por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 4 de outubro de 2012



  1. CARTA ABERTA AOS CRATENSES

    Vivemos a grande Festa da Democracia nestes dias que antecedem à Eleição para prefeito e vereadores da nossa Cidade
    . Por todo canto se percebe este clima festivo: carreatas, ribombar de fogos, bandeiras tremulando, músicas, santinhos, passeatas, sorrisos fartos. A festa é tanta que corre o risco de esconder a grande responsabilidade que teremos no próximo dia sete de outubro. É preciso entender que ao confirmar o nosso voto, na Urna Eletrônica, estaremos juntos escolhendo a Saúde que desejamos para nosso povo; a Educação que pretendemos ter nos próximos quatro anos; a Segurança que almejamos para nosso município. Ao digitar o voto, nos responsabilizaremos pelos destinos políticos da nossa Cidade que vem, nos últimos quarenta anos, minguando a olhos vistos, se compararmos aos outros municípios da Região Metropolitana do Cariri. Anos após anos, frente a esta calamidade, temos ouvido a população se lamentar: “O Crato não tem Sorte!” Como se devesse a uma força sobrenatural a causa do nosso atraso. Nem percebemos que o poder de transformação está em cada um de nós. Pois bem, amigos, no próximo Domingo está em nossas mãos, novamente, escolher entre a Sorte ou o Azar do nosso Crato.
    Poderemos jogá-lo nas mãos das mesmas oligarquias que estão no poder há mais de cem anos. Vampiros que sugam todo sangue da Vila de Frei Carlos e que, depois, nas campanhas, reclamam da sua anemia e garantem ter consigo um remédio salvador. Desconfiem das Campanhas Milionárias, patrocinadas por empresários e empreiteiros! O salário de prefeito e vereador é muito pequeno para irem com tanta sede ao pote! Olhem em volta! Não há ali filantropos ou caridosos! Não estão apoiando campanhas ou candidatos, mas fazendo um investimento. A conta virá depois para o povo pagar, com juros e correção! Rejeitem os fujões de debate, aqueles que se escondem por trás de carinhas simpáticas e juvenis! Se em plena campanha, caçando votos, não se dignam a discutir com a população suas propostas para resolver nossos crônicos problemas, se eleitos desaparecerão como por encanto! E voto, amigo , não se vende! Do mesmo jeito que não se comercializa honradez, honestidade, dignidade. O voto é a chave do nosso futuro. É preciso, pois, ter cuidado em que mãos vamos depositá-lo.

    Durante toda Campanha Eleitoral, jogamos limpo. Respeitamos nossos adversários políticos com a mesma força que rejeitamos o vazio de seus programas de governo. Participamos, democraticamente, de todos os debates, discutindo e construindo junto com o povo novos rumos para nossa cidade. Percorremos todos os bairros e distritos do Crato, casa por casa, rua por rua, procurando cada pai e mãe de família, bem como os jovens. Mostramos a viabilidade desta Cidade Centenária, berço do Cariri, e que tem na sua vocação cultural, na sua potencialidade ecológica, os grandes filões a serem explorados para seu soerguimento e para o retorno aos dias de glória. Levamos, para nossa população sofrida, a lição quase profética ensinada por Lula e por Dilma que “cuidar bem do Crato é cuidar bem dos cratenses”. E é com esta pureza de espírito, com a alma banhada nos mananciais da ética e da democracia que nos sentimos dignos de entrar na sua Casa e pedir seu voto para Marcos Cunha Prefeito e para os vereadores do Partido dos Trabalhadores.

    Viva o Crato !

    Até a Vitória, Sempre !


    13 Marcos Cunha Prefeito do PT Crato

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O HOMEM MAU

poesia & crônica: O HOMEM MAU: O HOMEM MAU Tiveram medo que ele se levantasse de sua tumba que as almas penadas não aguentassem a sua ruindade e o mandas...

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Cristina Dunaeva – Educadora e libertária cresceu escutando as histórias do avô Luis Carlos Prestes


Cristina Dunaeva –  Educadora e libertária cresceu escutando as histórias do avô Luis Carlos Prestes

A neta do cavaleiro da esperança, o comunista que fez história no Brasil Luiz Carlos Prestes diz que  A figura de meu avô me influenciou por sua prática cotidiana: ser humilde, abrir mão de luxo material. Escutar e destaca enquanto à teoria, compartilho com ele a compreensão da necessidade de transformação social, de lutar pelo fim do sistema capitalista. Dunaeva fala também sobre artes, pesquisas e opressões.    


Cristina e seu filho Pedro Uana Foto: Alexandre Lucas 
Alexandre Lucas - Quem é Cristina Dunaeva?

Cristina Dunaeva - Hoje em dia, sou mãe, estou trabalhando como professora; as duas condições estas me levando, inevitavelmente, a ser educadora.
Eu nasci em Moscou (capital da Rússia), já faz um tempinho (naquela época, país onde nasci chamava-se União Soviética, URSS), sendo filha de mãe russa e pai brasileiro. Meu pai é filho de Luiz Carlos Prestes, aquela pessoa heroica que foi batizada de Cavalheiro da Esperança e era líder do Partido Comunista Brasileiro. Em 1970, durante a ditadura militar, toda a família Prestes foi para o exílio, na URSS. Meu pai, já com 16 anos.
Cresci escutando histórias sobre o Brasil. Estorias mirabolantes. Para mim, o Brasil tornou-se um lugar muito sonhado. Como deve ter sido muito grande a saudade de meu pai deste país, ele contava tanto sobre sua infância, sítio onde moravam, bichos, mar, algumas viagens; mas, também, das dificuldades que passaram se escondendo da polícia, de viverem muito tempo sem poderem ver seu pai, sempre sumido, sempre trabalhando. Cresci também ouvindo a música brasileira, direto. Eram fitas, LP's. Eu ficava fascinada, gostava muito. Aprendi português, escutando Chico Buarque, Clara Nunes, muito samba, Secos e Molhados, Mutantes, João Bosco, Elis Regina, Milton Nascimento; sinto-me eternamente grata a meu pai por me introduzir neste universo sonoro; felizmente, ele tem gosto musical de primeira.
Já da minha família russa herdei o habito de muita leitura. Eu lia demais quando era criança. Com 13, 14 anos já li toda a literatura clássica russa quase inteirinha e muitos dos autores europeus e latino-americanos (que foram traduzidos para russo, claro). Era algo comum na URSS: as pessoas, em geral, liam muito. Lembro que trocávamos pilhas de jornais velhos pelas edições completas de autores clássicos, existia a política estatal de incentivo à leitura. E com o fim da censura passei a ler mais ainda: os últimos anos de escola coincidiram com o fim da URSS, começo da perestroika; muitos autores proibidos no período soviético foram traduzidos pela primeira vez para o russo e editados – Kafka, Nietzsche, Freud; foi ótimo, e os livros, naquela época, ainda eram baratos.
Então, é isso: Cristina Dunaeva: educadora, melomaníaca, leitora apaixonada; também sou anarquista, ateísta e busco ser libertária.
E compartilho ainda das duas identidades que me deixam numa situação vulnerável, ao mesmo tempo me instigando à luta diária: sou mulher e mãe solteira (uma condição difícil e comum dentro da sociedade machista e patriarcal), e sou, apesar de ter uma forte raiz nesta terra, imigrante.

Alexandre Lucas - Qual a sua ligação com as artes?

Cristina Dunaeva - Olha, me graduei em História, na Rússia; meu TCC foi sobre Henri Rousseau, o Aduaneiro, e orientado pela historiadora da arte. Interessei-me  muito, durante a graduação, por este campo de conhecimento – história da arte. E a escolha de Rousseau (artista “ingênuo”, naïf; essa nomenclatura, ao meu ver, horrorosa, preconceituosa, discriminatória e segregadora foi criada a partir da incorporação da produção dele à arte moderna) não foi ocasional. Acontece, que em Moscou, em São Petersburgo existem grandes museus de Belas Artes que frequentávamos e onde nos formamos: estes museus todos seguem um padrão muito rígido de exposição daqueles objetos que são considerados “a Arte” (egípcia, da antiguidade clássica, Renascimento, Barroco, etc.) e de não exposição daqueles objetos que são considerados uma arte menor, ou artesanato, ou amadorismo. Rousseau era único “intruso”, digamos assim, e me despertou uma curiosidade forte.
A partir daí, conheci artistas contemporâneos russos que eram taxados de ingênuos. As possibilidades que eles tinham para expor seus trabalhos eram ínfimas e pouquíssimos críticos de arte e pesquisadores os aceitavam como artistas (ou Artistas, na lógica da História da Arte convencional e eurocêntrica).
Depois vim para o Brasil e passei a morar em Santos, onde me aproximei a anarquistas. Conhecia pouco da teoria anarquista quando @s conheci, mas rapidamente me identifiquei tanto com a teoria, quanto com a prática. Foi amor à primeira vista. E, por incrível que pareça, só após vir morar no Brasil, conheci anarquistas na Rússia, muit@s d@s quais são artistas. Assim, me interessei pela produção de grupos como Voina (Война), banda Pussy Riot – artistas contemporâne@s muito destacad@s hoje em dia na Rússia.
E no Brasil, no primeiro momento, continuei a pesquisa sobre a arte marginalizada, e, agora, o que mais me provoca são as experiências artísticas que questionam os valores capitalistas, valores introduzidos à força no território sul-americano a partir da colonização, e que continuam vigentes e  aceitos. 

Alexandre Lucas - O que você pesquisa em artes?

Cristina Dunaeva - O que mais me interessa é a relação entre a produção artística, entre a criatividade e a liberdade.
Pesquisei Rousseau e o sistema das artes. A nomenclatura eurocêntrica, elitista, que distingue vários tipos de arte segundo sua aceitação em mercados de consumo. As ideologias que sustentam as nomenclaturas. É muita pretensão chamar algum artista de naïf, de ingênuo, só porque ele não segue o padrão expressivo de tal ou qual período, ou porque não intelectualiza seu trabalho (que não foi o caso de Rousseau, aliás). Esta foi a primeira questão que pesquisei.
Depois passei a trabalhar com a produção da vanguarda russa e soviética. Traduzi para o português um dos textos mais importantes de Kazímir Maliévitch, um dos “inventores” da arte abstrata, autor do famoso “Quadrado Negro” (1913-1915). Maliévitch, como toda a vanguarda na Rússia, participou ativamente do processo revolucionário entre 1905 e 1921. Em 1917, ele foi eleito o conselheiro para as artes do governo bolchevique. Mas depois (rapidamente, já em 1919) rompeu com Lenin e seu partido por não concordar com as medidas ditatoriais, com a perseguição de anarquistas, de oposição socialista operária, com o massacre de Kronstadt (em 1921). Maliévitch indissociava a arte e a criação, da liberdade. Ele escreveu muito – vários volumes de tratados filosóficos e sociais, sempre batendo nesta tecla: não existe artista sem liberdade; não existe verdadeira transformação social sem liberdade. Com a proclamação de “realismo socialista” na URSS (o único método aceitável pelo governo para a expressão artística), Maliévitch não pôde mais produzir, foi preso e faleceu em 1935. Isto me tocou e toca muito, sabe. A escolha lá, na URSS, assim como na Alemanha nazista foi, para os artistas, entre a vida e a morte: ou você continua fazendo aquela arte que você quer e morre, ou você segue as exigências do governo e prospera.
E, hoje, após um longo envolvimento com a denúncia da guerra na Chechênia (é uma região na Rússia que foi colonizada no século XIX; foi massacrada pelo Stalin, em 1944; e proclamou independência após o fim da URSS, em 1991, sendo massacrada novamente a partir de 1994), pesquiso aquela arte engajada, pois trabalhei com fotógrafos e artistas que denunciavam esta situação. Mas aí, existe um, porém: para mim, toda arte é engajada, pois não existe nada politicamente neutro. Então, pesquiso a relação entre a produção artística de tal ou qual período com a situação social da época (destacando o período contemporâneo, tanto no Brasil, quanto na Rússia; o período revolucionário do início do séc. XX e as sociedades totalitárias (URSS)).   

Alexandre Lucas - Qual a importância da sua pesquisa do ponto de vista social?

Cristina Dunaeva - Por, primeiro, compreender, analisar e discutir o sistema das artes, o mercado das artes, a exclusão social de certos tipos de produção artística (como, por exemplo, autodidata, marginal). É necessário compreender o funcionamento deste mecanismo de exclusão para poder transformá-lo.
Segundo, por trabalhar a relação entre a criação artística e a liberdade.
Lembrando, que a liberdade não é aquele valor capitalista, neoliberal, que nos fazem adotar desde muito cedo. Não é a liberdade alienada, a liberdade de consumo. Mas aquela liberdade, da qual Bakunin, meu conterrâneo anarquista, falava: Só é possível ser livre respeitando a liberdade do outro. A partir do momento que a minha liberdade passa a ferir a liberdade do outro, não é mais liberdade, é autoritarismo.
Para criar, ser artista é preciso ser libertári@.
Aqui, eu gostaria de aproveitar a deixa e falar um pouco sobre a péssima situação que se dá no meu atual lugar de trabalho e, consequentemente, de atuação social e política: Centro de Artes Reitora Violeta Arraes Gervaiseau da URCA (Universidades Regional do Cariri).
Trabalho no Departamento de Artes Visuais e sou professora de História da Arte.
O curso é uma Licenciatura, ou seja, um lugar onde futur@s professor@s se formam.
E o que observo? Uma situação que me deixa indignadíssima e completamente perplexa.
Arte=Liberdade. Ser educador=ser libertário=contribuir para a liberdade. Deveria ser assim.
E no Centro de Artes é o contrário. Ambiente, tanto de aulas, quanto da convivência cotidiana entre estudantes e professores, e professores entre si, extremamente autoritário. Estudantes humilhados em sala de aula, desistindo de curso e de cursar certas disciplinas por não aguentarem a pressão psicológica. Professores chorando nas reuniões. Outros falando horas seguidas em reuniões coletivas sem dar direito de palavra a colegas. Abusos de poder, arbitrariedades. Dois professores do curso pediram exoneração por não se conformarem com esta situação. Eu mesma estou passando por um processo de recuperação de saúde abalada com o ambiente de trabalho.
Como isto é possível? Numa universidade?
E o mais preocupante é o silêncio em torno desta situação. Tanto por parte de meus colegas professores que preferem se somar às práticas autoritárias ao invés de combatê-las; quanto por parte de estudantes que, salvo algumas e alguns, preferem a passividade.
Eu nunca participei de um ambiente educador tão opressor. A única experiência similar que recordo é a minha escola soviética, marcadamente autoritária, com relações sociais distorcidas, humilhações, punições (não físicas, mas morais, emocionais – situações de assédio moral). Mas lá tratava-se de uma sociedade pós-totalitária. E aqui? O que se passa?
É a herança do coronelismo, do sistema escravagista?
Esperança: dois professores do Centro de Artes, Marcela Lima e Marcio Rodrigues, se opõem ao autoritarismo; também sofrem perseguição por parte de resto do corpo docente, mas Resistem, têm coragem. Estudantes que se manifestam de uma maneira criativa questionando o silêncio da maioria e toda a situação. Poder olhar nos olhos destas poucas e corajosas pessoas é muito gratificante.


Alexandre Lucas - Como você enxerga a produção artística do Cariri?

Cristina Dunaeva - Olha, estou aqui um pouco mais de dois anos. Pouco tempo para poder opinar sem ser supérflua.
Mas vou tentar, ressaltando que careço de uma convivência maior e mais profunda com moradores da região.
No meu entender, aquilo que se passa no Cariri é tão, mas tão alarmante, devastador e rápido que fico um tanto surpresa com pouca repercussão artística destas grandes e desastrosas transformações sociais, ambientais e políticas que sucedem na região.
Assista-se com bastante complacência à chegada de grandes corporações capitalistas à região, ao sucateamento da educação, do sistema de saúde. Ao crescimento das favelas, à urbanização absolutamente caótica, à morte das pequenas propriedades rurais (fim de uma tradição agrícola e comunitária milenar); à higienização social; ao desmatamento absurdo da Chapada do Araripe; à poluição e à extinção de rios, córregos, nascentes. Tudo isto ao mesmo tempo, agora. E, comparando com outras regiões do país, este “desenvolvimento” acontece com velocidade muito mais rápida e de forma muito mais violenta. É um cenário péssimo: será o vale do Cariri uma nova Cidade do México? Poluidíssimo, com uma divisão social gritante: periferia enxotada (como já é em Juazeiro e em Barbalha, cidades que mais conheço, hoje em dia) no meio dos lixões e do esgoto; e bairros burgueses glamourosos com fontes, praças, monumentos, bandeiras, centros culturais, teatros etc.
Ser artista e não reverberar isto me remete a uma situação de ditadura, de sociedade repressora e reprimida.
O mais atual e interessante dentro da produção artística contemporânea no Cariri é, portanto, na minha opinião, justamente teu trabalho e de teu coletivo (Coletivo Camaradas) com a educação, o despertar crítico, reflexivo e criativo de estudantes; e, especialmente, do grupo Bando – que já realizou algumas manifestações artísticas importantíssimas, como a ação no lixão de Barbalha, o Procura-se da Beata Maria de Araujo, o É Proibido Proibir; as Feiras do Bando (principalmente, a primeira) também são experiências muito necessárias para a região, por praticar e evidenciar a viabilidade de uma ação autônoma, autogestionária, independente do sistema institucional e capitalista das artes.
Destaco também a arte de Dinho Lima, que trabalha com as questões ligadas às repressões e às autorepressões dentro do campo do desejo, do corporal, do íntimo, transformando, desta maneira, o corpo social. Algumas ações deste artista e a exposição recente são muito atuais para a região.
Mas, reafirmo, que são primeiras impressões, de relance.

Cristina aos 3 anos com seu avô em Moscou Foto: LCP Filho
Alexandre Lucas - Quais as lembranças que você tem de Luiz Carlos Prestes?

Cristina Dunaeva - Convivi pouco com meu avô. Com o fim da ditadura militar, ele retornou para o Brasil e nós ficamos na Rússia. Só pude reencontrá-lo em 1988, quando ficamos 2 meses no Rio e, depois, no ano seguinte, 1989.
Mas cresci escutando histórias sobre a Coluna Prestes que meu pai e meus tios e tias contavam. Lia livro de Jorge Amado que foi traduzido para o russo, o “Cavalheiro da Esperança”. Então, antes do reencontro na década de 1980, meu avô era para mim mais um personagem heroico, um ser grandioso, porém distante.
Quando o conheci melhor no final da década de 1980, ele se tornou, simplesmente, um vovô que curtia muito as crianças e a família.
Lembro que era uma pessoa muito tranquila, muito quieta, mesmo no meio da maior barulheira e brincadeiras a mil pela casa, ele, muitas vezes, ficava lendo ou escrevendo tranquilamente, sem se aborrecer.
Era, também, uma pessoa muito humilde que detestava luxo. A casa onde ele morava no Brasil era muito simples.
E lembro que ele escutava muito mais do que falava – para nós, crianças e adolescentes (somos muitos netos: 23), foi importante.

Alexandre Lucas - As ideias de Luiz Carlos Prestes contribuíram para sua formação política?

Cristina Dunaeva - Contribuíram demais.
A figura de meu avô me influenciou por sua prática cotidiana: isso que já escrevi, de ser humilde, abrir mão de luxo material. Escutar.
Enquanto à teoria, compartilho com ele a compreensão da necessidade de transformação social, de lutar pelo fim do sistema capitalista.
Só optei por outros meios de luta. Sou anarquista e compreendo que o estado e os mecanismos estatais de administração são ferramentas produzidas pela classe dominante, ferramentas de controle e da repressão. Também não acredito na possibilidade de transformação social por meio de organizações partidárias, já que estas são estruturas hierárquicas, muitas vezes autoritárias. Não acredito em lideranças, nem na democracia representativa.
Penso que a revolução não é algum momento específico de revolta ou levante (sem tirar a importância e a urgência destes), mas a revolução é um processo contínuo que acontece aqui e agora em várias situações (as microrevoluções), em todos os ambientes. Acredito que somente coletivos e grupos sociais que se organizam horizontalmente, sem delegar o poder, sem necessitar de alguém que os comande ou os doutrine, são agentes de transformação e de destruição do capitalismo. O resto só irá reproduzir o sistema de dominação de umas pessoas sobre as outras.
Veja, que venho de um país, onde, apesar da retórica marxista, a alienação de trabalhadores não cessou de existir. Os meios de produção e a própria produção pertenciam ao estado, ao governo que  decidia sobre o valor dos salários e a distribuição dos bens. Concordo com os teóricos que entendem o sistema político e econômico da URSS como capitalismo do estado.
No Brasil, participei, no início da década de 2000 do movimento antiglobalização. Foi um momento importante, no qual vários movimentos sociais e grupos autônomos se juntaram. E as reivindicações foram estas: fim do capitalismo, autogestão. Impedimos, por meio de manifestações em toda a América Latina, a implantação do ALCA (Área de Livre Comércio das Américas).
E, hoje em dia, existem inúmeras práticas de resistência social e de organização autônoma, libertária e autogestionária. São quilombos, comunidades indígenas, ocupações urbanas e rurais, grupos de artistas, movimentos estudantis e inúmeras outras experiências que exercitam a democracia direta, que se organizam por meio de assembleias (reuniões onde tod@s participam em decisões e têm a mesma voz e o mesmo poder de decisão).  
Não sei qual seria a opinião de meu avô, mas sua companheira, minha vó, Maria Prestes, compreende perfeitamente minhas posturas políticas e, em muitos momentos, as apoiou. Já disse até que é anarquista, anarco comunista.

Alexandre Lucas - A sua avó Maria Prestes escreveu recentemente o livro “Meu Companheiro”que conta a história dos 40 anos que viveu ao lado “Cavaleiro da Esperança”. Você pretende fazer o lançamento do livro no Cariri?

Cristina Dunaeva - Pretendo, sim. Só preciso organizar a vinda dela. O livro foi relançado agora numa edição bilíngue (em português e castelhano), e ela, Maria, está viajando pela América do Sul e pelo Brasil, divulgando-o.
Será importante uma passagem da Maria Prestes pelo Cariri. Lembra, que aqui se deu um dos episódios marcantes da história do Brasil: quando os serviços do Lampião foram requisitados pelos agentes do poder (Padre Cícero e Floro Bartolomeu) para impedir a passagem da Coluna Prestes pela região do Cariri. Tentei encontrar a documentação original (cartas trocadas entre estas figuras históricas) que testemunha este acontecimento, mas até hoje não foi possível. Talvez, com a vinda da minha avó, pudéssemos ter maiores chances de acesso aos arquivos que guardam estes vestígios.

domingo, 30 de setembro de 2012

Lili Marlene - José do Vale Pinheiro



Estão aí a versão da Marlene Dietrich e uma das versões brasileiras


Em julho 1914, durante a crise do liberalismo econômico e uma vez esgotada a fórmula da belle époque, a guerra abriu a fenda sobre o solo da Europa. Começava ali uma das maiores carnificinas já vistas entre seres humanos. A guerra das trincheiras em que generais e marechais filhos diletos da velha oligarquia e da nova burguesia europeia torravam a vida de jovens deixando um vazio demográfico jamais recuperado pela Europa.

Em 1915 Hans Leip, um professor de Hamburgo é convocado para o matadouro da juventude. O Exército Imperial Alemão indicava-lhe a lama, a pulga, a gangrena, a fome e o destroço das bombas nas trincheiras. Hans Leip preserva sua humanidade escrevendo um poemas para duas mulheres: sua namorada e sua amiga, configurando uma junção chamada Lili Marleen.

Em 1937 já nos espantos do Nazismo e de outra onda de carnificina o poema é publicado com o nome de “A Canção de Um Jovem Soldado em Watch” com a adição de dois novos versos aos três já existentes. Em 1938 Norbert Schultzer escreve uma canção perfeita para o tom lastimoso do poema.
A guerra espalhou-se sepultando jovens em valas comuns, arrasando os campos, consumindo os meios de subsistência das populações, destruindo as fábricas e estradas e deixando uma vasta fome entre todos. A guerra era ao mesmo tempo o mito imbecil da glória pela pátria e a insanidade destrutiva onde tudo deveria ser vida.

Em 1939 uma cantora alemã, de pouco sucesso, com a necessidade de sobreviver numa Alemanha irregular, grava a canção para o esquema de propaganda nazista. Era o improvável: uma canção doce para um momento marcial. Enquanto o panteão da simbologia nazista não admitia outra coisa que não o espírito guerreiro, retilíneo e duro, uma doçura tomou conta das fileiras.

A Rádio Belgrado das forças nazistas, que transmitia músicas, propaganda do regime e notícias para os soldados alemãs, na falta de coisa melhor tocou o obscuro disco com a canção Lili Marleen na voz de Lale Andersen. O Marechal Rommel com o pulso do sentimento dos seus soldados nas areias quentes da batalha dos desertos, gosta da música e pede para repeti-la com frequência. 

Os soldados queriam mais vida do que morte e a melancolia era um borralho em sua alma. E foi nesse clima que a canção se tornou o grande hits nas trincheiras. E por incrível que pudesse parecer naquele ambiente de confronto e ódios: foi o sucesso entre todos os soldados em guerra. Em todas as línguas, mesmo que não sabendo a tradução da letra em alemão, a canção era tão perfeita para a letra que todos entenderam.

Os americanos rapidamente fizeram uma versão para os seus soldados e gravaram com Marlene Dietrich, uma alemã que abdicara de seu país em favor dos EUA. O sucesso mundial da Dama Dietrich foi superior ao original de Lale Andersen. Mas história não ficou aí: existem versões em Francês, Russo, Italiano, Espanhol, Húngaro, Estoniano, Português entre tantos outros. Aqui na minha coleção tenho mais de 30 versões da canção.

Os brasileiros fizeram duas versões, ambas militarizadas e feitas para os soldados nos campos de guerra da Itália. Uma das versões segue abaixo.  O poema original em alemão é assim:  

Vor der Kaserne vor dem grossen Tor 

Stand eine Laterne, und steht sie noch davor, 
Wollen wir uns da wiedersehen 
Bei der Laterne wollen wir stehen, 
Wie einst Lili Marleen, wie einst Lili Marleen.

Unsre beide Schatten sahn wie einer aus 
Dass wir so lieb uns hatten, das sah man gleich daraus 
Und alle Leute solln es sehn, 
Wenn wir bei der Laterne stehn, 
Wie einst Lili Marleen, wie einst Lili Marleen.

Schon rief der Posten: Sie blasen Zapfenstreich 
Es kann drei Tage kosten! Kam'rad, ich komm ja gleich. 
Da sagten wir auf Wiedersehn. 
Wie gerne wöllt ich mit dir gehn, 
Mit dir Lili Marleen, mit dir Lili Marleen.

Deine Schritte kennt sie,deinen schönen Gang, 
Alle Abend brennt sie,doch mich vergaß sie lang. 
Und sollte mir ein Leid geschehn 
Wer wird bei der Laterne stehen? 
Mit dir, Lili Marleen.

Aus dem stillen Raume, aus der Erde Grund 
Hebt mich wie im Traume dein verliebter Mund. 
Wenn sich die spaeten Nebel drehn, 
Werd' ich bei der Laterne stehn 
Wie einst Lili Marleen, wie einst Lili Marleen



 (Português)
Em frente ao quartel, diante do portão 

Existe uma lanterna e ainda está em frente 
Queremos vê-la outra vez

Sob a lanterna nos reencontrar 

Como outrora, Lili Marlene!

Como outrora, Lili Marlene!


Nossas duas sombras, qual uma só 
Que o amor era, você veria é igual 
E tudo é o que povo pode ver 
Se ficarmos junto à lanterna 
Como outrora, Lili Marlene!

Como outrora, Lili Marlene!


Gritou o sentinela, para nos avisar 
Pode custar três dias!

Camarada eu ainda sou o mesmo 

Como dissemos adeus 

Como gostaria de estar contigo
Com você, Lili Marlene!
Com você Lili Marlene!



Ela sabe que o seus passos, seu agradável caminhar,
Durante toda a noite a espera, mas há muito me esqueceu,

E se me acontecer algum mal, 
Quem estará sob a lanterna? 
Com você Lili Marlene!

Com você Lili Marlene!


Da minha existência tranquila, a partir deste solo, 
Assim teu lábios levanta-me como num sonho. 
Quando se demore o redemoinho de névoa,

Devo ficar sob esta lanterna
Como outrora, Lili Marlene!
Como outrora, Lili Marlene!


Versão original da Lale Andersen

sábado, 29 de setembro de 2012

ELEGER SITUAÇÃO E OPOSIÇÃO NO MESMO E LEGÍTIMO ATO - José do Vale Pinheiro Feitosa


Na próxima semana, em todo o país, serão escolhidos os novos prefeitos, os vice-prefeitos e o plenário da Câmara de Vereadores. Com a votação eletrônica já na mesma noite do encerramento do pleito os vitoriosos abrirão suas vozes em comemoração. As festas continuarão por mais algumas horas e dias enquanto os equívocos que especulam aqueles que serão defenestrados da administração pública se tomam ares de verdade. Mas nada mais enganoso do que as comemorações como o pódio de uma medalha de ouro e as defenestrações para satisfação de futuro candidatos aos cargos defenestráveis.

Engano porque poucos entendem o verdadeiro sentido da democracia. Especialmente em ambientes com resquícios oligárquicos – se bem que de uma oligarquia menor assim como menores eram alguns membros da velha nobreza. Todos apenas enxergam os vitoriosos e aí é que reside o velho “coronelismo” a soprar enxofres demoníacos sobre os sertões. E, claro, sobre este “vale de lágrimas” e de tradicionais epidemias de dengue.

O que representam as eleições é a escolha da sociedade da situação e da oposição. Ambas com um projeto político a ser executado. Ambas, situação e oposição, contando com instituições para o exercício e desdobrar dos seus ofícios. Nenhuma é menor que outra no campo real do dia-a-dia dos municípios. E isso não é uma fantasia de palavras ao vento.

Em torno de 90% ou mais dos orçamentos municipais são repasses da União e dos Estados. São projetos, programas, verbas carimbadas para funções do Estado inscritas na Constituição Federal. Isso significa uma dependência institucional e integral dos governos municipais ao Estado Democrático de Direito. Portanto tanto quem pratica o exercício formal do poder quanto quem se organiza politicamente para exigir os direitos sociais se equivalem politicamente e na realidade da vida prática da sociedade.

Os fantasmas do interior e o arcaísmo do velho estilo de ameaçar e arrebentar criaram o mito do “manda quem pode, obedece quem tem juízo.” Uma das práticas desse coronelismo tardio é não fazer concurso público para não criar uma burocracia estável e independente. Este coronelismo tardio usurpa os recursos dos direitos sociais para criar uma rede de cargos comissionados, funcionários temporários, fornecedores com pedágios de caixa 2 entre outras práticas de superfaturamento e assim subjugar a oposição e a sociedade aos projetos pessoais de apropriação privada das riquezas coletivas.

Enfim são escolhas eleitorais de pequenos poderes absolutistas como existiram até a derrocada europeia destes regimes com as Revoluções Americana, Inglesa e Francesa. Por isso é preciso gritar que o rei está nu e eleger não só os representantes no governo como os representantes na oposição ao governo. É preciso a militância contínua, representação não é sinônimo de delegação das competências políticas da sociedade. É apenas a representação de escolhas de políticas públicas eleitas para tal, mas sempre sujeita a erros e acertos e aí cresce em igualdade o poder opositor.

Amanhã quando vencedores, quem sabe por baixo dos panos ou com o discurso fluído da energia limpa, conspurcarem a linda paisagem do cimo horizontal da milenar Chapada do Araripe, eu quero ser a oposição que exige a proteção das paisagens naturais.     
Miles Dewey Davis Jr (Alton, 26 de Maio de 1926 – Santa Monica, 28 de Setembro de 1991) foi um trompetista, compositor e bandleader de jazz norte-americano. Considerado um dos mais influentes músicos do século XX, Davis esteve na vanguarda de quase todos os desenvolvimentos do jazz desde a Segunda Guerra Mundial até a década de 1990. Ele participou de várias gravações do bebop e das primeiras gravações do cool jazz. Foi parte do desenvolvimento do jazz modal, e também do jazz fusion que originou-se do trabalho dele com outros músicos no final da década de 1960 e no começo da década de 1970. 

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Pontes



Parecia previsível : não seria nada fácil o dependurar das chuteiras para Sonevaldo Socó. Aposentadoria para homem é sempre uma espécie de fim: a morte produtiva : aquela que precede ao final golpe de misericórdia desferido pela  lâmina afiadíssima da Velha da Foiçona. De repente, após toda uma vida de batalhas cotidianas, vê-se o sujeito recluso numa cela totalmente desconhecida e inóspita: sua Casa. Como se um maratonista olímpico, de repente, se visse , na imobilidade de uma cadeira-de-rodas. No caso de Sonevaldo, a inadaptação  parecia, de longe, bem mais contundente. Era motorista de caminhão. Passara toda a vida na estrada, transportando carretos Brasil afora. Aquela vida de Indiana Jones, sem destino pré-determinado: as cargas é que o conduziam e não o inverso. Vivia no mundo, passeava em casa! Socó conhecia praticamente todas as vias deste quase continente brasileiro. A cada dia:  novos horizontes, novos conhecidos, novos amigos, novos amores.  De dois em dois meses, aparecia em casa, revia os filhos e a mulher, arrumava os teréns e caía na rodagem novamente. A aproximação da aposentadoria, no entanto, trouxe-lhe mais paz que fastio. Mais de quarenta anos de estrada , a juventude já embotada na poeira das rodovias, Socó imaginou que merecia o recolhimento. Estaria mais próximo dos filhos e da esposa, órfãos de sua presença por quase toda a  existência.
                                               Os primeiros dias com o pé longe do pedal do acelerador lhe trouxeram uma parente tranqüilidade . Aos poucos, no entanto, foi descobrindo que o mundo mudará totalmente enquanto vivia no meio do mundo. Os filhos haviam crescido e já cuidavam da vida e tinham casa própria. A esposa já não era aquela mocinha inocente e garbosa que ali deixara nas primeiras viagens, teimava em aparecer com cãs e rugas salientes .  Os amigos e conhecidos estavam espalhados pelo país, não moravam naquela cidade que, também, crescera e perdera o jeitão de Vila.  Aos poucos o pijama de bolinhas e a cadeira de balança começaram a pesar. Batia-lhe aquela sensação de gado, na fila, aguardando a hora do abate. Tentou ocupar-se em trabalhos domésticos, até descobrir que homem, em casa , não tem qualquer serventia. Imiscui-se em assuntos de que ,de todo, não tem qualquer know-how. Rapidamente se desentendeu com a empregada que há mais de trinta anos servia à família. Voltou-se, então, para a esposa que tomou as dores da funcionária de tantos anos. No fundo, D. Geni percebia que hoje era mais fácil conseguir outro marido que outra empregada como Ambrosina.
                                               Desencadeada a “Guerra dos Cem anos”, Socó resolveu ganhar a rua e procurou os escritórios mais apropriados à sua tribo : os botecos. Caiu na cachaça com uma voracidade impressionante e , cheio de meropéias e de razões,  começou a procurar emboança na rua e também em casa.
                                               O  tempo, que já andava turvo, sujeito a trovoadas e relâmpagos, tomou ares de tempestade. D. Geni  já tinha gasto o guarda-chuvas e o pára-raios com muitos vendavais e resolveu-se pela separação. Mais uma vez, antes da audiência de conciliação, aconteceu o previsto : Enfarte ! O coração de Sonevaldo não agüentou tanto repuxo. Interno, encaminhado à cirurgia ( três pontes de safena e uma mamária), por fim,  abrandou-se a raiva da esposa. Tocou-lhe a alma um sentimento de culpa, ao ver o companheiro de tantos e tantos anos mais chagado que São Francisco.
                                               --  A culpa é minha, devia ter tido mais paciência com ele !
                                               Ao despertar na UTI, Socó pôs-se a pensar com seus tubos,  sondas e cateteres. Depois de percorrer tantas e tantas vias, Brasil afora, chegara num ponto onde a estrada  empacara. Não havia saídas e nem possibilidade de se pegar um retorno. O tempo, então, lhe providenciará aquelas pontes, abertas ao peito,  por onde a vida  , agora poderia fluir mansamente. Até onde ? Até quando !

J. Flávio Vieira