por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



terça-feira, 27 de janeiro de 2015



IMPERDÍVEL!


     
     
     
     
    Sesc Unidade Crato apresenta Estacionamento da Música!
    Dia: 29 de janeiro de 2015
    Horário: 20h
    - Tunai & Wagner Tiso - Saudade de Elis ...

O que seria desta eternidade ,às vezes tédio, se não fossem as canções?

Quando o mundo escancara suas janelas
solto a poeira das cortinas
e tudo vira trapo colorido
como se bandeiras hasteadas
Figurassem na foto do meu dia

É muito bom entrar na sintonia que me traz vida
Quase morri... Mas a vida me devolve vida!
A noite nunca me assusta
Preenche meu sono de coisas que não espero,
mas adivinho!


socorro moreira
Goodbye my love, Goodbye - Demis Roussos - Panas, Mario, Klaus 

Quando disserem que grego não eras. Lembrarei que Alexandria, no Egito, era grega de fundação. Muito cedo, perdeste tua humanidade física, aos 68 anos de idade. Destas perdas que célere atravessam o composto indene, como à Grécia a crise econômica atravessou. Demis Roussos, filho de pai grego e mãe egípcia de origem italiana, não fugiu de sua Atenas e ali, para não perder o mote, assomou ao Olimpo.

Demis Roussos, em sua voz inconfundível, já conquistara a humanidade imaterial. E a música é esta especialidade dos sentidos em marcar a memória, muito além da narrativa, incluindo ambiência, emoções, sensações e desejos num mesmo átimo de lembrança.

Rain and tears - lançada pelo grupo Aphrodhite´s Child formado por Vangelis, Demis Roussos, Lucas Sideras e Anargyros.

Sabemos disso e que classificações de tempo e idade, de gosto e desgosto se extraia ao saber-se qual música toca, nada importa. Apenas as mentes alienadas, os encéfalos burocráticos, a onipotência corrompida, é capaz de classificar onde não há classe.

Há um tempo vivido, experimentado, desde o miolo das coisas até o mais alto da superfície. Ali onde se respira a leveza do ar. Isso é como todos os sentidos contam emoções acontecidas mas que ecoam enquanto sopro houver por respirar.
My Reasons - Demis Roussos 

Nos, agora, longínquos anos 80, um amigo viveu o destraçar de uma relação acontecida desde mais de dez anos. Toda aquela vida de classe média fortalezense encolheu-se num quarto com banheiro que literalmente ficava sob a escada principal do prédio. Era quase o alojamento feito para um vigia. Mas fora alugado a ele.

We shall dance - Demis Roussos - Demis Roussos, Charalampe Chalkitis, Boris Bergman

E estamos os dois ouvindo um rádio cujas ondas eram fugidias. E ouvíamos esta canção:

Forever and ever - Demis Roussos


E dali a mão foi empurrando com uma longa melodia do qual se busca este fragmento.

No quase quarto,
Sob uma escada de uma quase moradia,
A saudade do que fôramos nos deixou,
E saímos para as ruas com a canção nos impregnando:

Ever, ever, forever and ever...
Nunca, nunca, jamais iremos
Aos braços da eternidade,
Ao corpo de todas as coisas,

Sempre, sempre, para sempre,
Iremos ao finito de nós mesmos,
Ao passo adiante do que é hoje,
Ao senso de que tudo se vai.

Sempre, sempre, para sempre,
Tudo será assim,
Como curvas do vento,
Um sentimento de dobra,
Um sentido de quebra.

Sempre tudo assim,
Eis o nosso senso de destino,
Eis a trilha da permanência,
Eis o ponto final da eternidade,
Ali onde nós não seremos nós.





Antes do esquecimento... Reflexão 2015 nr4- socorro moreira


O destino tem longo caminho

Continuo na estrada

Às vezes sem asas

Às vezes sem nenhum dos sentidos

As imagens passam, e eu me detenho em algumas

Aquela casa que parecia habitada e não me contou sua história

A casa da Pedra Lavrada onde conscientemente encontrei o fio da meada, que me trouxe aos dias de hoje.

Meus tesouros estão escondidos de mim

Sinto o perfume, a saudade, a falta...

Mas nem sei resgatá-los, a não ser escrevendo um pouco.

Farei isso pela memória da minha cidade, da família, e dos amigos.

Os sentimentos são atemporais, mas eles estão ligados às épocas já passadas ou vividas...

Meu coração sozinho é o mesmo coração solitário de uma menina curiosa e medrosa, que nada sabia da vida,

mas tinha pais, irmãos e avós.

Agora tenho a mim, e um amor indefinido por muitos, que sorriem e me falam: somos os teus tesouros, menina!

Acho que a dor é geral. Acho que as alegrias são privilégios gerais. Não entendo as queixas naturais.

O vento em suaves rajadas carrega as energias que nos afetam. Deixa e leva alegrias...Como fazer pra transmutar a calmaria numa permanente vontade de vida?
É preciso ter paciência. Os dias não se repetem. Trazem surpresas e paisagens diferentes.
Trazem  novos amigos, melodias inéditas,

e paladares surpreendentes.

Quero a força criadora para dizer o que penso, nem que seja mansamente.
 
 
 
 

 

agradeço a quem me fez recordar esta canção...



O "REVOLUCIONÁRIO" - José Nilton Mariano Saraiva

Sob “Xico”, a Igreja Católica tem tudo para “recambiar” algumas almas recalcitrantes, que se transferiram de mala e cuia para as hostes evangélicas por não mais compactuarem com desvios de toda ordem no epicentro do catolicismo e (também) de olho grande em vantagens outras.

É que o “hermano”, até para surpresa de alguns - que o sufragaram na briga de foice em quarto escuro, que é o que é a eleição papal - de certa forma decepcionou-os ao assumir posições vanguardistas, abalando assim as carcomidas estruturas do Vaticano.

Começou por repreender uma cambada de cardeais ultraconservadores (dentre eles alguns seus eleitores), numa reunião de cúpula, chamando-os à responsabilidade e literalmente concitando-os a acordarem da letargia e marasmo em que se imiscuíram, atualizando-se às novas demandas de um universo cada dia mais competitivo e dinâmico, inclusive em termos de escolha da religião e/ou seita.

Num segundo momento, ante o reclamo de uma plêiade de jovens mulheres italianas, que lhe pediu providências para aprovação do celibato, tendo em vista já terem relações sexuais ocultas (e pois proibidas) com religiosos vinculados ao próprio Vaticano, prometeu-lhes estudar com carinho o assunto, porquanto não tratar-se de um dogma religioso, daí a perspectiva da reivindicação ser agendada, mais à frente.

Um outro enfoque merecedor de destaque é que, assim como investiu pesado contra o exército de padres-pedófilos que envergonharam a Igreja Católica, recriminando-os publicamente, e incentivando sua expulsão sumária (sem choro nem vela), agora houve por bem aconselhar os humanos a não procriarem com tanta pressa e avidez, (refrear o sexo) porquanto atividade mais propícia a “coelhos”.

Alfim, e ante a rasgação de seda e o circo armado pelo presidente da França, que transformou o limão numa limonada ao reunir em Paris autoridades de outros países para demagogicamente se posicionaram em favor da tal “liberdade imprensa”, Xico foi por demais categórico, sucinto e objetivo, ao corajosamente se postar contra o status quo e externar seu voto contrário, ao afirmar textualmente que “Quanto à liberdade de expressão, todos têm direito a se pronunciar, mas sem ofender. Há um limite, toda religião tem sua dignidade, e não pode ser entregue à chacota. Não se pode matar em nome de Deus”.

Definitivamente, “Xico” não é Charlie.
  



segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Como te adoro menina - José do Vale Pinheiro Feitosa

Como te adoro menina – versão de Renato Barros cantada por Ed Wilson


Do fim para o começo. Ou, quando tendo vivido o começo, pelo caminho seguiu. Tão longe que até alguns detalhes da paisagem foram esquecidos.

Neste instante o encontro dos esquecimentos não é exatamente começar. É lembrar-se do começo como se tivesse novamente começando.

Assim na escassez de acesso. Energia da pilha elétrica superando os sons nascidos no mediato do mundo em que se vivia. Muito além. Pelas ondas misteriosas do rádio ou num disco com a melodia eternizando o momento em que foi gravada.  

Ed Wilson. Quando as meninas não eram feiticeiras. Eram o próprio feitiço. Mais uma canção dos grupos de jovem guarda. Com o cantor que gravava um disco após o outro. Até imitações de Trini Lopez fez.

Mas por que esta canção colou tão rapidamente na memória?

Um muito do feitiço daquela menina. Algo da memória. Esta canção era uma nova forma de cantar o conhecido?

E lá no início das gravações a cantora inglesa Vera Lynn, com as ondas do rádio, que eram infensas às bombas alemãs cantava Yours:

Yours – canção de Gonzalo Roig e letra de Albert Gamse e Jack Sherr, cantada por Vera Lynn.


Seu, até as estrelas perderem a glória,
Seu, até os pássaros não mais cantarem,
Seu, até o fim desta história da vida,

Este compromisso, com você, querida, trago.

Seu, no pleno cinza de dezembro,
Aqui, na distância isolada da praia,
Eu nunca amei ninguém,
A maneira como amo a si
Quando eu nasci já foi para ser
Apenas seu.
(BIS)

Quierame mucho Gonzalo Roig Lobo e letra de Augustin Rodriguez– compositor cubano do início do século XX que estudou e compôs nos Estados Unidos.  Cantada por Plácido Domingos


Queira-me muito
Queira-me muito, doce amor meu,
que amante sempre te adorarei.
Eu com teus beijos e tuas carícias
meus sofrimentos acalmarei.

Quando se quer de veras
como te quero eu a ti  
é impossível meu céu
tão separados viver.

Quando se quer de veras
como te quero eu
é impossível meu céu,
tão separado viver...tão separados viver.

Eu com teus beijos e tuas carícias
meus sofrimentos acalmarei.
Quando se quer de veras
como te quero eu a ti 
é impossível meu céu

tão separados viver.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015


Abidoral Jamacaru e seu jasmim- laranjeira- por João Nicodemos

Abidoral Jamacaru

Foto de Samuk
 
 
 
Que grande Alegria para nós todos que conhecemos e reconhecemos o valor humano e artístico de Abidoral Jamacaru. Sua obra é única, autêntica, irretocável e atemporal. Diria, em paráfrase a Mário Quintana, “os tolos, todos, que atravancaram seu caminho, passarão...Abidoral, passarinho!” E pássaro de voo seguro e certo de seu destino. Canta, e canto também, com ele, “Voo mais alto que o Homem que Sou! “Soul”... é isso: uma questão de alma! Almas que não se vendem, por dinheiro algum, nem sucesso fácil! Nosso Abidoral é assim... Sua história reflete uma cultura de resistência e, docemente resiste à estiagem de almas elevadas. A solidão do Condor que galga as mais inusitadas alturas, é voa só! Mas não lhe falta quem observe e admire a elegância com que cuida do seu jardim...do seu jasmim laranjeira... Acompanho sua obra desde que o vi pela primeira vez (e me lembro disso como quem ouviu o “Sargent Peppers” no ano de seu lançamento), com a mesma admiração, espanto e respeito. Tenho a imensa alegria de ser seu parceiro em alguns trabalhos e isso me honra. Abidoral Jamacaru não é um “produto” que se coloque nas vitrines do sucesso para ser substituído por similares... Não há similares de grandes criadores. Abidoral é um “processo”, um artista novo a cada canção, a cada acorde que inventa e reinventa. Em sua maturidade, já sabe que não há lugar para ele na prateleira do grande sucesso... que não há grandeza em vender sua rima, mesmo a troco de ouro. Eles todos, eles tolos, passarão... você, Abidoral, não!
(abraço do amigo João Nicodemos)
 




 Necessitamos estar conectados com o que vai pelo mundo. A maioria das notícias nos deprimem e fecham o nosso sorriso. Quando Zé do Vale dá uma trégua, e se distrai da política, parece que começa uma festa. Corro pra ver a lua,  conto quantas rosas brotaram no jardim,  entro no mundo dos  meus desejos: o mundo da música e da poesia.
Uma das coisas mais agradáveis deste blog  é ficar por dentro dos acontecidos, sem permitir que as emoções deixem de fomentar os nossos sonhos. Queria que toda humanidade  nunca perdesse a capacidade de se encantar,  sorrir , sem muito explicar.
 

VIVE LA FRANCE! - José do Vale Pinheiro Feitosa



Tornerai - com Dalida 

Tornerai composição italiana de Dino Olivieri e letra de Nino Rastelli. Foi registrada em francês como J´attendrai por Rina Ketty em 1938 com letra em francês de Louis Poterat. Foi a canção emblemática do início da segunda guerra mundial.



Tornerai - Tua sabes que te amo, não tenho que de ti /encontrar-me distante, diga-me por que? / A nostalgia não sente no coração / Não te recordas de mim. / Esta minha vida, não, não pode? Durar / Tu és fugitiva, deves tornar / Este meu coração, tu ainda queres. / Tornarás...a mim / por que? / O único sonho sei...do meu coração / Tornarás, por quê? / Sem teus beijos lânguidos, não viverei? / Aqui dentro de mim mesmo / a tua voz que diz, tremendo de amor, / Tornarei? Por que? Tu és o meu coração.


J´Attendrai

Esperarei!
O dia e a noite, esperarei sempre
teu retorno.
Esperarei  
Porque o pássaro fugitivo tenta se esquecer,
em seu ninho.
O breve tempo passa
batendo tristemente,
sobre meu coração tão pesado.
E, portanto, esperarei
Teu retorno.
(bis)
O vento traz-me
os rumores distantes.
Após minha porta
o escuto em vão.
Puxa, e nada.
Nada me vem.
Esperarei,
o dia e a noite, esperarei sempre
teu retorno.



Por que a primeira pedra sempre é lançada e a mão pioneira é cheia de pecados? Porque viver é rever posições, princípios e conhecimentos.

Toda a degeneração recente da França, que sua história carrega na bolsa do canguru, toda a violência e tortura aplicada aos libertários da Argélia. A França, assim como Portugal, Espanha, Inglaterra, Holanda, Bélgica foram as rapinas da África, América e Ásia. Alemanha e Itália não fizeram do mesmo porque chegaram tarde ao botim colonialista.

E nosso horror latino americano, com a escravidão, saque, tomada de terra, exploração mineral e da produção agropastoril, não se pode extrair da história. Mas o papel das lutas populares, das instituições desenvolvidas, a nossa cultura e tantas outras manifestações do povo não podem ser, igualmente, extraídas.

Agora não se pode aplicar um anátema a toda a França tomando por regra fatos e eventos do seu passado, mesmo o recente, tais como a repressão e tortura e o papel meio barro meio tijolo do seu povo da segunda guerra mundial. Pois na Franca se houve a República de Vichy, também aconteceu a Resistência e todo um ideal de social democracia no pós-guerra.

Nenhuma cultura produziu reflexões tão reais sobre a humanidade, a história e as civilizações. A França é um centro irradiador e fundador do que é a possibilidade de uma civilização mais igualitária, mais humanista, mais avessa à exploração do homem pelo homem.  

Há muita boca torta do hábito, muita facilidade argumentativa, muita preguiça intelectual e muito uso de velhas formas como se na realidade nada houvesse de mudança. Só que a França pulsa sua vida social e cultural na perspectiva crítica do presente e na projeção do futuro.

A civilização francesa é solidária, embora a malha social, sob crise econômica, desemprego e forte pressão imigratória seja geradora de fortes tensões. Há que se qualificar e classificar quem é quem nesta transição. A extrema direita é contra a migração e tem aversão aos muçulmanos, mas na França a maioria não é assim.

A própria recuperação do prestígio de Hollande e as manifestações de massa após o atentado contra os jornalistas do Charlie andaram no sentido de uma sociedade plural e democrática. Os fascistas compõem a minoria e neste episódio não conseguiram, mesmo que tenhamos que colocar um “ainda”, selar o cavalo da história.

E por fim: muita gente andou tendo dúvida sobre as críticas ao Charlie Hebdo. Muita gente andou se apegando ao argumento “analítico” de suas charges usadas fora do contexto. Muita gente repetiu o mantra sem jamais ter lido um número sequer da revista.

Humorismo tem uma natureza muito interessante: é tão sintético que é autoexplicativo. Mas é a síntese do que circula no momento e um tempo depois só faz sentido se contextualizado. Ou seja é uma das expressões mais datadas que existe.


Inclusive acabei de saber que a edição feita após a atentado será reproduzida no Brasil.  

CARNAVAL DA SAUDADE 2015

 
Estamos mais uma vez realizando o já tradicional Carnaval da Saudade do Crato Tênis Clube. Em 2015 comemoramos os 10 anos deste evento que tem se destacado na região do Cariri como a mais marcante festa do período momino. Uma festa marcada pelas marchinhas, frevos e sambas.

Em 2015 a festa será animada por duas orquestras da região do Cariri: A Orquestra Prisma, e a Orquestra Carnavalesca Azes do Ritmo, com as participações especiais do Maestro Hugo Linard e do grande Crooner Francisco Peixoto, que certamente farão o "Clube do Pimenta" ferver de alegria e muita emoção.

Dois grandes nomes da nossa cultura serão os homenageados: O Dr. Maurício Almeida Filho, Mauricinho, ex-presidente do Crato Tênis Clube, fundador da inesquecível "Cratucada", que tanto animou os carnavais do Crato, e um dos criadores do "Desfile das Virgens", famoso bloco de carnaval que começou nos anos 1970. O outro homenageado é o Maestro Hildegardo Benício, "in memorian", um músico de alma inteira, que viveu a maior parcela de sua existência, alegrando os seus semelhantes. Grande saxofonista que abrilhantou festas, tertúlias, e muitos eventos por esse Cariri afora. Um dos maiores ícones da nossa história musical.

E, como já é tradição, o Carnaval da Saudade 2015 vai sair a partir das 4 horas da manhã do CTC para encerrar em apoteose, na Praça Siqueira Campos.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

DEGOLA! - José do Vale Pinheiro Feitosa

21 de janeiro de 2015. Passaram-se 222 anos.

A cabeça de Luiz XVI, decepada pela guilhotina, é levantada pelo verdugo Sanson para a multidão que a vendo grita: Viva a Revolução! Viva a República!

Não fora a primeira vez que uma multidão, dentro de um processo político, julgou e determinou a pena capital para um rei. A Inglaterra havia feito o mesmo, mas a morte de Luiz XVI é um momento da história em que tudo muda.

Na França, mais claramente, o processo político do desenvolvimento da burguesia e da classe operária (e do povo em geral) se evidenciou. A burguesia que já havia conquistado a economia e o Estado na Revolução Inglesa e Americana, ali na Revolução Francesa os conquista, criando todas as instituições que darão ares de civilização ao seu futuro político. Os códigos napoleônicos entre eles.

E por qual razão tantos filmes, peças, romances, ensaios, discurso e uma choramingação de saudosista sobre a ordem Monárquica e aquele momento em que a guilhotina separou cabeça e corpo de Luiz XVI?

É que ali, considerando algumas imprecisões históricas, o Jacobinismo se aproximava tanto da base popular, não burguesa, que na Revolução Francesa surgiu um novo fenômeno político que constituiu na grande contradição do capitalismo. Ali começava a nova luta de classes tendo a burguesia como protagonista.

Naquele ato de mais de duzentos anos passados, o exercício político perdia uma instituição central de muitas centenas de anos: a descendência familiar do poder. Mesmo que oligarquias persistam, que famílias patrimonialistas como os Sarney, os Kennedys, Bush, dinastias e outras mais, cursem de pai para filho, a verdade é que, centralmente, a genética não é mais o coração da transmissão do poder. 
  
Não se pode esquecer que a transição do poder dentro das famílias ainda é marcante na nossa realidade, como Tasso Jereissati filho de Carlos; Samuel filho de Ossian; Roseane filha de Sarney, Artur Virgílio filho de Artur Virgílio e são muitos os exemplos. Mesmo assim esta transição é negociada e representa o poder econômico das famílias burguesas.


Mas definitivamente não representam a gênese divina do poder. E por sinal, no dia 21 de janeiro de 1901 morreu a Rainha Vitória da Inglaterra (a última figura da realeza britânica que realmente detinha poder). 

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Je suis Charlie ?

Imaginem essas cenas retiradas do dia a dia do nosso noticiário. Rapazinho, no sul do país, revoltado com o fim do relacionamento decretado pela namorada, resolve, em represária, jogar na internet fotos íntimas do casal, tiradas no Motel em tempos de bem aventurança. O pai da mocinha, revoltado coma exposição pública e definitiva da filha, faz justiça com as próprias mãos, sapecando vários tiros no jornalista improvisado. Em Goiana, Pernambuco, uma lojinha de biquínis terminou pregando uma peça em várias veranistas. O adolescente, filho da dona do comércio, instalou uma câmera escondida no provador e filmou inúmeras mocinhas peladas, na troca de roupa. Depois disso, preparou um CD com as imagens e saiu vendendo em pontos estratégicos: “Garotas Quentes do Verão 2012”. Tudo acabou quando um pai comprou o CD e lá se deparou com a filha em trajes de Eva. O caso foi parar na justiça , os pais e o autor do delito fugiram,  temendo linchamento.
                                   Os dois episódios são típicos desses tempos em que todas as barreiras da individualidade terminaram por ruir. Claro que, em nome da liberdade de pensamento e expressão,  muitos, certamente, saltarão com a justificativa de que é justa a veiculação das fotos. Quem se sentir ferido ou lesado deve procurar a justiça em busca de ressarcimento pelo dano causado.  A atitude do povo goianense e do pai da mocinha da internet em procurar , com força de trabuco, resolver as querelas soam como coisas de Neanderthais. Aprofundemos um pouco mais a questão. Pensem no suplício de todos  lesados , trafegando pela lentidão irritante da justiça brasileira. Oito anos depois, quem sabe, poderá sair uma sentença indenizatória favorável aos danos morais perpetrados pelo namorado abusado e pela lojinha de biquínis. O bolso, como sendo a parte mais sensível do corpo, certamente pesará, pedagogicamente, na consciência dos implicados. Mas as fotos, uma vez veiculadas, continuarão a se espalhar como vírus Ebola e o dano continuará a se fazer permanentemente. Os novos namorados da mocinha poderão receber as imagens pornográficas, como bulling,  e as garotas quentes do verão 2012 continuarão fervendo em outros verões, com cd´s copiados e enviadas imagens pelos tablets e smartphones. Quem lhes devolverá , um dia, a honra eternamente maculada ?
                                   A atitude dos linchadores, claro, pode parecer primária e tribal. Colocando o caso em cada um de nós, no entanto, vem a pergunta : Você teria uma conduta diferente, como pai ?  Ficaria quietinho, procuraria e justiça e esperaria, pacientemente, pelo fim do processo, mesmo vendo o vírus se alastrando, dia a dia ?
                                   Esta questão é extremamente atual. Há poucos dias, os jornalistas da Revista humorística francesa “Charlie Hebdo” foram executados, sumariamente, por três islâmicos que se sentiram ofendidos por charges seguidas retratando ( o que é proibido pela sua religião) e  detratando o profeta Maomé. As repercussões internacionais foram imensas após a barbárie. Líderes mundiais se reuniram na França numa imensa marcha  a favor da liberdade de pensamento e de expressão. De lado se punham os jornalistas injusta e barbaramente executados e, do outro, os vilões: o Islamismo tido como religião brutal e atrasada, totalmente dessincronizada com os tempos modernos em que vivemos.
                                   Nada justifica o massacre, claro, mas é bom, sempre, refletir sobre suas raízes mais profundas. A França possui o maior contingente de maometanos da Europa – 10% da sua população. Vieram, praticamente todos, das antigas colônias francesas, da África e Ásia, sugadas pelos insaciáveis canudos do Colonialismo. Na França são vistos como cidadãos de segunda classe, mesmo com cidadania legal francesa. Carregam, consigo, aquele travo das minorias sapateadas. Não têm o mesmo acesso ao emprego, ao lazer, à educação em meio a esse Apartheid silencioso. São proibidos de assumir aainda, publicamente, seus símbolos religiosos. Quando dos primeiros ataques da Charlie Hebdot , entraram na justiça  francesa, contra o que consideravam uma agressão e perderam fragorosamente em nome da Liberdade de Expressão, embora se imagine que, por trás de tudo, havia decisões eivadas do mesmo preconceito que lhes atravanca o dia a dia. A revista, claro, tem posições francamente iconoclastas e ataca não só o Islã, mas todas as outras grandes religiões mundiais. Daí vem a perigosa conclusão de que o Islã é violento e sanguinário, pois as outras não reagem da mesma maneira.  O Islamismo, é bom lembrar, é a mais jovem das grandes religiões, talvez, por isso mesmo, ainda esteja em tempos de depuração, no Século XII, para ser mais preciso. Há um passado sombrio que acompanha a todas : A Inquisição, As Cruzadas, a dizimação das comunidades indígenas, o Holocausto, As oferendas aplacatórias da ira divina  dos Incas e Aztecas.
                                   A grande encruzilhada termina por aparecer. Tem ou não limite a liberdade de expressão ? Tudo pode ser veiculado e a regulação será feita , tão-somente, pela justiça ? A imprensa se queixa que lhes estão querendo infringir marco regulatório. Mas ela é livre ? Ela não é manietada por seus patrocinadores e pelo Capital que a sustenta ? Imaginem se a Revista Carta Capital, a dois dias antes da eleição presidencial, publicasse uma reportagem mostrando que o candidato Aécio Neves faria parte do Cartel de Medellin. Imaginem ainda que esta  notícia, infundada, o fizesse perder a eleição. Claro que ele entraria na justiça e daqui a uns sete anos terminasse ganhando a questão e recebendo uma indenização. Mas seu mandato perdido quem o ressarciria? E seus eleitores que teriam sido burlados como seriam ressarcidos ?

                                   Voltando para os princípios universais da Ética não me parece que essa pretensa Liberdade de Expressão se enquadre em nenhum deles. A conduta do Charlie Hebdo pode ser usada como uma Lei Universal ? Estaria essa Liberdade beneficiando o maior número de pessoas possível ? Entendo que há limites éticos sim, nessa Liberdade e que precisam ser regulados não só pela justiça, mas pela própria sociedade. O respeito às diferenças, às opções sexuais, à religião ou ao ateísmo e o combate indiscriminado a qualquer tipo de preconceito são direitos inalienáveis dos seres humanos. Emocionei-me e chorei com o massacre dos humoristas do Charlie Hebdot, nada justifica aquele ato terrível. A agressão reiterada, no entanto, a minorias eternamente escravizadas poderiam ter sido evitadas, a  Sociedade Francesa já vem se responsabilizando secularmente por essa atitude. Queria que o humor continuasse a me fazer refletir sobre a vida , sim, mas também que me proporcionasse sua mais perfeita função : Rir.

J. Flávio Vieira

TIRE DA RÉGUA PRIVADA E A LEVE PARA A PÚBLICA - José do Vale Pinheiro Feitosa

Alguém já havia tido algum conhecimento sobre Alberto Nisman?

Muito provável que não. A maioria dos brasileiros, mesmo aquele bem informado, não sabe a respeito. Os Argentinos sim. Devem saber.

Agora saibam como tomamos conhecimento sobre Alberto Nisman. Jornais, rádios, televisões, blogs e outros rastilhos mais diziam: morreu promotor que associava governo Kirchner à manobra para esconder a participação do Irã nos atentados contra entidades judaicas na Argentina.

O promotor foi encontrado morto, com um tiro na cabeça, no seu apartamento. Aí estava montada a arapuca comunicacional. Antes da investigação, realçava-se a suspeita que a autora do crime teria sido a presidenta Argentina.

Acrescente a isso o fato, que interessa ao governo de Israel, associar o Irã, o inimigo de maior potencial, ao ato terrorista na Argentina. E considere que o fato aconteceu há 20 anos, portanto num intervalo em que muita coisa mudou. Na América do Sul, na Argentina, no Oriente Médio, em Israel e no Irã.

Agora é investigar o que de fato aconteceu com o promotor. Há uma possibilidade que a justiça argentina, poder independente, declare suicídio. Enquanto isso o governo Argentino tratou logo de tornar público o relatório do promotor com todas evidências. Ou não evidências.

A questão é o tratamento da informação, por meios que detém o domínio da comunicação, como matéria de ataque e defesa e não como exposição da realidade. Mas aí vem uma discussão necessária. A crítica ao modelo principal de condução da informação e conhecimento na nossa civilização.

Aliás a questão do Charlie Hebdo foi um momento especial ao que se denomina regulação da mídia. A liberdade e o controle como contraditórios que ora serve de argumento a um lado para, logo em seguida, servir ao outro lado.   

Afinal tudo é uma questão política. Vamos lembrar na liberdade que o Sistema Globo defende como fundamental. Mas quando aquele pastor chutou a imagem de uma santa na Record, a Globo pediu punição e o rolo compressor foi tal que o pastor foi demitido, a outra emissora pediu desculpa.

Liberdade e controle a serviço da concorrência comercial é um péssimo uso destes parâmetros sociais e políticos. Por isso a regulação de mídia centra-se essencialmente na questão do monopólio da informação. É preciso que ocorra a pluralidade de meios, temas, conteúdos e visões diferentes.

Os membros da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão já chiaram que a regulação econômica pode enfraquecer economicamente os veículos de comunicação. E não disseram mentira. Acontece que isso tem muito a ver com o modelo de negócio destas empresas oligopolizadas. E a regulação nasceu nos EUA exatamente em razão dos monopólios e oligopólios ou o que tanto se dizia como trustes.  

A regulação, enfim, é pluralidade, estímulo à democracia, check and balances no conteúdo e técnicas, um meio público que abra possibilidades para investigação, apuração, tratamento e divulgação da informação e do conhecimento.


Em última análise o destino da liberdade e democracia no campo das mídias é um contraditório, onde a informação seja tratada cada vez menos como mercadoria ou um bem econômico e cada vez mais como traço da civilização de acesso universal. Onde a verdade não é um pântano acumulado, mas um rio que circula e se transforma como se move a natureza de todas as coisas.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

FUZILAMENTOS GLOBALIZADOS - José do Vale Pinheiro Feitosa

Não é apenas por proximidade no tempo. Se bem que a contemporaneidade dos fatos nos façam automaticamente raciocinar assim. Qual a questão?

A relação entre o fuzilamento dos jornalistas do Charlie Hebdo e o fuzilamento do brasileiro, traficante de drogas, na Indonésia. Embora de natureza distinta os dois fatos parecem guardar uma relação implícita.

A relação é sobre quais valores a civilização contemporânea, de natureza globalizada, vai implantar em suas diretivas históricas. E aí despontam alguns destes valores: democracia e liberdade; direitos sociais e humanos, governança mundial e fases de desenvolvimento do capitalismo globalizado com as suas instituições e regras.

Aliás, valorizar atributos de uma civilização já é um problema pois a rigor não se trata de precificação de bens. O que se discute são os fundamentos de uma civilização, numa fase histórica sui generis: há um continente universal a conter os conteúdos de todas as culturas.

Bem ou mal este continente está em evolução, especialmente pela natureza de conter no mesmo “espaço” da história tantas e diversificadas experiências humanas. E, particularmente, no momento histórico, quando nosso raciocínio bem poderia ser: ora como existem grandes linhas culturais cobrindo enormes segmentos da humanidade – islamismo, cristianismo, budismo, confucionismo, iluminismo, racionalismo, materialismo, etc. – este continente será mais fácil.

Mas, ao contrário, são estas grandes extensões culturais que mais se chocam na ideia de uma democracia, liberdade, direitos, governança e crítica ao capitalismo. Como vigas a sustentar esta ordem-desordem mundial, as grandes culturas têm força suficiente para sabotar, apagar, acender, destruir e confundir a síntese de diretivas históricas globalizadas.

De qualquer maneira como a estrutura básica, que sustenta o futuro planetário da humanidade, é o modo de produção, distribuição e consumo, incluindo seus “avatares” financeiros, que se encontra numa crise de modelo, isso implicará no deslocamento de forças globalizadas (as grandes vigas da cultura mundial). Outra questão é a própria condição material do planeta terra incluindo aí seus mares; o solo e a biota; o ar e o clima e grandes desastres provocados pela própria ação humana (como explorações e guerras, especialmente a nuclear).  

Ontem passou o dia aqui na minha casa um grande artista brasileiro que mora na Europa. A visão dele, mesmo incluindo as suas particularidades, é de uma região inteira sob enorme impacto econômico, social e político prestes a viver um grande desastre. Uma terceira guerra mundial.


E concluo como tese: a guerra do neoliberalismo (consequente) e enormes dores da globalização assimétrica, mas mesmo assim de natureza universal.