por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



domingo, 17 de fevereiro de 2013

Uma história do passado...

PAULO  MAIA DE MENEZES
                                                 Nunca mais você mata um irmão de um homem
                                               (Pedro Maia).

Por Fernando Maia da Nóbrega

1 - SÚMULA
Nome:                  Paulo  Maia de Menezes
Filiação:               Aristides Ferreira de Menezes
         Ana Leopoldina Maia
Nascimento:         1879 - Crato-Ce (01)
Morte:                  09 de junho de 1914 – Juazeiro do Norte-Ce
Causa Mortis:      Assassinato
Motivo:               Vingança
Acusados:          Nazário Landim (mandante), Mané Chiquinha                                        (executor).

2- ANTECEDENTES
 A morte trágica de Paulo Maia, também alcunhado de Paulo Aires, ocorrida em Juazeiro do Norte no ano de 1914, teve como fonte motivadora um acontecimento havido muitos anos antes do seu nascimento, na cidade do Crato em 1856 , e que se desdobrou ao longo de 72 anos. Essa é a história de um tempo em que muitas vezes a herança deixada era um rastro de sangue...
O século XIX caracterizou-se no Cariri por profundas crises sociais e políticas, imprimindo uma marca de violência que se alastrou, além dele, por três décadas da centúria seguinte. De início, a “Revolução de 1817” frutificou sérias inimizades entre os políticos e líderes cratenses, tendo alguns sido presos enviados para calabouços na Bahia. Em seguida veio a “Revolução do Equador” em 1824 onde muitos morreram entre eles Tristão de Alencar Araripe, membro de importante família da região. A “Guerra do Pinto” em 1832 fez florescer antigas desavenças cujo desfecho foi, anos depois, a execução do chefe Joaquim Pinto Madeira. Culminando com essas conturbações sociais, surgiu a “Revolução de Juazeiro” em 1914.
E foi justamente em um desses acontecimentos sociais tão em voga, que se gestou a futura morte de Paulo Maia. No dia 08 de setembro de 1856, às três horas da tarde, se processava, dentro da igreja Matriz de Nossa Senhora da  Penha, na cidade do Crato, as eleições para as câmaras municipais e juiz de paz. O clima emocional estava quente e pesado, posto que em Barbalha dias antes ocorreram cenas de violência durante a apuração dos votos. No Crato, duas facções do Partido  Conservador disputavam com o Partido Liberal os cargos disponíveis. Determinado momento, surgiu uma discórdia entre os grupos rivais gerando uma briga generalizada entre os participantes. Dr. Jaguaribe, presidente da eleição, pede a interferência do corpo policial do município com o intuito de apaziguar os querelantes. Com a chegada dos militares, sob o comando de José Ferreira de Menezes os ânimos se exaltaram mais ainda havendo uma troca de tiros de ambas as partes, vindo a falecer o coronel José Gonçalves Landim. (02). O crime emocionou todo o Cariri a ponto do Vigário Geral Forâneo Tomaz Pompeu de Sousa Brasil excomungar o Padre Manuel Joaquim Aires do Nascimento, Pároco da Freguesia, bem como o delegado e dois soldados. (03)
Com o passar dos anos, um dos filhos do delegado José Ferreira de Menezes, de nome Aristides, tornou-se um dos mais influentes políticos cratenses no final do século XIX, exercendo vários cargos públicos de destaques, chegando a ocupar as funções de promotor, deputado provincial pela região e candidato a senador da república. (03) Ressalte-se que Aristides Ferreira de Menezes casara-se com Ana Leopoldina Maia, filha do renomado Coronel Mainha, um dos maiores políticos cratenses do século XIX. Partidário do prefeito local , Coronel Belém de Figueiredo, Aristides sofreu grande revés quando em 1904, Antonio Luiz Alves Pequeno tomou a prefeitura a “manu militari” e passou a perseguir ferozmente seus adversários por meio da montagem de uma violenta guarda municipal.
Investido na função de delegado e comandante da Guarda Municipal do Crato, Nazário Landim cometeu toda espécie de arbitrariedade possível. E em sendo neto do Coronel José Gonçalves Landim, morto na igreja em 1856, ressuscitou a velha discórdia entre as famílias. Certa feita, em meados de 1904, encontra-se numa esquina com o velho e respeitável Coronel Aristides e o agride a socos, pontapés, empurrões e lhe bate com a vareta da espingarda por várias vezes. Segundo sua lógica, vingava assim a morte de seu avô numa pessoa que à época tinha somente quatro anos.
Essa atitude inconseqüente viria a gerar outra de igual teor. Paulo Maia, filho de Aristides, inconformado com a agressão sofrida pelo seu genitor agiu rapidamente em represália: ao se encontrar com o delegado aplicou-lhe violenta surra, prostrando-o desfalecido por terra. Os cronistas narram que ao ser preso e interrogado pelo juiz, houve o seguinte diálogo:
-"Moço, que parentesco tem com o delegado Nazário”? Perguntou o juiz.
- “Ele é meu avô!” Respondeu com firmeza Paulo Maia.
“Mas... seu avô?” Contesta o Juiz.
- “Se ele é de sua idade mais ou menos, talvez seja mais moço, como explicar isso”?
-"Se ele bateu em meu pai, se deu em meu pai, certamente que é pai dele; e sendo pai dele, é meu avô.” Foi a resposta (04).
 3- A MORTE
 É certo que após o desentendimento com Nazário e cumprir prisão por mais de um ano, Paulo Maia foi residir em Juazeiro. Além deste motivo outros contribuíram sua para ida: era primo do Padre Cícero e sua mulher, Aurora Adélia, era parenta de José André de Figueiredo, um dos líderes políticos da vila. Além do mais, cuidaria das terras do sítio Muquém, naquele município, pertencentes a seu pai. Pouco a pouco Paulo Maia foi-se inserindo na vida político-social de sua nova terra.
Em 1910 Juazeiro já se consolidava como um lugarejo em constante desenvolvimento graças à presença do Padre Cícero Romão Batista e a repercussão dos milagres ocorridos em 1889. Com uma população expressiva, sendo alvo de romarias freqüentes e de um comercio se expandindo constantemente, a vila clamava pela sua emancipação política. Objetivando chamar a atenção das autoridades, Padre Cícero, Floro Bartolomeu, Padre Alencar Peixoto, Joaquim André e tantos outros, pregaram a desobediência civil ao povo ao propor que “(...) não se pagaria mais impostos ao Crato” (05) Tal movimento culminou com uma passeata realizada no dia 07 de setembro de 1910, pelas ruas de Juazeiro, em prol da independência da vila. À frente de todos, Paulo Maia conduzia uma bandeira verde-amarela com os dizeres “Viva a Independência!” (06).
Eis que em 1913 irrompe a chamada “Sedição de Juazeiro” com o objetivo de depor o governador do estado, Major Franco Rabelo. Para concretizar esse intento, Dr.Floro armou um expressivo contingente de bandidos e cangaceiros, recrutando os mais afamados pistoleiros de Pajeú das Flores, Paraíba, entre eles, Zé Pinheiro, Senhorzinho, Antonio Godê, Mané Chiquinha, Côco Seco e Quintino Feitosa. Para as funções de subdelegado foi nomeado o Major Nazário Landim (07), “indivíduo de péssima conduta” (08).
Nos idos de 1913/14 imperou no nosso Estado completa selvageria. No Cariri, principalmente, um número incalculável de crimes foram praticados, com a conivência das autoridades, sem nunca ter sido tomadas as providências legais cabíveis. Após o término do movimento sedicioso de Juazeiro em março de 1914, a cidade ficou totalmente lotada de facínoras remanescentes da guerra. Bandidos de alta periculosidade, sem trabalho,  perambulavam pelas ruas bebendo, fazendo confusões, provocando brigas e matando pessoas.
Como a ociosidade é a mãe de todos os vícios, Mané Chiquinha lembrou a Nazário Landim que seu desafeto, Paulo Maia, andava impune na cidade. Não obstante as ponderações iniciais, o subdelegado contrata o pistoleiro por 100 contos de réis e uma mula. (09) Xavier de Oliveira insinua, nas entrelinhas, que um crime envolvendo uma pessoa de prestígio como Paulo Maia tinha que haver o consentimento do chefe, no caso, presumo eu, Dr.Floro Bartolomeu. (09). Há alguma razão para se aceitar a tese, posto que tanto o Coronel Aristides, pai de Paulo, quanto o cunhado Joaquim Inácio Figueiredo faziam oposição ao Médico e ao Padre Cícero. (10)
Paulo Maia residia numa casa, hoje demolida, localizada à Rua do Brejo, em frente à Matriz de Juazeiro. Na noite de 09 de junho de 1914, enquanto conversava com o vizinho Doroteu Sobreira, foi avisado por este que parecia haver alguém escondido no matagal à frente da casa. Paulo Maia não levou à sério a observação do amigo e continuou conversando alegremente. Mané Chiquinha, aproveitando a escuridão da noite, escondido entre o pasto de bamburral, mirou a carabina modelo 1908, dormiu na pontaria e disparou um certeiro tiro que varou o peito da vítima indefesa.
 4-            VINGANÇA
 Após o assassinato de Paulo Maia, Mané Chiquinha enfronhou-se pela Serra do Araripe e vivia em lugar incerto e não sabido. Porém, em decorrência da determinação do Governador do Estado, Benjamim Barroso, em eliminar de vez o banditismo no Ceará, convocou ao palácio o Coronel Medeiros e deu-lhe uma ordem seca: ”Você vai ao Cariri e outras cidades do sertão. Não poupe bandidos. Execute-os sumariamente.” (11). A mesma incumbência foi dada pelo Governador ao Tenente Peregrino Montenegro quando o nomeou delegado de Campos Sales: “Soube que é homem disposto. Liquide todo criminoso nato.” (12). Seguindo as determinações recebidas, perseguindo a bandidos na Serra do Araripe, o Tenente Peregrino executa sumariamente os cangaceiros Bimbão, Caxeado, Pedro Paulo e Mané Chiquinha. (13).
Quanto ao autor intelectual, Nazário Landim, este achou mais prudente se afastar da região e por muito tempo não se soube de seu paradeiro. Há certa probabilidade que tenha se refugiado na cidade de São João do Rio do Peixe, hoje Antenor Navarro, na Paraíba, local onde seu primo e conselheiro Quinco Vasques fugindo de uma briga em Lavras da Mangabeira, viveu sob a proteção do Padre Joaquim Cirilo Sá. (14)
Após 72 anos dos fatos ocorridos na Matriz de Nossa Senhora da Penha e 14 da morte de Paulo Maia, Nazário Landim apareceu às caladas da noite, no Crato, com o intuito de pegar o trem em rumo a Missão Velha onde viviam seus parentes. Enquanto aguardava o passar das horas para o embarque, entrou em um quiosque, ao lado da estação ferroviária, onde os passageiros tomavam café,fumavam,conversavam, à espera da partida do trem. Nesse ínterim, foi reconhecido por um padeiro que incontinentemente correu até a casa de Pedro Maia, irmão de Paulo, bateu à porta e falou:
- “Seu Pedro, quanto o senhor paga pelas alvíssaras?”.
- “O que você quiser. O que foi?” Retorquiu Pedro (015).
-“ Nazário Landim está aqui no Crato. Na estação de trem.” Respondeu o padeiro.
Era início da madrugada do dia 28 de julho de 1928. Pedro Maia, também conhecido por Pedro Aires dirigiu-se à cidade de Juazeiro do Norte e foi ao encontro dos dois filhos homens de Paulo Maia, Zezé e Odilon, e lhes falou:
“- O homem que matou seu pai está no Crato. Se querem vingar a morte dele a hora é essa.”
 Em companhia dos jovens, Pedro se dirigiu à estação ferroviária do Crato. Entregando um revólver à Zezé, o mais velho, apontou o Nazário e disse:
-“É aquele o homem. Vá lá e mate-o!”.
Consta que Zezé titubeou. É verdade que teve medo de executar a tarefa. Vendo a indecisão do sobrinho, Pedro Maia falou ríspido:
- “Vejam como é que se mata um homem!”.
Secamente se dirigiu ao encontro de Nazário e para certificar-se que era ele mesmo, embora o conhecesse, indagou:
- “Com quem tenho o prazer de falar?”.
Pressentido o desfecho macabro daquele encontro, pálido e afásico respondeu:
 -“Com Nazário, seu criado.”.
“- Eu sou irmão de Paulo Maia. Levante-se para morrer. Você nunca mais mata um irmão de um homem!”
Surpreso, Nazário não se levantou. Nisso, Pedro Maia desfechou alguns tiros quase à queima roupa. Nazário caiu emborcado na mesa do bar e exalou seu último suspiro.
Encerrava-se assim  drasticamente uma desavença costurada por tanto tempo. Durante 72 anos, vidas foram ceifadas em nome de um tempo e costumes que queira Deus não se repitam nunca mais.
 NOTAS
 01 - Os dados sobre a descendência, nascimento e morte de Paulo Maia  encontra-se no artigo de Bruno de Menezes “Uma Parcela da Família Menezes do Cariri”, revista       Itaytera nº. 5, página 177 -  Crato-Ce. 1959.
02 – Irineu Pinheiro, Efemérides do Cariri pág.142. Imprensa Oficial do Ceará.          Fortaleza 1963.
“1856, 8 de setembro – Eleições na matriz do Crato para juiz de paz e  membros   da câmara municipal. Morreu o eleitor José Gonçalves    Landim, pelo Partido    Liberal, baleado na igreja pela força pública comandada pelo delegado local que  era conservador (...)”.
Joaryvar Macedo in O Império do Bacamarte, pág.25. Edição UFC.        Fortaleza    1992 afirma: “Acontecimento sangrento, de bastante repercussão, se deu em 1856,   aos 8 de  setembro. Por ocasião de eleições de membros da   câmara   municipal e juízes de  paz, no recinto da Matriz de  Nossa Senhora  da Penha, no Crato, a força pública   promoveu violentíssimo  ataque aos  eleitores, visando o Partido Liberal. Da     agressão,    comandada  pelo próprio delegado substituto em exercício, José Ferreira de Menezes,  resultaram na morte do tenente-coronel José Gonçalves  Landim e  ferimentos em várias pessoas (...)”.

03 – Guilherme Chambly Studart (Barão de Stuart) & Newton Jacques Studart –    Dicionário Biobibliográfico Cearense 2ª edição,  pág.305/306. Tipografia          Progresso 1980. Aborda sobre a vida    do     deputado Aristides        Ferreira de Menezes.
  04 – Guilherme Chambly Studart. O.Cpág. 306.
 05-     Amália Xavier de Oliveira – O Padre Cícero que eu conheci.        Pág.133 Rio de          janeiro 1969
“(...) o padre Cícero incentivou o povo de não mais pagar imposto ao     Município   de Crato, desta vez, sem complacência.”
06 –  Idem, ibidem.
“Paulo Maia, ardoroso revolucionário, conduzia à frente a bandeira        verde-amarela, com os dizeres ‘VIVA A NOSSA    INDEPENDÊNCIA’”.
 07 – Joaryvar Macedo. Temas Históricos Regionais. Nota na pág.47.   Secretaria de          Cultura e Desporto. Fortaleza 1986.
 08 -   Joaryvar Macedo. Império do Bacamarte pág.72. Edição UFC.    Fortaleza-Ce          1992:
“Indivíduo de péssima conduta, o major Nazário Landim fruíra,  entretanto, da          confiança do coronel Antonio Luís, que o investiu  nas funções de subdelegado    de polícia do importante município  de Juazeiro.”
 09-           Antonio Xavier de Oliveira, Beatos e Cangaceiros pág.17 Rio de Janeiro. O autor deixa aberta a possibilidade do assassinato de Paulo Maia ter   sido do conhecimento de Dr.Floro ou do coronel Antonio Alves  Pequeno, este último,   inimigo político de Aristides Ferreira de       Menezes,    pai de Paulo. De pronto, o autor elimina a hipótese   do envolvimento do padre Cícero:
         “(...) Em geral, no Sertão, os cangaceiros só cometem um    crime, quando teem as   costas quentes,isto é quando teem patrão  forte e de cima na política. (...) (um  coronel, ou um doutor, nunca  um padre)” (sic).
 10 –  Ralph Della Cava. Milagre em Joaseiro pág. 151. Paz e Terra. Rio  de Janeiro          1977, apud inéditos de Aires de Menezes.
“(...) não se tornando inimigos do padre Cícero”... ficaram afastados...    Aristides          Ferreira de Menezes, o velho João da Rocha, Pedro    Jacintho da Rocha, Cel.Coimbra, Joaquim Inácio de Figueiredo.         (...) (sic)
 11 – Abelardo Montenegro. Fanáticos e Cangaceiros pág.pág.268.  Ed.Henrique ta          Galeno. Fortaleza 1973. Apud entrevista do Sr. Antonio Botelho Filho, presente          que estava na hora da   recomendação do governador.
12 – Abelardo Montenegro, o.c.pág.269. Informações prestadas ao autor    pelo próprio Peregrino Montenegro.
 13 –  Abelardo Montenegro. O.c.ibidem.
 14 –  Joaryvar Macedo, Império do Bacamarte pág.119, esclarece onde o coronel         Quinco Vasques se refugia da polícia:
(...) Quinco Vasques (...) se refugia sob a proteção Joaquim Cirilo de      Sá, o célebre padre Sá do antigo São João do Rio do Peixe, hoje     Antenor Navarro, Paraíba       (...)”.
         Por essa razão somos levados a crer que Nazário Landim após o assassinato de Paulo Maia tenha se refugiado em Antenor Navarro.
 15 -   Os detalhes da vingança perpetrada por Pedro Aires nos     foi     transmitida por          Odilon Figueiredo,filho de Paulo Maia,  presente na hora do assassinato. É fidedigno e tem exatidão   o diálogo,   posto que do conhecimento de todos e por   uma  testemunha do caso,  o português Ângelo de Almeida que narrou os   acontecimentos a    meu pai Antonio Adil da Nóbrega.

BIBLIOGRAFIA.
 Della Cava, Ralph. Milagre em joaseiro. Rio de Janeiro, Paz e Terra,       1976.
 Macedo, Joaryvar. Temas históricos regionais. Fortaleza, Secretaria de Cultura e Desportos, 1986.
 Macedo, Joaryvar. Império do bacamarte. Fortaleza, Universidade  Federal do Ceará, 1990. 
 Montenegro, Abelardo. Fanáticos e cangaceiros. Fortaleza. Editora  Henriqueta Galeno, 1973.
 Revista Ytaytera, Crato. Instituto Cultural do Cariri, 1959.
Oliveira, Antonio X. Beatos e cangaceiros. Rio de Janeiro
 Oliveira, Amália X. O padre Cícero que eu conheci. Rio de Janeiro,  1969.
Studart, Guilherme C. & Studart, Newton J. Fortaleza, Tipografia Progresso, 1980.
 O autor é juazeirense, escritor com vários textos publicados. A partir desta postagem será iniciada uma série de trabalhos de sua autoria.
* Sou bisneta de Aristides Ferreira de Menezes e Ana leopoldina Maia  de Meneses ( filha do Cel Mainha).
Infinitas vezes escutei a versão da minha avó materna, Ana Amélia Menezes Moreira, casada com Alfredo Moreira Maia.Os dois eram primos.
Desconhecia  maiores detalhes até esta data.
Este fato impressionou-me, desde a tenra infância.
Felizmente tudo passa , mas a história deixa o seu registro. 

Socorro Moreira

Assunto: Fw: BBB 13 (Luis Fernando Verissímo).
Para:



Luis Fernando Veríssimo

Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big Brother Brasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço.. A nova edição do BBB é uma síntese do que há de pior na TV brasileira. Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência.
Dizem que Roma, um dos maiores impérios que o mundo conheceu, teve seu fim marcado pela depravação dos valores morais do seu povo, principalmente pela banalização do sexo. O BBB é a pura e suprema banalização do sexo.
Impossível assistir ver este programa ao lado dos filhos. Gays, lésbicas, heteros? todos na mesma casa, a casa dos ?heróis?, como são chamados por Pedro Bial. Não tenho nada contra gays, acho que cada um faz da vida o que quer, mas sou contra safadeza ao vivo na TV, seja entre homossexuais ou heterossexuais. O BBB é a realidade em busca do IBOPE.
Veja como Pedro Bial tratou os participantes do BBB. Ele prometeu um zoológico humano divertido?. Não sei se será divertido, mas parece bem variado na sua mistura de clichês e figuras típicas.
Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura, de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis? Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores) , carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados.
Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo dia.
Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna. Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, Ongs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns).
Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o ?escolhido? receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a ?entender o comportamento humano?. Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$$$$$$$ $$$$$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão.
Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada a programas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores).
Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores. Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa?, ir ao cinema?. , estudar? , ouvir boa música?, cuidar das flores e jardins? , telefonar para um amigo? ,·visitar os avós? , pescar?, brincar com as crianças? , namorar? ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.


Por Luis Fernando Veríssimo


Devia ser proibido
devia ser proibido
uma saudade tão má
de uma pessoa tão boa
falar, gritar, reclamar
se a nossa voz não ecoa
dizer não vou mais voltar
sumir pelo mundo afora
alguém com tudo pra dar
tirar o seu corpo fora
devia ser proibido estar
do lado de cá
enquanto a lembrança voa
reviver, ter que lembrar
e calar por mais que doa
chorar, não mais respirar (ar)
dizer adeus, ir embora
você partir e ficar
pra outra vida, outra hora
devia ser proibido...

(Alice Ruiz)
. Foi casada com o também poeta Paulo Leminski

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Cristo traído (Carta Capital)


As feições atuais do renunciante Ratzinger mostram a gravidade e a tensão da luta. Em quase oito anos de pontificado, Bento XVI envelheceu como se tivesse decorrido o dobro. Não conhecemos os motivos determinantes da renúncia, mas admitamos que ele se sinta inadequado ao enfrentamento de uma situação tão complexa e obsedante como a atual, inquietada por divergências internas e surdos confrontos de bastidor. Não lhe faltam agora os elogios, assemelhados e epitáfios, e, em meio aos encômios, exalta-se a excelência do teólogo. Sejamos claros, não se trata de um Hans Küng, tampouco de um Carlo Maria Martini.
Se Martini tivesse sido o eleito em 2005, é plausível supor que algo teria mudado no sentido da contemporaneidade. Ratzinger limitou-se a confirmar o passado, o qual remonta à época em que, oficializada a religião, consumou-se a traição à palavra de Jesus. Arrisco-me a dizer, sem temer o Inferno, que o verdadeiro Judas é a própria Igreja, poder igual aos outros, humanos e não divinos, muito mais duradouro e fortalecido sempre e sempre pela carência experimentada pelo homem diante do mistério indecifrável.
Na história, e até na hagiografia, há inúmeros papas hipócritas, tirânicos e devassos. Há, também, estadistas. João Paulo II foi um deles, em proveito de seu abrangente Estado, sem atentar para a lição de igualdade e amor pregada por Cristo, e sem respeito pela mais exaltante das virtudes teologais, a caridade. Voltado integralmente às tarefas de senhor de um poder terreno. Se vieram à tona escândalos como a dos padres pedófilos, useiro e vezeiro, foi porque não houve como continuar a escondê-los. E nem se diga o quanto Wojtyla foi decisivo, pela mão de certo monsenhor Marcinkus, na definição dos alcances do IOR, o Banco do Vaticano, Instituto das Obras da Religião, a entender que obra da religião é também a reciclagem de dinheiro mafioso.
Figura ímpar, entre os pontífices recentes, João XXIII, o campônio Roncalli, um reformador encarado como subversivo pelos cinco anos do seu pontificado. Impossível imaginar o desempenho do papa Luciani, João Paulo I. Durou na cátedra de Pedro por um mês e morreu durante a noite, depois de tomar uma chávena de chá. Sobre o seu criado-mudo havia apontamentos a respeito das atividades do monsenhor Marcinkus. Banqueiro de Deus, dizia-se então.
Mino Carta

CD de Tiago Araripe, com produção de Zeca Baleiro e Tiago Araripe, gravado em fevereiro e março de 2012 nos estúdios Muzak (Recife) e Outra Margem (São Paulo).

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A "senha" do Benedito - José Nilton Mariano Saraiva

Quem conhece um pouco da história da Igreja Católica Apostólica Romana sabe perfeitamente que por trás dos muros do Vaticano, em seus corredores e porões, entre abraços de tamanduá, tapinhas nas costas e falsos sorrisos, vige uma espécie de briga de foice em quarto escuro, na oportunidade em que se tem de escolher um novo Papa; conchavos, corrupção, falsidade, traição, oferecimento de vantagens, tráfico de influência e o escambau são a essência dos encontros cardinalícios quando da escolha do sucessor de Pedro. O jogo é bruto e pesado (fala-se, inclusive, que o Papa João Paulo I – o italiano Luciane – após pouco mais de um mês no trono, teria sido "envenenado" por discordar do modus operandi vigente). Assim, no Vaticano nada difere das diversas arenas políticas espalhadas pelo mundo, quando da eleição de mandatários nos mais diversos países. É o tal “componente político” a que tanto aludimos e que na cúpula da Igreja Católica também se faz presente, sim.
Por essa razão (o penoso e desonesto trabalho de chegar lá e as concessões que tem que ofertar), normalmente quem consegue trata de segurar o bastão até o instante em que “bate as botas”, nem que para tanto tenha que enfrentar percalços e constrangimentos mil (conforme nos mostrou o carismático polonês João Paulo II, que, acometido de todo tipo de doença - Parkinson, demência, dificuldade motora, etc - não largou o osso de forma alguma.   
Assim, de certa forma fomos surpreendidos quando, quase chegando aos 80 anos, o ultraconservador ex-integrante da juventude nazista, o alemão Josepf Ratzinger, conseguiu sucedê-lo; só não surpreendeu foi sua postura de insensibilidade e alheamento ao que acontecia ao seu entorno, já que os ultrapassados e envelhecidos dogmas da Igreja Católica jamais foram ameaçados: celibato, divórcio, aborto, contraceptivos, punição de padres pedófilos, alinhamento político do clero com causas sociais e políticas do terceiro mundo, enfim, desafios típicos do contemporâneo foram deixados de lado.
Agora, e num primeiro momento surpreendente, foi ele anunciar que iria “se mandar” (renunciar), deixando seu rebanho na orfandade (e de um pai vivo), já que com apenas 08 anos sentado no trono. E aí, a grande surpresa, a denúncia/revelação “bombástica”, porquanto proferida por alguém que comandava a Igreja Católica até então e, pois, conhecedor profundo das suas entranhas e labirintos: na cúpula da Igreja Católica vige, sim, a "hipocrisia religiosa, o comportamento dos que querem aparentar, as atitudes que buscam os aplausos e a aprovação" (ipsis litteris).
Portanto, se nada fez de produtivo durante sua gestão de 08 anos à frente da Igreja Católica Apostólica Romana, o alemão de certa forma se redimiu, ao anunciar aos seus pares, de viva voz, aquilo que todo mundo já desconfiava: no Vaticano, cerne do cristianismo, impera a discórdia, o jogo sujo, a luta (fratricida e desonesta) pelo poder. Enfim, o “componente político”.
É mentira, Terta ???

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013



José Domingos de Morais (Garanhuns, 12 de fevereiro de 1941), conhecido como Dominguinhos, é um instrumentista, cantor e compositor brasileiro. Exímio sanfoneiro, teve como mestres nomes como Luiz Gonzaga e Orlando Silveira. Tem em sua formação musical influências de baião, bossa nova, choro, forró, xote, jazz etc. 


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Mensagem do "I Ching" para 11.02.2013

"Quando coisas ruins penetram em nosso caminho, uma das mais imbatíveis armas de neutralização é a suavidade. Fomos treinados pela mentalidade ocidental a querer competir, retaliar, reagir com agressividade. Mas uma parte nossa, mais íntima e secreta, sabe que tais ações apenas alimentam a roda do sofrimento, que não cessa de girar. Cedo ou tarde, passamos a utilizar outro recurso psicológico: agir com graça, agir com afeto. É incrível como um sorriso suave é capaz de derreter um coração de gelo. Um ato gentil pode desfazer uma guerra. E, quando agimos assim, somos tomados por um sentimento indizível de felicidade. Porque, em essência, o ser humano é bom. Apenas se ilude, achando que ser malvadinho o torna mais interessante. No final das contas, Maria, não existem pessoas más, apenas pessoas tristes ou que acham que são a coisa mais importante do universo. Saiba, portanto, que você terá a oportunidade de resolver questões – suas e dos outros – com muita suavidade e graça e, no final das contas, sentirá a alma lavada e em paz."

IL PAPA LASCIA IL PONTIFICATO IL 28 FEBBRAIO
"SENTO IL PESO DELL'INCARICO"

A Tabuada Misteriosa de Alice. – Adaptação de Carlos Eduardo Esmeraldo

O livro “Alice no país das Maravilhas” é repleto de esquisitices e absurdos. No segundo capítulo cujo titulo é “A Lagoa de Lágrimas” ou “Mar de Lágrimas”, segundo as diferentes traduções, há uma transformação misteriosa em Alice. Ela cresceu exageradamente, de modo que os pés estavam “quase fora do alcance de sua vista...” Então Alice começou a testar sua identidade. “Com certeza eu não sou Ada, porque ela tem longos cabelos.....” “Quero saber se ainda sei tudo que sabia: 4×5=12; 4×6=13; 4×7......  Oh meu Deus, desse jeito, nunca chegarei a vinte.”

O autor, o inglês Charles Lutwidge Dodgson, um professor de matemática que escreveu “Alice no País das Maravilhas” e “Através do Espelho” sob o pseudônimo Lewis Carroll, morreu sem decifrar o enigma.

Vários matemáticos no decorrer do século XX tentaram decifrar essa tabuada esquisita. O norte-americano Martin Gardner, especialista em Matemática Recreativa apresentou como justificativa o fato das tabelas de multiplicação existentes até a metade do século XIX exibirem 12 valores sucessivos para variável, daí Alice não chegar a vinte, pois não existia o produto 4×13.  Porém tais explicações não foram bem satisfeitas. 
 
Já o matemático Inglês Alexandre L. Taylor apresentou uma explicação incompleta, porém mais compreensivel. Testou os produtos da multiplicação por quatro com base em diferentes sistemas de numeração, cuja base variava em Progressão Aritmética de razão 3: Assim sendo 4× 5=12 num sistema de numeração não decimal, mas num sistema de base igual a 18; 4×6=13 num sistema de numeração de base 21. Continuando a operação com as base variando mais 3 unidades:4×7=14 na base 24; 4×8=15 na base 27; 4×9= 16 na base 30; 4×10=17 na base 33; 4×11=18 na base 36; 4×12=19 na base 39, falhando quando chegou na base 42, pois o produto não dá igual a vinte. Segundo o autor da demonstração, foi por isso que Alice afirmou que nunca chegaria a vinte.
Fica a sugestão para quem desejar dar uma justificativa mais plausível.

Adaptado por Carlos Eduardo Esmeraldo
Fonte: Alice no País da Maravilhas, Capítulo II
       Nelson Tunala, in Revista do Professor de Matemática, “A misteriosa Tabuada de Multiplicação por quatro de Alice no País das Maravilhas, pág.03

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Um burrinho à venda -- Por Carlos Eduardo Esmeraldo

A vida é bela e o mundo não é somente dos vivos, mas também dos mais espertos. Há alguns anos, quando eu ainda trabalhava em Juazeiro, ouvi entre as muitas histórias atribuídas ao popular Lunga do Juazeiro, esta que segue.
Nas eleições municipais de 1988, seu Lunga se candidatou a vereador daquela cidade. Gastou as pequenas economias que sua sucata lhe proporcionara na compra de milhares de pares de sandálias para convencer os eleitores. Ficou apenas com um velho burro de puxar carroça e uma rural presa na garagem de sua casa, pois a prefeitura do Juazeiro construiu um calçadão na rua onde seu Lunga morava. Seu Lunga se recusou a tirar o carro da garagem, alegando ao então prefeito, Manuel Salviano, que na sua casa o prefeito não mandava. Quando realizaram a apuração da eleição, os votos esperados por seu Lunga sumiram, e ele perdeu feio. 
Então, foi vender o único bem que lhe restava: o pequeno burro. Levou-o à feira dos animais, existente ainda hoje em todas as cidades nordestinas. Logo que seu Lunga chegou à feira com o burrinho, não demorou a aparecer interessado na compra do animal: “Quanto custa este burro, seu Lunga?” Perguntou um pretenso comprador. “Trezentos mil.” Respondeu seu Lunga, com aquela secura que lhe era habitual. “Dou duzentos no pau.” Replicou o comprador, utilizando uma gíria ainda muito em voga na região, que significa uma compra à vista. “Só vendo o burro inteiro.” Respondeu seu Lunga, com aquela sua polidez de trator de esteira, pondo fim, dessa forma, àquela inútil discussão.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

sábado, 9 de fevereiro de 2013

CD Baião de Nós


  1. As lojas do Recife saíram na frente: Baião de Nós já está à sua espera na Passadisco. Passe essa notícia adiante.

Amanhcemos e não adormecemos.
Morte e vida se alternam entre sorrisos e lágrimas. Aceitamos a morte, e enfrentamos a vida.
A vida parece nova, mas nos envelhece a cada minuto, principalmente quando o sorriso disfarça uma lágrima.

foto by Samuk

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Sem Identidade - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Há uns três meses, no percurso do meu trabalho para casa, ouvi pela Rádio CBN, uma entrevista de um defensor público de São Paulo, na qual ele narrava uma história que deve servir de alerta para quem perde seus documentos de identidade, mais conhecido por RG. 
Aos dezessete anos, Jorge perdeu seu documento de identidade. Aconselharam-no a fazer o Boletim de Ocorrência.
Era um dia de domingo e, ao chegar à delegacia, o escrivão estava assistindo um jogo do Corinthians pela TV e não lhe deu atenção. Jorge achou que era perda de tempo e foi para casa sem registrar a ocorrência.
Aos vinte um ano, Jorge casou, depois teve uma filha e já trabalhava numa empresa de processamento de dados. Certo dia, seu chefe mandou que ele consultasse uma página do Tribunal de Justiça. Surpreso, Jorge viu seu nome como tendo sido processado, julgado à revelia e condenado a quinze anos de prisão. Procurou a justiça para que lhe informassem o porquê daquela condenação. Algum bandido que se apoderou dos documentos de Jorge, foi preso na Via Dutra com um carregamento de cocaína, depois liberado por competentes advogados que lhe conseguiram o relaxamento da prisão até o julgamento final. Como conseqüência, Jorge perdeu o emprego, a mulher e a filha. Passou mais de cinco anos tentando provar sua inocência, sem conseguir êxito e nem emprego algum, pois logo descobriam que ele estava condenado pela justiça. Então, depois de inúmeras tentativas, um grupo de advogados defensores públicos sugeriu ao juiz que fosse feito uma acareação com os policiais que prenderam o traficante, os vizinhos de Jorge, seu ex-patrão e pessoas que o conheciam desde a infância, O juiz concordou.
Os dois primeiros a serem ouvidos na acareação foram os policiais que efetuaram a prisão, O depoimento dos dois foi decisivo. Todos informaram que o homem que haviam efetuado a prisão não era o Jorge. Depois é que verificaram que a fotografia colada à identidade de Jorge e que fora falsificada, era a de uma pessoa morena, cabelos pretos, bem diferente do Jorge, que era branco e tinha cabelos castanhos.

Constatado o erro e a confirmação de que realmente a justiça havia se equivocado, pediram desculpas ao Jorge,

Ao saírem do Tribunal os advogados de Jorge entraram com um processo de indenização na justiça por danos morais, Na primeira audiência, a juíza comentou: “Você vai receber muito dinheiro!”
“E a senhora, gostaria de passar o que eu passei?” Perguntou Jorge.

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Meio intelectual... meio de esquerda

Bar “meio ruim” é lindo, bicho !!! Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de cento e cinqüenta anos (deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de cento e cinqüenta anos, mas tudo bem). No bar meio ruim, que ando freqüentando ultimamente, o proletariado atende por Betão - é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história e preconceito.

Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar "amigos" do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura. - Ô Betão, traz mais uma pra gente - eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares meio ruins, que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve "petit gâteau" e não tem frango à passarinho ou carne-de-sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais da nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de "petit gâteau" do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver, uma “europazinha” bem que ajuda.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos do Brasil, mas muito bem diagramado. Não é qualquer Brasil. Assim como não é qualquer bar meio ruim. Tem que ser um bar meio ruim, fulero, autêntico, um boteco, com mesa de lata, copo americano e, se tiver porção de carne-de-sol, uma lágrima imediatamente desponta em nossos olhos, meio de canto, meio escondida. Quando um de nós, meio intelectual, meio de esquerda, descobre um novo bar meio ruim que nenhum outro meio intelectual, meio de esquerda freqüenta não nos contemos: ligamos pra turma inteira de meio intelectuais, meio de esquerda e decretamos que aquele lá é o nosso novo bar meio ruim. O problema é que aos poucos o bar meio ruim vai se tornando "cult", vai sendo freqüentado por vários meio intelectuais, meio de esquerda e universitárias mais ou menos gostosas. Até que uma hora sai na Vejinha como ponto freqüentado por artistas, cineastas e universitários e, um belo dia, a gente chega no bar meio ruim e tá cheio de gente que não é nem meio intelectual, nem meio de esquerda e foi lá para ver se tem mesmo artistas, cineastas e, principalmente, universitárias mais ou menos gostosas. Aí a gente diz: eu gostava disso aqui antes, quando só vinha a minha turma de meio intelectuais, meio de esquerda, as universitárias mais ou menos gostosas e uns meio velhos bêbados que jogavam dominó.
Porque nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos dizer que freqüentávamos o bar antes de ele ficar famoso, íamos a tal praia antes de ela encher de gente, ouvíamos a banda antes de tocar na MTV.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, gostamos dos pobres que estavam na praia antes, uns pobres que sabem subir em coqueiro e usam sandália de couro; isso a gente acha lindo, mas a gente detesta os pobres que chegam depois, de Chevette e chinelo Rider. Esse pobre não, a gente gosta do pobre autêntico, do Brasil autêntico. E a gente abomina a Vejinha, abomina mesmo, acima de tudo.
Os donos dos bares meio ruins que a gente freqüenta se dividem em dois tipos: os que entendem a gente e os que não entendem. Os que entendem percebem qual é a nossa, mantêm o bar autenticamente ruim, chamam uns primos do cunhado para tocar samba de roda toda sexta-feira, introduzem bolinho de bacalhau no cardápio e aumentam em cinqüenta por cento o preço de tudo (eles sacam que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, somos meio bem de vida e nos dispomos a pagar caro por aquilo que tem cara de barato). Os donos que não entendem qual é a nossa, diante da invasão, trocam as mesas de lata por umas de fórmica imitando mármore, azulejam a parede e põem um som estéreo tocando reggae. Aí eles se dão mal, porque a gente odeia isso, a gente gosta, como já disse algumas vezes, é daquela coisa autêntica, tão Brasil, tão raiz.
Não pense que é fácil ser meio intelectual, meio de esquerda em nosso país. A cada dia está mais difícil encontrar bares meio ruins do jeito que a gente gosta; os pobres estão todos de chinelos Rider e a Vejinha sempre alerta, pronta para encher nossos bares meios ruins de gente jovem e bonita e a difundir o "petit gâteau" pelos quatro cantos do globo.
Para desespero dos meio intelectuais, meio de esquerda que, como eu, por questões ideológicas, preferem frango à passarinho e carne-de-sol com macaxeira (que é a mesma coisa que mandioca, mas é como se diz lá no Nordeste, e nós, meio intelectuais, meio de esquerda, achamos que o Nordeste é muito mais autêntico que o Sudeste e preferimos esse termo, macaxeira, que é bem mais assim Câmara Cascudo, sacou?).
- Ô Betão, vê uma cachaça aqui pra mim; de Salinas, quais que tem?

Autor: desconhecido - Postagem: José Nilton Mariano Saraiva

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Carnaval do Crato 2013: uma festa de alegria, tradição e paz

6 02 2013
Por Dane de Jade ¹
dane-jadeA história da humanidade tem sido marcada, ao longo dos tempos, por escolhas e renúncias, algumas delas profundamente caras à sociedade e ao planeta.
No campo das políticas públicas não é diferente. Todos os dias, temos que fazer escolhas que nos conduzirão a ações que podem ser marcadas pelo abandono e a negação de nossa própria identidade, ou pelo cuidado e a valorização das nossas tradições e nossos saberes.
Assim foi com o processo de planejamento do Carnaval do Crato para esse ano. Era preciso decidir entre um modelo de carnaval vazio de conteúdo e carente de planejamento e cuidado ou uma proposta de carnaval que primasse pelo reconhecimento e valorização das nossas tradições e tivesse como principais marcas o cuidado e a disseminação de uma cultura de paz.
Nossa crença é de que é possível conciliar alegria, tradição e espírito fraternal, numa festa que deve ser, antes de qualquer coisa, um momento de congraçamento e celebração da vida.
Motivados por essa crença, nos dirigimos a todos os filhos e filhas do Crato, naturais ou adotivos, e a todos que visitam nossa cidade nesse período, para participarem conosco dos festejos carnavalescos que terão início na tarde desta sexta-feira (8), com o já tradicional Desfile das Virgens, seguindo até terça-feira (12), com uma vasta programação já disponível nas redes sociais na internet e em vários outros meios de comunicação.
A propósito, uma das questões cruciais para o Carnaval do Crato esse ano foi a escolha do repertório. Em respeito à nossa gente e à nossa rica tradição cultural, nos recusamos a veicular nos trios elétricos, no palco oficial e por qualquer outro meio, músicas que neguem a vida, incitem a violência e expressem preconceito ou desvalorização de qualquer pessoa ou segmento social.
Outro desafio que tivemos que enfrentar foi a construção de uma rede de parcerias que nos permitisse realizar o nosso Carnaval sem recursos do tesouro municipal, já comprometidos com outras prioridades, essenciais à melhoria da qualidade e vida de nossa gente.
Para tanto, foram fundamentais as parcerias da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, através do VII Edital Carnaval do Ceará, do Banco do Nordeste, do SESC Ceará, da CDL e de empresas locais.
A corajosa decisão de realizar o Carnaval do Crato nos moldes apresentados acima tem também o significado simbólico de confirmar nossa opção pela construção de uma Política Municipal de Cultura que vá para além das quatro festas do ano.
Um fraterno abraço e um Carnaval de muita alegria, tradição e paz para todos nós!
¹ Dane de Jade é atriz-pesquisadora, produtora, arte-educadora, radialista e gestora cultural. Atualemente é Secretária de Cultura do município do Crato, no Cariri cearense.


domingo, 3 de fevereiro de 2013

por Nicodemos

veja só!
Estudos Literários
Edgar Allan Poe (1809 – 1849), o primeiro teórico do gênero:
“Temos necessidade de uma literatura curta, concentrada, penetrante, concisa, ao invés de extensa, verbosa, pormenorizada... É um sinal dos tempos... A indicação de uma época na qual o homem é forçado a escolher o curto, o condensado, o resumido, em lugar do volumoso”.
Mário de Andrade (1893-1945), em Contos e Contistas (1938):
“[...] em verdade, sempre será conto aquilo que seu autor batizou com o nome de conto...".
Alfredo Bosi, História Concisa da Literatura Brasileira:
"O conto cumpre a seu modo o destino da ficção contemporânea. Posto entre as exigências da narração realista, os apelos da fantasia e as seduções do jogo verbal, ele tem assumido formas de surpreendente variedade. Ora é quase-documento folclórico, ora quase-crônica da vida urbana, ora quase-drama do cotidiano burguês, ora quase-poema do imaginário às voltas, ora, enfim, grafia brilhante e preciosa voltada às festas da linguagem."
Em seu livro O Conto Brasileiro Contemporâneo sobre o caráter múltiplo do conto:
"[...] já desnorteou mais de um teórico da literatura ansioso por encaixar a forma- no interior de um quadro fixo de gênero. Na verdade, se comparada à novela e ao romance, a narrativa curta condensa e potencia no seu espaço todas as possibilidades da ficção."
Afrânio Coutinho:
"O contista oferece uma amostra através de um episódio, um flagrante, ou um instantâneo, um momento singular e representativo."
Massaud Moisés, O Conto; em A Criação Literária:
"[...] o conto vem sendo praticado por uma legião cada vez maior de ficcionistas, que nele encontram a forma adequada para exprimir a rapidez com que tudo se altera no mundo moderno."
"[...] o conto é, do prisma de sua história e de sua essência, a matriz da novela e do romance, mais isso não significa que deva poder, necessariamente, transformar-se neles. Como a novela e o romance, é irreversível: jamais deixa de ser conto a narrativa como tal se engendra, e a ele não pode ser reduzido nenhum romance ou novela."
Moacyr Scliar (1937), um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea, numa entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo, em quatro de fevereiro de 1996:
“Eu valorizo mais o conto como forma literária. Em termos de criação, o conto exige muito mais do que o romance... Eu me lembro de vários romances em que pulei pedaços, trechos muito chatos. Já o conto não tem meio termo, ou é bom ou é ruim. É um desafio fantástico. As limitações do conto estão associadas ao fato de ser um gênero curto, que as pessoas ligam a uma idéia de facilidade; é por isso que todo escritor começa contista”.
Wolfgang Kaiser escritor alemão e importante teórico da literatura:
"O conto indica que pode ser lido ou ouvido ‘numa sentada’, e isso transparece, mais ou menos, através de todos os contos. Reside nisso, pois, necessariamente, o reduzido do tamanho e a sua limitação, em comparação com a amplitude do romance." [...] (Wolfgang KAYSER, Análise e Interpretação da OBRA literária. Trad. Paulo Quintela. Coimbra: Sucessor, 1968. Vol. II )
Nádia Battella Gotlib, autora de Teoria do Conto (1985):
“A linha normativa gera uma série de manuais que prescrevem como escrever contos. E a revista popular propícia uma comercialização gradativa do gênero. Tais fatos são tidos como responsáveis pela degradação técnica e pela formação de estereótipos de contos que, na era industrializada do capitalismo americano, passa a ser arte padronizada, impessoal, uniformizada, de produção veloz e barata. Tais preocupações provocam, por sua vez, um movimento de diferenciação entre o conto comercial e o conto literário. Daí talvez tenha surgido o preconceito contra o conto...".
Esteban Antônio Skármeta Branicic (1940), escritor chileno, em Assim se Escreve um Conto:
“Eu diria que o que opera no conto desde o começo é a noção de fim. Tudo chama, tudo convoca a um final”.
Ricardo Piglia (1940), escritor argentino, em O Laboratório do Escritor:
“Pode-se programar a trama, os personagens, as situações, conhecer o desenlace e o começo, mas o tom em que se vai contar a história é obra de inspiração. Nisso consiste o talento de um narrador”.
Edgard Cavalheiro (1911-1958), na introdução de Maravilhas do Conto Universal:
“A autonomia do conto, seu êxito social, o experimentalismo exercido sobre ele, deram ao gênero grande realce na literatura, destaque esse favorecido pela facilidade de circulação em diferentes órgãos da imprensa periódica. Creio que o sucesso do conto nos últimos tempos (anos 60 e 70) deve ser atribuído, em parte, à expansão da imprensa”.
• Gilberto Mendonça Telles, 1931, em A Retórica do Silêncio: Teoria E Prática Do Texto Literário:
"Os primeiros autores de livros de conto não faziam questão de distinguir entre os contos que pertenciam à tradição (e que estavam, portanto, incrustados na língua) e os que pertenciam à sua própria criação, como produtos de uma fala literária. Todos os livros de contos a partir do século XV misturam as duas formas: os de ‘forma simples’, ligados à tradição popular; e os de ‘forma culta’, criados pelo escritor."
Cristina Peri Rossi (1941). Novelista, poeta e contista uruguaia:
"O escritor contemporâneo de contos não narra somente pelo prazer de encadear fatos de uma maneira mais ou menos casual, senão para revelar o que há por trás deles". ®Sérgio.
 
João Nicodemos
www.poemasdonicodemos.blogspot.com/

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Atenção amigos que gostam de contos. Clicar no link ao lado, encanto do conto, Páginas deste blog É uma nova página do blog que pretendemos utilizar para publicação de contos e comentários sobre esta forma literária.
Aguardamos as visitas.
Abraço a todos!

MAIS UM MOTIVO DE ORGULHO PARA D. ALMINA - 2


  Thais Pinheiro Callou, filha de José Lívio Callou e Mª Benigna Arraes (Bida), neta de D. Almina Arraes, voltou a brilhar no universo acadêmico. Acaba de ser aprovada no concurso de especialista do Conselho Brasileiro de Oftomologia - CBO. Com o título, a jovem médica cratense está apta a exercer sua profissão em qualquer ponto do território brasileiro. Dra. Thais pretende prestar serviços no Cariri mas antes concluirá curso de pós-graduação na USP, em São Paulo.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

SAUDEMOS FEVEREIRO - UM MÊS TÃO BRASILEIRO

ZODÍACO – Fevereiro – por Daniel Lima
E ao chegar fevereiro
                ainda serás imortal
da trágica imortalidade dos palhaços,
     das colombinas e dos arlequins.

Fevereiro é o Brasil,
                Já vem gingando.
     (E o que é gingar?     
                Não perguntes,
não se diz,
     não se explica:
                só se vendo (ou fazendo).

Fevereiro desfila
                Gosta de ser fevereiro.

     Ele se adora.
 
     E porque se adora,
                fevereiro samba e ri
e se cobre todo de miçangas.

Há borboletas que não vejo
     no jardim de rosas que não tenho.

     Mas fevereiro cria
as rosas e o jardim
     e as borboletas.

Fevereiro não gosta de Scarlatti
     mas gosta de escarlate
                e azul
     e cores misturadas.

     Fevereiro é ligeiro,
um voo de pássaro encantado,
     um relâmpago no céu inesperado
        (o relâmpago e o céu),
                o céu de fevereiro,
a luz fugaz de um fósforo aceso.

     A alegria que levas de reserva
colheste-a por certo em fevereiro,
para queimá-la talvez a vida inteira.

     Mês leviano, essencial
                Eterno e contingente.

No dia em que o perderes
     com ele perderás a tua mocidade
                e terás assinado antes da hora
um pacto de morte com a tristeza
                e seus horrores.

Fevereiro é riso puro.
                Um riso puro
     é um riso sem rosto
        um riso sem figura
                a rir
     no espaço tempo do riso
     sem olhos e sem boca,
       um riso absoluto
                e em si,
não riso de alguém,
senão que um simples riso puro, riso
                sem boca, sem nariz
     riso em rosto nenhum
                (volto a dizê-lo),
riso que só Kant talvez entenderia
     riso só, transcendental,
                só riso     



               


                   

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Papagaios & Araras



Acredito que terá sido Pero de Magalhães Gândavo , na sua “História da Província Santa Cruz  a que vulgarmente chamamos de Brasil”, publicado em 1576, que já alertava : os indígenas costumam pintar papagaios para vender como araras aos viajantes menos atilados. E assim tem sido historicamente, amigos , desde nossas mais remotas origens : nossas leis mais rigorosas simplesmente não pegam; as normas mais pétreas sempre têm uma escapadinha possível;  os ritos mais sagrados banham-se rapidamente em águas profanas; nossas guerras e revoluções mais sangrentas não pingam uma gotinha de sangue sequer. Culturalmente sempre há um  “jeitinho” para se resolver tudo. Indignamo-nos, facilmente, com as tragédias que nós mesmos produzimos, seja na vida pública, na esfera privada, na política, na economia. Entupimos a cidade de lixo e nos queixamos da sujeira; desmatamos nossas encostas e reclamamos das enchentes; elegemos políticos corruptos e, depois,  nos revoltamos com os desmandos e os desvios de verbas.
                        Dias desses, um amigo tomou uma Topic para Nova Olinda. Ao passar no Colégio Agrícola, o motorista alertou os passageiros : “Pessoal, coloque o cinto de segurança que vamos passar no Posto da Polícia Rodoviária!”. Ultrapassada a vigilância, na altura das Guaribas, ele voltou a informar : “Pessoal, já passamos do Posto, podem desafivelar os cintos !”. Existe uma conduta mais brasileira que esta ? Na Expô/Crato e na Festa do Pau de Santo Antonio os políticos locais providenciam para que se evitem blitz, para que se afastem os bafômetros: fiscalização demais, eles alegam, pode prejudicar a festa. Dane-se o Código Nacional de Trânsito! Seque a Lei Seca !
                        Esta semana convivemos com a tragédia indizível da Buate de Santa Maria, onde mais de duzentos jovens perderam a vida. Impossível imaginar tantos ninhos desfeitos, tantos sonhos prematuramente esmagados, tantas mães e pais à deriva, sem um profundo sentimento de comoção nacional. E esta, também, é uma característica bem brasileira: somos solidários e emotivos. Gostamos de nos ajudar mutuamente. Claro que carregamos conosco preconceitos atávicos. A dor e o sofrimento no Sul e Sudeste têm um peso bem maior que nos grotões do Norte e Nordeste. A Seca no Piauí não tem a mesma importância da enchente em Teresópolis. Constatada a tragédia como em Santa Maria, estabelece-se a corrida desenfreada em busca dos culpados. “Queremos Justiça!” “Essa calamidade não pode se repetir !” Rapidamente, posto o excremento no ventilador, muitos sairão pouco perfumados. De quem é a culpa afinal? Do dono do ventilador? De quem colocou o excremento nas suas aspas? De quem ligou o eletrodoméstico? De quem não verificou a funcionalidade do bicho ? Possivelmente, pelas proporções gigantescas do holocausto de Santa Maria, todos os atores  sairão mais ou menos calabreados.
                                   Mas , no fundo, a mesma história tende a se repetir. Brasileiro não trabalha com prevenção do fogo, só como bombeiro. No dias que se seguiram ao incêndio, o Brasil todo começou a fiscalizar as Casa Noturnas e encontraram inúmeras irregularidades. Todas estavam perfeitamente aptas a refazer a calamidade gaúcha: esperavam apenas um estopim. Por que não vinham sendo vistas com a regularidade necessária ? Por que o problema não tinha sido detectado antes e sanado antes do sacrifício de incontáveis vidas ?
                                   E pior, amigos, escrevam aí : passados os primeiros momentos da tragédia, sepultada a notícia por outra mais cabeluda, tudo volta a ser “Como Dantes no Quartel de Abrantes”.  Depois do grande incêndio no Grand Circo Norte-Americano em Niterói , em 1961, o que melhorou na segurança destes espetáculos ? Quem fiscaliza os Circos, quando chegam nas cidades e quem verifica a segurança a fim de liberar  o alvará de funcionamento?  Após as enchentes de Teresópolis e Nova Friburgo em 2011, que se fez para que novas catástrofes não venham a acontecer ? Você se sente seguro em mandar seu filho a um parque de diversões após as medidas tomadas depois do Acidente no Parque Hopi Hari em São Paulo , no ano passado ?
                                   Culpados serão apontados em Santa Maria, processos se arrastarão na justiça, mas a centenária instituição do “jeitinho” providenciará  para que  os responsáveis saiam sapecados, mas ilesos. Só não há “jeitinho” para a imponderável dor das famílias diante da perda incalculável dos seus filhos queridos; nem para que essa tragédia anunciada não  se repita. Enquanto isso , vamos dando nosso jeitinho para que os papagaios continuem sendo negociados a preço de araras, exatamente como há cinco séculos atrás.

J. Flávio Vieira

 

Maracatu se prepara para Carnaval do Crato