por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Uma demissão por justa causa. - Por Carlos Eduardo Esmeraldo

Em 1978, o motorista do Superintendente da Coelce para a região do Cariri, veio até minha residência, para informar que estava ali a fim de me conduzir ao distrito de Quincuncá, no município de Farias Brito. E eu deveria representar a Coelce na inauguração da energia elétrica daquela localidade. A solenidade contaria com a presença do governador do Estado e outras autoridades. Eu não havia participado nem do projeto, nem da construção da obra e portanto não possuía nenhum dado sobre aquela rede elétrica prestes a ser inaugurada.

O distrito do Quincuncá fica no topo de uma serra cujo acesso a partir da cidade de Farias Brito era muito difícil. Uma ladeira tão íngreme, que ao terminá-la de subir, tivemos de parar o carro por cerca de uma hora, pois a água do radiador estava fervendo, como se ele fosse uma chaleira, tendo derramado quase toda água. Por esse motivo chegamos um pouco atrasado ao inicio da festa.

Quando chegamos, o governador já havia acionado a chave que simbolizava a inauguração tão ansiosamente aguardada pelos moradores da vila. As autoridades já estavam sobre um improvisado palanque para os discursos e, eu como representante da Coelce fui convidado a subir. No palanque, o senador Virgílio Távora se aproximou de mim e perguntou:
- "Dotorzinho, quantos postes tem essa rede?"
- Setenta postes! - Respondi chutando.
- E o transformador? Qual a potencia? - Insistia ele.
- 112,5 kVA - Dei mais outro palpite.
- E quantas casas foram ligadas? - Sua última pergunta.
- 130 residências. - Meu último chute.

Preocupado, desci do palanque e fui ouvir o discurso no meio dos eletricistas da Coelce que tinham trabalhado até aquele dia na conclusão da rede elétrica. Quando ele terminou sua fala, então eu comentei com o chefe de turma que aquelas informações eu havia chutado ao senador Virgílio Távora. Foi com grande surpresa que eu o ouvi dizer:
- O senhor somente errou no número de ligações: foram 128 casas e não 130. O restante estava tudo certo. Mal poderia imaginar àquela altura, que o meu "achismo" seria tema de futuros ensinamentos na universidade.

Três anos depois, encontrava-me em Recife participando de um curso de pós-graduação "lato sensu", o CEDIS - Curso de Especialização em Distribuição de Energia Elétrica, numa promoção da Eletrobrás através da Universidade Federal de Pernambuco. Era uma espécie de revisão do programa do curso de Engenharia Elétrica, especificamente voltado para distribuição de energia, com participação de engenheiros das empresas distribuidoras de energia do nordeste e convidados de países sul-americanos.

Um dos professores era o engenheiro Solon Medeiros Filho, uma das maiores autoridades em medição de energia elétrica. Paraibano de Patos, o professor Solon era autor de vários livros técnicos adotados na maioria dos cursos de engenharia elétrica do pais e um convidado para ministrar palestras e cursos em Congressos e Seminários de Distribuição de Energia Elétrica por toda a  América Latina. Apesar de todo conhecimento de que era possuidor, o professor Solon não perdia a postura de sertanejo. Ministrava suas aulas com muita competência, entremeando os complicados assuntos técnicos com histórias interessantes, sempre que notava o cansaço se abater sobre a turma de alunos. Ele contava, que certa vez num congresso realizado na Argentina, seus companheiros brasileiros participantes daquele evento compravam sapatos de cromo alemão por apenas dez dólares, uma pechincha, o equivalente a cerca de trinta cruzeiros naquela época, ou nossos atuais vinte reais.
- Solon, você não vai comprar sapatos? Estão baratíssimos! -  Diziam seus companheiros. E ele respondia com outra pergunta para em seguida dar seu próprio veredicto:
- Tem vulcabrás? Porque eu só uso vulcabrás!

Certo dia, já no final do curso, ele nos contou uma história de um ex-aluno, recém formado em engenharia elétrica. Este aluno procurou o professor Solon para, segundo ele interpretava, relatar uma grande injustiça de que fora vítima e pedir ajuda a ele para interferir junto ao governador.

Eis o relato desse aluno. Após a formatura, foi contratado pela CELPE, a Companhia de Distribuição de Energia Elétrica de Pernambuco e lotado em Garanhuns. Naquela agradável cidade, o escritório da CELPE era defronte a casa do prefeito. Rapidamente estabeleceu-se uma amizade entre o prefeito e seu jovem vizinho. Certo dia, o prefeito foi convidar o engenheiro para almoçar com ele e o governador do estado na casa dele. Na hora do almoço foi apresentado ao governador, e o prefeito numa distinção ao seu amigo, fez com que ele se sentasse ao lado do governador. Então começou um interessante diálogo semelhante àquele ocorrido comigo e o Senador Virgílio Távora, acima mencionado.
- Quantos consumidores a Celpe tem aqui em Garanhuns? -  Quis saber o governador.
- Governador, me dê um minutinho que eu vou pegar o relatório no escritório ali do outro lado da rua. De pressa eu volto.
- Não. Não precisa. - Disse-lhe o governador! E continuaram o almoço. Alguns minutinhos depois, outra pergunta do governador:
-  Quantos quilômetros de linha de distribuição tem a cidade de Garanhuns? - Quis saber o governador!
-  Governador, deixe-me pegar o relatório, que darei todas as respostas que o senhor desejar.
- Não, não precisa. - E encerrou aquele assunto. E o engenheiro, após relatar tudo ao professor Solon, disse:
- Professor, quando o governador chegou a Recife mandou me demitir. Será que o senhor poderá falar com ele para tornar sem efeito essa demissão? - Então o jovem engenheiro recebeu do professor Solon a seguinte resposta:
 -  O governador fez muito bem em lhe demitir. Quando ele lhe perguntou quantos consumidores tem a cidade, você deveria ter respondido: cinqüenta mil. E olhasse para o homem. Se ele dissesse, só isso? Você deveria emendar: Estou contando somente a cidade, não inclui os distritos e nem a zona rural. Por outro lado se ele exclamasse: tudo isso? Você deveria dizer, estou contando com os consumidores da cidade, das vilas e da zona rural. 

Depois de ouvir essa história, vi como tivera sorte por haver chutado minhas respostas ao senador Virgílio Távora, pois três anos depois daquela inauguração em Quincuncá, ele foi conduzido à chefia do governo do Estado do Ceará e eu não fui demitido como aquele engenheiro pernambucano, nem mesmo transferido, mas nomeado chefe do Departamento Regional da Coelce no Cariri.  Prova de que qualquer chute na direção do gol, mesmo que a bola bata na trave, é melhor do que a bola passar longe da trave. 

Por Carlos Eduardo Esmeraldo

2 comentários:

socorro moreira disse...

Abraços para Carlos e Magali!
Saudades!

Magali de Figueiredo Esmeraldo disse...

Socorro, desejamos a você um feliz ano novo! Abraços: Carlos e Magali.