. A crise desencadeada com esse atentado, sob suspeitas de ter sido perpetrado pela guarda pessoal do presidente, levou Getúlio Vargas a optar pelo suicídio em 24 de agosto de 1954.
Em 1955, novas eleições presidenciais foram realizadas, com nova derrota da UDN e vitória de Juscelino Kubtschek do PSD. Houve um breve período de crise, pois Carlos Lacerda desejava impedir a posse do presidente Juscelino, felizmente sem obter êxito.
A quem interessa um Golpe de Estado como o ocorrido em 1964? Em primeiro lugar aos políticos conservadores, submissos aos interesses das grandes potencias internacionais. Políticos esses contrários ao combate à pobreza e à redução das desigualdades sociais. "Qualquer política voltada para extinção da pobreza é prontamente combatida pelos que detêm o poder econômico". Conclusão essa a que chegaram os bispos latino-americanos reunidos na III Conferencia Episcopal Latino-americana, realizada em Puebla no México em fevereiro de 1979.
Finalmente, um golpe como o de 1964 interessa diretamente às grandes potências mundiais que desejam para si as riquezas da nossa Amazônia e o nosso lençol petrolífero à águas profundas.
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
Em seguida houve o golpe militar da Proclamação da República, liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca. A mudança do sistema de governo foi realizada sem nenhuma participação do povo que ficou totalmente indiferente aos acontecimentos daquele 15 de novembro de 1899.
Os primeiros anos da República foram de muitas dificuldades, tanto econômicas, quanto administrativas. O país viveu sucessivas crises. O Marechal Deodoro, que assumira o cargo de chefe de governo, tentou solucionar essas crises impondo autoritarismo: dissolveu o Congresso e decretou Estado de Sítio, suspendendo todos os direitos individuais e políticos dos cidadãos. A reação a esse golpe foi intensa em todo o país e a crise se agravou a tal ponto que ao Marechal Deodoro, velho, doente e cansado, somente restou a renúncia em 23 de novembro de 1891. Seu conterrâneo, o também alagoano Marechal Floriano Peixoto, vice-presidente, assumiu o governo.
Em 1964, há 50 anos portanto, um governo legitimamente constituído foi deposto através de um golpe militar. Naquela época, temia-se a implantação de uma ditadura comunista, a exemplo da revolução acontecida em Cuba no ano de 1959. Partidos políticos conservadores há mais de vinte anos na oposição, aliados aos meios de comunicação social, articularam a deposição do presidente João Goulart, pois segundo justificavam, o país estava na iminência de um golpe de esquerda, às portas de uma ditadura sindicalista de inspiração comunista. Alguns setores conservadores do clero amedrontavam toda a classe média brasileira, com receio de que nos tornássemos vítimas de um regime comunista e ateu, no qual haveria a proibição de cultos religiosos e o fechamento das igrejas. A gestação do golpe foi lenta e contínua, com alguns períodos de calmaria. Mas resultou numa ditadura militar que durou 21 longos anos, camuflada para fins externos, como sendo um regime "democrático" de faz de conta. Mas internamente com censura à imprensa, muitas prisões e torturas.
O histórico desse golpe teve início há mais de três décadas, nas eleições presidenciais de 1930, que como todas as eleições realizadas anteriormente, foram fraudadas e repletas de vícios. Júlio Prestes, o presidente eleito à "bico de pena", não chegou a tomar posse. Um golpe militar colocou no poder Getúlio Vargas, o candidato derrotado naquela eleição. A denominada "Era Vargas" durou 15 anos, incluído nesse período a "Ditadura do Estado Novo", que vigorou de 1937 até de outubro de 1945, quando Vargas foi deposto. Antes disso, pressentindo que o seu tempo se expirava, Getúlio Vargas preparou o retorno do país à democracia permitindo a criação de novos partidos políticos, entre os quais: a UDN, o PSD, o PTB, entre outros, inclusive legalizando o Partido Comunista.
Em dezembro de 1945 ocorreu o que se denominou como a "primeira eleição realmente democrática do país", tendo sido eleito o General Eurico Gaspar Dutra, cujo governo destacou-se pelo respeito à constituição.
A partir de 1950, com novas eleições presidenciais, quando então Getúlio Vargas foi reconduzido à presidência da república, intensificou-se a reação da UDN, sob a liderança de Carlos Lacerda. Havia acusações de corrupção, principalmente com relação ao empréstimo efetuado pelo Banco do Brasil ao jornalista Samuel Wainer, empréstimo esse autorizado pelo Presidente Vargas, para que seu amigo fundasse o jornal "Última Hora", cuja finalidade era defender o governo das constantes acusações da imprensa conservadora, acusações essas, cujo objetivo principal era a deposição de Getúlio.
Em sua campanha para derrubar Vargas do poder, Lacerda usava o seu próprio jornal "Tribuna da Imprensa", fazia aparições na televisão, palestras em colégios, em associações de classe, onde quer que fosse possível. Por isso mesmo temia sofrer atentados. Então solicitou segurança ao Ministro da Justiça, na época, o Sr. Tancredo Neves. O Ministro colocou a policia à disposição de Lacerda e sugeriu que ele escolhesse o pessoal de sua confiança. Mas Lacerda preferiu cercar-se de amigos militares. E no inicio de agosto de 1954, ao chegar à sua residência em Copacabana, Lacerda sofreu um atentado à bala que atingiu o seu pé. Um outro tiro ceifou a vida de um de seus amigos, o major da aeronáutica, Rubens Vaz. Comandantes militares das três armas se revoltaram contra o presidente. A crise desencadeada com esse atentado, sob suspeitas de ter sido perpetrado pela guarda pessoal do presidente, levou Getúlio Vargas a optar pelo suicídio em 24 de agosto de 1954.
Em 1955, novas eleições presidenciais foram realizadas, com nova derrota da UDN e vitória de Juscelino Kubtschek do PSD. Houve um breve período de crise, pois Carlos Lacerda desejava impedir a posse do presidente Juscelino, felizmente sem obter êxito.
A quem interessa um Golpe de Estado como o ocorrido em 1964? Em primeiro lugar aos políticos conservadores, submissos aos interesses das grandes potencias internacionais. Políticos esses contrários ao combate à pobreza e à redução das desigualdades sociais. "Qualquer política voltada para extinção da pobreza é prontamente combatida pelos que detêm o poder econômico". Conclusão essa a que chegaram os bispos latino-americanos reunidos na III Conferencia Episcopal Latino-americana, realizada em Puebla no México em fevereiro de 1979.
Finalmente, um golpe como o de 1964 interessa diretamente às grandes potências mundiais que desejam para si as riquezas da nossa Amazônia e o nosso lençol petrolífero à águas profundas.
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
terça-feira, 1 de julho de 2014
O "pragmatismo" alemão - José Nilton Mariano Saraiva
Embora sua
história haja sido manchada indelevelmente em razão de ter sido espécie de ator
principal nas duas Grandes Guerras Mundiais dos tempos modernos (1914/1918 e
1939/1945) a Alemanha, a partir de então e apesar da sua pequenez territorial
(é um pouco maior que o nosso Maranhão, só que com uma população espantosa de
mais de 82 milhões de habitantes), firmou-se como uma das maiores potências do
mundo em termos técnico, científico, econômico-financeiro, esportivo e
cultural, dentre outros.
O seu povo
é, reconhecidamente, dotado de uma inteligência privilegiada e ímpar, o que, de
par com a escolha preferencial do governo pela educação e pesquisa, propicia o
surgimento de luminares e cientistas de escol nos mais variados segmentos da
vida: da medicina à astronomia, da física nuclear à literatura jurídica, do
automobilismo ao futebol, e por aí vai.
Assim, é
fácil detectar que uma das características marcantes desse povo é sua
idiossincrasia, sua determinação, seu “pragmatismo” por excelência; em tudo (ou
quase, vide abaixo) que se mete o alemão se sai bem e dá o recado bem dado,
exatamente porque preparado, culto e extremamente disciplinado.
Tomemos,
genericamente, o futebol como exemplo e, particularmente, a atual Copa do Mundo
que o Brasil tem a honra de patrocinar (e tem dado um verdadeiro show). Às 32
seleções que se habilitaram a participar do torneio, a FIFA concedeu o direito
de livremente escolherem o estado e/ou cidade da federação que gostariam de
ficar, durante a realização do torneio.
Pois bem,
enquanto alguns optaram por hotéis localizados em cidades/praias badaladas
(Ipanema, Santos, etc) e outros por cidades de porte médio (mas de fácil acesso
dos nativos), os alemães adquiriram um imenso terreno numa praia pra lá de
deserta, na Bahia, longe do burburinho das cidades, onde construíram o próprio
hotel, que tem acomodado toda a delegação durante o torneio. Lá, isolados da
badalação e, literalmente, do mundo, priorizaram o treinamento sob o
causticante sol do meio dia (um verdadeiro tormento para quem tá acostumado com
temperaturas siberianas) a fim de se adaptarem ao horário dos jogos que farão
no país. Deslocamentos para as cidades onde jogarão somente às vésperas de cada
pugna, com imediato retorno após. E ninguém reclama ninguém diz nada, porquanto
sabedores que só através do sacrifício imposto por uma disciplina férrea terão
chance de atingir o objetivo colimado. Essa uma das facetas do seu
“pragmatismo” (no jogo de ontem, contra a Argélia, por exemplo, o preparo
físico foi fundamental para uma vitória alemã na prorrogação, já que os
africanos, mesmo habituados a temperaturas escaldantes, se “arrastavam” em campo em
sua parte final, quando os germânicos fizeram os dois gols que os habilitaram a
seguir em frente).
No entanto,
a prova mais lídima desse mesmo “pragmatismo” já nos houvera sido concedida lá
atrás quando, ao se classificarem pra disputar a Copa do Mundo, no Brasil, os
alemães não se importaram em, literalmente, se “prostituir”, ao adotarem uma
camisa com as cores e o padrão da do Flamengo, sabedores tratar-se de um time
de massa, por aqui. E assim, fugindo da seriedade que os caracteriza e
provocando uma “brecha” abominável em seu proceder, o discreto, austero e
respeitado uniforme em preto e branco alemão foi substituído por um outro que
não tem nada a ver com a sua tradição e história. O objetivo (velado
naturalmente) foi o de ganhar a simpatia e apoio da torcida flamenguista (bem
que poderiam ter adotado o uniforme do glorioso Vasco da Gama ou Corinthians,
detentores de imensa torcida no Brasil, e cujas cores são similares às suas).
Fato é que,
independentemente de tudo isso (e até como duro castigo por transmutar-se de
alvinegro pra rubro-negro por mera conveniência) os alemães frustrar-se-ão
quando, numa das semifinais, usando a camisa do Flamengo, enfrentarem a seleção
brasileira com o seu uniforme tradicional (que lhes provoca fininhas, comichões,
caganeiras e arrepios). Ou seja, depois de todo esse cuidado, todo esse
planejamento, toda essa discrição, terão que contentar-se com o terceiro lugar,
em razão de terem inserido a “prostituição” em seu “pragmatismo”, via escolha
de um uniforme inadequado e indesejado pela própria torcida alemã. Aí, então,
esse “estranho no ninho”, o uniforme “rubro-negro-alemão”, será de pronto aposentado.
Alguém tem
dúvida ???
domingo, 29 de junho de 2014
Vermelho pro "canibal uruguaio" - José Nilton Mariano Saraiva
Foi pouco, muito pouco,
pouco mesmo. Apenas nove (09) jogos de suspensão de competições patrocinadas
pela entidade, quatro meses na “geladeira” (banido que foi de jogar bola nesse
período, e sequer poder adentrar um estádio de futebol) e mais uma
multazinha irrisória (cerca de R$ 250 mil), esta a punição que a FIFA houve por
bem aplicar ao “canibal” Luis Suárez, jogador de futebol da seleção uruguaia
que se viciou em alimentar-se de partes do corpo dos colegas de profissão,
durante as partidas de que participa (depois de “degustar” o sabor da carne de
um holandês e um inglês, agora o “canibal uruguaio”, em plena Copa do Mundo,
resolveu “deglutir” o pescoço de um italiano). É, pois, um tri-incidente cosmopolita.
Mas, como o futebol é
pura “emoção”, porquanto desprovido de qualquer “razão”, principalmente quando
o objetivo maior é o de ser campeão do mundo, depois da “palhaçada” que
patrocinou na Copa do Brasil, Luis Suárez foi corretamente mandado de volta pra
casa, pela FIFA, e aí se deu o inusitado: no aeroporto, centenas de torcedores à
espera do “canibalzinho” para prestar-lhe “solidariedade”. Ou seja, corroboravam
com o grave erro por ele cometido, transformando-o numa espécie de herói
nacional. E mais inusitado ainda: entre tais torcedores, ninguém menos que o
Presidente da República, que fora protestar contra tão severa punição.
Pobre do país que enaltece
e cultua (pseudos) heróis, porquanto de pés-de-barro.
Para acalmar os nervos, regular os batimentos cardíacos, compensar tanto grito abafado, tantos olhos fechados e ouvidos tampados... vamos apreciar, meus queridos amigos, de alma leve e grato sentimento, a bela delicadeza do poema de Manoel de Barros.
O apanhador de desperdícios
"Uso a palavra para compor meus silêncios....
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
Sou da invencionática
Só uso a palavra para compor meus silêncios."
O apanhador de desperdícios
"Uso a palavra para compor meus silêncios....
Não gosto das palavras
fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim um atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
Sou da invencionática
Só uso a palavra para compor meus silêncios."
sexta-feira, 27 de junho de 2014
O sedento Deus Liberdade
J. Flávio Vieira
A violência sempre esteve ligada ao poder.
E a violência masculina é um exercício
perverso do poder.
Affonso Romano de Sant' Anna
A
Violência é uma irmã siamesa da Civilização. A história da humanidade , desde
os seus primórdios, tem sido escrita com
a rubra tinta do sangue. A evolução natural da nossa espécie nunca conseguiu
debelar esse mal, apenas ele foi se metamoforseando e aparecendo com outras
nuances e outras máscaras. A pólvora substituiu a espada, o canhão à
espingarda, o tanque de guerra ao aríete. Se se reparar direitinho, a Violência tem seu nascedouro nas nossas mais
simples relações domésticas. Por trás dela sempre existe impulsionando-a o
exercício do poder : seja de pai para filho, de patrão para empregado, do rico
para o pobre, do político para o eleitor, do homem para a mulher, da nação mais
favorecida contra as mais lascadas. A célula mater da Violência, no entanto,
brota das nossas mais simples e domésticas relações humanas. E ela nos aproxima, mais que
nada, das nossas origens animalescas, quando abandonamos o racional e agimos
como um lobo na matilha.
No
Cariri convivemos com uma chaga secular: a Violência contra a mulher. Entre
2009 e 2011, a cada 90 minutos, uma
mulher foi morta no Brasil , no mesmo período, só no Ceará, pereceram 684
mulheres. Estes índices são assustadores. Recentemente, aqui no Cariri, nos espantamos, novamente, com dois fatos que,
de tão comuns, parecem já corriqueiros. Duas médicas foram alvo impensável
desta temida violência. Semana passada, Dra. Ângela Gimbo sofreu um atentado
terrível, que quase lhe ceifou a vida, por razões estranhas e que estão em
processo de investigação. Dra. Ângela é
uma profissional da mais alta qualificação, infectologista radicada na
região há muitos anos e que atualmente assumia, com enorme desenvoltura, o Cargo de Diretora da Faculdade de Medicina
de Juazeiro do Norte. Não bastasse esta notícia triste, esta semana, uma outra
médica, Dra. Elizabete Bernardo, viu-se vítima de um crime passional,
perpetrado por seu antigo companheiro, perdendo a vida de forma trágica e
brutal. Dra. Elizabete era professora também da Faculdade de Medicina de
Juazeiro e profissional capacitada e de finíssimo trato. Aparentemente, se
tratam de dois crimes totalmente isolados e sem qualquer ligação um com o
outro, há, no entanto, um fio condutor ligando as duas tragédias.
No
caso da Dra. Ângela, possivelmente, há motivos relacionados diretamente à sua
atividade como dirigente de uma empresa educacional. Administrar é ferir interesses de um lado ou
do outro. Não será difícil para os investigadores fecharem o firo. O
desvendamento do crime é essencial para que os caririneses ao menos consigam
dormir com alguma tranquilidade. No caso da querida Dra. Elizabete, homicício
seguido de suicídio, deslinda-se, imediatamente,
a causa , mas permanece o gosto de fel
em todos os seus amigos e admiradores. Em ambas situações percebe-se ,
claramente, a questão de Gênero presente. Os últimos cinquenta anos se caracterizaram
por um avanço expressivo nos horizontes femininos. A mulher passou a ocupar
espaços até então tidos como um monopólio
masculino. Conseguiram uma invejável independência financeira, levando a que
hoje já sejam cabeça de família de um terço dos lares brasileiros. Já não
precisam se submeter ao julgo do varão que lhe dava o pão mas , em troca, as
mantinha subjugadas. Já não necessitam ser infelizes, mantendo relacionamentos
de fachada. No trabalho, também, têm as mulheres formas peculiares de
administrar, são, em geral, mais corretas e menos propensas ao “jeitinho”.
Todas essas transformações , no entanto, não foram percebidas, ao que parece,
pelo sexo antigamente tido como forte. Amor não correspondido se torna uma
afronta para aquele que sempre se achou proprietário universal da sua companheira. Regras e leis cumpridas à risca
viram uma agressão para os adeptos das maracutaias tão tupiniquins.
Dra.
Ângela e Dra. Elizabete são mais dois
cordeiros imolados ao sedento Deus
Liberdade. Esperamos que sejam os últimos. É preciso se pensar num mundo melhor
e mais justo, onde o homem não seja o lobo do homem. Que diabos de animal
racional é esse e que ainda se diz feito à imagem e semelhança do Criador ? Se
pensamos desarmar nossos espíritos e atiçar nossos corações é preciso provar
que já conseguimos sair da Selva e que criamos leis mais humanas e mais justas
de convivência social.
Crato, 27/06/14
Assinar:
Postagens (Atom)







