por José do Vale Pinheiro Feitosa
Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.
José do Vale P Feitosa
quinta-feira, 8 de maio de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
A DISPUTA SERÁ ENTRE PT E PSDB? - José do Vale Pinheiro Feitosa
A cinco meses das eleições presidenciais tudo indica que a
disputa se dará entre a atual Presidenta Dilma Roussef e o Senador Aécio Neves.
Ambos mineiros, mas igualmente atrelados politicamente ao projeto paulista.
Parece cada vez mais difícil para Eduardo Campos do PSB construir uma via
alternativa a esta polaridade política que já perdura duas décadas.
Obstáculos de várias ordens se põem no caminho de Eduardo
para expressar a verdadeira alternativa a que se propõe. O domínio dos meios de
comunicação pelo eixo São Paulo-Rio e a vinculação deles à hegemonia
internacional dos EUA é um grande obstáculo. Eduardo apenas será validado se
for para facilitar o segundo turno com Aécio Neves.
Outro grande obstáculo do Eduardo é conseguir fontes de
financiamento para mais do que ser linha auxiliar do projeto político bipolar
PT e PSDB. Sendo um político de grande prestígio em seu estado, Eduardo Campos
não teve tempo para se constituir como um grande líder nordestino. Eduardo não
foi nos últimos anos aquele personagem que atuou nas cenas principais do país.
Não vamos esquecer que Collor de Mello foi inflado pelo medo
das oligarquias com os partidos de origem trabalhista. A mídia lhe deu uma
dimensão política maior do que tinha e os meios empresariais deu eco a isso
durante todo o seu mandato como governador de Alagoas. Numa sociedade
empobrecida e injusta a campanha de que funcionários públicos ganhavam absurdos
enquanto o povo morria de fome, colou como uma luva no sentimento popular.
E observemos a contradição de que um verdadeiro Marajá
nordestino conseguia convencer que toda a exploração dos trabalhadores era
devido aos altos salários do setor público. Era um desvio linguístico e um
corta luz da realidade em que os empresários esfolavam os trabalhadores. Os
empresários eram quem puxavam os cordões do Collor. Quando ele não se prestou
mais para o exercício do fantoche, tiraram-no de cena, mas tendo o cuidado de
aliviá-lo de todos as denúncias recebidas com aconteceu no ano atual. Contemporaneamente
José Dirceu do Partido dos Trabalhadores recebe regime prisional fechado quando
o plenário do TSF lhe deu regime aberto.
Udenismo é a palavra chave para compreender esse linguajar
que construiu a mercadoria Collor de Mello, com a rede Globo hegemônica fazendo
todo a estratégia de Marketing e o merchandising inserido nos noticiários de
suas emissoras. A primeira face do Udenismo no Brasil é ser extensão dos
empresários conservadores atrelados ao projeto americano e ser a cozinha da
mídia nacional. A marca é o denuncismo, o moralismo anacrônico, a agressão
verbal aos adversários, o levante da classe média e especialmente a bandeira de
que é preciso escorraçar da vida política todo ator que milite na causa dos
trabalhadores.
Isso acontece até nas disputas municipais. Mesmo quando
apenas representam brigas paroquiais de grupos querendo dominar o poder
municipal, é certo que os atores que operam nas redes sociais, jornais, rádios
e televisão representam verdades e mentiras do que é interesse público e dos
trabalhadores (“quem trabalha é quem tem
razão”). Não é incomum que vozes do poder de ontem que eram tão virulentas
contra qualquer crítica de sua administração, hoje se diga a voz da democracia
perseguida pelo poder atual. E tome denúncias e CPIs para cima do Executivo.
Empresários conservadores, mídia empresarial, udenismo e a
falsa figuração das verdades do povo se constitui no recheio onde a polaridade
na política atual ainda se manifesta. Isso tudo serve para melhorar efeitos e
esconder os verdadeiros projetos políticos (econômico e social) que
representam. Dando o desconto de ser ele do campo trabalhista, entendo que o PT
e o PSDB estão apresentando as seguintes propostas segundo Paulo Vanuchi:
“A ideia de que o
Brasil tem que seguir nessa linha de promover crescimento, mais emprego,
recuperação do salário mínimo e gastos sociais em programas como o Bolsa
Família.” (a linha de ideias tem como matriz os interesses dos
trabalhadores e assalariados).
“O estado não pode
gastar tanto na questão social e é preciso estimular a produção dos grupos
empresariais, controlar os gastos excessivos, impedir que o salário mínimo
cresça criando problemas para empresas e prefeitos com a defesa de que se
houver um relativo aumento do desemprego, esse será o remédio amargo que o
sistema capitalista requer que a economia funcione melhor.” ( a linha de
ideias das grandes corporações produtivas e financeiras).
A dar credibilidade à análise de Vanuchi tem-se a própria
mídia-empresarial ao acompanhar declarações do Senador Aécio Neves e do
financista Armínio Fraga e o próprio discurso da Presidenta Dilma no dia
primeiro de maio.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
VIVA O POVO BRASILEIRO - José do Vale Pinheiro Feitosa
Nesse feriado do primeiro de maio fui assistir ao filme
Getúlio que trata dos dias desde o atentado contra Lacerda até o suicídio do
Presidente barrando o golpe político que se armava. Ao mesmo tempo tenho fuçado
blogs e jornais sobre a crise da Ucrânia e sem perder de vistas as próximas
eleições brasileira.
Mesmo que os EUA e a União Europeia tenham dado um troco à
Rússia em seu proselitismo no mundo, especialmente na Síria e no caso Snowden,
de repente passamos a enxergar o renascimento da grande Rússia que fora perdida
com o fim da União Soviética. E mais ainda: a China incomoda mais do que a
mídia ainda expõe. Basta se observar que Obama tem dito para sentir a tensão
que se cria no assunto China.
Acontece que os EUA e a União Europeia estão numa louca
corrida para conquistar o Leste Europeu e forçam a América Latina a aderir aos
seu bloco comercial. Isso considerando o jogo no Mar da China e no sudeste
asiático. Enfim o polo ocidental do hemisfério norte, não quer conversa de
BRICs e nem a consolidação econômica de um rede cooperativa e complementar
entre a China e a grande Rússia (com essa possibilidade a grande Rússia se
torna mais turbinada).
Aí vêm as eleições este ano no Brasil com dois discursos em
disputa que se consolidam sem a aparente possibilidade de uma terceira
alternativa. Acontece que o Eduardo Campos, por essas coisas da política, que
poderia fazer essa alternativa se consolida com uma força auxiliar da
viabilidade de Aécio Neves. O Aécio com um discurso de fazer corar de vergonha
o seu avô Tancredo Neves, diz uma bocado de bobagens sobre suas semelhanças com
Eduardo e na prática diz que o Campos seria um auxiliar dele.
Mas o que tempos em disputa nas eleições? Um discurso de
austeridade econômica, lacerdista nos termos que levaram ao suicídio de Getúlio
(corrupção, destruição do adversário, união de mídias etc.) e atrelado ao bloco
União Europeia/EUA. O outro discurso marcou posição no primeiro de maio propondo
a união dos trabalhadores e da classe média como modo e manter a independência
do Brasil em relação aos conflitos mundiais.
Retornemos a Getúlio. Nos anos 30 e 40 do século passado, a
crise econômica do liberalismo econômico a ordem mundial se esfacelou em vários
modelos de sociedade – comunista, social democrática, fascista etc. A evolução
de uma guerra mundial, com milhões de mortos, terminou por consolidar um modelo
hegemônico de economia e sociedade.
Getúlio Vargas chegou à Presidência da República por uma
luta armada que destituiu o governo e empossou outro. Em 32 a oligarquia do
café de São Paulo tentou impor seu jogo. Em 35 trabalhadores e militares
tentaram a alternativa comunista. Em 37 houve assalto ao próprio palácio
presidencial por parte dos integralistas (que representavam o modelo fascista).
E claro a eclosão da segunda guerra mundial acelerando enormemente o processo.
Getúlio adotou um modelo pendular, independente em relação às
nações em conflito, ao mesmo tempo que foi consolidando uma aliança com as
classes trabalhadoras urbanas e com uma certa classe média que nasceu dos
empregos estatais. Com as radicalizações, que processos tão intensos como esses
determinam, a verdade é que o Brasil se manteve como força nacional com peso na
economia mundial, na cultura e como exemplo de nação independente no contexto
mundial.
Eis a questão central dessas eleições: não aderirmos a qualquer
bloco, não sermos caudatários de nenhuma nação ou blocos, mantermos capacidade de
diálogo internacional amplo, promover a união de quem trabalha e produz e
sobretudo ter o que dizer como modelo de sociedade no grande conflito que
ocorre no que se chama crise econômica.
domingo, 4 de maio de 2014
sexta-feira, 2 de maio de 2014
Grande demais para falir - José do Vale Pinheiro Feitosa
Quem não esqueceu e ligou os dois neurônios para a mensagem
deve lembrar. A empresa privada é superior à pública pois se fracassar falirá
enquanto no outro caso a sociedade pagará a ineficiência. E assim a coisa
privada ocupou todo o cenário e prometeu um vida muito melhor para todos.
Mas não entrega a velocidade da internet. A telefonia móvel
é uma mixórdia de mentira, raiva e engabelação. Mudaram o modelo de negócio das
companhias aéreas e tudo é pago, até certos assentos na fileiras apertadas.
Quer dizer: a consonância entre o que pode e deve e aquilo
que entrega não existe. E é caro. Muito caro. Certos medicamentos psiquiátricos
custam mais de R$ 800,00 mensais para ter efeito. Medicamentos contra o câncer
não só custam o mesmo que apartamentos luxuosos como são controlados por uma
máfia picareta que ganha nas duas pontas.
Observem que a manutenção da vida já ultrapassou os limites
das necessidades básicas contínuas. O domicílio tem inúmeros taxímetros rodando
continuamente: eletricidade, água e esgoto, retirada do lixo, televisão a cabo
e telefonia. Mas a dependência não fica aí: toda a parafernália
eletroeletrônica e mecânica que entulha os vãos dos domicílio tem a necessidade
sistemática de manutenção.
Uma lâmpada iluminada a eletricidade se tornou um escândalo
de obsolescência: duram menos de um décimo que poderiam durar. Já viram como os
faróis dos automóveis não levam nem seis meses para queimar? O quanto estas
lâmpadas novas a gás que economizariam a conta da luz queimam com muito menos
horas de uso do que o fabricante promete?
Então inverteu-se a racionalidade e o avanço do conhecimento
num cavalo de pau louco onde a dinâmica é a dos cassinos. Um bando de ricos
apostando lucros em medidas arriscadas que transformaram a produção em canal
privilegiado de enganar e extrair maiores lucros.
E agora na crise de 2008, que dizem ser a crise ideológica
daquele discurso neoliberal, caiu a viga principal que o sustentava. E o
tombamento da estrutura tem a frase germinal dele: grande demais para falir.
Voltamos à origens: se não podem falir, a sociedade paga a
conta.
quarta-feira, 30 de abril de 2014
Pelé e o Brasil - José do Vale Pinheiro Feitosa
A consciência crítica sobre a ditadura e o massacre social
no nosso país sempre viu Pelé como um mito que não se preocupou com as origens
de classe e etnia de sua família. Nunca fez um gesto para denunciar o status
quo que sufocava os pobres e nem levantou lebres contra o racismo que se
expressa contra a população que se originou na África.
Pelé, um negro e ídolo popular, chegou até falar em amor
quando vivíamos uma das situações mais críticas de repressão política. Gostava
de aparecer ao lado dos poderosos e andou bem distantes de mitos negros de
repercussão mundial como Miriam Makeba que abriu uma luta mundial contra o
Apartheid em sua África do Sul.
O que se diz sobre ele no mundo sujo do marketing,
associações com empresas, patrocínios e contratos de jogadores é uma corrente que
toma energia na mesma fonte dos velhos cartolas do futebol. A face corrupta e
mercenária por vezes é assacada contra ele nos meios de comunicação
especializado.
Por tudo isso Pelé é posto do outro lado da rua em relação
àqueles que lutam por uma vida melhor, por justiça social e por maior igualdade
pública. Mas aí é que começa a minha narrativa.
Pelé foi por muitos anos o maior símbolo da capacidade dos
negros em todas as sociedades que os discriminam. Pelé, pode ser que não Edson
Arantes do Nascimento, mas Pelé é a força da raça, o vitorioso, o gênio aquele
ser superior que toda cultura deseja. Especialmente a cultura dos povos
explorados e oprimidos.
Pelé, até por ser brasileiro, por vir de um país pobre e
sujeito às tempestades dos impérios arrogantes, terminou por representar no
imaginário de povos em igual situação a rota da superação histórica. Por isso
todo brasileiro que estivesse no mais remoto lugar da Ásia, da África, da
América do Sul e até da Europa era automaticamente identificado por Pelé. Pelé
era sinônimo de brasileiro.
Esta coisa que o Brasil ainda carrega. De ser este gigante
territorial que pode contribuir com outro modo de fazer política. De ser
alegre, tolerante, aberto à diversidade, lutar pelo progresso material nacional
mas sem comandar a estratégia imperial do domínio e do controle dos povos.
Este Brasil mulato, branco, negro, indígena e japonês que é
cor de todas as cores.
Em conclusão: os setores mais progressistas não conseguem
ver em Pelé a essência da sua genialidade popular e o mais arraigado pensamento
de direita, que deseja ser o Brasil o mero reflexo de um espelho do majestoso
imperial do hemisfério norte, vê no nosso povo apenas a sua marcha serviçal.
"É FOGO" - José Nilton Mariano Saraiva
Numa dessas nossas andanças
pelo Brasil, certa vez desembarcamos em Curitiba, a belíssima e agradável capital
do Paraná, já à noitinha e com o tempo bastante frio. Em chegando ao hotel, a
surpresa: no hall, dentro dos elevadores, nos corredores, nas portas dos
apartamentos e, enfim, por todo o prédio, cartazes em letras garrafais anunciavam:
“A falta d’agua é fogo”.
De princípio, não demos
maior importância, porquanto a prioridade era se acomodar o mais rápido
possível e logo partir para conhecer a noite curitibana.
E aí a surpresa: ainda
no elevador, o “office-boy” encarregado de transportar as malas, notando o sotaque
diferente dos integrantes do grupo, indagou de onde éramos. Ao saber sermos cearenses,
do Crato, Fortaleza e tal, identificou-se como também cearense, só que se São
Benedito, na Serra da Ibiapaba. Não se conteve e, apontando para o cartaz afixado
numa das laterais do elevador, disparou: “Tão vendo isso aí ? É que aqui tá
faltando água há vários dias e “eles” tão passando por grande dificuldade” E emendou:
”Eu acho é pouco. Só assim “eles” vão ter consciência do sofrimento que nós,
nordestinos, passamos com a seca”. Já instalados, telefonema da portaria reverberava
o dito pelo office-boy: “Senhor, queríamos comunicar-lhe que toda a cidade está
com problemas de falta d’agua e, assim, pedimos
sua compreensão a fim de consumir o menos possível, só o absolutamente necessário”.
A reflexão nos remete
ao drama pelo qual passa o todo poderoso Estado de São Paulo, atualmente no enfrentamento
de uma estiagem braba e demorada, com água faltando até para as necessidades básicas
e com perspectiva de racionamento iminente. E como o tal São Pedro não tá nem
aí para o drama dos paulistanos, a tendência é a coisa piorar.
Mas, como não há mal
que dure para sempre, naturalmente a “coisa” passará algum dia; e aí, pode ser
que eles deixem de “frescura” e não fiquem a reclamar da transposição das águas
do Rio São Francisco, sob o argumento que a Região Nordeste não é prioritária e
que se está jogando dinheiro fora com um projeto de tamanho alcance social.
Por enquanto, vão ter
que reprisar o lengalenga que ouvimos dos curitibanos, àquela época: “A FALTA D’AGUA É FOGO”.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Pompeia
J. FLÁVIO VIEIRA
A
mulher ralhava, os filhos implicavam. Aquele
hábito diário do velho Vulpino Seabra incomodava toda a família. Lembravam que
os tempos agora eram outros, que a violência andava à solta, que com internet e afins já não se justificava sair
flauteando por aí, mal o sol se esgueirava por trás da serra, ainda espreguiçante. Nem precisava:
tinha um Sacolão logo na esquina , e o vendedor de porta em porta com sua carrocinha. Sentiam-se os familiares diminuídos, vendo um membro importante da
família teimando com um trabalho de vassalo. Principalmente porque os tempos
das vacas magras já haviam passado, os velhos tinham se aposentado, os filhos
estavam bem colocados: queriam mais era travestir-se de um ar nobiliárquico e
apagar de vez , da memória de todos, aqueles passado de liseira. Vulpino, no entanto,
fazia ouvidos de mercador. Preparava, com desvelo de ourives, o velho cigarro
de palha que dependurava aceso em um dos cantos da boca, pegava a cesta grande,
raceada com balaio, e , num nem “escuto
o barulho da mutuca”, partia para o Mercado, antes que os raios sanguíneos escorressem
como uma hemorragia na linha do
horizonte. Desde que se aposentara
sempre fora assim. Cedinho trazia para casa frutas e verduras frescas , ainda
com o cheiro de terra e de orvalho.
Vulpino
trabalhara na agricultura e o convívio com o multicolorido das frutas e
verduras , o cheiro doce das primícias terrestres lhe traziam uma profunda paz
à alma. Além de tudo, como todo velho, tinha um acordar madrugante e exasperava-se
com a preguiça dos demais familiares. No mercado encontrava com os demais
companheiros de geração e iam, pouco a pouco, entre um corredor e outro,
colocando as fofocas em dia. E havia, ainda, inúmeras outras qualidades. O mercado
fazia-se um lugar propício para as contravenções culinárias. Ali tomava o caldo
de mocotó logo pela manhã, espantava o anjo da guarda com a primeira bicada de
zinebra , com o tira-gosto de buchada ou sarapatel. Naquele espaço inda não tinham sido descobertos
o sal e o colesterol . A rapadura e doce
de leite nunca fizeram mal ao diabetes. Ademais,
qualquer indisposiçãozinha transitória
tinha, logo defronte, a barraquinha das meizinhas : marcela, ipepaconha, boldo,
capim santo, hortelã... Àquelas horas,
todos os pecadilhos eram permitidos e nem adiantava os implicadores de sempre
virem especular : nunca havia testemunhas de possíveis delitos cometidos. Valia
a Lei da Omertà.
Havia
ainda uma outra grande atração no Mercado de Frutas. Sempre era possível ir se
enxerindo para uma ou outra vendedora. Puxava-se conversa daqui, encomprida uma
outra ali e, muitas e muitas vezes, reacendiam-se chamas que se imaginavam
totalmente extintas, sufocadas em meio às cinzas dos anos. Vulcões inativos ,
remexidas placas tectônicas enferrujadas, voltavam a cuspir lava como nos
tempos de Pompéia e Herculano.
Por
tudo isso, Vulpino não abria mão da viagem matutina. Percebia que vinha um
pouco mais de verduras e frutas na cestinha, quando retornava do mercado.
Trazia o mistério do frescor das fontes e da erupção súbita dos vesúvios extintos.
Crato, 24/04/14
segunda-feira, 21 de abril de 2014
"Progresso Social": BRASIL x BRICS
BRASIL já ultrapassou com folga a CHINA e a RÚSSIA
nos “Indicadores de Progresso Social”, a saber:
1º - Suécia:
64,81 pontos;
2º - Reino
Unido: 63,41 pontos;
3º - Suiça: 63,28 pontos;
4º - Canadá:
62,63 pontos;
5º - Alemanha:
62,47 pontos; ...
18º - Brasil:
52,27 pontos; ...
32º - China: 47,92 pontos;
33º - Rússia: 46,89 pontos; ...
39º - África do Sul: 44,67 pontos;
43º - Índia: 39,51 pontos;
50º - Etiópia: 32,13 pontos.
Estudos internacionais já mostram que o Brasil
descolou dos BRICS na redução da desigualdade e no combate à miséria. Segundo o
novo “ÍNDICE DE PROGRESSO SOCIAL”, criado pela Harvard Business
School, o Brasil é o que mais avança socialmente entre as economias dos BRICS.
Em vez de analisar indicadores econômicos, entre eles o crescimento do PIB, o
índice avalia resultados sociais e ambientais, usando fontes de dados do Banco
Mundial e da Organização Mundial da Saúde. “O progresso social será crucial para
a ambiciosa estratégia de desenvolvimento do Brasil”, diz o professor da
Harvard Business School, Michael Porter, criador da metodologia. Porter
trabalha em colaboração com economistas do Instituto de Tecnologia de
Massachusetts (MIT) e importantes organizações internacionais de
empreendedorismo social, de administração, filantrópicas e acadêmicas.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
Colaboração de Eurípedes Reis
Ontem, faleceu o Gabriel Garcia Marquez, autor de
diversos livros. Entre eles Cem Anos
de Solidão, O Amor nos Tempos do Cólera, Memórias de Minhas Putas Tristes, A Incrível e Triste História de Cândida
Erêndira e sua Avó Desalmada e Ninguém
Escreve ao Coronel.
Existem centenas de frases escritas por ele. Em sua
homenagem, destaco algumas:
·
Um único minuto de reconciliação vale mais do que
toda uma vida de amizade.
·
A sabedoria é algo que quando nos bate à porta já
não nos serve para nada.
·
Tudo é questão de despertar sua alma.
·
A vida não é mais do que uma contínua sucessão de
oportunidades para sobreviver.
·
Não passes o tempo com alguém que não esteja
disposto a passá-lo contigo
·
O sexo é o consolo que a gente tem quando o amor
não nos alcança.
·
Te amo não por quem tu és, mas por quem sou quando
estou contigo.
·
Nunca deixes de sorrir, nem mesmo quando estiver
triste, porque nunca se sabe quem pode se apaixonar por teu sorriso.
·
Só quero na minha vida gente que transpire
adrenalina de alguma forma.
·
Era ainda jovem demais para saber que a memória do
coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a este
artifício conseguimos suportar o passado?
·
No dia em que a merda tiver algum valor, os pobres
nascerão sem cu.
·
Você acredita em amor a primeira vista? Claro que
sim! Os impossíveis são os outros!
·
Um verdadeiro amigo é alguém que pega a sua mão e
toca o seu coração.
·
Deixe que o tempo passe e já veremos o que ele
traz.
·
As mulheres só se entregam aos homens de ânimo
resolvido, porque lhes infundem a segurança que tanto anseiam para enfrentar a
vida.
·
Não chores porque terminou.
·
Acontece que a gente não sente por dentro, mas de
fora todo mundo vê.
·
Se você pretende ficar louco, fique sozinho.
·
Aproveita agora, que és jovem, para sofrer tudo o
que pode - lhe disse -, que estas coisas não duram toda a vida.
·
Um homem só tem o direito de olhar um outro de cima
para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
·
Te amo não por quem tu és, mas por quem sou quando estou contigo.
·
Quando não escrevo, morro. Quando escrevo, também
·
Como escritor me interessa o poder, porque ele resume toda a grandeza e
a miséria do ser humano.
Ele tinha 87 anos, ou seja, não “morreu
fora do combinado”. Mas, sem dúvida nós humanos, sem sua presença, ficamos mais
pobres. Pobres em cultura.
Gabriel
Pequena grande homenagem do jornal O POVO (de 18.04.14), ao poeta que se foi, ontem:
“SEM ANOS DE
SOLIDÃO - Gabriel, depois de ler você, a humanidade nunca mais se sentiu só”.
quarta-feira, 16 de abril de 2014
DESCOBRIMENTO DA ÍNDIA - José do Vale Pinheiro Feitosa
O Everest bem próximo a nós
Quem precisa atravessar continentes para pousar na Índia?
Nenhuma noção do outro, da diversidade humana, da enorme diferença dos valores
ocidentais pode ser maior do que encarar a própria cultura daqueles erroneamente
chamados índios.
Aqui mesmo nas florestas da América do Sul seria suficiente.
Mas com dúvidas se isso é possível em razão do desmatamento e do avanço além
das fronteiras em busca do látex da seringueira, do ouro e pedras preciosas, do
capim das manadas bovinas. O ocidente plantou edifícios sobre a alma dos
originários e diferentes povos deste novo mundo.
Então que se tome uma aeronave e pelos céus se cruze o Atlântico,
a África, suba a Península Arábica e pouse em Délhi. Ao norte da Índia. A
imensa, distinta, multiétnica, matriz de grandes civilizações, culturas e de
tudo que se pode reconhecer como Oriente. Não do Oriente do mediterrâneo irmão
siamês do Ocidente.
Do verdadeiro Oriente das planícies, dos planaltos, dos
mares e da mais superlativa cadeia de montanhas da terra: o Himalaia. Em tudo
diferente: desde os perfumes, sabores, das cores, dos olhares, das falas,
escritas e artes. Raiz difusora de grandes e complexas misturas de religiões,
códigos de viver, fazer história e inventar o futuro tais como o Hinduísmo e
todas as suas imensas variações, o Islamismo, o Budismo e do outro lado das
montanhas o Taoísmo e o Confucionismo.
E de repente todo o meu corpo se encontra nas ruas de Délhi,
Katmandu, Calcutá, Siliguri e Darjeeling esta cidade já nas franjas do Himalaia.
Planícies e montanhas. Rios sagrados que nascem nas alturas e fertilizam as
planícies. A Índia é uma aventura de descobrimento e ruptura.
Descobre-se o oriente e a mais completa alteridade. E
rompe-se com o circuito euro-americano do turismo de classe média brasileiro.
Ainda bem que agora se voltando para a Turquia e o que restou das colônias
gregas da Ásia Menor.
Falar na Índia como ritmo de desenvolvimento dos BRICS é
menos do que se encontra uma vez se estando nela. Nenhum relato de viajante,
imagens fixas ou móveis, literatura e artes pode dizer o que é se encontrar nas
ruas e estradas da Índia. Faz parte daquelas coisas que se necessita respirar,
comer, beber, andar e dormir para se entender a verdadeira dimensão.
Mafiosas "Excelências" - José Nilton Mariano Saraiva
Agora é oficial. Não se pode ignorar ou tergiversar.
O presidente do Tribunal de Justiça do Ceará (TJ-CE),
desembargador Luiz Gerardo Pontes Brígido, mostrando ser uma pessoa corajosa e
destemida, declarou hoje (15.04.14) à mídia cearense aquilo que todo mundo já
sabia, mas evitava imiscuir-se em razão da gravidade de que se reveste a
questão e do “peso” dos atores envolvidos: a “corrupção” corria livre, leve e solta
nos “plantões” de finais de semana daquela corte (e que a grana disponibilizada
era coisa alta e apetitosa), face envolver bandidos de alta periculosidade.
Para se ter idéia do alcance e magnitude do problema, sabe-se
que, irmanados, servidores daquela corte, advogados e até dois desembargadores
participavam da perigosa quadrilha. O bem montado esquema, visando principalmente
beneficiar bandidos envolvidos com o tráfico de drogas e assassinatos, constava
da apresentação de “alvarás de soltura” apenas e tão somente no decorrer dos
“plantões” dos finais de semana, quando à frente dos trabalhos estivessem os “sortudos”
desembargadores que chefiavam o bando.
Para se ter idéia do alcance e propósitos das mafiosas “Excelências”,
enquanto em dias normais a média de concessão dos tais “alvarás de soltura” se
situava na faixa de 15 ocorrências, durante os “plantões” de final de semana
(principalmente à noite) esse número saltava para 70 liberações (fala-se que
cada liberação não custava menos que R$ 100.000,00).
Lamentavelmente, já se sabe que face à brandura das nossas
leis, o tal “segredo de justiça” prevalecerá e não teremos oportunidade de conhecer
quem são os corruptos (já identificados e denunciados ao Conselho Nacional de
Justiça).
Agora, aqui prá nós: se tínhamos o Poder Judiciário como um
fiel guardião contra os excessos praticados com os menos favorecidos, a quem agora
recorrer ???
terça-feira, 15 de abril de 2014
O "GIRO DA RODA" - José Nilton Mariano Saraiva
As recentes e oportunas postagens do Zé Flávio e do Carlos Esmeraldo tendem sinalizar
para o tão almejado “recomeço” do Crato (e o seu despertar para uma nova era),
porquanto provocadoras de reflexões e debates sobre os erros cometidos no PASSADO
e o que poderá ser feito HOJE na perspectiva de que tenhamos algum FUTURO.
De um lado,
o Zé Flávio foca sua análise no saudosismo e pessimismo dos cratenses, deixando
transparecer terem sido fatores determinantes e responsáveis pelo estado de
hibernação que acomete a cidade já há uns 40 anos; aproveita a oportunidade e
nos chama a atenção para a necessidade do estabelecimento de metas que
representem a vocação da cidade, sugerindo cuidados com a Cultura e a Ecologia.
Já a vertente
ofertada pelo Carlos Esmeraldo, além de reforçar o explicitado pelo Zé Flávio,
basicamente nos direciona à necessidade de “união” do povo cratense em prol da
cidade.
Particularmente,
entendemos que há, sim, perspectiva de reversão do quadro, desde que nossa
população se conscientize da necessidade de engajar-se mais efetivamente nessa
luta.
Afinal, como
negar que o Crato chegou a esse deplorável estado de paralisia em razão da irresponsabilidade
do seu povo no momento de usar sua arma mais importante, o voto.
Sim, porque optar
por um quadro político sem nenhum vínculo ou comprometimento mais sério com a
cidade (nas eleições proporcionais), ou que na eleição majoritária (prefeito) escolha
o candidato levando em conta a tal “tradição famíliar”, como recentemente fez o
nosso povo, é algo imperdoável (assim como escolher pessoas despreparadas e que
objetivam apenas “se fazer” na política, é crime).
Como mostrou
o Carlos Esmeraldo em sua postagem, é através de uma representação política
atuante e unida que conseguiremos a tão sonhada alavancagem da economia, E isso
representa o quê ??? Ora, implantação de indústrias e atração de empreendimentos
comerciais de porte, com a conseqüente criação de empregos, geração de renda, aumento
do consumo, movimentação do comércio e, alfim, benefícios para a cidade, via recolhimento de
impostos e taxas. Assim, aumentando sua base arrecadadora, o poder municipal terá
condição de investir em novos planos e projetos, que decerto beneficiarão a
cidade e seus habitantes. A isso se deu a alcunha de o “giro da roda”. Portanto,
façamos a “roda girar”, no Crato, e o resto virá em conseqüência.
Claro que,
como mostrou o Zé Flávio, a chegada do progresso tem sua porção dicotômica (ônus-bônus,
positivo-negativo e por aí vai), comumente deixando seqüelas, tipo aumento da criminalidade
e de roubos, transito caótico e demais mazelas. E aí surge o grande dilema:
crescer e se sujeitar a isso tudo (já que decorrência desse mesmo progresso) ou
ficar “deitado eternamente em berço esplêndido” (à espera que as coisas
aconteçam naturalmente), abdicando do desenvolvimento e tornando-se uma cidade
dormitório (como o é o Crato hoje), onde apenas um restrito grupo de pessoas se
beneficia. Mas, se optarmos por isso, como o poder municipal arranjará dinheiro
até para saldar sua folha de pessoal ???
Urge, pois,
que comecemos a mudar o jogo, via realização de seminários e debates, objetivando
“acordar” os habitantes da cidade no tocante a influencia do seu voto quando da
escolha dos que nos representação nos mais diversos foros .
Em suma: para nos catapultar do marasmo vigente, educação, política
e economia se nos afiguram como complementares e necessários, porquanto essenciais
numa possível retomada de crescimento.
Post
Scriptum
“Educando o
jovem não será necessário punir o homem” (autor desconhecido).
segunda-feira, 14 de abril de 2014
NA MINHA RUA CABEM TODOS OS SONHOS URBANOS - José do Vale Pinheiro Feitosa
Com alguma dúvida vou meter minha colher nos textos dos
queridos Zé Flávio e Carlos Eduardo. A dúvida parte da própria ausência na
maior parte da história da minha cidade. Saí daí para estudar fora e nunca mais
voltei para ficar mais do que uma semana. Portanto sou uma peneira incapaz de
reter a realidade do território da minha própria natalidade.
Mas eles mesmo me deram elementos. Deixaram-me a impressão
que a chamada conurbação implica em aprofundar mais do que um conflito
histórico. Na cara que até hoje pairam lembranças da guerra entre Juazeiro e
Crato ainda no início do século XX. Mas esse conflito pode implicar outra
questão.
Ao invés de um conflito explícito, há implícito a negação de
que uma única cidade não é suficiente para representar o que o território conurbado
é. Inclusive é muito interessante esses aspectos pois as regiões metropolitanas
trazem espaços dedicados como zonas comerciais, industriais, parques e lazeres,
regiões dormitórios, zonas ricas e zonas pobres.
Mesmo assim os espaços dedicados estão cada vez mais se
desfazendo por um processo de integralidade urbana em que se misturam todas as funções
necessárias na vida urbana. Quer dizer no mesmo território se mesclam comércio,
empregos, moradias, lazer e assim por diante.
Quero dizer que a conurbação leva consigo o desejo da
integralidade urbana. As cidades que a compõem serão interpenetradas pela
mobilidade urbana, dependerão de suprimentos essenciais na escala conjunta e a
vocação nunca será um fenômeno per si. Ela sempre dependerá das necessidades e
demandas conjuntas.
Por isso mesmo o próprio conceito de metropolização e
conurbação se deita na capacidade de se compor a realidade conjunta através da
identificação, do planejamento e consecução da integralidade de serviços e
necessidades onde as pessoas vivem e trabalham. Essa é a grande questão.
A grande questão é descentralizar, espalhar equipamentos
urbanos em todas as cidades e bairros. Romper concentrações, especializações e
vocações. Todos os sonhos urbanos cabem na rua em que as pessoas vivem. Quem na
minha cidade não tem consciência da situação desigual entre o Bairro Gisélia
Pinheiro quando comparado um bairro de classe média?
domingo, 13 de abril de 2014
O que nossos vizinhos pensam do Crato? - Por Carlos Eduardo Esmeraldo
Longe
de mim o desejo de fomentar a rivalidade latente entre Crato e
Juazeiro. Primeiro por que fui dirigente regional da Coelce em Juazeiro
durante 15 anos. E ao retornar para Fortaleza, onde originalmente eu era
lotado, sai de Juazeiro com muitos amigos e a maior das honrarias que
um cratense poderá ter granjeado na vizinha cidade: o título de cidadão
juazeirense. Segundo o coronel José Ronald de Brito, apenas cinco
cratenses possuem tamanha distinção. Nesses 15 anos de convivência com
os juazeirenses, somente ouvi deles palavras de admiração pelo Crato.
Vi em Juazeiro um povo dedicado ao trabalho, que luta para conseguir as benesses para sua terra. Para tanto, toda a comunidade unida se faz representar pelas suas lideranças políticas e de classes. Certa vez, eu testemunhei pessoalmente, uma caravana de juazeirenses composta de todos os seus representantes: deputados federais e estaduais, prefeito, vice-prefeito, vereadores, presidente de Associação Comercial, clubes de diretores lojistas e de serviços visitando o governador do Estado, a fim de solicitar para Juazeiro a sede regional de um órgão público. Jamais tomei conhecimento de movimentação semelhante dos nossos conterrâneos em benefício do nosso querido Crato. Convém lembrar que a pressão de um grupo é muito mais produtiva do que uma voz solitária.
Desejo deixar bem claro que particularmente eu concordo com parte das opiniões de um jornalista de Juazeiro, abaixo transcrita e que espero ser um palpite isoldado.
Vi em Juazeiro um povo dedicado ao trabalho, que luta para conseguir as benesses para sua terra. Para tanto, toda a comunidade unida se faz representar pelas suas lideranças políticas e de classes. Certa vez, eu testemunhei pessoalmente, uma caravana de juazeirenses composta de todos os seus representantes: deputados federais e estaduais, prefeito, vice-prefeito, vereadores, presidente de Associação Comercial, clubes de diretores lojistas e de serviços visitando o governador do Estado, a fim de solicitar para Juazeiro a sede regional de um órgão público. Jamais tomei conhecimento de movimentação semelhante dos nossos conterrâneos em benefício do nosso querido Crato. Convém lembrar que a pressão de um grupo é muito mais produtiva do que uma voz solitária.
Desejo deixar bem claro que particularmente eu concordo com parte das opiniões de um jornalista de Juazeiro, abaixo transcrita e que espero ser um palpite isoldado.
Finalizando, gostaria que o povo cratense tomasse conhecimento dessa declaração e se unisse para trabalhar pela nossa terra. Para tanto temos que formar novas lideranças, esquecendo que candidatos a cargos políticos de outras regiões não têm nenhum compromisso com o Crato. Tenho certeza que a coisa não está perdida.
Conforme recente análise realizada pelo competente médico e escritor cratense Dr. José Flávio Pinheiro Vieira, o IDH do Crato, índice que mensura os indicadores de longevidade de um povo, sua qualidade de vida, de educação e renda, somente fica atrás do de Fortaleza e praticamente empatado com Sobral, que é o segundo colocado. E o Dr. José Flavio acrescenta: "Queiramos ou não, vivemos num éden".
Finalizando sua análise, o Dr. José Flávio conclui que devemos centrar nossas atenções em nossa vocação de centro irradiador de cultura e capital ecológico. O caminho é esse ai. Vamos à luta!
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
sexta-feira, 11 de abril de 2014
A Treva e o Arco-Íris
Existem
momentos na vida onde
a questão de saber se se pode pensar
diferentemente
do que se pensa,e perceber
diferentemente
do que se vê,
é indispensável para continuar
a olhar ou a refletir.
J. Flávio Vieira
Há dois sentimentos correlatos que pairam , como uma nuvem negra, sobre a cabeça dos cratenses. De um
lado , o Saudosismo crônico, perceptível, claramente, nas gerações mais antigas.
Estas pessoas viveram, plenamente,
aquilo que se considera o apogeu da Vila de Frei Carlos: os três primeiros
quartéis do Século XX. Conheceram uma cidade cônscia do seu passado glorioso,
com seus múltiplos pioneirismos : O
Araripe, primeiro Jornal do interior do Ceará ( 1854); a nossa centenária Banda
de Música; o Cinema Paraíso (1911), o primeiro do interior do Nordeste; a primeira instituição educacional do
interior do Ceará, o Seminário São José ( 1875); D. Bárbara do Crato, a
primeira heroína brasileira; o Hospital São Francisco, primeiro de todo Sul
Cearense. Saltam ainda aos olhos figuras históricas de porte nacional,
nascidas, formadas ou criadas nas margens do nosso Rio Grangeiro : o pintor Vicente leite; o cineasta e
diplomata Hélder Martins; o Senador
Alencar; Tristão Gonçalves; os escritores Ronaldo Correia de Brito, Batista de
Lima, Fran Martins; os cineastas Hermano Penna, Rosemberg Cariri, Jéfferson
Albuquerque Júnior; os poetas Zé de
Matos, Cego Aderaldo, Geraldo Urano; o semeador de universidades , Martins
Filho; o escultor Sérvulo Esmeraldo; místicos como o Padre Cícero e o Beato Zé
Lourenço, isto apenas para citar alguns.
O outro sentimento que se junta ao nosso
saudosismo inveterado é, certamente, o Pessimismo. Ele advém do destino tomado por nossa vila, nos últimos trinta anos. Os amantes do Crato carregam um certo
complexo de inferioridade, um certo travo, quando percebem, claramente,
que se comparados, em termo de
progresso, com outros municípios próximos , aparentemente , temos murchado e não mantivemos o mesmo ritmo
de Juazeiro, Barbalha, Brejo Santo.
Atiram-se farpas para tudo quanto é lado, procurando culpados,
principalmente na área política, pela suposta hecatombe. E traçam-se
estratégias esquisitas , na busca de um remédio para a hemorragia , como copiar
o Turismo Religioso do Juazeiro, atraindo os romeiros, construindo estátuas
gigantescas que rivalizem com as do Padre Cícero. Ora, as cidades, como as
pessoas, têm sua própria vocação .
Inclinações não se criam do nada, pela simples vontade, de um ou outro
cidadão. Seria como um pai , tendo um filho com tendência natural para o
comércio, tentar fazê-lo maestro de orquestra sinfônica. Seria possível ? Talvez, mas sem aptidão inata, jamais se transformaria num Beethoven
ou num Chopin.
A
visão do desfalecimento do Crato é
vesga. Observamos apenas com um olhar profundamente capitalista. Interessa-nos o olhar frio dos livros de
Economia. Mesmo que aumentássemos imensamente o nosso PIB, o benefício viria
para todos, ou apenas para a pequena parcela de ricos e afortunados ? Sempre
tivemos uma vocação Cultural e ecológica por conta da nossa Chapada Nacional do
Araripe. O progresso o que nos trouxe ? Só benefícios ? Em nome dele , desmatamos
profundamente nossa reservas, poluímos nossos rios, destruímos todo o nosso
patrimônio arquitetônico. O povoamento desordenado das encostas tem trazido prejuízos
difíceis de se avaliar. Vale o progresso a todo custo ? O aparente desenvolvimento
das cidades circunvizinhas( na realidade uma inchação) tem trazido junto seus
imensos efeitos colaterais : trânsito caótico,
colapso na infra-estrutura, violência crescente.
O último Índice de Desenvolvimento Humano no
Ceará(IDHM) mostrou que perdemos apenas para Fortaleza , ficamos em terceiro no
estado, empatados praticamente com Sobral ,que ocupa o segundo lugar. Este
índice mede três indicadores básicos : longevidade, educação e renda. Queiramos
ou não, vivemos num éden. Hoje, com as grandes cidades caririenses praticamente conurbadas , havendo um contínuo fluxo entre elas, há
necessidade de buscarmos este progresso
a qualquer preço, sob risco de piorar a qualidade de vida dos nossos habitantes
? Por que não alimentarmos nossa vocação natural, centrando nossas atenções na
Cultura da nossa terra e na nosso imenso capital ecológico ? Talvez o saudosismo e o pessimismo que invadem
a alma dos cratenses dependam apenas do
ângulo para onde focamos nosso olhar: se
deste lado há treva, do outro corre um rio cristalino e um arco-íris circunda
os céus.
Crato, 11/04/14
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