por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 4 de julho de 2013

Vendendo Almoço aos Outros - José do Vale Pinheiro Feitosa

Dando sequência ao texto “Vendendo o almoço....” vou usar uma análise do professor José Luiz Fiori, professor titular de Economia Política Internacional do Instituto de Economia da UFRJ. Para relembrar o texto anterior: além de subtrair recursos e meios dos trabalhadores, o sistema capitalista criar poderes de classe, hierarquiza as pessoas, aumenta a produtividade gerando dano à natureza e excluindo camadas imensas da sociedade a uma situação de miséria e violência.

O texto do professor Fiori chama-se “Poder, geopolítica e desenvolvimento” e o li no site Carta Maior. É fácil de ser encontrado mas vou resumi-lo para facilitar o raciocínio da pergunta que fiz no final do texto anterior: o destino do Brasil será submeter-se à necessidade da ordem capitalista e se tornar uma potência regional com as mesmas característica monopolista e predatória?

Em síntese o que diz o professor: o sistema capitalista surgiu no Sistema Interestatal Europeu que evoluiu durante cinco séculos para o Sistema Interestatal Capitalista. Este sistema se ampliou para os outros estados numa dinâmica de “competição” e “hierarquização”. O resultado da “captura” dos povos aos sistema gerou três grupos distintos hierarquizados, em competição e com subalternidades e superioridades: um grupo que adere aos superiores de modo consentido (Canadá, Austrália etc.) e serve para a troca de mercadorias, mas essencialmente dar robustez estratégica e tática à política externa e militar das grandes nações. Um outro grupo formado por países que reagem ao topo da hierarquia e por estratégias de mudanças de status quo e de crescimento acelerado consegue mudar sua participação na distribuição internacional do poder e da riqueza (EUA de dois séculos passados e China). E um terceiro formado por países da periferia política e econômica com fortes ciclos de crescimento e industrialização mas sem condições de desafiar a ordem hierárquica estabelecida. São fornecedores de commodities e bens industriais específicos como é o caso do Chile, Colômbia e Peru entre muitos outros.

Fiori aponta dois comportamentos essenciais dos países vencedores, aqueles que estão no topo da hierarquia. Em primeiro lugar a identidade nacional, mobilização da sociedade em torno de grandes projetos de defesa e projeção nacional. Por terem passados por rebeliões e invasões estes países valorizam as política de desenvolvimento e industrialização e a permanente preocupação com a conquista e monopólio de tecnologias sensíveis decisivas para o sucesso de sua economia. E em segundo lugar todos eles desrespeitaram sistematicamente as regras e instituições competitivas de mercado que advogam como obrigação para os países situados nos degraus inferiores. E Fiori conclui: os ganhadores navegaram na contramão das leis do mercado, ou seja os “grandes predadores” que conseguem manter e renovar permanentemente o seu controle monopólico das "inovações”, e dos “lucros extraordinários”. 

E Fiori conclui: Este caminho dos “ganhadores” está aberto para todos os países? Não, porque a energia que move este sistema vem exatamente desta luta contínua, entre estados, economias nacionais e capitais privados, pela conquista de posições e de monopólios que são desiguais, por definição. Mesmo assim, alguns estados podem modificar sua posição relativa dentro deste sistema, dependendo do seu território, dos seus recursos e da sua coesão social. E da existência de uma elite política capaz de assumir as grandes pressões sociais e o aumento dos desafios e provocações externas, como sinal de amadurecimento de uma país que já está preparado para sustentar uma estratégia de longo prazo, de questionamento do status quo internacional, e de desenvolvimento com mobilidade social generalizada.” 

Praticamente neste parágrafo final o professor ensina: o Brasil se seguir este roteiro, ou agenda, pode trilhar o caminho dos ganhadores. Assim encerraria nossa pergunta com a resposta: o Brasil não pode se tornar um país relevante na história sem adotar os modelos competitivos e hierárquicos que resultam em monopólios e saque das riquezas de outros povos. Enfim: se tornar em mais um instrumento eficiente da exploração capitalista.


Acho que temos margem para pensar diferente, voltarei ao assunto numa próxima postagem. 

A estética do acelerador - José do Vale Pinheiro Feitosa

O poder do acelerador é a soma da energia motora, do domínio das ruas e da esmagadora força sobre os pedestres. Com o acelerador encurta-se o tempo do deslocar-se no espaço e por ele a volúpia da velocidade encanta todo o corpo e a sensação de liderança sobre tudo, sobre todos e por sobre todos.

Tanto poderia ocorrer com um homem ou com uma mulher. Vamos escolher uma motorista do sexo feminino à espera que o sinal de trânsito, de uma rua de botafogo em frente à Favela do Morro da Dona Marte lhe desse passagem. E o sinal de trânsito abre todo o ímpeto quase medular, automático em vontade de acelerar e tomar a dianteira sobre as ruas.

Mas eis que um velho com ares resoluto, e seu olhar opaco, cabelos ralos com raízes brancas e as pontas pretas; com sua boca murcha e desdentada, resolve atravessar neste exato momento em que o sinal abre-se para a motorista.

Imediatamente uma revolta com força de uma manifestação de “vândalos” toma conta dos direitos de acelerar da motorista. Ela olhando aquela cena de um velho desprezível, com roupas surradas, um passo trôpego, arrastando um carrinho de compras no seu lento deslocar-se.

O seu ódio ao feio, aos velhos, aos brasileiros que nunca dão certo. Aquele velho jamais seria uma norte-americano ou um europeu. Seu sangue de bem sucedida com o pé no acelerador do seu luxuoso e potente URV sente-se ultrajado por andar num território que tem um velho desdentado, insignificante, interrompendo o trânsito.

Afinal isso acontece numa bosta de país como esse. Ainda bem que o gigante despertou para dar um basta a tudo que está aí.

Virando a página noutra esquina. No queridíssimo Leblon. Tudo clean, inside, New York, Paris e as noitadas alagadas de luxo e prazeres. O mesmo pé sobre o acelerador e outro sinal a abrir-se para a motorista.

Um garotão dourado de praia, os músculos intumescidos como genitálias em permanente efeito pornográfico. Aquelas pernas de abarcar o mundo e aqueles braços de virar o prazer pelo verso e reverso. Aquela promessa de prazer barra a iniciativa do acelerar e atravessa a rua como um felino carregando uma prancha de surf num evoluir rápido demais para o prazer da visão.


O mundo é esse. A felicidade é essa escolha. Não importa a vida e nem o ser humano. Só o poder de acelerar e os fetiches de consumo.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

POR QUE O POVÃO VAI ÀS RUAS - por José Almino Pinheiro


Será que um tratado científico poderia explicar o fenômeno? Onde está ou qual seria o estopim para o início das revoltas? As justificativas tradicionais indicam que as manifestações populares, pacíficas ou não, ocorrem pelos mais diversos motivos: corrupção, exploração, injustiças, roubalheiras, más governanças, são sempre citadas. Acontece que  esses fatos convivem com os homens deste que eles se organizaram em sociedades, e nem por isso, todo dia tem manifestação. A escravidão, por exemplo, símbolo de todos esses males era tolerada e admitida nas sociedades. Mesmo repudiada por muitos e terrível para os escravos, que apesar de terem todo direito, raramente se revoltavam, as mais conhecidas revoltas, entre nós, são a de Espártaco em Roma e a de alguns poucos quilombos. Na carnificina nazista da Alemanha, os prisioneiros dos campos de concentração, apesar de saberem o que os esperavam, que em muitos campos a vigilância era precária, poucas vezes se revoltavam. A mais famosa revolta foi a do gueto judeu de Varsóvia. A grande manifestação popular que culminou com a queda da Bastilha, símbolo da revolução francesa foi creditada ao desgoverno do Rei, privilégios e roubalheiras da nobreza e injustiças. As grandes manifestações populares contra a guerra do Vietnam ocorridas nos anos 60 e 70 do século passado eram obviamente pela paz. As grandes manifestações pela independência da Índia, a derrubada do Xá Mohammed Reza Pahlevi da Pérsia, em 1979,  como a do Czar Nicolau II, este, ao mesmo tempo, Imperador da Rússia, rei da Polônia e grão-duque da Finlândia, em 1917, como a da Bastilha, tem em comum o fato do desgaste do governo, desordem econômica, social e administrativa e, claro, grande corrupção e mudança radical nos regimes políticos. Nos três países o ato final da queda das respectivas monarquias foram as imensas manifestações populares onde a multidão enfrentou a polícia e parte do exército. De peito aberto, e recebidos à bala, os manifestantes que vinham atrás pulavam sobre os cadáveres dos caídos e seguiam em frente até dominarem os contingentes armados.
Os exemplos são muitos, as lutas justas. Aqui tivemos grandes manifestações populares e muitas pacíficas, como as campanhas O Petróleo é nosso, Contra a ditadura, Pela anistia, Diretas já, Fora Collor e essas atuais são exemplos marcantes. 
Mas a resposta à pergunta inicial fica em aberto. Nesse momento por que vamos às ruas? Além dos tradicionais motivos, será, também, porque desejamos encontrar um culpado real, no caso o governo, que incentivou o consumo e consequente endividamento da classe média sem o respectivo incremento salarial para cobrir os custos extras?  Será que deixamos a resignação de lado quando vislumbramos alguma possibilidade de sucesso, quando compreendemos que não dependemos do governo, para pelo menos sobreviver, e aí sim vale a pena ir à luta por um presente e futuro melhores?  


terça-feira, 2 de julho de 2013

As Ratazanas no Queijo do Banco do Vaticano

Como ser cristão na ordem imoral, predatória, corrupta e anti-humana? O Instituto para as Obras da Religião (IOR), mas conhecido como o Banco do Vaticano não conseguiu e se tornou a barriga de aluguel para uma das maiores lavanderias de dinheiro ilícitos do mercado financeiro. Isso certamente não reduz a consciência do bom católico, mas o deixa em grande dificuldade para esquecer a incompatibilidade entre cristianismo e a ganância privada e individual do neoliberalismo meritocrático.  

O mais grave de tudo isso é que um Papa por nome Francisco, oriundo do terceiro mundo, venha a mexer na estrutura tóxica criada pelo santificado Papa João Paulo II. Aquele das multidões que parece ter aberto as portas do banco para financiar seus inimigos comunistas e da teologia da libertação. Não se necessita esperar uma mudança para este lado do Papa Francisco, mas não deixa de ser uma grande curiosidade vendo-o aplicar as normas da religião ao comportamento do banco. Se fizer alguma coisa algo se finda: ou o capitalismo ou banco do vaticano.

Abaixo segue uma boa matéria sobre o assunto que retirei do site Carta Maior.

Papa Francisco decapita a cúpula do Banco do Vaticano
A guerra pelo controle do IOR e as mudanças que poriam o banco do Vaticano em sintonia com um mínimo de regras internacionais é um dos motivos que explicam o alijamento de Bento XVI. O papa Francisco terminou por decapitar a cúpula do IOR e pôr o banco sob o seu comando. A Santa Sé anunciou ontem a renúncia do diretor geral do Instituto para as obras da Religião, Paolo Cipriani, e do vice-diretor, Massimo Tulli. Por Eduardo Febbro.
Eduardo Febbro
Paris - A cada mês que passa, o papa Francisco completa um pouco mais da obra inconclusa de seu predecessor, Bento XVI. O teólogo duro e pouco amigo da mídia tinha começado uma profusa obra de limpeza no seio de um dos organismos bancários mais secretos e sujos do mundo, o IOR, Instituto para as Obras da Religião, o banco do Vaticano. A guerra interna que desencadeou esse intento histórico de pôr fim às práticas enganosas herdadas do pontificado de João Paulo Segundo conduziu à renúncia inédita de Joseph Ratzinger.

A guerra pelo controle do IOR e as mudanças que poriam o banco do Vaticano em sintonia com um mínimo de regras internacionais é um dos motivos que explicam o alijamento de Bento XVI. O papa Francisco seguiu a obra iniciada por Ratzinger: recém eleito papa, retirou os exorbitantes privilégios econômicos de que gozavam (gratificação de 25. 000 dólares) os cardeais membros da comissão que supervisionava – inutilmente – as atividades do banco; depois, nomeou uma comissão de 5 membros encarregada de investigar a situação econômica e jurídica do banco do Vaticano.

Esta comissão está presidida pelo cardeal salesiano Raffaele Farina – 80 anos –e sua meta consiste em propor uma reforma do banco, para que “os princípios do Evangelho impregnem também as atividades de caráter econômico e financeiro”. Por último, Bergoglio terminou por decapitar a cúpula do IOR e pôr o banco sob o seu comando. A Santa Sé anunciou ontem a renúncia do diretor geral do Instituto para as obras da Religião, Paolo Cipriani, e do vice-diretor, Massimo Tulli. O comunicado do Vaticano disse que “ao cabo de muitos anos de serviços prestados ambos tomaram essa decisão, visando ao melhor interesse do Instituto e da Santa Sé”.

Essa série de decisões não tem precedentes na história sombria do IOR. Apesar de o Muro de Berlim ter caído há muito – 1989 -, o banco do Vaticano seguiu operando como se nada houvesse mudado. João Paulo II tinha feito do IOR o braço armado de sua estratégia contra o comunismo. Para receber fundos com o fim de utilizá-los na luta contra o comunismo e teologia da libertação, o papa polaco contratou uma galeria inusual de cardeais corruptos e de mafiosos assassinos. 
Entre estes, destacam-se três: o banqueiro da máfia, Michele Sindona, o banqueiro à frente do banco Ambrosiano do qual o IOR era o acionista majoritário, Roberto Calvi, o arcebispo estadunidense Paul Marcinkus, que passou de guarda-costas de João Paulo VI a presidente do IOR, e o cardeal venezuelano Rosalio Castillo Lara. Sindona morreu envenenado no cárcere e Calvi apareceu pendurado na ponte londrina dos Frades Negros. Bergoglio desta vez pôs um limite entre aquelas histórias e o futuro. 
Há dois dias a Santa Sé se colocou à disposição da justiça italiana e isso permitiu a prisão de um alto membro da cúria romana, o Monsenhor Nunzio Scarano, apelidado ˜Monsenhor 500˜, por seu gosto pronunciado e demonstrado por notas de 500 euros. Scarano, um membro dos carabinieri, Giovanni Maria Zito e o negociante Giovanni Carenzio são acusados de ter montado circuitos paralelos de lavagem de dinheiro através do IOR.
Poderia se escrever uma história tão extensa e cativante como a Comédia Humana de Balzac sobre o inescrupuloso banco do Vaticano. Até hoje, a melhor história foi escrita por Maurizio Turco, Carlo Pontesilli e Gabriele Di Battista. Seu livro “Paraíso IOR” é uma viagem tão exaustiva como pavorosa ao coração de uma entidade financeira cujas práticas estiveram até agora em total contradição com a mensagem moral da igreja. Nesta entrevista exclusiva para a Carta Maior, em Roma, Maurizio Turco e Carlo Pontesilli analisam o passado turvo e o porvir ainda incerto do IOR.
CM - Vocês não hesitam em qualificar o IOR como um banco criminoso. Tratando-se do Vaticano, esse qualificativo surpreenderá a muita gente.

CP – O IOR é um banco que goza de uma extraterritorialidade mundial. O IOR é um território de partes obscuras, de capitalistas aventureiros, de financistas imorais, de dinheiro do crime organizado que circulou através do banco e também, claro, o dinheiro da corrupção da classe política italiana. Tudo isso graças a uma normativa que protegeu o banco e as suas atividades ao largo das últimas décadas.
CM – Isto é história ou uma realidade ainda presente?

CP – Não, isto não pertence ao passado, no sentido de que as condições que permitiram todas essas irregularidades ainda seguem fazendo-o dentro do IOR. Todo esse sistema pôde funcionar devido a uma falta absoluta de controle por parte da Itália e da União Europeia, que não controlou o suficiente como devia fazˆ-lo. A verdade é que esse passado sombrio não acabou ainda. Nossa tese consiste em dizer que um banco não pode coincidir com uma religião. Mas nisso confiamos muito no papa Francisco, para que isto mude, esperamos que faça o que São Francisco fez, que não somente ajudou aos pobres, mas também foi ele mesmo pobre. Não se pode estar de acordo com um banco que funciona através de um sistema tecnicamente criminoso.

CM – Criminoso é uma palavra muito forte…

CP – Sim, é um banco tecnicamente criminoso. O crime é tudo aquilo que viola a normativa. A partir do momento em que o banco do Vaticano viola a normativa sobre a lavagem de dinheiro, a normativa monetária mundial, a partir do momento em que o banco do Vaticano recebe personagens turvos, não sei como qualificar de outra maneira. A história recente está cheia de episódios terríveis: assassinatos, mortes suspeitas, quebras de banco, dinheiro do crime organizado. Em suma, de um banco assim só se pode dizer que é tecnicamente criminoso.
CM – Vocês falam concretamente de falta de controle. O que significa isso?

CP – Significa que no banco do Vaticano entra dinheiro que depois termina nos mercados financeiros mundiais, sem que ninguém saiba nada. Por exemplo, em teoria, o estatuto do IOR diz que só os membros da igreja podem ter conta no banco. Mas não é exatamente assim. Sabemos que atrás das contas abertas por religiosos escondem-se verdadeiros titulares: homens políticos, mafiosos. Seria bom saber quem são esses laicos operam através do banco do Vaticano e gozam do estatuto de offshore do IOR para operar no mercado financeiro. O IOR tem, por exemplo, uns 300 milhões de dólares investidos nos Estados Unidos. Mas não se sabe onde. Imaginem se se descobre que esse dinheiro está investido em setores como o mercado de armas ou setores dos organismos geneticamente modificados!
CM – Para vocês, essa maneira opaca de operar é a que permite todos os abusos imagináveis…e mais um além.
MT – Em primeiro lugar, o tema não são as contas secretas, isso não existe, mas as contas mascaradas. Por exemplo: o IOR fazia uma transferência em nome do IOR para outro banco, também em nome do IOR. Isso não se pode fazer. O problema é que o banco do Vaticano permitiu-se operar em todo o planeta enviando dinheiro de um banco a outro, sem que se saiba a quem pertencia esse dinheiro e sem dizer que esse dinheiro era da igreja. Teoricamente, esse dinheiro deveria servir para as obras religiosas. Mas não. Temos visto que esse sistema de mascaramento das contas funcionou em todo o mundo! 
A Igreja universal tem o Banco Universal para a reciclagem universal: o IOR, Instituto para as obras de reciclagem… A última coisa que se pode imaginar é que o banco do Vaticano tente lavar dinheiro. Mas é assim, porque não tem nenhuma obrigação, nem interna, nem externa. Não presta contas a ninguém. São muito poucas as pessoas que sabem a quem pertencem realmente as contas abertas dentro do IOR.
CM - Em suma, o banco do Vaticano foi uma espécie de elo perdido livre de toda norma e obrigação.
MT— É assim. Ao longo de todos esses anos, o IOR pôde operar no coração da Europa, mas não em nome de interesses europeus ou nacionais, e sim em nome de interesses pessoais. Isto quer dizer, em nome dos interesses de homens do crime e da política. O banco do Vaticano é um seguro absoluto de que não se saberá para onde vai o dinheiro, nem a quem pertence…



Vendendo o Almoço para poder Jantar uma variante da frase "Não existe Almoço de Graça" - José do Vale Pinheiro Feitosa

Este texto é um desdobramento daquele outro sobre a natureza imoral, predatória, corrupta e anti-humana do capitalismo.

O título já identifica um valor essencial da história do que é o humano e por isso é preciso circunscrevê-lo numa dinâmica de amor e paz como valor moral; de solidariedade e distribuição igual do que é necessário para viver e para se obter a felicidade; que a todos sejam aplicados os mesmos direitos segundo sua natureza, potências e fragilidades e que tenha o humano como valor universal e não como valor privado promotor de ordenamentos, competições e hierarquizações de um ser humano sobre o outro.

Desde as ideias primitivas do cristianismo até as concretudes do pensamento a partir do renascimento que a ideia do socialismo permeia como a formulação para um novo modo de organizar a sociedade humana. Com as revoluções populares após a revolução francesa, tipo a de 1848 em Paris que é objeto do musical – recomendável - chamado os Miseráveis, que os povos tentam buscar uma base filosófica e científica para o estabelecimento da sociedade socialista.

Um personagem central nesta base teórico-prática para a conquista do socialismo foi Karl Marx. Não porque ele formulasse uma espécie de decálogo do que seria uma sociedade socialista hipotética, ele foi muito além da utopia de outros pensadores de sua época. Marx analisou o sistema em curso, caracterizado por uma dinâmica de competição e hierarquização, por empobrecimento dos povos através da subtração dos valores de seu trabalho, dos seus bens próprios e naturais, pela manipulação do desenvolvimento técnico-científico numa pauta contínua de monopolização e controle com a finalidade de explorar seu uso em benefício próprio.

A Revolução Russa de 1917, a grande Marcha Chinesa durante e após a Segunda Grande Guerra, além da luta geopolítica entre o Comunismo e o Capitalismo sustentaram mesmo que marginalmente uma larga formulação alternativa aos países em todo o mundo. Em primeiro lugar fez surgir os modelos sociais democratas com direitos sociais e humanos além da dinâmica capitalista embora dependentes dela.

Em segundo lugar gerou uma série de lutas libertárias de ex-colônias na África e na Ásia, encerrando um período hegemônico e cruel dos estados nacionais e das economia europeias. O mesmo aconteceu em toda a América Latina com o exemplo central vindo de Cuba, mas também tendo enorme importância com lideranças originárias de vários países como na Argentina, no Peru e, principalmente no Brasil, como Miguel Arraes em Pernambuco e Leonel Brizola que chegou a ser um dos líderes revolucionários mais promissores da América Latina inclusive por momentos com maior destaque do que Guevara.

Nos anos noventa a aparente vitória americana na guerra fria incluindo aí o furor privatista, anti-estatizante e as ideais neoliberais sufocaram as grandes questões da humanidade em busca do seu bem estar e da igualdade entre todos. A maciça propaganda vinda pelos mecanismo dominados, incluindo o Vaticano de João Paulo II gerando uma literatura vitoriosa do capitalismo e tornando as ideias socialistas em mero arcabouço do Estado Soviético e seus erros históricos.

Não é que se criou, pelo menos nas mentes brasileiras, uma nova ideia de sistemas políticos socialistas. Apenas a propaganda anti-comunista originária dos países capitalistas centrais acentuou o que já formulavam há muito, tornando-se hegemônica e a partir daí parecia que a história imoral, predatória, corrupta e anti-humana do capitalismo havia desaparecido. Passou tudo a ser a única possibilidade de existir. Não havia mais espaço para pensar, raciocinar e lutar por algo diferente.

Mas nem a história para e nem as necessidades humanas desaparecem. Menos ainda num sistema que se caracteriza por vantagens originárias dos muitos ricos que transferem suas heranças para os rebentos, que criam sistema de merecimento discriminatórios na base e que extraem continuamente riquezas de quem a produz sem lhes dar retorno.

É o sistema que nestes estágio chegou ao topo do seu formato competitivo, individualista, consumista, excludente, concentrador e monopolista. E chegou por uma questão central em filosofia: a transformação icônica do que era a base para medir o valor do trabalho e da mercadoria. A era do capitalismo financeiro, com seus fetiches e dinâmica de jogo como num cassino de ganha ganha e perde perde.


Quem quiser continuar comigo voltarei depois sobre o destino do Brasil. Será submeter-se à necessidade da ordem capitalista e se tornar uma potência regional com as mesmas característica monopolista e predatória? 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A Doutora do Cansei e suas palavras de protesto - José do Vale Pinheiro Feitosa

Eu nem devia estar aqui novamente com vocês. Pelo menos por hoje. Já havia postado um texto. Mas eis que tomei conhecimento da carta de uma colega médica desancando a Presidenta Dilma por seu pronunciamento indicando que chamaria médicos estrangeiros para trabalharem no SUS em regiões em que os médicos brasileiros não quiseram trabalhar.

Per si isso é um problema inerente ao modelo híbrido da saúde brasileira: público universal misto com privado (planos de saúde). Os médicos vivem num sistema de remuneração privado e público e o privado remunera mais que o público. Portanto ele é determinante para a distribuição de médicos: concentrados nos estados mais ricos e nas cidades grandes e médias. Incluindo, é claro, o fenômeno da alocação de tecnologia segundo o maior peso onde se somam recursos públicos e privados.

Mas a questão mesma da doutora é seu componente ideológico e pouco científico para quem deveria raciocinar. Como sabemos o médico é o profissional da interpretação das histórias pessoais, claro que utilizando uma gama imensa de tecnologia para comprovar suas hipóteses. 

Foi aí que ela veio com aquela baboseira de ser contra a Presidenta Dilma querer chamar-se Presidenta e não Presidente. Este besteirol é tamanho que recebi e-mail de "sábios da empulhação" mostrando por a mais b que o termo não existia e nem poderia existir. 

Mas eu tenho aqui um dicionário eletrônico do Houaiss que registra o vocábulo Presidenta: mulher que se elege para a presidência de um país. Etimologia: feminino de presidente. Agora aquele besteirol todo era uma arenga imbecil de cunho machista que a doutora médica cirurgiã nunca ouviu falar e ainda repete de modo inferior até que as falas de um papagaio.

Aliás esta semana li um artigo primoroso do Dráuzio Varela desancando a cura gay um projeto de lei, de autoria de um deputado do PSDB e encampado pelo Feliciano. Ele começou o artigo dizendo mais ou menos o que reproduzo de cabeça.

Deus teria dado limites à inteligência da humanidade para que ela não revelasse os segredos da criação. E aí o doutor Dráuzio se queixa: mas errou ao não dar limites à burrice. 

Deus sabe o que faz! - José do Vale Pinheiro Feitosa

Deus sabe o que faz!

Pronunciado em tom alto, no passo rápido sobre a calçada dos números ímpares da rua Nossa Senhora de Copacabana. Uma senhora de cabelos lisos, curtos e presos e com uma oleosidade de brilhar mesmo no ameno iluminar da manhã nublada por entrada de uma frente fria.

Deus sabe o que faz! Deus sabe o que faz!

Repetiu várias vezes enquanto seguia na direção da rua Barão de Ipanema. Assim mesmo: Deus sabe o que faz!

E foi-se semeando dúvidas sobre a calçada. Talvez Deus lhe dera algum sofrimento e ali mesmo ela reconhecia-lhe a sabedoria apesar de tudo. Mas pelo tom exaltado talvez algum desafeto sofrera algo por suposto merecido e Deus lhe fizera justiça. Quem sabe Deus escrevera algo por linhas tortas.

Dúvidas na calçada. E quem por ela passar é capaz de encontrar muitas mais além das três possibilidades citadas. Deus sabe o que faz!

Numa esquina qualquer mais adiante, no entanto, numa jardineira sobre a calçada da Nossa Senhora de Copacabana cresce a árvore privatista do mais completo conceito de universalidade. O Deus único, indivisível, onipotente, onisciente, onipresente. Mas a criatura deste o toma por seu. O Meu Deus sabe o que faz.

O Meu Deus me protege dos meus inimigos, dos meus desafetos, dos meus concorrentes, dos que me são diferentes. Esta propriedade se estica tanto sobre seus valores que termina por ser escriturada em cartório. No cartório que valida, que reconhece a firma da sabedoria de Deus.

E atesta: Deus sabe o que faz! E o sabe posto que atestado, que é apalavrado por um testemunho essencial de sua sabedoria. Um testemunho que nesta ocasião se encontra na condição de oficializar a Deus este simples demandante de um atestado de sua sabedoria.  


A luta incessante entre o universal e a propriedade privada.

domingo, 30 de junho de 2013

Imoral, Predatório, Corrupto e Anti-Humano - José do Vale Pinheiro Feitosa

Eike Batista está quebrando. A frase não expressa a realidade: quem está quebrando são todas as pessoas que aplicaram seus capitais nos projetos de Eike. Projetos que estão indo para o fosso financeiro e junto com eles os capitais das pessoas que acreditaram neles ou não acreditaram mas os bancos onde depositaram suas reservas acreditaram.

Os derivativos deram água e os bancos faliram. Errado, além dos impostos de todos que salvarem os bancos da bancarrota, a poupança de muita gente foi para o ralo. Com ela a aposentadoria dos americanos e europeus, além dos empregos dos netos.

Um operador do mercado financeiro italiano teve uma grande sacada. Tornou-se padre e foi operar os seus “conhecimentos” na contabilidade analítica da Sé Apostólica e como membro destacado no instituto que administra o grande patrimônio imobiliário do Vaticano. Resultado a polícia acaba de prendê-lo como um grande lavador de dinheiro e como proprietários de imobiliárias e operador de negócios ilegais.

Indo do capitalista em busca de ampliar seus capitais, passando pelo mundo material das famílias em suas poupanças até o domínio físico do reino dos céus o jogo com os fundos financeiros é uma irracional atividade predatória. É como um depósito de queijo infestado por ratazanas. Não importam as ratoeiras, o roedor sempre estará subtraindo materialidade ao queijo.

Os depósitos desde o início da revolução agrícola sempre foram alvo de comensais de todas as espécies. Por incrível que pareça é o mesmo com a coisa mais subjetiva que existe a que todos chamam dinheiro. Que aliás podia até ser alvos de traças e cupim, mas agora no meio eletrônico é pura virtualidade.  

Trocou-se o projeto da ação coletiva e contínua, por cifras que externamente determinam esta ação. Ao invés do convencimento e da vontade extraída do trabalho (que é a ação) criaram-se mecanismo de poder para extrair deste trabalho uma parcela virtual sobre a forma de capital e assim determinar o comportamento geral de todos. Ao se tornar um poder determinante do trabalho, transformou a espontaneidade e alegria em obrigatoriedade e sofrimento. Fez do trabalho uma danação.

Este é o ciclo imoral, corrupto, predatório, anti-humano que atuar sobre a história neste momento e a ele por sua natureza cumulativa, privada e concentradora chama-se capitalismo. Não é um demônio, não é um ícone, é apenas a forma de organização da produção que existe nesta fase e que todos precisam analisar para melhor compreender e superar.  



sábado, 29 de junho de 2013

Abaixo reproduzo postagem do jornalista Mário Magalhães em seu blog. Pensava em escreve algo sobre esta contradição, porém o Mário diz tudo. Pensara pois se estamos numa onda de justiça, anti-corrupção e pelo despertar da política a ação da polícia na Favela da Maré aqui no Rio e a de São Paulo para desalojar moradores de um terreno invadido estariam no mesmo escopo das chamadas revoltas do acordar do país. Apenas que o discurso da grande mídia é pura manipulação a favor do lado que ela representa. Se você é de classe média e acha que tudo isso que acontece com os pobres é apenas a ordem, comece a contar o minutos da violência que o atingirá ali na esquina e na elevação dos muros e da grana para proteger o inseguro mundo em que vives.

E se os mortos da Maré fossem no Leblon?

Foi nesta semana, mas, a considerar o noticiário, parece que ocorreu no século retrasado: depois de um sargento do Bope ser morto por traficantes, a PM invadiu uma favela do complexo da Maré, aqui no Rio, e matou nove pessoas. Duas não tinham antecedentes criminais, como um garoto de 16 anos. O governo prometeu investigar as circunstâncias.
Se os dois mortos sem vinculação comprovada com a bandidagem fossem moradores do Leblon, será que a cobertura jornalística teria se extinguido tão rápido?
Será que as autoridades e o jornalismo falariam em “excessos”, como agora, ou em possíveis “crimes”?
Quantos editoriais não haveria nos jornais, nas TVs, nas rádios e na internet?
Quantos bambambãs já não estariam alardeando a existência de um “Estado policial” no Brasil?
Informados pelos meios de comunicação, quantos milhares de estudantes não promoveriam greves exigindo o esclarecimento dos fatos?
Quantas senhoras não lançariam campanhas com o mote “Podia ser seu filho”?
E as passeatas, não seriam talvez maiores do que as que tomaram as ruas na semana passada?
Quantas denúncias de extermínio haveria por minuto?
Seriam publicadas reportagens falando em um “menor” morto, como li, ou ele teria nome, idade, sua história contada?
Quanto tempo demoraria para que tudo fosse esquecido, sobretudo a cobrança por apuração?
Mas o garoto era da Maré, e não do Leblon.





Por Everardo Norões

  1. Em tempos de futebol, a tradução de um e-mail que me foi enviado pelo poeta Hildebrando Pérez Grande:

    Recebi, ontem, este e-mail de Hildebrando Pèrez Grande, poeta peruano, nosso amigo. E corintiano. Traduzo:

    “Querido poeta, há alguns anos, lá pelos anos 80, conversava com uma amiga, esposa de um bom narrador peruano dos anos 40: José Diez Canseco, autor de romances e contos, cujos personagens eram marginais tanto das classes mais altas, quanto das mais humildes. Um bom narrador. Ela me contou esta história que nos pinta o real e maravilhoso que somos.
    Eles tinham duas filhas primorosas e, uma delas, Carmen Rosa, era muita minha amiga; casada, com três filhos, e o menor, José, de uns dez anos, amante de futebol e da equipe daqueles anos. Certo domingo, na sobremesa, José surpreendeu sua avó quando ela lhe perguntou o que ele gostaria de ser quando fosse grande. O futebolista em promessa disse, sem hesitar: Quero ser como Sócrates.
    A avó, após derramar umas lágrimas de emoção e de recordar o marido já morto, disse ao neto: Pois bem, José, terás a chave da Biblioteca de teu avô, lembra que era muito valiosa essa biblioteca, nela poderás preparar-te muito bem para tua carreira de filosofia.
    Que filosofia, disse o neto. E a avó respondeu, mas como, se acabas de me dizer que queres ser como Sócrates. E o neto: Não preciso de biblioteca, mas de um campo onde possa treinar todos os dias depois do colégio. Obviamente, a avozinha não sabia que havia um jogador que era uma estrela que muitos admiravam, entre eles José e eu.
    Saúde, contigo e com Sonia, e com Sócrates, não o grego, o brasileiro."

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Tributino Cover



Calixto Tributino retornou a Matozinho já velho , com a cara parecendo um papiro da III Dinastia. Saíra ainda menino, perambulara pelo mundo,  e terminou por se fixar em Codó no Maranhão,  onde fez a vida e de lá trouxe histórias para colorir a opacidade da sua velhice. Ainda rapazote,  metera-se com roubo de gado em Matozinho -- coisa de adolescente, diz-se hoje, mas que naquelas brenhas considerava-se crime inafiançável, no mínimo apenado com tiro de trabuco no toitiço. Por isso mesmo,  os pais de Calixto anteciparam sua arribação inevitável. Ele partiu com passagem apenas de ida e, como bom sertanejo,  não mais deu notícia. Parte de uma récua infindável de filhos, quebrada a casca do ovo, o matuto percebe que é hora de alçar vôo: vira  uma página desta vida que não tem marcha ré.  Todo adeus, afinal, carrega consigo aquele gosto de nunca mais. Quando Tributino resolveu retornar,  já tinha o ninho sido desfeito, os pais e irmãos haviam obedecido ao inevitável chamado da velha da foiçona. Ali encontrou poucos amigos da sua geração. Não trazia no matulão muitos recursos, apenas um dinheirinho da venda da casa em Codó que usou para comprar uma outra em Matozinho,  e uma aposentadoria minguada do FUNRURAL.
                                   Ninguém nunca compreendeu bem porque Tributino voltara. Toda uma existência plantada em Codó, onde, certamente, devia ter mais amigos sobreviventes que em Matozinho, alguns filhos residindo por lá e outros espalhados mundo afora, esperava-se que seu outono no Maranhão fosse menos rigoroso do que na sua cidade natal. O retorno ,possivelmente, teria alguma relação com sua fuga e sua folha corrida na adolescência. Calixto , homem de bom coração , deve ter carregado eternamente consigo aquela mácula, aquele sentimento de culpa. O filho pródigo voltara para se redimir : não sou nada daquilo que vocês estão pensando!  Aposentado, para espairecer e não ficar numa cadeira de balanço, de butuca esperando a morte, Calixto meteu-se a marchante de bode. Abatia uns cabritinhos nos fins de semana e saía vendendo a carne, numa burrinha, rua afora. Acompanhava-o Fantico, um cachorrinho pé-duro, amigo inseparável e que chegara com ele na viagem de volta.  A profissão não se mostrava das mais glamorosas e,  claro , sem muitas vitórias para se vangloriar, derrotado em quase todas as batalhas que empreendera,   teve que criar um personagem, uma espécie de Tributino Cover,  um ser quase mitológico  impregnado de poderes mil: uma espécie de Ulisses Matozense. Dia a dia, entre uma rodinha e outra nas calçadas, debulhava suas peripécias em terras maranhenses. E eram muitas e muitas estripulias para um super-herói só.
                                   Nosso personagem dizia-se trabalhador incansável. No maranhão trabalhava no roçado o dia todo e, não bastasse isso, mandara fazer um candeeiro de cinco bicos  que instalara com uma alça de flandes  na cabeça, possibilitando-o, com a iluminação,  trabalhar na lavoura também à noite. Um dia, contou ao Coronel Serapião Garrido que as roças de Matozinho eram muito pequenas. Lá em Codó , num roçado pequeno, ele situara dez cuias de gergelim. O Coronel fez um cálculo rápido das covas necessárias para se colocar a quantidade imensa das pequenas sementes de gergelim que perfaziam as dez cuias e , sem arrodeios,   desconfiou da empreitada.
                                   --- Você deve estar enganado, Calixto! Não pode ter sido dez cuias não! Eita lapa de roça danada ! Se fosse, você teria vindo plantando do lá e passava por aqui ainda semeando...
                                   De pouco estudo, Calixto procurava  alguém para ditar as cartas que enviava aos filhos. Apesar da pouca instrução , gostava de ser pomposo nas suas missivas, não interessando muito a mensagem a ser enviada. Queria, no fundo, impressionar  os circunstantes e eram comuns os períodos truncados , a dubiedade de algumas frases, o emprego atravessado de algumas palavras.
                                   --- Escreva aí Giba !   
                                   “Caro Laurentino,
                                   Relativamente, com relação à bausa do procuro do comerço, ponto. Os atavios, os loro e os talabardão das cangaia tão mais destiolado que os pau de sebo das quermesse de Padre Arcelino, benza-te-Deus, quanto mais, principalmente, vírgula...”
                                   Matuto olhava aquele discurso de queixo caído:
                                          --- “Vôte ! Esse Tributino devia ser era adevogado”!
                                   Como sempre, Calixto tendia a levar suas estripulias para o ramo da caça e da pesca. No item pesca, os peixes maranhenses , segundo nosso marchante, ganhavam do pirarucu em tamanho. Calixto abria os braços nas narrativas para dar uma idéia apenas do tamanho da cabeça das traíras que desenovelava dos landuás de lá que mais pareciam empanadas de circo. Um dia, quando começou contar uma dessas pescarias, o soldado severo estava no meio da platéia. Avançou, calmamente, e colocou algemas nos punhos de Calixto, na tentativa de evitar a medida desmesurada do peixe que viria com a abertura dos braços logo a seguir. O pescador algemado não perdeu o fio da história, quando chegou nos finalmentes : “Era um peixão desse, desse... as mãos atadas impediam-no de apontar o tamanho. Ele então, usou um artifício. Fechou os dois polegares junto com os dois indicadores, fazendo duas rodas grandes e completou:
                                   --- Ói o tamanho dos ói do bicho !
                                   Na seção caça,  Tiburtino dizia sempre que Fantico, seu companheiro de caçadas, tornara-se um verdadeiro exterminador de onças pintadas no Maranhão. Saiam à noite, soltava o cachorro e rapidamente o pé-duro fazia alarde: acuava uma onça , ela temerosa subia em alguma árvore, ele vinha, apontava a soca-soca, era a espoleta cortar e a bicha cair baleada. Aí, Fantico pulava em cima e estraçalhava o felino. Ficara conhecido o cachorrinho por lá, pela sua valentia, já carregava no cartel mais de duzentas maracajás trituradas pelos seus dentes.  Calixto enjeitara dinheiro muito nele, chamavam-no naquelas brenhas  de “Traça Onça”, afirmava o caçador impávido e orgulhoso.  As proezas de Fantico eram difíceis de ser testadas, uma vez que as onças quase não mais existiam por ali. Uma ou outra fora notificada na Serra da Jurumenha, comentava-se que a caça predatória tinha praticamente exterminado a espécie . Nosso caçador, no entanto, afirmava, de cátedra ,que a escassez devia-se ao medo de Fantico. A fama do cão se espalhara em toda a região e as bichas fizeram bunda de ema !
                                   Um dia, soube-se de uma novidade na cidade. Um caçador armara uma armadilha e pegara duas onças : uma preta e outra pintada. Colocou as duas em jaulas e trouxe a Matozinho, como um zoológico particular. Alugou um puxado da Bodega de Giba , cobriu a porta com uma empanada e ficou lá, cobrando ingresso para quem quisesse ver. O velho Serapião Garrido soube da novidade antes de Calixto e resolveu pôr a limpo a veracidade das astúcias de Fantico. Esperou o caçador na entrada da cidade e convidou-o  para  uma surpresa. Tirbutino segui-o curioso. Fantico , como sempre, veio atrás, no rastro de dono. A bodega de Giba ficava do outro lado da praça da matriz, confrontando a Igreja . O sacro e o profano em vis-à-vis. Serapião e Triburtino cruzaram a praça. Só , então, perceberam que Fantico havia empacado no meio : orelhas empinadas, ventas dilatadas e olhos assustados. O faro privilegiado já o havia alertado do perigo iminente. Serapião pediu , então, a Calixto para estumar o cachorro. O caçador estralou os dedos, assoviou, chamou : “nego, nego, nego...” e nada ! Fantico, olhos esbugalhados,  permanecia imóvel. Garrido quis saber porque Fantico andava tão sem apetite. Continuaram, pagaram os ingressos e entraram. As duas onças , enormes, lá estavam, com aquele cheiro forte de felino e dentes e rosnados  ameaçadores. Serapião deu um passo atrás e observou , ao longe, Fantico que não tirava os olhos deles. O coronel, então, balançou a empanada de repente. Fantico esturrou! Quase não conseguiu, a princípio,  fazer a largada porque deslizou no próprio mijo, saiu, rua abaixo, juntando perna com cabeça. Nunca mais se soube dele. Calixto ficou meio triste, mas não perdeu a pose:
                                   --- Deve ter voltado para o Maranhão! Decepcionou-se com esses gatinhos aqui de Matozinho! Deve ter dito : Taqui, ó ! Eu mijo é prá vocês !

J. Flávio Vieira