por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sábado, 15 de junho de 2013

A Estrutura e Ação da Direita na América do Sul - José do Vale Pinheiro Feitosa

Um paulistano. Igual a estes que correram abaixo da saraivada de balas de borracha, spray de pimenta e gases irritantes das mucosas. Destes paulistanos que foram presos porque portavam garrafas de vinagre para suportarem os efeitos sufocantes do gás lacrimogênio.

Estava vestindo a pele de um turista deslumbrado, ele e a namora numa viagem internacional a uma realidade distinta do seu dia-a-dia. Com a câmara fotográfica à mão, aqueles equipamentos digitais maravilhosos, com lentes de longa distância, fotografando de modo a romper tudo que lhes ensinaram na faculdade de administração e que é o suprassumo da dinâmica empresarial.

Perdera o foco. Não perdera o clic, apenas o foco conceitual, a obrigação de se concentrar no seu negócio e segui-lo como uma batalhão que segue a trilha do objetivo. Fotografava tudo. Quem sabe algum ângulo, um detalhe não lhe desse a expressão de uma fotografia artística ou o registro singular de um momento.

E assim vinha o nosso paulistano como um paulistano de volta para casa ali no centrão da cidade de São Paulo. Pela Maria Antônia, na Consolação, na Augusta ou na Paulista. Vinha pelas ruas de Santiago do Chile, aliás no vazio dos dias de domingo, mas plena da truculência da polícia chilena acostumada a massacrar manifestantes e opositores.

Vinha o Paulistano como um “inocente” que não sabe bem porque a mão do destino lhe dá uma cacetada. Assim como um jornalista da Folha de São Paulo, do Estado ou do Globo andando na calçada estreita entre as manchetes e editoriais de suas publicações pedindo porrada e a porrada que lhes caiu nos olhos, no lombo, cacetadas no pescoço.

As ruas desertas de Santiago eram o prazer da liberdade de poder gastar aquele dinheiro suado numa viagem internacional e as imagens eram o troféu da conquista. Eram mais do que registros, eram os souvenires dos pedaços daquele lugar. E assim o paulistano como um poeta metrificava cada espaço no centro da cidade.

São Paulo com suas mazelas. Suas revoltas e sua ideologia do negócio. As partículas da matéria e da energia são apenas a física do negócio. Tudo que existe é o negócio. Manipule, crie demanda, venda e lucre. A felicidade é o ciclo completo e a civilização a lei da oferta e da procura.

Seja livre e tenha méritos. Eis o discurso ideológico. Esta tua liberdade o levará muito além e a tua “competência” galgará a escadaria luminosa de Jacó. Por mérito sentarás à mão direita de Deus para julgar os vivos que desejam respirar, beber e comer quando por teus critérios eles não merecem isso e sim muito tiverem restara-lhes uma cova rasa e uma placa elucidativa dos desconhecidos.

Ser Paulistano, já com a conquista do status de turista é uma vitória deslumbrante na carreira deste mérito outorgado pelo departamento de RH da empresa. Estava num estágio de superioridade, de domínio do pedaço, assim como os jornalistas que acompanharam na última quinta-feira a manifestação da juventude em prol do passe livre no transporte coletivo.   
   
Acontece. Ele não é o escolhido. Não pertence à classe privilegiada. Não tem segurança. Não tem direito. Nem cuidados com sua segurança pode ter pois a violência nascida na raiz que lhe inventou se volta contra ele com um furor que reduz suas conquistas a pó. Uma lama que nem privada mais o é. É lixão de todas as pessoas excluídas desta “civilização” que corre mundo em todas as cidades com seus exércitos e polícias violentos.

O paulistano se admirou daquele carro da polícia repressiva do Chile pronta para massacrar algum estudante que viesse à ruas reivindicar universidade pública e gratuita. O carro era blindado, tinha chapas por todos lados e grades de ferro à frente dos vidros e das portas. Era uma imagem muito diferente para o paulistano. Ele nunca o vira antes e o fotografou.

O mundo desabou sobre ele. Foi cercado por soldados fortemente armados, vestindo roupas blindadas, bombas, armas pesadas, máscara de proteção, capacete e uma determinação de arrasar quarteirão. Frente ao nosso paulistano frágil, de carne e osso, afinal compreendendo não ser nada na engrenagem empresarial dos negócios, dos focos e dos objetivos.

Não teve a dignidade do seu corpo lanhada em pancadas como seus conterrâneos estão tendo, mas sua honra, sua liberdade, suas vitórias, sua dignidade psicológica viraram um nada diante da “mão invisível” do capitalismo sul americano. Mas antes de tirar o paulistano das ruas de Santiago e remetê-lo no voo para sua conflagrada São Paulo é preciso dizer que no mesmo dia em que corria sangue do rosto de pessoas na cidade brasileira, em Santiago igualmente corria.

Com invasão da Universidade pela polícia, o massacre de professores, pais e aluno. E não deixa de ter a face lisa, cruel e cínica de um Piñera ou um Alckmin no dois lados dos oceanos sul americanos justificando o massacre.



Os Lagos Andinos e sua Travessia - Parte 2 - José do Vale Pinheiro Feitosa

De Peulla, após a burocracia da emigração chilena, se atravessa uma grande fazenda que cria Llamas, Alpacas, Carneiros e Bovinos e daí se toma uma via estreita subindo os Andes. Passando em diversas cachoeiras, rasgos de rios descendo algum declive suave da montanha e sobre seus leitos, por vezes, o Condor sai das alturas vem com sua envergadura de asas espetaculares a planar o vale em busca de comida.

Neste vales estreitos a noite sem lua apaga todos os traços do conhecido. O viajante em caminhadas perde a trilha e se toma de uma perdição gelada e úmida que pode minar o ânimo de sua existência. Nas montanhas com vegetação densa e sempre verde, apesar do frio, habitam animais maiores, inclusive o puma. Que se satisfaz com o que tem nas alturas, mas na escassez, desce até aos vales em busca de presas nas fazendas. Um viajante perdido não se exclui deste cardápio, embora não se tomem notícias entre os guias turísticos de que tal aconteça. Só o cuidado com as possibilidades.

Os micro-ônibus são aparelhados por sistemas de rádio para avisar que transitam a estreita via que sobe a montanha em direção à fronteira com a Argentina. De tão estreita é impossível cruzar veículos, mas apenas os veículos com os empregados no negócio do turismo funcionam. Aliás esta travessia começou a ser feita à pé, no início do século XX, por europeus que pagavam ao dono da fazenda que funcionava em Peulla. Por isso surgiu o negócio da travessia e do hotel em Peulla.

Mais de um século após ainda é um negócio da mesma família que é de descendência suíça. Os barcos, os hotel, os ônibus e micro-ônibus, além de guias, pilotos e motoristas e todo o pessoal de serviço. A família tem uma casa numa ilha no lago Todos os Santos e quando os barcos passam em frente a ela, tocam a buzina em homenagem ao fundador. É um ritual seguramente tradicional, mas hoje é mais para turista saber da história da família. Na travessia até Peulla de vez em quando um pequeno barco a motor encosta no barco maior com a finalidade de trocar passageiros que embarcam e desembarcam. Inclusives empregados do hotel que vivem às margens do lago.

Entra-se no território migratório da Argentina pelo Lago Frias, uma pequena bacia navegada em meia hora. Desce-se em Puerto Alegre e de micro-ônibus chega-se a Puerto Blest. Neste porto o turista já se encontra num dos maiores lagos andinos. O lago que deu vida econômica a San Carlos de Bariloche. Um lago imenso, o Nahuel Huapi, que fica a 764 metros acima do nível do mar, tem uma superfície de 55 mil hectares e uma profundidade conhecida de 454 metros. Ou seja quase meio quilômetro na parte mais funda.

De Puerto Blest até Llao Llao, onde existe um dos hotéis mais caros da América do Sul, o catamarã leva quase uma hora e quarenta minutos. Navegando o lago pelas margens de verdadeiros fiordes e durante a travessia as gaivotas pousam no barco para se deixarem fotografar bicando, em pleno vôo, biscoitos que os turistas deslumbrados põem na ponta dos dedos. De Llao Llao até o centro de Bariloche o ônibus leva meia hora.

Enfim Bariloche que projetou-se como uma moda de deslumbramento de novos ricos brasileiros é de fato uma paisagem, uma viagem ao universo montanhoso das saudades seculares que a sociedade dominante da Europa nos impregnou. Neve, lagos, jardins floridos, casas em encostas de morros, lareiras, gramados e campos desenhados por montanhas e animais.

À noite, num restaurante alemão, um salto de dentro para fora do universo consumista que soterram os turistas. Um descendente de alemães tocando um acordeon magnifico e solando canções de todo mundo. As melodias que fizeram o mundo entre os anos 30 e o final do século XX. Até o nosso Luiz Gonzaga em seu voo internacional com seu Assum Preto se ouviu junto com tangos, canções americanas, francesas, alemãs, italianas e o nosso Brasil de Ary Barroso.

Ali um bom vinho de uma vinha a que os argentinos chamam de Bodega del Fim do Mundo que dá fantasia à Patagônia e o fim do continente. Sem deixar de falar no prato que era um Carneiro Patagônico, na verdade pedaços assados da junção da costela com o espinhaço. Muito gostoso. Feita a fantasia completa. Faltava atravessar os Andes de volta ao Chile, passando pelas alturas onde todo o relevo se encontrava encoberto por uma camada de areia branca que foi oriunda do vulcão Puyuhue.

Recordemos. No final de 2011, não a cratera principal, mais pequenas crateras ao redor do Puyuhue lançaram cinza na alta atmosfera a ponto de causar problemas na aviação sobre a cidade de Porto Alegre e em Buenos Aires. O pessoal de Bariloche diz que por volta de 4 horas da tarde fez-se noite e no céu escuro aconteceu um tempestade elétrica com raios aterrorizando a escuridão das cinzas que caíram sobre a cidade em grossas camadas, irritando olhos e causando problemas respiratórios. 
  
De volta ao Chile e uma conversa com o motorista numa visita à Ilha de Chiloé lhe dizendo que os Argentinos não pronuncia Lla Llao como os chilenos que diz Jao, Jao, mas Xao Xao, além de que tínhamos tomado vinho da Patagônia e comido carneiro da Patagônia. Pronto restabeleceu-se a guerra do Canal de Beagle: o chileno desfez a fantasia que tais coisas fossem da Patagônia a milhares de distância de Bariloche além de falar onde a melhor pronúncia do Espanhol havia na América do Sul. Não era argentina certamente, embora admitisse que tampouco chilena. 

Afinal a grande viagem é uma curtição no verdadeiro sentido do curtume. O negócio do turismo é uma venda comercial com as disputas de fantasias. O melhor, o maior, o primeiro, o mais belo, o mais emocionante, o mais engajado, o mais romântico, o mais luxuoso. A fórmula ainda funcionará por muito tempo até que se descobra o verdadeiro sentido do viajar sem turismo.


Encontrar-se no mundo, neste mover-se do tempo e do espaço. E, desgraçadamente hoje é um encontrar-se em circunstâncias filosóficas e históricas que emparedam ou melhor, cegam o existir para a paisagem fora dos marcos do princípio e do fim. Quando os campos forem realmente parte da viagem ela será uma não viagem. Ou melhor, não será de recreio, mas do viver. Não será esta viagem para fora da existência com a promessa do céu. Será a viagem no “céu” da existência. E não obrigatoriamente na posição de lótus sem sair do lugar. Se temos pernas para que as quero?

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Do pijama à gravata



Em meio ao mundo utilitarista  em que vivemos, somos, continuamente, impelidos a crer que as cidades  são constituídas de prédios, de ruas, de carros, motos, muros e paredes. Ledo engano, amigos !  Uma peça de teatro, se se reparar bem , não  se resume apenas ao cenário. O que a faz grandiosa ou medíocre é  o doce tecido do seu enredo, a maneira sutil e poética com que os personagens desfilam, dialogam, interagem. É da leve trama das relações humanas, do bordado fino das aproximações, do macramê tantas vezes grosseiros  das suas  dissensões de que são fiadas as vilas e as cidades. Cada um de nós é uma linha nesta delicada trama. Alguns têm capacidade menor de insinuar-se entre os outros fios e se puem mais facilmente. Outros , tangidos pela agulha do destino, banham-se de cores, mergulham no coração do tecido , em sucessivos vai-e-vem e terminam por fazer brotar o bordado único que embeleza a toalha da vila e da vida: a casa, o lago, o sol, a árvore.  Sem eles, a urdidura do pano permaneceria na inércia da opacidade, na insulsa imacuidade do branco.
                                   No último mês ,  o Crato  viu esmaecer-se um pouco sua aquarela. A mão implacável do tempo desbotou, um tanto,  o colorido do nosso estampado.  Claro que o pano se vai puindo e outros desenhos vão surgindo nas extremidades, no faz-desfaz das ondas das horas. Mas doe-nos imaginar que os ornatos que nos acostumamos a admirar,  jamais os veremos de novo com as mesmas cores e as mesmas nuances. Um dos fios chamava-se Antonio Luiz Barbosa e era querido por todos. Funcionário aposentado do Banco do Brasil especializara-se na fina arte de fazer amigos. Um deles havia sido o Dr. Antonio Gesteira , uma das mais mitológicas figuras da terra de Frei Carlos e que nos deixara há mais de cinqüenta anos. Antonio Luiz fez-se o guardião da memória do nosso carismático cirurgião. Deixou, ainda, o mais completo trabalho que conheço sobre a vida do amigo, escrito num português correto e erudito, típico de quem havia perlustrado os umbrais do velho Seminário São José. Boêmio, amante das noites e tardes da  sua terra, compunha um grupo dileto de companheiros em que, estranhamente, o principal atrativo que os unia era a conversa, a palestra, a fofoca e não outras libações. Essa trupe engalanou as rodinhas da cidade por muitos e muitos anos e trazia nas suas hostes   membros ilustres e queridíssimos  : Caio Teles, Felicinha, Tália, Márcia, Regina Helena, Telizito, Dolores Milfont, Antonio Primo, Dionê e Natércia Pinheiro. Todos ainda tão presentes entre nós, dispersos que foram pela  inexorabilidade do tempo. O Crato fica menos colorido quando se percebe que toda uma trama rica  do bordado se esfumaça.
                                   Nestes dias, outros passamanes se desfizeram. Partiu o mais importante poeta-cronista caririense da atualidade. Mestre da poesia de circunstância, úmido do fino humor e sarcasmo da poesia popular, nosso poeta fez-se o fino crítico dos nossos costumes e da vida cotidiana cratense nos últimos cinqüenta anos. Chamava-se Zé Landim. Esportista nos anos áureos do futebol de salão cratense, fora um goleiro inspirado e admirado. Alma boêmia, tinha a noite como irmã , parceira e cúmplice. Seresteiro incensado, sua voz bonita e afinada inundou as serestas caririenses e saudou nossos luares. Interessante figura humana, Zé Landim fabricava amigos com a mesma facilidade com que se enfunava de arroubos os mais pueris, talvez porque , no fundo, nunca tivesse deixado crescer a criança que carregava consigo e norteava seus passos de artista.  Zé foi um ser múltiplo mas , certamente, era o fino bardo da poesia circunstancial que mais se lhe sobressaía. Era um craque. Vejam, por exemplo, as músicas  de campanha eleitoral. Alguém já viu coisa mais besta e banal ? Alguém se lembra de alguma da última campanha? Pois bem, há quarenta anos, Zé Landim fez um paródia para a campanha eleitoral de Pedro Felício que ainda hoje, pasmem vocês, está na lembrança de toda uma geração :
                                   “O Crato, já foi princesa
                                   A todo mundo  causava admiração
                                   Seu Pedro, na prefeitura, prá todo mundo
                                   Deu show de administração...”
                                   A maior homenagem que podemos lhe fazer, é lembrar algumas dessas crônicas poéticas que  ,se não escritas, tangidas pela volátil lembrança da oralidade, terminam por se perder na voragem do tempo. Pois vamos lá ! Grande Zé Landim!
                                   Zé fora dileto amigo e correligionário de um dos mais populares políticos do Cariri. Sabe-se lá porque, uma grande confusão aconteceu. E, em se tratando do nosso  poeta, não se fazia necessário muito para acender o estopim curto e inflamado. A intriga perdurou por muito tempo. Um dia, estava ele na rua conversando com um amigo comum, quando uma caminhonete parou colada aos dois. Era o político. Conversou com o amigo, mas como se dirigisse aos dois, pretendia, de alguma maneira, acabar com a infuca que já durava anos . Zé Landim fez ouvidos de mercador. Vindo da fazenda, após os cumprimentos, tirou o político dois queijos e presenteou os dois. Ao sair, Zé , desconfiado, cedeu o queijo ao amigo e à tarde mandou-lhe  uma quadrinha que , genialmente, resumia o encontro :
                                   “A velha cidade do Crato
                                   Doutras plagas é diferente
                                   Lá se dá queijo prá rato
                                   Cá rato dá queijo a gente”
                                   Zé Landim freqüentava, também,  com amigos de boêmia,  a bodega de uma outra figura adorada em Crato. Era ali numa das esquinas da Nélson Alencar e o proprietário :  Heleno Feitosa, um desses desconhecidos heróis do cotidiano. Heleno trabalhava de sol a sol. Almoçava no próprio estabelecimento, não arredava o pé  e com aquele pequeno comércio, trabalhando diuturnamente, formou todos os filhos e os fez cidadãos de bem. Um dia, Zé notou que Heleno ficava todo tempo sentado e com um pé inchado e em cima de um outro banco. Perguntou-lhe se o  tinha fraturado em algum acidente. Heleno, então, informou-lhe que se tratava de um esporão de galo que estava nascendo no tornozelo e incomodando como o diabo. Pouco depois, com o poder de síntese dos grandes poetas, Zé resumiu tudo numa Nona inesquecível :



                                   “Heleno Sales Feitosa
                                   Leva uma vida penosa,
                                   Todo dia faz serão,
                                   Trabalha que só um louco,
                                   Todo tempo prá ele é pouco
                                   E mal engole o pirão.
                                   Trabalha o ano inteiro,
                                   Não tira o pé do poleiro,
                                   Já tá nascendo esporão.”

                                   Uma outra história envolve nosso poeta e um outro mito cratense: João Aires de Aquino, conhecido por todos pelo carinhoso sacro-monárquico apelido de Dom João. Nosso quase rei ou bispo era proprierário de um dos mais famosos bares da cidade e que, pelo próprio temperamento algo difícil do dono, tornara-se quase um clube fechado. Zé Landim era um dos membros titulares e  vivia a cutucar onça com vara curta, aperreando o proprietário aqui e ali, esperando a reação. Um dia saiu na cidade a notícia que D. João havia sofrido um acidente de carro e estava ainda em recuperação, todo enfaixado. Zé Landim visitou-o e, depois, resumiu, assim o ocorrido :




                                   “João Aires de Aquino
                                   É um menino traquino
                                   E mexe com todo mundo,
                                   Num desastre de veículo
                                   Quebrou o par de testículo
                                   E as quatro pregas do fundo”
                                   D. João agüentou firme os primeiros versos, mas no final, saltou do cavalo :
                                   --- “Pensa queu não sei o que você tá insinuando, rapaz? Você tá querendo dizer queu só me restaram quatro, né, seu filho duma mãe?
                                   Sem Zé Landim e Antonio Luiz desbota um pouco a alma encantadora da cidade.  O Crato fica mais chato e menos gaiato:  tira o pijama e veste a gravata.

J. Flávio Vieira

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Os Lagos Andinos e sua Travessia - parte 1 - José do Vale Pinheiro Feitosa

O turismo é um enredo da fantasia. Viaja-se em terras nunca dantes navegadas em nossos sonhos. Visitam-se paisagens, ruas e povos que continuam a ser estas categorias mas, como num ritual mágico, se elevam em significados. Os significados mágicos que já na encontramos nos nossos espaços sedentários.

Estrato da navegação, das grandes estradas, da conquista do ar, qual seja os meios que aceleraram o corpo humano a romper léguas de distâncias, a viagem se tornou ao mesmo tempo o grande adeus e a grande recepção. Por isso a viagem se tornou a mais relevante expressão da mudança. Da transformação. Quem sabe até da revolução.

E foi aí que num mundo mercantil a viagem se tornou objeto de venda. Até mesmo as chamadas viagens ao coração da natureza, ao âmago da fé religiosa, ao encontro da família e dos amigos, ao gosto da aventura e do conhecer o desconhecido, se tornaram oportunidade de negócio.

E desse modo aldeias de pescadores como Jeriquaquara se tornaram objeto do desejo de milhares de viajantes vindos do hemisfério norte, da outra banda do mundo e, claro, do sul do hemisfério sul. Tomando como referência paulistanos no amplo espaço a se deslocar com seus corpos independentes dos brutais engarrafamentos.

O remoto, o inacessível, o mítico e o sagrado foram desnudados, desmistificados num processo de "remistificação" lucrativa que move o negócio e viajam as pessoas. Tem de tudo para todos os estilos. Desde aqueles deslumbrados pelo consumo e pela afetação de expor-se no consumo fugaz do luxo, até aqueles tímidos das moedas contadas, numa despesa que parece um bolso furado e um aporte que parece as marquises daqueles sem teto.

E pelas gargantas que dão passagem às montanhas. Acima das nuvens furadas pelos pícos nevados dos Andes. O romper do manto de névoa e abrir-se sobre uma paisagem ondulada na encosta das grandes e escarpadas elevações. Paisagem sobre a qual um tapete lindamente verde associa o viajante com a única paisagem referente: as pastagens alpinas da Suíça, Alemanha e Áustria.

Os lagos com nomes de raízes nativas. Assim como o fabuloso Llanquihue em cujas margens os migrantes alemães do século XIX deixaram ali uma cultura, uma economia e uma elite rica que regra a vida de todos. O mais impressionante do Llanquihue é sua paisagem de campos, montanhas e o fabuloso Vulcão Osorno com seu topo nevado. O vulcão se posta no horizonte das margens do lago assim como o Monte Fuji dá alma à paisagem e à fotografia japonesa.

Em Frutillar uma cidade da colônia Alemã a mais reveladora geografia social da sociedade desigual: a parte alta onde vivem os operários e a pequena classe média e a parte baixa, à beira do lago onde vivem não muito mais do que três mil pessoas, em ruas de cinema, jardins alpinos, casas alemãs, lojas e restaurantes e bares para turistas.

Na pequena cidade um dos melhores teatros que se vê até mesmo em grandes cidades. Todo construído com revestimento externo de tábuas de madeira em diversas cores. O teatro tem biblioteca, loja de vendas, salas para cursos, salas para apresentações mais restritas e o grande salão. Nele acontece um festival de música no verão sul americano comparável à qualidade do melhor do hemisfério norte.

A jóia do turismo dos lagos é sua travessia entre Puerto Varas e San Carlos de Bariloche na Argentina (conhecida pelos brasileiros apenas como Bariloche. Nos meses frios, especialmente julho tem tanto brasileiro que se brinca como se fosse o nome da cidade Brasiloche). O percurso chileno começa em ônibus, à margem do Lago Llanquihue, entra no Parque Vicente Perez Rosales (de preservação), visitam-se corredeiras de um rio e a seguir vai a Petrohue num porto do lago Todos os Santos (com as águas num belíssimo verde esmeralda) e o atravessa por quase duas horas.


No outro lado do lago, numa estreita faixa de terra plana embaixo das alturas dos Andes, fica Peulla e seu hotel para criar fantasia em turista. Mas uma fantasia de frio, de lago, de picos nevados e se houver uma lua cheia, de montanhas prateadas a cercar o território do visitante. A luz elétrica gera-se numa turbina de quedas d´água e só existem estradas estreitas a ligar as poucas casas. Não moram muito mais do que cem pessoas. Os funcionários do hotel trabalham num regime de embarcado em plataforma de petróleo: muitos dias no local e alguns em suas casas distantes. 

Uma noite de música - José do Vale Pinheiro Feitosa

E antes que a noite acabe. Que o encontro dos namorados cruze o ponteiro da meia noite ainda tenho tempo de oferecer a todas as mulheres o arquivo que segue abaixo. Mulheres com as quais namoro no ser de uma namorada. Namoro de presentes, passados e futuros. Sem prateleiras comerciais. Sem o consumo a esgotar a vida. Ao contrário, um namoro com luar, água e violão. Promitente e cumpridor. 


quarta-feira, 12 de junho de 2013

#FortalezaApavorada - José Nilton Mariano Saraiva

A incompetência e despreparo do titular da Secretaria de Segurança Pública do Estado do Ceará (que foi escolhido a dedo e rebocado lá de Sobral pelo próprio Governador Cid Gomes), fizeram com que o Estado do Ceará (e principalmente a capital, Fortaleza) virasse manchete dos principais jornais e noticiosos do país, porquanto os índices de criminalidade atingiram números recordes nos últimos meses.  A coisa chegou a tal ponto que o Ceará disparou na liderança no que toca ao número de homicídios cometidos, suplantando inclusive o Estado de São Paulo, que detém uma população muito superior à nossa. E mais: por aqui os bandidos já não fazem nem questão de esconder o rosto (com máscara ou capacete), porquanto sabem que o setor está sem comando, acéfalo, um zero à esquerda.    
Por conta disso, surgiu nas redes sociais o movimento civil #FortalezaApavorada (assim mesmo, sem separação das palavras), que pretende reunir os diversos segmentos sociais objetivando “acordar” as autoridades competentes, concitando-as para a gravidade da situação. E, para tanto, convocou a população em geral pra se fazer presente a um protesto pacífico, com data, hora e local marcados (dia 13.06.13, às 15:00 horas, na cercanias do Palácio do Governo).
Foi o bastante para que o Governo do Estado preventivamente soltasse uma nota pública em que, mesmo reconhecendo a falência da política de segurança pública adotada pelo Estado (“...o Governo do Estado tem a consciência e a humildade de reconhecer que alguns crimes cresceram de forma intolerável; são eles o assalto à mão armada nas regiões de melhor renda e os homicídios nos bairros mais pobres”), ainda assim tenta tirar o braço da seringa e partir para a ofensiva ao denunciar/sugerir, sem nenhuma prova do que afirma, que “...grupos partidários e marginais de uma milícia que está sendo combatida dentro do organismo policial, pretendem se infiltrar na manifestação com o intuito de provocar violência e gerar repressão que escandalize a opinião pública”.

Numa mostra de que - tal qual cego em tiroteio, que não sabe pra onde correr ou o que fazer - tenta ameaçadoramente desestimular quem pretende comparecer ao ato ao literalmente sugerir que o “pau vai cantar”, conforme constante do último parágrafo da sua nota: “Aproveitamos para pedir aos participantes do movimento que evitem trazer crianças para a manifestação e não aceitem provocações de indivíduos infiltrados”.  

Tal ameaça nos faz lembrar aquele comandante nazista que, confortavelmente instalado em sua suíte na parte mais alta do campo de extermínio e cercado por seguranças, divertia-se em “praticar tiro ao alvo”... com seres humanos indefesos.

E aí, vamos lá ???

terça-feira, 11 de junho de 2013

Olhem só esta declaração do prefeito do Rio, Eduardo Paes sobre uma hipotética vitória da Argentina sobre o Brasil numa final do mundial: “Se eles vencerem o Brasil na final, eu me mato!”, disse. E complementou: “Eles já têm o Messi e o Papa, não podem querer tudo”, brincou Paes.  

Isso num jornal ou numa revista não teria efeito desconhecido para a pronta brincadeira do leitor: agora temos um motivo para torcer pela Argentina. Só que a brincadeira ficaria restrita ao leitor e eventualmente num encontro entre pessoas se reproduziria a brincadeira.

Mas nesses tempos de internet a história muda de figura: logo um grupo de pessoas reproduz o desejo de se livrar do prefeito simultaneamente através das redes sociais. E é o que está acontecendo.


Até estas gracinhas terão que ser retocadas para uso público. 

A Cerâmica Quinchamalí e o comportamento pequeno burguês - José do Vale Pinheiro Feitosa

O pensador francês Claude Levi-Straus na primeira metade dos anos 80 do século passado publicou um pequeno livro chamado A Oleira Ciumenta. Neste que foi um dos seus últimos livros, analisando o trabalho de ceramistas dos povos americanos identifica uma série de mitos que depois, segundo ele, foram tratados como achados originais da psicanálise. Na verdade Levi-Strauss defende que a maioria dos mitos tratados na psicanálise já pertenciam ao universo dos povos primitivos que viviam em sociedades culturalmente de caça, coleta e de uma agricultura puramente de sobrevivência.

Aquela arte que foi objeto das análises do pensador francês é questão principal em mais este texto sobre o chile: a cerâmica. Ou a “alfarería” como a fala hispânica costuma adjetivar, embora nesta língua cerâmica se refira a técnicas mais refinadas com várias cocções, com esmaltamento da peça e de acabamento mais sofisticado. De qualquer modo a nossa arte popular com cerâmica seria qualificada como uma “alfarería”.

E aí reside uma das questões mais agudas do nosso tempo: a aproximação e o desprezo em relação às artes oriundas dos povos desde os tempos mais primitivos em relação ao mercantilismo e ao capitalismo. Na verdade a civilização europeia se fez em base ao comércio mundial e à produção industrial. Por isso os valores econômicos das mercadorias são determinados pela produção, pelo trânsito e ponto de venda comercial.

Por isso vasos de cerâmica chegados aos portos brasileiros ou chilenos oriundos do comércio inglês, francês ou americano sempre tiveram maior valor do que aqueles modelados pelas mãos em argila dos próprios países. A cerâmica popular normalmente nesta escala é visto como de menor valor e não enfeitam as prateleiras das casas de classe média ou dos ricos.

E desse modo fomos encontrar uma grande exposição da cerâmica Quinchamalí no Centro Cultural Gabriela Mistral. Os jovens e o pessoal de classe média que visitava a exposição olhava as inúmeras peças com um sentimento entre o estranhamento aos padrões do design de consumo dos shoppings e uma vaga memória ancestral porém centrifugada pela atual padronização.

Quinchamalí é um povoado localizado no sul do Chile e que fica a 31 Km da cidade de Chillán. Estes oleiros produzem um cerâmica tracionalmente de cor negra, de aspecto brilhoso e que adquire o tom negro pois é cozida com bosta de cavalo. As peças são típicas com uma base que lembra um vaso ou a base de ums quartinha de água e em cima as cenas humanas, animais e plantas.

Além do tom preto da peça ela é decorada com motivos vegetais desenhados com incisões no barro e pintados em cor branca ou com outra cor que se destaque no fundo. Os oleiros de Quinchamalí se originaram nos povos Mapuche e como em toda as américas as peças tinham originalmente sentido utilitário como recipientes de água e panelas. No princípio do século XIX é que surgiram as garrafas com formas humanas e animais e por volta de 1850 uma figura típica desta arte é a guitarrera, um símbolo da mulher camponesa chilena. Depois aparece a louça artística como brinquedos e novas figuras zoomorfas que se inovam em relação às formas tradicionais.

No GAM vimos a exposição de 261 peças da coleção do Museu de Arte Popular Americano da Faculdade de Artes da Universidade do Chile (aliás onde se encontra o Museu de Arte Popular do Cariri e arredores nas nossas universidades estadual ou federal?). O título da amostra se identificava como “Quinchamalí no Imaginário Nacional” e tem duas marcas fundamentais.

A primeira é o quanto a arte popular se tornou um objeto do desejo das classes médias mais afetas a um chamamento intelectual. Na parede de entrada da exposição havia um texto primoroso de Pablo Neruda tratando do valor cultural e artístico da arte Quinchamalí usando de todos os artifícios de encantamento do consumo: dizendo ter tomado conhecimento de algumas peças através de um grande museu de Nova York. Certamente isso ilumina os desejos dos urbanos afastados dos seu povo.

A segunda é como uma arte popular se projeta no trabalho artístico e faz nascer uma força estética tomando por base sua estrutura. Assim como em Caruaru até hoje se cultua o Mestre Vitalino e no Cariri as duas Ciças como fundadores autorais de uma estética da nossa cerâmica, entre os Quinchamalí se destacou uma artesão chamada Práxedes Caro. Não tenho espaço para reproduzir seu impressionante testemunho de liberdade e decisão sobre seu corpo e destino como mulher.


Nesta linha da estética veio o grande gravador Nemesio Antúnez, artista chileno de expressão formal na arte mundial, que mergulhou na forma e na expressão da cerâmica Quinchamalí. Quem ainda for ao Chile até 23 de junho bem poderia dar fugidinha daquele circuito turístico tradicional e ir ao Centro Cultural Gabriela Mistral (GAM) e aproveitar para abrir o coração ao povo. Quem ficar neste friozinho das nossas madrugadas caririenses estimule-se a ir ao Centro de Artesanato Mestre Noza ou outros que desconheça e ali observar a originalidade popular. Sempre será um “descarrego” deste pesado mundo pequeno burguês em suas gôndolas de consumo fugaz.   


E Se  (Francis Hime)
E se o oceano incendiar
E se cair neve no sertão
E se o urubu cocorocar
E se o Botafogo for campeão
E se o meu dinheiro não faltar
E se o delegado for gentil
E se tiver bife no jantar
E se o carnaval cair em abril
E se o telefone funcionar
E se o pantanal virar pirão
E se o Pão-de-Açúcar desmanchar
E se tiver sopa pro peão
E se o oceano incendiar
E se o Arapiraca for campeão
E se a meia-noite o sol raiar
E se o meu país for um jardim
E se eu convidá-la para dançar
E se ela ficar assim, assim
E se eu lhe entregar meu coração
E meu coração for um quindim
E se o meu amor gostar então de mim






segunda-feira, 10 de junho de 2013

Os novos conservadores e os negócios dos agrotóxicos - José do Vale Pinheiro Feitosa

Os conservadores brasileiros na variabilidade própria dos matizes de todas as categorias ideológicas têm em comum o temor de uma sociedade plural e democrática. Eles gozam da fé inabalável nos EUA e no seu modo de ser. Para eles aquele napalm no corpo daquela jovem vietnamita, correndo sem roupas após o bombardeio, é apenas um erro na justa luta contra o mal comunista.

Eles continuam com horror às eleições livres, chamam de ditadura os eleitos fora do seu credo e guardam, por enquanto, o silêncio da enorme afeição à ditadura militar de recente memória. Eles são integrais, totais e orgânicos em seu modo de ver o mundo: acreditam na fé neoliberal, têm horror à agricultura familiar e amam o agrobusiness; acreditam na “ordem total” e abominam os movimentos sociais; usam discurso contra a corrupção para combater as lutas sociais, os direitos sociais e os direitos humanos.

São competentes na manutenção do poder mas atabalhoados se as rédeas do Estado não estiverem em suas mãos. Os conservadores piscam o olho para Pinochet, se amuam com a morte do “bom velhinho” Videla na prisão e fazem isso de um modo malandramente disfarçado: combatem Fidel e Raul Castro, além de Hugo Chávez, Rafael Correa e Evo Morales.   
  
Enfim jamais lerão algo de um conservador apontando a contradição entre grandes negócios e o desastre ambiental mundial. Quando abordam o assunto tendem a falar de uma culpa original e geral contra o ser humano de modo a garantir que o desastre é um tema irreversível da maldade humana. Jamais apontarão para o grande negócio e a necessária luta política contra esta ordem que apodrece o presente e apaga o futuro. Leiamos o seguinte caso.

Sygenta, Monsanto, Bayer, Dow Chemical, Dupont controlam 100% dos agrotóxicos e dos organismos geneticamente modificados (plantas e sementes). Agora desenvolveram uma nova geração de inseticidas neuro-ativos relacionados com a nicotina (neonicotóides).  Um milho geneticamente modificado da Sygenta matou gado na Alemanha e 52 milhões de americanos sofreram contaminação com o agrotóxico Atracina em seu lençol freático usado para beber. A atracina tem a capacidade de mudar o gênero em animais.

Os neonicotóides são letais para aves e o sistema aquáticos que elas dependem. Esta nova geração de agrotóxicos tem uma enorme capacidade de persistir no meio ambiente e se infiltrarem nas águas subterrâneas. Um só grão de milho contaminado com neonicotóides pode matar um pássaro.

Estes agrotóxicos estão se acumulando nas águas superficiais e nas águas subterrâneas e muitas coleções já chegaram ao nível de contaminação suficiente para destruir invertebrados e aves que dependam destas água. A questão mais recente é o impacto destes tóxicos sobre a destruição de abelhas selvagens e domesticadas.
A mortandade entre apiculturas tem sido tão elevada nos EUA que seus proprietários, através de sua associação, estão processando o governo americano pela sua leniência com o crime ambiental. Está acontecendo um conflito intenso entre o governo Obama que defende as empresas produtoras e o governo Putin da Rússia que se indignou com a mortandade de abelhas em toda a Europa em decorrência dos neonicotóides.

A situação é tão grave que a Europa tende a que os governos passem a controlar todas as plantas e sementes. Isso significa que o liberalismo comercial das grandes empresas terá de perder o proselitismo de seus executivos e de suas ações em bolsa, para sujeitarem-se à análise ambiental de governos. Os tempos dos negócios desenfreados para concentrar capital e oferecer glamour à vida de executivos high-tech se encontra na encruzilhada do desastre físico do planeta. Some-se mas este efeito os desastres econômicos dos neoliberais.

A natureza da adjetivação dos relatórios em relação aos organismos geneticamente modificados está de tal forma talhado que na União Europeia se fala em “sementes monstruosas” criadas geneticamente. A EU e a Rússia de Putin têm esta visão mas o governo Obama defende as cinco grandes dos agrotóxicos argumentando que a morte das abelhas não se deve aos neonicotóides e atribui tais mortes (fora do normal) a inúmeras causas.

Argumenta-se em contrário que Obama foi financiado pela Monsanto e que pôs inúmeros funcionários da empresa em órgãos chaves do governo ligados à regulação dos agrotóxicos e dos organismos geneticamente modificados tais como o FDA (US Food and Drug Administration) e a USDA (US Departamento of Agriculture).   

A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos aprovou uma lei que anistia previamente todas as “agrotoxicoleiras” de suas eventuais responsabilidades em desastres ambientais. Ou seja, protege as sementes geneticamente modificadas de eventuais litígios perante riscos ambientais. A lei foi sancionada por Obama e passou a ser jocosamente chamada de “Monsanto Protection Act”. Se alguém no futuro tiver algum problema de saúde associado com as sementes da Monsanto não poderá recorrer aos tribunais.

O capitalismo sempre aprende a fazer negócio e os capitalistas a se eximirem de suas responsabilidades sociais: se houvesse uma lei como essa em relação a nicotina as companhias tabageiras jamais teriam sido responsabilizadas pela epidemia decorrente do uso do cigarro.   


Enquanto isso o regime franco dos conservadores brasileiros teve um grande ideólogo que foi um grande executivo da Dow Chemical. Chamava-se Golbery do Couto e Silva.