por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Marchinhas de Carnaval - José do Vale Pinheiro Feitosa


Não imagine que a grande diferença de desenvolvimento entre os países depois dos anos 50 foi um diferencial histórico de sempre. Segundo recente artigo de José Fiori a Argentina entre 1870 e 1920 estava entre as grandes economias do mundo. Depois dos anos 30 mudou o rumo. Os EUA balançaram a depender das décadas de observação: seja surto industrial dos Estados Nortistas ou se fosse visto durante a recessão, isso contando que foi ali que se inventou a maior indústria de sonho e fantasia que foi Hollywood que escamoteava a real situação do povo americano nos anos ruins.

A verdade é que a história cultural e, particularmente, da música expressou igualdades que evoluíram na segunda metade do século XIX e durante todo o século XX. Os músicos se tornaram uma grande vanguarda de migrantes rurais ou oriundos da escravidão onde existiu e que vieram formar a urbanidade das nações. Isso quer dizer que nesta raiz de pobres oriundos dos sertões e da classe média baixa já existente nas grandes cidades é que nasceu a base cultural da música, particularmente da brasileira.

A vinda de europeus, das casas de dança, das dançarinas, de músicos e das polacas fez do Rio de Janeiro e São Paulo uma base de recepção de ritmos e canções que aqui se adaptaram e se desenvolveram. Um dos estilos criados neste início da formação urbana brasileira é o que se denominou marchinha de carnaval. Inaugurada com o Abre Alas de Chiquinha Gonzaga a Marchinha de Carnaval se tornou um das grandes manifestações culturais entre os anos 20 e 60 em todo o Brasil.

A Marchinha de Carnaval contava a expectativa das pessoas em relação à política, à economia, aos costumes, aos problemas urbanos, às inovações do mundo, aos eventos históricos e assim por diante. Nada se tornou mais uma narrativa cronológica da vida urbana do que a marchinha. Mas voltando a um dos aspectos da sua origem vamos ouvir o Pé de Anjo.
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A música foi gravada nos anos 20 para o Bloco Fala Meu Louro. Aqui ela foi na voz de Blecaute. Segundo se diz a marchinha, ainda em ritmo lento que depois veio se acelerando, foi uma chupada de Sinhô numa destas músicas vinda pelos europeus e a letra refletia a disputa do compositor que frequentava a Cananga do Japão, uma casa de dança da Praça XI onde pontificavam os “baianos” da casa da Tia Ciata entre eles o Pixinquinha. Segundo se diz a música era uma gozação ao irmão do Pixinquinha que tinha o pé de tamanho avantajado.

E esta Mamãe eu Quero da dupla Jararaca (José Luiz Calazans) e Ratinho (Vicente Paiva) que vivia sendo presa pela ditadura de Vargas.

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Mamãe eu quero mamar é a grande crítica à extensa mamata que se criou em torno da política e burocracia de estado. A dupla foi na veia como ouvimos.

Um pouco no estilo, mas já enveredando pela crítica aos costumes, é esta Sassaricando que vem abaixo.

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Aqui cantada pela famosa vedete dos anos 40 e 50 Virgínia Lane Sassaricando se tornou título de novela da Globo e depois um musical que arrastou muitos corações cariocas em anos recentes. Música do grande compositor Joaquim Antonio Candeias Júnior que tinha um senso de crítica social inigualável. É dele aquela famosa Lata D´água na Cabeça.

A lua é dos namorados de Klecius Caldas, Brasinha e Armando Cavalcanti. com Ângela Maria.

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A música é uma crítica ao avanço da exploração espacial e a corrida entre russos e americanos para pousarem na lua pela primeira vez. Lembro de uma noite, tentando voltar para casa, um dia de carnaval. Ali por volta das 21 horas e passo perto da Igreja de São Vicente e escuto em amplificadoras instaladas na rua Senador Pompeu, talvez no Clube da Rapadura e voz de Ângela Maria denunciando o fim dos luares do sertão.

E tinha pensado naquela Corre Corre Lambretinha ou no Homem da Vassouras com João Dias para marcar o aspecto dos costumes e da introdução de tecnologias no estilo de vida ou o discurso político. Não conseguindo acha-las para exemplificar me agarrei a esta Me Dá Um Dinheiro Aí dos irmãos Homero, Glauco e Ivan Ferreira um sucesso com Moacir Franco. Mas bem que poderia ser o Bigorrilho (Paquito, Romeu Gentil e Sebastião Gomes) e cujo nome virou uma incógnita como a famosa “Tonga da Mironga do Cabuletê”.

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E essa Marcha Rancho de Humberto Silva e Paulo Alves Sette cantada por Marcos Moran pegando na saudade da quarta feira de cinza. Do meu ponto de vista poucas canções representam tão bem o espírito entre Eros e Tanatos que parece pairar sobre o carnaval e suas marchinhas. Com essa música encerro simbolicamente o fim histórico da marchinha.

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