por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Mistura de passado e sonho




Mulher, vai se arrumar! Tertúlia no Tênis Clube , sonhei que irá rolar.
Tire os cabelos dos bobs mas use pouco laquê; o vento nunca consegue desmanchar a formusura.
E o vestido, já foi buscar na modista ? O tubinho de renda... Forrado de rosa ou azul? Caso não esteja pronto, deixe pra missa do domingo,e use sua saia banlon com uma blusinha "volta ao mundo", ou um outro figurino.
Não consigo é trocar Helena pela Max Factor : cilion, rímel, pó compacto, rouge e baton .Helena Rubistein maqulia as nossas misses, e as moças que não desfilam...Por timidez, claro !
Agora só falta o sapato de salto brotinho. Cuidado com a costura das meias, pra que não fique torta.
Roube o perfume da penteadeira de Dona Janine : será Cabochard , Madame Rochas ou Fleur de Rocaille ?
O seu ? Aposto que é igual ao meu : White Magnólia !
Capriche nos retoques: brinco e anel de pérolas, cordão de ouro e medalhinha, e uma pulseira de chapa, gravada com muita arte.

Seja discreta no mambo. Fica feio rebolar tanto. Dance um bolero pra começar, e evite o alto amasso. Melhor dançar com alguém mais baixo.

Eu fico de pescoço doído pra evitar rosto colado. Mas um dia eu vou dançar do jeito que o amor mandar . ..!
Vontade de ir no futuro, sem deixar de brincar no passado, só pra colar uma música , que a Rita canta bonito:

Só de Você
Composição: R. de Carvalho / R. Lee

.
Será que a gente ainda será
A velha estória de amor que sempre acaba bem, meu bem
Meio demodée para hoje em dia
Antigamente, tudo era bem mais chique

Porque a gente nem sabe porque
Mas acontece que eu nasci pra ser só de você
É claro que a sorte também ajudou
Ultimamente, um romance dura pouco

Cola, seu rosto no meu rosto
Enrola, seu corpo no meu corpo
Agora, está na hora de dançar...

As mãos estão suando, e o coração descompassado ? Sorria, menina, tem gente chegando...Justo o seu par preferido. Mas, e a fila ? Tem gente esperando a segunda dança... E eu num canto fotografando e fazendo renda, brigada com meu primeiro encanto, que dança com outra menina.

Mas, fazer o que ? Um dia é da caça, o outro de um novo amor. É muito fácil trocar de par, quando se tem 15 anos !

Minha amiga Odete Righi



Em 1992, trabalhei no Banco do Brasil de Nova Friburgo (RJ), como Gerente de Expediente.
Dentre todos os clientes, na minha plataforma, Odete Lara era especial.
Linda, beleza frágil e marcante, elegante sempre, usava um chapeuzinho de palha, feminino e leve, que a protegia do sol serrano. Quando ela chegava, parava todos os meus trâmites: papel para assinar, telefone para atender... Depois de colocar as suas contas em dias, conversávamos sobre o trivial. Não falava de si, nem do passado. Era outra pessoa... Mística e iluminada!Impressionava-me em serenidade e sabedoria. Depois de algum tempo nos tornamos grandes amigas. Finais de semana ela ligava e perguntava-me: "Tem bacalhoada? Você alugou os nossos filmes? Vou dormir aí".
Trazia seu saco de dormir, e frutas do seu pomar e horta. Assistíamos em silêncio os clássicos do cinema, e alguns lançamentos. Era apaixonada por cinema, e uma excelente companhia.
Quando vim embora de Friburgo, ainda trocamos telefonemas vários. Depois perdi o endereço e contato, mas a amizade ficou guardada num canto especial da minha alma.
Às vezes , quando estou fazendo palavras cruzadas, ou assistindo um filme na madrugada, escrevo o seu nome, vejo a sua imagem, mas não é do mito que eu sinto saudades!

Socorro Moreira





Minha mãe nasceu no Distrito de Itainópolis, que pertencia a Picos (PI). Meu avô, logo deixou de ser coletor, e foi cuidar das suas terras carnaubeiras, na Fazenda STA RITA, município de Valência (PI).
-Aos seis anos deixou pai e mãe, e foi estudar na cidade. Talvez ainda mijasse na rede, tomasse mingau, chupasse o dedo, mas precisava ser alfabetizada. Não tinha outra escolha!
Chegou o dia da viagem. Andou uns pedaços a cavalo para pegar o Caminhão, que passava na estrada principal. E lá se vinha aquele monstro. A poeira medonha, o denunciara. Pela primeira vez, via aquela máquina. Olhou as rodas girando, o povo na carroceria, rodando, tal como as rodas giravam, e pensou: não vou conseguir me segurar, em cima desse bicho. Vou cair, vou ficar tonta... Quero ficar... Por que tenho que ir?
Pra percorrer cinco léguas, a viagem durava um dia. A 20 km p/hora, aquele transporte andava, mas chegava!
Era quase de noitinha. Calada e desconfiada, cumprimentou os padrinhos, e sorriu sem jeito, para as meninas da casa. Elas se aproveitaram daquela inocente criança, que acabara de nascer para o mundo das províncias.
- Valda, daqui a pouco, o homem vem acender as luzes. Você fique pastorando, e nos chame, quando avistá-lo. É seu primeiro trabalho!
E as luzes magicamente, acenderam-se. Minha mãe ficou pasma, e apavorada. Nunca tinha visto uma lâmpada elétrica, nem vira o homem que esperava. Foi cobrada, foi gozada... E a primeira lição, aprendeu!
Depois, enfrentou a escola. Por razões políticas, matricularam-na, num educandário particular. A Família era opositora política dos chefes do poder. E o tempo era da palmatória. Cada erro na tabuada valia um bolo em cada mão, e uma lágrima em cada olho. Mas era a regra do jogo. Quem não aprendia, recebia castigo, feito bicho de circo. Assim, se concretizava a o ensino.
Mais para frente, perto do Natal, começou a escrever as cartinhas para o Papai Noel. Meninas bem comportadas seriam atendidas... Essa era a promessa da vida. Todas pediam, postavam nos Correios, e os pais as resgatavam, liam, e atendiam! Ela pediu um bebê de porcelana pretinho, que vinha namorando numa loja há muitos dias. Todas ganharam o que pediram, inclusive o seu bebê, que foi parar nas mãos de uma amiga. Impressionada com os critérios de Papai Noel, questionou-se: sou assim tão pecadora? Tudo lhe parecia ininteligível!
Depois que achou explicação, pensou: meus futuros filhos não acreditarão em Papai Noel. Eu juro!
Começou a estudar canto e bandolim, aos oito anos. Férias na fazenda, depois de dois anos de ausência, com direito a todas as mordomias de filha pródiga carente de colo; de banhos de rio; catar borboletas; bater palha de carnaúba; brincar com as bruxas de pano, que a sua mãe fazia. Nos aniversários ou Natal, vovó colhia flores do campo, fazia ramalhetes, e colocava nos chinelos dos filhos, debaixo das suas redes. Era de tão bela intenção, que tocava o coração, como uma valsa, no violão.
Aos 14 anos, morando no Crato, na casa dos avôs maternos, conheceu meu pai. Um boêmio, cantor, elegante, pintor... Até eu, por ele, teria me apaixonado. Bicava suas cachaças, fazia serenatas, acompanhado pelo violão de Vicente Padeiro.
Todo o dia presenteava minha mãe com uma margarida, uma fita para o cabelo, e um rabisco artístico, ora sol, ora lua, ora um céu estrelado, casa, flores e pássaros. Projeto de sonhos com todas as cores do amor!
Casaram-se oito anos depois, a filha de Maria e o Artista. Dessa argamassa poética e mística, eu nasci.
E foram felizes, dramáticos, cúmplices, amorosos, até que a morte os separou. Elos verdadeiros são inquebrantáveis!
Geraram dez filhos. Vingaram seis. Todos vivos, graças a Deus! A Prole foi aumentando, aumentando, e agora já são tantos, que a panela da cabidela não tem tamanho !
Se desgostos os filhos lhe afetaram, já dizia Joaquim Patrício, amigo da minha mãe : " uma árvore sadia não gera frutos estragados !"
A vida impoe provações , ensina, e acaba levando pro céu, quem dela prima!
Diz Dona Valda que o passaporte é caríssimo... Ela reza todo dia, pra ganhar sua passagem, e o bônus de todo mundo!


* Foto de Maria Valdenôra Nunes Moreira , aos 15 anos de idade, quando conheceu o meu pai Moreirinha.
Meu pai e a Gastronomia
Moreirinha

Quando o meu pai era vivo, queria comer peru todos os domingos. Tinha uma freguesia certa, que lhe vendia o peru da roça. Não gostava de muitas misturas. Bastava que fosse ao molho, e acompanhado de um arroz soltinho, e farofa de cuscuz com feijão verde. Na falta desse prato, podia ser substituído pela galinha caipira ou carneiro.
Minha mãe, cozinheira de mão cheia, temperava tudo de véspera, para pegar bem o gosto.
-Fazemos isso até hoje.
Dizia-nos: Para uma galinha caipira, coloquem uma cabeça de alho, uns dez grãos de pimenta do reino, suco de um limão, sal, uma cebola roxa picada, pimentão, tomate, pimenta de cheiro e cheiro verde (coentro e cebolinha).
Depois de partidas, as porções tinham que ser escaldadas e escorridas.
Pilava a pimenta, depois acrescentava os dentes de alho (macerava), e acrescentava o suco do limão, sal e colorau.
Antes a gordura usada era o toucinho. Depois substituído pelo óleo vegetal (canola é o melhor). Refogava os temperos secos ,na gordura quente com os pedaços de carne. Acrescentava os temperos verdes, deixava esfriar e colocava na geladeira coberto com papel alumínio até o dia seguinte.
A carne era cosida em fogo brando, colocando água aos pouquinhos (o mínimo) até ficar tenra e no ponto.
Os acompanhamentos ideais:
Farofa de cuscuz c/feijão verde;
Macarrão (talharim) com nata, manteiga, cebola, tomate e queijo ralado.
Angu de milho (polenta), com molho da carne e queijo ralado.
Uma saladinha básica de alface e tomate, e pronto!
No decorrer dos tempos, substitui o colorau pelo açafrão, e acrescento umas pitadas de alecrim, quando a carne é de criação (carneiro).
A nossa sobremesa geralmente era pudim de leite condensado, que ela fazia com duas latas de leite moça, uma de leite de gado e cinco ovos.
A calda de açúcar , quando a gente errava, usava mel Karo. O pudim, impreterivelmente era acompanhado de doce de ameixa, em calda bem consistente.
Depois da refeição ele pegava no sono, deitado na sua rede – sempre armada. Ventilador e som ligados. E tome Uno, Jalousie, Adeus Pampa Minha, Delicado, e os sucessos de Orlando e Nelson Gonçalves.

Coração brumado


Meu coração às vezes amanhece brumado,.

E como as brumas da manhã ,meu coração se desanuvia e volta à sua cor normal. Vermelho ou rosa ,dependo do choque.

Mas Agosto chegou, e as brumas dissiparam-se. As tristezas agora se desnudam , num azul
solar alastrante. Pelejam pra ficar na sintonia da nostalgia, mas os encontros amigos não deixam. A cada postagem, um susto de alegria !


Metades:
Uma parte sabe que é ele
Outra parte sabe que é dele
.
Aprendo sobre mim
Não é em ti que eu me escondo
.
Gotas nos olhos da cara
salpicam em folhas
de papel e flores
.

Vento não apaga
a tinta borrada
.
Folha se gasta
e a lagarta pinta !

Mestres



Eles se alternavam,

numa doce e sábia cumplicidade:

Portiguês, Matemática,

Civilidade ...

Víamos, escutávamos,

aprendíamos !



O tempo passou.

Tento resgatar os sinais ,

os seus avisos...

Abro a página do meu livro

Leitura silenciosa

Escuto a voz das entrelinhas

Suas vozes vão sumindo...

Agora sou eu,

e o livro !

O que é uma balzaquiana? O que é ficar pra titia? O que é ficar no caritó? O que é ficar solteirona ? O que é ser sozinha? O que é assumir a solteirice?

"A expressão foi cunhada após a publicação de um livro do francês Honoré de Balzac. Em As Mulheres de 30 Anos, o escritor realiza uma análise do destino das jovens na primeira metade do século XIX, em particular dentro do casamento. E faz uma apologia às mulheres de mais idade, que, amadurecidas, podem viver o amor com maior plenitude. É o que acontece à heroína da narrativa, Júlia. Ela se casa com um oficial do exército, mas depois descobre que a relação está longe de ser o que imaginava. Vê-se, então, presa a um matrimônio infeliz. Quando se torna uma trintona, porém, a moça consegue encontrar o amor nos braços de Carlos Vandenesse. "
A minha geração, depois dos 15 anos, inconscientemente ficava um tanto aflito com a possível possibilidade de ficar balzaquiana, antes do casamento. Sonhávamos com príncipe encantado, casamento com véu e grinalda, e lua de mel, longe das vistas de todos os conhecidos. Quando os noivos retornavam, a curiosidade era grande. A gente queria saber em detalhes como tudo acontecera.
Só entendi o sentido real da lua de mel, depois de encará-la mais de uma vez. Viver em lua de mel é conseguir construir um sentimento amigo, no dia a dia. Minha mãe é quem diz: vida de casada tem encontro, no decorrer, com várias formas de amor. A cada fase de vida, um tipo de amor diferente é experimentado para compensar a exaustão de outro. O amor maior é o amor zelo. E o zelo pode acompanhar a relação desde o começo. Acho que, a gente precisa mesmo é ter vocação para o casamento. E olha que, muitas vezes passamos anos, nos enganando, e achando que casar é o principal ideal de vida.
Eu tenho vocação verdadeira para o celibato. Conclui depois que defini minha solteirice como irrevogável. Mas as trocas, problemas nos relacionamentos continuam a existir. A consorte mais exigente que exige, somos nós mesmas. Difícil ser inteira, sem uma diferença complementar.
O primeiro casamento condensa todas as possibilidades. Quem não quiser casar outras vezes, por tentativa e erro; quem não quiser encarar o preço da solidão, a opção facilitadora é permanecer na primeira união. Admiro os casamentos que não terminam, e que não vivem de aparências. Feliz é quem vive o amor calmamente!
Mas existe certa felicidade, na solteirice. Aliás, só achei a verdadeira serenidade do coração, quando em mim , esta situação foi definida. Não sou contra nem a favor... Só desejo que todo mundo se encontre, e viva feliz com a sua realidade solitária ou não.


Socorro Moreira

* Ficar pra titia : é ser mãe dos sobrinhos.
* Ficar no caritó é nunca arranjar um casamento.
* Ficar solteirona é escolher demais , e acabar sozinha.
* Ser sozinha é uma viuvez aleatória ou não.
*Assumir a solteirice é ficar sozinha por opção !
Em qualquer dos casos é possível ser feliz sozinha , contrariando a canção do Tom..." o resto é mar !"



Madrugada e neblina
Esperam o nascimento do dia.

Enquanto todos dormem,
Preparo um sonho,
Mas ele brinca de esconde - esconde.
Foge do meu colo, dos meus beijos.

Ontem eu viajei no destino
Desenhei com cipó
A trilha do caminho
Chamei-te em pensamento
Você e os meus segredos

Encontrei o colo de Gaya
Senti as dores do parto
O pedido de clemência,
E a clemente oferta do amor.

Teu vento faz dançar as minhas folhas
Balança os sinos do meu corpo
Cria um mantra de nós dois.
.
Fios que nos unem não teiam
Não fiam a confusão de tantas vidas
Fios que nos unem se enrolam,
No decifro dos nossos enigmas!
.
Baby,
Eu quase me declaro em todas as notas

Virtual


O virtual é um laboratório, onde nossa essência também estagia e depura-se, através das boas trocas, interagindo energias. Nele o caminho é livre.Não precisamos marcá-lo com miolos de pão como fez João e Maria.Marcamos nossa presença na leveza das instenções, expressas com ternura Sou mesmo uma borboleta virtual.Quando chove por aqui , quero ser nuvem.

Outro dia ( já faz tempo) entrei numa sala de chat , e começei a teclar com uma velha amiga. Gostamos muito de música , e começamos a aproveitar pedaços de versos , entabulando um diálogo musical. A brincadeira foi salva . Ei-la :
" -Se o oceano incendiar, arrasa o meu projeto de vida, pois a rima que a rosa sabe dar,só encontro no mar da tua vida.
- Só mesmo o tempo pode revelar o lado oculto das paixões.Eu solto a voz na estrada, e já não quero parar.

- Esqueci de tentar te esquecer, já não dou risadas pro grande amor, já não sorrio quando a dor me tortura...Tristeza tem fim ! Existe vento soprando a felicidade sem cessar, e essa ternura tão antiga, enfeita a noite do meu bem.

- Lua meio marota, se flutua, é gota: caia na minha boca. Uva, lua, recheio, um bombom pelo meio: caia na minha boca. Se cair, feito um doce, vai adoçar o meu coração ruim. Mas, se cair feito estrela, vai rabiscar o seu nome em mim." (Meio marota - Saul Barbosa/Orlando Sant'Helena).



- Eu quero a rosa mais linda que houver, quero a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida. Como o nosso, que eu não esqueço e que teve seu começo numa festa de São João, com balões e fogos de artifício colorindo o céu. Um amor puro, que olhava a lua, doce colombina nua. Mas, hoje, eu tenho apenas uma pedra no meu peito...

- O coração tem razões que a própria razão desconhece... Eu sei que vocês vão dizer que é tudo mentira, mas, quem disse que eu te esqueço ?

- Mas a vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim. Talvez eu seja o último romântico, mas vou vivendo e aprendendo a jogar. Afinal, as águas de março já fecharam o verão. Então, eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim, como se fosse o sol desvirginando a madrugada... E canto, porque é preciso cantar e alegrar a cidade!

- Mas se não for amor, não diga nada por favor.Um dia a gente se encontra seja aonde for.Eu, você , nós dois, num terraço à beira mar com todas as canções, e inclinações musicais. Se a vida é um moinho, no vento que balança a natureza, quero me deixar levar, e um tempo de estio e elegia, verei em seu olhar.

- De todas as maneiras que há de amar, nós já nos amamos. Tomamos emprestadas todas as canções, já que certas delas cabem tão dentro de nós e perguntar carece: como não fui eu que fiz? Já te levei ao Corcovado e fotografei você com minha Roller Flex. Tivemos um sábado em Copacabana, navegamos no barquinho e tivemos brinquedos de papel machê. Comemos no tabuleiro da baiana, flertamos na Baixa do Sapateiro , pegamos conchinhas em Itapuã. Sem falar nas noites de luar lá do sertão, com rede na varanda do nosso rancho fundo... Ah! Que saudade eu tenho da Bahia!

- A poesia tem cadeira cativa.Ela canta o amor.Quando os versos se quebram, ela chora de dor.



- Ah! Se eu pudesse entender o que dizem seus olhos- poesia oblíqua, difusa, que me confunde!


-Se alguem perguntar por mim, diz que eu fui por aí...Que a morena boca de ouro era uma falsa baiana, viciada em chicletes com banana.A todos ela intimida.Faz coisas que até Deus duvida.Não sei se vou aturar esses seus abusos. Tantas ela fez, que eu até fiquei , curtindo uma doce amargura.

- Mas não faz mal, está tudo bem, pois alguma coisa acontece no meu coração. E eu rondo a cidade a te procurar, hei de encontrar! Na Paulista, os faróis já vão abrir e um milhão de estrelas prontas pra invadir... Você é isso, uma beleza imensa, estrela matutina, luz que descortina um mundo encantador. Se você quiser, eu vou te dar um amor desses de cinema! Case-se comigo antes que amanheça !

- A linguagem do olhar é truncada, e ao mesmo tempo tão clara, que os mistérios de Clarissa, ela pode desvendar.


- Fecho os lhos de saudade e caminho entre os canteiros que me fazem lembrar você. E, por mais que eu durma, eu não descanso. Por mais que eu corra, eu não te alcanço!


- Amar, dar tudo, não ter medo. Tocar o mundo, pôr o dedo no lá. Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ter mais, mas sabe menos do que eu. Eu sou assim. Quem quiser gostar de mim, eu sou assim. Vivo sonhando, sonhando, mil horas sem fim. Sabe você o que é amor? Sabe o que é um trovador? Sabe!


- Já sei olhar o rio por onde a vida passa, sem me precipitar e nem perder a hora. Você foi um rio que passou em minha vida... Vieste na hora exata, com ares de selva e luas de prata. Você foi o meu sorriso de chegada e a minha lágrima de adeus. Ah, quantas lágrimas eu tenho derramado! Mas não há de ser nada, eu vou por aí... eu vou por aí. (A minha estrada, ainda, corre por seu mar!)

- Bem, agora, deixe-me ir, preciso andar. Vou por aí a procurar rir pra não chorar. Sabes que a língua do povo é contumaz, traiçoeira. Eu desconfio que o nosso caso está na hora de acabar. Esquece o nosso amor, vê se esquece... Se alguma pessoa amiga pedir que você lhe diga se você me quer ou não... Diga que vocÊ me adora, que vocÊ lamenta e chora a nossa separação! Que eu te perdoo por fazeres mil perguntas que, em vida que andam juntas, ninguém faz. Mas que eu vou voltar, sei que ainda vou voltar. Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto! Porque você foi o maior dos meus casos, de todos os abraços, o que eu nunca esqueci. Das lembranças que eu trago na vida, você é a saudade que eu gosto de ter. Leve na lembrança a singela melodia que eu fiz pra você...

- Vamos! Vem andar comigo numa beira de estrada, nesse lado ensolarado que eu achei pra caminhar! Por você, eu largo tudo: carreira, dinheiro, canudo! Vou dizer que o amor foi feitinho pra dar, porque coisa mais bonita é você. Assim... justinho, você, eu juro! Eu eu não ando só, só ando em boa companhia!

- Boa noite ! Fiquem na paz. O amor está no ar...É só aspirar ! "

As falas não eram direcionadas entre si, mas evocavam sentimentos mil.

A gente usa a música como pombo correio.Um pombo que não volta com a resposta . Cantar é um desabaço , e um prazer. O palco pode ser o banheiro , uma varanda com rede armada ou uma cadeira de balanço. No virtual, também se faz serenatas.

Naquele dia cantamos e lembramos as músicas que sabíamos , na memória da emoção.

O dia da Socorro Moreira - por José do Vale Pinheiro Feitosa
Fiz duas postagens (abaixo) sem antes ler o Blog. Após terminar a tarefa que executava, o abri. E nele o dia da Socorro Moreira. O aniversário da Socorro.
Pensar sobre aniversários é fácil. O difícil é não se repetir ao dizer algo sobre eles. Não neste caso. A Socorro Moreira realmente plantou um ímã na cidade do Crato. Um imã que inteligentemente soube dar efeito à distância. Pronto ela mesma se confunde com a cidade e a cidade com ela.

Abro as imagens e o Nilo sempre por lá, Joaquim Pinheiro mesmo quando não está, lá se encontra. O Armando, Carlos,  Edilma, considerem que a Socorro além de tudo é um pouco de todos eles.

Nestes tempos de autorias, nesta vaidade banal do eu fiz, nada como uma Socorro Moreira que é ao mesmo tempo todos nós e todos somos ela. Igualmente somos  Joaquim, Nilo, Hugo Linard, João Marni, Edilma, Bisaflor, Corujinha e vou seguindo para não repetir a lista que sabemos longa, inclusive Eu e o Salatiel que nesta parte do planeta nos encontramos.



Na ponta da rua
Moreirinha é arte!

Minha mãe,
minha avó, minha casa,
meu pé de algaroba
minha catapora...
Tudo para trás!

Casa dos apertos
Redes pelas salas
Um banheiro só
Uma fila grande
Toalha encharcada,
um lençol gigante

Carta e telegrama,
um amor distante,
outros lá na vala.


O mergulho dos carros
A queda dos meninos
Um tiro, um enfarte
uma chuva, um sumiço
Casamentos na sacristia
Fatalidades, mescladas de
Alegrias .

Palacetes, casas conjugadas,
dentro de um só plano.
Cadeiras na calçada
E a gente a passar, a deixar
hora íntima, no ar...

Dor de cotovelo




Lupicínio e a dor-de-cotovelo
As aparências enganam
Lupicínio Rodrigues


Vejam como as aparências enganam
Como difere a vida dos casais
Não são aqueles que mesmo se amam
Que sempre moram em lugares iguais

Uns se casam porque se querem
Outros somente por comprazer
Sem nem pensar que por mais que fizerem
Nunca haverão de deixar de sofrer

Com seu criado que está presente
Também se passa uma história assim
Ela casou-se com outro vivente
E eu tenho outra mulher para mim

Só uma coisa eu sempre reclamo
E até hoje não me conformei
Que quem casou com a pessoa que eu amo
Beije na boca que eu tanto beijei

* Essa música foi inesquecivelmente gravada pelo ilustre cearense Gilberto Milfont, contemporâneo do meu pai, na cidade do Crato. Eles cantavam juntos na antiga Rádio Araripe , nos anos 40.

* Assim falou Caetano de Lupicínio : as canções dor-de-cotovelo não falavam das histórias vivenciadas por ele. Segundo consta , no testemunho da sua mulher, foi muito feliz no amor e no casamento. Porisso que a sua "fossa" tinha perspectiva, um norte , uma compreensão racional.
O poeta fala da dor do outro , como se ela fosse sua...O que de fato é verdade. E Fernando Pessoa , quase disse a mesma coisa.
A gente que gosta de escrever fica esvaziado quando está desapaixonado ou sem sofrer ... Isso é mentira também. Pra felicidade , pra saudade e pro amor nunca falta pano pra gente costurar um poema. O que falta é o poema chegar, e dizer !
Não existe uma única canção de Lupicínio que eu não goste de cantar...
"...Êta dor/que não devolve quem se ama/ êta dor que ninguém quer dizer que tem/ disfarçada num sorriso mentiroso/ é um pedaço de saudade de alguém."
- Essa é mais uma dor da humanidade : a dor-de-cotovelo. Ainda bem que ela dá e passa !

Lentes do encanto



Um falava
A outra escutava de olhos arregalados,
completamente encantados.
Os amores nascentes , entravam
por todos os buracos.
.
Tempos depois, esbarraram-se,
numa das esquinas da vida.
Os dois ainda, pessoas apaixonadas !
Falam do mar, do amor, e
do vento acariciando a alma.
Possuem silenciadores, mas
preferem amplificar sentimentos...
Reencontro pra viver
tudo aquilo que faltou.
Pra um nem faltou nada ;
Para o outro, muito menos ...
.
- Mentem !
Faltou um beijo...
e agora querem os juros e as juras...
Querem muitos beijos juntos !
.
Sonhos, pensamentos
revelam que os sentimentos
mudam de chão e de cor
Faz tempo, faz tempo ...
Um dia você chegou !
.
No silêncio das manhãs vou fiando
o terço do meio dia
Quando o dia finda
meu coração se inflama,
e acende uma poesia.
- Tonta e branca,
a lua descobre a pauta ,
e compôe a melodia !


Lembrei a canção que o Orlando Silva gravou. Uni-me ao compositor, e percebi a dor das folhas secas, abatidas pelo vento, envergadas por falta de viço e de vida.
Apenas lá, esperando o açoite dos ventos.
É como uma rosa seca, escondida nos livros do passado... Perdeu o cheiro, mas sabe contar histórias.
É como amores fenecidos, ainda misturados, a tantas coisas vivas, merecem o respeito de ser reintegrados ao útero de uma terra viva.
Que tudo se transforme em pó: as velhas palmeiras, pessoas, coisas... Que possam estrumar novos sentimentos, recriarem-se!
Doeram-me aquelas palmas acanhadas e secas, sem o carinho e a dança do vento. Combinam com o final do dia, entre a rosa e o grafite.
A natureza na ausência do sol enluta-se.A lua, eterna viúva, numa fase de alegria, chega com o seu bando... Bando que pisca, faísca ,e assume seu posto, na festa da boemia.
Choram as flores, seus orvalhos... Nuvens também se dispersam ou se condensam, quando finda o dia.
O tempo esquentou. Troco meu costume, e na seda me aconchego, como num corpo do amante.
Corpos secos, roupas brancas, marfim... Como os velhos coqueiros, que agora vejo, vestidos no terreiro, com a roupa do fim!

Socorro Moreira



Lá fora o mundo é mar
Meu olhar pula
Avista tudo de forma turva
Faço conta dos anos
Cumpridos e não vividos
Faço contas nas tardes compridas
É vermelho o meu saldo de agonias
É azul o mistério dos meus dias!

Colegas



Ontem, Nilo Sérgio entrou no blogue , com a promessa de contar as peripécias da sua turma de Ginásio.

Na mesma hora , pensei na minha turma do São João Bosco , e pelos signos dos anos , essa turma também marcou história e tonou-se inesquecível.

Quando conhecíamos um garoto ou nos informávamos sobre algum , a primeira pergunta era : " que série você está cursando " ?

Os afins , na nossa concepção , faziam a mesma série, tinham mais ou menos a mesma idade , os mesmos referenciais. A diferença, hoje eu sei , é que não temos um registro de danações, mas temos um registro importante de bom convívio.

Por falar em *convívio era de praxe arranjá-los , na forma de encontro e entretenimento.Provavelmente aconteceu algum com a turma do Nilo. Provavelmente rolou , no mínimo , um caso de amor entre a minha e àquela turma.

Mas olhando a foto postada, a lembrança de cada um vai se animando num dado contável... afinal não existiam na época, fatos inconfessáveis.

Pela ordem numérica : Nesinha Batista , Márcia Barreto , Francíria Alencar , Ione Esmeraldo , Socorro Matos, ( ?) Ismênia Maia , (?),Rosineide Esmeraldo , Tarcisinho Leite , Magali Figueiredo, Edna Brito , Lisete, Socorro Moreira , Divani Cabral, Walda Arraes , Angélica Aires, Joaquim Pinheiro, Graça Aragão , Stela Siebra, Vera Batista, Regina Vilar e Hugo Linard.

A turma tinha vários hinos. Stela era mestra em parodiar os sucessos musicais da época. Mas, a que mais caracterizou a nossa alegria, juventude , e espírito de festa foi a música "Festa de Arromba " do Erasmo Carlos. Não me atreveria a escrever a tal paródia ,pois haveria falha de memória... E se nos valéssemos da memória coletiva ? A paródia da Stela, talvez fosse reconstituida. Essa proposta não é dever de casa, nem está valendo nota... Vamos tentar , aqui pra nós, resgatar pelo menos , esse tempo de felicidade?

* Reunião nas tardes de sábado, entre as mesmas classes de diversos Colégios , com música dançante e comes e bebes.




Rastros ...



Noites de ócio
longas , insones ...
Internet, TV, telefone
de pensamentos fixos,
pesadas nos vícios .
Tardes de torpor
sonolentas , vazias .
Manhãs atropeladas ...
Curtas manhãs !
-Tempos roubados de mim !
.
Rio dos alentos
Recife dos reencontros
Crato comigo...
unido, indescritível
Estradas sem pontes
Rio sem margens
Profundas viagens
Pálpebras pesadas
pernas cruzadas,
diante da claridade...
Fechando ciclos !
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Minha mãe voltou
Abracei o colo que foi meu
Ainda tem aconchego
no sorriso terno
Ainda tem luz
nos olhos sábios !
Na esquina da rua
vi o vazio do meu pai,
encostado no muro
Presença invisível ?
Pensei ouvir seu assobio
Tanto tempo passou...
O tempo anda,
e vultos invisíveis
se alastram como buracos,
marcando a história.
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Túnel do tempo
Entrar e sair
Abraçar, despedir-me
Fazer isso na memória ...
Seguir o rastro do perfume
Aspirar a poeira das horas !

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Insensatez



Hoje eu disse hoje pra uma amiga que o meu coração está aposentado, que ele pendurou as chuteiras,e que foi promovido para técnico amoroso.

Pensando bem, eu mesma o destitui da posição de técnico. Quem pensa que sabe , nem adivinha ! As coisas do coração são mesmo indecifráveis...Não exatamente complicadas !

Raros são os encontros , e a paciência no amor é quase utópica. Admiro os pares que se aturam , e acabam construindo uma realidade amorosa, nem sonhada , de tão linda !

Parece até que, inconscientemente, temos certeza de que existimos sozinhos. Mas o desafio de achar a companhia certa , está internalizado , e vive de teimosia.

A paixão é uma loucura que o amor cura.

A paixão acontece , num cruzar do olhar, numa troca de versos, num momento mágico. Se for alimentada , e dependendo do alimento, ela nos enlouquece , como um porre de vinho. Mas quem sabe amar, cura a paixão , empresta-lhe equilíbrio, e vai acertando os desencontros com novos tipos de encantos.

Existem pessoas que são vulneráveis a qualquer encanto. Sentem paixão por um, amam outros; na presença de um , sentem a falta do outro; não conseguem se definir;vivem o desequilíbrio e a eterna inquietação amorosa ; só valorizam a paixão: "São loucos !"

Hoje escutei de uma amiga : " não existe felicidade com traição".Quem ama está vulnerável, sim! Se a gente desiste de uma pessoa, ela torna-se vulnerável , e pode amar de novo. Às vezes a melhor e única solução é promover a liberdade do outro. Soltar o pássaro da gaiola, e também voar ...A coragem de ser livre não implica em perdas...É ganho de si mesmo !

Tem gente que é louco de paixão, e não sabe administrar sentimentos. O fado é solidão !

Tem gente que tem vocação para solidão. Abraça o destino , e se acompanha de outros afetos, que podem ser verdadeiros.

Fiquei muito estranha quando descobri que eu estava curada das paixões. Que o amor pode ficar longe, em até noutro plano... Que a vida não nos esconde alegrias, e que é cómodo dormir e acordar sozinha.

Mas uma coisa é certa ... Não adianta driblar o coração. O olhar e a palavra conseguem trair,mas o coração é fiel; não se engana, nem engana ; ele é curado de paixão, quando percebe que o amor gosta de respeito e lealdade; que a gente perde o que não merece... E que a paciência faz com que a gente ganhe o bem desejado.

Acho que escrevi pra mim mesma . Espero que outros se identifiquem com o texto, e me acrescentem um recado.