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“O Ministério Público tá com uma pica do tamanho de um cometa para
enterrar na gente", disse Fabrício Queiroz em um áudio de 2019,
quando ele e Flávio Bolsonaro eram investigados por lavagem de dinheiro,
peculato e organização criminosa. Mal sabia que essa seria a menor das
“picas” a serem enfrentadas por Flávio Bolsonaro no decorrer da sua
carreira política.
Sete anos depois, o senador é pré-candidato à presidência e está
enfrentando uma série de graves acusações. Além das negociações
milionárias suspeitíssimas com o maior ladrão do Brasil, Flávio terá que
passar o ano eleitoral explicando os escândalos de corrupção em que está
envolvido. Não estamos falando de um caso ou outro, mas de muitos. A
relação obscura com Vorcaro é só uma gota no oceano de lama no qual o
senador está atolado.
Flávio terá que explicar por que enviou uma emenda parlamentar de
R$199 mil para uma ONG suspeita de integrar um esquema de desvio de
verbas públicas, comandado pelos irmãos Brazão — os mandantes do
assassinato de Mariele Franco. Segundo a Polícia Federal, o envio foi
intermediado por um policial militar conhecido como "Peixe",
que também foi condenado pelo assassinato da vereadora. O senador terá
que esclarecer os motivos que o levaram a manter negócios com a quadrilha
que matou a vereadora do PSOL.
Operação ‘Sem Refino’
Há um outro caso que está prestes a explodir no colo de Flávio. A
operação “Sem Refino” da Polícia Federal investiga um esquema bilionário
de sonegação envolvendo a Refit, uma empresa do setor de combustíveis.
As investigações estão chegando cada vez mais perto de Flávio Bolsonaro,
que viu seu aliado Cláudio Castro ser alvo de busca e apreensão na semana
passada. O caso tem grande potencial para arrastar Flávio para o olho do
furacão. Um relatório da PF enviado ao Supremo Tribunal Federal destaca
que a “a leniência e a criação de um ambiente propício para a propagação
da atividade espúria desenvolvida pela organização criminosa (...)
retratam o amálgama do crime organizado com agentes públicos influentes
na política fluminense, a começar pelo então chefe do Poder
Executivo”.
Não é possível falar em “agentes públicos influentes na política
fluminense” sem falar na família Bolsonaro, especialmente Flávio. Até os
paralelepípedos da Rua do Ouvidor conhecem a influência do senador na
política fluminense. Um esquema dessa grandiosidade, considerado o maior
caso de sonegação do país, dificilmente seria ignorado pelo filho mais
velho de Jair Bolsonaro. Ainda mais um caso envolvendo dois parças tão
próximos como Cláudio Castro, do PL do Rio de Janeiro, e o senador Ciro
Nogueira, do Progressistas do Piauí, a quem foi entregue a “alma do
governo” Bolsonaro. Aliados mais próximos a Flávio sabem disso e estão
desesperados com a possibilidade real do caso respingar nele.
Ninguém confia no Flávio
Flávio Bolsonaro é um mentiroso contumaz, como ficou evidente
depois das reportagens do Intercept. Não que isso seja novidade, mas
descobrimos que ele mente até mesmo para os seus aliados. No início da
pré-campanha, os dirigentes do PL questionaram o senador sobre suas
relações com Vorcaro. Ele negou. Meses depois, Flávio mudou a história,
mas continuou mentindo. Disse que foi procurado pelo banqueiro, mas
recusou o encontro. Hoje, sabe-se que ele não só o encontrou como pediu
milhões para financiar o filme panfletário sobre seu pai. Ninguém confia
em Flávio, nem mesmo os seus companheiros.
O desespero para encontrar uma narrativa que salve o candidato é
grande. Cavaram até um encontro com Trump nos EUA para tentar virar o
jogo no noticiário. É uma tentativa de mostrar credibilidade junto ao
presidente americano, já que aqui no Brasil nem a confiança de Valdemar
da Costa Neto ele tem mais.
As chances do encontro ser um mico são grandes. Primeiro porque o
presidente americano já não é mais visto como um bom cabo eleitoral. Uma
fotinho ao lado dele não rende votos, apenas serve para deixar sua base
eleitoral excitada. Segundo porque a imprevisibilidade de Trump pode até
melar o encontro, ainda mais em meio a uma guerra. Viajar até os EUA e
voltar sem o encontro seria vergonhoso e aumentaria as manchetes
negativas. No fim das contas, a reunião com Trump é só um ato de
desespero.
São muitos os esqueletos no armário do Flávio mas, pelo menos por
enquanto, nada indica que ele desistirá da candidatura. Em condições
normais de pressão e temperatura, um candidato que não inspira confiança
já teria sido rifado pelos aliados. Ocorre que toda a direita brasileira
está sequestrada pelos Bolsonaros.
Afinal de contas, quem tem votos é a família e, para ela, não
interessa vencer a eleição sem um parente à frente da candidatura. É
melhor perder e manter a família com controle político da direita do
que ganhar e entregar todo o capital eleitoral de bandeja para alguém de
fora do clã.
A direita hoje está refém de uma família cujo patriarca está
preso, um dos filhos está foragido e o mais velho está escalado para a
disputa presidencial mesmo atolado por escândalos de corrupção. Outros
candidatos de direita, como Zema e Caiado, até tentam se diferenciar, mas
não podem romper de uma vez com o bolsonarismo. Seria um suicídio
eleitoral.
Além disso, seria incoerente largar o osso depois de terem sido
cúmplices dos maiores absurdos protagonizados pelo clã Bolsonaro, desde a
roubalheira generalizada até a tentativa de golpe de estado. Vejam só
onde a direita brasileira foi amarrar seu burro. Agora é tarde demais.
Vão ter que segurar essa pica do tamanho de 10 cometas até o final da
eleição.
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