por José do Vale Pinheiro Feitosa
Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.
José do Vale P Feitosa
sábado, 23 de junho de 2012
Tudo que vicia começa com C (Luiz Fernando Veríssimo)
Por alguma razão que ainda desconheço, minha mente foi tomada por uma ideia um tanto sinistra: vícios.
Refleti sobre todos os vícios que corrompem a humanidade. Pensei, pensei e,de repente, um insight: tudo que vicia começa com a letra C!
De drogas leves a pesadas, bebidas, comidas ou diversões, percebi que todo vício curiosamente iniciava com cê.
Inicialmente, lembrei do cigarro que causa mais dependência que muita droga pesada. Cigarro vicia e começa com a letra c. Depois, lembrei das drogas pesadas: cocaína, crack e maconha. Vale lembrar que maconha é apenas o apelido da cannabis sativa que também começa com cê.
Entre as bebidas super populares há a cachaça, a cerveja e o café. Os gaúchos até abrem mão do vício matinal do café mas não deixam de tomar seu chimarrão que também - adivinha - começa com a letra c.
Refletindo sobre este padrão, cheguei à resposta da questão que por anos atormentou minha vida: por que a Coca-Cola vicia e a Pepsi não? Tendo fórmulas e sabores praticamente idênticos, deveria haver alguma explicação para este fenômeno. Naquele dia, meu insight finalmente revelara a resposta. É que a Coca tem dois cês no nome enquanto a Pepsi não tem nenhum.
Impressionante, hein?
E o computador e o chocolate? Estes dispensam comentários. Os vícios alimentares conhecemos aos montes, principalmente daqueles alimentos carregados com sal e açúcar. Sal é cloreto de sódio. E o açúcar que vicia é aquele extraído da cana.
Algumas músicas também causam dependência. Recentemente, testemunhei a popularização de uma droga musical chamada "créeeeeeu". Ficou todo o mundo viciadinho, principalmente quando o ritmo atingia a velocidade. cinco.
Nesta altura, você pode estar pensando: sexo vicia e não começa com a letra C. Pois você está redondamente enganado. Sexo não tem esta qualidade porque denota simplesmente a conformação orgânica que permite distinguir o homem da mulher. O que vicia é o "ato sexual", e este é denominado coito.
Pois é. Coincidências ou não, tudo que vicia começa com cê. Mas atenção: nem tudo que começa com cê vicia. Se fosse assim, estaríamos salvos pois a humanidade seria viciada em Cultura.
Refleti sobre todos os vícios que corrompem a humanidade. Pensei, pensei e,de repente, um insight: tudo que vicia começa com a letra C!
De drogas leves a pesadas, bebidas, comidas ou diversões, percebi que todo vício curiosamente iniciava com cê.
Inicialmente, lembrei do cigarro que causa mais dependência que muita droga pesada. Cigarro vicia e começa com a letra c. Depois, lembrei das drogas pesadas: cocaína, crack e maconha. Vale lembrar que maconha é apenas o apelido da cannabis sativa que também começa com cê.
Entre as bebidas super populares há a cachaça, a cerveja e o café. Os gaúchos até abrem mão do vício matinal do café mas não deixam de tomar seu chimarrão que também - adivinha - começa com a letra c.
Refletindo sobre este padrão, cheguei à resposta da questão que por anos atormentou minha vida: por que a Coca-Cola vicia e a Pepsi não? Tendo fórmulas e sabores praticamente idênticos, deveria haver alguma explicação para este fenômeno. Naquele dia, meu insight finalmente revelara a resposta. É que a Coca tem dois cês no nome enquanto a Pepsi não tem nenhum.
Impressionante, hein?
E o computador e o chocolate? Estes dispensam comentários. Os vícios alimentares conhecemos aos montes, principalmente daqueles alimentos carregados com sal e açúcar. Sal é cloreto de sódio. E o açúcar que vicia é aquele extraído da cana.
Algumas músicas também causam dependência. Recentemente, testemunhei a popularização de uma droga musical chamada "créeeeeeu". Ficou todo o mundo viciadinho, principalmente quando o ritmo atingia a velocidade. cinco.
Nesta altura, você pode estar pensando: sexo vicia e não começa com a letra C. Pois você está redondamente enganado. Sexo não tem esta qualidade porque denota simplesmente a conformação orgânica que permite distinguir o homem da mulher. O que vicia é o "ato sexual", e este é denominado coito.
Pois é. Coincidências ou não, tudo que vicia começa com cê. Mas atenção: nem tudo que começa com cê vicia. Se fosse assim, estaríamos salvos pois a humanidade seria viciada em Cultura.
CENTENÁRIO DE GONZAGÃO
SÃO JOÃO NA ROÇA - (Zé Dantas e Luiz Gonzaga) - 1952
a fogueira tá queimando
em homenagem a São João
o forró já começô ô
vamos gente
rapá pé neste salão
dança Joaquim com Zabé
Luiz com yaiá
dança Janjão com Raqué
e eu com Sinhá
traz a cachaça Mané
que eu quero vê
quero vê páia avuá
a fogueira tá queimando
em homenagem a São João
o forró já começô ô
vamos gente
rapá pé neste salão
dança Joaquim com Zabé
Luiz com yaiá
dança Janjão com Raqué
e eu com Sinhá
traz a cachaça Mané
que eu quero vê
quero vê páia avuá
FELIZ SÃO JOÃO
2012 - CENTENÁRIO DE LUIZ GONZAGA
Observamos hoje, com tristeza, que a descaracterização do "São João" não está apenas na música, mas também na maneira como vem sendo comemorado. O que se vê hoje nas grandes cidades não passa de uma grosseira imitação.
É necessário que haja uma conscientização ainda maior no sentido de preservar esta que é uma das nossas mais tradicionais festas populares. Por tudo isto é que procuro refúgio no interior, seguindo o conselho de Zé Dantas e Luiz Gonzaga em "SÃO JOÃO ANTIGO", para ter a certeza de que não mudei, nem tão pouco o "São João". Quem mudou foi a cidade.
Marcos Barreto de Melo
SÃO JOÃO ANTIGO - (Zé Dantas e Luiz Gonzaga) - 1957
era festa da alegria
São João
tinha tanta poesia
São João
tinha mais animação
mais amor, mais emoção
eu não seu se eu mudei
ou mudou o São João
vou passar o mês de junho
nas ribeiras do sertão
onde dizem que a fogueira
ainda aquece o coração
pra dizer com alegria
mas, morrendo de saudade
não mudei, nem São João
quem mudou foi a cidade
sexta-feira, 22 de junho de 2012
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Quando o amor se desliga de uma construção, quando o barraco fica sem portas, paredes, teto... Pra que comprar a tinta , os lustres, a pia da cozinha?
O investimento está na busca de outro amor. Melhor do que chorar a perda é pensar que da próxima vez, vida ou hora, o relógio vai parar, no instante de felicidade que não foge !
socorro moreira
Escureceu o céu, nublou o pensamento , pediu pão com café e um bom papo. Fico sentindo o friozinho que saiu da barriga , e se espalhou pelos braços.Gosto da rua solitária . É como o recreio da alma, que passeia livre , e se embriaga
Acabei de fazer uma lista dos meus mestres. Foi como se estivesse me matriculando no passado, mas podendo escolher a aula. Quero reprise das aulas de Dr. Zé Newton; as histórias das viagens de Dona Lurdinha Esmeraldo;o conhecimento científico de Dona Ivone;as aulas expressivas de Alderico, e aquele desenho leve, perfeito de Dr.Zé Nilo.
Na vitrola do meu pai , umas valsas, em tom baixinho. Um bilhete amoroso , guardado nas caixinhas das saudades, e aquela pétala de flor, que eu quis dentro de mim.
Vou calçar meu par de meias furadas , me enrolar no lençol de algodãozinho estampado, e ler , pelo menos uma página, de um livro de Jorge Amado.
socorro moreira
estou catando o feijão
e fugindo do fogão.
o amor devoto pelas panelas...
me dizem elas :
preferimos você na janela
de olhos perdidos
querendo um caminho.
respondo:
aqui é porto de poesia
os navios atracam e descarregam
rimas sentidas
às vezes leio e bebo
outras vezes olho de soslaio
assustada com o meu interior declarado
nos versos
amarro a fita do verbo
e deixo o coração solto
no encontro de olhares
- espelhos fatais !
Rio com um barulho desses
Com a morte
do velho Venceslau Kandanga, após as
lágrimas pouco sentidas, os filhos se reuniram para fazer o balanço do que
interessava: o espólio. Estavam todos contendo uma indisfarçada felicidade. Venceslau
vinha de uma ascendência abastada: fazendas, terras, imóveis e dinheiro em
espécie eram perceptíveis nos velhos retratos espalhados na parede. O patriarca
da família --- Kandic Kandanga --- teria vindo da Armênia, aí pelo início do
Século XIX e, de mero vendedor de confecções, terminara por montar um imenso
império fabril. Com as gerações e os inventários que se sucederam,no entanto, os novos ricos
foram pouco a pouco dissipando o patrimônio. Riqueza adquirida sem suor, evapora como ele. Entre uma e outra
amante, entre uma e outra excentricidade, entre uma e outra separação judicial,
os cobres duramente conquistados por Kandic, esvaíram-se como por encanto.
Aberto
o testamento do tetraneto de Kandic, o velho Venceslau, não deu outra. Ficara
apenas a casa do patriarca e um prédio de cinco andares – o Edifício Rio-- , sito num bairro não muito
privilegiado, para ser rateado entre os dez filhos, três viúvas e seis netos de
Venceslau. Iniciou-se, imediatamente, a
terceira guerra mundial. Familiares endividados, mantendo, porém, a importância dos tempos áureos, cada um
desejava levar o maior pedaço do último quinhão. Arrastando-se a pendenga, para
o gáudio dos advogados, terminaram por ter que vender a casa para cobrir as
custas judiciais e, sob risco de ficar a herança para os causídicos e não para
os descendentes, entraram por fim num acordo. Resolveram, salomonicamente, dar
um apartamento do edifício para cada herdeiro e, depois de mais de dois anos, por
fim, fecharam o inventário do velho Venceslau.
Como
estavam todos na maior pindaíba, morando de aluguel, mudaram-se todos para seus
apartamentos recém herdados. No primeiro
momento, as coisas andaram bem. Todos se sentiram de alguma maneira felizes com
o alívio financeiro. Mas era bem previsível : a bomba estava armada e com
estopim faiscante e curto. As desavenças não demoraram. Conflitos relativos às
pretensas melhores condições de um ou outro apartamento se tornaram frequentes.
Começaram os atrasos reiterados da taxa
de condomínio, por incrível que possa parecer executados pelos mais remediados
e não pelos mais pobres. Exatamente atrasavam aqueles que mais consumiam a água
e a luz. A conservação do velho prédio estava péssima e já apareciam algumas
rachaduras progressivas em algumas paredes. Eram marcadas reuniões com os moradores, geralmente inúteis, pois os inadimplentes
faltavam. Um belo dia, o esperado
ocorreu: desligaram a luz e cortaram a água do imóvel. Aí a gritaria foi geral.
Os pobres reclamavam com razão, pois estavam pagando pela irresponsabilidade
dos outros. Os menos lascados empavonavam-se, mantendo aquele ar de importância
que herdaram dos seus ascendentes e dizendo enfaticamente : -- é nisso que dá, querer ser simples e vir morar
num muquifo desses!
Marcaram
uma reunião de emergência, mas ninguém compareceu: simplesmente porque nenhum queria
arcar com a vaquinha necessária para sanar o problema. Uns dois meses depois,
no escuro e seco como outubro em Picos, no meio da noite, ouviram-se um grande
estralo e um pequeno tremor. Todos acordaram apavorados e desceram as escadas
num átimo. Em pouco, toda a descendência do velho Venceslau estava de camisola
e pijama no meio da rua. Chamada a Defesa Civil, após vistoria, o Edifício Rio foi condenado: Está prestes a cair, não
tem qualquer condição de habitabilidade, disse o Coronel responsável. Providenciadas
, de urgência, algumas tendas, à noite, o Síndico chamou, por fim, mais uma Reunião de condôminos. Pressionados, por
fim, os moradores , já sem teto, resolveram comparecer. As discussões foram
longas e demoradas. Depois de umas cinco horas, finalmente, houve consenso. A
Ata foi devidamente lavrada : O problema será resolvido pelas futuras gerações
dos Kandic, marcaram , então, uma próxima reunião para daqui a vinte anos
quando os futuros herdeiros do Edifício Rio, já taludos e em condições de
deliberar, deverão tomar as devidas providências.
O convite já foi até redigido e o conclave já tem um nome : Rio + 20.
J. Flávio Vieira
versos sem papel - por Socorro Moreira
Você corta o filme
amarga o recado
deixa o mel
na porta do enxame
deixa a flor
na madrugada aberta
morrer na manhã
Sono que se vai
O lado vazio e silencioso da cama
Arrumo o lençol que fala...
Presente com tinta
Futuro sem papel
Passado amarrado
Pipas voam alto do além para cá...
Conquistam espaço
Na janela do quarto
vejo um pedaço do céu!
Capuccino caseiro
Ingredientes
1 lata de leite ninho
1 lata ( pequena) de café soluvél
1 colher de café de bicarbonato
1 lata de Nescal ( pequena) ou Toddy
1 colher de café de canela em pó
Coloque no liquidificador todos os ingredientes e misture bem
Depois de misturado, coloque em potinhos para guardar
Quando quiser tomar misture o tanto desejado no leite bem quente e curta um capuccino gostoso e barato
O Laço de Fita – Castro Alves
O Laço de Fita – Castro Alves
Não sabes crianças? 'Stou louco de amores...
Prendi meus afetos, formosa Pepita.
Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?!
Não rias, prendi-me
Num laço de fita.
Na selva sombria de tuas madeixas,
Nos negros cabelos da moça bonita,
Fingindo a serpente qu'enlaça a folhagem,
Formoso enroscava-se
O laço de fita.
Meu ser, que voava nas luzes da festa,
Qual pássaro bravo, que os ares agita,
Eu vi de repente cativo, submisso
Rolar prisioneiro
Num laço de fita.
E agora enleada na tênue cadeia
Debalde minh'alma se embate, se irrita...
O braço, que rompe cadeias de ferro,
Não quebra teus elos,
Ó laço de fita!
Meu Deus! As falenas têm asas de opala,
Os astros se libram na plaga infinita.
Os anjos repousam nas penas brilhantes...
Mas tu... tens por asas
Um laço de fita.
Há pouco voavas na célere valsa,
Na valsa que anseia, que estua e palpita.
Por que é que tremeste? Não eram meus
lábios...
Beijava-te apenas...
Teu laço de fita.
Mas ai! findo o baile, despindo os adornos
N'alcova onde a vela ciosa... crepita,
Talvez da cadeia libertes as tranças
Mas eu... fico preso
No laço de fita.
Pois bem! Quando um dia na sombra do vale
Abrirem-me a cova... formosa Pepita!
Ao menos arranca meus louros da fronte,
E dá-me por c'roa...
Teu laço de fita.
Fonte:
ALVES, Castro. Espumas flutuantes. in Poesias
Completas. São Paulo : Ediouro, s.d. (Prestígio)
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Uma breve ausência - José do Vale Pinheiro Feitosa
Não procure algo por aqui, tudo se encontra no vídeo acima, mesmo que a música e o texto der no saco suporte-os até o fim. Quando setembro vier estaremos aqui novamente.
Lupeu Lacerda - O corpo é um equipamento absolutamente artístico
Poeta e artista visual, atrevido e bem humorado, Lupeu Lacerda é
um dos remanescentes da arte no Cariri da década de 80 do século passado, que
antes era fanzineiro e hoje blogueiro. O escritor que fala de sexo nos seus
trabalhos diz que “exploro a sexualidade
em meu trabalho por saber que isso sempre causará estranhamento. As pessoas,
por incrível que pareça, ainda tem pudores em ler um texto que vem recheado de
palavras como: boceta, pica, cú”.
Alexandre
Lucas - Quem é Lupeu Lacerda?
Lupeu
Lacerda - De todas as perguntas que me fazem, essa é sempre a mais
escrota de responder... vamos lá: Lupeu é meu apelido. Antigo. Dos tempos de
menino. Odiava o apelido, mas ele foi se tornando tão forte que dominou o meu
nome: Paulo Luiz Matos de Lacerda. Incorporei-o. Por não haver mais o que
fazer. Daí comecei a assinar as coisas que escrevia e desenhava com esse nome Lupeu, o sobrenome é da minha família
cariri. Lacerda. E Lupeu Lacerda é um homem do sexo masculino, nascido no ano
da graça de 1965 em São Paulo, com 46 anos no costado, criado quando menino em
Santana do Cariri, depois em Juazeiro do Norte, que adotou o Crato como cidade
do coração, e que depois de morar em um monte de lugares aportou em Juazeiro da
Bahia, nos beiços do Rio São Francisco. Aprendiz de escritor, aprendiz de
artesão, apaixonado por todas as formas e manifestações artísticas. Pai de duas
filhas, escritor de dois livros publicados (Entre o Alho e o Sal / Caos
Technicolor), participação em algumas coletâneas, um blog meio desativado
chamado “Séquiço Sacro” (mesmo nome do fanzine que inaugurou a era de fanzines
no cariri nos anos 80), uma página meia boca na internet www.lupeulacerda.com.br , ainda cheio de sonhos, ainda
apaixonado, ainda achando que sempre dará tempo de fazer e mudar alguma coisa.
Lupeu
Lacerda - Meu
contato com a arte se deu através de gigantes! Conheci ainda adolescente
algumas pessoas que mudaram o prumo da minha visão de arte: começo com Stênio
Diniz, que já barbarizava com uma arte absolutamente “nova” na “velha” mídia da
xilogravura. Na casa dele conheci Luis Karimai (um mestre do desenho) e
Gilberto Morimitsu (um mestre da fotografia), os japas liam coisas diferentes,
olhavam coisas diferentes, gostavam de musicas diferentes. Depois enveredei nos
caminhos de Craterdã, e aprendi muito com Luis Carlos Salatiel, Normando,
Nicodemos, Carlos Rafael... enfim, tive um aprendizado absolutamente eclético.
Lia Dostoievski no sebo de Manel, conversava sobre Carlos Castaneda com Rafael,
via os desenhos de Normando, a poesia cristal de Nicodemos, bebia cerveja e
sonhos com Stenio e fui assim, aprendendo e as vezes acho que até ensinando
(pelo menos uma outra forma de olhar). Ainda hoje é assim. Meu contato com a
arte sempre foi e sempre será o contato com as pessoas que me cercam.
Lupeu
Lacerda - Bom,
eu escrevo desde que eu me entendo por coisa, bicho e gente. Mas a coisa de
publicar e ser lido vem de meados dos anos 80, com a criação do Séquiço Sacro.
Naquela época era foda escrever e ser lido. Bem foda... o único jornal
alternativo já era extinto, o “Folha de Pequi”, e partimos pra guerrilha, eu,
Uberdan e Gledson. Depois foram incorporados Hamurabi, Sidney e o grande Junior
R., rei das colagens perfeitas. Passou-se o tempo, participei de uma coletânea
de poesia organizada pelo Stênio Diniz, uma coisa bem bacana, um livro em cartões
postais. Não lembro o nome. Participei como vocalista da banda Fator RH/Lerfa
Mu (tempo melhor da minha vida). Em 2006
Sidney Rocha pegou um material meu e transformou em livro, lançado em 2007 pela
Kabalah Editora. Em 2009 participei de uma coletânea de contos chamada “tempo
bom”, que saiu pela Iluminuras. Este ano estou lançando o “Caos Technicolor”, o
que talvez seja meu último esparro poético. Nunca fui um poeta de verdade, essa
é a verdade. Sou mais um fotógrafo de palavras. Influencia Beat talvez.
Alexandre
Lucas - Como você caracteriza a
sua produção literária?
Lupeu
Lacerda - Minha
produção? Estudo. Muito estudo. Ler pra caralho. Escrever pra caralho. Apagar
pra caralho. Sei que tenho coisas a dizer. Mas ainda estou no processo de
aprender “como dizer”. Se tiver tempo, ainda quero escrever um puta livro de
contos. Ou um romance desses de guardar na estante com respeito e carinho.
Alexandre
Lucas – Como ocorre o seu processo criativo?
Lupeu
Lacerda - Gosto de escrever à mão. Em cadernos pautados. Usando barras
em vez de pontuação, pra não perder a velocidade do pensamento saca? Gosto de
escrever de noite, tomando café, depois que a casa se acalma. As vezes começo a
escrever com raiva de alguma coisa, as vezes é uma notícia que li, as vezes
forço. E me obrigo a escrever pelo menos duas páginas de rabiscos por dia.
Passo uns dias e volto pra ler a parada. Daí começo a aproveitar o que é de
aproveitar e jogar fora o que não serve. Acredito que cada pessoa que lida com
arte tem um processo, eu acho que em todos eles uma coisa é comum: trabalho
duro. E inspiração, pra ajudar a engolir o comprimido.
Alexandre
Lucas - A sexualidade é
algo notório na sua produção visual e literária. Qual a relação entra arte e
sexualidade?
Lupeu
Lacerda - O
corpo é um equipamento absolutamente artístico. Exploro a sexualidade em meu trabalho
por saber que isso sempre causará estranhamento. As pessoas, por incrível que
pareça, ainda tem pudores em ler um texto que vem recheado de palavras como:
boceta, pica, cú. Mesmo alguns que se dizem “mezzo” modernos acham bonito ver
um casal de lésbicas trepando, mas acham nojento um casal de gays. Lembro da
Dercy Gonçalves falando que na época dela, toda “artista” era puta. Acredito
sempre que arte é liberdade, que sexualidade é liberdade. E tanto uma como
outra, são mecanismos lúdicos pra trazer alegria. E a alegria meu amigo, ainda
é a prova dos nove. Tem também a influencia do que li, lógico: Miller, Anais
Nin, Ginsberg, Sade, Gide, entre tantos outros gigantes que exploraram essa seara.
Sexo é criação. Arte é recriação. No fim das contas tudo vai desaguar no mar da
arte.
Alexandre
Lucas – O que é um poeta
marginal na contemporaneidade?
Lupeu
Lacerda - À
margem como antigamente? Nada. Até porque hoje a internet bombardeia com um
zilhão de blogs de poesia, contos, micro contos, romances, receitas de bolo,
como ser um terrorista em 10 lições, enfim... não acredito que haverá a
qualidade dos “anos de ouro” 1970. Existia ali uma “coisa” fazendo a poesia
fervilhar. Uma ditadura dos milicos. Dezenas de bons escritores desesperados e
desesperançados. Dificuldade de publicar. Acho que a dureza serviu de peneira.
Difícil imaginar nessa “contemporaneidade” o surgimento de Ana Cristina Cesar,
Chacal, Cacaso, Chico Alvim... existem caras bons? Lógico que sim! Mas são mais
difíceis de encontrar, porque hoje, todo mundo anda de jeans. Rsrsrsrsrs.
Alexandre
Lucas - Como você
caracteriza seu trabalho?
Lupeu
Lacerda - Meu
trabalho é o de um aprendiz. Será sempre assim, porque quero que seja assim.
Quando escrevo eu entro todo ali. Sou onisciente ali dentro. Onipresente.
Talvez seja esse viés que faz com que alguns dos meus amigos achem que existe
algo ainda não dito, ou não feito, por mim. Gosto de escrever pra caralho! Me
faz bem, me desentala. Então, mesmo sabendo que em literatura provavelmente
“tudo” já tenha sido dito, enquanto tiver tesão de fazer isso, vou continuar
escrevendo. Persistência? Pode ser. Caracterizaria meu trabalho sim. Catarse
também. E dor. Porque escrever dói.
Alexandre Lucas - Qual a contribuição social do seus trabalho?
Lupeu
Lacerda - Não
acredito que a arte, seja ela qual for, tenha esse papel de “salvadora”. As
pessoas mudam, “ou não”, de vida a partir de uma leitura de um livro. Como
haverá alguns que mudem depois de ter perdido um avião, ou comido uma comida
estragada, ou escutado uma música. Artistas são apêndices de uma sociedade que
sempre os aturou a uma certa distancia, mas que nunca os engoliu bem de perto.
Aqui em Juazeiro da Bahia e Petrolina nós soltamos livros pelas ruas em um
projeto intitulado “Livros Andarilhos”, eu espero sinceramente que as pessoas
que encontrem esses livros façam bom proveito deles, e que depois de lidos eles
sejam de novo largados ad infinitum. As pessoas que lêem podem continuar
tristes, amarguradas e infelizes, mas nunca estarão sozinhas em companhia da
porra de um livro. Ensinar arte, compartilhar arte, levar a arte pra todos é a
vontade maior. Eu nunca faço nada pensando em atingir público A, B, ou C. eu só
quero ser lido. O resto vem por inércia. Quem lê, cobra, exige, grita, pede,
vota nulo. A contribuição social que quero não só do meu trabalho, mas do de
cada pessoa que escreve, é que os livros (todos, de qualquer gênero) deveriam
fazer parte do cotidiano das pessoas assim como o sexo, as novelas, as drogas,
a música, enfim...
Alexandre
Lucas - Quais
os próximos trabalhos?
Lupeu
Lacerda - Estou
em ritmo de finalização de meu primeiro livro de contos, que se chamará “o
trigésimo segundo dia”. Tem sido uma experiência muito prazerosa, cheia de
dúvidas e certezas, de comemorações e desesperos, de delírios de grandeza e
certeza de inutilidade. Enfim, uma gestação. Como pai e mãe espero ansioso pelo
nascimento, que deve se dar ainda este ano, caso a porra do mundo não acabe. Se
o mundo acabar, bom, vou procurar um kardecista. Sai psicografado em algum
outro planeta, que essa porra me deu muito trabalho.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Por Socorro Moreira
O tempo trouxe de volta o inacabado
Peça artesanal sem arremate final
Pano amarelado
Lavanda aninhada no linho
Faltou o amor?
Sobrou o que não ficou...
Meu coração minado
Insiste na canção
Que as vezes toca no rádio
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