por José do Vale Pinheiro Feitosa
Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.
José do Vale P Feitosa
sábado, 2 de maio de 2015
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Por Norma Hauer- A nossa escritora de "Pelas Ondas da Mayrink"
"FRENESI"
É hoje, é agora, é momento...
Ânsia, desejo, ardência
Tudo me angustiava
Naquela espera sem fim.
Ânsia, desejo, ardência
Tudo me angustiava
Naquela espera sem fim.
Penumbra, cochichos,aconchego.
Beijos, abraços, loucura...
Não!...é demais assim;
Deixe-me, não me deixe,
Não faça isso!
Chega, chega, é demais!...
Não, não pare, continue...
Continue...
É o instante supremo do Amor,
Calmo, saboreando,
Vivido em cada segundo
Até o momento final
.
Agora é fogo,é o máximo...
Não, não pode ser deste mundo...
Vai muito além, é celestial...
Beijos, abraços, loucura...
Não!...é demais assim;
Deixe-me, não me deixe,
Não faça isso!
Chega, chega, é demais!...
Não, não pare, continue...
Continue...
É o instante supremo do Amor,
Calmo, saboreando,
Vivido em cada segundo
Até o momento final
.
Agora é fogo,é o máximo...
Não, não pode ser deste mundo...
Vai muito além, é celestial...
Estou "voando", viajando...
Num frenesi doído, sofrido,
louco, desejado, ansiado...
Num frenesi doído, sofrido,
louco, desejado, ansiado...
Não dá mais! Chega, chega, CHEGA!...
Que alívio, ah, que alívio!...
Que alívio, ah, que alívio!...
É o ápice! É o clímax! É o paraíso!
Depois... depois...
É o descanso dos guerreiros
É o relax... é o final.
É o descanso dos guerreiros
É o relax... é o final.
(Autoria de Norma S. Hauer)
PRIMEIRO DE MAIO. QUAL SEU SIGNIFICADO? - José do Vale Pinheiro Feitosa
Foi um Judeu que deu outra interpretação ao trabalho. Na
matriz religiosa judaica o trabalho fora um castigo do Criador ao homem. Que já
nascera com todos os atributos e por isso “no
suor do teu rosto comerás o teu pão...”
Engels, tomando a teoria evolucionista de Darwin para
compreender a diferenciação do trabalho como a matriz do ser humano, teorizou
sobre o papel daquele no desenvolvimento físico e intelectual desse. O homem é
fruto do trabalho não é um exagero de se dizer a respeito desta visão.
Acontece que Engels, assim como Karl Marx viveram as
consequências da Revolução Francesa que definitivamente desmontou a velha ordem
ocidental. Quando o capitalismo se organiza, a industrialização avança, a
navegação cria o sistema mundial de comércio e definitivamente se estabelece a
equação capital e trabalho.
Agora o trabalho não apenas cria o homem como o liberta da
exploração social do mesmo. É que a distribuição humana em classes sociais, que
se diferenciam pelo poder de apropriação do produto do trabalho, gera uma
contradição no modelo de economia capitalista que aponta para a revolução
libertadora das classes.
O século onde toda a consciência de classe evoluiu nos
trabalhadores foi o XIX e princípio do XX. Se a Revolução Francesa foi da
classe burguesa sobre a velha ordem aristocrática, a Revolução Russa seria a
classe operária sobre a ordem burguesa do capitalismo.
O dia do trabalho na maioria do mundo é comemorado no 1º de
Maio rememorando a luta de operários americanos pela jornada de 8 horas de
trabalho. A repressão policial aos operários americanos naquele tempo, caracteriza
o primeiro de maio como a luta do operariado contra a ganância da classe
burguesa ávida por mais lucro.
Daí nasceu o princípio dos direitos universais dos
trabalhadores que resultaram nos direitos sociais e, claro, sobre a base dos
direitos humanos já conformados com a Revolução Francesa. Em outras palavras,
numa sociedade livre e democrática, o capital pode jogar sua liberdade até as
margens do direito do trabalho à dignidade e à liberdade.
Portanto, nada é mais temático para um primeiro de maio do
que a manifestação dos trabalhadores, por meio de seus sindicatos, contra a
terceirização de atividades fins como manobra patronal para reduzir direitos
trabalhistas. Este é o sentido das coisas.
Vivemos, como antes, a luta de classes e esta é uma dinâmica
contínua e acumulativa até o limite de uma sociedade em que as classes cessem.
Em que o progresso é contingente à natureza e aos efeitos causados pelo consumo
de seus recursos.
Grande escritora!
Feed de Notícias
Café amargo
Chegou-me a velhice pela porta entreaberta. Quando dei por mim, ela já estava ao meu lado na sala de estar. Apontei-lhe a poltrona mais confortável, vendo a bagagem que a acompanhava, disse que poderia acomodar-se no segundo quarto, o do meio do corredor, iria eu mesma mudar os lençóis; falei dos hábitos da casa e dos espaços que a ela estariam reservados; assim que tomarmos um café, eu mesma lhe mostrarei cômodo por cômodo, moro aqui há mais tempo, tenho minhas manias, meus recantos preferidos e indevassáveis, nós nos daremos bem, acredito, basta que observemos as regras, respeitemos os limites, nenhuma, concordamos, invadirá o espaço da outra. Deixei-a na sala, a olhar os quadros dispostos nas paredes, a investigar as fotografias em cima do console e fui fazer o café. Bebemos de cabeça baixa, de vez em quando nos avaliávamos pelos cantos dos olhos, fingindo-nos de vesgas; está ao seu gosto, o café? Ela limpou os lábios com o guardanapo que lhe ofereci, resmungou alguma coisa que eu, embora lhe tenha deixado os dois ouvidos à disposição, não consegui decifrar.
Chegou-me a velhice pela porta entreaberta. Quando dei por mim, ela já estava ao meu lado na sala de estar. Apontei-lhe a poltrona mais confortável, vendo a bagagem que a acompanhava, disse que poderia acomodar-se no segundo quarto, o do meio do corredor, iria eu mesma mudar os lençóis; falei dos hábitos da casa e dos espaços que a ela estariam reservados; assim que tomarmos um café, eu mesma lhe mostrarei cômodo por cômodo, moro aqui há mais tempo, tenho minhas manias, meus recantos preferidos e indevassáveis, nós nos daremos bem, acredito, basta que observemos as regras, respeitemos os limites, nenhuma, concordamos, invadirá o espaço da outra. Deixei-a na sala, a olhar os quadros dispostos nas paredes, a investigar as fotografias em cima do console e fui fazer o café. Bebemos de cabeça baixa, de vez em quando nos avaliávamos pelos cantos dos olhos, fingindo-nos de vesgas; está ao seu gosto, o café? Ela limpou os lábios com o guardanapo que lhe ofereci, resmungou alguma coisa que eu, embora lhe tenha deixado os dois ouvidos à disposição, não consegui decifrar.
Houve um tempo em que me esquecia de sua presença, era só um lodo, uma penugem que, embora ocupasse o mesmo espaço da água, não molestava, nem sequer me parecia (também aos outros) perceptível. Um dia, a água começou a turvar-se, como se aquele lodo, que até então se mantivera quieto e verde nas minhas profundezas, tivesse amadurecido, mudado de cor, consistência e forma, tivesse não apenas se transformado em lama, mas, num só contorcido impulso, emergido, sem avisar.
Encontrei-a sentada na minha cadeira de balanço, aborreceu-me, mas não reclamei, se acontecer outra vez, reclamo; noite dessas, ela estava a sono solto na minha cama, apiedei-me de quem dormia tão pesado e deixei-a ficar; semana passada sumiu meu livro de cabeceira, reapareceu desmarcado; há três dias não encontro um dos meus discos de vinil, que são dispostos rigorosamente em ordem alfabética; sei que se vestiu de mim, ainda ontem, para passear pelas redondezas. Amanhã converso com ela, vou dizer que não está certo, havíamos combinado, amanhã, eu digo, tomo coragem, amanhã. Hoje, para me proteger de suas emboscadas, dessas suas feições e costumes que mudam tão rapidamente, devo me mudar para o quartinho das tralhas, único espaço em que esta indesejada hóspede não assentou ainda as sobras do seu corpo imenso, elástico, metamorfoseado. Tenho medo quando ela se volta, me dá boa-noite e some na escuridão do quarto, levando consigo, feito máscara pregada em seu rosto, o rosto que me pertence, que já me havia roubado dias antes; eu vi, e tive vergonha por ela, não por mim, por ela que parece não se importar de cometer um roubo atrás do outro. Custava me pedir? Não é para ser desse jeito, tratei-a bem, fiz de conta que estava a acolher uma visita bem-vinda, disposta a se demorar; que mal lhe fiz? Amanhã, sem falta, pergunto. Ela é astuta e eu não sou uma pessoa de prontas respostas, preciso me preparar para uma contra argumentação, descobrir dentro de minha memória algo que eu tenha feito de tão ruim que desencadeou, nela, esse comportamento desalmado. Pedir desculpas com jeito, voltar ao convívio aceitável. Amanhã, prometo, eu peço. Cometi alguma descortesia, é muito provável, mas quando, onde? Uma vaga lembrança faz dias me persegue, uma quase certeza de que posso ter me esquecido de adoçar aquele primeiro café de fim de tarde que servi à Velhice, depois de acomodá-la na poltrona mais confortável da casa, logo que ela me chegou pela porta entreaberta. Amanhã eu me certifico. Amanhã.
(rejane gonçalves)
Janeiro/2015
Janeiro/2015
quinta-feira, 30 de abril de 2015
UM VÍDEO TREME A CENA NO NEPAL - José do Vale Pinheiro Feitosa
Volto ao assunto. Naquele momento. Quando tudo acontece.
Um vídeo feito pelas câmaras de segurança de shopping em Katmandu.
Numa rua movimentada pela qual passei há um ano.
Bem poderia tentar fazer um downloanding do mesmo. E postar
para que todos vejam. Mas não vou fazê-lo. Prefiro as letras que, uma a uma,
pingam como lágrimas pelo acontecendo, acontecido e suas consequências para o
futuro do Nepal.
País que depende muito do turismo.
Pessoas pelas calçadas movimentadas de larga avenida de
sentido único. De um lado o conjunto de prédios comerciais e do outro um
pequeno prédio com mais as grades de um parque de grama verde. Vê-se que o
número de vans é superior ao de veículos individuais. No entanto, muitas motos
transitam pela avenida.
Metade da avenida é usada pelas Vans para embarcar e
desembarcar passageiros. Por isso mesmo um guarda de trânsito se encontra no
meio da rua orientando este movimento de tomada do transporte coletivo.
Ao lado de um cone de demarcação do trânsito, o guarda dá
sinais para aquele momento da operação de trânsito. Duas mulheres esperam o
transporte que lhes é adequado. Um grupo, incluindo uma criança se encontra em
frente a uma loja.
De modo geral as pessoas transitam por ambas as calçadas da
rua. Sendo que no lado esquerdo o footing é mais intenso. Alguém passa
empurrando uma bicicleta por entre as Vans paradas. Outras embarcam, Vans param
para desembarcar alguém e logo a seguir embarcar outras.
Enfim a rua é dinâmica. A não ser eventuais paradas nestes
momentos citados e as Vans estacionadas com pessoas junto a elas, tudo se move.
Motocicletas, como fazem em todo o planeta, costuram no trânsito.
Uma mulher se move na faixa em que se encontra o guarda de
trânsito. A Van para ao lado, escondendo-a por um breve tempo, mas ela que
seguia em sentido contrário ao guarda permanece indecisa olhando para um lado e
outro.
A sua indecisão não se resolve por si mesma. Enquanto tudo
mais se move, ela apenas balança com se tivesse dificuldade de adotar um
sentido específico. Neste momento se aproxima do guarda de trânsito e conversa
com ele.
O guarda de costas para um lado da rua, fica dividido entre atende-la
e controlar o movimento de sobe e desce nas Vans que param para pegar
passageiros. A Van que encobria os dois termina a parada, segue enquanto o
diálogo entre os dois permanece e outra Van estaciona um pouco antes dos dois.
Desta Van pessoas sobem e descem. Famílias, incluindo
crianças, transitam nesta faixa da rua dos transportes de passageiros. A Van
começa a se mover lentamente adiante. Como se diz apenas segundos e tudo se
transforma.
Durante cinco ou seis segundos a câmara do shopping faz a
cena tremer e as pessoas continuam sem nada perceber. Na Van, que começara a se
mover, pessoas entram para toma-la. O tremor da cena é intenso.
As pessoas começam a cirandar entre si, correr de um lado
para outro. Algumas giram em torno do próprio eixo. A maioria se afasta dos
prédios. Em ambas as calçadas e na rua as pessoas correm em direções
diferentes.
Motociclistas começam a cair, corridas de um lado para outro
da rua. As motos fazem movimentos para as laterais em função do desequilíbrio.
Um caminhão velho, com um passageiro na carroceria passa do outro lado da rua.
A mulher que conversava com o guarda percebe algo vindo de
trás e o puxa. Ele tenta ir em sentido contrário. Mas ela o puxa no sentido
dela. O caminhão passa e no ângulo da cena começa-se a observar um prédio
caindo em direção dele.
A mulher solta o guarda e corre em sentido contrário ao
prédio desabando sobre o caminhão e quem mais por aquele ponto da rua passasse.
O guarda fica perplexo por alguns segundos, mas logo percebe o volume predial
vindo em direção de todos.
Uma moto que vinha junto à Van parada e tudo mais é
atingido, especialmente o caminhão com aquele passageiro solitário sobre a
carroceria. O guarda correndo com o pó da construção destruída atrás de si. A poeira
cobre quase toda a cena.
Mas é possível se ver os fios e os postes balançando como
uma vara de pescar. A folhagem das árvores está agitada como as ventanias das
tempestades. Mas é uma agitação estranha, como se alguém as balançasse para derrubar
seus frutos.
Entre os 47 segundos do vídeo e 1 minuto e 26 segundo a cena
treme. Treme e as pessoas, tão logo a poeira baixa são vistas em corrida na
direção do parque gramado. Se afastam das lojas comerciais.
Um homem sai da Van e corre na direção dos escombros e se
abaixa para olhar algo embaixo deles. Ele tenta mover os escombros. O
motoqueiro atingido perto da Van tenta ficar em pé mas logo em seguida
senta-se. Em seguida o homem que se aproximara dos escombros junta-se a outro e
tenta levantar uma pessoa ferida.
Esta pessoa é o passageiro da carroceria do caminhão que
fora empurrado pelos escombros do prédio. O guarda de trânsito retorna para a
posição em que se encontrava, próximo ao motoqueiro que nesta altura já
consegue ficar em pé.
As pessoas já caminham. Tentam mover escombros. Mas outras
ainda correm. O vídeo não termina.
Quer dizer a filmagem cessa. Mas não as consequências
daquele intervalo de menos de um minuto continuam.
Serão anos para retirar o Nepal dos escombros.
quarta-feira, 29 de abril de 2015
terça-feira, 28 de abril de 2015
LA CANCIÓN REVOLUCIONARIA POPULAR - José do Vale Pinheiro Feitosa
A origem do canto e da palavra se move na história e nos
ocorridos ao imediato da vida das pessoas. Os violeiros nordestinos se movem
nos romances provençais e nas estradas áridas e varandas patriarcais dos
sertões. O rabequeiro das feiras minguantes da velha tradição toca o arco sobre
as cordas desde o norte da África, passando por Portugal e, mitologicamente,
ligada a São Gonçalo do Amarante e suas danças.
A voz do canto é a narrativa de suas vidas. Seus dramas.
Seus conflitos, loas, aventuras e venturas desta vida severa, cruel como a
covardia dos acólitos da Casa Grande. Vestidos no manto da salvação na Igreja,
um respeitoso ajoelhar-se frente à ordem eclesiástica, para em seguida espalhar
ordem e vinganças nas costelas magras do camponês.
Os cantadores sertanejos falam de tais coisas. Como frutos
do destino, das vinganças abençoadas, da maldade destilada, cristalina e tênue
como a hóstia que absorve todos os pecados, uma espécie de salvo conduto ao
juízo final. Os violeiros nordestinos denunciam a miséria da ordem política e
econômica, mas nunca cantaram uma revolução popular como o povo do México.
Aliás como o povo cubano. Pois todas as melodias extraídas
da revolução cubana têm também raízes da península ibérica, especialmente dos
romances espanhóis assim como os trovadores provençais das nossas cantorias. A
famosa “Guantanamera”, que se refere às jovens do pedaço de Cuba sonegado pelos
EUA e tornado uma prisão cruel, era originalmente uma canção espanhola assim
com os sambas de terreiro com um refrão e uma melodia para se improvisar. Nos
anos trinta a música era utilizada no rádio para dar notícias e fazer críticas
à política. Depois recebeu os poemas de José Marti, por si, um herói
revolucionário cubano.
E no México, parte do que conhecemos como a canção típica do
país, incluindo os Mariachi, que chegou até o nosso país através do cinema de
do disco, são melodias revolucionárias. Chamadas de “corridos”, as canções da
revolução mexicana, enaltecendo os feitos dos seus líderes e do levante dos
camponeses contra a ditadura de Porfirio Diaz.
E nelas se destacam os próprios camponeses e sua desdita,
além de sua coragem e gana de vencer os tempos ruins. Se destacam as mulheres
que não aceitaram ficar em casa enquanto seus homens peleavam pelas terras
banhadas de sangue. Elas seguiram os homens naquele momento fugaz, onde o
amanhã se resolve hoje pois a possibilidade de não se ver o próximo nascer do
sol é enorme.
E temos os nomes de Francisco Villa (Pancho Villa), Emiliano
Zapata, de Francisco Madero, os nomes anônimos, os pequenos se forjando em
gigantes frente a transformação revolucionária. E temos nos corridos quatro
fenômenos comuns à revolução: o trem, o cavalo, a carabina e os instrumentos musicais.
A repressão veio com o trem que em seguida transportou a revolução. As mulheres
seguiam penduradas ao lado do trem (las soldaderas), armadas e destemidas como
só estes momentos as libertam.
São milhares de canções, que se originaram dos “corridos”
que vieram da colonização do México, se adequaram ao espírito indígena, às
canções religiosas de seu povo e as deixou para os seus descendentes, os
camponeses quase escravizados pelos senhores latifundiários. E todas elas criaram uma base sobre o futuro
musical do México.
Um exemplo é La Adelita quando o máximo que um homem pode
prometer a uma mulher é um vestido de seda. Não se tem futuro, apenas segui-la
num navio de guerra se por mar ou num trem militar se por terra.
La Cucaracha, é um corrido clássico, que se refere à
Marijuana e que depois serviu para os "Louros do Norte", em sentimento de
superioridade imperial, traçar o perfil dos mexicanos que, por necessidade,
prestam serviços a preços baratos no comércios e lares americanos.
Crisálida
J. FLÁVIO VIEIRA
A constatação tem a textura de uma
rocha magmática: a árvore frondosa desabou e está ali estendida, inerme, no meio da estrada. Os transeuntes
obstacularizados pelos galhos volumosos se postam diante da catástrofe : menos
interessados em entender os meandros da hecatombe e mais perplexos ante o simples impedimento de seguir em frente. Certo que um dia ,
inevitavelmente, esperava-se o desabamento : destino de todos os corpos
imantados pela gravidade do tempo. Mas a
queda nos toca profundamente , sempre, como se nos impingisse a certeza
absoluta da impermanência , da fluidez dos minutos e das horas escorrendo , inflexivelmente, para o
ralo tenebroso da inexistência.
Hoje,
a árvore, mesmo tombada, ainda parece
fazer parte da nossa perspectiva diária, como se seu reflexo ainda ali
estivesse indelével no horizonte. Amanhã, no entanto, se juntará à paisagem
pretérita. Caule, folhas, galhos , flores,
pouco a pouco serão mastigados pelos incansáveis operários do nada e o
pó teimará em retornar a pó , numa
ubíqua e carnal comunhão com toda a natureza.
Os
observadores da árvore mais próximos, talvez já nem a percebessem : fazia parte
do gasto panorama cotidiano. Agora, no entanto, com a queda repentina e o vácuo
no horizonte, se hão de perguntar perplexos : o que fica do tronco e suas
incontáveis ramificações que ontem ali
estavam, dependurados na estampa do infinito ?
Ficam
as incontáveis lembranças do seu apogeu. A sombra que acalentou e protegeu os
dias não apenas dos seu frutos, mas de todos os insetos, passarinhos e viandantes que dela se aproximaram. Também a aparente aspereza do seu porte que precisou
criar raízes fortes e profundas para suportar o peso dos galhos imensos que lhe davam fortaleza. O despojamento de
livrar-se das folhas , seu vestido de gala, nos períodos de seca e estiagem,
projetando a flora nas futuras
primaveras. Ficam também as flores com
as quais inundou o mundo de cores e aromas e as serviu, copiosamente, sem
distinção, a todos que por ali passaram. Permanecessem, intocados pelo tempo, os
frutos estendidos numa mesa imensa
e servidos, irmanamente, num banquete opíparo e magnânimo, para
degustação de pássaros, borboletas e peregrinos. E , por fim, o pólen :
espargido aos sete ventos , disseminando a opulência e o milagre da vida floresta afora.
Tronco
e ramada ao chão são apenas uma mera
metamorfose da árvore. Ela faz-se ,
misteriosamente, crisálida enquanto
aguarda , pacientemente, no casulo, a
eclosão das tenras asas para o novo voo
nupcial.
Crato, 24/04/15
segunda-feira, 27 de abril de 2015
OS DEUSES GRITARAM - José do Vale Pinheiro Feitosa
O Deus à imagem e semelhança do homem é pura psicologia
humana. E não é à toa que fosse entendido na região do mundo afeta à
agricultura e à pecuária. Pastores e agricultores necessitam de ordem para
cumprir as fases das plantas e do rebanho. A ordem patriarcal é uma forma e por
isso o monoteísmo tende ao Deus Pai.
Os deuses naturais refletem toda a relação temporária, intempestiva
e incontrolável dos indivíduos e grupos com os fenômenos planetários e
terrestres, que envolvem atmosfera, terra, água e a luz solar. Onde se diz
adense-se no monoteísmo no outro se diz disperse-se pois muitos se salvarão das
iras dos deuses.
E assim minha perplexidade frente ao terremoto no Nepal, com
mais de 3.700 mortos, 60 mil feridos, desaparecidos, soterrados, montanhas de
escombros. Falta de recursos de sobrevivência, pessoas isoladas a serem
resgatadas, vias incomunicáveis, levas humanas em fuga dos tremores secundários
e em busca de sobrevivência onde os recursos faltam.
Em março do ano passado estive no Vale de Katmandu, viajei
por terra até a fronteira da China (na região do Tibete). O vale é denso de
população. Uma época seca, o rio sagrado Bagmati era, então, um esgoto fétido e
cheio de lixo, as pessoas costumavam usar máscaras de pano devido à poeira
levantada pelo trânsito nas ruas.
Esta densidade está na raiz do desastre. O Vale de Katmandu
fica exatamente nos limites da placa indiana e eurasiana, aquelas mesmas que,
em choque, formaram o Himalaia. Uma região de grande risco de abalos sísmicos
não deveria concentrar gente, como os deuses naturais revelaram.
Os animais, incluindo os humanos, recebem recados de que os desastres
estão por acontecer. Recados históricos como este aspecto da junção de gente à
beira de rios, oceanos, em montanhas, em locais de possíveis desastres. Mas
recebem recados da própria natureza.
Estudo recente demonstra que animais pressentem um iminente
terremoto. Quando as placas tectônicas começam a se atritar existe ionização
das camadas mais altas da atmosfera que afetam o comportamento dos animais. Os
humanos ficam agitados e confusos, mas não têm condições de mudar suas vidas
imediatamente.
As agências de notícias dizem que o Nepal foi avisado por
estudiosos que um terremoto era iminente. Até mesmo o Primeiro Ministro nepalês
mostrou preocupação exatamente sobre este aspecto há poucos dias. No entanto o
desastre do povo vivendo em prédios sem estrutura para abalos e correndo atrás
da vida não pode ser evitado. A realidade do povo não pode ser modificada.
Apenas o desastre, a morte e destruição podem acontecer.
E por isso mesmo um dos destaques das matérias do jornalismo
ocidental, profundamente comercial foi a morte de um executivo da Google na
base do Everest. Fotos do jovem executivo, à frente de dois companheiros, com
óculos espelhados, manchas branca nas maçãs do rosto e um porte destemido e
enfrentador.
Um olhar de executivo de grande sucesso. Que tem uma
performance descomunal no mundo aleatório da acumulação. Que precisa mostrar
alto impacto a quem aposta em seus negócios. O olhar de desafio que precisa ser
mantido para que o seu mito se mantenha visível na constelação das grandes
estrelas da Bolsa Nasdaq.
Os deuses naturais avisam bem.
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Será que a liberdade de imprensa é apenas a liberdade das empresas privadas fazerem o que lhes dá na gana? Ou a liberdade de imprensa também teria de compreender o que diz a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos Humanos, ou seja: o direito das pessoas receberem informação de muitas fontes, e de terem a oportunidade de se juntarem, de gerar e produzir informação a partir de muitas fontes?
Noam Chomsky
A SEDE DO TERRORISMO GLOBAL - José do Vale Pinheiro Feitosa
Quando se adota uma ideia do mundo o normal é que tomemos
referências para orientar tais concepções. Uma parte de nós tenta refletir,
busca se informar em fontes independentes e até checa os seus conceitos
preliminares até formular a sua ideia de mundo. Mas há uma parte, no meu
entender significativa, que não reflete, segue trilhas que demonstram tendências
familiares e pessoais e apenas aprofunda este vício de origem.
Uma parte dos que desfilaram nas ruas com o descontentamento
ao governo Dilma, era desta natureza obtusa, irrefletida. Vale salientar que
existe uma matriz ideológica a fomentar tais obtusidades e por isso frases em
inglês, defesa do estilo de vida Miami, frases contra Cubas, Venezuela e até a
Bolívia.
Pesquisas feitas com esta parte dos desfilantes mostraram um
quadro desolador de preconceitos, aversão a tudo que não se oriente pelos EUA, protestam
contra as políticas de proteção social, negam o poder legítimo dos eleitores
nordestinos, perseguem a luta por igualdade de gênero, a luta pela liberdade de
opção sexual. E o pior de tudo, acreditam linearmente no que os seus canais de
formulação ideológica dizem.
Nesta semana o pensador americano Noam Chomsky ao ser
entrevistado num encontro internacional trouxe informações fundamentais para se
entender o papel político e terrorista dos EUA ao citar três exemplos: Nicarágua,
Honduras e Cuba. Vale salientar que o Brasil, mesmo de forma não muito firme,
sempre esteve ao lado dos países agredidos desde que se instalou a democracia
no país. E até mesmo quando na ditadura militar as lideranças adotaram
políticas externas mais independentes do mando americano.
O primeiro se referia à Nicarágua, ainda no tempo do governo
Reagan:
“Por exemplo, em 1985, o presidente Ronald Reagan invocou a
mesma lei (se referia às medidas de Obama contra a Venezuela) dizendo: “O
Estado da Nicarágua é uma ameaça à segurança nacional e à sobrevivência dos
Estados Unidos”. Mas nesse caso era verdade. Porque ocorria um momento em que o
Tribunal Internacional de Justiça tinha ordenado aos EUA que pusessem fim aos
seus ataques contra a Nicarágua através dos chamados “Contras” que agrediam o
governo sandinista. Washington não o levou em conta. Por sua vez o Conselho de
Segurança das Nações Unidas também adotou, nesse momento, uma resolução de que
pedia, a “todos os Estados”, que respeitassem o direito internacional. Não
mencionou ninguém em particular, mas todo mundo sabia que se estava a referir
aos EUA. O Tribunal Internacional de Justiça tinha pedido aos Estados Unidos
que pusessem fim ao terrorismo internacional contra a Nicarágua e que pagassem
reparações muito importantes a Manágua. Mas o Congresso dos EUA o que fez foi
aumentar os recursos para as forças financiadas por Washington que atacavam a
Nicarágua. Isto é, a administração Reagan opôs o seu método à resolução TIJ e
violou o que este lhe estava a pedir. Nesse contexto, Reagan pronunciou um
célebre discurso dizendo que “os tanques da Nicarágua estão apenas a dois dias
de marcha de qualquer cidade do Texas”. Ou seja, declarou que havia uma “ameaça
iminente”.
Depois Chomsky falou sobre o caso Honduras:
“Por exemplo, Obama é praticamente o único
líder que deu apoio, em 2009, ao golpe de Estado em Honduras, que derrubou o
governo constitucional (de Manuel Zelaya) e que instalou uma ditadura militar
que os EUA reconheceram. Isto é, podemos deixar de lado a conversa sobre a
democracia e os direitos humanos; não têm nada a ver: o esforço era para
destruir o governo.”
E agora Chomsky fala sobre os EUA e Cuba frente às
iniciativas americanas para distender a situação até então praticada por eles:
“Não se trata de “normalização”. É, primeiro, um passo para
o que poderia ser uma normalização. Ou seja que o embargo, as restrições, a
proibição de viajar livremente de um país a outro etc., não desapareceram...Mas
efetivamente constitui um passo para a normalização, e é muito interessante ver
qual é a retórica atual da análise de Obama e da sua apresentação. O que disse
é que cinquenta anos de esforços “para levar a democracia, a liberdade e os
direitos humanos a Cuba” fracassaram. E que outros países, infelizmente, não
apoiam o nosso esforço, de tal maneira que temos de encontrar outras formas de
continuar a nossa dedicação à imposição da democracia, liberdade e direitos
humanos que dominam as possas políticas benignas com o mundo. Palavra mais,
palavra menos, é o que disse. Quem leu George Orwell sabe que quando um governo
diz alguma coisa, é preciso traduzi-la para uma linguagem mais clara. O que
disse Obama significa o seguinte: durante cinquenta anos fizemos um terrorismo
de grande escala, uma luta econômica sem piedade que deixaram os EUA totalmente
isolados; não pudemos derrubar o governo de Cuba nesses cinquenta anos,
portanto, tudo bem se encontramos outra solução? Essa é a tradução do discurso;
é o que realmente quer dizer ou o que se pode dizer tanto em espanhol quanto em
inglês. (...) Efetivamente, os EUA fizeram uma campanha grave de terrorismo
contra Cuba sob a presidência de John F. Kennedy; o terrorismo era extremo
naquele momento. Há um debate, às vezes, sobre as tentativas de assassinato de
Fidel Castro, e fizeram-se ataques a instalações petroquímicas, bombardeamento
de hotéis – onde sabiam que havia russos alojados – mataram gado, etc. Ou seja,
foi uma campanha muito grande que durou muitos anos. E mais, depois de os EUA
terminarem o seu terrorismo direto apareceu o terrorismo de apoio, digamos, com
base em Miami nos anos 1990. Além da guerra econômica, iniciada por Eisenhower,
ganhou realmente impulso durante a era Kennedy e intensificou-se depois. O
pretexto da guerra econômica não era “estabelecer a democracia” nem “a introdução
de direitos humanos” era castigar Cuba por ser um apêndice do grande Satã que
era a União Soviética. E “tínhamos que proteger-nos”, da mesma maneira que “tínhamos
de nos proteger” da Nicarágua e de outros países...”
Um Desastre Aguardado - Por Carlos Eduardo Esmeraldo
Voltamos repetir o que afirmamos no dia 1° de fevereiro de 2011, há mais de quatro anos portanto, quando a população cratense enxugava a lama que tomou conta das ruas e de várias residências e prédios comercias, devido ao transbordamento do Rio Grangeiro. Ontem em chuva de menor intensidade do que a daquela época, as noticias revelam que a situação nada mudou. E quem são os culpados?
Dessa vez não podemos de modo algum responsabilizar a extrema pobreza da nossa subdesenvolvida região. Como vem ocorrendo há mais de sessenta anos, o Crato vive órfão de liderança. A população depositou toda a sua expectativa de dias melhores nessa última eleição para prefeito. Na minha modesta opinião, naquela eleição o povo do Crato não escolheu simplesmente um candidato, mas deu um recado claro, direto e gritante de que precisava mais do que um prefeito, precisava de liderança. Não adianta procurar culpados. Cada um de nós, cratenses somos culpados pelas nossas escolhas.
Mas se serve de ajuda, é claro que devemos ajudar, então vamos delinear algumas linhas de ação para solucionar esse grave problema das inundações, antes que de acordo com a crença indígena, a pedra da Batateira arraste o Crato.
Em primeiro lugar, o canal do Rio Grangeiro deverá ser redimensionado. A municipalidade deverá se apoiar em estudos presumivelmente existentes sobre os índices pluviométricos da bacia do Rio Grangeiro a montante da cidade do Crato. Quais são os registros dos volumes das cheias máximas? Será necessário aumentar a calha do canal? Caso positivo, cair em campo em busca dos recursos necessários. A população cratense a uma só voz deverá pressionar todos os deputados federais e estaduais que se lembraram do Crato nas últimas eleições. Todos aqueles que obtiveram expressiva votação em nossa terra, muitos dos quais, sem o voto dos cratenses, jamais teriam sido eleitos.
Entretanto devemos olhar para o futuro. Existem recursos para demolir o atual canal e refazer outro, com melhor dimensionamento? Se tal resposta for negativa, busquemos outras soluções para evitar o pesadelo das inundações. Particularmente, eu vejo com bons olhos uma idéia externada pelo ex-prefeito do Crato, pela construção de duas pequenas represas para barrar o leito do Rio Granjeiro, a montante da cidade, com barragens de concreto armado, bem dimensionadas e, construídas criteriosamente para evitar danos ainda piores. Além de barrar as cheias, tal providência serviria para reforçar o abastecimento d’água da cidade, além de despoluir o canal e propiciar a irrigação dos canaviais a jusante da cidade do Crato nas estações secas.
Enfim, lembrar que pela primeira vez na sua história, o Crato possui um governador eleito com o voto de mais de 83% dos seus eleitores, mais do que uma prova de confiança, uma súplica, salve-nos jovem Camilo. Seja a nossa recompensa e o líder que falta ao Crato.
Por Carlos Eduardo Esmeraldo
quinta-feira, 23 de abril de 2015
A ATLÂNTIDA AFUNDA NO MEDITERRÂNEO - José do Vale Pinheiro Feitosa
A certeza de nossas posições sempre estará no deslocamento
da história, criando contradições, oxidando verdades, introduzindo novas coordenadas.
Um dos temas jornalísticos mais dramáticos do momento é a tragédia da migração
clandestina africana para a Europa, especialmente no Mediterrâneo.
Na semana um barco com 850 pessoas a bordo naufragou no
estreito da Sicília. O comandante do barco, um Tunisiano, é acusado pelos
passageiros de ter fechado as pessoas que vinham no porão e no estágio inferior
do barco. Aprisionados, eles se afogaram.
Este drama leva nossas posições num sentido, para logo a
seguir mudar de rumo frente a como se manifestam as autoridades europeias.
No primeiro sentido nos posicionamos contra este tipo de
pirataria que carrega a mão-de-obra barata de um continente para outro em
condições tão desumanas quanto os navios negreiros. O artista plástico Bruno
Pedrosa, que vive na Itália, disse-me alguns meses passados que o nível de
desumanidade tinha chegado ao ponto em que os tais agentes punham as pessoas em
pequenos barcos, orientavam o rumo do leme em sentido do continente europeu e
diziam: é por aí. E os barcos, sem piloto, levavam os desesperados de mar a
dentro.
Mas em seguida, mudamos o rumo de nossas posições. A chamada
à responsabilidade dos governos Europeus sobre o assunto representa o que
exatamente? Aumento da vigilância aérea, marítima e por satélites e radares
sobre o mediterrâneo? Ampliação de uma rede de informação secreta nos países
africanos para detectar os movimentos? A rápida devolução dos migrantes? A
perseguição estilo CIA da raia miúda dos contrabandistas de gente?
Afinal vamos tender a ficar contra os piratas e ao mesmo
tempo contra os governos? É contradição tremenda em nossos espíritos (uma
ressalva: na televisão estas coisas só têm um lado e a posição se resume à
condenação dos piratas e, por tabela, dos migrantes). Mas o que efetivamente temos?
Temos um sistema econômico e político desigual. Fazedor de
misérias e supressor de oportunidades. Além desta inerência, é um mundo que
cresce numa velocidade descontrolada como fetiche consumista, onde as pessoas
se tornam peças performáticas e vivem numa eterna incompletude diante das
ofertas inatingíveis.
Segundo análises prospectivas, em 2020 apenas 1% da
população mundial controlará mais riquezas do que 99% da população. Esta
riqueza organizada em redes de influência carregará a história num sentido
mecânico consumista e degradante. Dados da ONU estimam que de cinco pessoas no
ano de 2050, quatro estariam vivendo em regiões com problemas de abastecimento
de água. Isso sem contar com esgotamentos naturais, danos ambientais, desflorestamentos,
poluição dos mares e do ar.
A questão energética será mais crítica do ponto de vista de
sua distribuição do que de sua geração. Quem tem acesso às fotografias da terra
à noite já pode observar, pela iluminação dos países, como esta distribuição é
brutalmente desigual. Este modo de distribuição do lúmen produzido pelo
trabalho humano é o molde plástico ao olhar de como a sociedade
ultra-capitalista atual funciona.
A questão da desgraça no Mediterrâneo é uma questão de
consciência política, de organização e mobilização, refletida com o
conhecimento até agora adquirido pela humanidade para que se possa, com escala
de danos mais reduzida, se transformar e superar o estágio atual do sistema
econômico e político. Existem muitas formulações políticas dedicadas a
compreender os fatos históricos e lhes dar uma condução racional, normalmente
revolucionária.
Não acredito que a dimensão destas contradições possa ser
resolvida pelo consumismo, uma vez que ele mesmo é parte daquelas contradições
anteriormente apontadas (concentração de riquezas, esgotamento da natureza,
desigualdade e conflitos).
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