por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sábado, 5 de setembro de 2020

ACIDENTES DOMÉSTICOS - José Nilton Mariano Saraiva

Anos atrás, quando no exercício do mandato de Deputado Federal, em Brasília, Roberto Jefferson, ao depor numa certa CPI, desafiou o então todo poderoso Ministro Chefe da Casa Civil, José Dirceu, ao afirmar que este lhe despertava “os instintos mais primitivos”.

Semana depois, Roberto Jefferson apareceu em horário nobre, nos principais jornais televisivos, com um dos olhos arroxeado e bastante inchado e, instado a revelar a causa, afirmou candidamente que batera com a cabeça em um móvel doméstico, daí a grave contusão.

Embora todo mundo imaginasse, até com certa razão, que tal história não tinha nenhum fundamento, a mídia tupiniquim, corrupta, covarde e safada, simplesmente não procurou se inteirar da questão (e ficou valendo a versão do “desonesto” e mentiroso Deputado, de que sofrera um acidente doméstico).

A reflexão é só pra lembrar que, dias atrás, foi noticiado pela mesma mídia corrupta, covarde e safada, que o atual Presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, houvera sofrido um vulgar acidente no recinto do lar.

Só que, dia seguinte, a ilustre personalidade foi transferida às pressas para um daqueles caros e luxuosos hospitais de São Paulo, a fim de tratar da contusão sofrida (dentro de casa, lembrem-se).

Passados alguns dias de internamento (quem pagou a conta ???), eis que o ministro Dias Toffoli nos aparece na TV, em horário nobre, com uma enorme cicatriz no meio da testa, o que nos leva a imaginar que não deve ter trombado com algum inocente móvel dentro de casa (como Jefferson) mas que a coisa foi bem mais séria, e fora de casa (como Jefferson).

E a nossa corrupta, covarde e safada imprensa não move uma só palhinha pra esclarecer à sociedade o que teria acontecido com uma das autoridades institucionais do país (mas, pelo "talho" na testa no ministro, parece mais coisa de milicianos profissionais, pagos ou não).

Acidente doméstico ??? 

Vôte... 

segunda-feira, 31 de agosto de 2020

EXCENTRICIDADE - José Nilton Mariano Saraiva

Recorrente - mas ainda assim impressionante - como aqueles que atingem certo destaque em alguma profissão, principalmente os que lidam diretamente com o público, se transmutam da noite pro dia, tanto em termos comportamentais como em termos visuais. Dentre estes se sobressaem, justamente pelo contato mais próximo com o povo, jogadores de futebol e cantores dos mais diversos estilos (bregas, sertanejos, românticos e por aí vai), sejam nacionais ou internacionais. 

Os primeiros (jogadores de futebol) normalmente oriundos de famílias paupérrimas, quando finalmente “chegam lá” fazem questão de ostentar, de exibir, de ser “diferente”, como a querer mostrar que não são inferiores a ninguém, compensando de certa forma a “vida-de-cão” que levaram no passado. Assim, visando mandar para o espaço o complexo de inferioridade enrustido durante tanto tempo, além dos carrões, roupas de grife, joias caras e mansões luxuosas, adotam os mais esquisitos e ridículos cortes de cabelo, que de pronto passam a ser adotados por seguidores fanáticos (que o diga o tal do Neymar e seu estilo moicano ou aquele horroroso corte exibido pelo tal Ronaldo Gordo Nazário, no final da Copa do Mundo do Japão, onde o Brasil foi vencedor). 

Já no tocante aos cantores que se destacam a coisa é mais “seleta, refinada e eclética”, a saber: uns, embora teimem em falar e pregar a “humildade”, nos seus shows exigem dos patrocinadores uma determinada marca de água mineral importada (preferencialmente de um país distante); frutas, preferencialmente aquelas oriundas dos cafundós do planeta Terra; não dispensam uma bebida de primeira qualidade, evidentemente que também de outras plagas; já um outro só faz o show se o camarim for decorado unicamente na cor azul, com móveis confeccionados de uma madeira tal, e outras extravagâncias. 

Tempos atrás, um deles nos apareceu com uma exigência que, muito mais que excentricidade, poderia ser confundida com “frescura pura” (e não é pelo fato de ser reconhecidamente um homossexual assumido); fato é que o renomado (e bom) cantor britânico Elton John exigiu para uma certa turnê (Follow the Yellow Brick Road), que empreendeu no Brasil, mimos que chegaram às raias do absurdo..

Assim, além do cachê altíssimo que recebeu, exigiu dos patrocinadores do seu show (aqui em Fortaleza), dentre outros itens: 01) que, toda a Arena Castelão, onde foi realizado o evento, fosse climatizada a 19 °C; (assim, embora normalmente a temperatura ambiente da Arena Castelão seja de 35/40°C, em todas as áreas por onde ele fosse circular, a temperatura não poderia passar dos 19 graus e PT saudações); 02) que, no seu camarim fosse instalado um telão de alta definição, a fim que pudesse assistir a canais esportivos; 03) que, fosse criado o “Espaço Elton John Hospitality” (espécie de sala de visitas) com ornamentação de plantas naturais com pelo menos 1,80 metro cada, preferencialmente palmeiras e fícus; e 04) que, para comer, estivessem disponíveis saladas de frutas, de legumes e sopas vegetarianas (aqui, até que não foi muito exigente). Descartou, entretanto, qualquer proteína animal. 

Será que os patrocinadores do evento conseguiram atender a todas as exigências do bom, mas já decadente cantor ??? E se não o fizessem, será que o mesmo recusar-se-ia a cantar para seus adeptos do Ceará ??? 

No mais, para os que se dispuseram a ir ao show, foram colocados à venda 40 mil ingressos (a “preços de banana” em fim de feira, na mais recôndita periferia), a saber: gramado cadeira ouro (R$ 600), plateia inferior direita (R$ 140), gramado cadeira prata (R$ 460), gramado cadeira bronze (R$ 360), camarote vip open bar (R$ 500), camarote privativo (R$ 800), plateia inferior esquerda (R$ 140), plateia superior especial (R$ 300), plateia superior esquerda (R$ 110) e plateia superior direita (R$ 110). 

E aí, você foi um dos que lá compareceram ???

 


CARTA A UM JOVEM BRASILEIRO (Rogério Cezar de Cerqueira Leite)

 

CARTA A UM JOVEM BRASILEIRO

(Rogério Cezar de Cerqueira Leite)

Eu gostaria de escrever-lhe uma carta sobre poesia, embora sem o talento do alemão Rainer Maria Rilke, sobre a importância da literatura, das artes, do conhecimento; enfim, sobre tudo o que enriquece a humanidade. Mas eis que nossos líderes agridem tudo que alicerça a cultura de um povo, tal seja a filosofia, a sociologia, a história.

Eu queria escrever-lhe sobre a dádiva da natureza ao brasileiro, sobre as nossas matas, os nossos rios, a nossa fauna e a nossa rica e bela biodiversidade. Pois bem, nossos dirigentes não apenas corrompem as providências para amenizar as inexoráveis e trágicas consequências do aquecimento global como também incentivam o desmatamento e a poluição da atmosfera.

Eu queria falar-lhe, jovem brasileiro, da dignidade do trabalho e da necessidade de conhecimento para enfrentar a dinâmica implacável do progresso tecnológico. Entretanto, esse novo governo asfixia nossas universidades com cortes de verbas e obtusa perseguição.

Eu queria falar-lhe de ciência e tecnologia, da consequente industrialização do nosso país e dos benefícios sociais e econômicos que adviriam de investimentos em pesquisas. Mas esses nossos governantes continuam a desindustrialização começada nos governos Collor e FHC, cortando recursos para ciência, tecnologia e formação pós-graduada, sem o que não haverá industrialização possível já em futuro próximo.

Eu queria escrever-lhe sobre o valor da cidadania, da liberdade, sobre a decência do homem de bem. Porém, “esses arremedos de déspotas” que presidem sobre esta nação liberam a posse de armas, cooptam e protegem milicianos, homenageiam extorsionários e torturadores, estimulam a violência.

Eu gostaria de poder falar-lhe sobre nosso país, sobre nossa história, nossa arte, nossos escritores, nossa música, nossas conquistas. Mas não posso. Nosso país se curva aos interesses imperialistas dos EUA.

Eu queria falar-lhe do ideal de justiça, da solidariedade. Contudo, só vejo ostentação, narcisismo. 

JUÍZES VIVENDO EM PALÁCIOS "NABABESCOS", SERVIDOS A LAGOSTAS, PAGAS COM O SUOR DO TRABALHADOR BRASILEIRO. O QUE UM JUIZ DO SUPREMO COME DE LAGOSTA E BEBE DE VINHO IMPORTADO, DIARIAMENTE EM UMA ÚNICA REFEIÇÃO, EQUIVALE AO QUE COME POR MES UMA FAMÍLIA QUE VIVE COM SALÁRIO-MÍNIMO. 

E, ao contrário de suas excelências, o cidadão brasileiro paga por suas refeições. Eu pensava em conversarmos sobre seu futuro, seus sonhos. E olho para nossos congressistas, supostos guardiões da cidadania e de seu porvir. E só ostentam escandalosa cupidez. 

Confesso que eu queria inculcar-lhe, jovem brasileiro, uma certa compulsão por justiça social, um certo interesse pelo próximo e pelo distante, um pouco de civilidade enfim. Mas seria um esforço perdido, tendo em vista a dominação intelectual e ideológica desse governo por um farsante, obsceno e fascista, uma espécie de Rasputin de bordel.

Eu gostaria de encontrar alguma palavra de alento para apaziguá-lo. Eu não queria ser cínico ou parecer desalentado, derrotado. Seria talvez bom se eu pudesse fingir, mentir um pouco. Mas não. Só posso pedir-lhe que me perdoe, e a todos aqueles das gerações que precederam a sua, pelo que lhe subtraíram e talvez também pelo que lhe ensinaram.

 

O BRASIL QUER SABER - José Nilton Mariano Saraiva

 

O BRASIL QUE SABER - José Nilton Mariano Saraiva

 

Por qual razão o “integro”, “honesto” e “insuspeito” Presidente da República se exaspera quando lhe fazem uma pergunta tão simples:

 

"Presidente @jairbolsonaro, por que e para que sua jovem esposa, Michelle Bolsonaro, recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz e esposa ?"

 

Por qual razão os integrantes do Supremo Tribunal Federal se negam a participar de tão grave questão, questionando-o oficialmente ???

domingo, 23 de agosto de 2020

 

A “MUTRETA” DO VALE-REFEIÇÃO – José Nilton Mariano Saraiva

Criado através da Lei 6321 de 15.04.1976, o vale-refeição (adstrito às estatais), ao contrário dos que muitos pensam não se trata de nenhuma “benevolência” da empresa para com o seu funcionário, ou de um gesto de magnanimidade do governo federal.

Na verdade, aqui se aplica magistralmente aquela história do “dar com uma mão e tirar com a outra” e, claro, beneficiando sempre o patrão (empresa), em detrimento do empregado.

É que, a posteriori, quando for prestar contas ao fisco ao final do exercício fiscal, a empresa poderá deduzir, do lucro tributável para fins de imposto de renda (das pessoas jurídicas, evidentemente), o dobro das despesas realizadas em programas de alimentação do trabalhador (o tal vale refeição).

Além do que, como tal valor é excluído do conceito de “salário in natura”, nele não incide o custeio da Previdência Social e o do FGTS (ou seja, a empresa ao subsidiar a refeição do seu servidor, se beneficia de um quádruplo benefício fiscal).

Confira, abaixo, os artigos 1º e 3º da tal lei:

Art. 1º As pessoas jurídicas poderão deduzir, do lucro tributável para fins do Imposto sobre a Renda, o dobro das despesas comprovadamente realizadas no período-base, em programas de alimentação do trabalhador, previamente aprovados pelo Ministério do Trabalho na forma em que dispuser o Regulamento desta Lei.

Art. 3º Não se inclui como salário de contribuição a parcela paga "in natura" pela empresa, nos programas de alimentação aprovados pelo Ministério do Trabalho.

É isso aí; vivendo e aprendendo.

 

 

 

 

quinta-feira, 30 de julho de 2020

O Abominável Homem do Minhocão

Yuri Vieira 03/11/1996 Contos   


Antônio desapareceu em meados de 1974
. Era professor do departamento de Ciências Sociais e foi visto pela última vez após um alarme falso, no qual se afirmou que o exército e a polícia militar se preparavam para novamente invadir o campus da Universidade de Brasília. Vacilara terrivelmente quando, durante sua última aula, manifestara apoio e solidariedade aos movimentos de resistência armada contra o governo militar. Para seu azar, naquele dia infeliz, havia “boi na roça”: um alcagüete da polícia federal assistia à aula. Antônio nem sequer voltou para casa. Passou do Instituto Central de Ciências — o famigerado Minhocão — para o esquecimento…

20 de março de 1994, 20h:30min.: No subsolo do Minhocão, após uma aula noturna, Lisane, estudante de história, caminha em direção à escada. Ao passar em frente ao restaurante Natural, alguém a retém pelo braço. Lisane sente o cheiro, volta-se, grita e, por fim, desfalece. É encontrada por um segurança, minutos depois, ainda desacordada.

27 de março de 1994, 02h:05min.: Oswaldo, segurança da UnB, está a postos, dentro de sua guarita na entrada norte, assistindo à TV. Repentinamente um estranho ser, coberto de pêlos, sujo e hediondo invade a guarita. Antes que Oswaldo tenha qualquer reação, o monstruoso homem — parece um homem — o golpeia na cabeça com a TV portátil. O segurança desmaia. Quando volta a si, não encontra a marmita. Na TV passa o filme A Volta dos Mortos Vivos.

Estes não foram acontecimentos isolados. Desde 1976, ocorreram inúmeros encontros com o Abominável Homem do Minhocão. A diferença é que em todo esse tempo ele jamais surgiu duas vezes num único mês. E foi a primeira em que ele roubou comida. É certo que muito se especulou sobre a consistência e veracidade de tais narrativas. Dizia-se que tudo aquilo era um chiste, e que, na tentativa de eludir uma maior preocupação com a segurança interna do campus, inventava-se toda sorte de causos. Mas o que não era do conhecimento geral, senão um fato compartilhado por poucos, era a enorme pegada deixada pela criatura junto às vítimas. Uma pegada com cheiro de merda. Um horror.

12 de abril de 1996, 19h:40min.: Eunice, professora de biologia, caminha pelo subsolo sul do Minhocão. De repente, ela sente uma presença. Amedrontada, olha ao redor mas nada vê. Acelera o passo. Logo adiante, Eunice sente um forte mau cheiro e estaca. Volta-se novamente para trás e arregala os grandes olhos verdes que giram nas órbitas:

“Antônio!!”

“Eunice?!”

“É você mesmo, Antônio?”

“Sou eu sim, meu bem…”

Abraçam-se. Ela, na ponta dos pés, enlaça o pescoço dele com os braços, que se sujam com os fétidos cascões de sua nuca. Ele a cinge pela cintura, deixando manchas escuras na sua saia amarela. Beijam-se na boca ternamente. Os bigodes e a barba de Antônio, assim como os pêlos dos seus braços, estão duros como palha de aço. Eunice sente seu hálito de esgoto.

“Ah! É você mesmo, meu querido…”

Ela o conhecera exatamente um ano, dois meses e treze dias antes de seu desaparecimento. Amaram-se desde o princípio. Ela se tornara professora na UnB para ficar junto dele.

“Mas afinal, onde é que você tava?”

Antônio nunca fora adepto da toalete. Por isto a namorada não o estranhava neste sentido. Até gostava.

“Por aí… por aí…”

Quando o Abominável Homem do Minhocão foi avistado pela primeira vez, Eunice não se sensibilizou… Pensou que fosse apenas mais um boato do tipo “a anistia vem aí”. Um dia, lendo por acaso um relato sobre as antigas culturas andinas, deu com um nome familiar: Sacharuna. Era assim que um colega do basquete, um peruano, tratava Antônio durante os treinos. Queria dizer: o senhor das montanhas, o pé-grande da América do Sul. Leu mais sobre o assunto. No Canadá e norte dos EUA, chamava-se Sasquatch. No Himalaia, Yeti ou O Abominável Homem das Neves. Eunice ficou encucada: aquela criatura do minhocão… seria ele?

“Como assim por aí?”, perguntou espantada. “E por que você tá largado desse jeito? Vem comigo!”

“Não, Eunice! Os milicos… eles… eles vão me pegar!!”

Agora sim ela se sensibilizou. Quase chorou.

“Meu Deus, que absurdo!”, e olhou-o solícita. “Antônio, desde 84 que nós temos presidentes civis, eleições diretas… Já tivemos até impeachment! Em que maldito buraco você se meteu?”

Ela o levou para casa. Deu-lhe banho, roupas e sapatos novos — tamanho 52 –, cortou-lhe os cabelos, as unhas, fez-lhe a barba. Tornou-o reconhecível de novo. Exceto pelo cheiro, felizmente. E ele estava deslumbrado. Não acreditava que passara mais de vinte anos nos esgotos do Minhocão. Acabara o comunismo na União Soviética — acabara a União Soviética! — não havia mais o muro de Berlim e havia Mac Donald’s na China… Todos tinham um computador pessoal e cartões magnéticos… Sim, ainda havia fome, miséria e injustiça… Mas, meu Deus, quantas transformações! E ele perdera vinte anos de vida! Tudo por causa dum relógio russo, comprado em Cuba, que usara todo aquele tempo e cujo ponteiro mal se movia. Triste, muito triste.

Eunice fez o que pôde para convencê-lo de que ainda era jovem e de que tinha toda uma vida pela frente. Fê-lo assistir — para que se acalmasse e se reintegrasse ao mundo — TV a cabo durante cinco dias inteiros. Por fim, disse-lhe que o melhor que tinha a fazer era recuperar sua cadeira de professor. Logo que superou a depressão — quebrando a TV — Antônio seguiu os conselhos de Eunice. Foi recebido na UnB como herói. (Ninguém parecia recordar que ele encarcerara a si próprio.) Ganhou uma estátua ao lado da de John Lennon [1] — “Meu Deus, ele morreu?!!” — uma estátua enorme, com pés enormes. Ele estava novamente feliz.

Para reacostumar-se com o trabalho, recebeu a cadeira de Introdução à Sociologia. Na sala, um grande número de alunos de direito e de relações internacionais, todos calouros. Achou que o melhor a fazer naquela primeira aula seria discorrer sobre cidadania e, para isto, seria necessário abordar aqueles importantes fatos sociopolíticos dos anos 60 e 70.

“Lá vem a Abominável Ratazana dos Esgotos”, disse alguém logo que ele entrou.

Antônio tentou ignorar a provocação dando início à aula:

“Alguém sabe qual foi o acontecimento mais marcante neste país entre as décadas de 60 e 70?”

“Um idiota que se perdeu nos esgotos da UnB?”

Risadas e mais risadas. Antônio impacientou-se:

“Não estou aqui para brincadeiras. Seus pais, tios e avós passaram por maus momentos nessa época e vocês não estão nem aí…”

“Sou bisneto do general Médici!”, disse um.

“Meu pai era do DOI-CODI!”, disse outro.

Mais risadas. Assovios.

Antônio explodiu:

“Olha aqui, seus burguesinhos imbecis, vocês são muito pueris pra entender o sofrimento pelo qual muita gente passou naqueles duros anos. Vocês jamais imaginariam, por exemplo, a loucura que eu vivi…”

Uma garota levantou-se e dirigiu-se até a porta.

“Onde você vai?”, berrou Antônio. “Eu ainda não terminei”.

“Tenho mais o que fazer além de ficar ouvindo um professor histérico me chamar de burguesinha imbecil!”

O professor pôs-se furibundo. Via tudo embaçado. Estava fora de si. A sala ficou repentinamente silenciosa, ninguém parecia respirar. Ele caminhou com suas grandes e sonoras passadas na direção da garota, que ficou paralisada. Extasiados, alguns alunos esperavam presenciar um homicídio. “Um patricinhicídio”, contaram mais tarde. Antônio apenas passou por ela e saiu pela porta. Precisava encontrar Eunice. Aquilo era o fim da picada. Os alunos estavam mais mudados que a própria Rússia! Era difícil de suportar.

Quando chegou ao apartamento de Eunice, na Colina, foi direto à cozinha beber um copo d’água. Precisava se acalmar. Ao terminar, ouviu uns gemidos vindos do quarto. Foi-lhes no encalço. Eunice estava nua, sentada sobre outro homem, também nu.

“Eunice!!”, suspirou Antônio.

“Antônio! O que é que você tá fazendo aqui a esta hora?”

“Quem é esse cara, Eunice?”, balbuciou ele, ignorando a pergunta.

“Uê, Antônio”, começou ela, metendo-se sob as cobertas. “É o Marcos, meu marido.”

“Marido?!!”

“É claro. Você não achou que eu ia te esperar esse tempo todo, não é?”

“Mas eu não sabia…”

O marido levantou-se:

“Eu estava viajando e cheguei hoje”, disse, enrolando-se num lençol. “Muito prazer, a Eunice me falou muito a seu respeito”, e estendeu a mão.

Antônio apertou aquela pequena mão involuntariamente. Sua cabeça estava longe, muito longe.

“Desculpe, Eunice”, disse ele. “Eu preciso sair”, e saiu.

“Sujeito esquisito…”, admirou-se o marido.

1° de maio de 1996, 13h:02min.: Antônio arrasta-se pela tubulação de esgoto sob o restaurante Natural, no subsolo norte do Minhocão. Sente-se novamente em casa, de volta ao útero materno. Longe de todo absurdo e do ramerrão da superfície. Está procurando o Topo Gigio, cujo desaparecimento o fizera abandonar aquele tranqüilo lugar. Topo Gigio é o rato a quem ensinou a roubar e a trazer-lhe comida da despensa do Natural. Sim, pois como alguém sobreviveria tanto tempo naquele mundo subterrâneo? Como no mundo superficial? Tragando merda?

(Conto extraído de A Tragicomédia Acadêmica – Contos Imediatos do terceiro grau.)

[1] Caro leitor, atenção: realmente existe uma estátua do John Lennon, junto ao Bandejão, no Campus Darci Ribeiro – UnB.

sábado, 27 de junho de 2020

"HOLLYWOOD" - José Nilton Mariano Saraiva


Ainda sobre as “homenagens” (algumas um tanto quanto “fora do prumo”) prestadas por “pais-torcedores” aos seus ídolos (principalmente do futebol, do cinema e da música popular), materializadas no batismo do filho com o nome de um deles, vale lembrar uma “sui generis”.
Como sabemos, durante muito tempo o cinema americano não tinha concorrente em termos de convincentes, belos a preparados atores/atrizes, qualidade técnica, recursos especiais, direção, produção e o escambau (hoje, outros países já conseguem produzir filmes com a mesma qualidade na direção, na produção e com “artistas” reconhecidamente convincentes na arte de representar). Mas, que foram os americanos que dominaram por muito tempo a “sétima arte”, isso ninguém há de contestar.
E aí quem se destacou foi o pequeno distrito de “Hollywood”, na cidade de Los Angeles, que serviu de abrigo aos grandes estúdios cinematográficos de então, que por sua vez detinham em seus “casts” o suprassumo ou o filé-mignon na tarefa de representar; assim, os categorizados profissionais do cinema normalmente se vinculavam a um desses estúdios. Portanto, chegar a “Hollywood” (a “meca do cinema”) era o sonho, o ápice, o apogeu e a aposentadoria de qualquer “artista” que pretendesse ser reconhecido como tal.
Pois foi para homenagear “Hollywood” (“ninho” dos grandes atores do cinema) que os humildes e iletrados pais do nosso personagem resolveram dar-lhe o nome daquele pequeno distrito americano. E assim, quando veio ao mundo, o rebento querido recebeu um nome fora dos padrões tão usuais à época aqui no Brasil (José, Raimundo, João, Joaquim, Sebastião, Manoel e por aí vai); além de que, o “nobre” e pomposo nome o diferenciaria dos demais meninos e “mascararia’ a pobreza em que a família vivia atolada até o pescoço.
Só que, em razão do despreparo do anotador-cartorário de plantão, a homenagem acabou saindo um tanto quanto esdrúxula, esquisita, estapafúrdia até: e assim veio ao mundo o nosso glorioso “Oleúde José Ribeiro”.
Depois de crescido, o agora tonificado e vigoroso negro “Hollywood/Oleúde” virou jogador de futebol e, atualmente, com o alcunha/apelido de “Capitão” tornou-se um suplício e tormento para os atacantes do time contrário, porquanto, atuando na defesa, adotou o estilo “xerifão”: do pescoço pra baixo é tudo canela.
Além do mais, ele é um “capitão” (do time) e, portanto, merece respeito. E tome porrada, a torto e a direito, pra cima e pra baixo (quem for podre que se quebre).

sexta-feira, 26 de junho de 2020

O "VELHO PADRE" - José Nilton Mariano Saraiva


O velho Padre, que durante anos tinha trabalhado com afinco e dedicação com o povo africano voltara ao Brasil e, agora, doente e moribundo, internado no Hospital Geral de Brasília, é a notícia e manchete midiática da hora.
Já nos últimos suspiros, ele faz um sinal à enfermeira, que se aproxima. - Sim, Padre? diz a enfermeira. - Eu queria ver dois proeminentes políticos, antes de morrer, sussurrou o Padre. - Acalme-se, verei o que posso fazer, respondeu a enfermeira. De imediato, entra em contacto com o Congresso Nacional e logo recebe a notícia: ambos faziam absoluta questão de visitar o velho Padre moribundo (para tanto, as respectivas agendas foram canceladas).
A caminho do Hospital, na “modesta” limusine de um deles, Jáder Barbalho diz a Renan Calheiros: - Eu não sei por que é que o velho Padre nos quer ver, mas certamente que, dado o seu prestígio internacional e popularidade junto aos pobres, isso vai ajudar a melhorar a nossa imagem perante a Igreja e ao próprio povo, o que é sempre bom. De pronto, Renan Calheiros assentiu: realmente, ali estava uma grande oportunidade para eles aparecerem e, é tanto, que oportunisticamente até fora enviado um urgente comunicado oficial à imprensa sobre a visita.
Quando chegaram ao quarto, com toda a mídia presente (rádios, jornais, TV, Internet, etc), o “velho Padre” pegou na mão de Jáder Barbalho, com a sua mão direita, e a mão de Renan Calheiros, com a sua mão esquerda.
Houve um respeitoso silêncio, enquanto câmaras foram estrategicamente direcionadas ao trio, já que repórteres televisivos (inclusive do exterior) transmitiam ao vivo e a cores aquele grave momento; para tanto, aproximaram seus microfones para captar aquelas que certamente seriam as últimas palavras daquele santo homem, que apresentava-se com um ar de pureza e serenidade no semblante.
Então, Renan Calheiros (fazendo pose para as câmaras e imprimindo a devida impostação na voz), disse: Padre, porque é que fomos nós – eu o Jader - os escolhidos, entre tantas pessoas ilustres das que compõem o nosso glorioso Congresso Nacional, para estar ao seu lado, neste momento especial ?
O “velho Padre”, com um sorriso angelical no rosto, afirmou: -Meus filhos, sempre em toda a minha vida procurei ter como modelo nosso Pai Celeste, o Nosso Senhor Jesus Cristo. -Amém, disse Jáder Barbalho. -Amém, disse Renan Calheiros.
E aí o velho Padre fuzilou, sarcasticamente:
ENTÃO...COMO ELE MORREU ENTRE LADRÕES, EU QUERIA O MESMO PRA MIM !!!”
Em seguida, encarando as câmaras, “bateu as botas”.
Sorrindo.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

"MADEIRA DE DAR EM DOIDO" - José Nilton Mariano Saraiva


Quando no exercício da sua atividade profissional (jogador de futebol), o argentino Diego Simeone ficou conhecido pela alcunha de “madeira de dar em doido”, popularmente adotada no meio futebolístico pra designar aquele jogador durão, voluntarioso em excesso, obediente tático por excelência, de uma exacerbada e genuína valentia.

Assim, com Simeone, do pescoço pra baixo (evidentemente que do adversário) era tudo canela. E haja porrada, a torto e a direito (às vezes, até deslealmente). Às reclamações porventura existentes, a velha máxima: futebol é jogo prá homem, se quiser moleza vá jogar gamão ou dominó.

Pois bem, apesar desse excesso de valentia, e até por isso mesmo,  Simeone brilhou não só na Argentina (e com sua seleção), mas mundo afora; mas, de tanto viajar e de tanto se dedicar e mostrar a velha garra portenha (quem dera os brasileiros neles de espelhassem), cedo cansou, encerrando prematuramente a carreira.

Então, dedicou-se à função de treinador. E eis que conseguiu levar o modesto time do Atlético de Madrid (no qual atuou e foi campeão como jogador) ao título espanhol (2013/14), depois de 19 anos na fila, desbancando os milionários e poderosos Real Madrid e Barcelona, que sobraram na curva. Sem dúvida, um feito espetacular e que alavancou sua carreira profissional.

O que chama a atenção no time por ele treinado é que seus comandados refletem a imagem e semelhança do antigo jogador Simeone, em termos de obediência tática, de dedicação, de entrega, de doação, de valentia, de vigor físico. Todo isso, aliado a um preparo físico excepcional, faz com que a equipe “simeonesca” se defenda em bloco e em bloco parta para fulminantes ataques (tal qual a seleção da Holanda, de 1974), daí a dificuldade dos adversários em derrotá-la. Claro que, aqui acolá imprevistos acontecem, mas normalmente a vitória é certa (em citada temporada, foram apenas 04 derrotas em 38 jogos).

O título do Campeonato Espanhol foi mais um exemplo do sucesso do clube durante a "era Simeone". Afinal, esse foi o quarto título até o momento do treinador desde que assumiu o comando em 2011: Liga Europa (2011-12), Supercopa da Europa (2012), Copa do Rei (2012-13) e Campeonato Espanhol (2013/14).

A prova definitiva que Simeone veio para ficar, e do reconhecimento do seu trabalho, está no fato de que ainda hoje (após 10 anos) permanecer firme no comando do Atlético de Madrid e ser adorado pela sua vibrante torcida.





A "SINUCA DE BICO" - José Nilton Mariano Saraiva

O “jogo de sinuca” é uma das diversões mais saudáveis e prazerosas pra se passar o tempo e jogar conversa fora, preferencialmente com uma “geladérrima” ao lado e uma suculenta “panelada” assistindo tudo. E, claro, com a torcida vibrando e dando pitaco, ao lado. Difícil imaginar que ainda exista alguém que não o tenha praticado, independentemente da idade, credo, raça ou sexo.


Relativamente fácil, o objetivo é “encaçapar”, em um dos seis buracos existentes na mesa de jogo, obedecendo a uma pré-determinada sequência numérica, bolas de cores distintas e valendo entre 01 e 07 pontos. Para tanto, existe uma oitava bola, apelidada de “carambola” (ou traidora), que é a que se presta unicamente pra “empurrar” as “co-irmãs” pro “buraco” (pra dentro da caçapa), evidentemente que impulsionada pela maestria do “taco” do jogador. Consagra-se aquele que ao final fizer mais pontos.

Como em todo jogo, entretanto, no de sinuca também existem suas técnicas, segredos e táticas. Dentre elas, certamente a que apresenta maior grau de dificuldade para o “jogador da vez”, é quando o adversário lhe aplica a famosa “sinuca de bico”.

A “sinuca de bico”, que muitos cognominam “beco-sem-saída”, se dá quando o jogador tem a bola-da-vez protegida atrás de uma ou mais bolas, de forma que fica extremamente difícil acertá-la, mormente em estando a mesma na “bica” pra ser encaçapada.

É aí que entra a excelência e refinamento técnico do jogador da vez, que terá obrigatoriamente que usar as bordas da mesa de jogo (tabelas) para atingir a bola-do-jogo, sem tocar nas que estão entre elas. Há que se usar o chamado “efeito”, a fim de encontrar um “caminho alternativo” pra se atingir o objeto de desejo (a bola da vez): pelos lados, por cima, jogando prá trás, enfim, inventando uma “marmota” qualquer.

Fato é que o esporte cresceu tanto que até já existem redes de TVs que patrocinam e exibem campeonatos de sinuca, trazendo para tanto “experts” do mundo inteiro na arte de encaçapar as bolinhas. E você ficará de “queixo-caído” se tiver oportunidade de ver o que os grandes mestres “aprontam” em cima do tabuleiro verde.

Vale conferir.

quarta-feira, 24 de junho de 2020

O FÁBIO JÚNIOR QUE NÃO ERA,,, "JÚNIOR" - José Nilton Mariano Saraiva


O uruguaio Ladislao Mazurkiewicz Iglesias (1945/2013), sem favor nenhum um dos grandes goleiros do mundo (pegava “até pensamento”) merece a homenagem que o “pai-torcedor” do Atlético Mineiro (onde jogou entre 1972/74) lhe prestou, ao batizar o filho com o seu nome.
Só que a homenagem saiu um tanto quanto “truncada” (para não dizer “atrapalhada”), já que Mazurkiewicz transformou-se não mais que de repente em Mazuquiebe, graças ao lapso do anotador cartorário de plantão. Isso, no entanto, não deslustra ou invalida a intenção original. O ídolo foi reverenciado, sim.
Lamentável é que a televisão brasileira e a imprensa tupiniquim, ao noticiar a sua morte, não tenham mostrado ou se referido às suas portentosas defesas ou aos verdadeiros milagres operados por Mazurkiewick embaixo das traves, mas, sim, haja priorizado o vídeo e feito comentários sobre duas “presumíveis” falhas cometidas pelo próprio, mas que, na realidade, se concretizaram muito mais em razão da genialidade de Pelé, então no auge da sua forma, do que propriamente por erro do grande goleiro: o “drible da vaca” que quase resultou em gol e o “tiro de meta” cobrado pelo goleiro e seguido da imediata “devolução” da bola, por Pelé, do meio do campo em direção ao gol. Momentos antológicos do futebol.
Mas, retomando o fio da meada, uma outra homenagem que merece ser citada teve como personagem o jogador Fábio Júnior (à época defendendo o América Mineiro) e foi revelada pelo próprio, de forma quase que acidental.
É que, ao término de mais uma partida pelo Campeonato Brasileiro, o repórter abordou-o para a tradicional entrevista sobre o resultado do jogo, como era jogar debaixo de uma chuva tão intensa, o gol que fizera e coisa e tal e, ao final, respeitosamente resolveu mandar “...um abraço para o seu Fábio”.
E aí se deu o diálogo surpreendente:
Jogador: Quem é “seu Fábio” ???”.
E o repórter, surpreso: “Ué, seu pai, você não é o Fábio Júnior ???”.
O jogador, assustado, retomando a palavra: “Tá de brincadeira, ó cara, o nome do meu pai é Bastião”.
O repórter, abismado; “Como, o seu nome não é Fábio Júnior ???
E, aí, veio o esclarecimento definitivo: “Não, cara, é que minha mãe era fã de carteirinha do cantor Fábio Júnior e resolveu homenagear ele me dando o mesmo nome”.
O repórter, mais tranquilo, não perdeu a pose: “Bem, então dê o meu abraço em seu Bastião, ok” ???
Jogador, rindo: Ok.
A curiosidade é que nenhum dos “filhos-Fábios” (o original e o genérico) é filho de nenhum “pai-Fábio” a fim de ter no sobrenome o “Júnior” : enquanto o que “poderia” ter sido o pai (o cantor/ator) se chama Fábio Correa Ayrosa Galvão (nascido em São Paulo em 21.11.1953 e é filho de William), o que “quase” foi seu filho (o jogador), assina Fábio Júnior Pereira (nascido em Minas Gerais em 20.11.1977 e é filho de Sebastião da Silva Pereira).
Ainda hoje continuam a exercer competentemente as respectivas profissões, apesar, evidentemente, da acentuada diferença de idades: nasceram no mesmo mês (11), quase no mesmo dia (20/21), mas, o ano (quanta diferença): 1953 e 1977.
Pensando bem, bem que um poderia ser pai do outro, né não ???





terça-feira, 23 de junho de 2020


O “PEQUENO DRÁCULA” – José Nilton Mariano Saraiva

Fluente em inglês e espanhol, boa pinta, austero, simpático, comumente rigoroso, Marco Antônio Rodriguez Moreno, o bom árbitro de futebol mexicano que foi selecionado para atuar na Copa do Mundo de Futebol, de 2014, realizada no Brasil, é professor de Educação Física, tem 1,79 de altura e 81 kg.

Para ser infortúnio, no entanto, tem um apelido do qual não deve gostar nem um pouco, mas que aprendeu a aceitar por pura conveniência marqueteira: o “PEQUENO DRÁCULA”, face à incrível semelhança fisionômica com o dito-cujo (Drácula, como se sabe, era aquele vampiro famoso, originário da “Transilvânia”, que antigamente assustava a meninada - nós outros, sessentões de hoje - via telona dos cinemas).

Pois bem, indicado para apitar o clássico Uruguai X Itália, de repente Rodriguez Moreno deixou passar um lance capital do confronto: aquele em que o atacante uruguaio Luiz Sóarez provando não ter nenhuma tendência “naturalista”, mas, sim, uma avidez carnívora desmedida, deixa o futebol propriamente de lado e quase decepa/arranca a cabeça do zagueiro italiano Giorgio Chiellini ao aplicar-lhe uma vigorosa dentada à altura do pescoço (as “marcas caninas” foram mostradas pela TV e como é a terceira vez que faz isso, em campeonatos diversos, Sóarez corre o risco de ser suspenso do resto da Copa do Mundo).

No entanto, embora justificadamente o caso tenha sido explorado o máximo pela mídia, porquanto a imagem da televisão foi pura e cristalina em relação à violência do lance, no relatório do árbitro à comissão de arbitragem da FIFA tal ocorrência não foi sequer citada e nem o “amarelinho”, que se fazia merecedor foi usado (Rodriguez Moreno alega não ter visto o lance).

Com o afunilamento do torneio (tanto que metade dos concorrentes tomaram o caminho de volta pra casa), a esperança dos que querem evitar um confronto com o Uruguai é que, tal qual procedeu em casos análogos (no passado), a FIFA puna com absoluto rigor o jogador, com base apenas nas imagens geradas pela TV (o que constituiria um desfalque de peso para quem quer chegar lá).

No entanto (e por enquanto), à espera de tal decisão a pergunta que todos se fazem é: será que o “PEQUENO DRÁCULA” (o juiz mexicano Marco Antônio Rodriguez Moreno) deixou propositadamente de punir o jogador uruguaio por “ciúmes”, ao entender que ali, naquele momento e com imagens geradas para todo o mundo, nenhum outro Drácula (“fajuto”) poderia ser alvo dos holofotes a ponto de ofuscar a imagem dele, o “PEQUENO DRÁCULA”, primeiro e único vampiro no pedaço ???

Será ???







domingo, 21 de junho de 2020

O "SERESTEIRO DO PLANALTO" - José Nilton Mariano Saraiva


Como ninguém é de ferro, em determinadas ocasiões o então Presidente da República Lula da Silva reunia nos fins de semana alguns membros do governo, na Granja do Torto (uma das residências oficiais do Presidente da República), a fim de confraternizar e jogar conversa fora.
Evidentemente, predominava a informalidade (nada de agenda, assuntos sérios, paletó, gravata e por aí vai), até porque o objetivo era esquecer por algumas horas os grandes problemas da nação, a pressão diuturna e... se reoxigenar para a batalha da semana seguinte.
Alguns dos frequentadores, entretanto, intimamente miravam mais à frente, porquanto já se falava abertamente, àquela altura, sobre a sucessão presidencial, vez que Lula da Silva se achava impossibilitado de concorrer mais uma vez (já houvera sido reeleito). E isso, claro, mexia com o ego e a vaidade de uns, que sonhavam ostentar o “passaporte” homologatório da candidatura sucessória das mãos do todo-poderoso chefe.
Para tentar viabilizar-se como tal (candidato indicado pelo presidente, sim senhor), alguns fugiam do lugar-comum e adotavam a heterodoxia plena, naturalmente partindo do pressuposto de que “não importam os meios empregados, conquanto o objeto de desejo seja alcançado” (nem que tivessem que se expor ao ridículo e à chacota de muitos, no decurso da engenharia política afeta).
Um dos frequentadores assíduos de tais noitadas, Ciro Gomes (um megalomaníaco que se julgava uma espécie de “messias”) bolou um jeito todo peculiar de se chegar ao chefe ainda mais e agradá-lo mais que todos, na perspectiva de ser o escolhido: assim é que, sabedor da preferência musical do chefe, deu um jeito de colocar no “cardápio-noturno”, da Ganja do Torto, o “momento musical”; e aí, em plena madrugada, do cerrado do planalto central ecoava a sofrível voz do “seresteiro do planalto”, tanto melosa quanto interesseira.
O resto todo mundo já sabe: Lula da Silva não se deixou levar pela “puxação-de-saco”, preferindo privilegiar a ministra Dilma Rousseff para concorrer (com sucesso), à sua sucessão.
Cartas postas à mesa, Ciro Gomes, preterido e sentindo-se injustiçado, procurou as televisões para, em horário nobre, afirmar em alto e bom som que entre a candidata escolhida por Lula da Silva e a de José Serra (já então seu arqui-inimigo), este seria muito mais preparado, porquanto, como ele, Ciro Gomes, já houvera sido governador, ministro e tal, enquanto Dilma Roussef não tinha nenhum atrativo em seu currículo.
Foi então que, orientada pelo mentor (Lula da Silva), a candidata a presidente ofereceu-lhe uma simples “coordenação de campanha”, no Nordeste. Foi o suficiente e bastante para emudecê-lo de vez. Tanto é que trocou de novo de posição: voltou com malas e bagagens para a candidatura Dilma Rousseff.
A pergunta, então, é: um cara desses, sem qualquer consistência programático-ideológica, é confiável ???



sábado, 20 de junho de 2020

"GIBA NELES" - José Nilton Mariano Saraiva


Que ele, em sua atividade, prestou relevantes serviços à nação, ignorar quem há de ??? Que nos fez sentir um orgulho imenso de ser brasileiro, como esquecer ??? Que serviu de exemplo para toda uma geração de jovens, alguém ousaria discordar ???. E como olvidar dos momentos prazerosos que nos propiciou ???
Mas… o tempo passa (OU PASSAMOS PELO TEMPO ???)
Fato é que, como ser humano, envelhecemos inexoravelmente e não há como disso fugir; e, em seu caso específico, mesmo sendo um atleta de ponta (e até por isso mesmo, já que o treinamento é por demais exigente e rigoroso) os músculos compreensivelmente teimam em não mais obedecer as ordens emanadas do cérebro, a flexibilidade já não é a mesma, o fôlego já escasseia, o cansaço chega mais cedo, o campo visual progressivamente se restringe, as contusões aparecem com mais constância e apresentam dificuldade de recuperação; e, em consequência, o rendimento jamais será repetido.
Melhor, então, ter humildade de reconhecer tudo isso, evitando que uma biografia irretocável seja manchada por simples vaidade, capricho ou teimosia. Impõe-se, pois, a entrega do bastão ao sucessor.
Assim, a chegada do “ocaso” de um ídolo é um momento extremamente penoso, sofrido e difícil, não só para o próprio, mas, principalmente, para a sua legião de admiradores, já que sempre existirá, intimamente, aquele desejo de “quero mais”, que “ainda dá” e por aí vai.
A reflexão acima é só pra pontuar que o nosso esplendoroso atleta “GIBA” (do vôlei), cuja história de vida e superação será sempre um exemplo pra gerações futuras (enfrentou e venceu um câncer, ainda na juventude), despediu-se da seleção brasileira com o travo amargo de uma derrota inexplicável numa final olímpica (depois de abrir 2 x 0 contra a Rússia e no terceiro set marcar 21 x 19, a seleção brasileira sofreu a virada de 3 x 2).
Restou-nos a certeza e o lamento que um ser humano tão especial merecia mais um título mundial em seu currículo, mais uma vez ser considerado o melhor do mundo, de novo uma medalha de ouro no peito. Chegou tão perto...
Como não deu, só nos resta saudá-lo efusivamente com o tradicional bordão do locutor global, que o Brasil inteiro aprendeu a gritar a plenos pulmões nas madrugadas ou manhãs de domingos, quando a seleção mais dele precisava: “GIBA NELES” !!!









sexta-feira, 19 de junho de 2020

"DÉJÀ VU" - José Nilton Mariano Saraiva

Os moradores de Fortaleza, todos sabemos que nas administrações Juraci Magalhães e Antônio Cambraia a cidade experimentou um surto de desenvolvimento inquestionável; e para corroborar isso, à época a muito bem bolada propaganda oficial anunciava que para se constatar o progresso vigente na cidade bastava “abrir a janela” e lá estavam viadutos, parques, novas ruas, praças, etc.
Uma dessas obras e de grande utilidade foi o Parque Parreão I, localizado no Bairro de Fátima (vizinho à Rodoviária, entre as avenidas Borges de Melo e Eduardo Girão) porquanto um local destinado a prática de caminhadas, atividades físicas, reencontro de amigos e por aí vai; enfim, um agradável e aprazível local para onde acorriam os moradores de diversos bairros, principalmente nas manhãs e finais do dia.
Compreensivelmente e como de praxe, a fim de registrar para a posteridade sua marca, a administração de então fincou numa das laterais do parque um modesto pedestal encimado por uma placa onde registrado estavam os nomes do prefeito e secretário responsável (Juraci/Cambraia), data da inauguração (03 de Setembro de 1993) e outras informações básicas.
De lá para cá o Parque Parreão I, por descaso e falta de manutenção, enfrentou um desgastante e corrosivo processo de degradação, com o consequente afastamento daqueles que o frequentavam, tendo em vista a invasão do pedaço por marginais de alta periculosidade.
Eis que, na atual administração da cidade, houve a “recuperação” do Parque Parreão I, só que com um detalhe ESTARRECEDOR e de uma DESONESTIDADE a toda prova: mantido o pedestal original, a placa com os nomes de Juraci Magalhães e Antônio Cambraia foi criminosamente substituída por uma outra onde os frequentadores tomam conhecimento que o Parque Parreão I foi “INAUGURADO” em 16.setembro.2014, na administração do prefeito Roberto Cláudio Rodrigues Bezerra, tendo como secretário da prefeitura um tal Samuel Antônio Silva Dias e chefe da regional IV o senhor Francisco Airton Morais Mourão.
Ou seja, no interstício de 21 anos - entre setembro/1993 e setembro/2014 - o Parque Parreão nunca existiu e nunca foi usado pela população (inclusive o signatário), foi apenas um sonho de verão (o que deixa os seus frequentadores com a ESTRANHA SENSAÇÃO DE “DÉJÀ VU”).
Além do desrespeito patente a um dos maiores prefeitos de Fortaleza (já falecido), tal atitude simboliza uma irresponsável e abusada tentativa de APROPRIAÇÃO INDÉBITA, porquanto os fortalezenses que usam o Parque Parreão I (já há mais de duas décadas) sabem que o próprio foi idealizado, projetado e inaugurado pela dupla Juraci Magalhães/Antônio Cambraia (no dia 03 de Setembro de 1993, é necessário que se repita). 
Conclusão: do jeito que está, temos configurada uma situação ilegal, imoral e amoral e, se restar uma nesga de honestidade ao atual prefeito da cidade a placa original (com os dados corretos) será reposta e, ao seu lado, aí sim, um outro pedestal e uma outra placa informarão da “REINAUGURAÇÃO” (e não “INAUGURAÇÃO”) do Parque Parreão I, na atual administração. É o mínimo que se pode esperar de pessoas com um átimo de ética, sensatez, honestidade e clarividência (difícil e encontrar na atual gestão de Fortaleza).
Portanto, “desonestidade” é a palavra apropriada a ser usada para explicar a estapafúrdia decisão do atual prefeito de Fortaleza de, em assumindo como se fossem suas grandes obras realizadas por prefeitos que lhe antecederam, tentar apagar da memória da cidade todo um passado.
E aqui urge que alguma providência possa ser tomada por quem de direito, sob pena de que tenhamos uma espécie de “exterminador da história”, já que dentro em breve uma simples reforma de um IJF, a ponte sobre o Rio Ceará, os viadutos que proliferam pela cidade e por aí vai, serão “INAUGURADOS” e terão sua paternidade atribuída ao atual prefeito da cidade.
Afinal, SE O “PARQUE PARREÃO” FOI INAUGURADO EM 16.09.2014 PELO ATUAL PREFEITO DA CIDADE, ESTARIAM SEUS FREQUENTADORES ACOMETIDOS DE “DÉJÀ VU” ???

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O que é Déjà Vu:

Déjà vu (pronuncia-se Déjà vi), é um termo da língua francesa, que significa “já visto”. Trata-se de uma reação psicológica que faz com que o cérebro transmita para o indivíduo que ele já esteve naquele lugar, sem jamais ter ido, ou que conhece alguém, mas que nunca a viu antes.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

DIAGNÓSTICO DO TEMPO




O verso, soldado nas vigas do tempo
Nem sempre cede às erosões
A tudo que lhe é adverso, rufiões
Que grunhem por ausência de talento

A sophia, perene é única e verdadeira
Não lateja e nem porfia em toda esquina
Onde o falso vate se amesquinha
Qual verso paraplégico que serpenteia

A Lei, que por vezes manca vacila
É a ilação das tão novas gerações
Ausentes de vossos corações
Uma razão... centelha que já não mais sibila

A horda de pigmeus infantes
Bastilhas se quedaram esfaceladas
Espectros do mal mais triunfante
Gigantes de pernas agrilhoadas

Eis o exame de uma era burlesca
Onde o asco se ameniza com a lembrança
Bucólicas paisagens tão pitorescas
Melancólico o tempo da intemperança

Antonio Sávio Nunes de Queiroz