por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 18 de abril de 2013

Fel




     
  A notícia não podia ser menos alvissareira. Uma semana antes da encenação da Paixão de Cristo, em Matozinho, caiu aquele petardo :  Caligário Cobongó  estava de cama. Uma dengue o pegara de mal jeito , estava  quebrado como arroz de terceira. Não  achava canto, rebolando dia e noite , parecia quebra-queixo em boca de banguelo.
                                               ---Devo ter caído de um avião ou fui atropelado  por uma Scania ! Isso não pode ter sido obra de um mosquito só não, meu amigo !  Vieram de ruma , como maracanã atacando roça de milho !  Avisem na igreja, esse ano eu passo !
                                               A confusão estava instalada. A Paixão era uma das festas mais populares de Matozinho. Encenada sempre na semana santa, contava com a presença marcante de Caligário, há mais de dez anos. Ele trabalhava como magarefe, era bombado, alto, vistoso  e cultivava uma barbona fechada e longa, além de cabelos fartos que lhe caiam aos ombros. Cobongó fazia o Cristo , seu tipão tornara-se inconfundível. O ator, diziam as más línguas, nem descia do palco. Apesar de um trabalho de um dia só ao ano, levava os outros trezentos e sessenta e quatro , todo pábulo , importante e não falava sem impostar a voz. Difícil para a  produção da peça imaginar um Cristo outro que não se tratasse do nosso magarefe.
                                               A  Associação do Sítio Pau-Dentro  , promotora do evento, através do seu presidente Raimundo Catingueira ( “Rai”, para os íntimos), chamou uma reunião de emergência. E agora ? Logo o papel principal, se fosse ao menos um Zé de Arimatéia, um Pilatos, um São José ! Mas logo Cristo ! Como arranjar um substituto, um suplente à altura ? Várias possibilidades foram apontadas, mas batiam sempre , no tipo físico do Mestre. Pedro Grande  atuava direitinho, mas era tamborete de samba. Mané Magro, um carpinteiro, extremamente responsável, já encenara vários personagens, mas ultimamente andava gordo demais, parecido com um landrace. Júlio Cananéia , o vigia da praça, taludo e forte, levava jeito para a coisa, mas era perneta. Alguém, então, lembrou Jojó Fubuia, o maior pinguço da Vila. Jojó era um varapau, tinha uma barba grande, mas descuidada, desasnado,  só havia uma contra-indicação : bebia como uma esponja. Rai, por fim, entre todas as hipóteses apresentadas, chegou à conclusão que a melhor opção, apesar dos pesares, era mesmo Fubuia. Mas, claro, algumas providências urgentes necessitavam ser feitas.
                                               Procuraram o pinguço, na manhã seguinte, cedinho. Ainda carregava o bafo de cana do dia anterior. Rai , líder da comitiva do Pau-Dentro, explicou-lhe a questão. Cobongó estava doente e precisavam dum ator substituto, um estepe de Cristo. Jojó se interessou. Todo mundo persegue os seus vinte minutos de fama !
                                               --- A gente leva a maior fé em você Jojó. Sabemos da sua capacidade ! agora, só tem um problema. Você não vai poder beber até o dia da Paixão! Um Cristo bêbado seria o fim ! Se topar, tá contratado!
                                               Jojó concordou, até porque tinha certeza que seria impossível vigiá-lo até lá. Haveria sempre a possibilidade de uma escapadinha. A Associação, no entanto, enquanto Jojó pegava na castanha,  já tinha engolido o caju. Rai falou com o Delegado Honorino Catanduva e pediu a ajuda nesta empreita. Naquela manhã mesmo Honorino deu voz de prisão a Jojó e o trancafiou.
                                               --- Só sai do xilindró direto pra Paixão de Cristo, seu Jojó ! Esse é o único jeito de você não encher a cara e cometer uma blasfêmia em plena Semana Santa. Joviu ?
                                               Jojó  não teve escolha. Tinha prometido ! Mas cinco dias sem melar o bico, é demais ! No terceiro ,  já subia pelas paredes. Estava trêmulo e vendo bicho em tudo quanto era canto. Dormia com o jacaré do lado.  No dia da Paixão, um sábado de aleluia, falava palavras estranhas , talvez em aramaico. O figurino e a maquiagem foram preparados na própria cela. Rai prometeu , então,  a Jojó que, se tudo saísse a contento, ao terminar a encenação o presentearia com dois litros do seu sobrenome : Fubuia.
                                               O cortejo saiu na rua. Rai , para controlar mais nosso Salvador, vestiu-se de centurião e andava ali pertinho dele, o chicoteando. As ruas de Matozinho estavam repletas. Os rostos piedosos e contritos acompanhavam o sofrimento do Filho do Pai.  Jojó manteve-se até tranqüilo. Os olhos mais esbugalhados do que sempre e as mãos trêmulas derrubaram a cruz por muito mais vezes do que se previra no roteiro e no Evangelho. Tentou ainda comer a toalha que Zé de Arimatéia trouxe para enxugar seu rosto. Quis dar um pesqueiro em Pilatos na hora que Barrabás acabou libertado. Na Ceia Larga bebeu o copo de vinho e tirou gosto com o pão inteirinho.  Quando Judas veio beijá-lo à frente dos soldados, sapecou-lhe um beijo na boca, desses de dar enfarte em Feliciano.
                                               O Gólgota foi preparado nas proximidades do Açude do Sabugo, na subida da Serra da Jurumenha. O Cristo lá chegou jogando impropérios para tudo quanto é lado. Foi pregado na cruz a contragosto. Rai, então, teve uma idéia salvadora. Fincada a cruz, com o Filho do Pai se contorcendo mais do que se devia esperar, Rai molhou o chumaço com cachaça ao invés de fel e levou-o  aos lábios do Cristo. Os olhos do redentor, de repente,  brilharam e ele sorveu o fel com tanta força que quase engolia o chumaço. O  centurião imaginou  que assim o acalmaria até o final da crucificação. Passados alguns minutos, com o Filho do Pai ainda lambendo os beiços e em busca de mais fel, ele gritou desesperadamente a frase sagrada ( um pouco adaptada, claro):
                                               --- Rai ! Rai ! Por que me abandonastes ?
                                               E, demonstrando toda vocação para o sacrifício,  berrou a todos pulmões :
                                               --- Mais fel ! Mais fel ! Eu quero mais fel !

J. Flávio Vieira

O "livrinho" - José Nilton Mariano Saraiva

E o “livrinho” conhecido por ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente – em razão dos exagerados privilégios, da brandura excessiva e das inigualáveis benevolências para com o “menor de idade”, acabou por ser assimilado (por alguns), como uma espécie de abrigo ou “porto-seguro” pra marginais de toda espécie. E isso ficou comprovado quando do assassinato estúpido e violento de um torcedor boliviano (menor de idade) por parte da torcida organizada Gaviões da Fiel, do Corinthians, durante um jogo de futebol.
De princípio, por se tratar de um país não tão expressivo como o Brasil, até que não houve muita preocupação com a sorte dos doze integrantes da “Gaviões”, detidos pela polícia boliviana como supostos responsáveis pelo crime, na perspectiva que logo seriam liberados e retornariam sem maiores atropelos ao nosso país, a fim de continuarem a farra. Como, na prática, tal desiderato não funcionou, e a coisa fez foi engrossar, já que a Justiça boliviana houve por bem (corretamente) procurar e punir o(s) culpado(s), partiu-se para a elaboração de uma vergonhosa “maracutaia”: um desses advogados “eficientes” da vida (bancado pelo Corinthians) apresentou-se numa delegacia, em São Paulo, com um “menor de idade”, que teria se apresentado voluntariamente e se responsabilizado pelo lançamento do sinalizador marítimo que vitimou o boliviano (evidentemente que a família do próprio deve ter sido muito bem remunerada, tanto que a própria mãe o acompanhou à delegacia, além do que devem ter lhe dito da brandura da pena, já que dentro de três anos  o “coitadinho” estaria de volta aos estádios da vida, livre, leve e solto).
Como, no entanto, a polícia boliviana não caiu nesse “conto-do-vigário”, de repente o tal menor de idade (que houvera assumido a autoria do crime, lembremo-nos), sumiu de circulação, evaporou-se, escafedeu-se (pelo menos não se falou mais do próprio). E a máscara caiu de vez, a farsa desnudou-se em toda a sua pujança e a mentira comprovou ter pernas curtas quando, num atestado insofismável de quão se perderam na condução da coisa, pateticamente os advogados do clube apresentaram uma outra versão da história: agora, a conversa era de que, de acordo com estudos elaborados por especialistas, comprovado restou  que, de acordo com o ângulo tal, a distância percorrida, a força com que o torcedor foi atingido e por aí vai, o tal sinalizador não teria partido de onde estavam os integrantes da Gaviões da Fiel e, portanto, o indigitado torcedor teria sido vítima dos próprios bolivianos. Esqueceram (???) que a televisão mostra claramente que o sinalizador partiu exatamente de onde se achavam os integrantes da "Gaviões da Fiel". Portanto, a emenda parece ter saído pior que o soneto.
Fato é que, juntando-se as duas prematuras mortes, na Bolívia (com a posterior “compra” de um menor de idade para servir de “escudo-protetor” dos verdadeiros assassinos) e a ocorrida em São Paulo (quando um "menor" foi flagrado executando um adolescente), o clamor pela imediata mudança da lei que trata da tal “maioridade penal” tende a ganhar corpo, espraiar-se pelo Brasil.
Afinal, ficou mais que patente que o tal “livrinho” é por demais brando, recheado de privilégios, repleto de estímulo a que advogados sem escrúpulos tentem dele fazer uso para proteger os “menores-coitadinhos” da vida.  E a verdade é que, ou se altera a essência do "livrinho" (reduzindo a idade para o enquadramento como "menor de idade") ou estaremos condenados a se transformar em eternos reféns dessa cambada de marginais que se escondem sob o rótulo de "menor de idade".
Como os que podem modificar o "livrinho" (nossos políticos), já se manifestaram contrários, resta à sociedade forçar a barra e exercer a pressão necessária para dissuadí-los. 
À luta. 

terça-feira, 16 de abril de 2013

"Made in Coréia" ??? - José Nilton Mariano Saraiva


É bem verdade que é precipitado aventar a hipótese, mas atentemos para a relevância do detalhe: como já há algum tempo a mídia vem dando destaque a uma outrora inimaginável incursão militar da Coréia do Norte contra os Estados Unidos, não custa imaginar (e é bastante plausível, sim senhor) que o atentado terrorista (de novo) em solo americano (desta vez na cidade de Boston), talvez tenha sido uma obra "made in Coréia". 
Teriam tido eles a coragem para tanto ??? Não ficaria muito evidente, em razão das "amabilidades" trocadas pelos dois países nos últimos dias ???
Fato é que o FBI já entrou no jogo e a verdade é que existe, sim, o perigo iminente da conflagração de mais uma guerra, porquanto governo e povo americano não deixarão passar barato mais uma desmoralização mundial. Que vai haver troco, não restam dúvidas. Fiquemos atentos ao desenlace, nos próximos dias.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

“No futuro, não serão considerados analfabetos apenas aqueles que não souberem ler, mas também quem não entender o funcionamento de uma máquina fotográfica” Escrita em 1936 pelo fotógrafo Húngaro László Moholy-Nagy OFICINA DE INICIAÇÃO À FOTOGRAFIA... Por: Pachelly Jamacaru Trata-se do ABC da Fotografia, para pessoas que são aficionados por esta Arte, mas que estão realmente iniciando! Período: Mês: Maio, DIAS: 6,7, e 8 Horário: 19h às 21.30h LOCAL: Centro do Crato – Rua José Carvalho 251 Inscrição: até o dia 25 Os pretendentes manifestem interesse deixando MSG aqui ou me procurando. Inscrições até o dia: 25 de Abil. Foto: Foto da Silhueta Dihelson Mendonça

"Passaporte para matar" - José Nilton Mariano Saraiva


Até aqueles que, por descaso ou preguiça, não querem nada com a vida, sabem que na terra “Brasilis” constitui-se privilégio do Presidente da República e/ou os integrantes do Congresso Nacional o poder de, através do instrumento conhecido por PEC (Proposta de Emenda Constitucional), modificar de forma específica e pontual a Constituição Federal. E, como não se muda uma Carta Magna por bel prazer, o ideal seria que prevalecessem razões consistentes e relevantes para a materialização das mudanças reclamadas, em razão dos reflexos espraiados pra toda a sociedade. Pelo menos esse é o espírito da coisa. E o nosso Poder Legislativo (Congresso Nacional), estuário constitucional das demandas sociais, deveria primar por sua aplicação.   
Entretanto, como nem sempre prática e teoria formam um casal perfeito, em determinadas ocasiões os inescrupulosos integrantes do nosso Congresso Nacional (sempre eles, com as exceções de praxe) tratam de avacalhar a questão, ao darem um jeito de legislar em causa própria, sem maiores responsabilidades com a seriedade e a justeza da causa. Ou alguém já esqueceu que, ao preço de R$ 200.000,00 (duzentos mil reais) por voto (conforme declaração espontânea de um deles), os “nobres” representantes do povo não titubearam em chancelar a ânsia de mais um ano no poder, manifestada pelo então presidente José Sarney, aumentando-lhe o mandato (via PEC) e, por tabela, o suplício de todos nós, vítimas indefesas de um presidente incompetente e venal. Em outros casos e outras situações, o modus operandi repetiu-se, sempre privilegiando os poderosos e penalizando os necessitados (os aposentados que o digam, quando nos enfiaram goela abaixo o tal “fator previdenciário).
A reflexão acima é só pra lembrar um tema realmente relevante (e atualíssimo) que já deveria ter sido objeto de estudos e reflexão, mas que continua emperrado, lá nas instâncias superiores: referimo-nos à necessidade de se rever a lei que define a tal da “maioridade penal”. Afinal, não é de hoje que, graças a uma legislação caduca e a códigos de conduta arcaicos e por demais benevolentes, os “menores-coitadinhos” do Brasil se escudam atrás dessa verdadeira anomalia em nosso sistema jurídico, para  insistirem, persistirem e nunca desistirem de usar e abusar da impunidade lhes conferida, danando-se a cometer, diuturnamente, os mais hediondos e abjetos crimes. E ainda temos que suportar o absurdo dos absurdos: ao serem detidos ou se apresentarem voluntariamente (sem qualquer temor), já chegam admitindo a autoria do crime bárbaro, mas, incontinente, ressalvam para a autoridade constituída serem “menor de idade”. Como que cinicamente admitindo: fiz, sim, mas você não pode fazer nada comigo.
O retrato emblemático de tal excrescência deu-se agora em São Paulo, quando um jovem estudante, certamente que com um belo futuro à frente, foi executado covarde e sumariamente por um desses “marginais-menores” da vida, sem dó nem piedade. Embora que por linhas tortas, tal tragédia deveria constituir-se uma ótima oportunidade para se pensar seriamente na promulgação de uma Proposta de Emenda Constitucional que reduzisse a idade mínima para a tal “maioridade penal”, ao tempo em que, numa tentativa de inibir tal barbaridade, dar-se-ia um jeito de aumentar o castigo para os que cometessem qualquer delito atentatório à vida. E mais: que se exigisse o cumprimento integral da pena estabelecida, sem essa de afrouxar para esses “vermes” que infelicitam muitas famílias envolvidas. Acabemos com essa história de progressão de pena, de indulto natalino, banho de sol e coisas tais. Se foi condenado a 200 anos de detenção, que se cumpra os 200 anos e se possível em regime fechado. Além do que, a imagem do bandido deveria ser veiculada, sim, em rede nacional, para que todos o conhecêssemos.
Até em termos pedagógicos essa seria a hora para que nossos políticos agissem em consonância com a sociedade, mostrassem que se acham solidários com o perigo que nos ronda diuturnamente e, enfim, que são dignos do nosso voto. Mas, aí, o que acontece ??? “Eles” (nosso políticos, claro), navegando na contramão da história e relegando o bom senso, de pronto deitam falação sobre a inconstitucionalidade de qualquer medida que vise reduzir a maioridade penal, bradam em alto e bom som que tal medida só faria piorar as coisas e por aí vai, sem que lembrem (convenientemente) que bastaria a aprovação e promulgação de uma PEC específica, objetivando obstar tal aberração.
Fato é que, se medidas duras não foram tomadas, os nossos “menores-coitadinhos” continuarão agindo impunemente e mais e mais famílias serão infelicitadas por esse Brasil afora. Por uma razão simplória: o tal livrinho, que versa sobre o “menor de idade”, transformou-se e constitui-se hoje num autentico “passaporte para matar”.

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Post Scriptun: 01) Agora, aqui prá nós: alguém duvida que se alguém se dispusesse a “pagar” para que “eles” emendassem a Constituição com esse objetivo, eles o fariam de pronto ??? 02) E se  a vítima fosse um dos familiares deles (esposa, filho, pai), será que se sensibilizariam ???  

Abriu pra Juventude será realizado no Crato


Tiago Araripe por José Flávio Vieira

 Tiago Araripe sempre foi a maior vocação literária da minha geração. Era o que escrevia melhor entre todos nós. A música terminou roubando-o para suas hostes. O show foi super legal. A banda ótima e as sonoridades de Tiago continuam na vanguarda, molhadas da Lira Paulistana. Sua poesia, no entanto, sempre me pareceu o ponto mais alto das suas músicas ( como sou mais ligado à literatura, talvez seja suspeito), poeta conciso, com um humor leve e fino, úmido do concretismo que vivenciou bem em Sampa com Décio Pignatari e muitos outros. Ave !

domingo, 14 de abril de 2013


Este texto e as fotos fazem parte de um vídeo preparado para um ex-pescador de Paracuru que hoje é dono de um dos melhores restaurantes de peixada da cidade. João do Sapuril sofreu um grave naufrágio quando comandava um barco de pesca de lagosta e isso o afastou definitivamente do mar. O apelido Sapuril se refere à piada mesmo e a um recanto que havia na Praia do Futuro em Fortaleza. O restaurante do João fica na Praia da Pedra Rachada em Paracuru.

Esses são meus cumprimentos por me encontrar novamente na companhia do povo da minha terra. Desta comunidade que por vezes se agasta com minhas idéias e até por certo espírito político combativo, mas o motor do mundo é mesmo a contradição. De qualquer modo é um imenso prazer está aqui neste blog com os lutadores de sempre, o Mariano, Zé Flávio, Carlos Esmeraldo, Stela, e tanta gente que não vou citar para não expor as falhas de memória no correr da pena. Em especial um grande abraço a este amor de pessoa que é a Socorro Moreira. O exercício do amor em forma de pessoa.

Cheguei.

José do Vale Pinheiro Feitosa

"Bãião de Nós"- Tiago Araripe



Auditório do SESC ficou lotado para assistir Tiago Araripe, na noite de ontem. Rolou aplausos emocionados, na interação com o trabalho bem cuidado de um artista, que tem raízes nas terras do Cariri, notadamente do Crato, sua cidade natal.

Letras inteligentes, bela voz, musicalidade  contemporânea.

Pedimos bis, e escutamos prazerosamente, "Gregório"!

-Um convite lúdico a uma  vida mais gregária!

A plateia entusiasmada viveu uma noite inesquecível.

Fica o desejo da reprise, mesmo tendo em nossos pertences um  exemplar do CD .

Que Tiago Araripe possa voltar muito em breve para o deleite do nosso povo.

Parabéns, Tiago!
Sucesso!!!
Nosso abraço carinhoso, pessoa querida!

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Pilates



 Pilatos perguntou: Que farei então de Jesus, que é chamado o
Cristo? Todos responderam: Seja crucificado!
 O governador tornou a perguntar: Mas que mal fez ele? E gritavam
ainda mais forte: Seja crucificado!
Pilatos viu que nada adiantava, mas que, ao contrário, o tumulto
crescia. Fez com que lhe trouxessem água, lavou as mãos diante do
povo e disse: Sou inocente do sangue deste homem. Isto é lá convosco!
Mateus 27: 22-24


                                   François não se abalou muito quando a notícia chegou subitamente à Delegacia , trazida por um desses meganhas de plantão. Assumindo aquele cargo há mais de dez anos, já se acostumara com o cheiro forte de sangue, correndo e fervendo pelo asfalto quente, em feitio de chouriço. Se os homens carregavam consigo um anjo e um demônio, ali , naquela seccional do inferno, não dava para perceber a face angelical. Viera substituindo o delegado anterior , aquele que tivera uma administração eivada de denúncias múltiplas : roubo, cumplicidade com o crime organizado, tortura de prisioneiros, vistas grossas para prostituição de menores, preconceito nas ações repressivas . Possivelmente fora escolhido não pelo histórico favorável de pureza e lhaneza de trato. François carregava consigo o mesmo pecado original : durão, não poucas vezes julgara pretensos bandidos à pena de morte e executara a penalidade sem nenhum remorso. Comparava sua função a de um urubu : “Temos que comer a  carniça e livrar a sociedade do mal cheiro! Mesmo assim todos vão ter nojo de nós !” Nosso Delegado tinha uma qualidade que o fazia bastante singular. Era tranqüilo,  transparecia uma aparente  calma budista, educação e segurança e possuía grande traquejo no trato com a mídia. Seus superiores tinham, em mãos, o candidato ideal : um esgotador de fossa séptica que conseguia não se imantar de qualquer cheiro pútrido.
                                   A chegada do samango, meio aflito, naquela tarde de sexta feira, não o tirou do sério. Com palavras que quase se abalroavam umas nas outras, contou o ocorrido. Estava havendo um grande B.O. , naquele momento, no centro da cidade. Um adolescente furtara um celular de uma vitrine e saíra em desabalada carreira. Várias pessoas presenciaram o ocorrido , firmaram trincheira e se puseram , na perseguição do menor. Cercaram-no na praça principal da cidade. O soldado tentara conter a turba, mas sozinho, corria o risco de entrar no pau, também. Viera então pedir ajuda ao Delegado para juntar contingente e evitar o pior.
                                   François levantou-se sem atropelo. Estranhamente, chamou apenas o seu subordinado e partiram céleres para praça, a apenas uns cem metros da Delegacia. Poderia ter arregimentado outros soldados, mas preferiu enfrentar a questão sozinho. Em lá chegando, deu de frente com os preparativos do massacre. No chão, um menino todo ensangüentado, olhos injetados de terror. Ao derredor,  a turba enfurecida , incontrolável, a espezinhar e chutar seguidamente o rapazinho. François tomou a frente e pediu calma que a justiça estava ali representada. A multidão, porém, como um estouro da boiada , não lhe deu ouvidos. O delegado estava armado e ainda pensou em dar um tiro para cima para amedrontar os circunstantes. Mas depois ponderou consigo mesmo : tinha que respeitar a democracia, a maioria sempre tem razão, não é mesmo ? Ademais, não existe crime possível cometido por tantas pessoas ajuntadas. Ele, por outro lado, fizera já a sua parte, bem que tentara, mas não conseguira evitar , né ?  Nisso , um paralelepípedo foi arremessada na cabeça do pobre infrator , como um golpe de misericórdia. O sangue espirrou . Algumas gotas terminaram por tingir a roupa e os braços do delegado. Ele saiu, calmamente, e lavou as mãos na fonte da praça. Saiu conformado. Bem que tentara ! Alguma coisa porém travava o seu peito, como se tivesse ali uma porta de ferro com tramela.
                        À tarde, deu uma esmola de dez reais a um mendigo que o estendera a mão na rua.  Saiu leve e reconfortado. Não fizera nada, afinal ! Fora apenas um mero espectador. Sou uma pessoa simples e caridosa , pensou com seu cassetete,  preenchendo um silêncio esquisito que ecoava de dentro da alma. Entrou na academia e foi fazer Pilates !

J. Flávio Vieira

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Justiça, ainda que tardia. - Por Carlos Eduardo Esmeraldo


A chamada PEC das domésticas, emenda constitucional que veio igualar essa categoria de empregados aos demais trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis Trabalhistas, tem causado indignação à grande parcela das elites, justamente aqueles que não se livraram da pose de "senhores de engenho."

Alardeiam o aumento do desemprego da categoria, numa espécie de terror injustificável por parte de pessoas que possuem residência de praia ou casa de veraneio nas serras com adega repleta de whiski e outras bebidas importadas, anualmente trocam de carro, viajam à Europa, Estados Unidos, Argentina ou Chile.

Embora muitos empregadores domésticos há anos assinam as carteiras de trabalho, pagam os direitos trabalhistas: INSS, FGTS, Plano de Saúde (que infelizmente "esqueceram" de incluir na lei.), férias de 30 dias por ano, além de outras vantagens, a reação das elites é forte.

Mal a legislação foi aprovada, um deputado paulista do PSDB, entrou recentemente com uma proposta de regulamentação da lei, em que propõe zerar a multa do FGTS nas demissões sem justa causa e baixar de vinte para oito por cento a contribuição ao INSS. E esse deputado que se diz porta voz das domésticas teve a coragem de dizer que deseja evitar o desemprego em massa. Na realidade, está atuando em favor dos patrões, isto é; das elites, como sempre foi a prática do seu partido. 

Fui criado numa família do meio rural, com muitos irmãos, onde não faltavam servidores domésticos, numa época sem nenhuma lei que protegesse esse pessoal. Mas logo percebi que deveria seguir a mesma legislação com a qual era tratado no meu emprego.

Finalmente fez-se justiça com a maior classe trabalhista brasileira, derrubando definitivamente a escravidão no nosso país.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

"13 minutos" - José Nilton Mariano Saraiva


Todo mundo sabe que a indústria cinematográfica americana adora transportar (com extrema competência) para o cinema, aquelas ações do cotidiano que causam impacto à população (terremotos, furacões, tsumanes, ataques terroristas e por aí vai), até porque rende muita, mas muita grana mesmo.  Mas, em 2001, quando os árabes liderados por Osama Bin Laden impingiram à maior nação do mundo a suprema humilhação da sua história, ao seqüestrarem aviões americanos e os transformarem em bombas letais que derrubaram as Tôrres Gêmeas de Nova Iorque e parte do Pentágono (sede do comando militar), o governo americano teria reunido roteiristas, diretores e produtores do cinema americano e terminantemente “proibido” que tais ocorrências fossem imortalizadas, via cinema (embora a televisão tenha filmado e divulgado, ao vivo, parte do “show”). A exceção foi o filme o “Voo 83”, que pretendeu transformar a tragédia numa espécie de vitória americana, ao narrar que o quarto avião terrorista, que iria ser jogado sobre a Casa Branca, sede presidencial, teria sido derrubado de forma até heróica pelos passageiros, ao pressentirem para onde se dirigia e com qual objetivo; assim, melhor que todos morressem (suprema glória) para salvar o presidente da nação  (no entanto, há a suspeita de que, sem se importar com  as dezenas de americanos em seu interior, teria a força aérea yanque sido ordenada a derrubar o avião, antes que conseguisse o seu desiderato).
Nos dias atuais, saíram de cena os árabes e a “bola da vez” seria o exótico mandatário da longínqua Coréia do Norte e seus militares, que, insatisfeita com os Estados Unidos, estaria disposta a “bater de frente” com os americanos, inclusive com o uso de armas nucleares de longo alcance. Se realmente possuem “bala na agulha” pra isso ninguém sabe, mas o fato é que existe a ameaça diuturna e a conseqüente promessa de retaliação, de pronto.
Coincidentemente, está em cartaz nas telonas (cinema) o filme americano “Invasão à Casa Branca”, que nos mostra a facilidade com que, numa ação violenta e fulminante, um grupo de ...norte-coreanos, toma de assalto a sede do poder central americano, fazendo de refém o seu presidente e principais assessores para, a partir daí, se apossarem do seu  arsenal nuclear, através da obtenção forçada de um código específico. E aí, pequenas falhas dos produtores do filme:  01) no diálogo entre o chefe terrorista e o presidente americano, aquele diz para este: “...sua segurança gasta 15 minutos pra se deslocar até aqui; eu precisei de apenas 13 minutos pra se apossar da sua Casa Branca” (será que é isso mesmo ???); 02) numa discussão entre o Chefe do Estado Maior americano e o presidente em exercício, aquele diz pra este que o presidente deve se achar no “bunker” existente no subsolo da residência oficial, “...capaz de suportar até um ataque nuclear” (mais tarde, os terroristas explodem o tal “bunker” com “quatro bombinhas” introduzidas com uma furadeira mixuruca em uma das suas paredes laterais, saem com o presidente, usado como "escudo de proteção" e de lá se mandam;  03) por fim, o herói, um renegado ex-segurança presidencial se redime de uma falha anterior (quando a esposa do presidente foi morta), ao salvar o filho do presidente, abater todos os norte-coreanos (inclusive o chefão) e sair ovacionado de uma destruída Casa Branca, abraçado ao chefão, ambos feridos.
Ato final (e já tradicional nos filmes americanos):  já refeito, o presidente fala para o mundo enaltecendo os valentes americanos que perderam a vida na batalha, da certeza de que a América é indestrutível e, finalmente, como bom católico que é, não esquece de agradecer a Deus pelo desfecho final.
Apesar dos “efeitos especiais”, fraco o filme, mas que se destaca por ser lançado (coincidentemente ???) no momento  em que, na vida real, Estados Unidos e Coréia do Norte trocam “amabilidades”.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Política - Cynara Menezes (Carta Capital)


O perfeito imbecil politicamente incorreto


No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião. Saiba como reconhecê-lo.

Em 1996, três jornalistas –entre eles o filho do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa, Álvaro –lançaram com estardalhaço o “Manual do Perfeito Idiota Latino-Americano”. Com suas críticas às idéias de esquerda, o livro se tornaria uma espécie de bíblia do pensamento conservador no continente. Vivia-se o auge do deus mercado e a obra tinha como alvo o pensamento de esquerda, o protecionismo econômico e a crença no Estado como agente da justiça social. Quinze anos e duas crises econômicas mundiais depois, vemos quem de fato era o perfeito idiota.


Mas, quem diria, apesar de derrotado pela história, o Manual continua sendo não só a única referência intelectual do conservadorismo latino-americano como gerou filhos. No Brasil, é aquele sujeito que se sente no direito de ir contra as idéias mais progressistas e civilizadas possíveis em nome de uma pretensa independência de opinião que, no fundo, disfarça sua real ideologia e as lacunas em sua formação. Como de fato a obra de Álvaro e companhia marcou época, até como homenagem vamos chamá-los de “perfeitos imbecis politicamente incorretos”. Eles se dividem em três grupos:
1. o “pensador” imbecil politicamente incorreto: ataca líderes LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trânsgeneros) e defende homofóbicos sob o pretexto de salvaguardar a liberdade de expressão. Ataca a política de cotas baseado na idéia que propaga de que não existe racismo no Brasil. Além disso, ações afirmativas seriam “privilégios” que não condizem com uma sociedade em que há “oportunidades iguais para todos”. Defende as posições da Igreja Católica contra a legalização do aborto e ignora as denúncias de pedofilia entre o clero. Adora chamar socialistas de “anacrônicos” e os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura de “terroristas”, mas apoia golpes de Estado “constitucionais”. Um torturado? “Apenas um idiota que se deixou apanhar.” Foge do debate de idéias como o diabo da cruz, optando por ridicularizar os adversários com apelidos tolos. Seu mote favorito é o combate à corrupção, mas os corruptos sempre estão do lado oposto ao seu. Prega o voto nulo para ocultar seu direitismo atávico. Em vez de se ocupar em escrever livros elogiando os próprios ídolos, prefere a fórmula dos guias que detonam os ídolos alheios –os de esquerda, claro. Sua principal característica é confundir inteligência com escrever e falar corretamente o português.
2. o comediante imbecil politicamente incorreto: sua visão de humor é a do bullying. Para ele não existe o humor físico de um Charles Chaplin ou Buster Keaton, ou o humor nonsense do Monty Python: o único humor possível é o que ri do próximo. Por “próximo”, leia-se pobres, negros, feios, gays, desdentados, gordos, deficientes mentais, tudo em nome da “liberdade de fazer rir.” Prega que não há limites para o humor, mas é uma falácia. O limite para este tipo de comediante é o bolso: só é admoestado pelos empregadores quando incomoda quem tem dinheiro e pode processá-los. Não é à toa que seus personagens sempre estão no ônibus ou no metrô, nunca num 4X4. Ri do office-boy e da doméstica, jamais do patrão. Iguala a classe política por baixo e não tem nenhum respeito pelas instituições: o Congresso? “Melhor seria atear fogo”. Diz-se defensor da democracia, mas adora repetir a “piada” de que sente saudades da ditadura. Sua principal característica é não ser engraçado.
3. o cidadão imbecil politicamente incorreto: não se sabe se é a causa ou o resultados dos dois anteriores, mas é, sem dúvida, o que dá mais tristeza entre os três. Sua visão de mundo pode ser resumida na frase “primeiro eu”. Não lhe importa a desigualdade social desde que ele esteja bem. O pobre para o cidadão imbecil é, antes de tudo, um incompetente. Portanto, que mal haveria em rir dele? Com a mulher e o negro é a mesma coisa: quem ganha menos é porque não fez por merecer. Gordos e feios, então, era melhor que nem existissem. Hahaha. Considera normal contar piadas racistas, principalmente diante de “amigos” negros, e fazer gozação com os subordinados, porque, afinal, é tudo brincadeira. É radicalmente contra o bolsa-família porque estimula uma “preguiça” que, segundo ele, todo pobre (sobretudo se for nordestino) possui correndo em seu sangue. Também é contrário a qualquer tipo de ação afirmativa: se a pessoa não conseguiu chegar lá, problema dela, não é ele que tem de “pagar o prejuízo”. Sua principal característica é não possuir ideias além das que propagam os “pensadores” e os comediantes imbecis politicamente incorretos.

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OBS: Postagem original do Zé Flávio, no "Cariricult, que achamos por bem trazer pra cá, face à contundência embutida.