por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



segunda-feira, 29 de outubro de 2012


Nora Ney foi a primeira brasileira a gravar uma música de Rock. Chamava-se Rock Around de Clock lançado por Billy Halley Comets e fez grande sucesso nos EUA. Nora Ney cantava samba e sambas canções e pertencia à era de ouro do rádio, especialmente no Rio de Janeiro e São Paulo, com a revista do Rádio e com os grandes ídolos do rádio sendo recebidos pelo Presidente Juscelino Kubitschek.

O pós-guerra, anos 40 em diante foi a vez da avalanche fonográfica e cinematográfica a inundar a cultura latino americana. Foi nesse embalo que a balança cultural com uma forte raiz nacional, o Tango na Argentina, a diversidade brasileira, inclusive o Samba e Bossas Nova, os ritmos caribenhos e mexicano sofriam o peso do jazz e do rock americano.

Foi aí que surgiu o fenômeno da versão e o Brasil criou “especialistas” nelas. Fora os jovens paulistas do anos 50, como Cely e Tony Campelo, naquele período eram pessoas de meia idade, como foi Nora Ney a entrar no filão. Foi aí, que um cantor de voz empostada, melodiosa e erres bem pronunciados entrou na onda. Carlos Gonzaga que estourou com estes dois sucesso abaixo de Paul Anka e Neil Sedaka

Oh Carol  - Carlos Gonzaga. Sucesso de Neil Sedaka de 1958 escrita em conjunto com Howard Greenfield e feito por Neil para sua namorada na época Carole Klein depois que ela se tornou Carole King. Carole King é  uma grande intérprete  e compositora americana tendo sucessos como It´s too late.


Diana - Carlos Gonzaga. Música de Paul Anka foi o maior sucesso do compositor e foi lançada em 1957. Paul nascido no Canadá era de origem Síria e fez a música Diana para a babá chamada Diana Ayoub. Paul era de fato um grande músico, além de ter promovido um dos maiores sucessos de venda de disco dos EUA, ele é o compositor da famosa My Way cantada por Sinatra e Elvis além da canção She´s A Lady gravada por Tom Jones. 

Lembro que a seca roía até os ossos dos nossos sertanejos e as rádios ecoavam o sucesso impressionante de Diana. Aliás, na contrabalança João do Vale emplacava com Canto da Ema.

Cada compacto ou LP do Carlos Gonzaga era uma festa de sucessos. As rádios tocavam quase todas as faixas: Foi o teu beijo, Bat Masterson, O Diário, Cavaleiros do Céu, Juramento de Play Boy, Meu Ciúme, Nunca aos Domingos, São Francisco, Rapaz Solitário e muito mais que a lista é grande. Sem contar de que no embalo ele se aventurou em algumas canções populares um tanto quanto puxada ao sertanejo como Anahi, Poeira, Sereno e por aí foi. 

Mas guardei esta por uma memória específica. Carlos Gonzaga veio ao Crato. Um show no Cine Educadora. Salão cheio e a elite cratense. Naquela altura era um evento para sempre na memória da cidade. As melhores roupas, penteados de salão, muita rinçagem nas cabeleireiras, perfumes e jóias.

Carlos Gonzaga era brilhante na voz, mas um mulato de meia idade, muito bem cuidado e de cabelos esticados e "brilhantinados". Então quando ele resolveu cantar Uma Escada para o Céu, chamou uma das moças casadoiras e virgens das primeiras filas e solou a canção pegando na mão dela. Encabulada dos olhares feitos holofotes, mas encantada pela melodia cantada tão próxima ao seu coração.

Ao final Carlos Gonzaga deu-lhe um beijo sobre o dorso da mão. Um famoso beija mão elegante do tempo das rainhas e ainda remanescentes em algumas autoridades eclesiásticas do catolicismo. A moça saiu dali quase correndo, o rosto incendiado de vergonha, parecia que um desvirginamento ocorrera aos olhares de todos. E simbolicamente fora um momento épico para o conservadorismo com preconceito de raça e classe.

E com vocês:

Uma escada para o céu - Carlos Gonzaga. 
     


"Moroni" e "Heitor" - José Nilton Mariano Saraiva




(Em aditamento à postagem do Zé do Vale sobre as eleições de Fortaleza).

Meses atrás, antes das convenções partidárias que homologariam os candidatos à prefeitura de Fortaleza, o Governador do Estado Cid Gomes viajou pra Portugal, onde teria tido uma conversa particular com o cidadão Moroni Bing Torgan (candidato derrotado em mais de uma tentativa para o cargo) e que houvera sido mandado pela Igreja à qual pertence para uma “missão religiosa” em terras lusitanas. Comentou-se, na oportunidade, que o objetivo do Governador seria “convidar” o referido senhor a voltar de imediato a Fortaleza e concorrer à Prefeitura mais uma vez, só que por um partido que não o oficial, o do Governador. No fundo e mais que evidente, a estratégica “jogada” embutia o aproveitar-se da popularidade do Moroni na periferia da cidade a fim de “rachar” ao meio o eleitorado naquelas comunidades, impedindo que o candidato da Prefeita de Fortaleza “dominasse o pedaço”, partindo com vantagem sobre o candidato oficial.
A despeito de tal versão nunca ter sido confirmada (embora o Governador tenha viajado a Portugal, sim), não mais que de repente Moroni mandou para o espaço a tal “missão religiosa”, abdicou de continuar pregando em nome de Deus, largou tudo de uma hora pra outra e desembarcou extenuado em Fortaleza no final do dia da convenção dos Democratas (já ao apagar das luzes), onde foi recebido apoteoticamente no aeroporto, de onde se dirigiu para o ginásio onde se realizava o evento, sendo cristalizado pelo partido como o candidato a prefeito (tudo isso, acreditem, “por amor a Fortaleza”, como disse na oportunidade).
Se foi “doutrinado” ou não pelo Governador, a verdade é que o Moroni que voltou nem de longe lembrava o Moroni que houvera partido: repaginado, seletivo, esqueceu o discurso agressivo, a postura desafiadora e se nos apresentou na pele de um caridoso pastor, fala mansa, a pregar a paciência e o perdão, evitando critica mais pesada aos concorrentes políticos, especialmente ao candidato oficial. O seu negócio agora era suplicar, pelo amor de Deus e de todos os Santos, que lhe dessem uma “caneta”, que com ela resolveria todos os males de Fortaleza. Ainda assim, cumpriu a “missão” para a qual houvera sido escalado pelo Governador, recebendo expressiva votação no primeiro turno (claro que em troca de alguma coisa).
E aí entra em cena o candidato Heitor Ferrer, Deputado Estadual do PDT, que se tornou conhecido e respeitado pela atuação firme, valente e corajosa no plenário da Assembléia. Voz solitária a denunciar com consistência os abusos perpetrados pelo Governador do Estado surpreendeu ao receber um “transatlântico” de votos quando as urnas foram abertas, passando Moroni pra trás e quase tomando o lugar do candidato oficial (houve, inclusive, a suspeita de que a manipulação das pesquisas às vésperas do primeiro turno o tenham prejudicado, impedindo sua ida para o segundo turno; tanto que há, sim, um despacho (não cumprido e, portanto, desmoralizado), de uma juíza de Fortaleza, “desautorizando” a realização do segundo turno (antes que o caso fosse esclarecido). A mídia, incompreensivelmente, não divulgou (por qual razão ???) e poderá haver contestação mais adiante (embora não vá dá em nada).
Pois bem, no segundo turno, Moroni, como esperado, apoiou de pronto (e recomendou) ao seu eleitorado a candidatura oficial, carreando uma boa quantidade dos votos dos seguidores, que ajudou em muito a eleição do novo prefeito (claro que será aquinhoado com algum “mimo”, possivelmente a secretaria de segurança do Estado). Aguardemos.
Já Heitor Ferrer, que passou toda a vida parlamentar batendo forte e com consistência no Governador do Estado, decepcionou as quase trezentas mil pessoas que o sufragaram, ao optar por uma posição neutra (e de certa forma covarde), sob a alegativa de que ao partido cabia decidir a questão. Dúvidas inexistem de que o seu apoio individual (ou recomendação do “político” aos seguidores) ao candidato contrário ao oficial (já que cáustico crítico do Governador) certamente teria mudado o rumo das eleições de Fortaleza. No entanto, aos 48 minutos do segundo tempo, Heitor Ferrer roeu a corda, manchou a sua biografia e perdeu o gol mais feito que se tem notícia.
Moroni e Heitor tiveram, pois, de maneiras distintas, papel decisivo no resultado final das eleições de Fortaleza. Alguém tem dúvida ???     
  

domingo, 28 de outubro de 2012

Uma sessão para baixar os "bons tempo". - José do Vale Pinheiro Feitosa


Cem anos após José de Alencar escrever seus romances com o espirito do Império de Dom Pedro II, as fazendas, as ruas, bailes e modas da corte, o leitor efetivamente pensava noutra era. O cinema transformara o tempo e o espaço, o rádio dera instantaneidade aos eventos humanos e nas ruas é o que se via: automóveis, iluminação elétrica, mercadorias vindas de enormes distâncias além da moda de natureza quase mundial.

Acontece que o senso de que ontem já é muito diferente de hoje veio se acentuando ao longo dos anos. Ou melhor: ao longo do século XX e início deste, uma década logo se perde tão logo alguém pensa em contatar algum símbolo de então. Uma das explicações deve ser a enorme massa de informações e estímulos culturais e de consumo que se desfrutam diariamente.

Há um soterramento da memória de modo que tudo envelhece numa rapidez que torna a longevidade conquistada na esperança de vida ao nascer, numa espécie de reencarnação contínua do mesmo personagem a vestir roupagens históricas distintas. Talvez esteja aí certo prazer em brincar de encontrar o que se foi em vidas passadas. Afinal se morre tantas vezes em vida.

Um exemplo? Aqui no Rio na rádio Globo, ali por volta do final dos anos 80 e início dos 90 havia um programa chamado Good Times, o passado de volta. E a grade de programação era toda com músicas que foram sucesso há até mesmo há menos de uma década. Menos de uma década e já pertenciam ao repertório do Good Times.

Em cada nota de música um pedacinho de recordação: Good Times Globo FM. Good Times, Globo FM, o seu jeito de amar....    

If - da banda Bread, formada por David Gates e Jimmy Griffin é um clássico Good Times

The Closer I Get to You - Roberta Flack e Donny Hathaway -  - essa foi clássica e o minutos de uma era ainda vigoravam e já eram Good Times.
Vincent - Don McClean - um Good Times até além da linha romântica, trazendo uma densa mensagem sobre o pinto holandês Vincent Van Gogh

Legata a un granello de sabbia - Nico Fidenco -  Não é bem do estilo do programa, que era centrado na música americana, mas caberia num estilo romântico dos anos 70 e a voz de Nico Fidenco foi muito bem cultivada pelos brasileiros e de fato é muito agradável. 



A vitória do Cid Gomes em Fortaleza é um agudo indicador para a próxima eleição de Governador - José do Vale Pinheiro Feitosa


Com uma diferença de 74.172 votos o candidato Roberto Claudio do Governador Cid Gomes ganhou a eleição para a prefeitura de Fortaleza, batendo o “poste” Elmano da atual prefeita. A vitória de Roberto Claudio aconteceu em 7 das 13 zonas eleitorais da capital onde ele ganhou com mais de 85 mil votos.  As vitórias mais expressivas aconteceram na Zona 1 e Zona 3 onde Roberto Claudio praticamente decidiu sua eleição com uma vantagem de 38.688 votos. Estas são as zonas das classes mais abastadas da cidade: Aldeota, Meirelles, Papicu, Varjota e mais o Centro e alguns bairros que já foram da elite há muitos anos como Jacareacanga, Joaquim Távora e Praia de Iracema. No entanto o candidato também ganhou com boa margem de votos em zonas de voto popular como a 112, 116 e 117.

O candidato Elmano teve vitória mais expressivas em 2 zonas, nas 114 e 82 que pegam a zona oeste da cidade, até a Barra do Ceará. A disputa foi equilibrada, com menos de 3% de diferença em quatro zonas 118, 94, 115 e 83. A rigor o resultado não foge muito do empate técnico encontrado nas pesquisas feitas próximas ao pleito. Com uma margem de erro de 3% a diferença no resultado final foi de 6%.

Algumas constatações das eleições cearenses. A “neutralidade” de Heitor Férrer ajudou ao candidato do Governador, uma vez que o peso de Heitor foi marcante no primeiro turno. A prefeita Luiziane jogou, como se diz no futebol, de salto alto. A história do “poste” que Lula soube explorar tão bem na eleição de São Paulo e em resposta à mídia conservadora do sudeste, parece não ter sido muito bem incorporada pelos cearenses, especialmente a classe média. Sem contar aquele papo do Elmano do voto popular contra o voto de rico: quando o Lula juntou os dois ele venceu, ao contrário sempre perdeu.

Os Gomes apontam uma sobrevivência política além do “migrante” Tasso Jereissati. Mesmo que o velho Senador Jereissati explique um pouco o Tasso, não foi por ele que o filho foi o que foi na política cearense, o momento histórico era outro. Já os Gomes têm o pulso da velha oligarquia cearense: sabem dominar os sertões e de vez em quando acertam na capital. A capital cearense continua rebelde, mas é preciso saber somar a rebeldia e com o estilo “gostosona” o foco se desviou. Nem sempre boas obras são suficientes para vencer eleições. Podem ser boas para certas áreas de cidade, mas não serem para o conjunto.

O futuro da família Gomes no Estado é promissor. Especialmente em razão que nenhuma força política nova se inventa no estado. Nenhuma região tem peso político para modificar nada, nem mesmo alguns municípios da região metropolitana. É muito provável que a próxima eleição de Governador se tenha um “poste” dos Gomes, maquiado como um bom gestor, para garantir o poder da família.

Onde surgir uma força nova? Leva algum tempo, até os Gomes ao vencerem várias prefeituras pelo interior representaram o novo. Uma indicação: o velho PMDB cearense, incluindo Eunício Oliveira é o velho a ser superado e não consegue ser uma alternativa a rigor.

sábado, 27 de outubro de 2012

Sentados em um banco da Orla Bardot - José do Vale Pinheiro Feitosa


Sentados em um banco da Orla Bardot. Uma brisa para os nossos padrões de litoral cearense quase gelada. Apesar do adiantado do mês de outubro, de dias de sol e a temperatura tropical, mas a brisa do Mar da Armação de Búzios tem alguma memória dos pinguins que descem por estas correntes enlouquecidas do Atlântico Sul.

À nossa frente uma passarela estreita da Globalização da cultura. Enquanto as luzes do brutal crescimento de Búzios dobram vinte vezes ao longo das largas enseadas que afinam para formar aquela flor sextavada do seu litoral. O cume daquele desvelo demográfico é aquele rosário imenso, de pequeníssimas pérolas iluminadas ao longo do que ante fora um segmento deste quase infinito que é hoje Barra de São João e depois Rio das Ostras.

Vozes argentinas, um castelhano com ritmo de tango. Italianos exuberantes com suas ragazza como saltando de uma canção de San Remo. Vozes em Francês. O Inglês por certo. Alemão. E que mais vozes que de estranhas línguas parecem nórdicas e outras que nem memória existe para encontrar sequer um norte geográfico para elas.

As ruas de Búzios são como alamedas de um Shopping Center. Mais de onze horas todas as lojas estão aberta e o footing nas artérias do centro parece assim como o sol da meia noite que nunca se esconde. Foi na Manoel de Farias, outra alameda de shopping paralela à Rua das Pedras que alguém nos ofereceu Arepa. Uma comida tipicamente colombiana: uma tortilha de milho seco, não frita, assada como pizza e com recheio. Era uma comida agradável, mas não é dela que vem a nota.

A mulher que fez a propaganda e nos atraiu ao restaurante, é mineira, casada com um colombiano ambos vindos dos EUA onde moraram 15 anos. Ela tem um sotaque não tão intenso, mas o suficiente para se perceber, de sua longa estadia americana. Veio para Búzios com o marido colombiano, ambos latinos na marcha globalizada, como os EUA não dão mais, por aqui estão.

Mas retornando à Orla Bardot onde nos encontramos. Estamos rigorosamente calçada da Praia do Canto, em frente à Ilha Caboclo e próximo da Praia da Armação. E chama-se por que Brigite Bardot, símbolo sexual francês dos anos 50 e 60 passou uns quinze dias naquilo que era uma vila de pescadores, hospedando-se numa casa de pescador, mas ficou desapercebida da população local.

Acontece que os grandes jornais, revistas e a televisão nascente na época transformaram aquele evento fortuito numa propaganda de “jet set international” e assim a neoplasia globalizada se espalhou. Foram tantas metástase naquele mundo que vi ainda quase primitiva nos anos 70 que hoje é orla Bardot. O quê isso significa? Nada! As pessoas tiram fotos numa estátua de bronze que seria a Brigite, mas poderia ser uma jovem qualquer do mesmo modo que abraçam a estátua de Juscelino Kubitschek mais adiante e nem sabem de quem se trata.

E foi aí que me lembrei das nossas linguagens: andar de pés, andar de cavalo. Esse montar de banda as nossas preposições. Mas afinal quem mandou desde então decorar e apenas decorar as palavras quando o segredo se encontrava no conceito.

Enquanto os passos alegres do mundo globalizado passam na minha mente se locomoviam: par, per, perante, por....E Tereza tem mais: a, ante, até, após....A este decoreba das preposições.    
     

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

E AGORA, JOSÉ ???
PINGOS DE AMOR


Um dia de setembro- socorro moreira


Manhã nublada. Terra seca. Árvores desfolhadas. Aquele pé de laranja da terra?Agora é pitombeira!
Vento quente. É domingo no parque solitário.
Procuro os eucaliptos. Aspiro memória. Paisagem antiga é foto.
Porco espinho, macaco, arara, jacaré, onça...?
Algazarra infantil, aplausos, vaias,assobios!
“Chuva traz o meu benzinho...”
Chuva que se esqueceu de pingar nesta manhã, dia último do mês de setembro.
È primavera!
As rosas não dizem.
Ando pelas rampas do S.Francisco, hoje metálicas, marmorizadas, frias... Desde pequena percorro estes labirintos com sentimentos e passos diferentes.
Curetagens, partos, aneurismas, apendicite, vesícula... Deus abençoe quem vive por lá, no dia a dia!
Lembro o teto, o frio, o verde das batas, o rosto de Doutor Eldon, Egberto, o suco de uva com biscoito de maisena. O caminhar da saída... Aleijadinha!
Agora o anjo tem barba e se chama Zé Flávio!
Lá fora ainda existem propostas de vida, disputas políticas, o conforto de ficar em casa... O tédio do lar!
Quero muito este silêncio impositivo. A fala é o último sentido que para? Ou o único telepático?
Quero ainda fazer muitas pontas de lápis, bolinhas de papel incontáveis...
Hoje é domingo. Meu sorriso está encantado. Estou em contato com a dor humana. Aprendo o que não sei: cuidar!
Concentro-me. Conselho do Emersom...
-Eis o caminho da paz!
Novos dias virão. De qualquer jeito precisamos passar batom para esperá-los!

Estraguei a horta?- por socorro moreira


Acompanho dia e noite os processos do mensalão. Fim da impunidade?
A terminologia jurídica nem sempre é convincente. Ausenta-me da poesia.
A música quase pertence a um paraíso perdido.
O escritor Zé do Vale me faz  cantarolar, vez em quando...
Cinema, novela, gastronomia, resgate de alegrias, parecem entorpecidas por um analgésico mortífero.
Vale um valium?
Não sinto dores. Nem sei se é melhor viver ou dormir. Mas, vai passar... O coração ainda sabe  amar.Ele é perfeito, na linguagem telepática.


A Faca e a Bainha



O Coronel Sinfrônio Arnaud era sério que só um touro mijando. Homem de uma só palavra, volta-seca e positivo como um pólo de bateria, sempre foi respeitadíssimo em Matozinho. Trazia aquela sistemática do berço. Ainda menino, entrou na cozinha de casa e, desavisadamente, encostou o cotovelo numa caçarola quente, queimando-o.  A mãe saltou de lá com um “bem-feito ! Naõ sei o que é que quer menino em cozinha!” . O menino Arnaud , ainda com rosto de sofrimento, rebateu : “Nem eu !” Já beirava os oitenta e, desde aquele dia, nunca mais na vida entrou numa cozinha. Fazia muitas vezes os percursos mais oblíquos, mas mantinha a decisão tomada na infância. Quando perguntavam a razão de aquela opinião perdurar por tantos anos, dizia :
                                               --- Não é nada,  não! Me dá sobrosso !
                                               Arnaud pôs no mundo uma récua de treze filhos e, como sempre acontece, alguns terminaram lhe trazendo dor de cabeça. Viviam em tempos menos rígidos, onde as amarras da moralidade já tinham se esfacelado e terminaram por colidir com as leis inflexíveis do pai. Sinfrônio fechou-se como pequi verde , ignorou-os  e, pior,  fingiu que não existiam. Não mais quis saber deles, sequer mencionava seus nomes em conversas informais e quando alguém os citava , perguntava :
                                               --- Quem ? Afrodízio ? Isabel?  Conheço , não senhor ! É daqui de Matozinho ?
                                               Um compadre seu, preocupou-se. Arnaud , por último, já negava a existência de cinco filhos. Dizia, sempre: “Cortei um dedo ! Não quero mais saber!” O compadre procurou o amigo e, usando da amizade que os unia há tantos anos, pediu a Sinfrônio que abrandasse o coração, reconsiderasse, não havia condições de afastar-se de tantos rebentos como ele vinha fazendo,  Cinco dedos cortados ! Pediu para servir de intermediário na reaproximação, os tempos eram outros e filho é assim mesmo , um criatório difícil e sem futuro. O Coronel, no entanto, deu o maior pulo:
                                               --- Não sei que loucura é essa que você tá falando, compadre. Eu só tenho oito filhos, não sei quem são esses outros aí,  não ! Eu já tô conformado mesmo, de tanto arrancar dedo, vou terminar cotó !
                                               Homem vivido, com um Código de Ética tão rígido, Sinfrônio terminou por se tornar uma espécie de conselheiro das novas gerações. Qualquer emboança em Matozinho e cercanias,  terminavam batendo à porta do Coronel para pedir sua abalizada opinião. Os interessados geralmente faziam um minucioso relato da sinuca de bico por que estavam passando e , logo depois, vinham as questões inevitáveis : Mato ou não mato ? Caso ou não caso ? Capo ou não capo ? 
                                               Pois bem, naquele dia, ainda cedinho, bateu à porta de Sinfrônio, um tal de Bartolomeu Calangro, vindo de Bertioga. Apeou-se, gritou um “ô de casa” característico e aguardou  a vinda da velha empregada da casa. Solicitada a audiência, foi endereçado aos fundos  , onde  encontrou o Coronel sentado, fazendo palitos de marmeleiro. Identificou-se e, então, desfiou seu problema :
                                               --- Coronel, vim aqui pedir sua opinião num caso chato que me aconteceu. Tenho uma filha chamada Filismina , tá com uns vinte anos, naquela idade agoniada que fica parecendo rolinha em galho de jurema, saltando de um lado pro outro com medo de tiro de espingarda.  Pois bem , caiu de namoro com um cabra sem futuro lá de Bertioga, desses que vivem com um violão embaixo do braço e um disco de Roberto Carlos debaixo do outro, prá cima e prá baixo. Pressionei de um lado, a mãe arrochou do outro, mas de nada adiantou: aí é que o namoro pegou fogo. Ontem vieram me contar que o safado ofendeu ela. Ela cresceu os peitos, anda vomitando pelos cantos, acho que tá buchuda. Ele diz que quer casar. Resolvi matar o sem-vergonha e lavar a honra da casa. Mas antes, resolvi vir falar com o senhor ! Me diga aí, eu num tô certo ?
                                               Sinfrônio ouviu com atenção de psicanalista o relato de Bartolomeu. Com tanto desmantelo mundo afora, vinha ficando especialista, nos últimos anos, na especialidade de descabaçamento de donzela. Ao invés de emitir a opinião abalizada, estranhamente, o Coronel voltou-se para o cliente e perguntou:
                                               --- Bartolomeu, você tem uma faca aí ?
                                               Calangro estranhou, mas , que jeito ?  Arrastou do vazio uma lambedeira de doze polegadas e estirou na direção de Arnaud:
                                               --- Tenho, sim ! Taqui, coronel !
                                               Sinfrônio desembainhou a jardineira , tomou a bainha nas mãos e devolveu a facona a Bartolomeu.
                                               --- Agora, Bartolomeu, eu quero que você embainhe essa faca aí nessa bainha que está aqui na minha mão.
                                               Calangro não entendeu nada. Imaginou que o coronel estava tresvariando. Mesmo assim seguiu sua ordem. Levou a faca até  a bainha que estava na mão do coronel, só que à medida que aproximava a lâmina, Sinfrônio mudava subitamente a posição da bainha, ora pra baixo, ora pra cima, ora de lado. Ficaram nessa luta por uns cinco minutos, até que Bartolomeu desistiu:
                                               --- Não Coronel, desse jeito não tem que embainhe faca não, o senhor num para num canto, é só mexendo a bainha pra lá e pra cá...
                                               Sinfrônio, então, matou uma charada , até então insolúvel :
                                               --- Tá vendo , Bartolomeu ? Se a bainha não quiser,  a faca não entra! Filismina gostou do movimento, ficou paradinha danada !  E você quer fazer uma besteira dessas  ? Mata o pai do seu neto, vai preso, a família vai ficar desamparada e o pior de tudo, agora que a bainha de Filismina tá acostumadinha, num pode viver sem a faca , não, homem de Deus ! Sem o  noivo não vão faltar outras facas, facões, canivetes e quicés...


J. Flávio Vieira