por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

You´ll Never Know - José do Vale Pinheiro Feitosa

Comece assim, no tempo e no espaço. No tempo de muitas páginas no calendário. No espaço remoto onde a maior das vozes era aquela que ecoava, como se nas nuvens, pelas cornetas de um serviço de alto falantes.

Os anos agora, são outros, com outra cultura, novos valores, conexões numa malha inteiramente nova. O prazer, o vício da moda, o desprezo e estranhamento do passado. Mesmo naquele tempo de muitos calendários o preconceito com o que não era da “classe”, social, de idade, de “tribo”, de turma, estava presente. Entre esclarecidos revolucionários, alienados das bandinhas de guitarra ou senhores e senhoras de roupas cheirosas.

Apenas por ser daquele espaço remoto, ser brega, se enternecer com música brega, pensar em alguém pela música brega, era uma ponte entre o tempo e o espaço. Uma ponte anacrônica, pois o tempo do povo brasileiro sempre foi mais lento do que o da classe média e da elite.

Os nomes daquelas melodias de Waldick Soriano, Orlando Dias, Lindomar Castilho, Carlos Alberto, José Augusto, Agnaldo Timóteo (este mais palatável à classe média), Núbia Lafayette, Rosemary, Silvinho, Wando, Antonio Marcos é uma lista muito mais longa que estas páginas. As melodias vinham de versões, de compositores dos bares e cabarés da periferia das cidades.

E foi assim que uma música, brega de extravasar pelo sangradouro, fez sucesso, inclusive nos programas de auditório da televisão. Era um sucesso de Antonio Marcos. Escutem só:


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 Eu vou ter sempre você - Antonio Marcos - com uma montagem do youtube bem ao estilo.

Todo o arranjo e letra são de descer um copo após o outro na mesa do bar. De sob o poste apagado, encostado nele, na escuridão da rua, lembrar que ela nunca saberá o quanto a fumaça do cigarro evola-se por ela, enquanto o estoque de tabaco se queima em brasa.

Ela sentada na janela secreta daquele quarto noturno, com o radinho de pilha no colo, ouvirá a canção que desfia sua alma e lança os fios flutuantes por sobre as flores do jardim. Fios que flutuam alto e distante a até enovelar-se na forma dela no coração daquele amor.  

Algo mais brega? Esta intensidade ameaçada pela perda. Pela incompreensão. Por alguém que jamais saberá? É isso mesmo, não é?

Errado.

Os gringos, que têm a batuta na mão de fazer o “dictatus” do que é e não é in. Hão de dizer que não. Acontece que toda a melopeia de Antonio Marcos ganhou um Oscar de melhor canção de 1943 pelo filme “Hello Frisco, Hello”. Certo que era o tempo da guerra. Que a perda, a distância e a separação eram quase que a regra. Mas ganhou o Oscar, viu gente bem sabida!

E sim. Tem mais. Os compositores são grandes nomes da música americana sofisticada, gente que fez música para orquestras do tipo Glenn Miller, gente que compôs coisas do tipo Chatanooga Choo Choo ou que compôs para Frank Sinatra, Dean Martin, Nat King Cole, Barbra Streisand e por aí vai. Falo dos compositores, especialmente para o cinema, Harry Warren e Mack Gordon.

Agora escutem a gravação do filme com Alice Faye em Hello, Frisco, Hello:

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You´ll Never Know - Alice Faye - cena do filme Hello Frisco, Hello.
  
Agora uma tradução mais na base da letra americana, diferente daquela que Antonio Marcos fez:   

Querida, eu sou tão triste sem você
Penso em você nos longos dias da vida
Quando me perguntar se eu estou sozinho
Então, eu só tenho isso a dizer:

Você nunca saberá o quanto sinto tua falta
Você nunca saberá o quanto me importo
Mesmo se tentasse, não poderia esconder meu amor por ti
Você deve lembrar, eu não disse assim
Um milhão ou mais vezes?

Você foi embora e meu coração foi contigo
Eu falo o teu nome em todas as minhas orações
Se há alguma outra maneira de provar que eu te amo
Eu juro que eu não sei como
Você nunca saberá se agora ainda não sabe.

Você nunca saberá o quanto eu sinto tua falta
Você nunca saberá o quanto eu me importo
Você disse adeus; no céu as estrelas se recusam a brilhar
Vai por mim: não é divertido estar sozinho
Com luar e memórias,

Não que os nascidos dos anos 90 para cá não estranhem qualquer canção dos idos dos anos 30, 40 e 50. Aliás esta meninada por falta de algo maior na melodia (não nos intérpretes pois eles têm os deles de agora) não deixam de ouvir e se admirar dos Beatles. A velhice dos anos 60 continua sendo o mais revolucionário que conhecem.

Apenas para que sejamos mais informados sobre a carreira desta canção: ela foi gravada entre outros por Frank Sinatra (no seu primeiro disco solo), foi gravada por Barbra Streisand (quando tinha apenas 13 anos e sua primeira gravação), foi gravada por Harry James e Rosemary Clooney, por Shirley Bassey, Dorys Day, Sandi Patty, Jim Reeves, Trini Lopez (já coroão), por Al Hirt (aquele trompetista do filme Candelabro Italiano) e muitas outras pessoas. Inclusive uma surpreendente Ralna English. A versão de Ralna é bem ao estilo e sem contar seus olhos castanhos esverdeados enfeitiçando os acordes com aquele rosto bem talhado. 

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You´ll Never Know - Ralna English


Mas voltando a então. Naquele tempo tudo era brega, mas suspeito que era porque pertencia ao nicho popular e ninguém sabia que era um grande sucesso do cinema. Claro que para a geração Rock and Roll, geração Bossa Nova e até mesmo do MPB mais experimental, toda a geração de grandes compositores e intérpretes já estava ultrapassa. Eram novos tempo. Mas aquela divisão de classe, no mesmo velho estilo, era apenas isso: divisão de classe. 

E para finalizar, que tal Waldick Soriano dizendo que gostaria de ser compositor da canção:


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Eu vou ter sempre você - Waldick Soriano

Sim. Os Platters fizeram outra canção com o mesmo título, que é totalmente diferente. É fácil achar no youtube.






 

Um comentário:

socorro moreira disse...







NAQUELE TEMPO O PRECONCEITO MUSICAL ERA IRRELEVANTE.OUVÍAMOS RÁDIO 24 H, E TÍNHAMOS POUCOS DISCOS EM CASA.RESULTADO: APRENDÍAMOS TUDO, E A MOÇADA DA ÉPOCA ADORAVA DANÇAR.

CURTI CARLOS ALBERTO, ORLANDO DIAS, ALTEMAR, OS SERESTEIROS, A JOVEM GUARDA....

A MÚSICA QUE EDUCOU NOSSOS OUVIDOS FORAM OS CLÁSSICOS, AS TRILHAS SONORAS DOS FILMES, E A MPB ,COM A CHEGADA DOS FESTIVAIS. Depois NOS APAIXONAMOS PELO JAZZ,BOSSA NOVA E A MÚSICA INSTRUMENTAL .A MÚSICA MAIS BELA DO MUNDO É A BRASILEIRA, MAS AMO A BOA MÚSICA DE QUALQUER PAÍS DO MUNDO.

JÁ DANCEI E CANTEI WALDICK SORIANO, MUITAS VEZES.POR QUE NÃO?

TENHO HOJE PRECONCEITO.È O PESO DA IDADE QUE NOS TORNA INTOLERANTES?

NÃO GOSTO DA MÚSICA ATUAL, QUE ENVOLVE DUPLAS SERTANEJAS, PAGODE, AXÉ, FORRÓ ELETRÔNICO... COM RAÍSSIMAS EXCEÇÕES.



ZÉ DO VALE TEM SIDO MUITO FELIZ NAS SUAS POSTAGENS MUSICAIS.ENCANTOU-NOS COM TODAS!

É UM TRABALHO CAPRICHOSO DE PESQUISAS, ADEQUADAMENTE ILUSTRADO COM CANÇÕES PERTINENTES.

PARABÉNS, MEU SENHOR!



SOCORRO MOREIRA