por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Fim de noite



Fim de noite
é o dia amanhecendo
Olhos sonolentos
querendo mais vida ao relento
Quando o músico guarda o instrumento ,
quero a saideira em doses , em notas ,
e no guardanapo molhado ,
mais um tonto poema .


Fim de noite
é droga que se evapora
voz rouca , coração cansado
transformado em saudade


"Olha , fecha os olhos meu amor ...
é noite ainda ..."


Céu escuro que vai clareando
Murmúrios no silêncio
de uma noite que cala .

Havia tantas estrelas ,
e tão pouco céu ...
Agora existe um sol cor-de-rosa
e o infinito imenso pedindo uma rede ,
e a benção da aurora !

Noite caipira




Enquanto fazia as tapiocas para o café da manhã, voei para a Granja de Pe. Frederico, aonde passei longas férias com a minha avó Donana e as minhas irmãs Verônica e Zélia. Todas , nos curávamos de uma resistente coqueluche.Lembrei a minha intimidade com as fruteiras, os banhos na piscina rústica, e as bolachinhas e tapiocas do café da manhã, que eu tanto apreciava. Naquela fase, Dona Anilda Arraes também estava lá, hospedada.Nas manhãs fazíamos umas caminhadas por entre as levadas , pés de manga e siriguelas ...Mas, de vida mansa a gente se cansa ! Foi com grande alívio que vi chegar o dia de voltar pra casa. Saudade de pai e mãe era imperiosa !
Relembro os passeios da escola, no transporte de Seu Duzentos para a mesma localidade. O terreno abrigava um monte de esconderijos. E aqueles , eu conheci palmo a palmo.
Hoje é noite de São João. A simplicidade das comidas juninas, músicas, folguedos, colorido das bandeirolas, enfeitam meu dia com tantas memórias !
Vou na feira, lá embaixo, atrás de carimã pra fazer pelo menos um bolinho, com tudo que a receita exige : leite de coco, manteiga, ovos, queijo ralado, açúcar, leite de vaca e a massa puba. Quando sair do forno , faço um cafezinho, e convido vocês para um lanchinho.
Feliz noite de São João, pessoal !
Não sejam noivas de quadrilha... Dizem que, quem casa de mentira, não casa de verdade !

Namorado

Depois de alguns meses de flerte incerto, ora olha, ora não olha, ora o cruzar do olhar, naquela noite de domingo, enquanto rodava na praça Siqueira Campos de braços dados com a vida e as amigas, Clara escutou o boa noite de Paulo. Todas se entreolharam, mas foi o coração de Clara que fez zoada, no descompasso !

Parou, e as amigas entre sorrisos assustados, se afastaram.

Paulo arranjou coragem, num cigarro "Capri"?

Ou foi a música da Frigidaire , que detonou o avanço ?
" Coruja, o nome que eu dei a um certo alguém, que passa e nem sequer olha ninguém, pensando só tá ela , no lugar..."




Olhos nos olhos, e a pergunta clássica , entrecortada : " quer namorar comigo"?
Uma resposta evasiva . Um sim decisivo por dentro, e um talvez cheio de pudores , na voz do momento.
- Sou nova, 13 anos incompletos... meus pais não vão aprovar. Morro de medo de uma surra; morro de medo de me apaixonar... Mas os olhos disseram sim , e o romance começou a se encaixar. Conversas doces, nervosas, palpitantes. Clara pela primeira vez, anrranjara um namorado.
Naquela noite , antes de dormir, escreveu no seu diário :
Ele encostou. Estamos namorando, e marcamos novo encontro, no Cine Moderno , sessão das 4 h, para assistir Elvis Presley !
Ao som de "love me tender " , o primeiro momento de intimidade : um simples roçar de braços ! E começou o mundo de encantos, lágrimas, prazer, e o cheiro das saudades !
-Era o dia 2 de Junho de 1964 !

Mestre- Cuca




Crato e a Gastronomia, nos anos 60. Dona Valda, minha mestre-cuca!

Ainda há pouco, desci para almoçar, o feito por mim! Tava legal, porque faço pensando no paladar do meu filho, Victor. E se eu morasse sozinha? Com certeza comeria muito mal.
Entre a sala e a cozinha, eu me senti vestida de farda, boca cheia d’água, estômago roncando, correndo pra almoçar , depois do expediente escolar.
Todos os dias, o cardápio era previsto:
Na segunda-feira, um baião de dois escuro (muito feijão), soltinho, porque era refogado com torresmo. Carne de sol assada, no fogareiro a querosene, paçoca, banana da casca verde.
Na terça-feira, nos aguardava um cosido com todos os legumes (batata doce, macaxeira, jerimum, cenoura, etc); um arroz branco soltíssimo (minha mãe só comprava arroz velho);
Macarrão refogado na nata de leite, e pirão feito com o caldo do cosido.
Na quarta-feira tinha sempre lombo assado, recheado com pequenos pedaços de toucinho; salada de ovos cosidos com tomates, feijão mulatinho, do caldo grosso, bem temperado. Minha mãe fritava rodelinhas de batata-doce, que pareciam deliciosas bolachas. Adorávamos!
Na quinta-feira tinha bifes batidos no cepo, acompanhados de jerimum bem verde; arroz com pequi, macarrão de forno com queijo ralado e ovos batidos.
Na sexta-feira era o dia do peixe ou bacalhau ao molho de coco, e aqueles temperos verdes . Tinha sempre um molhinho separado com pimenta malagueta. Aí cabia o purê de batata, e o feijão verde temperado com nata.
O sábado era o pior ou o melhor dos dias. Detestávamos carne de bode ou carneiro, mas ela tinha que agradar ao velho... Então fazia nas paralelas costelas de porco assadas, uma frigideira de carne moída, uma titela de galinha, na chapa.
Aos domingos, o cardápio era sagrado: galinha (só existia a caipira) ou peru, ao molho pardo, salpicão de legumes, arroz refogado, polenta de milho verde.A mesa era colorida e farta !
Os jantares é que lembro com mais saudades: arroz topado, sopa de feijão, canja de galinha, arroz com tripa de porco torrada, fígado, arroz com ovo caipira e lingüiça caseira. Hum... Que saudades de todos aqueles pratos!
Dos lanches também: das 9 h e das 14 h.
Só não gostava quando ela inventava gemada de ovos caipira com mel de abelha. Achava enjoado! Mas os suspiros, sequilhos, doces no tacho com queijo de manteiga, banana frita, bolos diversos, umbuzada, mangusta... Vixe, bom demais!
Minha casa tinha esse movimento de festa na cozinha.. Eu me criei gostando de sentir os cheiros, e pegar na colher de pau, pra mexer o vatapá.
Nada de pizas, lasanhas, parmegianes, nem salmão defumado. Lagosta? Só conhecíamos, no máximo, cioba e cavala. No mais era traíra, piau... !
Não tínhamos musses, nem gelatinas de sobremesas. Minha mãe fazia o tradicional pudim de leite, e batia o mamão com maracujá ou laranja, colocava uma calda de ameixa, e ficava lindo e delicioso!
Valda querida, obrigada por ter cuidado tão bem da nossa família. Hoje estamos presos aos grelhados, descartamos os temperos de porco, e aderimos aos azeites de oliva, mas tua comidinha( cem por cento natural) , ficou na memória de todos os meus sentidos !

Corpos de papel




construímos tantos corpos de papel...
pichamos muros
pintamos telas no céu
fizemos abrigos subterrâneos
descobrimos mapas de labirintos
nossa floresta era imensa...
nos perdemos no caminho
catando flores
e destruindo ninhos.

olhei demais pro céu
pensando que você,
fosse um passarinho !


Você corta o filme
amarga o recado
deixa o mel
na porta do enxame
deixa a flor
na madrugada aberta
morrer na manhã


Sono que se vai
O lado vazio e silencioso da cama
Arrumo o lençol que fala...


Presente com tinta
Futuro sem papel
Passado amarrado
Pipas voam alto do além para cá...
Conquistam espaço
Na janela do quarto
vejo um pedaço do céu!

Casa abandonada x Vida restaurada



Beira de estrada. Horta , pomar e jardim , consumidos pelo mato.Sumiu aquela mistura de verde e encarnado, salpicado de rosa. Ocre tom...verde-fechado e amarrotado !
Quero gritar pelos de casa , pedir-lhes um copo d'água ... Um silêncio fúnebre , quebrado pelo vento, num mato sem cachorros , responde.
Passo e enxergo o abandono , igualado com uma magia estranha. Tudo caindo aos pedaços : a casa, esperanças , .e um sol desnecessário ! Paro e adentro em pensamento , destarte o cansaço da estrada .
Na sala um banco de cimento; um chapéu de palha rasgado ;uma carta queimada , e uma placa descascada , onde se pode ler : "Lar , Doce Lar..."
O corredor é estreito , escuro e úmido ; telhas quebradas , espalham-se no chão de mosaicos; quartos amplos, móveis corroídos pelo cupim; colchão destruído pelas traças. No outro quarto , um brinquedo de borracha , mistura-se aos farrapos. Na cozinha um fogão de lenha, uma chaleira amassada, esquecida do último café que esquentou ! Uma caneca de Ágata , um pote de barro, uns caixotes de madeira, cobertos de mofo e poeira . No teto , um império de aranhas. Ministérios, templos , castelos, pontes e jardins suspensos por teias ... tênues linhas , que se invisibilizam . Tudo negro, sem vida e sem cor ! Banheiros primitivos ; uma cacimba , e a mata virgem , com não sei quantos hectares , sem caminhos.
Como construir nesse casebre um doce amanhã ?
No primeiro dia seriam recortados os caminhos. Limpa do terreno , transformado em avarandado com cestos de samambaias.; chão e paredes vassourados , sem sequer um pé de lixo , nem uma única folha , trazida pelo vento . Novas telhas , novo cal , água no piso ; janelas e portas, enfim desferradas ! De lá sairá um caminhão de poeira , e outro de fantasmas !
Dia seguinte , portas e janelas pintadas; fechaduras novas , , vitrais com motivos florais , jardineiras com sementes de gerânio e beijo americano . No quarto uma cama de ferro , uma cortina de renda , e uma colcha de retalhos; um baú de guardados , com saches de patchuli. No banheiro uma violeta , um armário com sais e sabão de alecrim ! Sala com sofás de cipó , almofadas de chita , uma cadeira de palhinha , uma mesinha de canto , aonde teu óculos , teu livro e teu licor , descansam !
Um velho piano , espera uma serenata , em noite de lua ...Uma lareira crepitante , espera uma noite de Julho !
Na cozinha , a alquimia de todas as ervas; potinhos de geleia e farinha , e um monte de lenha , pra não faltar fumaça , na chaminé . Copos de alumínio areiados , espelhando teu rosto. Cheirinho de feijão temperado com uma folha de louro, e um velho papagaio , a te remedar ... " não quero outra vida.Nessa paz eu morro "!
Flora revitalizada , cachoeira jorrando água pros banhos matutinos e vesperais . Amigos chegando , cerveja gelando , pipocas e castanhas estalando ... lua pairando , e iluminando a poesia !
Quem neste sonho pára , toma café com Dona Maria , e ainda ganha outro agrado : pedaço de sonho , pintado num arco-íris !

A Dama de olhos azuis
Para Dona Anilda Arraes

Desde criança conheço aquela moça. Intimidava-me a sua elegância, o porte de nobresa. Fugia da minha tanta admiração.Corria da conversa, da aproximação. O casarão de esquina, bem perto das minhas moradas. O Jardim da casa, palco dos meus contos de fada.
Tenho quebrado a distância. Ontem entrei no seu quarto.Tudo lindo, tudo em ordem, tudo em paz.
Na semi inconsciência , seus olhos acordavam para um breve reconhecimento.Perguntou meu nome... Respondi, e ganhei o mais valioso dos sorrisos.
Depois, a contínua pergunta :
Tá chovendo muito grosso?
Preciso voltar pra casa...
Caíra outra vez, num instante da eternidade.
Ela Educadora , deixou-me um traço forte de precisar fazer, sendo a simplicidade .

Delicado



ALFREDO MOREIRA MAIA - meu avô paterno.

Filho do Caboclo Moreira e esposo de Donana - O mais terno avô do mundo !
Morreu de aneurisma , desgostado , quando teve que sacrificar seu cachorro "Tupã". Eu contava 6 anos.
Cuidou das minhas mamadeiras , adoçou minha boca com balinhas de umburana , carregava-me nos braços , quando eu adormecia , no colo de Donana. Aperriava aquele homem , o dia todo ... Vô , quero dois mil réis pra comprar pirulito. A sua caixinha de moedas , ficava sempre vazia .
Era dotado de uma inteligência privilegiada. Nada existia que , nas suas mãos não tivesse conserto , nem se transformasse em arte. Era um artesão de primeira. Consertava o relógio da Sé , da Pça da Estação , fazia bolas de bilhar para o "Bar Ideal " , joias ; fundia qualquer metal , e transformava numa peça útil ou ornamental.
Elegante e belo , vestia-se no cáqui ou no linho branco , chapéu combinando , relógio de algibeira , suspensórios e alfinetes na gravata.
Que sorte teve a minha avó , de ser amada por aquele homem !
Ficou na minha memória o seu assobio : Delicado ...Um choro lindo - Sua canção preferida !

Cheiro de café


A cozinha é a sala de visita dos íntimos. O cheiro de café está sempre no ar... Um dos preferidos de todos . Só perde pro cheiro de chuva e empata com o do jasmim!
Todo mundo tem sempre algo para contar. De instante em instante , alguém toca a campainha ou o telefone chama . Todos estão sempre pendurados no celular, ou ligados na internet... Se duvidar , têm até namorado virtual!
Juscelino Kubitschek não é mais o Presidente da República. Inventou Brasília ,e o Rio deixou de ser a Capital da República . Copacabana é só dos nossos sonhos, e dos boêmios cariocas!Deixei de fazer roupas de bonecas, de ler estórias da Carochinha , de levar lancheira pra escola, de ganhar bombons do Pe.Frederico ,no Instituto São Vicente Férrer; de dançar a quadrilha gritada por Zenira Cardoso, de soltar balão, chuvinha e cebolinha na calçada, em noites de S.João ; de brincar de roda (só de combinação...) , de ler romances em voz alta pra minha avó Donana ; de assistir novelas de rádio, de participar de programas de auditório na Educadora ( subir aquela rampa ...era pura magia!); de dançar nas tertúlias da Pedro II ; de ouvir as serenatas de Peixoto e Zé Flávio ; de usar mini-saias, laquê no cabelo e passar baton com gosto de caramelo, café com leite ou hortelã ; de "aprender" latim com Vieirinha, Ciências com Ivone Pequeno, história com Alderico Damasceno, Química com Pe Davi, Geografia com José do Vale Feitosa, Desenho com Dr.José Nilo , Português com Dr. Zé Newton ...etc,etc,etc!



Apaixonava-me, platonicamente, todos os dias, pelos primos, colegas de classe, e vizinhos! Não perdia a Pça Siqueira Camps nos dias de domingo. Levei lanche pra assistir "Os Dez Mandamentos" , no Cine Moderno. Colecionei álbum de figurinhas dos artistas de cinema. Flertei, indefinidamente, com o garoto dos meus sonhos, sem a menor esperança de namoro...
Senti a alegria do primeiro clarão de Paulo Afonso, e a invasão dos eletro-domésticos, em nossas casas! Ai, ai... Foi o fim da "muriçoca"... genial ! Li revistas de amor em quadrinhos: Capricho, Ilusão e Destino ... Comprei discos da Jovem Guarda. Pedi música por telefone no programa de Rádio de Heron Aquino: (Sou feliz/no trem que parte para o interior/feliz.../porque comigo vai, o meu amor/ e o trem.../ só chega quando o dia amanhecer...") ...E chegava mesmo, em Fortaleza!A gente viajava pra ver o mar, fazer exame de vistas, comprar o óculos, comer cachorro-quente, e tomar "Grapette" ( quem bebe Grapette, repete !).
Criança, adolescente, mulher e mãe,numa única década...inocente e abruptamente!


Feliz aniversário, André !
Hoje é dia de ir pra cozinha, bater um bolo, receber teus amigos...
Hoje é dia de te abraçar, te abençoar , e agradecer a Deus, porque tu nascestes!

Parabéns pelo canto, pelo jeito brejeiro de dançar, pelo idealismo profissional, por ser o pai de Bianca e Sofia.
Que a tua estrela sempre brilhe !
Um abraço amoroso , menino!

Limbo poético



estou no limbo poético
esperando a salvação da paixão
ela já não sabe me iludir
já vestiu todos os seus olhares
pra mim
agora , cega de brilho,
me espia de óculos escuros,
e eu digo...
bons, aqueles tempos,
em que me consumias !
O fim do encanto
É o início de outro encanto
Amor em meta(mor)fase !

dejá vu



o tempo brinca comigo
vivo o dejá vu
acordo e adormeço
num sonho contínuo
teu olhar me espreita
teu sorriso me enamora
depois a imagem some
e o meu coração vazio
habita uma nova história.
Desisto de esperar
um milagre que não volta !

Impasse



e a noite corre
na cidade em festa
aqui o sono já vestiu a camisola
e espera a camomila do repouso
o povo começa a chegar
com a intensidade
do que se quer
antes que a vontade fique fraca
e desista da vida....
impasse :
minhas pernas precisam passear !

Bonecas


temos a testa em comum
a mania de comer o que não pode
a gula de chupar duas bolas de sorvete

o pique de viver cantando e dançando,
eu perdi...
-ela só está começando!

ainda aproveito pouco , o tempo
deixo a oportunidade escapar
perdendo pela terceira vez
a leveza da infância:
a minha, a dele, a dela !

Quero o sorriso das meninas
antes que o meu se perca na terra
e o pó se espalhe na trsiteza
da falta de chuva.

nem demais, nem de menos...
tenho nenhum tempo
e estico o que fazer
pra ganhar sinergia
nas possíveis alegrias.

Alegria certeira
é olhar Bianca e Sofia,
brincando com as bonecas ...

"Cinderela sem sapatos" - por Socorro Moreira


Ontem rodei o comércio do Crato pra comprar um sapato novo. Fui parar na "Azteca", sapataria de Seu Modesto, mesma rua, mesmo prédio, mesmo número.
Aí lembrei da minha mãe, tão linda e tão moça, no início da década de 60. Ainda menina-moça, eu queria antes dos 15 anos, uma sapato de broto. Nada de meias curtas, e fivelas no sapato, com formato de boneca.Mas não tinha independência no querer. E a minha mãe comprou o modelo que eu rejeitei. Ela queria segurar a minha meninice, e conseguiu!
No decorrer dos anos, usei saltos Luiz XV, sandálias altíssimas, do jeito que eu quis.
Ontem eu podia comprar o que eu gostasse, preto, vermelho dourado...Mas a danada da diabetes, ordenou um sapato confortável.
Só tinha duas opções : ou ficava de saltos, sem circular na festa , ou comprava um sapato "moleca" pra caminhar pra todos os lados, e quem sabe, até dançar !
E sai com aquele pacote, no braço. Um sapato como usei aos 11 anos de idade, e como podem usar as "velhinhas" ,que precisam manter o caminhar aprumado..
É assim a vida ... Uma escada !
No começo a gente engatinha, depois pula os degraus de dois em dois... Mas,depois, começa a andar devagar, pra não cair , capengar, e ficar paralizada !

Amigos ! - por Socorro Moreira




Ontem, dia do amigo, tentei contar nos dedos, quantos amigos me fazem feliz.E na medida das lembranças , fui postando os convites para compor a lista de colaboradores do Cariricaturas.
Descobri que são muitos, na qualidade :
Minha amiga primeira (Valda, mãe);
Meu pai (Moreirinha) - o maior de todos.
Mas tem o fura-bolo, o cata-piolho ...
Amigos de infância, de escola, de Banco do Brasil, de blogs, amigos do virtual ,familiares , amigos que deixei nas cidades onde morei, amigos que me aconteceram agora .
Mais importante do que todos os meus amores , todas as minhas paixões - são os meus amigos de hoje , e de outrora.
Escolhi Joaquim para representar esse universo de afetos.
Foi no meu primeiro dia de aula. Eu tinha menos de 4 anos de idade , e estava naquela sala do Externato 5 de Julho , fardada , de lancheira e cartilha debaixo do braço , quando nos conhecemos.
Depois nos transferimos para o Instituto S.Vicente Férrer , onde concluímos o primário. De lá prestamos exame de admissão ao Ginásio , no Colégio S.João Bosco ... Treze anos de coleguismo , de vidas paralelas e tão unidas !
Não conversávamos , mas sabíamos tudo um do outro. Tudo !
Foi para Joaquim que eu escrevi meu primeiro bilhete( aos 5 anos de idade).
Brincando ele diz :
"Você sabia escrever, mas eu não sabia ler..."
Quarenta anos depois, a gente se reencontrou. Lembramos com detalhes nossa vida escolar : professores, colegas, festinhas, passeios, interesses, encantos ...De memória infinitamente mais prodigiosa do que a minha , montamos em muitas conversas o quebra-cabeça da nossas vidas.
E quando lhe pergunto ... Hei, por que nunca dançamos, nunca fomos camaradas, nunca trocamos confidências, nunca fomos ao cinema ...???
Ele responde : "Você era muito séria !"
Joaquim Pinheiro representa minha infância , adolescência , minha maturidade e jovialidade presente.

Apesar do distanciamento por tantos anos , descobrimos e reafirmamos a nossa irmandade , que eu digo que é eterna !
Hoje eu sei que ele não é apenas filho de Dona Almina e Seu César; irmão de Maria Amélia, Zé Almino , Maria Edite; sobrinho de Dona Anilda, Dona Alda, e Miguel Arraes ; primo de Dedé , de Fernando, Maria José ... Ele é o esposo de Raquel e pai de Raul e Renata ; avô de Miguel , que está pra chegar ... É o meu amigo novo e antigo; meu grande referencial de amizade !
Para Joaquim o meu abraço de respeito e carinho, extensivo a todos os meus amigos de todas a eras !

Para Ismênia Maia




amiga,
aquele poema que o vento levou,
que de tão leve deixastes escapar
era tua alma clamando o amor
lembrando-te que a razão
também em vãos, às vezes se distraí!

eu também tenho dessas fases
dá um branco, no papel em branco
as letras se escondem de mim
e os sentimentos confusos,
ficam resfriados,
e enrouquecidos,
não sabem falar.

amiga,
que informava a melodia
que solfejava o canto italiano,
e sem dizer o nome da matéria,
anotava no caderno
máximas de filosofia

não entendia tudo,
na tua letra minúscula,
que ocupava blocos e aerogramas...
eram cartas de amor
que seguaim pelos ares,
esperando a resposta ,
num efeito cascata.

também peguei a mania de escrever...
um dia era um bilhete
outro dia uma encíclica...
noutros tempos viraram memorandos
depois silenciaram,
e exigiram vida !

hoje eu lembro os meus ditados,
de menina de escola...
"é proibido começar uma frase com letras minúsculas "
e eu começo por irreverência
um poema em diminutas .

Dia de sol



A natureza troca carinho ,
no olhar do artista
Se encosta a flor,
na palmeira que dança,
quando o vento toca...
E as cores se misturam,
numa emoção vibrante...
Nada faz falta
na hora em que os olhos
se desfocam da vida
e apreciam o dia !

Poema Musicado - Por Ulisses Germano


Um dia foi visitar a casa de uma amiga que escreve poesia. Aliás ninguém havia combinado nada de se encontrar. Tudo expontâneo, sem veleidade .Chegando em sua casa ela me mostrou vários de seus poemas. Pilhas de papel! Uma pequena biblioteca poética pessoal, intransferível. O nome dessa amiga é Socorro Moreira. Musiquei algumas poesias quase que instintivamente, instantaneamente. Tudo gravado. Eis um belo poema transformado em chorinho!

POEMA MUSICADO
(Crônica de um Sentimento)
(Letra: Socorro Moreira; Música: Ulisses Germano)

Existem pessoas que parecem pregos
Nos colam em telas ou no céu da vida
Existem coisas já inatingíveis
Que se escondem sempre
Sem nenhuma pista

Perdi o desejo
De achar no outro
O olhar de encanto
Que me enternecia

Se já não suspiro
Ainda respiro
A paixão que um dia
Me deixou perdida