por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Fotografia de uma quase sexagenária - Socorro Moreira


Sou exatamente assim aos 58 anos idade:
Cabelo molhado , batom nos lábios. Meu sorriso não sabe gargalhar, mas não é triste.
Gosto de roupas leves .Vestidos sem mangas e sem golas . Às vezes ativo cachos , o brilho dos olhos e sorriso (as rugas fazem parte).
Acho lindo o pescoço da Audrey Hepburn ... Provavelmente por não tê-lo , em nenhuma das minhas idades. Mas , o meu pescoço de cearense nunca impediu o movimento do meu rosto.
Sou exageradamente tímida. Mas mostro ainda o colo , sem nenhum pudor. Por puro amor ao conforto.
De dois em dois meses vou ao cabelereiro. Justo nesse dia , faço uma escova , e eles ficam lisinhos por algumas horas.
Não estranho o resultado , embora prefira cabelos ao natural .
Tenho uma expressão viva. Lanterna nos olhos e na boca.
Gosto das minhas rugas : reveladoras do meu caminho através da vida..
Mão no queixo é uma pose confortável, em qualquer idade... Hoje ela suavisa o contorno do rosto. Tenho leveza e suavidade . Afasto o calor do meu rosto com os dedos e um bom ventilador.
Silencio , quando observo o mundo. Na busca do entendimento aprendo a ler os sinais externos e internos... Sou assim: interrogo , e compreendo antes de achar a resposta.
A cara lavada , marotamente me diz : Batom ! E assim ela se protege de qualquer tipo de ressecamento, inclusive aquele provocado pela ausência do beijo.
Nasci filha primeira de uma mulher belíssima. Beleza grega – romana. Meu pai tinha traços de índio, e eu herdei uma mistura exótica: nem feia, nem bonita. Testa enorme, cabelos finos e cacheados, boca e nariz pequenos, cara redonda, olhos grandes e expressivos.
A beleza não é estável , em nenhuma época das nossas vidas.
Aos nove anos eu usava óculos que corrigiam a minha miopia. Era gorduchinha, não tinha cintura, nem cabelos lisos e compridos... Nem tão pouco olho claro.
Aos 12 anos eu já tinha corpo de moça feita. A cintura não era de pilão, os cabelos continuavam me dando muito trabalho. Quando comecei a freqüentar algumas festinhas, passava o dia inteiro com ele nos bobies... Aí eu me transformava numa figura “bonitinha”.
Depois da década de 70, assumi os meus cachos, aprendi a ressaltar os traços harmoniosos do meu rosto. Tinha belas panturrilhas, e uma boa altura. Pele sem marcas de espinhas e cravos.
Mas a testa ainda incomodava-me. Com o passar dos anos assumi minha testa , as rugas que foram aparecendo , e o cabelo natural.
Hoje tenho 58 anos. Gosto da minha imagem. Não enfrentaria uma plástica rejuvenescedora (até porque não tenho dinheiro sobrando para as “futilidades). Não sou escrava de ginásticas, dietas, cremes rejuvenescedores, bloqueadores solares. Envelheci com simplicidade e dignidade. Não tenho fotogenia. Nunca tive. Não gosto de ser fotografada, nem gosto de fotografar. Mas gosto de Fotografia !

Sombras e Sonhos



Tenho pensado mal dos meus sonhos , mas não posso deles me queixar... Fotografam e revelam os meus desejos conscientes e inconscientes. A culpa é minha se eles são modestos ou mesquinhos.

Concentram-se em coisas realizáveis a qualquer tempo.

Os sonhos alcançam as nossas graças.São respostas às nossas dúvidas. Quem quiser que os entendam. Eu até tento !

Sonhei encontrando todo mundo.

Eram duas salas. Na primeira eu via o povo , como era no passado. Percebo-me tímida , mas de olhar caçador e danado. Pronto ! Cruzei meu olhar com um moço tímido mas de sorriso zombeteiro. Por uma fração de segundos a gente se viu. Só que desta vez , eu congelei o fato.

Na segunda sala a gente apareceu com a roupa do futuro. Cabelos cansados , mas restaurados. Percebi novos rostos, adicionados pela vida.

Se os encontros se desencontrarem, não importa... Nos sonhos eles são perfeitos !

Hoje é quarta-feira. Minha agenda está desobstruída dos trâmites gerais. Posso tudo , inclusive ficar de pernas para cima, e deixar a casa sem almoço.

Pra que é que serve ovos e sardinha ? Também tenho os meus dias de farofa , banana , e doce de pacote.

Acordei sem lembrar do que sonhei , mas lembrando um passado remoto , e uma das minhas inúmeras mortes.

A vida reflete o sonho Tenho parcos sonhos. Economizo distâncias , dinheiro, paixão , e até saúde. Sou tão injusta...! Só não economizo poesia.Por falta de sonhos ela chega de chinelos franciscanos, perambulando no frio fulgor das auroras.

Tenho tudo e deixo de querer o essencial. Estou presa à quatro paredes, e de janelas e portas abertas para o mundo virtual. Lá também não sonho , nem invento realidades. Não brinco de amar.

Não sou exatamente triste, nem exatamente romântica. Sou quase esquisita... Alegro-me com o brilho no olhar dos meus amigos. Absorvo e rejeito a tristeza. Choro-a em prantos, sem entender o meu luto contínuo.... Coisas perdidas , ganhos em caixas vazias. Quando a morte chegar , de nada me separará... A não ser das manhãs e madrugadas, e dos irrespiráveis ares que insisto em tragar.

Eu resumi a vida , e ela teimosa se estica. Comprimi todas as músicas, no repertório de Nana Caymmi ( nunca vou escrever sem dúvidas , o sobrenome Caymmi...). Não gosto de política, nem de Economia, nem de futebol ...Não gosto do risível , nem do aterrador. Vivo as madrugadas que nascem e morrem em mim, num cotidiano repetitivo, desequilibrado com algumas surpresas...

Um desconto ou troco poético , que me roubam do tédio.

O contato com as palavras é recreativo. Tomo café com vogais, e faço sopas com todas as letras.

Faço turismo nos contos de alguns, catando arrepios e extraindo gotas de emoção para molhar a secura do coração. Não sei os motivos da arte. Ela foge de mim , quando a procuro, e esconde-se nos meus porões.



Acordei na madrugada

com a tristeza de um olhar

com um riso magoado

com a dor da minha mãe

com a angústia do meu filho

com o ranger dos armadores

com a minha insanidade.

Se tenho a eternidade

a tristeza é infinita...

Se o pior já passou

o melhor não há de vir .

Sinto um imenso calor

nessa madrugada de fevereiro...

- É o sol que já voltou !

Dancei !


Fico sem achar canto quando o amor de mim se esconde.
E nem precisava ter olhos, nem braços, nem sexo ...
Precisava apenas gostar de ser amado
Entrar nos meus sonhos,
se alojar no meu coração,
e arrumar o caos, nele instalado.
Por bem ou por tempo tudo se aquieta.
O telefone toca , e eu danço uma valsa !

Carnaval na Madrugada


Estou na madrugada
Vi o desfile da Beija-Flor
Nas asas de Brasília
Colhi flores no serrado
Vivi a primitividade
e o povoamento em mim
de todos os afetos
presente e passado
Meu futuro é uma multidão
descansando no coração da paz !


Prosa informal



Ontem sai pra assistir um espetáculo de teatro no Sesc Juazeiro, mas os ingressos estavam esgotados. Aproveitei o percurso pra sentir os ares do Cariri, naquela noite amena, palas últimas chuvas. O mês de Abril chegando ... Até Julho, o clima fica mais fresquinho , e a minha preguiça se espanta. Comemorei a idade nova da minha amiga Gaby ( mulher sábia, talentosa, cheia de ideias maravilhosas !).
Acordei catando o povo daqui. Parece que todo mundo trocou o dia pela noite, ou desligou o teleone...
Não posso ficar sozinha, senão fico lembrando do meu amor...Só troco esse amor, pelo grupo querido e infinito dos amigos !
A lua sabe dar recados . Obrigada , lua ! Na próxima vida, já sei... A gente acerta a conta de todos os abraços !

"Nunca fujas das lembranças. Da saudade. Nelas existem pausas e redemoinhos que compoem o largo e rico panorama da vida. Nunca procures o grupo tentando esquecer o inesquecível. Faça do inesquecível o que na verdade ele é: o roteiro para novas lembranças. Novos inesquecimentos."


Despertar


Todos os dias, ela me acorda
Perfume da manhã, inconfundível
Vento brando, som de passarinhos
Frescor de flor, se entreabrindo
Depois vem o sino...
Passos de gente na calçada
acordes de um violão vadio
assobio do boêmio...
Pawvarotti, Ave - Maria!

As meninas do meu tempo


As meninas do meu tempo usavam

saias plissadas e mini-saias.

Faziam touca no cabelo,

e revelavam ao "diário" os seus segredos.

Cursavam o normal, e viviam no essencial.

Morriam de todas as curiosidades.

Esperavam o namorado no portão .

Choravam as tristezas, no travesseiro.

Escancaravam as janelas do coração...

O tempo de amar chegou

O tempo de casar passou

O tempo de viver ainda corre,

num ritual de buscas,

entre o amor e a saudade.
.

Contando os dias



Tomara que chegue Março
Pra Julho chegar também
Enquanto isso eu me escondo
De mim, e de ti também !
.
Se antes eu não te via
Agora te vejo bem
Somos velhos conhecidos
Agora te quero bem !
.
Passado a gente discute
Presente quer se dar bem
Futuro é sempre o novo
Do velho que se deu bem !
.
Não choro a minha tristeza
Tão ligeira , sempre passa
Comemoro a alegria
De te encontrar por acaso
.
Os amores bem lembrados ...
São sempre os aventurados
No "Auto da Compadecida"
Permanecem os consagrados !
.
Aqui termino esses versos
Na fumaça , na tragada
Tua lembrança é clara
Não duvides, tá na cara !

Janela que solta o pensamento


Abro aquela janela tantas vezes

E as laranjas olham pra mim agradecidas...

Não as desejo!
.

Olho a minha calçada

Imóvel e receptiva

Descansa,

no silêncio da madrugada.
.

Acordo de sonhos do passado

“... and i love her...” ·
- Teus olhos azul-piscina

E a gente dançava Elvis!
.

Faço do-in nas minhas pernas

Sinto as fisgadas do tempo

Sinto a falta das lágrimas

Minha dor é seca,

Cheia de calos.
.
.
Espero o amanhecer

Aqui por esses lados

Preciso da rotina,

que me escapa ...

Mais uma vez acendo,

apago a luz ...

E viajo nas minhas serenatas.

Deslembrança




Não me lembro de ti - por José do Vale Pinheiro Feitosa 

Logo tu, esse sinônimo de lembrança,
Esta exuberância de Chapada do Araripe,
De acordar a sonolência da preguiça,
De mover as moendas do engenho,
E depois aproveitar as águas levadas.

Como me esqueceria desta presença?
Capaz de flutuar no mais escuro da tristeza,
Submergir no manto inconcluso desta vida mutante,
E como as baleias esguichar alto as lágrimas sentidas,
Colhidas, firmes como o frutos de buriti da segunda-feira.

Não me lembro de ti,
Como nem lembro de mim,
De nós, deles, daqueles minutos selecionados,
Como o relógio da estação de trens,
A estátua da samaritana,
O Cristo de braços abertos,
A cidade a brincar de golfinho,
Fugidia, pulando e mergulhando nos abismos da lembrança.

Não me lembro de ti,
E mesmo que me digas,
mas eu me lembro de ti!

Juntemos a afirmação à minha “deslembrança”
Ambas se anularão como a antimatéria,
E ao final teremos:
Inteiros, destacados, com todos ângulos e lados,
Nós os deslembrados,

A nossa própria natureza.
A natureza que não precisa de lembranças,
Sobretudo energia a gerar no presente,
As lembranças quando o presente se tornar futuro.
Mas aí o futuro já será presente e tudo se resolve.


Socorro Moreira disse... 

Esses versos me deixam no presente do futuro,
sem deixar a saudade chegar.
Lembrar um papel,
quase em branco...
Sentir falta da mensagem
que chega, sem atrasos.
Que importa o esquecimento
e as lembranças ?
Elas são únicas, e nos deixam
confinados,
num sentimento estranho.
Nem quero dar nome aos bois...
O vaqueiro é José
O santo do Seminário é José
A festa de março
de quem é ?
E agora, José ?
Jesus , Maria , e todos os anjos
são velhos índios de uma tribo ambulante , mas confiante !
12 de março de 2010

Encontro


A prosa foi crescendo, crescendo, despropositadamente, e desejou ser manhã. Pediu café pra não adormecer pensamentos. Uma roda pequena de grandes figuras : Nocodemos, Rogério, Gaby, Dihelson , Aucy, e eu na escuta , interferindo com lembranças musicais , e um tom de desafino. É que viajo , e me acho, nas discussões que me embalam.
Olha que parecia uma lombra de vinho, de wisque, de um ópio qualquer, imaterial. Todo mundo no café com bolo, e as conversas conectadas com o resultado dos nós.
Só daria pra reproduzir ou comentar, se eu pudesse tocar essa canção que continua omissa e misteriosa.

Alô, alô pessoal... O dia já começou. Tem lasanha gelada , que a noite do ontem deixou.

Amor imprevisto


Você chega sem barulho,
nas asas dos sonhos.
Pousa na pira do enlace
Traz no bico o mel da flor,
e nas penas o cheiro do amor.
Cheiro de mato, malva, alecrim ...

Preciso incensar a vida
O amor sempre chega nas horas ( im) previstas !

Entre o choro e o riso


A paixão me fez, me faz chorar ...
O amor me faz, me fez feliz !
As desgraças são inevitáveis ...
As alegrias são contraídas.
Os amigos nos acompanham
e nos deixam acompanhados de nós mesmos
Os amantes nos desacompanham
Os maridos nos trocam por qualquer "barato",
quando não são amigos !
Não entendo de inveja feminina
Batom vermelho
deixa qualquer mulher sedutora
Independente da idade, peso...
O que faz a diferença é o cheiro ,
o brilho do olhar, a leveza da palavra,
a verdade do sorriso,
e o pulsar dos sentimentos !
Posso morrer amanhã,
mas quero viver todo dia
das auroras , dos poentes,
e dos sonhos que assaltam
as minhas madrugadas.
Quero a adrenalina
do imaginar ,
sem a dor do arriscar...
Quero todas as doses de alegria,
em pessoas,
que me deixam embriagada de vida.
Quero os meus amigos, no acaso,
e nesse ocaso do dia !
Pode ser em pingos, em fatias,
em raios de luz, em flash da lembrança,
ou vestidos de qualquer pano...
O que vale é a presença constante !

Susto e encanto



A noite passando
O sono viajando
Tua lembrança
num vai e vem constante
- Meu susto,
e meu encanto !

A madrugada me consome
As auroras tardam
O amor que nem chegou
Adormece noutro dia
E desabita minha alma

Sopra vento frio
Sopra um luar
que eu respiro
Suspiro ...
-A lua me traz um recado !

Despertador


A madrugada me acorda
Quer chova,
quer faça calor.
Acendo as luzes do computador
Acendo as luzes da casa
E a madrugada silenciosa
me acorda !
Tento lembrar meu sonho...
Aconteceu numa cidade distante
Cidade passeio
Cidade do encontro
Despedida na pauta ...
E as luzes da cidade
na pista , no alto
Acesas !
Os sonhos delatam a realidade
Os sonhos fazem acontecer
desejos reais ...
Momentos de amor:
Eu e você !

Pintando o sete



A cor me transporta para a forma
Forma uma realidade nova
uma nova pessoa
que brinca de lembrar
e pinta o sete, nos sonhos de inverno
Acho que depois da chuva
toda alegria se inunda...
As tristezas viram pó
E o eco, no deserto
avisa, que estamos sós!

Amanhã é outro dia



A cidade adormecida comporta milhares de sonhos
Insone, espero o embalo do silêncio.
Emoções escondidas, inanimadas, resistem aos apelos da memória.
Todos os dias , pedaços da minha vida desfilam numa passarela imaginária. 
O passado resolvido vai abandonado aos poucos , o presente solitário.
Deixo para lá todos os mal-entendidos.
Espero o que não sonhei, ou simplesmente não espero ! 
O cansaço já me deixou sem desejos.
Uma brisa tímida me visita. 
Parece cochichar no meu ouvido : Dorme , amanhã é outro dia !

pedaço de azul- socorro moreira


O silêncio é fria
No calor de Novembro
Me lambuzo no mel das frutas
E vivo o inverno que não chega
Agasalhada em mim mesma.
O sol diz que é verão
Que aclara os sentidos e a compreensão ...
Mas eu quero a prima das cores
Pintar de novo a parede
Que o meu coração desbotou

Apostas



A chuva embala a minha dor
O gelo a faz adormecer
Trilax ...
Parece água do pote
Mata a sede
Não resolve !
É madrugada manhã
A cidade sonha
Banhada de chuva.
Os pensamentos dispersos
Não buscam soluções,
Nem versos.
Entram e saem
De recantos diversos.
Canção da chuva
Um arranjo dos céus
Um maestro do tédio
uma toada encantada
No mistério dos véus.

Umedece o tempo
Pede calma
Cala o amor
Agradece a passagem da dor.

O silêncio de todos
A surpresa vindoura
- Um alô!
Vem de lá
Vai de cá ...
Nem sei quem
Nem sei mais ...
Tudo passa
Tudo cala
Tudo volta
Tudo traz
Num sol dourado
O azul imortal.

A manhã vai chegar
E os meus olhos estarão cerrados
No sonho que se aquietou
Sem esperar happy hour.
Clareou
Apago a luz
Me aconchego
Nos muitos travesseiros

Descarto o papel
Mas antes,
Rabisco outras palavras
Que estão no bico da pena
Pena dos amores
Pena das dores,
E a esperança da alegria.

Como um dia
Mais um dia...
De café, fruta e arroz
Ds descidas e subidas
De relógio e celular desligados
De TV ligada
Na novela dos outros.
Poker !
Apostei mais uma vez
Na paz do meu desejo !