por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 18 de outubro de 2012

"Jogada Arriscada' - José Nilton Mariano Saraiva




Marcha a passos largos para o desfecho o julgamento da Ação Penal nº 470, conhecida pela alcunha de “mensalão”. Independentemente da condenação formal dos “réus” (políticos e empresários) envolvidos em maus-feitos, informalmente teremos um perdedor em potencial: a instituição Supremo Tribunal Federal (STF) e sua casta de iluminados e inatingíveis juízes (em conluio com a Procuradoria Geral da República), que deveriam se postar como austeros magistrados, julgando com isenção e equilíbrio, mas que, picados pela mosca azul, resolveram “politizar” a questão, numa tentativa de enquadrar o Poder Executivo.
Tanto, que o julgamento da citada Ação foi estrategicamente marcado para a antevéspera das eleições municipais brasileiras, numa tentativa inaceitável de influir nos seus resultados, conforme abertamente declarou, num misto de soberba e arrogância, o próprio Procurador Geral da República. 
De sua parte, o pleno do Supremo, atendendo a manifestação do seu relator, ministro Joaquim Barbosa, resolveu deixar pra trás toda a jurisprudência até então vigente nos julgamentos anteriores daquele colegiado, ao importar da literatura-jurídica alemã a polemica elasticidade da “jurisprudência do domínio de fato”.
Em outras palavras, não mais se leva em conta a presunção de inocência ou se torna necessário a existência da “prova- provada” pra condenar um réu, como reza a própria Constituição Federal e os códigos e manuais jurídicos brasileiros, ao assegurar que cabe ao acusador o ônus da prova, mas, simplesmente, agora a condenação poderá ser atribuída à subjetividade da presunção, indício ou suspeita que um magistrado do STF venha a ter sobre o comportamento daquele que está sendo julgado.
Uma "jogada arriscada", já que, a partir de então, para provar que tal procedimento não se trata de uma excrescência com objetivo determinado (prejudicar um partido político e, conseqüentemente, seu representante maior, o chefe do executivo federal), não só a literatura pertinente, mas todos os julgamentos que envolvam questão pecuniária deverão seguir pari-passu a nova jurisprudência (e aí o STF encontrará muita sarna pra se coçar, já que temos na fila o mensalão mineiro, as falcatruas do Daniel Dantas, a compra de votos para a reeleição de FHC, as privatizações imorais do mesmo governo, as falcatruas do Carlos Cachoeira e por aí vai).

Mentiras, Sonhos e Lendas Urbanas - José do Vale Pinheiro Feitosa


- É o espírito animal do capitalismo meurmão?

- Pôra meu! Uma grana dessa eu faria uma reforma no meu bar só para atrair a elite paulistana. Você ia vê só como o meu forró de final de semana ia ficar!

- Setecentos pau não é tanta grana assim. É preciso administrar.

- Achado não é roubado – os olhos se dirigem aos céus como a pedir perdão antecipado por eventuais falhas da frase.

- E se der uma enxurrada e os bueiros vazarem espalhando nota pela rua? Ia ser uma confusão igual ao “corre-corre” pelas balinhas no dia das crianças.

Todos imaginam o acontecido não com os ladrões em fuga, mas o deixado para trás dentro do esgoto segundo estimativa da polícia militar. Aconteceu no correr da semana. Uma gangue, com a mesma “tecnologia” da toca de minhoca do Banco Central em Fortaleza invadiu o cofre da Protege, empresa transportadora de dinheiro.

Num labirinto de bueiros, se arrastando, furaram o cofre e começaram a difícil lida de arrastar-se e caminhar com o esgoto na cintura carregando fardos de dinheiro. Um ônibus com um fundo falso parou bem em cima da tampa do bueiro e por este os fardos chegavam e abasteciam o piso do ônibus.

Seguranças da empresa viram pelo monitor de vídeo que ladrões andavam pelo pátio e avisaram à polícia. Na aproximação do prédio, os policiais notaram o ônibus de turismo parado e resolveram averiguar. O motorista apavorado disparou, esmagou um companheiro que naquele exato momento saía do bueiro para o piso do ônibus e na debandada geral deixaram o dinheiro para trás, mais dois sujeitos envolvidos na ação foram mortos, outros presos e a maioria fugiu.

Como as contas não fecharam. Faltavam setecentos reais, veio a hipótese de que o dinheiro na debandada tenha sido abandonado nos esgotos. Ninguém sabe é qual a realidade desse abandono. Se ele é uma desculpa para encobrir a parte que coube aos policiais no botim sendo assim uma deixa para a população criar fantasias. Ou será que faz parte do acerto do seguro? Nunca se encontrará a resposta exata.

Mas algo já sugere um acerto: a Protege contraditoriamente afirma que todo o dinheiro foi recuperado.
Aceitou o pagamento, digamos assim.

Quanto ao povo das ruas próximas têm uma boa lenda urbana para continuar sonhando com aquilo que nunca chega: uma grana inesperada e necessária a algum dos seus projetos.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Totalitarismo - José do Vale Pinheiro Feitosa


Quando nos defrontamos com a variação cultural temos a certeza de que a causa única (deus), responsável por todas as coisas, é uma parte e não o todo. Na verdade nem tudo se resume a sistemas duais, um sim e um não, uma probabilidade ou um determinismo, isso ou aquilo. Muito desta dualidade é meramente uma arapuca da mente preguiçosa a repetir continuamente o mesmo de si mesma.

Dada a natureza quase universal, a capilaridade com que se infiltra na vida e principalmente a totalidade que abrande praticamente todas as relações humanas, a moeda ou dinheiro se tornou uma verdadeira divindade monoteísta. É o móvel único a executar relações públicas à vista de todos e a executar outras escondidas ou clandestinas.

Claro que este Deus tem muito da natureza dos deuses gregos, tem uma teogonia nos Estados Nacionais e seus pesos relativos são disputados como o eram no Olimpo. Mas, descontadas as potências de cada deus, a dinâmica daí em diante dirige toda a vida humana: o emprego, a renda, a guerra, a conquista, o território e assim por diante. Por isso o Deus patriarcal dos Hebreus terminou dando uma guinada histórica e retornando à dependência permanente e recíprocA entre o Olimpo e Gaia.   

Esta é uma visão catastrófica da história humana ou da desumanização progressiva por dinâmicas universais e totalitárias a que os neoliberais chamaram de globalização financeira. Na verdade o projeto de domínio e poder absoluto não foi superado pela moderna democracia e a diversidade continua em permanente crise e ameaçada por forças totalitárias no sentido político da coisa à semelhança com a literatura de George Orwell em 1984 ao denunciar os sistemas totalitários da Europa nos século XX (União Soviética, Alemanha, Itália etc.).

A verdade é que o dinheiro evoluiu de uma situação de capilaridade e da totalidade das relações humanas para a totalidade absolutista no sentido político. Ontem assistindo a uma aula magna na Universidade Federal Fluminense sobre modelagem da natureza com os fins de se criar um desenvolvimento sustentável completou-me uma nova visão. A de que o Big Brother é uma realidade em evolução e marchando não para o controle pelos Estados, mas pelas corporações econômicas.

Todos lembramos aquele estudo Suíço realizado com as maiores empresas quando se viu que o capital e as decisões estão sendo tomadas por um núcleo duro muito restrito em relação ao conjunto. Isso despontando para o poder absolutista ou totalitário. E agora como a evolução do papel moeda para o dinheiro eletrônico os mecanismos estão se ampliando.

Hoje, um dos assuntos da moda em 2012, a mobilidade das pessoas é monitorada, avaliada, modelada e são criados padrões de controle. Controlados por quem? Pelas grandes corporações. Para se ter uma idéia de três mecanismo imensos e que todos em fazemos sem crítica alguma: a telefonia móvel, os cartões eletrônicos (débito e crédito) e as redes sociais na internet como o Facebook.

Com a telefonia móvel estão criando modelos que tentam controlar padrões que estariam na esfera da liberdade e da privacidade das pessoas e submetendo-as à decisão de pessoas por trás dos modelos. Ao usar seu telefone celular ele vai mudando de uma antena para outra de modo que é possível rastrear os passos de uma pessoa para onde ela for desde que use o celular. Ontem o professor dizia num tom “ético” que ao fazer estes estudos eles não enxergam uma pessoa, mas isso é uma grande bobagem. Só existe uma possibilidade de saber-se que este sinal que foi captado numa antena no Grajeiro e quinze minutos depois em Juazeiro se o telefone for identificado. Pode não ser a pessoa, mas certamente o assinante ou o dono do CPF está em questão. Lembram daquele episódio do assassino do cartunista Glauco em São Paulo? O assassino foi monitorado pelas antenas de celular. E o quê se dizer das conversas de Toninho Cachoeira?

Quanto aos cartões eletrônicos é impressionante: identifica mobilidade, ruas, cidades, países, o que se consome e quanto gasta. As administradoras de cartões eletrônicos têm verdadeiros bancos de mineração de dados para modelar padrões de consumo de cada cliente seu. Por isso existem aqueles bloqueios e aqueles avisos para se comunicar com o administrador do cartão. Agora é só refletir que isso é um salto para criar mecanismos de controle e indução de consumo.

As redes sociais viraram uma festa popular a serviço do big Brothers. Elas têm uma sintonia até mais fina sobre a vida. Elas têm as manifestações da afetividade de cada um, as suas preferências, as emoções, as intenções, as previsões e os “comportamentos” corriqueiros das pessoas. Quando as brincadeiras, aquelas fotos de família, aquelas piadas, os comentários são feitos, criam-se clusters comportamentais de grande utilidade em sistemas totalitários de controle, manipulação e mobilização política das pessoas.  

A liberdade e a discussão sobre a democracia se encontra muito além dos velhos esquemas de pensar do passado século XX. É preciso quase que esquecer os paradigmas e prestar a atenção para as mudanças naquilo que já não corresponde às afirmativas de então. O mundo mudou. E muito. A vida é muito diferente. E precisamos romper a preguiça com que a nossa própria inteligência e conhecimento nos cegaram.
  

terça-feira, 16 de outubro de 2012

OS POETAS JUDEUS





OS POETAS JUDEUS


Todos os poetas são judeus,
disse Marina Ivánovna Tsvetáyeva.
Não importa por quê.
Não importa o que ela quis dizer.
O que importa num verso é a emoção estética.
não o seu significado.

Todos os poetas são judeus,
eu ouço e sinto a emoção estética pura.
Os poetas dão nome às coisas?
As palavras dos poetas são pesadas como coisas?
Eu vejo apenas a verdade estética:
Todos os poetas são judeus.

José Carlos Brandão






segunda-feira, 15 de outubro de 2012


As fontes de música antes da época da internet eram o disco, rádio, o cinema e depois a televisão. O disco permitia o acesso em casa e no momento que se desejasse, as demais mídias nem pensar em ouvir uma determinada música. O cinema, quando não tinha como gravar e o único meio era o próprio rolo de filme, aí nem pensar em repetir.

Agora uma coisa interessante é a importância que o disco teve para trazer o sucesso europeu e americano através da chamada versão em português. Todos os cantores de rock antigos e a jovem guarda aqui no Brasil viveram de versão. Desde o Carlos Gonzaga trazendo Paul Anka até o caso aqui enquadrado.

Escutem esta versão em Português da "If i were a Carpenter" de Bobby Darin.  Na voz do meloso Ronnie Von.

Ronnie Von - O Carpinteiro

Pois aí no Crato a maioria tomou conhecimento de Bobby Darin através do filme "Quando Setembro Vier." Uma comédia americana, com locações italianas, contando um romance bobinho, mas com as presenças em plena beleza de Gina Lollobrigida  e Rock Hudson. A música tema do filme fez grande sucesso nas “tertúlias” da cidade.

Neste filme um grupo de jovens disputava a juventude com o controlador Rock Hudson um milionário que tinha uma mansão na Itália onde se encontrava com Gina e por um azar dos empregados, estes são pegos fazendo o que sempre faziam: alugando a mansão como um hotel enquanto o patrão não se encontrava. Neste caso um grupo de “jovens castas” que o milionário tenta preservar a virgindade por conta de uma rapaziada entre a qual Bobby Darin. No filme ele canta esta Multiplication.

Bobby Darin - Multiplication

Durante as filmagens Bobby dar tudo para encantar Sandra Dee no papel de uma das jovens castas, agora na vida real e se casam. Isso em 1960, logo após as filmagens. O casamento durou 7 anos, tiveram um filho, o Bobby terminou fazendo sombra na carreira de Sandra e os dois se desentenderam. A grande música deste romance é a que segue.

Bobby Darin - Dream  Love

Bobby Darin teve uma vida trágica de nascença a ponto de Hollywood fazer um filme sobre ele estrelando Kevin Spacey com o título em português de: "Uma Vida Sem Limites." Bobby sofreu febre reumática quando pequeno e tinha uma severa lesão de válvula no coração. Foi criado preso e por isso a mãe lhe deu de presente instrumentos musicais que o talento dele elevou ao cenário do sucesso.

Bobby era politizado e participou das campanhas eleitorais dos Kennedys, John e Bob e pretendeu se candidatar. Mas foi aí que a suposta irmã mais velha disse que ele iriam revirar a vida dele pelo avesso e aí confessou que na verdade ele era filho dela e de pai desconhecido e ela para não cria-lo como bastardo dera à mãe (a avó) que o criasse.

Bobby  passou um tempo fora dos palcos e quando retornou enfrentando dificuldades e trazendo uma música de protesto contra a guerra do Vietnã. Ele morreu ao 37 anos de idade durante uma complicada cirurgia cardíaca. Sandra Dee só foi casada com ele e sempre o amou. Morreu em 2005, aos 63 anos de idade com várias complicações inclusive por decorrência de alcoolismo e consumo de drogas.
A canção a seguir fala é da fase política dele e fala em liberdade.  

Bobby Darin - Simple Song of the Freedon





Planos Terminais - José do Vale Pinheiro Feitosa


- O Plano de Saúde dele tem cobertura?

- Tem! Vamos fazer a cirurgia na próxima semana e depois envio para você começar a quimio!

- A sobrevida é quase a mesma sem tratamento! Você sabe? A família pode participar?

- Pode! Tem grana. São comerciantes pesados. Eu pinto o quadro e você dar os retoques por aí.

- Pode deixar.

Quando há uma família no circuito um diagnóstico de uma neoplasia maligna com metástase é um limite intransponível. O acolchoado que protege a vítima da notícia é formado por desencontro entre os membros da família. O desespero pela má notícia e o comportamento pessoal a apontar atitudes divergentes. Ficar mais tempo fora de casa do que costuma. Evitar encontrar os olhares dos parentes para não sentir o peso da sentença. Os crentes a orar. Os jovens a inventarem embalos para se distraírem.

O doente, a vítima, o detentor da mais verdadeira e indesejada notícia sente os sintomas que eram vagos, mas intensos, embora ainda se engane ao aceitar a mentira que os resultados ainda estão por vir. Aquele excesso de otimismo. Os planos exagerados de viagens de sua mulher. A reforma da casa que nunca puderam. A compra daquele sítio que ela sempre boicotou. Por certo que algo há além da espera por um diagnóstico que na sua expectativa deveria ter saído. Mas ainda não saíra. Mas saíram tantos planos antes negados.

Finalmente orientada pelo cirurgião oncológico, a mulher e mais um dos filhos levam aquele que tanto espera para que o próprio médico lhe dê a notícia com suas técnicas de apontar a morte para em seguida vender-lhes esperança. Nem precisamos saber os detalhes do elaborado “diálogo” do especialista. Inclusive os efeitos colaterais daquela conversa.

Mesmo ciente que todos aqueles que ainda não morreram um dia morrerão, o depositário de vãs esperanças não admitia a morte. Aliás, não é bem isso: tem fobia descomunal com o segundo em que a vida lhe for fugindo. Aquele momento exato em que não haverá mais retorno, aquilo que até a bíblia aponta: a agonia da morte. Essa é a questão central dele: se curará definitivamente daquela doença e jamais aceitará ficar na fila daquele momento sob o sofrimento do corte cirúrgico e todo o cortejo hospitalar e depois a destruição física da quimioterapia. Neste caso prefere resolver o problema fugindo dele através da janela da breve morte induzida que o exima da espera com hora marcada.

Foi por aí que a consulta médica se contradisse. O médico cada vez mais incisivo na solução e o paciente cada vez mais resistente a ela. Sem contar intervalos para os médicos se comunicarem e o clínico informar que as drogas já estavam todas disponíveis para a família comprar por fora. A argumentação era superior até às questões clínicas e cirúrgicas ou à inexistente sobrevivida com aquele estágio fora de possibilidades terapêuticas. Interpunha-se entre a solução médica e o seu paciente, uma viagem dos colegas e suas respectivas famílias para esquiarem em Aspen. Aquele paciente medroso era quase um assalto às pretensões financeiras da sacra ciência e de todo o arcabouço meritocrático.

E foi neste clima que o clima definitivamente azedou e não se sabe como lá estava o médico aos berros apontando um bisturi em direção ao paciente em franca garra de combate. A coisa degenerou a ponto do paciente tomar o bisturi da mão do médico e em seguida, num acesso extremo de autodefesa, tentar cortar a garganta do doutor. Para sorte daquele promitente da morte a lâmina estava cega.

A família estava arrasada. O escândalo serenou com a família saindo às pressas do consultório. Mas a mulher como sempre tinha a noção da sobrevida e conseguiu que o marido fosse até um hospital público especializado. A médica, muito atenciosa, fez as entrevistas necessárias, uma Assistente Social completou o atendimento, o clima estava por aí e quando ela apresentou uma solução quimioterápica apenas, deixou claro que a sobrevida não ultrapassaria de dois anos.

O paciente repetiu os mesmo argumentos: não iria esperar uma morte lenta por dois anos, com um intervalo terrível de quimioterapia. Preferia tudo resolvido nos próximos dias. A esposa entrou em parafuso e a médica até vacilou. Mas o chefe da farmácia foi até a médica e pressionou pelo protocolo. Ela teria que seguir o protocolo. E o protocolo mandava realizar a quimioterapia.

O paciente ficou furioso: não quero. Quero ir-me agora. O protocolo não é meu, é de vocês ou do fabricante deste remédio. Não é meu. Se os impostos servem para isso, usem noutro, não em mim. A esposa se aproximou e começou a pedir ponderação ao marido, quem sabe Deus não ajuda e o remédio faz um milagre. Milagres existem!

- Para a indústria farmacêutica. Este é o milagre. – Gritava o impaciente.    

Finalmente a médica pediu licença para sair da sala e que a esposa a acompanhasse para uma conversa com a “supervisão médica”.

Com bata absolutamente branca, gravata italiana vistosa, camisa de grife o supervisor sentenciou: está na hora da senhora se afastar do seu marido e deixar que os nossos profissionais resolvam o assunto.
Suado. A respiração ofegante, o coração disparado e a boca seca, acordei-me de um pesadelo sem, no entanto, esquecer o mundo no qual respiro mansamente.     

A mão que afaga


Parece uma quarta-feira de cinzas essa ressaca pós-eleitoral. Os confetes estão espalhados na avenida, a música silencia, os foliões arriam as bandeiras, os blocos batem em retirada. Daqui a um pouquinho , também, todos tirarão as máscaras : políticos e eleitores. Defenestradas as fantasias, invariavelmente, nos bate o impacto da dura realidade cotidiana. As expectativas , sempre, sobrepujam em muito as possibilidades  reais. Luiz XV dizia que quando escolhia alguém para um cargo vacante, imediatamente , criava um ingrato e cinquenta inimigos. Há sempre cargos de menos para candidatos de mais. E promessa em período eleitoral é como coceira em macaco: não tem tratamento conhecido. Candidato promete até convencer mulher a não pintar os cabelos depois dos sessenta. Os desapontamentos são inevitáveis e, em geral, ele é proporcional ao tamanho da vitória nas urnas. Quanto mais expectativa alimentada, maior o falatório depois da lua de mel que aqui em Crato costuma durar uns noventa dias.
                               Há tempos não tínhamos uma vitória tão contundente na nossa cidade. Levantou-se, no meio da população,  o anseio de mudança e o candidato do PMDB foi aquele que mais  demonstrou reais possibilidades de virar o jogo. Jovem, empresário bem sucedido,  sem quaisquer desgastes  prévios na sua imagem de administrador,  conseguiu travestir-se, fácil, de candidato ideal.  Sua missão é hercúlea . Em tempos bicudos como o que vivemos, quando o Crato de líder regional , tornou-se, nos últimos trinta anos,  um mero fantoche daquilo que um dia foi; seu povo não  escolhe um prefeito, mas um salvador da pátria, um Messias que venha trazer a boa nova ou a boa velha.  Os cabelos brancos me foram tornando mais cético, perdi a crença em profetas e em milagres, mas torço de coração para que esteja errado e que a voz do povo, na realidade represente a voz de Deus, apesar de antecedentes em contrário como na eleição de Barrabás e no III Reich.   Afinal estamos todos no mesmo navio fazendo água, torço para que o Almirante escolhido encontre o caminho das Índias. Que administre para o bem estar da cidade não para seus grupos de apoio!
                               Vivemos em uma ilha banhada de hipocrisia por todos os lados.  Em pleno julgamento do mensalão pelo STF, vemos o Poder Econômico direcionar descaradamente as eleições em todos recantos do país. Julgamento que, diga-se de passagem, por estranhíssima coincidência,  foi ajustado justamente para um mês antes da eleição e o da cúpula do PT calculado milimetricamente para acontecer na semana anterior ao pleito.  A Casa Grande não tem mesmo vergonha na cara.   Qualquer menino em beira de rua sabe o absurdo que se gasta para eleger um prefeito ou um vereador. As pessoas se indignam na TV, mas se esbaldam na compra e venda de votos, sem nenhum escrúpulo. O candidato que comprou sua eleição, que compromisso tem com o povo que vendeu o voto? Negócio fechado! Estamos quites!
                               Os ventos da mudança bafejaram ainda na Câmara Municipal. Tivemos uma grande renovação de nomes  no quadro de vereadores. Esta reviravolta certamente oxigena o nosso Poder Legislativo, historicamente tão débil e cooptável.  Quantos farão oposição real à nova administração? Acredito que mudaram nomes,  mas não vão se modificar facilmente as antigas práticas , os velhos conchavos. Mesmo com minoria na Câmara,  os prefeitos, rapidamente, num passe de mágica, arrebanham, sabe-se lá como, uma trupe imensa de fiéis escudeiros.
                               Passada a festa, é hora de guardar a fantasia e voltar à realidade. Os que deixam a administração têm que imaginar as imensas janelas que se abrem à  frente, agora que a porta fechou. A tutela do estado teima em tornar todos um pouco inebriados e anestesiados. Passado o efeito do curare,  abrem-se imensas veredas para o crescimento pessoal e profissional de cada um, sem a gangorra inevitável dos empregos políticos. Os que chegam,  disfarcem ao menos a sofreguidão e percebam a ciclicidade inevitável dos cargos que estão assumindo. Pensem na cidade e na população que os elegeu. Coloquem os projetos coletivos acima dos interesses pessoais. Afinal, tudo é transitório, tudo é fugaz. E ,como dizia o nosso Augusto dos Anjos, lembrem  que “a mão que afaga é a mesma que apedreja”.

J. Flávio Vieira