por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



segunda-feira, 2 de julho de 2012

Deus me vê- T. Lisieux Maia*



Estudei em um colégio que nos apresentava uma educação rígida e competente, ética e reflexiva, séria e afetuosa. No pátio do recreio no alto da parede havia escrito em letras graúdas, a frase: “Deus me vê”. Sempre que lia este aforismo ele me levava a refletir com toda minha imaturidade adolescente e me perguntava: como Deus me vê? Criativa, inteligente ou ingênua? Conhecedora das realidades ou aprendiz da vida? O incrível é que, ainda hoje, lembro desse pátio dominada pela certeza de que, seja qual for a situação, Deus me vê.
Lendo “A República” de Platão, obra que ultrapassa seu próprio tempo com sua grandeza e atualidade filosófica eu me deparo com a Lenda do Anel de Giges, sobre um pastor da região da Lídia na Grécia antiga. A narrativa de Platão nos conduz a uma reflexão sobre a questão do SER ou apenas PARECER uma pessoa justa e de caráter firme. A lenda nos conta que o jovem lídio ao pastorear seu rebanho de repente se encontra no meio de uma violenta tempestade seguida de um terremoto abrindo-se em consequência uma fenda enorme no solo. Curioso o pastor desceu ao fundo do precipício descobrindo com grande assombro um cavalo de bronze oco e com largas rachaduras em seu corpo deixando ver maravilhas no seu interior e ao lado um cadáver de tamanho incomum para um homem. Trazia na mão um anel de ouro do qual se apoderou partindo sem nada mais levar. Em seguida se encaminhou para a reunião dos pastores e lá, inadvertidamente, girou o engate do anel para a direita e depois para a esquerda percebendo após algumas repetições desse gesto que se tornava invisível ao olhar dos outros. Ciente disso usou esta prerrogativa para agir de modo torpe e cruel, em nada o diferenciando do mau.
Platão nos leva a pensar sobre ser justo e bom, ou simplesmente parecer justo e bom. Todo indivíduo acha que parecer injusto é mais vantajoso do que ser justo? A extrema injustiça para o filósofo grego consiste em parecer justo não o sendo, enquanto o justo, homem simples e generoso deseja, não parecer, mas ser justo e bom e se manter assim inabalável até a morte. Quem é o mais feliz dos dois? Deixemos com a consciência de cada um a resposta.
O que aprendi é que a firmeza de caráter deve ser formada desde a infância e com muito cuidado. Não apenas porque Deus me vê, mas porque a educação deve ser tingida de cor púrpura, bem preparada no tecido branco e na tinta para que o tempo não venha a desbotá-la em nenhuma circunstância. De posse do conhecimento, cada um deve fazer suas escolhas na hora da ação.
Ao não imprimir a marca da educação e agindo de modo a tentar enganar-se a si mesmo apenas parecendo bom, terá mais cedo ou tarde a certeza de que Deus nos vê a todos e em todo momento.
A firmeza do caráter que foi tingido com cuidado, forjado na educação das virtudes modela a alma com a marca indelével que o educador imprimiu.

Para Dona Ruth e Prof. José Newton

* T. Lisieux Maia é Mestra em Filosofia Contemporânea pela Universidade Federal do Ceará - UFC e Professora de Filosofia na Unifor. Publicou os livros “Metodologia Básica”, “Reminiscências de Sócrates”, “Que ë Filosofia? (ou ainda, filosofar?)”, “Metodologia Científica: produção de texto técnico” os artigos “Nietzsche: a fronteira entre o ateísmo e o agnosticismo” e “Antígona: o trágico da ação e o aprendizado de si”.


Um comentário:

socorro moreira disse...

Belíssimo texto!
Grande orgulho desta cratense amiga!

Abraços, Teka!