Só na unidade tudo cessa e tudo é ultrapassado. Superado. Revolucionado.

José do Vale Pinheiro Feitosa


“Não deveis esperar que os mais afortunados se compadeçam de vós, que sois os mais necessitados. Deveis apertar a mão da solidariedade, e não estender a mão à caridade. Trabalhadores, meus amigos, com a consciência da vossa força, com a união das vossas vontades e com a justiça da vossa causa, nada vos poderá deter.”
Getúlio Vargas

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

PATATIVA - PREFEITURA SEM PREFEITO





Prefeitura sem Prefeito, uma das poesias famosas de Patativa do Assaré, declamada por ele mesmo no programa de Jô Soares, usada em várias cidades pela oposição para atingir prefeitos tidos como omissos, provocou a prisão do poeta, o que serviu para aumentar sua fama. No entanto, raramente é relacionada com o “inspirador” dos versos, pois raríssimas pessoas sabem quem foi o Edil alvo da ironia.
                Juntando fragmentos de conversas guardadas na memória, inclusive com o Poeta  e, recentemente, obtendo a confirmação de Raulberto Onofre,  me arrisco contar a história.
                O ocupante da prefeitura na época era o Sr. Raul Onofre Paiva.  Era filiado à ARENA, partido dos Coronéis e de apoio aos militares do golpe militar de 1964.  Sem nenhuma preocupação ideológica, o Sr. Raul via na aliança com a situação a melhor, se não única, forma de atrair obras e verbas para seu carente município.  Já Patativa, antenado com o sofrimento da população, sabia que o modelo implantado jamais faria as reformas nem adotaria medidas visando melhorar a distribuição de rendas, por isso simpatizava com o então MDB. Na campanha eleitoral ficaram em lados opostos.  O candidato arenista ficou magoado com os improvisos do poeta popular pedindo votos para o adversário dele.  
                O apoio de Patativa não foi suficiente para dar a vitória ao seu candidato, venceu o Sr. Raul Onofre.  Assumindo a prefeitura, separou dois dias da semana para audiências públicas, um dia para os habitantes da zona rural e outro para os moradores da cidade.
                Patativa, completando 65 anos, requereu pedido de aposentadoria rural, mas, para o deferimento precisava de declaração do Prefeito, pois ele, como pequeno proprietário, não tinha “patrão”.
                Ainda ressentido com a participação do poeta em prol do adversário, o Prefeito não concedeu audiência a Patativa.  No dia destinado aos moradores do campo, ele alegava que Patativa morava na cidade (de fato, ele tinha uma casa na praça principal da cidade).  No dia dos moradores urbanos, ele dizia que o requerente morava no sítio. Noutras ocasiões, saía sem receber o eleitor e mandava dizer que não estava.  Em vista disto, foi brindado com a poesia.  Como era época de autoritarismo, o Sargento da PM, que atuava como Delegado, considerou os versos como ofensa à autoridade municipal e decretou a prisão do nome mais conhecido de Assaré.  A atitude do policial, na ânsia de querer agradar ao prefeito, causou revolta tão grande na população que foi obrigado a revogá-la meia hora depois.
                A peregrinação de Patativa pela aposentadoria a que fazia jus rendeu duas poesias extraordinárias: a já citada Prefeitura sem Prefeito e a “Aposentadoria de Mané do Riachão”.
Prefeitura sem prefeito
Nessa vida atroz e dura
Tudo pode acontecer
Muito breve há de se ver
Prefeito sem prefeitura;
Vejo que alguém me censura
E não fica satisfeito
Porém, eu ando sem jeito,
Sem esperança e sem fé,
Por ver no meu Assaré
Prefeitura sem prefeito

Por não ter literatura,
Nunca pude discernir
Se poderá existir
Prefeito sem prefeitura.
Porém, mesmo sem leitura,
Sem nenhum curso ter feito,
Eu conheço do direito
E sem lição de ninguém
Descobri onde é que tem
Prefeitura sem prefeito.

Ainda que alguém me diga
Que viu um mudo falando
Um elefante dançando
No lombo de uma formiga,
Não me causará intriga,
Escutarei com respeito,
Não mentiu este sujeito.
Muito mais barbaridade
É haver numa cidade
Prefeitura sem prefeito.

Não vou teimar com quem diz
Que viu ferro dar azeite,
Um avestruz dando leite
E pedra criar raiz,
Ema apanhar de perdiz
Um rio fora do leito,
Um aleijão sem defeito
E um morto declarar guerra,
Porque vejo em minha terra
Prefeitura sem prefeito.

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