por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quarta-feira, 12 de novembro de 2014

De Paris a Roma a pé: - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Imagine se você, caro leitor, teria coragem de fazer uma viagem do Crato até Belém do Pará andando a pé os 1480 km de distância, sem aceitar carona, dormindo debaixo de barracas de lona, sobre esteiras ou colchonetes às margens das rodovias, ou em hotelzinhos de beira de estrada ou ainda em casas religiosas, se por acaso existissem? E se você tivesse 75 anos de idade, mesmo assim se arriscaria a tamanha aventura? Nem mesmo se tivesse uma causa tão importante que o motivasse para realizar tal jornada? Seria algum protesto de grande porte que chamasse a atenção da opinião pública mundial? Pois saibam todos, que uma distância um pouquinho maior do que essa foi percorrida pelo sacerdote redentorista francês, Padre Henry-Marie Le Bouriscaud,  quando ele tinha a idade de 75 anos. Ele viajou 1507 km à pé de Paris até Roma para apresentar ao Papa João Paulo II seus protestos sobre a forma como a Igreja Católica enfrentava as questões vitais para o cristão de hoje. Para o teólogo alemão Bernhard Häring, "Henry teve a coragem de se por a caminho, porque estava convencido de possuir dentro de si uma mensagem que devia transmitir aos outros, a mensagem da liberdade e da felicidade criadora." O próprio padre Henry escreve na abertura de seu livro: "PARIS-ROMA, 1500km a pé". "Meter-se na aventura de percorrer a pé 1500km, de Paris a Roma pelas perigosas auto-estradas nacionais, não foi fruto de entusiasmo irrefletido de um septuagenário, mas o fecho de ouro de uma longa caminhada pessoal." Para ele, essa decisão não foi um ato individual, mas algo repleto de reciprocidade, pois jovens e idosos reagiram à essa sua idéia.

O Padre Henry foi ordenado sacerdote aos vinte e seis anos, tendo iniciado sua vida sacerdotal no Seminário Redentorista de Paris, como professor e missionário. Logo percebeu que ele tinha tudo em sua vida, nada lhe faltava. Boa alimentação, um leito confortável, bons agasalhos, bem diferente daquilo que Jesus Cristo viveu e que milhões de pobres no mundo atual vivem. Então decidiu sair de sua zona de conforto e morar no meio dos pobres, em barracas junto a milhares de imigrantes portugueses. 

Após conhecer Abbé Pierre, como era mais conhecido entre os pobres da França o frade capuchinho Henri Antoine Groués, fundador do Movimento Emaús, o Padre Henri entrou para a comunidade como simples companheiro de rua. Em 1972 fundou o Movimento Emaús Liberdade, em Charenton-Paris. Em seguida não se acomodou. Levou a idéia do Movimento Emaús a outros países, inclusive o Brasil. Em Fortaleza existe em pelo menos cinco bairros pobres: Pirambu, Vila-Velha, Jereissati I -Maracanaú e Pajuçara. Para quem não conhece o Movimento Emaús, ele funciona como uma espécie de cooperativa, que recebe doações de móveis usados, eletrodomésticos defeituosos e outros artigos inservíveis, que após recuperados, reformulados, são vendidos nos bazares do movimento. É fonte de emprego e renda para os participantes, uma forma concreta de retirá-los da miséria absoluta.  

A Viagem do Padre Henry de Paris a Roma durou três meses e oito dias. Partiu da praça de Notre Dame, em 15 de junho de 1995. Para sua surpresa, Jürgen Falkenberg, um jovem alemão, que o conhecia do Movimento Emaús resolveu acompanhá-lo, pois temia que ele partisse sozinho, sem experiências de caminhada pelas auto-estradas francesas, pelas travessias de túneis cheios de curvas, alguns deles com mais de 20km de extensão. Todo o percurso teve um roteiro previamente preparado, contendo a distância a ser percorrida a cada dia, algo entre 15 e 20km, dias de repouso semanal, lugares para pernoites e alimentação, que era preparada pelos próprios viajantes. A chegada em Roma se deu a 23 de setembro de 1995, três meses de uma longa caminhada.

Infelizmente, ele não pode ser recebido pelo Papa, que partiria no dia seguinte em viagem a Nova Iorque. Então solicitou ao seu compatriota, o Cardeal Etchegaray, vice-decano do Colégio Cardinalício, para entregar ao Papa João Paulo II uma carta com críticas e sugestões, tudo o que ele sentia. Entre os principais pontos: o excesso de gastos que os países pobres realizavam com as viagens e a segurança em torno do Papa, a condenação que o pontificado dedicou à Teologia da Libertação, citando entre outros, o teólogo brasileiro Leonardo Boff. Também tratou de temas polêmicos como a abolição do celibato para os padres, ordenação de casais e também das mulheres, entre tantos outros, ainda hoje uma esperança de serem postos em prática por reformas mais profundas.
   
Eu e Magali tivemos a alegria de conhecer o Padre Henry que desde 2009 reside em Fortaleza. Atualmente aos 94 anos, vive com os pobres da Vila Velha, sob os cuidados do advogado Airton Barreto e sua esposa, cristãos autênticos, que deixaram o conforto proporcionado por sua família de classe média, para viver como pobre, entre os pobres do Pirambu e da Vila Velha.    

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Para maiores informações ou aquisição do livro do Padre Henry:
Movimento Emaús Vila Velha
Rua Moraújo, 651 - Jardim Guanabara
CEP  60 346 770 Fortaleza- CE
emausvive@emausvive.org
emausvila@yahoo.com.br

MERENDA na PAPELARIA - José Nilton Mariano Saraiva

Não é necessário possuir nenhum “doutorado” no assunto para se chegar à conclusão que qualquer empresa que pretenda se submeter com sucesso a algum “processo licitatório” junto a órgãos públicos há que atender algumas regrinhas básicas. E dentre estas, duas merecem destaque: que ofereça um preço competitivo (menor preço) e que tenha condições de suprir sem atropelos à demanda para a qual concorre (existência de estoque).

É estranho, pois, que no Crato (na administração passada), o prefeito da cidade haja referendado a decisão da “Comissão de Licitação” da prefeitura da cidade, autorizando a contratação de uma PAPELARIA para fornecer MERENDA para algumas escolas da cidade; afinal, em condições normais PAPELARIAS são estabelecimentos comerciais especializados na venda de artigos de papel e de outros produtos similares (caderno, lápis, borracha e por aí vai). Como passivamente imaginá-los vendendo produtos não compatíveis com o ramo, dentre os quais “OVO TIPO MARROM, SAL IODADO, RAPADURAS E MISTURA PARA MINGAU” ??? Muito estranho, não ???

Pois bem, sem nenhum constrangimento e até aparentando certa despreocupação, a proprietária da PAPELARIA à qual empresta o nome (Cícera da Silva) admitiu que “vendia uma merendinha aqui e acolá” até porque “EU NÃO TENHO ESTOQUE, NÉ ???”. E conclui: “então a gente comprava e entregava” (um dos contratos que a PAPELARIA de Cícera firmou com a prefeitura do Crato orçava R$ 343 mil).

Mas, como “pimenta nos olhos dos outros é refresco”, o marido de Cícera da Silva, senhor Eduardo Ferreira, montou uma outra empresa que embora não aparente características para venda de varejo de alimentos, a “E.V.Ferreira”, também firmou contrato para fornecer MERENDA ESCOLAR à prefeitura do Crato, num valor superior ao da firma da esposa: R$ 886 mil. Juntando os dois contratos, o felizardo casal teria abocanhado R$ 1.229.000,00 do dinheiro público. E numa demonstração de pouco caso ou mesmo gozação para com todos nós, Cícera da Silva teria afirmado que... “A GENTE GANHA QUE DÁ PARA SOBREVIVER, NÉ ???”.

Como a denúncia foi veiculada em horário nobre, num programa que é visto em todo o mundo (o “Fantástico”, da Rede Globo) bem que o  Ministério Público Federal e a Polícia Federal poderiam convocar os principais atores de tamanha excrescência - o ex-prefeito da cidade, os integrantes da “Comissão de Licitação” da prefeitura e os felizes proprietários das duas lojas - para uma conversa séria e esclarecedora sobre (quem sabe, até mesmo conseguindo uma autorização judicial para quebrar o sigilo bancário e telefônico de todos eles).

Na oportunidade, de bom alvitre seria convocar também o atual prefeito da cidade, a fim de esclarecer se o distinto casal dono da PAPELARIA continua a fornecer MERENDA para as escolas municipais.

Até porque, se forem comprovadas as tais denúncias veiculadas pela Globo, estaremos diante de um irrecorrível e sério caso de “improbidade administrativa” (desvio de dinheiro público) merecedor, pois, de punição rigorosa e exemplar. Mas, se ao contrário, restar comprovado não ter havido nenhuma irregularidade, os citados terão a oportunidade de desmentir tudo, limpar o nome e acionar judicialmente a emissora global.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

VELA - Aloísio


VELA

Ela é luz e vejo o pano
Levando os desenganos
Lembro meus vinte anos.

Os ventos estão soprando
Levando o barco a vela
E a vela que vai clareando.

Encontro um porto seguro
Depois da queda do muro
A vela me tira do escuro.

A vela clareia a vida
A vela leva o barco
Quem vela por mim?

Aloísio
11/11/2014

 

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O CRATO NA TV, EM HORÁRIO NOBRE E PARA TODO O MUNDO - José Nilton Mariano Saraiva

Meses atrás, em uma das nossas postagens, mostramos que uma determinada microempresa, do Crato, embora tendo por objeto a comercialização de “HORTIFRUTIGRANJEIROS”, fornecia à prefeitura da cidade... “material de construção-merenda escolar” fugindo léguas da finalidade constante do edital respectivo.

Eis que agora, alertado por denúncias de moradores da própria urbe, o “repórter secreto” do programa Fantástico, da Globo (exibido em todo o mundo), foi investigar o desvio de R$ 1,2 milhão, da MERENDA ESCOLAR, de empresas que venceram licitações e assinaram contrato com a prefeitura de Crato.

É que, em 2012, a empresa “Cícera da Silva” era fornecedora de sete (07) municípios, incluindo Crato. Valor total dos contratos nessas cidades: pouco mais de R$ 724 mil. Quase metade do dinheiro era da prefeitura de Crato. Cícera da Silva é a dona da empresa que recebeu o dinheiro. Mas que firma é essa? (atentem para o diálogo): Fantástico: A senhora tem uma PAPELARIA ? Cícera da Silva: Tenho. Fantástico: A senhora era merendeira? Cícera da Silva: Não. Eu vendia merenda. A gente vendia uma merendinha aqui e acolá. Quando dava para vender a gente vendia (Um dos contratos que a PAPELARIA de Cícera venceu, no valor de R$ 343 mil, era para fornecer MERENDA às escolas de Crato: ovo tipo marrom, sal iodado, rapaduras e  mistura para mingau). Cícera da Silva: Eu não tenho estoque, né? Então, a gente comprava e entregava.

Pois bem. A cidade de Crato foi fiscalizada, no ano passado, pela Controladoria-Geral da União (CGU). Ela investigou a movimentação do dinheiro público na PAPELARIA. Conclusão da CGU: o relatório da Controladoria diz que a PAPELARIA Cícera tem "características de empresa de fachada". Ou seja, características de uma empresa usada para encobrir o desvio de dinheiro público.

O marido dela, Eduardo Ferreira, também tem uma empresa, a “E. V. Ferreira”. Em 2012, a “E. V. Ferreira” também teve um contrato para fornecer MERENDA à prefeitura de Crato. Valor: R$ 866 mil. É a mesma história. A sede da firma não se parece com uma empresa de varejo de alimentos. Como Eduardo Ferreira é casado com a Cícera da PAPELARIA, e cada um tem uma empresa, e cada empresa tem ou teve contratos com a prefeitura, a conclusão é: o casal mexeu com muito dinheiro público da cidade de Crato. “E. V. Ferreira”: contrato de R$ 866 mil. “Cícera da Silva”: contrato de R$ 343 mil. Total: R$ 1,2 milhão. “A GENTE GANHA QUE DÁ PARA SOBREVIVER, NÉ ???”.  diz Cícera da Silva. Quando perguntamos a Eduardo Ferreira o que ele tem a dizer sobre essa “dobradinha marido-mulher”, empresa com empresa, como é que pode o marido ser concorrente da mulher, veja o que ele diz: “Uma está no nome dela, e outra, no meu nome. Eu achava melhor agente manter só no nível da EV mesmo”, diz Eduardo. Para Controladoria-Geral da União, a empresa dele tem mais uma coisa em comum com a empresa dela: no relatório da fiscalização, a firma dele também tem "características de empresas de fachada".

Samuel Araripe, que era o prefeito de Crato quando a “E. V. Ferreira” e a “Cícera da Silva” foram contratadas pelo município, afirmou na televisão que todo o processo de licitação e de fornecimento de MERENDA escolar se deu dentro da lei. “Esse fato de ser fachada ou deixar de ter fachada, eu entendo que isso não é competência do prefeito. Toda a parte legal, ela foi fiscalizada e foi exigida na minha gestão à frente da prefeitura do Crato”, afirma o ex-prefeito da cidade.

Perguntas que se impõem: 1) será que o ex-prefeito do Crato ignora (a ponto de pouco se importar com isso) que “empresas de fachada” têm por finalidade precípua encobrir o “desvio de dinheiro público”???  2) como explicar que marido e mulher sejam contemplados para prestar um mesmo tipo de serviço à prefeitura, através de empresas de araque, no exorbitante valor de R$ 1.200.000,00 ??? 

Compartilhando...

Vergonha: 5 dias em Manaus falando bem do Crato nas conversas com colegas de vários Estados, cheguei até a sugerir o Cariri como local para o próximo congresso em 2018. A notícia divulgada hoje no g1 tira o ânimo de qualquer entusiasta pela região.
http://g1.globo.com/…/casal-desvia-mais-de-r-12-milhao-de-m…


 
Neste domingo (9), o destino do 'repórter secreto' é o Ceará. Denúncia: desvio de dinheiro público na saúde e na educação.
g1.globo.com



 
Raimundo Bezerra Filho adicionou 2 novas fotos.
Assistindo a reportagem do Fantástico, envolvendo denúncias sobre o dinheiro público e











Vendo o Crato como notícia nacional, fez-me refletir:
Nos últimos anos t...ive o prazer e a alegria de ser vice-prefeito deste município. Foi o exemplo de um homem público dentro de casa, que viveu lutando por esta cidade e vibrando com suas conquistas, que fez nascer em mim, um ideal, cujo o objetivo seria colaborar no desenvolvimento econômico e de bom projetos estruturantes para nossa cidade. Com esperança e sonhos, dei início a uma caminhada longa, sabia que os passos precisariam ser curtos.
Hoje, depois de algumas quedas, vejo o Crato envolvido em um turbilhão de denúncias , escândalos públicos, crimes, em uma situação constante.
Com problemas de administração sendo investigada pelos órgãos competentes, má gestão de dinheiro público, que fará falta na cultura,saúde,educação, sinto um profundo sentimento de decepção, vergonha ,frustração e pago um preço muito alto, apesar de ter tranquilidade por não me sentir responsável por tal realidade. Muitos serão os casos de corrupção, que ficarão escondidas nas entranhas públicas, comprometendo aqueles que mais necessitam. Acredito que o problema tenha início já no processo eleitoral, acabei de participar de uma conjuntura política aonde pude constatar, que a força do poder econômico influência no resultado de uma eleição.
É lamentável não termos o Crato de outrora, sem desmerecer a contribuição de outros benfeitores ,mas o Crato que traz a lembrança de Pedro Felício, Humberto Macario,Ariovaldo Carvalho ,Raimundo Bezerra ...
Ainda espero, que com o esforço da população e das instituições , torne possível construir um Crato melhor, afastando a descrença generalizada e fazendo com que possamos nos unir colaborando para termos orgulho da nossa história ! 

 Raimundo Bezerra Filho



 
 
 
Casa de Bárbara de Alencar, Caiçara - Exu -Pe.
Bárbara Pereira de Alencar (Exu, 11 de fevereiro de 1760 — Fronteiras, 18 de agosto de 1832) foi uma revolucionária da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador. Mãe de José Martiniano Pereira de Alencar, Tristão Gonçalves e Carlos José dos Santos também revolucionários.
A heroína republicana nasceu na fazenda Caiçara de propriedade de seu avô Leonel Alencar Rego, patriarca da família Alencar. Adolescente, Bárba...ra mudou-se para a então vila do Crato, no Ceará, e casou com o comerciante português, José Gonçalves do Santos.
No contexto da Revolução Pernambucana de 1817, numa das celas da Fortaleza de Nossa Senhora de Assunção esteve detida Bárbara de Alencar, considerada localmente como a primeira prisioneira política da História do Brasil.
Ver mais
 

domingo, 9 de novembro de 2014

Um Jornalista Distraído! - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

O que esperar de um jornalista? Que ele seja antes de tudo um vocacionado. Uma pessoa que abrace a profissão com isenção e vista-se com ela durante todos os segundos de sua vida. Um tipo que esteja antenado com a dinâmica da política e da vida em sociedade, da qual ele, além de testemunha, é um importante ator. Espera-se dele também honestidade na informação, muita vivacidade, clareza de redação e contínua atualização com a "Aldeia Global" na qual todos nós habitamos.

Pois não é que contrariando essas expectativas, há exceções? Aqueles que são tremendamente distraídos, que vivem no mundo da lua, mas tão bem escondidos, que parecem estar na face mais oculta do nosso satélite.

Havia no Rio de Janeiro dos últimos anos do Século XX, um jornalista tão distraído, cujas "voadas" faziam a alegria de todos os seus colegas de trabalho. Era mais conhecido pelo apelido de "Habi Sorto", nome fictício para o qual são dispensadas as necessárias justificativas. Não era por racismo, mas por puro hábito, que ele batizava qualquer interlocutor que não possuísse a pele totalmente branca pelo nome de "Moreno", apelido distribuído aos milhares de conhecidos dele ou não. 

Em certa tarde de um final de ano, "Habi Sorto" foi convidado para uma recepção que o poderoso dono da Rede Globo ofereceria à sociedade carioca em sua mansão do Cosme Velho. "Habi Sorto" passeou por todas as seções do jornal onde trabalhava, visitou cada um dos birôs de seus colegas, exibindo orgulhosamente o convite, mesmo sem lhe passar pela cabeça que seus colegas haviam sidos distinguidos com idêntica honraria.   

No dia marcado, "Habi Sorto" foi gentilmente recebido no portão de entrada da mansão por um senhor distinto, de tez levemente morena, vestido rigorosamente com uma casaca branca, calça escura e gravata borboleta. Ao cumprimentar os convidados, acompanhou o jornalista até a uma mesa reservada para imprensa, colocada nos jardins, à margem da passarela de entrada, na qual já se encontravam alguns colegas de "Habi Sorto". Este não perdeu tempo e logo ordenou ao acompanhante:
- Oh Moreno, traga um whisky e um salgado! - Em poucos minutos, o cidadão de casaca branca apareceu com uma bandeja numa mão, e uma garrafa de whisky "royal salute" na outra, tendo servido ao grupo de jornalistas que acompanhava "Habi Sorto".

À certa altura, notou-se uma grande movimentação nos jardins, com as pessoas se dirigindo para a entrada, pois anunciara-se a chegada do embaixador americano. "Habi Sorto" e os colegas foram assistir. O embaixador ao descer do carro abraçou calorosamente o anfitrião. E então, o jornalista "Habi Sorto" comentou com os colegas.
- Esse garçon, o Moreno, só quer ser o cão! Nunca vi sujeito mais metido! Pois não é que o bicho é conhecido até pelo embaixador americano?
- Esse Moreno, que você acha que é um garçon e, que ficou muito seu amigo a ponto de atender pessoalmente seus pedidos é o dono da casa, o Dr. Roberto Marinho, seu patrão!  -  Completaram seus colegas.

O nosso herói, o jornalista "Habi Sorto", campeão mundial de mancadas, murchou, procurou no chão algum buraco onde pudesse se enterrar e nada encontrou, somente grama. Pediu licença para ir ao banheiro e sumiu de vez!

Mais de vinte anos depois, "Habi Sorto" foi na visto no Estádio Olímpico de Porto Alegre, no meio da torcida do Grêmio, gritando o nome "Moreno!" para o goleiro do time adversário. Livrou-se de um processo por racismo graças a uma jovem, alguns degraus à sua frente, que pronunciava ofensas racistas bem mais graves.


Por Carlos Eduardo Esmeraldo 

 NOTA DO AUTOR:  Texto inspirado numa história que me foi contada pelo meu primo e amigo, o jornalista José Esmeraldo Gonçalves, para lembrar aos amigos que muitas vezes eu tenho meus momentos de "Habi Sorto".

Posteriormente a história que me foi narrada oralmente constou do livro: "Aconteceu na Manchete: as histórias que ninguém contou". Organização de Jose Esmeraldo Gonçalves e J. A. Barros, Rio de Janeiro, Desiderata, 2009; página 108. gentilmente cedido pelo autor. 
Abaixo, o texto original de autoria de José Esmeraldo Gonçalves, que se encontra no livro "Aconteceu na Manchete: as histórias que ninguém contou."

Me vê um uísque aí, moreno! -

Flávio Aquino, grande figura e crítico de arte da Manchete, era, diga-se, desligado. E bota desligado nisso. Ele mesmo contava uma historinha deliciosa. O poderoso Roberto Marinho convidou embaixadores e adidos culturais para uma recepção na sua mansão do Cosme Velho. Entre outros intelectuais, estava na lista o nosso Flávio. Ao chegar à mansão, ele logo tratou de pedir um uísque duplo ao primeiro "garçon" que encontrou. "Moreno, me vê uma dose com duas pedras de gelo, faz favor", decretou, dirigindo-se ao sorridente senhor de "summer" impecável e pele queimada do sol. Solicito, o "garçon" se mandou e logo retornou com o pedido prontamente cumprido. Flávio agradeceu e foi circular, de copo na mão, pelos salões da mansão. Papeando com amigos, não pôde deixar de notar que o "garçon" que o atendera era festejadíssimo pelos demais convivas. Embaixadores o abraçavam, jornalistas o paparicavam, enfim, o homem era a "alma" da festa. Antes de pedir mais uma dose de uisque, Flávio olhou melhor para a cara do sujeito e .... caiu-lhe a ficha. O "garçon" de branco e gravatinha borboleta era ninguém menos do que o anfitrião. O próprio Roberto Marinho. Flávio se mandou da festa sem se despedir do "Moreno".

Por José Esmeraldo Gonçalves
      
Nota:  Flávio Aquino era dono de uma vasta cultura. Foi arquiteto, jornalista e crítico de arte. Faleceu aos 67 anos, em 19 de janeiro de 1987.  


sábado, 8 de novembro de 2014

A rigor a palavra representa disposição, ordem, arranjo, um modo de fazer as coisas funcionarem a favor do povo. Tão diferente destes tecnocratas que vivem oferecendo previsibilidade para que os donos do capital aumentem mais a renda advinda do capital e assim aumente mais ainda o capital. A palavra é economia. E o grande sambista Geraldo Pereira, muito mais sábio que os feitores da escravidão moderna já decantava a economia com esta belíssima música chamada Ministério da Economia. Samba gravado em 1951. Em 1955 na porta do Restaurante Capela, na Lapa, Geraldo Pereira brigou com o famoso Madame Satã e teria levado uma facada, morrendo dias depois num hospital no Rio de Janeiro. 


O restaurante onde Geraldo Pereira brigou com Madame Satã, foi transferido para rua Mem de Sá, também na Lapa, agora com o nome de Nova Capela. Nele serve-se um dos melhores cabritos assados da cidade. E assim nos vem à memória esta música Cabritada Mal Sucedida de Geraldo Pereira.


E foi aí que João Bosco e Aldir Blanc fizeram esta belíssima e bem humorada Siri Recheado e o Cacete. Uma espécie de Cabritada Mal Sucedida. Acompanham as soluções de música e letra que é um prazer ouvir. 

DIFICULDADES PREVISÍVEIS - José Nilton Mariano Saraiva

Primeiro, temos que acabar com essa “conversa mole” de que 3.459.963 votos de maioria é pouca coisa ou um número representativo de uma vitória apertada. Afinal (e levando em conta o último senso), trata-se de um contingente equivalente às populações (individuais) dos estados do Rio Grande do Norte (3.419.550) ou Alagoas (3.327.551), ou mesmo à de todo um país, como o vizinho Uruguai (3.286.314 habitantes); ou ainda, levando em conta o nosso terreiro, algo como 28 vezes toda a população do Crato (homens, mulheres, crianças, idosos, jovens e por ai vai, eleitores ou não).

Pois bem, DERROTADO por Dilma Rousseff por tão “expressiva diferença”, o tucano Aécio Neves, ao retomar suas atividades no Senado da República, mostrou ao Brasil que a não materialização do GOLPE ELEITORAL que em última instância visou beneficiá-lo (e que tinha conhecimento), perpetrado contra a democracia pela revista VEJA-ÓIA, TV-GLOBO e os jornalões sudestinos (quando denúncias sem comprovação foram veiculadas às vésperas da eleição, como se fossem verdade), ainda não foi de todo absorvido.

Tanto é que, ao invés de tentar acalmar os ânimos dos correligionários, lembrando-lhes que passamos por um processo democrático onde o vencedor, segundo a Constituição Federal, é aquele que obtém maioria dos votos (nem que seja só “umzinho”), o “playboy do Leblon”, mostrando imaturidade, arrogância e prepotência, e estimulado pelo clamor de babas-ovos e bajuladores de plantão, no seu primeiro pronunciamento plagiou a candidata (duplamente derrotada) Marina Silva e deitou falação sobre uma tal “vitória na derrota” (dele) e que a presidenta reeleita teria tido, ao contrário, uma “derrota na vitória”, devido à suposta pouca margem de vantagem obtida. E assim, estribado em tal premissa, ousou sugerir que a presidenta de todos os brasileiros deverá se submeter à sua agenda, à agenda raivosa dos que se abrigam debaixo do seu furado guarda-chuva.

Chavões e babaquices de lado, a tentativa de tentar “desqualificar” a vitória da oponente é própria daqueles que usam viseira, que não se preocupam com o “macro”, que priorizam interesses comezinhos, que se apegam às questões “micro”, daí a insistência em não admitir a realidade (que perderam, sim, apesar do “golpe” midiático que resultou frustrado).

No mais (e isso era previsível), há que se reconhecer que o segundo mandato da presidenta Dilma Rousseff será extremamente difícil, em razão do momento complicado que as nações de todo o mundo atravessam (e o Brasil não é uma ilha), do ter que conviver com políticos mafiosos que parecem não se preocupar com o país, bem como em razão da reiterada intenção de atrapalhar manifestada por uma oposição partidária do quanto pior melhor e, pelo andar da carruagem, sequiosa por trilhar a rota da ilegalidade.

Agora, aqui pra nós, tudo tem um limite. Até “palhaçadas” tipo sugerir a volta dos militares (que, disciplinados, parecem conscientes do seu papel na manutenção da ordem e da institucionalidade), ou o desfraldar a bandeira do “impeachment”, na tentativa de impedir que a escolha do povo seja estuprada, sem qualquer fundamentação legal sobre (afinal, a presidenta Dilma Rousseff não cansa de repetir que a apuração da questão envolvendo desvios na Petrobrás será levada às últimas conseqüências, doa a quem doer e nem que a vaca tussa).

Definitivamente, são uns babacas. Mas, perigosos e, pois, merecedores de acompanhamento “full time”, já que herdeiros da filosofia de Carlos Lacerda, que, contrário ao candidato Getúlio Vargas, saiu-se com essa hediondez: “o candidato, não deve ser eleito; eleito, não deve tomar posse; empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar”.

Deveriam saber que os tempos são outros e fanfarronices da espécie não mais vingam. Assim, depois de alguns ajustes necessários Dilma Rousseff será empossada, sim, assumirá, sim, e, apesar da torcida contra de uns poucos sectários e intransigentes, repassará o bastão para Lula da Silva, ao final do seu mandato.     



"Nóis mudemo" (por Fidência Bogo)

O ônibus da Transbrasiliana deslizava manso pela Belém-Brasília rumo ao Porto Nacional. Era abril, mês das derradeiras chuvas. No céu, uma luazona enorme pra namorado nenhum botar defeito. Sob o luar generoso, o cerrado verdejante era um presépio, todo poesia e misticismo. As aulas tinham começado numa segunda-feira. Escola de periferia, classes heterogêneas, retardatários. Entre eles, uma criança crescida, quase um rapaz. -Por que você faltou esses dias todos? -É que nóis mudemo onti, fessora. Nóis veio da fazenda. Risadinhas da turma. -Não se diz “nóis mudemo” menino! A gente deve dizer: nós mudamos, tá? -Tá fessora! No recreio as chacotas dos colegas: Oi, nóis mudemo! Até amanhã, nóis mudemo! No dia seguinte, a mesma coisa: risadinhas, cochichos, gozações. -Pai, não vô mais pra escola!- Oxente! Módi quê? Ouvida a história, o pai coçou a cabeça e disse: - Meu fio, num deixa a escola por uma bobagem dessa! Não liga pras gozações da mininada! Logo eles esquece. Não esqueceram. Na quarta-feira, dei pela falta do menino. Ele não apareceu no resto da semana, nem na segunda-feira seguinte. Aí me dei conta de que eu nem sabia o nome dele. Procurei no diário de classe e soube que se chamava Lúcio – Lúcio Rodrigues Barbosa. Achei o endereço. Longe, um dos últimos casebres do bairro. Fui lá, uma tarde. O rapaz tinha partido no dia anterior para casa de um tio, no sul do Pará. -É, professora, meu fio não aguentou as gozações da mininada. Eu tentei fazê ele continuá, mas não teve jeito. Ele tava chateado demais. Bosta de vida! Eu devia di tê ficado na fazenda coa famia. Na cidade nóis não tem veis. Nóis fala tudo errado. Inexperiente, confusa, sem saber o que dizer. Engoli em seco e me despedi. O episódio ocorrera há dezessete anos e tinha caído em total esquecimento, ao menos de minha parte. Uma tarde, um povoado à beira da Belém-Brasília, eu ia pegar o ônibus, quando alguém me chamou. Olhei e vi, acenando para mim, um rapaz pobremente vestido, magro, com aparência doentia. -O que é, moço? -A senhora não se lembra de mim, fessora? Olhei para ele, dei tratos à bola. Reconstitui num momento meus longos anos de sacerdócio, digo de magistério. Tudo escuro. -Não me lembro não, moço. Você me conhece? De onde? Foi meu aluno? Como se chama? Para tantas perguntas, uma resposta lacônica: -Eu sou “Nóis mudemo”, lembra? Comecei a tremer. -Sim, moço. Agora lembro. Como era mesmo o seu nome? -Lúcio –Lúcio Rodrigues Barbosa. -O que aconteceu?
- Ah! fessora! É mais fácil dizê o que não aconteceu. Comi o pão que o diabo amasso. E êta diabo bom de padaria! Fui garimpeiro. Fui boia-fria, um “gato” me arrecadou e levou num caminhão pruma fazenda no meio da mata. Lá trabaiei como escravo, passei fome, fui baleado quando conseguir fugi. Peguei tudo quando é doença. Até na cadeia já fui pará. Nóis ignorante as veis fais coisa sem querê fazê. A escola fais uma farta danada. Eu não devia tê saído daquele jeito, fessora, mais não aguentei as gozação da turma. Eu vi logo que nunca ia consegui falá direito. Ainda hoje não sei. -Meu Deus! Aquela revelação me virou pelo avesso. Foi demais para mim. Descontrolada, comecei a soluçar convulsivamente. Como eu podia ter sido tão burra e má? E abracei o rapaz, o que restava do rapaz que me olhava atarantado. O ônibus buzinou com insistência. O rapaz afastou-me de si suavemente. -Chora não, fessora! A senhora não tem curpa. Como? Eu não tenho culpa? Deus do céu! Entrei no ônibus apinhado. Cem olhos eram cem flechas vingadoras apontadas para mim. O ônibus partiu. Pensei na minha sala de aula. Eu era uma assassina a caminho da guilhotina. Hoje tenho raiva da gramática. Eu mudo, tu mudas, ele muda, nós mudamos... Super usada, mal usada, abusada, ela é uma guilhotina dentro da escola. A gramática faz gato e sapato da língua materna, a língua que a criança aprendeu com seus pais e irmãos e colegas – e se torna o terror dos alunos. Em vez de estimular e fazer crescer, comunicando, ela reprime e oprime, cobrando centenas de regrinhas estúpidas para aquela idade. E os lúcios da vida, os milhares lúcios da periferia e do interior, barrados nas salas de aula: “Não é assim que se diz, menino!” Como se o professor quisesse dizer: “Você está errado! Os seus pais estão errados! Seus irmãos e amigos e vizinhos estão errados! A certa sou eu! Imite-me! Copie-me! Fale como eu! Você não seja você! Renegue suas raízes! Diminua-se ! Desfigure-se! Fique no seu lugar! Seja uma sombra!”. E siga desarmado para o matadouro da vida.

(transcrito do site do Luis Nassif)


Amanhecendo...




INTERLÚDIO -
"As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.
...
Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente - claro muro
sem coisas escritas.
Deixa o presente. Não fales.
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.
Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado
Fico ao teu lado."
(CECÍLIA MEIRELES)
Tem razão Cecília Meireles (que hoje - 07/2014 - completaria 113 anos), tudo está
muito dito. Gasto. Como uma roupa muito usada. Puída. Rasgada.
 
 

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Sitônio da Furquia

J. FLÁVIO VIEIRA


                               Vivendo em áreas inóspitas, onde a sobrevivência parece mais uma dádiva dos céus, a pobreza , nos cafundós-do-judas ,  desenvolve técnicas de guerra contra os rigores da natureza. Sabe que qualquer pequeno detalhe pode ser crucial e muitas vezes o determinante entre a vida e a morte.  Talvez, por isso mesmo, a solidariedade seja um sentimento bem mais presente por ali que nas grandes metrópoles, onde somos todos estrangeiros dentro do mesmo país. Nos grotões, o  sofrimento  e a sequidão ao derredor umedece as almas e as torna mais maleáveis e afáveis. A cacimba e  o paiol  passam, facilmente, a ser bens comunitários. As cercas das senzalas naturalmente se desfazem       , como que dando exemplos pedagógicos aos muros da casa-grande.
                        Em Matozinho, assim, logo que a TV anunciou a Seca no Sudeste do Brasil, a gandaia se agitou. Conhecia  bem aquela paisagem cinza :   leitos dos rios se transformando em estradas, carro pipa sendo disputado a tiro.  Os matozenses , de conversa em conversa, começaram a se preocupar. A notícia, porém, não lhes causou  estranheza, ora o Beato já havia até cantado a pedra: “O Sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão!”. O problema, na visão dos matozenses, é que os sulistas são mofinos danados e não entendem  desse negócio de seca. Faltou chuva um mês por lá, dá desespero, neguinho bota pra chorar e fica esperando o fim do mundo.
                        --- Aqui, nós já somos tudo bargados.Tem peixe em Matozinho com três anos de idade que ainda nem sabe nadar! Tem menino já encabelando que, quando vê chuva caindo, sai correndo doido pensando que o céu tá se rasgando! Essa miuçaia das bandas de lá, tudo engravatado e cheio de carambas e uais  não aguenta o arrocho, não!
                        Foi pensando no aperreio do povo  do Sudeste que Sitônio da Furquia, um marcador de cacimba de Matozinho, resolveu fazer um adjunto para ajudar os irmãos do Sul neste momento tão ressequido e difícil. Sitônio viera dos Inhamuns e se gabava de entender do assunto como ninguém.
                        --- Comi palma frita, mucunã lavada  nove vezes, espremi mandacaru e raiz de imbu pra tirar  a água. Em estiagem sou PhD !
                        Sitônio reuniu alguns amigos mais próximos e criaram um Coletivo que matuto agora, depois de Lula, tá é chique meu filho ! O famoso C.L.P.  – Coletivo Língua de Papagaio. O objetivo principal era desenvolver técnicas  anti-estiagem com o fito de ajudar os irmãos do Sul, nestes novos tempos de choro com lágrima em pó e ranger de dentes sem saliva. E lá se reuniram inúmeros especialistas no assunto: esgotadores de fossas, tiradores de mel-de-abelha, profetas de chuva, caçadores de tatus, curiosos e sobreviventes.  Aos poucos , nas reuniões, o CLP foi catalogando pontos importantes a serem desenvolvidos. Técnicas de marcação e cavamento de cacimbas e poços; plantio de xerófitas aguaceiras como imbu, mandacaru e palma; economia de água catalogada no seguintes pontos:  banho em dedal, banho de cuia, sabugo e caco de telha,  uso de espanador como papel higiênico, tapagem e reparo de vazamento de potes, jarras, cabaças e ancoretas; aproveitamento de fontes alternativas como : barriga d´água, água de joelho. O Coletivo Língua de Papagaio já tinha organizado todo um Dossiê e dirigiu-se ao prefeito Sinderval Bandeira que prometeu levar a questão adiante,  quando , por fim, as eleições terminassem. É que, em período eleitoral, nada sai do lugar, o país todo pára e só se pensa em voto.  Nem mesmo paulista dá por falta da água !
                        Passada a eleição, Sitônio já se preparava para se dirigir à prefeitura com as ideias escritas, num grande calhamaço de papel almaço, pelo escrevinhador geral da CLP: Totonho das Cabaceiras. Pensava em dar continuidade ao projeto , formar a equipe e oferecer os serviços de consultoria  aos sulistas que andam mais perdidos que tucanos em noite estrelada. À noite, no entanto, “Da Furquia” soube da ruma de impropérios que o povo do sul estava jogando em cima dos nordestinos, por conta do resultado da eleição. Chamados de burros, de idiotas e ameaçados de morte até, por terem votado segundo sua própria vontade. Tinha até uns jornalistas inflamados, rogando praga, falando numa tal de  separação:  apartar o Brasil em duas bandas: a sabedoria e progresso na parte de  baixo e a burrice e o atraso na porção de riba. Sitônio, fulo da vida, chamou uma reunião de emergência do CLP. Decidiram, por unanimidade, cancelar a assessoria proposta  ao Sudeste.
                        --- Pois se é assim que vocês querem seus brocóios, que assim seja ! Guerra é guerra ! Cuidado com a lambedeira de doze polegada no vazio, viu ? Se vocês não aguentam o pote, como não vão se meter a pegar na rodilha ! Uma ruma de maricas desses que se caga com medo de seca,  ainda tem a cara de pau de querer desfazer de nordestino ! Querem separar o Brasil? Pois lembrem que aqui em cima vai ficar o cuscuz, a tapioca, a buchada e a galinha de cabidela.  Pois se lasquem na seca que não vamos ajudar ninguém , não ! Querem água,  é ? Pois lá vai : Azeite , senhora vó !
                        No mesmo dia andaram dando uns safanões num pobre mestre de couro de Matozinho. Motivo ? Por azar,  o homem tinha o nome de “Sulino”.
                        Andaram comentando, dias depois, na praça,   que Sitônio tinha botado um nome muito esquisito numa jumenta do seu roçado. Dias depois, alguns membros do CLP passando por ali,  mataram a charada. A jumenta estava sendo coberta, na manga, pelo jumento de lote.  Meio agoniada com a virilidade excessiva e monumental  do companheiro, tentava se safar , em vão, do assédio sexual, subindo uma ribanceira.  Nisso, ouviu-se quando Sitônio gritou, revelando, por fim, o apelido estrambótico que colocara na biroba:
                        ---  Aguente o ferro !  Num rifugue não ,  viu,    seu  Diogo Mainardi !


Crato, 06/11/14

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

"Vocês ouvirão agora uma ópera. Porque ela foi elaborada de modo tão pomposo como só um mendigo poderia sonhar, e porque ela deveria ser tão barata, que até os mendigos possam pagar, ela se chama "A Ópera dos Três Vinténs".  

Mack the Knife - música do personagem deste nome que é o mais notório criminoso de Londres.
Aqui com Louis Armstrong. Um belíssimo vídeo sobre a ópera acima referida de Kurt Weil e Bertold Brecht.


Chico Buarque fez uma versão da ópera dos três vinténs que redundou num filme com Hugo Carvana e num musical que está em cartaz aqui no Rio: Ópera do Malandro.

E lá pelas tantas Chico entrou com a mesma música com outra letra, agora cantada por João Nogueira.


IDEIAS TÓXICAS, DISCURSOS BÁRBAROS - José do Vale Pinheiro Feitosa

Gente meritocrata é assim. Até os jundiás do rio Batateira sabem. Preconceito e indigestão conceitual é comum diante da erudição a que certas pessoas se obrigam conhecer em cursos de graduação e pós, mesmo que no exterior. É que o conhecimento acadêmico é uma farsa se não considera a realidade que envolve as pessoas.

E essa farsa é o conteúdo principal da meritocracia. É que, nem mesmo os concursos seletivos, conseguem extrair o proveito prático da exposição aos livros, seminários, provas e testes. Não mesmo. É que as provas não questionam o sujeito frente aos outros e como o conhecimento o liberta de si mesmo ao invés de aprofundar ainda mais erros inatos de sua formação social, ética, moral e política.

E numa sociedade restritiva, onde um grupo temeroso e apegado aos próprios méritos olha para a imensa população excluída com aversão e medo, nem o pós-doutorado resolve questões éticas e nem mesmo vícios científicos e filosóficos graves. Sobre este último aspecto temos exaustão deste tipo escrevendo na grande mídia: Olavo de Carvalho, Condé, Villa e por aí vai. Grande paredão de estupidez e arrogância que reflui a ciência aos estágios da idade média.

Mas políticas públicas inclusivas, que abrem portas antes fechadas, que iluminam cantos antes escuros, que levantam tapetes e revela aqui que acontecia por baixo dos panos sempre expõe certa virulência residual. O maior exemplo disso é o das corporações médicas ao enfrentar a questão do programa de governo Mais Médico. É o mesmo de setores da universidade ao avaliar a entrada de cotistas sociais e raciais.

Até que o processo seja absorvido eles sabotam, exacerbam a ignorância humanitária (humanita traduz-se por conhecimento), expõem todo o anacronismo das posições sociais dos seus pais e avós e, pior de tudo, dizem tantas barbaridades que negam todo o ritual universitário que deveria existir em seus pilares: ensino, pesquisa e extensão.  Olhem o exemplo abaixo dito pelo professor Manoel Luiz Malagutti, de Santa Catarina, professor de economia da Ufes, com doutorado na França. Ele assim se expressou numa discussão sobre cotas nas universidades:

“(...) eu coloquei que se eu tivesse que escolher entre dois médicos, um branco e um negro, com o mesmo currículo, eu escolheria o branco. Por que eu escolheria o branco? Os negros, em média, vêm de sociedades, de comunidades menos privilegiadas, para a gente não usar um termo mais forte, e nesse sentido eles não têm uma socialização primária na família que os tornem receptivos aos trâmites da universidade, à forma de atuação da universidade, aos objetivos da universidade. Eles têm muito mais dificuldades de acompanhar determinadas exposições. Eu não acho que é uma visão preconceituosa, acho que é bastante realista.”

Como o professor já tem mais de dez anos de ensino, tem doutorado feito em outra língua, estamos falando de alguém que evidentemente já pode ter uma boa capacidade crítica de sua própria experiência. E a conclusão que se chega diante de sua fala é que ele estava falando diante de um espelho. Criticava à própria imagem.


A tendência é que se prefiram conselhos sobre economia de um outro professor que não ele.   

Eita Nordeste da Peste! - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Longe de mim atiçar o separatismo latente que tem surgido ultimamente nos estados mais ricos do Brasil, entre os quais São Paulo se destaca como líder. Que esses nossos irmãos do sul-sudeste me perdoem. Mas o Brasil nasceu aqui! Nesse Nordeste sofrido, de muito sol, muito calor humano, suor e trabalho. Sem racismo, sem preconceitos, mazelas importadas por imigrantes estrangeiros que trouxeram tais sentimentos impregnados no sangue, como herança genética de seus antepassados, que aqui chegaram das mais diferentes nacionalidades, muitos dos quais provavelmente expulsos de suas pátrias. Aqui, diferente do outro Brasil que o Nordeste viu nascer, vive um povo cheio de brasilidade, irmanados por um imenso sentimento de solidariedade e muito amor à pátria. Sem divisionismo, desde quando foi consolidada a independência do Brasil. O nordestino é antes de tudo um povo rico em cultura e arte popular.

Não é exagero afirmar que o berço da cultura brasileira está aqui no Nordeste! Na literatura temos uma inesgotável relação de escritores que se destacaram no cenário nacional: José de Alencar, Graciliano Ramos, Raimundo Magalhães Jr., Rachel de Queiroz, Humberto de Campos, José Lins do Rego, José Américo de Almeida, Ariano Suassuna, Jorge Amado, Adonias Filho, Aluísio Azevedo, Gilberto Freyre, Josué de Castro, João Ubaldo Ribeiro, Gustavo Barroso, Domingos Olímpio, Jader de Carvalho, Raimundo Girão, Tomé Cabral e muito mais, sem deixar de acrescentar novos escritores cearenses que surgem a cada instante, como os médicos cratenses José Flavio Vieira e José do Vale Pinheiro Feitosa, Everardo Norões, e o já consagrado saboeirense Ronaldo Correia de Brito, além de tantos outros.

Na poesia temos Manoel Bandeira, Castro Alves, Ferreira Gullart, Gonçalves Dias, João Cabral de Melo Neto, o cratense Wellington Alves e o nosso genial Patativa do Assaré.

Na música popular, as mais belas canções do cancioneiro brasileiro com uma rica variedade de ritmos musicais, nos quais se destacam nacionalmente os cantores e compositores: Luis Gonzaga, Dominguinhos, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Dorival Caymi, Morais Moreira, Pepeu Gomes, Fagner, Belchior, Ednardo, Zé Ramalho, Alceu Valença, Elba Ramalho, Chico Serra, Zeca Baleiro, Lenine, Geraldo Azevedo, Gal Costa, Maria Bethânia, Ivete Sangalo, Cláudia Leite.

Apenas uma breve amostra da riqueza cultural imensurável de que o nordeste é possuidor. Para o pessoal do outro Brasil conhecer, tem que pisar o solo nordestino, conhecer nosso sertão, conviver com a poesia que brota do nosso viver, dentro da nossa caatinga, com plantas que são somente nossas e muita sabedoria popular do nosso povo. 

Por Carlos Eduardo Esmeraldo 
    

Sidney Muller , sempre bem lembrado!



Uma notícia relevante!


Everardo Norões entre os finalistas do Jabuti e do Portugal Telecom

    Em uma mesma semana, Everardo Norões foi anunciado como finalista dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom com o livro "Entre moscas".
    Leia a notícia da indicação para o Jabuti aqui.
    Leia a notícia da indicação para o Portugal Telecom aqui.
     

    quarta-feira, 5 de novembro de 2014

    POIS É , PRA QUÊ? - José do Vale Pinheiro Feitosa

    Pois é, pra quê? Sidney Muller

    Ação. Luzes. Ação.

    A embriaguez da ação. Mesmo sem saber a causa, o propósito, o resultado. Ação. Sem ela um tédio mortal. A grande e irremovível depressão.

    A necessidade da ação como um adware, spyware, sempre tentando abrir uma nova guia no navegador. E para que a mente, a memória e o corpo abram a ação busca-se o combustível.

    Aquele que estabeleceu outra mente. A mente tangível. Como a contundência de comprimidos de êxtases, o hálito azedo de café, goles de álcool, encher de fumaça os alvéolos, cafungadas de romper as cartilagens nasais. A mente alterada, motora da ação.   

    O mérito da ação. O sucesso, conquista, empreendedorismo, o orgulho de si mesmo pelo qual mereça reconhecimento. Que necessita do “marketing”, que depende de intermediários, que tilinta a sonância de moedas passando de mãos.

    E tome ação. Até mesmo a contemplação, a meditação, a oração, são territórios da ação. Não se constituem em mais nada do que propriedade de valor nas transações monetárias lastreadas no lucro e no plano de negócio.

    Quem há de contar estrelas mesmo sob ameaça de verrugas nascerem em sua pele? Quem há de expirar e inspirar os segundos como um curso quase inativo do acontecer? Quem há de extrair conteúdo em horas vazias de débitos e créditos?

    Espiga a espiga no milharal. Palha a palha na espiga. Milho a milho debulhado. Esta fábula agrícola que ainda se escoa lentamente no modo de estar no mundo.

    Um continuo viver.

    Uma mandala do desfecho.

    Esta enfiada de contas para qual não traduz valor.


    Tudo ação pouco acelerada onde se tem oportunidade de prestar atenção para além das margens deste acontecer.