por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



domingo, 18 de maio de 2014









Estivemos nas festividades comemorativas, dia 15, próximo passado, quando André Figueiredo foi agraciado com o título de cidadão cratense.
Embora não seja partidária tenho sempre imensa simpatia pelo PDT de Brizola.
André incorpora a ideologia do partido, e vem se revelando um líder, nas lutas pela melhoria da Saúde e da Educação do nosso país.
Acompanhado de Camila Arraes (nossa  queridíssima amiga e conterrânea), fica fortalecida a nossa esperança de feliz representatividade para o nosso Crato - nosso Cariri!
Parabéns, André Figueiredo. Você é um dos nossos!

sábado, 17 de maio de 2014

E... "o mundo não acabou" - José Nilton Mariano Saraiva

Quer admitam ou não os extremistas, foi um duro golpe ao movimento “não vai ter Copa nem Olimpíadas”, a ausência da população às suas manifestações, Brasil afora. É que, ao anunciarem de forma estridente e antecipada uma mega manifestação, espécie de “fim do mundo” nas cidades que sediarão jogos da Copa do Mundo, a idéia preconizada é que seria esta a grande oportunidade da população brasileira mostrar todo o seu repúdio e descontentamento com o Governo, face os gastos com as tais “arenas” onde realizar-se-ão os jogos do torneio futebolístico (só que, conforme restou constatado, os tais gastos com as “arenas” nem foram do Governo).

E, no entanto, o que a TV nos mostrou foram alguns gatos-pingados atrapalhando o transito e o ir a vir das pessoas nas grandes cidades, carreando para si a antipatia de boa parte da população, incomodada com a impossibilidade de chegar ao seu local de trabalho e/ou voltar pra casa ao anoitecer, ao fim de mais um dia de labuta. Pra completar, os famigerados e covardes “black-blocs” se aproveitaram da ocasião para mais uma vez exercitarem seu mafioso modus operandi: quebradeira generalizada do patrimônio público e particular, de par com o desrespeito para com os que não aprovam seus métodos criminosos de agir (e não venham com o papo-furado que se tratam de vândalos: são criminosos, mesmo; marginais de alta periculosidade, na acepção plena do termo).

Fato é que, como estamos às vésperas de uma eleição presidencial, com a realização de uma Copa do Mundo de Futebol em nosso país antecedendo-a, nesses poucos dias que faltam para o início da competição novas manifestações deverão eclodir, objetivando prioritariamente “provocar” ou instigar o Governo a partir para o confronto (inclusive físico, de suas tropas com os baderneiros), do que se beneficiariam os candidatos da oposição, tão carentes de idéias e discurso. Aliás, estes devem estar babando e torcendo para que o Governo radicalize, a fim de colherem os dividendos.

No mais, como o Brasil já está sob os holofotes da mídia internacional, nada melhor para os marginais e membros da oposição o desgastar o Governo através do “botar pra quebrar”, o provocar acintosamente, o chegar às raias da irresponsabilidade (como o fazem os tais “black blocs”), tudo em nome de uma suposta “democracia”. Só que aí estão propositadamente confundindo “democracia” com “anarquia”. E isso já foi percebido pela população, daí a não adesão ao movimento e, sim, sua repulsão.

Há que se ressaltar que ninguém é contra nenhum tipo de manifestação, desde que realizada dentro da ordem e da legalidade. Todo mundo sabe, por exemplo, que a repercussão das manifestações ocorridas em junho do ano passado se deu por não terem sido patrocinadas por radicais, sindicatos ou movimentos políticos de cunho revanchista (contra o Governo). Foi algo que brotou espontaneamente, daí o realce.

Cabe, pois, ao Governo, a tarefa de, nos limites constitucionais, obstar a anarquia e entender que o momento é de ter paciência e sensatez para suportar tudo isso; daí tais movimentos serem respeitosamente acompanhados pela segurança institucional (polícias estaduais).

Portanto, por ora a notícia é alvissareira: ontem, dia 16.05.14, ao contrário do que pregavam os profetas do caos (os eternamente do contra), “o mundo não acabou”. Estamos todos vivos. E, mais importante, teremos Copa, sim senhor.


Aleluia, aleluia !!!

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Completudes



                                          J. Flávio Vieira

Francisca  Eudóxia da Conceição.  Um nome enorme ! Nem carecia de sobrenome! Eram três nomes próprios se espremendo, como podiam, num só epíteto. Podia ter sido , sim , opção dos pais, se ela , um dia , os tivesse conhecido. Uma embirra qualquer deles ou uma escolha simples pela sonoridade das palavras: uma paroxítona, a martelada de um ditongo crescente, no meio, com ares de proparoxítona  e finalmente a oxítona como fecho. O mais provável, no entanto, é que tenha sobrado para o tabelião, o batismo da menina pobre, sem parentes ou aderentes conhecidos. Ao menos sobraram formas carinhosas de denominá-la :  Chica, Dodó, Ceiça.  Criada por outras almas pobres e, por isso mesmo, generosas, Francisca desde cedo seguiu o curso inexorável do seu destino de órfã. A luta pela sobrevivência tangeu-a da escola. Pequenina ainda ensaiou aprender o bê-á-bá, mas rápido descobriu que não levava jeito para as letrinhas e os números.  Começou como uma espécie de babá mirim de casais mais abastados e, já taluda, fez-se empregada doméstica. Disposta, trabalhava como um mouro, mas facilmente se percebia que a disposição física  buscava compensar uma leve deficiência mental. Mocinha , enrabichou-se por um caminhoneiro – Cacildo do Truck-- e andou juntando os trapos. O amancebo, no entanto, durou pouco. Um belo dia, uns dois meses depois de casada, Ceiça saiu em desabalada carreira de casa e fugiu de Cacildo, a partir daquele dia, como o vampiro do alho. Os patrões apertaram de um lado e do outro tentando saber a razão do desencanto súbito com as hostes matrimoniais. Ela, no entanto, desconversava, ficava trombuda e mantinha silêncio obsequioso.
                                   Eram muitas as histórias de Dodó, espalhadas de casa em casa, por seus múltiplos patrões.  Um dia o dono da casa chegou mais cedo , com ar pesado e cara de pouca conversa. Trancou-se no quarto e ligou um som com um disco de músicas clássicas: Ravel, Mozart, Schubert. Dodó ficou encucada com aquela trilha sonora . Que diabos estava acontecendo ? Acostumara-se às triviais  que curtia : breganejo ou forró puxado para o caribenho. Quando a patroa chegou já à noite, ela, preocupada, derramou sua apreensão:
                                   --- Patroa, a coisa tá feia ! O patrão chegou cedo em casa , se trancou,   e só ouve umas músicas estranhas,penosas ,  aquelas músicas de quando morre presidente...
                                   Chica morava  numa casinha “tomara que não chova” , na periferia da cidade. A vizinhança , na sua maior parte, era um ajuntamento de damas da noite e que borbuletavam por perto, em busca de clientes eventuais. No quenguismo, Chica percebera, havia uma clara estratificação social. Perto dela ficara a zona chamada de “farinhada” e que abarcava os mais lascados dos clientes : bêbados, trabalhadores rurais que vinham para feira, drome-sujos. As meninas, também, tinham perdido o aroma da juventude e, por isso mesmo, foram sendo jogadas, pouco a pouco, para clientes menos exigentes.  
                                   Um dia, a patroa percebeu que a funcionária chegava com sinais claros de noite mal dormida: olhos remelentos, bocejos, cochilos pelos cantos. Interrogou-a sobre a razão de tamanha moleza: entrara também na farra ?  Dodó, então, explicou as razões da indisposição. Passara toda noite acordada, por conta da zoada e burburinho das meninas  nas suas galinhagem e garipagem . Para tanto, usou um coletivo sacro-profano  totalmente inusitado :
                                   --- Não dormi um pingo, patroa ! A noite toda foi uma putaria só,  lá na rua ! Um mundo de quenga viçando !Era a Diocesa das Rapariga ! Vôte !
                                   Um dia,  as funerárias da vila lançaram uma novidade que rapidamente se alastrou,  tornando-se  um dos sinais de status : o carrinho para transportar o caixão. Antigamente o féretro carregava-se nas mãos dos próprios parentes e amigos que se iam revezando neste mister. Ceiça estava varrendo a casa quando ouviu um burburinho na rua. Aproximou-se da janela e percebeu tratar-se de um enterro. Coroas carregavam coroas, na frente ; meninas velas acesas e parentes soluçavam pelas beiradas, seguindo a turba. Dodó estava acostumada àquela atração de cidade pequena: a casa onde trabalhava era próxima ao cemitério local. Notou, no entanto, uma coisa esquisita. O caixão, aderira a uma novidade que não conhecia,  vinha em cima de um carrinho e empurrado pelos circunstantes. Rápido, ela gritou para dentro de casa, alertando a patroa da inovação :
                                   --- Chega,  Madrinha ! Corre ! Vem olhar um defunto andando de bicicleta !
                                   A história da súbita separação de Chica  sempre fora um dos maiores mistérios da vila. Que teria acontecido ? Por que deixara Cacildo, assim tão intempestivamente e, mais, de forma tão  definitiva?  Nem adiantava pressionar Dodó, ela se  danava e fugia do assunto como lobisomem do sol. Um dia, no entanto, numa confissão, Padre Arcelino pressionou. Por que ela tinha quebrado o sagrado sacramento do matrimônio?
                                   ---Casamento que Deus uniu, D. Francisca, só a morte separa ! Isso é pecado grave !
                                   Chica, chorosa, então, resolveu quebrar o segredo mais guardado que o terceiro de Fátima.
                                   --- Seu padre ! Eu cumpria minhas obrigações. Naquele dia, o diabo Cacildo chegou bêbado e com o cão nos couros. Pois , seu padre, ele queria era me acunhar por trás, já pensou? Espia !  Eu fiz foi rifugar ! Ele pensava o quê?  Que eu era mulé compreta ? Naaaannnn !

Crato, 16/05/14 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

"Sufoco" - José Nilton Mariano Saraiva

Ainda a propósito da calamidade hídrica que atinge o todo poderoso Estado de São Paulo, que terá que se valer do “volume morto” (aquele resto d’agua que fica abaixo do nível das comportas) do reservatório de Cantareira, a fim de sanar sua sede e atender suas necessidades básicas, claro que nesse momento todos os brasileiros se unem num só sentimento de solidariedade e torcem (mas torcem mesmo) para que as águas caiam lá de “riba” e a coisa volte à normalidade. A situação é crítica, merece e precisa ser encarada como tal.

De outra parte, e sem qualquer revanchismo, o “sufoco” dos dias atuais servirá para que os paulistanos (e sua classe política, especialmente) se     conscientizem do que é se viver numa região semi-árida, onde a precipitação pluviométrica é deficiente, como o Nordeste brasileiro e, deixando de lado picuinhas políticas que a nada levam, atentem para a importância de uma obra da dimensão da transposição das águas do Rio São Francisco, tão criticada por eles (confiram, abaixo, sua grandiosidade e dimensão).

“O Projeto de Integração do Rio São Francisco faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. Formado por dois canais que somam 477 quilômetros lineares, a integração do Rio São Francisco também envolve a construção de 14 aquedutos, 09 estações de bombeamento, 27 reservatórios e 04 túneis para transporte de água.  O projeto vai garantir a segurança hídrica de mais de 12 milhões de pessoas em 390 cidades de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.

A Estação de Bombeamento (EBI 1) é a primeira elevatória do Eixo Norte. No mês de março, o Ministério da Integração Nacional iniciou a montagem das duas bombas dessa estrutura. Cada equipamento (bomba) pesa cerca de 100 toneladas, o equivalente a 100 veículos populares. O processo de montagem dos equipamentos (bombas) é iniciado conforme as estações são concluídas.

Ao todo, três elevatórias estão em construção 24 horas por dia entre os municípios pernambucanos de Salgueiro e Cabrobó. As estruturas vão elevar a água em 176 metros acima do nível do rio São Francisco – altura que pode ser comparada a um prédio de 58 andares.  Cerca de 1.100 trabalhadores estão contratados para atuarem nesses serviços. As Estações são responsáveis por elevar a água do rio São Francisco, que serão conduzidas pelos canais que vão beneficiar os estados de Pernambuco, Ceará e Paraíba.”

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Porto



                      
                                  J. Flávio Vieira

 Suetônio Carabina jamais imaginou que , um dia, seu caminho cruzasse com o do machadiano Simão Bacamarte. Havia lá algumas similitudes que transpunham os sobrenomes francamente bélicos: os dois eram médicos e terminaram, nas suas histórias, passando por algumas sinucas de bico. Suetônio, no entanto, abraçara a cirurgia e Simão, o personagem principal de “O Alienista”, fizera-se psiquiatra e acabara por virar de ponta cabeça a pequena Itaguaí.  Suetônio , mais jovem, instalou-se na beira-mar , sob a filosofia simplória ( tão preponderante entre os seus pares) de que quem faz carreira no mato é preá e calango.
                               Carabina seguiu o curso esperado na sua profissão. Vida de louco, saltando de plantão em plantão, buscando salvar vidas praticamente com as unhas e os dentes, em meio a serviços totalmente destroçados. Casou , teve dois filhos, financiou um apartamento e dois carros importados e , beirando os cinqüenta, aguardava apenas o enfarte. Construiu ainda  uma casa enorme na praia, onde buscava compensar o espaço que lhe faltava no apartamento e na vida. Final de semana, invariavelmente, partia para lá com a mulher e os filhos que, já fisgados pela mordida de cachorro doido da adolescência, iam trombudos e sob protesto. Na sexta, à tarde, a esposa partia com os meninos e Suetônio  seguia apenas do dia seguinte. Há mais de quinze anos dava plantão  na emergência  de um hospital de periferia, exatamente nas sextas feiras.
                               Anos e mais anos naquela rotina, um dia, não mais que de repente, Suetônio esbarrou com uma vizinha no elevador. Em casa, ele e a mulher já haviam se tornado quase que irmãos. Afinal , comentava ele com os colegas, um sujeito que come a mãe dos próprios filhos deve ser um tarado sexual. Conversa vai , conversa vem, terminaram por trocar telefones e passaram a namorar por baixo de sete capas. Altina era uma morenaça de meia idade, recém separada e que ainda carregava consigo  algum travo do veneno que se foi destilando no relacionamento passado.  Passou, assim, a utilizar, facilmente,  o antídoto carabinesco como droga de eleição. Estabeleceu-se, claro, um grande problema lojístico. Ele e Altina moravam no mesmo prédio, qualquer deslize: a vaca escorregaria para o brejo.
                               De início combinavam , por telefone, encontros em motéis distantes. Aos poucos, no entanto, Suetônio percebeu que a sexta feira à noite transformara-se num achado. A esposa e os filhos já estavam na praia. Ele apenas entregava o plantão a um colega a partir das dez da noite. Voltava para casa, ligava para Altina que, sorrateiramente, subia para seu apartamento e, aí, a lua de mel  estava garantida. No dia seguinte, cedinho, a noiva se esgueirava escada abaixo e ele partia para praia, cansado, estafado de um plantão bem mais caloroso e lúdico.
                               A farra permaneceu imutável por mais de um ano. Um dia, no entanto, como podia se prever, o cão atentou. Não se sabe bem se a hecatombe teria acontecido por mero acaso ou se a esposa de Carabina desconfiou de alguma coisa : algum telefonema, alguma peça íntima extraviada. O certo é que, sob o pretexto de ter esquecido a chave da casa da praia, de madrugadinha,  a patroa retornou numa fatídica sexta feira. Abriu a porta do apartamento com a outra chave que carregava no chaveiro do carro. Quando empurrou a porta do quarto de casal, quase cai estupefata com a cena que presenciou. Suetônio e Altina, em pelo, dormindo o sono dos serafins, na cama do casal, após a  estafante batalha de Eros.
                                A esposa armou o maior barraco:
                               ---  Na minha cama, seus sem vergonhas ! Me respeitem ! Peraí queu voltou já e vai ser caco de ovo e de priquito pra tudo quanto é lado !
                               A mulher, como um miúra enfurecido, partiu para a cozinha em busca do rolo de pastel. Altina, juntou os trapos, como pode , vestiu-se à medida que descia as escadas, e se escafedeu, antes que a fera voltasse para cumprir a ameaça e chegassem as testemunhas oculares para flagrar o mico. Quando a esposa retornou, ainda aos berros, encontrou um Carabina estranho. Olhos fitos na parede, face  inexpressiva, sem balbuciar qualquer palavra. Nem sob a ameaça do rolo de pastel no toitiço,   Suetônio se aluiu.   Permaneceu imóvel por mais de meia hora, quando se levantou, abriu o guarda roupas, vestiu o smoking , pôs o cromo alemão nos pés e depois partiu para o banheiro  e entrou debaixo do chuveiro. Voltou, sem dizer palavra, plantou bananeira e ficou assistindo televisão de ponta cabeça. De início a esposa ainda enfurecida, imaginou que tudo fosse uma armação, mas ,depois do segundo dia, começou a se preocupar. Carabina permanecia silente, não se alimentava, parecia alheado. Foi aí que resolveu chamar um colega e compadre psiquiatra, o Dr. Loreto.
                               O alienista veio de pronto e encontrou um paciente totalmente desconectado do mundo. Pensou , de início, num surto agudo de esquizofrenia catatônica. Quando a esposa, no entanto, saiu do quarto, em plena consulta, para pegar alguns remédios que Carabina tomava eventualmente, súbito o paciente recompôs-se e sussurrou para o psiquiatra:
                               --- Loreto, bico calado! Me interne imediatamente, depois eu te conto tudo !
                               O alienista sacou que havia alguma coisa errada. Quando a esposa retornou ele disse-lhe que , a seu ver, parecia um surto psicótico e que se fazia imperioso um internamento em uma Clínica de Repouso.
                               -- É para prórpia segurança dele e da família !Avise aos familiares e amigos que se trata de uma estafa, para não queimar o filme do meu compadre !
                               Procedido ao internamento,  Loreto , por fim, ficou a par da enrascada em que  Carabina se metera. Manteve-o ali por mais uma semana e, depois, deu alta sob a severa orientação de que melhorara, mas apenas parcialmente e que nunca se poderia prever quando os surtos retornariam.
                               --- Ele não pode ter nenhum tipo de preocupação ! Todo cuidado é pouco! A saúde mental dele é um castelo de cartas !
                               Suetônio voltou ao trabalho. Não se tocou mais ao assunto melindroso das sinuosas e derrapantes curvas de Altina. Se Simão Bacamarte descobrira, um dia, que a loucura é um continente no mar da razão, Carabina acabava de confirmar que, em casos específicos, pode ser também um porto.

Crato,  09/05/14

Um caixeiro cearense em Nova Iorque - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

A história abaixo  relatada saiu em uma edição da Revista Exame que eu li por volta de 1977, há cerca de trinta e sete anos, portanto. Dessa edição, perdeu-se no tempo a revista e, apagou-se da minha memória todos os demais temas tratados, ficando apenas a narrativa que se segue, como prova do espírito empreendedor e inovador de uma das mais marcantes personalidades de nosso estado. 

A esposa de um jovem empresário cearense foi acometida de uma estranha doença, cujos médicos locais sugeriram tratamento em São Paulo. Lá chegando, uma junta médica aconselhou o empresário levar sua mulher aos Estados Unidos. Não era doença tão grave que, o dinheiro não pudesse resolver. Com as indicações de quem e onde procurar o atendimento em Nova Iorque e de posse do competente prontuário médico vertido para o inglês, o nosso empresário decidiu acompanhar sua esposa à terra  do "Tio Sam". Em lá chegando, sua mulher foi atendida numa das mais importantes clínica da cidade de  Nova Iorque.

Realizados novos exames, o marido foi informado de que sua esposa deveria ficar alguns dias internada, sem permissão de acompanhamento de familiares e visitas permitidas apenas nos dias de domingo.

No primeiro dia a sós na cidade, o nosso empresário resolveu dar uma volta pelo centro da cidade, examinar as lojas, verificar os avanços e as possíveis novas técnicas de vendas e marketing. Sentia-se sem saber o que fazer perambulando no meio de um verdadeiro formigueiro humano, que eram as ruas da grande metrópole, quando notou uma lojinha, espécie de chapelaria, cuja vitrine se encontrava vazia e às escuras. Como precisava comprar uma capa de chuva, entrou na loja onde o proprietário, um senhor idoso,  cujo aspecto lhe pareceu ser o de um judeu, era o único atendente. Começou uma interessante conversa com o dono da loja que lhe informou que as vendas estavam muito fracas. Então resolveu gastar seu inglês para se divertir pedindo emprego:
- O senhor não sente falta de uma pessoa para lhe ajudar? Sou brasileiro, há pouco  chegado aqui e estou precisando trabalhar. -  disse o empresário
-  Meu amigo, não posso lhe pagar um salário, pois como lhe falei, minhas vendas são fracas.
-  O senhor não precisará me pagar nada. Apenas se achar justo me conceder uma gratificação de dez por cento sobre o acréscimo das vendas que se verificarem após o inicio do meu trabalho. Se as vendas não progredirem, o senhor me despede sem nada me pagar. - Proposta mais do que tentadora para um presumível judeu. Como previra o candidato a emprego, o velhinho concordou e o jovem vendedor iniciou seu trabalho.

Sua primeira providência foi dar uma arrumação geral na disposição dos artigos da loja. As malas mais bonitas e de melhor qualidade foram convenientemente expostas na vitrine que ganhou nova iluminação, de modo a despertar a atenção das pessoas que passavam pela calçada da lojinha. Ali também foram colocados outros artigos que a loja dispunha para oferecer ao público, todos eles de grande utilidade. O interior da loja também teve as lâmpadas trocadas de modo a fornecer a sensação de se estar ao relento em uma ensolarada manhã.

Não demorou muito para o efeito se fazer notar. Logo no primeiro dia, o número de visitas à loja cresceu exponencialmente e quase cem por cento das pessoas que entravam na loja saia levando consigo algum artigo relacionado com as condições do tempo, capas e guarda-chuvas, luvas, casacos de lã, malas e sacolas para viagem, enfim, a loja conheceu um acréscimo de vendas jamais imaginado por seu proprietário. Nosso empresário cearense se divertia, à seu modo, como talvez não o fizera quando criança em suas brincadeiras. Mas contrariando um famoso dito popular, a alegria de rico às vezes também dura pouco. Um belo dia entrou na loja um engenheiro americano que estivera no Ceará projetando e montando uma das instalações industriais do empresário, agora transmutado em simples comerciário. Ele, ao avistar o engenheiro, tentou se esconder por trás de alguns artigos, mas fora notado e reconhecido pelo engenheiro que perguntou ao dono da loja:
- Quem é aquele homem que se encontra escondido por trás daquele material?
- Um imigrante brasileiro que veio me pedir emprego. É um vendedor muito esperto. Depois que muito a contra gosto eu resolvi empregá-lo, minhas vendas cresceram extraordinariamente. -  Respondeu o comerciante.
- Que imigrante, que nada! Aquele homem é um dos empresários mais rico do Brasil! E se chama Edson Queiroz. - Dito isto o ricaço brasileiro saiu de onde estava, abraçou o amigo e riram bastante da brincadeira, diante do comerciante americano admirado e intrigado. Não me recordo se a reportagem citou alguma explicação relativa a continuidade do emprego ou sobre à gratificação sobre o acréscimo das vendas a que o informal contrato de trabalho aludia teria sido paga.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo
             
09/05/2014

De Rejane G.Santos

"Tenho apenas de imaginar a porta, uma porta velha e boa como a da cozinha de minha infância, com maçaneta de ferro e tranca. Não há quarto tão emparedado que não se abra com uma porta de confiança como essa, basta haver força suficiente para insinuar-lhe a existência dela".
(Bruno Schulz)
"Sim, mas aí é que está, estou longe de minhas portas, longe das minhas paredes, seria preciso acordar o carcereiro, há um com certeza..."
(Samuel Beckett)
Se me fosse dado, algum dia, me deparar com um desses dois maravilhosos escritores, ou, para minha suprema felicidade, com os dois ao mesmo tempo, teria o atrevimento de falar dessas portas, e de todas as portas, da ânsia, da urgência, da carência de portas (que todos nós temos) - quando a noite chegasse ao fim e o dono do bar nos pusesse para fora, ao tropeçar (cada um) no batente da porta, talvez trocássemos olhares desanuviados porque teríamos finalmente descoberto que o papel das portas é, na verdade, encarcerar. De nada valeria o desencanto de tal descoberta, ou melhor dizendo, não seria possível tal encontro, tal conversa; que eu saiba - no céu - não existe bar, e mesmo que tivesse não permitiria bêbados e fecharia as portas cedo.