por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sexta-feira, 23 de maio de 2014

Empeleita de Cristo



Os anos terminam por nos proporcionar algumas licenças poéticas que sempre foram  quase um monopólio das crianças. Aos mais erados , quebrado o Cabo da Desesperança, se lhes torna perfeitamente permitido mentir. As mulheres utilizam, geralmente, esta licença com a data de nascimento. Começam, pouco a pouco, uma contagem regressiva e, tantas vezes, acabam se tornando mais novas que os filhos e netos. Nunca se sabe , quando precisam declinar os anos, se se referem a qual das muitas idades que possuem : a Real que é um segredo mais guardado que os de Fátima; a Cartorial que muitas vezes são muitas e variadas e sempre carregam consigo a velha história que os pais aumentaram a data de nascimento para que pudessem votar; e, finalmente, a da Aparência, esta, de longe, a mais importante. Já os homens direcionam esta licença poética para a virilidade. Aí mentem como cachorro de preá, se apresentando aos amigos como verdadeiros Don Juans seniors, capazes de maratonas sexuais  inatingíveis mesmo para adolescentes com fogo em dia. E lá vamos todos nos enganando um pouco, com fins de tocar as inexoráveis limitações que nos imprimem os ponteiros opressivos do relógio. As mulheres ,meio maracujás-de-gaveta,  buscam remoçar da cintura para cima e os marmanjos madurões e pelancudos, da cintura para baixo.
                                   O velho Xilderico Capanema, por incrível que possa parecer, fugia à regra. Antes dos tempos áureos e de anil do Viagra,  do alto dos seus setenta e lá vai pedrada, enfrentou, impavidamente, os determinismos da Lei da Gravidade. Não mentia para quem quer que fosse, nem  a idade, nem os achaques que os anos lhe trouxeram ao vigor. Usava o lema típico do caboclo setentão:
                                    ---  A garrucha velha tá enferrujada ! Se encarcar o dedo no cão é danado pra bater catolé! Mas enquanto houver língua e dedo, mulher não me mete medo!
                                   A sinceridade de Xilderico tinha lá seus efeitos colaterais. Se abria mão  das balelas já próprias da idade , não engolia o caga-gomismo dos colegas da mesma geração. Na frente dele, neguinho ,já tendente à papa , não se apresentava com consistência de barra de ferro. Aos poucos, Capanema se foi tornando um desmistificador. Utilizava todos os meios disponíveis  para armar dossiês e desmascarar os gabões de Matozinho. Pagava a preço de ouro quengas na Rua do Caneco Amassado simplesmente para saber detalhes de alcova de alguns amigos e colegas metidos a cavalo-do-cão. Foi ele quem descobriu que o velho Anfrízio, que dizia  não se trocar por um rapaz de quinze anos, pagava a “Das Virgens”, uma quenguinha de “O Sorriso da Noite”,  para ela simplesmente espalhar que ele era um garanhão ainda na ponta dos cascos.  Soube ainda que Salustiano Canabrava era conhecido entre as meninas de vida fácil por “Retratista”. Só a peso de ouro conseguiu, com D. Maria Justa, uma das mais famosas cafetinas da cidade ,  desvencilhar a causa do apelido:
                                   --- Salustiano brochou já faz mais de vinte anos ! Ele agora  trabalha como fotógrafo de praça : é só no Lambe-Lambe !
                                    O maior pábulo de Matozinho nesta área, no entanto, chamava-se: Alderico Cilibrino. Funcionário aposentado da Receita Estadual, o homem se apresentava como um varão bíblico. Contava histórias de orgias que fariam Casanova entrar em depressão. Pois Xilderico, cavouca daqui, cavouca dali, descobriu  que o homem tinha o apelido, nas rodas cabarelísticas de “Campainha”. Novamente, nosso Poirot matozense caiu em campo e revelou-se a melindrosa razão, depois de molhar , novamente, as mãos pouco éticas de Maria Justa:
                                   --- Como uma campainha, Alderico só buzina se meter o dedo. Em ladeira bucetina,  o carro velho dele  só sobe se for reduzido !
                                   De posse de tamanho dossiê, na frente de Xilderico, quem tivesse rabo de palha, não acendia fósforo.  Ele, assim, podia tossir toda sua sinceridade sem ser incomodado e principalmente, sem risco de confronto.
                                   Semana passada, na Praça da Matriz, alguém resolveu dar uma conselho a Xilderico. Ele devia pintar o cabelo branco, que já parecia uma roça de algodão, assim era capaz de remoçar uns quinze anos.  Capanema sacou a sinceridade que vinha cultivando há muito tempo e cuspiu :
                                   --- Adianta,  não ! E o pau, sobe ?
                                   Um dia, no mesmo  escritório da Praça, Xilderico debulhava suas queixas relativas à tempestade dos anos, quando alguém lembrou de uma solução possível . Havia chegado um pastor de uma igreja pentecostal na cidade e andava fazendo milagres como no tempo de Salvador. Quem sabe se Xilderico fosse lá e, na hora da bênção, quando o pastor pedisse para colocar a mão em cima de um lugar que tivesse alguma doença, ele colocasse, discretamente, as mãos no meio das pernas, como se estivesse em barreira na hora de bater uma falta ?  Quem sabe , assim, um milagre se faria e a virilidade não voltava?  Xilderico, com a franqueza de sempre,  rifugou o tratamento :
                                   --- Adianta não ! Esse pastor pode até melhorar os moribundos, mas não ressuscita os mortos  ! O milagre de Lázaro, amigos, é empeleita pra Cristo !

Crato, 23/05/14

quarta-feira, 21 de maio de 2014

"Voa, passarinho, voa" - José Nilton Mariano Saraiva

Para os “analfas” da vida (como o encimado), para que alguém se credencie a integrar a corte maior do país (Supremo Tribunal Federal), necessário que, além do douto saber (conhecimento técnico específico), seja dotado de sensatez, discernimento, prudência, responsabilidade e parcimônia na hora de julgar e expressar-se, fazendo-o de forma clara e cristalina sobre as diversas demandas jurídicas que lhe chegam às mãos.

Lamentavelmente, entretanto, por aqui o “poder econômico” e o “poder político” continuam a interferir no “poder judiciário”. Assim, tornou-se recorrente a Polícia Federal investigar, o Ministério Público oferecer denúncia e o Poder Judiciário “bater fofo” na hora H, especialmente se o alvo da ação for alguém “com bala na agulha” (muita grana).

Quem não lembra, por exemplo, que num passado não tão distante, o ministro do Supremo Marco Aurélio Mello mandou soltar o bandido Alberto Caciolla, que houvera dado um monumental “cano” (rombo) no mercado financeiro, ao tempo em que sugeriu que, se fosse ele (já que tinha cidadania italiana), se mandaria para Itália.  Obediente, foi o que fez o marginal, dia seguinte.

Já o também ministro do Supremo, Carlos Veloso (hoje aposentado), mandou soltar o Paulo Salim Maluf e o filho Flávio Maluf, que haviam sido pegos com a mão na botija. Indagado sobre quais razões para fazê-lo, Sua Excelência candidamente disse que, teve “pena” de ver pai e filho presos, juntos. E o Maluf, como se sabe, até hoje não pode ir ao exterior, já que procurado pela Interpol (e não teve sentença final condenatória e como tem mais de 70 anos, sua pena, se houver, prescreverá em 2014).
Mais recentemente, o arrogante ministro Gilmar Mendes, na condição de presidente do Supremo Tribunal Federal, desmoralizou publicamente o Juiz Federal Fausto de Sanctis, ao mandar soltar (em duas ocasiões) o maior bandido do Brasil, Daniel Valente Dantas, que houvera sido trancafiado por determinação do juiz em apreço (por roubo).  E o Daniel Dantas, que junto com Maluf é um dos quatro brasileiros a constar na lista do banco Mundial como responsável por lavagem de dinheiro e desvios milionários, muito provavelmente deve estar operando novas maldades. Já o seu denunciante, delegado Protógenes, passou por maus momentos.
Agora, o recém nomeado ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, depois de ordenar que todos os inquéritos e ações penais da Operação Lava-Jato (assim como os mandados de prisão), fossem suspensos, reconhece ter-se precipitado e volta atrás, desdizendo o que dissera antes. Só que com um “pequeno detalhe”: o marginal-mór, o chefão de todo o esquema, aquele que comprovadamente meteu com vontade as duas mãos no erário público, senhor Paulo Roberto Costa (que estranhamente fora liberado, sozinho) não voltará à prisão. Continuará livre, leve e solto, provavelmente destruindo possíveis provas e, quem sabe, arquitetando uma previsível fuga do país.
Afinal, a “senha” já lhe foi apresentada: “VOA, PASSARINHO, VOA”, se possível pra bem distante daqui (ou alguém já esqueceu que o PC Farias, todo poderoso tesoureiro do Collor de Mello, foi bater na Tailândia ???).

segunda-feira, 19 de maio de 2014

"Simeone" - José Nilton Mariano Saraiva

Quando no exercício da sua atividade profissional (jogador de futebol), o argentino Diego Simeone ficou conhecido pela alcunha de “madeira de dar em doido”, popularmente adotada no meio futebolístico pra designar aquele jogador voluntarioso em excesso, de uma exacerbada valentia. Com Simeone, do pescoço pra baixo (evidentemente que do adversário) era tudo canela. E haja porrada, a torto e a direito. Às vezes até deslealmente. Às reclamações porventura existentes, a velha máxima: futebol é jogo prá homem, se quiser moleza vá jogar gamão.

Pois bem, apesar desse excesso de valentia, e até por isso mesmo,  Simeone brilhou não só na Argentina, mas mundo afora; mas, de tanto viajar e de tanto se dedicar e mostrar a velha garra portenha, cedo cansou, encerrando prematuramente a carreira.

Dedicou-se à função de treinador. E eis que consegue levar o modesto time do Atlético de Madrid (no qual atuou e foi campeão como jogador) ao título espanhol, depois de 19 anos na fila, desbancando os milionários e poderosos Real Madrid e Barcelona, que sobraram na curva. Sem dúvida, um feito espetacular e que alavancará sua carreira profissional.

O que chama a atenção no time por ele treinado é que seus comandados refletem a imagem e semelhança do antigo jogador Simeone, em termos de obediência tática, de dedicação, de entrega, de doação, de valentia, de vigor físico. Todo isso, aliado a um preparo físico excepcional, faz com que a equipe “simeonesca” se defenda em bloco e em bloco parta para fulminantes ataques (tal qual a seleção da Holanda, de 1974), daí a dificuldade dos adversários em derrotá-la. Claro que, aqui acolá imprevistos acontecem, mas normalmente a vitória é certa (foram apenas 04 derrotas em 38 jogos).

O título do Campeonato Espanhol foi mais um exemplo do sucesso do clube durante a "Era Simeone". Afinal, esse foi o quarto título até o momento do treinador desde que assumiu o comando em 2011: Liga Europa (2011-12), Copa do Rei (2012-13) e Supercopa da Europa (2012). 

E no próximo final de semana disputará com o Real Madrid, em campo neutro (Lisboa), o mais expressivo dos títulos em termos de Europa: a "Liga dos Campeões da Europa". Independentemente do resultado, Simeone já mostrou que veio para ficar. Definitivamente.


domingo, 18 de maio de 2014

Man of a Many Words - Alexandre da Mata & The Black Dogs



Socorro "O Batera dessa Banda foi meu Parceiro durante temporada em Tokio", essa banda é Show!! Apreciem sem Moderação..








Estivemos nas festividades comemorativas, dia 15, próximo passado, quando André Figueiredo foi agraciado com o título de cidadão cratense.
Embora não seja partidária tenho sempre imensa simpatia pelo PDT de Brizola.
André incorpora a ideologia do partido, e vem se revelando um líder, nas lutas pela melhoria da Saúde e da Educação do nosso país.
Acompanhado de Camila Arraes (nossa  queridíssima amiga e conterrânea), fica fortalecida a nossa esperança de feliz representatividade para o nosso Crato - nosso Cariri!
Parabéns, André Figueiredo. Você é um dos nossos!

sábado, 17 de maio de 2014

E... "o mundo não acabou" - José Nilton Mariano Saraiva

Quer admitam ou não os extremistas, foi um duro golpe ao movimento “não vai ter Copa nem Olimpíadas”, a ausência da população às suas manifestações, Brasil afora. É que, ao anunciarem de forma estridente e antecipada uma mega manifestação, espécie de “fim do mundo” nas cidades que sediarão jogos da Copa do Mundo, a idéia preconizada é que seria esta a grande oportunidade da população brasileira mostrar todo o seu repúdio e descontentamento com o Governo, face os gastos com as tais “arenas” onde realizar-se-ão os jogos do torneio futebolístico (só que, conforme restou constatado, os tais gastos com as “arenas” nem foram do Governo).

E, no entanto, o que a TV nos mostrou foram alguns gatos-pingados atrapalhando o transito e o ir a vir das pessoas nas grandes cidades, carreando para si a antipatia de boa parte da população, incomodada com a impossibilidade de chegar ao seu local de trabalho e/ou voltar pra casa ao anoitecer, ao fim de mais um dia de labuta. Pra completar, os famigerados e covardes “black-blocs” se aproveitaram da ocasião para mais uma vez exercitarem seu mafioso modus operandi: quebradeira generalizada do patrimônio público e particular, de par com o desrespeito para com os que não aprovam seus métodos criminosos de agir (e não venham com o papo-furado que se tratam de vândalos: são criminosos, mesmo; marginais de alta periculosidade, na acepção plena do termo).

Fato é que, como estamos às vésperas de uma eleição presidencial, com a realização de uma Copa do Mundo de Futebol em nosso país antecedendo-a, nesses poucos dias que faltam para o início da competição novas manifestações deverão eclodir, objetivando prioritariamente “provocar” ou instigar o Governo a partir para o confronto (inclusive físico, de suas tropas com os baderneiros), do que se beneficiariam os candidatos da oposição, tão carentes de idéias e discurso. Aliás, estes devem estar babando e torcendo para que o Governo radicalize, a fim de colherem os dividendos.

No mais, como o Brasil já está sob os holofotes da mídia internacional, nada melhor para os marginais e membros da oposição o desgastar o Governo através do “botar pra quebrar”, o provocar acintosamente, o chegar às raias da irresponsabilidade (como o fazem os tais “black blocs”), tudo em nome de uma suposta “democracia”. Só que aí estão propositadamente confundindo “democracia” com “anarquia”. E isso já foi percebido pela população, daí a não adesão ao movimento e, sim, sua repulsão.

Há que se ressaltar que ninguém é contra nenhum tipo de manifestação, desde que realizada dentro da ordem e da legalidade. Todo mundo sabe, por exemplo, que a repercussão das manifestações ocorridas em junho do ano passado se deu por não terem sido patrocinadas por radicais, sindicatos ou movimentos políticos de cunho revanchista (contra o Governo). Foi algo que brotou espontaneamente, daí o realce.

Cabe, pois, ao Governo, a tarefa de, nos limites constitucionais, obstar a anarquia e entender que o momento é de ter paciência e sensatez para suportar tudo isso; daí tais movimentos serem respeitosamente acompanhados pela segurança institucional (polícias estaduais).

Portanto, por ora a notícia é alvissareira: ontem, dia 16.05.14, ao contrário do que pregavam os profetas do caos (os eternamente do contra), “o mundo não acabou”. Estamos todos vivos. E, mais importante, teremos Copa, sim senhor.


Aleluia, aleluia !!!

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Completudes



                                          J. Flávio Vieira

Francisca  Eudóxia da Conceição.  Um nome enorme ! Nem carecia de sobrenome! Eram três nomes próprios se espremendo, como podiam, num só epíteto. Podia ter sido , sim , opção dos pais, se ela , um dia , os tivesse conhecido. Uma embirra qualquer deles ou uma escolha simples pela sonoridade das palavras: uma paroxítona, a martelada de um ditongo crescente, no meio, com ares de proparoxítona  e finalmente a oxítona como fecho. O mais provável, no entanto, é que tenha sobrado para o tabelião, o batismo da menina pobre, sem parentes ou aderentes conhecidos. Ao menos sobraram formas carinhosas de denominá-la :  Chica, Dodó, Ceiça.  Criada por outras almas pobres e, por isso mesmo, generosas, Francisca desde cedo seguiu o curso inexorável do seu destino de órfã. A luta pela sobrevivência tangeu-a da escola. Pequenina ainda ensaiou aprender o bê-á-bá, mas rápido descobriu que não levava jeito para as letrinhas e os números.  Começou como uma espécie de babá mirim de casais mais abastados e, já taluda, fez-se empregada doméstica. Disposta, trabalhava como um mouro, mas facilmente se percebia que a disposição física  buscava compensar uma leve deficiência mental. Mocinha , enrabichou-se por um caminhoneiro – Cacildo do Truck-- e andou juntando os trapos. O amancebo, no entanto, durou pouco. Um belo dia, uns dois meses depois de casada, Ceiça saiu em desabalada carreira de casa e fugiu de Cacildo, a partir daquele dia, como o vampiro do alho. Os patrões apertaram de um lado e do outro tentando saber a razão do desencanto súbito com as hostes matrimoniais. Ela, no entanto, desconversava, ficava trombuda e mantinha silêncio obsequioso.
                                   Eram muitas as histórias de Dodó, espalhadas de casa em casa, por seus múltiplos patrões.  Um dia o dono da casa chegou mais cedo , com ar pesado e cara de pouca conversa. Trancou-se no quarto e ligou um som com um disco de músicas clássicas: Ravel, Mozart, Schubert. Dodó ficou encucada com aquela trilha sonora . Que diabos estava acontecendo ? Acostumara-se às triviais  que curtia : breganejo ou forró puxado para o caribenho. Quando a patroa chegou já à noite, ela, preocupada, derramou sua apreensão:
                                   --- Patroa, a coisa tá feia ! O patrão chegou cedo em casa , se trancou,   e só ouve umas músicas estranhas,penosas ,  aquelas músicas de quando morre presidente...
                                   Chica morava  numa casinha “tomara que não chova” , na periferia da cidade. A vizinhança , na sua maior parte, era um ajuntamento de damas da noite e que borbuletavam por perto, em busca de clientes eventuais. No quenguismo, Chica percebera, havia uma clara estratificação social. Perto dela ficara a zona chamada de “farinhada” e que abarcava os mais lascados dos clientes : bêbados, trabalhadores rurais que vinham para feira, drome-sujos. As meninas, também, tinham perdido o aroma da juventude e, por isso mesmo, foram sendo jogadas, pouco a pouco, para clientes menos exigentes.  
                                   Um dia, a patroa percebeu que a funcionária chegava com sinais claros de noite mal dormida: olhos remelentos, bocejos, cochilos pelos cantos. Interrogou-a sobre a razão de tamanha moleza: entrara também na farra ?  Dodó, então, explicou as razões da indisposição. Passara toda noite acordada, por conta da zoada e burburinho das meninas  nas suas galinhagem e garipagem . Para tanto, usou um coletivo sacro-profano  totalmente inusitado :
                                   --- Não dormi um pingo, patroa ! A noite toda foi uma putaria só,  lá na rua ! Um mundo de quenga viçando !Era a Diocesa das Rapariga ! Vôte !
                                   Um dia,  as funerárias da vila lançaram uma novidade que rapidamente se alastrou,  tornando-se  um dos sinais de status : o carrinho para transportar o caixão. Antigamente o féretro carregava-se nas mãos dos próprios parentes e amigos que se iam revezando neste mister. Ceiça estava varrendo a casa quando ouviu um burburinho na rua. Aproximou-se da janela e percebeu tratar-se de um enterro. Coroas carregavam coroas, na frente ; meninas velas acesas e parentes soluçavam pelas beiradas, seguindo a turba. Dodó estava acostumada àquela atração de cidade pequena: a casa onde trabalhava era próxima ao cemitério local. Notou, no entanto, uma coisa esquisita. O caixão, aderira a uma novidade que não conhecia,  vinha em cima de um carrinho e empurrado pelos circunstantes. Rápido, ela gritou para dentro de casa, alertando a patroa da inovação :
                                   --- Chega,  Madrinha ! Corre ! Vem olhar um defunto andando de bicicleta !
                                   A história da súbita separação de Chica  sempre fora um dos maiores mistérios da vila. Que teria acontecido ? Por que deixara Cacildo, assim tão intempestivamente e, mais, de forma tão  definitiva?  Nem adiantava pressionar Dodó, ela se  danava e fugia do assunto como lobisomem do sol. Um dia, no entanto, numa confissão, Padre Arcelino pressionou. Por que ela tinha quebrado o sagrado sacramento do matrimônio?
                                   ---Casamento que Deus uniu, D. Francisca, só a morte separa ! Isso é pecado grave !
                                   Chica, chorosa, então, resolveu quebrar o segredo mais guardado que o terceiro de Fátima.
                                   --- Seu padre ! Eu cumpria minhas obrigações. Naquele dia, o diabo Cacildo chegou bêbado e com o cão nos couros. Pois , seu padre, ele queria era me acunhar por trás, já pensou? Espia !  Eu fiz foi rifugar ! Ele pensava o quê?  Que eu era mulé compreta ? Naaaannnn !

Crato, 16/05/14 

quinta-feira, 15 de maio de 2014

"Sufoco" - José Nilton Mariano Saraiva

Ainda a propósito da calamidade hídrica que atinge o todo poderoso Estado de São Paulo, que terá que se valer do “volume morto” (aquele resto d’agua que fica abaixo do nível das comportas) do reservatório de Cantareira, a fim de sanar sua sede e atender suas necessidades básicas, claro que nesse momento todos os brasileiros se unem num só sentimento de solidariedade e torcem (mas torcem mesmo) para que as águas caiam lá de “riba” e a coisa volte à normalidade. A situação é crítica, merece e precisa ser encarada como tal.

De outra parte, e sem qualquer revanchismo, o “sufoco” dos dias atuais servirá para que os paulistanos (e sua classe política, especialmente) se     conscientizem do que é se viver numa região semi-árida, onde a precipitação pluviométrica é deficiente, como o Nordeste brasileiro e, deixando de lado picuinhas políticas que a nada levam, atentem para a importância de uma obra da dimensão da transposição das águas do Rio São Francisco, tão criticada por eles (confiram, abaixo, sua grandiosidade e dimensão).

“O Projeto de Integração do Rio São Francisco faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do governo federal. Formado por dois canais que somam 477 quilômetros lineares, a integração do Rio São Francisco também envolve a construção de 14 aquedutos, 09 estações de bombeamento, 27 reservatórios e 04 túneis para transporte de água.  O projeto vai garantir a segurança hídrica de mais de 12 milhões de pessoas em 390 cidades de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.

A Estação de Bombeamento (EBI 1) é a primeira elevatória do Eixo Norte. No mês de março, o Ministério da Integração Nacional iniciou a montagem das duas bombas dessa estrutura. Cada equipamento (bomba) pesa cerca de 100 toneladas, o equivalente a 100 veículos populares. O processo de montagem dos equipamentos (bombas) é iniciado conforme as estações são concluídas.

Ao todo, três elevatórias estão em construção 24 horas por dia entre os municípios pernambucanos de Salgueiro e Cabrobó. As estruturas vão elevar a água em 176 metros acima do nível do rio São Francisco – altura que pode ser comparada a um prédio de 58 andares.  Cerca de 1.100 trabalhadores estão contratados para atuarem nesses serviços. As Estações são responsáveis por elevar a água do rio São Francisco, que serão conduzidas pelos canais que vão beneficiar os estados de Pernambuco, Ceará e Paraíba.”