por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

No fundo do baú




Um velho baú foi aberto com facilidade. Nem foi preciso forçar a fechadura. Embora enferrujada, cedeu ao primeiro tato. Um cheiro esquisito espalhou-se no ar. Os feixes de alfazema já tinham perdido a validade, e o baú estava completamente lotado de quinquilharias e/ou preciosidades... Impulsivamente, todos mergulharam suas mãos, pensamentos, olhares, naquele achado. Não podiam perder tempo... O jeito era explorá-lo. Os objetos eram todos identificáveis: um missal de madrepérola, terço de prata, pacote de cartas amarradas com fita de cetim azul, álbum de retratos, caderno de canções, livro de receitas, caixinha de música, um leque, brincos descasados, um crucifixo de prata e uma medalhinha de Nossa Senhora das Graças. Era a caixa de Pandora, com todas baratas e lagartas, em saltos olímpicos, ora despertadas! Na parede, um relógio centenário tictaqueava insistente. Um cheiro delicioso de café, no ar se espalhara... Chega Brigite, gata preta, de olhos verdes... Visão cinematográfica! Ela, e a rosa cor da tarde, esperando o luar de Janeiro ... No fundo, todos são loucos!-Eu, minha gata e o meu cachorro!


O Carnaval das nossas saudades

Na minha infância, dançar carnaval era pecado mortal. Meu pai comprava lança-perfume, e a gente aspergia no povo da rua, até o tubo secar... Até o cheiro ficar fora do ar!
Os corsos eram fantásticos. Corria para as esquinas... Era o desenho animado dos meus contos de fadas! Nos jipes e automóveis sem capotas, cabia mais gente, do que se podia contar! Máscaras... Elas permitiam a mistura, no mesmo espaço, de moças de vida presa, e moças de vida fácil... Achava o máximo!
Na década de 60, já adolescente, carnaval continuou proibido... Fugia para a concentração dos blocos, nas calçadas. Suspirava de vontade de brincar, mas só podia cantar e dançar um frevo, se pudesse imaginá-lo!
Em 70,80... Participei dos meus primeiros bailes, no Crato Tênis Clube. Meu pai, por anos seguidos, foi Diretor Artístico, e cabia-lhe a missão de decorar o clube. Pintava todas as paredes com imagens de colombinas, pierrôs, arlequins, ciganas, piratas... e o diabo a 4!
Ficava lindo! Era muito bom dançar com todos, e não ficar com nenhum!
Geralmente, debaixo de chuva, na quarta-feira de cinzas, acompanhávamos a orquestra até a Praça Siqueira Campos, dançando e cantando a marcha da quarta-feira ingrata, que chegara depressa demais!
Depois, ainda de fantasia, entrávamos na Igreja pra receber a "cinza". Nosso lado profano fora alimentado, até os pés ficarem cheios de calos, e a voz rouca, sem proferir som algum.
"Saudade é isso que a gente sente, saudade é falta que faz a gente alguém que partiu, alguém que morreu, alguém que o coração não esqueceu..."
Pois é... Carnaval comum, nos dias de hoje é ficar plantada na frente da televisão, e assistir o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro.
Pipocas, sem risos...!
" Vou beijar-te agora/ não me leve a mal... Hoje é Carnaval"!

Perdas e Ganhos





Lembranças
Impossível traduzir a tua alma
Ela é uma esfinge para mim
Para outros,
sempre clara !
Nesse cartão escuro
eu juro que vou escrever
letras douradas.
Dobro-me às tristezas
Pago na íntegra ,
pingo por pingo,
o beijo que provei.
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Mar que avistei
que senti,
e nele me banhei
barulho na concha do ouvido
canção nunca esquecida
solfejo e grito !
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Vivo nas entrelinhas
Minha cabeça vive uma poética enxaqueca
No meu coração ainda moram estrelas
Elas brilham no dia,
encantadas em natureza !
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olhos no teto
papo pro ar
alma solta
querendo te achar
coração batuca um verso
boca reza um mistério
nariz fareja jasmim
volta pra mim?
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Molhar a grama do jardim
é forrar a cama de esperança.
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Cheirinho de alfazema,
bala de mel,
papagaio de papel...
Colo de avó !
Lembranças bordadas
por mãos de fadas
-alegria infantil !
-----------------
Céu rosado
vento trancado
segura folhas douradas

Lágrimas soltas
escorrem caudalosas,
no leito solitário.
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Mudez




Mudez
Pensamentos no sereno do tempo
Correm na orla
mergulham nas espumas
No verde escostado no azul
minha alma sonha.
Vejo você ao longe
O barulho dos teus sonhos
silencia os meus gritos
E essa tristeza indesejada
Caçoa da alegria escorregada
que saiu em disparada
quando viu que me esquecias.
.

Buscando o vazio
Incompreendo a clara realidade
Coração apertado
corpo incomodado
O amor desapartado
escondido nas estrelas que não brilham
Noite dos escuros
do sono que não quer brincar

Estranha, estranho
Porto de tumultos
imaginários cantos
Fecho a porta de mim
e escondo a chave
por um momento
não desejo abrir-me
Quero a quietude do antigo vazio
quando o amor não chegou,
nem partiu.
.

É tarde...
Não penetrei na tua essência
Placas proibitivas me intimidaram.
Não vá além...
Aqui já passou outro alguém.
E nos estilhaços do teu coração
me sinto ferida ,
na inteireza de um abraço.
Ostra , não mostra
esconde nuances verdes do engano
Recorto da paisagem
um vestido de esperanças
cheguei tarde, bem sei ...
Mas a fila anda !
.

Enfim...
Fecha-se a cortina
No palco , enfim ...
eu e você entrelaçados.
A cor dos nossos olhos misturados
Minha boca sem batom
vermelha de beijos molhados
Na ponta do teu nariz
leio uma simples verdade ...
É madrugada
A noite engole o meu cio
Adormecida no choro ameninado
sonho com o gozo , que sacia.
.

Goteiras de versos


Madrugada chuvosa

Corpo desmaia

Encurta distância

Arte e velocidade


Tempo passa ou para?

Só escuto o silêncio

Nem avião , pensamento

sobrevoa meu espaço.

------------------

Estou num sonho

País de mascarados

Casca de beleza e bondade

Cadê você , meu palhaço?


Serpentinas no rosto

soltam-se, desenhando lágrimas


Máscara de amizade,

que esconde paixão

Máscara de humor,

que esconde a dor

Máscaras...

Descolem-se de mim !

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Lindo é saber

que estrelas estão sempre lá

quando nuvens escorrem nas retinas

Lua se assanha pro sol

que distante brilha.


Dividir o pão quando é só pedaço

Tirar sucoo da fruta

já bagaço .


Dormir com a barriga roncando

a fome do amor

sabendo que a cura está no beijo


Ouvir a melodia

e a letra florescer na garganta


Amar descaradamente

Esperando de janela aberta

que o céu devolva

o que já foi santo.


Saber que o tempo passa

mas sempre fotografa e guarda

a doce alegria de ficar pra sempre !



Enquanto o sono não chega ...

Sereno da noite

Perfume no ar

Sons divinos

Você chegando

Susto no olhar brilhante

É sempre encanto

o anjo que me visita !

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Vejo o mundo cortado em telas

Fascinam-me os caminhos

Entre buracos e flores

Borro a vida com tintas

Faço marinhas,

casinhas de taipa,
beija-flor beijando a flor
Vida em movimento
Curva ascndente
Apesar dos afetos distantes
estou no presente.

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Se você ainda dorme

meu sonho te acorda

Queria que o silêncio falasse comigo


Está tudo mudo

do outro lado do mar

Tudo escuro

na face oculta da lua

Se valeu?

Pergunto ao tempo!


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Se o paraíso é colorido

pra que insistir

no preto ou no branco?

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Ao entardecer

vislumbrando o céu

misturo tintas ...

Tudo violáceo !

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às vezes deixo todas as velas ao vento

Perco controle e velocidade

Deixo o mundo pensar

que ganhou a guerra !

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O mel da vida




Inquietação monástica

Quando não as tenho,
invento-as!
Perdi a descompostura
que me fazia perdida
Perdi
faz poucos dias
O tempo é curto,
mas se arrasta
como os passos...
Inconfiantes!
O calor de novembro
amolece, os ânimos
Sou ágil
quando busco nos monturos,
e em todos os buracos da terra,
uma fresta de luz!

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O mel da vida

Os dias correm desavisados
Nada acontece por acaso
Uma dor só fica aguda
depois de muito aviso
O espelho delata a resultante
das expressões concebidas
Uma foto do futuro
mostra os laços do passado
ou os excessos dos risos
Faltavam muitos
Agora faltam tantos...
Não dá pra contar o que se vive!
A emoção é camuflada na ação
A sobra da emoção,
mesmo em dose mínima
afeta até a alma...
Praça iluminada
Rostos envelhecidos
Guardam no olhar, o brilho!


Sensualidade
Não combina com luxúria
Combina com o olhar
Com a delicadeza do toque
Com o bigode
Com o andar


Sensualidade combina
com suavidade...
Precisa não saber ser
Precisa saber reter , o carinho!


Sensualidade combina com cheiro
que o vento traga e distribui ...
cheiro de rosa esmagada
cheiro de alma limpa
cheiro de corpo
banhado nas cascatas


Sensualidade é vermelha-cetim
É um passo atrás de mim
que eu alcanço na saudade


Sensualidade é a maciez da neblina
A gota que brota
no poro que agita


Sensualidade é a nudez
coberta de pejo...
É a veste rasgando a nudez.


Sensualidade é o tom
É o som...
É um murmúrio inaudível
É o desconhecido mais próximo
Que nunca perdeu seu mistério!

Golberto x Moreirinha



.
"Glberto Milfoint (João Milfont Rodrigues). Cantor e compositor nasceu em Lavras da Mangabeira/CE em 7/11/1922. Cantou em público pela primeira vez aos 14 anos, convidado pelo seu tio para o programa Hora Infantil, na PRE-9, onde trabalhou, mais tarde, como diretor artístico.
Integrou também um regional com Zé Cavaquinho (José Meneses), na época em que sua voz de adolescente se assemelhava muito à de Carmen Miranda. Na fase de mudança de voz, afastou-se da carreira por dois anos, retornando para cantar no mesmo programa em que estreara.
Naquela época, os discos lançados no Rio de Janeiro demoravam muito a chegar ao Ceará e para que seu repertório não ficasse ultrapassado, por conselho de um amigo aprendeu taquigrafia. Assim, ouvindo emissoras cariocas, taquigrafava as letras, enquanto a irmã gêmea, Maninha, prestava atenção na melodia.
Com esse método, chegou a apresentar em primeira audição no Ceará, antes mesmo de sair a gravação de Orlando Silva no Rio de Janeiro, a música Atire a primeira pedra (Ataulfo Alves e Mário Lago), que só seria lançada no Carnaval de 1943.
Transferiu-se para o Rio de Janeiro em 1945, e estreou na Rádio Mayrink Veiga, quando compôs um samba que levou ao Cassino da Urca para Dick Farney ouvir. No ano seguinte, Dick Farney lançou Esquece, e ele gravou seu primeiro disco, com a orquestra do maestro Gaó na Victor, com duas canções de Joubert de Carvalho, Geremoabo e Maringá.
Também em 1946, lançou dois sambas de Claudionor Cruz e Pedro Caetano, Estão vendo aquela mulher e Apelo, na Victor, e, para o Carnaval do ano seguinte, O meu prazer (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira), seu primeiro sucesso. Por intermédio de Luiz Gonzaga, fez um teste na Rádio Nacional em abril de 1948, sendo aprovado por unanimidade. Estreou no programa A Canção Romântica, como convidado de Francisco Alves.
Em 1949 gravou o samba carnavalesco Um falso amor (Haroldo Lobo, Milton de Oliveira e Jorge Gonçalves) e, em 1951, Pra seu governo (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira), na Victor. Ainda em 1950, Lúcio Alves lançou o samba Não devemos mais brigar (com Milton de Oliveira).
Como cantor, obteve outros sucessos com o bolero Senhora (versão de Lourival Faissal), e, do mesmo gênero e autor, Que será de ti, além dos sambas As aparências enganam e Castigo (ambos de Lupicínio Rodrigues).
Entre suas composições de maior êxito estão o samba Reverso (com Marino Pinto), de 1950; Tudo acabou de 1951, e, em 1952, o samba-canção Você vai (ambos com Milton de Oliveira). Outras músicas de sua autoria que tiveram sucesso foram Fui tolo, o samba-canção Talvez (com Marino Pinto) e Desfeito (com Mary Monteiro).
Em 1954, transferindo-se para a Continental, lançou Valei-me, Nossa Senhora (Paquito e Romeu Gentil) e Amor secreto (versão de Chiaroni). Gravou ainda, a pedido da direção da Continental, o Hino a Getúlio Vargas (João de Barro). Por essa época deixou de cantar, continuando, porém, a compor. Trabalha no Projeto Minerva, da Rádio MEC, no Rio de Janeiro. "

Fonte: Enciclopédia da Música Brasileira - Art Editora.
Eu sinto uma quase ternura sentimental por Gilberto Milfont. Filha de boêmio , minha vida era sonora 24 h por dia. Meu pai só entrava em casa cantando , e saia assobiando, uma valsa , um samba antigo. Entre os seus preferidos estavam Francisco Alves, Orlando Silva, Nelson Gonçalves , Carlos Galhardo , ... e Gilberto Milfont!
Contava-me que foram meninos , nas ruas do Crato , e participaram de programas de calouros , na antiga Rádio Araripe. Enquanto Gilberto ficava com o primeiro lugar, ele ganhava o segundo , e os dois ficavam felizes ! Num tempo em não tínhamos internet, os consumidores de música ficavam á mercê dos programas de rádio , e dos minguados discos de cera, que chegavam racionados. Papai se abastecia em "Seu Hilário Lucetti ". Encomendava os lançamentos , chegavam, e a radiola era acionada em toda altura.
Entretanto , até os úlimos dias da sua vida , ficava catando e desejando músicas interpretadas por Gilberto Milfont, uma vez considerado um dos melhores intérpretes do cancioneiro popular, e uma das vozes mais bonitas do Brasil.
Na biografia acima, senti falta de uma referência maior : a valsa "MIMI", que o meu pai cantava e ouvia, na voz do Milfont. Pequena ainda, ele analisava a letra para mim, e alertava: veja o que esse verso diz ..." um eclípse do sol com o luar... Isso não existe, mas é poético e lindo demais !"
Meu pai era assim ... Uma figura pra lá de especial . Dizem que sabia ser amigo, e eu digo ...Sabia ser o melhor pai do mundo !




Fiz parte da tua dor

Encolhi o corpo

Busquei o sono

e tranquei o sonho.


Compartilhei das tuas lembranbças

Convivi com as tuas sombras

Lamentei tuas perdas

Comovi-me com as tuas saudades.

Entendi o sufoco de um carinho

E se ele escapuliu ,

foi de mansinho ...


Agora é madrugada .

luz acesa

lua escura

e o silêncio da rua

Escuto o meu sussuro

Confesso , que ousei amar.


Armei tenda no minado

vi teus olhos ,

afundados no passado ,

e de lá não sei tirá-los.

Deixo contigo ternura

qualquer coisa ,

me devolva pro luar...!


Você embucha meu coração de poesia
nas contrações e expulsões
perdem-se os elásticos que o prendiam
Agora ele é lato
Comporta a vida,
e os terrenos da eternidade !

Falando sozinha


Hoje ,vasculhando escritos do passado, achei anotações, como :

Onde anda você
flor que não brota?

Deus, cura minha sorte
e manda uma estrela pra mim !

na borboleta da vida
o último amor não passou ...

Uma conta negra
ao invés de um colar
A serra,
no lugar do mar !

Preenchi os buracos da tua ausência
Mas os buracos dos meus olhos
continuam te clicando.

Como relaxar
se acelero o compasso da espera
pro tempo passar ?

O milagre acontece,
quando o tempo de acontecer ...
Passou !

Amo as pessoas
com querências ,
e sem carências !

Eu me vejo tanto,
na janela do tempo !

Que cidade é essa
que não me abraça?
Que homem é esse
que tenho medo de abraçar?

Quero sair de braços dados
com a minha boa sorte
Torná-la minha consorte !

Pensei que você tinha na cabeça
o mapa do nosso destino
O mapa nada continha
e branco foi nosso destino.

Estamos no meio ou no fim,
se nunca somos afins ?

Dourei a lembrança de alguém
e senti a paz da sua falta.

às vezes o tédio
me leva pra junto de ti ...

quero fazer um jornal
pra espantar o tédio
do teu domingo sem mar.

absorvo teu gosto
da forma mais primitiva :
Beijando-te !

Confidências



Estou devolvendo os teus segredos
desacomodados na minha imprudência.

Estou jogando pro alto os meus desejos
Eles fogem dos teus , inconfidentes

Estou esquecendo o nosso adeus
O encontro foi ontem,
e eu nem me lembro...

Estou vivendo o meu amor diário
Meu confidente, meu usuário...
Rabisco, e ele permanece mudo
Não disca, nem atende ao telefone.

Sinto o vazio dos sonhos perdidos
Sinto falta às chamadas pro desconhecido

Acho que a felicidade gosta de cair nos buracos ...
Os meus estão desocupados!

Na vitrola do tempo


Ando sentindo uma nuvem de tristeza espalhada pelos cantos, e altos. Não enxergo a desgraça... Apenas aflição , e descontentamento generalizado. Hora de reprogramar a vida, eu acho! Reprogramar a partir dos sonhos, objetivos, quereres, e limitações. A propósito, meu amigo Cosme passou por aqui com seu sorriso de anjo-de-guarda, que ele joga fora, e disse-me: rico é quem vive bem, dentro das suas limitações. Claro que perguntei de imediato: quem te ensinou isso, menino?
- Achei por aí... Não sei quando, nem onde!
- Grande verdade!

Minha vida foi animada demais nas estradas.
A vida amorosa, sempre está em movimento...
Quase uma paixão, um encanto inteiro
Amor sublimado, e de brincadeira.
Amor que chega, amor que passa...
Amor que fica, e amor fantasma!

Essa fase é novíssima, mas estou gostando de todos os meus planos!
Tristeza é pensar que a vida é sempre do mesmo jeito, e que ela não tem jeito!

A cozinha é a sala de visita dos íntimos. O cheiro de café está sempre no ar... Um dos preferidos de todos. Só perde pro cheiro de chuva e empata com o do jasmim!
Todo mundo tem sempre algo para contar. De instante em instante, alguém toca a campainha ou o telefone chama. Todos estão sempre pendurados no celular, ou ligados na internet... Se duvidar, têm até namorado virtual!
Juscelino Kubitschek não é mais o Presidente da República. Inventou Brasília, e o Rio deixou de ser a Capital da República. Copacabana é só dos nossos sonhos, e dos boêmios cariocas!Deixei de fazer roupas de bonecas, de ler estórias da Carochinha, de levar lancheira pra escola, de ganhar bombons do Pe.Frederico, no Instituto São Vicente Férrer; de dançar a quadrilha gritada por Zenira Cardoso, de soltar balão, chuvinha e cebolinha na calçada, em noites de S.João; de brincar de roda (só de combinação...), de ler romances em voz alta pra minha avó Donana; de assistir novelas de rádio, de participar de programas de auditório na Educadora ( subir aquela rampa ... pura magia!); de dançar nas tertúlias da Pedro II; de ouvir as serenatas de Peixoto e Zé Flávio; de usar mini-saias, laquê no cabelo e passar baton com gosto de caramelo, café com leite ou hortelã; de "aprender" latim com Vieirinha, Ciências com Ivone Pequeno, história com Alderico Damasceno, Química com Pe Davi, Geografia com José do Vale Feitosa, Desenho com Dr.José Nilo, Português com Dr. Zé Newton... etc,etc,etc!
Apaixonava-me, platonicamente, todos os dias... Pelos primos, colegas de classe, e vizinhos! Não perdia a Pça. Siqueira Campos nos dias de domingo. Levei lanche pra assistir "Os Dez Mandamentos”, no Cine Moderno. Colecionei álbum de figurinhas dos artistas de cinema. Flertei, indefinidamente, com o garoto dos meus sonhos, sem a menor esperança de namoro.
Senti a alegria do primeiro clarão de Paulo Afonso, e a invasão dos eletro-doméstico, em nossas casas! Ai, ai... Foi o fim da "muriçoca"... Genial! Li revistas de amor em quadrinhos: Capricho, Ilusão e Destino... Comprei discos da Jovem Guarda. Pedi música por telefone no programa de Rádio de Heron Aquino: (Sou feliz/no trem que parte para o interior/feliz... /porque comigo vai, o meu amor/ e o trem... / só chega quando o dia amanhecer...")... E chegava mesmo, em Fortaleza! A gente viajava pra ver o mar, fazer exame de vistas, comprar o óculos, comer cachorro-quente, e tomar "Grapette" (quem bebe Grapette, repete!).
Criança, adolescente, mulher e mãe, numa única década... inocente e abruptamente!
Crato (1968). Amei aos 16 anos um jovem marxista dialético. Corri na biblioteca da Faculdade de Filosofia pra locar "O CAPITAL" de C.Marx. Um livro filosófico, chato e complicado para minha cabeçinha de nuvens cor-de-rosa. Procurei saber o que era "mais valia"... E me inculquei deveras, sem entender... Por que a Igreja condenava a igualdade para todos? As figuras mais lindas, sensíveis e humanas que eu conhecia estavam infectadas da suspeita de serem "comunistas"! Calava cada pensamento mas torcia pela liberdade dos expatriados, do povo com sede de justiça e de liberdade. Na minha escola esse assunto era condenado. Eu sabia, no fundo do meu coração, que homens como Miguel Arraes, Sílmia Sobreira, Dom Helder Câmara não poderiam ser estigmatizados... Eram meus ídolos! Protótipos de seres humanos nos quais eu me espelharia. Mas a gente morria de medo de dizer o que sentia...
Meu Diretor, José Newton Alves de Souza era um homem culto e sábio. Apostava no caminho do meio... Nem tanto o mar nem tanto a Terra... Dizia-nos que o capitalismo gerava o egoísmo; que o comunismo, esmagava o indivíduo... Mas nunca proferiu um veredicto. Admirava-o pelo não radicalismo! Claro que nos ajudou, mesmo sendo pressupostamente de direita... Na realidade era um democrata cristão, apolítico, mas filosófico! Um homem de caráter inabalável, completamente admirável! Será que o Crato tem consciência do quanto deve àquele Educador?
Tornei-me aos 16 anos, professora de Matemática, talvez pela pressa de equacionar a minha própria vida, de vivê-la insaciavelmente, até encontrar todas as essências!
Mas, volto a falar de Ítalo (meu amigo marxista). Um homem de cabelos e bigodes negro-azulado, olhos de hortelã e voz embargada de ternura. Como não me apaixonar quando cantou no meu ouvido,... "Love is a many splendored thing”? Correspondemos-nos, diariamente, por um período de um ano. Depois, ele foi preso, minhas cartas foram censuradas, e nos afastamos! Ele encontrara a companheira certa... Uma pré woodstockiana, que não tinha os tabus da época e os velhos preconceitos que enfeavam a maioria das mulheres! Bem feito para mim, que não estava pronta! Ainda sonho com um beijo, que nunca passou do desejo... Arrepiava-me quando me chamava de "baixinha" e deixava um beijo no final das cartas... "Do teu"! Ensinou-me a gostar de Paulo Moura, Nelson Cavaquinho, Cartola, Sidney Miller, músicas clássicas, latinas... e jazz!Presenteou-me com Adélia Prado, Cecília, Clarice e Florbella... Disse-me “que o seu destino era o Rio, e que o meu era Londres"! Sabia que existia em mim uma alminha aventureira dentro dos meus olhos de grandes sonhos!
Casei-me, surpreendentemente, no final do ano de 1969, com o primeiro que me pediu em casamento! Era bom caráter, sincero, amigo... Ainda bem que Deus o escolheu para ser o pai dos meus filhos!

Cinzas




Encontros desperdiçados
Cartas, promessas...
Recusas sem razão
Enfim, a compreensão!
Quando você desistiu,
eu corri na frente
Eu lhe encontrei
antes do destino
Surpresa, obstinação
Cortei caminhos, e o meu coração
Pássaros em diversos ninhos
Salgueiro, Mangueira...
E na quarta-feira
Tudo ficou cinza.

No céu da noite




Céu rosado
vento trancado
segura folhas douradas.

lágrimas soltas
escorrem caudalosas
no leito solitário.
----------------------
às vezes ele chega ,
escreve uns traçados ,
riscos truncados ,
fantasmas reais.
Um dia quero estar ,
nas asas desse anjo
Voar,
pra lá e pra cá ...
sorrir dos seus contos
Tomar chá...
Canela, Oxalá
Ser Gabriela,
ante o seu olhar !
---------------------

Voltou
enrolado nas suas falas
Éter
inebriando a sala
tossiu, roncou ...
Acordou meus pesadelos
Comoveu-me
Partiu ,
quando a lucidez do sol
incendiou a casa.
------------------
Não quero a posse
desejo apenas
um cruzar dos olhos
Cruzar é bordar
Implica em perigo.
pergaminho, linho ...

Catando versos



Caminhando ...
Uns caminhos voam, outros se colam
aos nossos pés cansados.

Caminhando...
Que importa o transporte,
a hora da chegada?

Caminhando ...
O nosso olhar cumpre etapas,
que nos sonhos se mostravam

Caminhando ...
Chegamos na linha do horizonte
e o limite é além, muito além !

Vida ...
No caminho da liberação
o pódio é o infinito.
É saltar para o futuro
sem lembranças doídas
É apostar na paisagem depois da curva
É tomar banho de chuva
e sentir que somos nuvens
É ficar nua
e descobrir o próprio corpo
brocado e bordado...
costurado pela vida.
É um voo em companhia de garças
É o amor divino selando alianças
É viver com simplicidade !

Molhada de chuva
O mar ficou no seu lugar.
O sertão me acolhe
com pingos de chuva
num pensamento árido
Estou de volta
com o coração assanhado
Vivi tão grande distãncia ,
que aposto no ficar perto ,
vivendo em separado.
Desligo a tomada
Descarto o filme
que deixei queimar


Rabiscos da saudade
rasguei cartas e retratos
toquei fogo
no papel da paisagem
renasci mil vezes
o tempo cura
mas não apaga
a vida paga
o gozo das lembranças
que ficam adormecidas
em páginas amareladas
você dorme
enquanto escrevo
você sonha
enquanto acordo
tudo nos desencontra ...
e eu quis tanto ,
aportar em tua alma !

só peço à minha caixinha
de trecos,
uma borracha e um lápis...
pra apagar os conflitos
e rabiscar
um verso de saudade
por tudo que não vivemos
ou por um único momento,
em que fiquei nos teus traços.

Evasivas


Indiferente, o sentimento se acanha
Despido da alegria,
se veste da tristeza do dia.
De mãos dadas com o pensamento
o silêncio festeja a saudade fragmentada,
em sonhos que não vivem.
-------------------------
A festa acabou mais cedo
Faltou luar
E a canção do mar não escuto
do lado de cá ...
------------------------
Entre risos ,espirro
as águas que te comemoram
Entre sisos
passeio nos labirintos
que me acenas
Teu olhar dirige o meu tato
Por aqui, devagar...
O caminho mais calmo
é sempre o mais longo,
o mais intenso ...
Por lá tu me acompanhas
com passos curtos, arfantes
Tens meus sustos
Seguras meu coração cansado
E aos poucos vou retornando à paz
que juntos encontramos
quando o meu sorriso beijastes.
E essa estrada infinda
de novo se avizinha
No rosa sonhado
um perfume de amor
se espalha,
nas cobertas alheias,
que nos aconchegam.
Da janela pequenina
escapa correndo
o cheiro do cigarro. 



Aurora escondida
Aurora chega e sai
quando contigo fico.
Aurora se esconde de mim,
quando me encontro comigo.

Lá fora um sol luminoso
acentua a marca dos teus dedos
hachurados no meu corpo
Meu rosto,
rubro sol...
Pintado de amor !

Passo a poasso ...
Estou no disfarce de um sonho
no desfazimento da ilusão
Aprontando a despedida
Malas entreabertas recebem
panos e trecos
A caneta risca versos tortos
embriagados do vinho derramado
Eu jurava que eras... e fostes !
Esperei o contágio do amor
com o mínimo de esperança
O dia chegou
O dia passou
Não tropeço em lembranças
Não esbarro nas saudades
O caminho é amplo
Passo a passo
Retorno, sem sequer ter pisado,
nas folhas do que

Chove ,
e a gente não sabe ,
se é outono ou inverno ...
ou se é o verão que chora !
Parece que o mundo e a natureza
se esfregam , se lavam, se ensaboam
Tudo tem movimento ,
barulhos e cheiros .
Depois da chuva ,
menino levado
cortas os rabichos dos vaga-lumes
E eles nem acendem, nem apagam.
Da flor
pinga uma gota de chuva
E a gota contém o mar
E o mar afoga a minha dor .
A chuva passou .
Um cometa passa,
me agarro na sua cauda, e vou ...
Promessas me puxam,mas eu volto ,
quando mais um verso ,
sair do meu forno
esquentado de amor.

Até a poesia do teu silêncio

me preenche

E o nosso encontro,

na linha do horizonte,

em qual Janeiro será?

Lápis e papel


Amanheceu claro e límpido.

Um céu azul

como a cor dos meus lápis .

Procurei papel em branco

pra desenhar um oásis.


Dia de calma quietude

Um domingo

sem os ranços do passado

Minha alma está serena

Meu coração se espreguiça

e acorda em plena luz.


Depois da tempestade

vem a bonança?!

Esqueci que fui criança

Esqueci que sou mulher

Ganhei as asas

de um anjo

Vou voar querendo

o céu ...


E nessa rota sem planos

Eu misturo o meu pincel

nas tintas que se derramam

do teu olhar cor de mel.

Expiação



A expiação é jiló, sal amargo.
O homem, em seus lugares torturados
O jardim desfolhado; o vestido que virou trapo
Os olhos perdidos, numa chuva que não passa
O silêncio de quem não sabe pedir
A fragilidade de quem não pode fazer
A displicência de quem não enxerga, o tudo a ver.
Tristeza no ar...
Moitas nativas,
rasgadas por um propósito descabido
Magoam com o olhar, o canto que amamos
Sorriso amarelo, no verde que aspiramos.
A natureza chora por nós...
Vale da madrugada,
nem tudo está perdido!

Desistências




A dor me acordou.
A dor da rejeição provoca uma dor,
que é rejeitada por mim.
Afora esse sentimento,
de certa forma pequeno,
só resta a dor.
Claro que fui ao Doutor !

Janeiro das desistências
das distâncias
das conveniências
dos amores ímpares...

- Tomara que já chegue fevereiro !

Mas, se o tempo correr
o tempo ficará sem energia pra viver
E a morte chegará mais cedo...
Que fazer?
Viver estoicamente
e sobretudo esquecer...
Esquecer de vez
aquela "história de amor"...
ou desamor ? !

A carta da saudade tem naipe em copas.




Eu sou cheia de saudades, mas tenho analgésicos pra todas elas... Não sei lidar com as dores, ou talvez seja acostumada com elas. Saudade não dói, nem mata, nem tão pouco maltrata... Saudade não é um mal que faz bem ... É um bem que faz bem, necessariamente !
Eu sinto saudades de um olhar fugidio , que não buscou permanência , mas energizou a minha noite, e os meus sonhos vazios. Eu sinto saudades de um abraço feliz , na cumplicidade de um momento único, fugaz... Eu sinto saudades de um dia que chegou, e deixou de ser , e carregou minha espera de muitos dias, muitas noites , e muita misteriosa alegria. Sinto saudades de um tempo, em que não te via , mas sabia que tu existias ... Agora , na maturidade sinto uma calma, nada passiva...É uma calma madura , consciente, cheia de esperanças , em reencontros eternos.
Sinto saudades da tua passagem, na minha lua.

Beijo !

 por Nicodemos

Quando se diz estou aqui pra quem vier...

eu preciso um certo jeito
de chegar sem assustar,
e de falar mansinho,
pisando o chão
devagar...
se o assunto é amor,
amar igual a um passarinho
cantando a melodia certa
e bem baixinho,
que é pra não espantar...

se o assunto é poesia
então todo dia é dia...
de silenciar...
dizer o essencial
e calar

a Poesia não gosta
de ruídos.

psiuu!!
acho que falei demais

Versos soltos


Noitinha .
Angústia no peito
Dores...
uma cá
outra no Juazeiro
É a síndrome domingueira.
Parece que a cidade perdeu
uma semana de vida ,
e tem preguiça , no recomeço.
A Igreja recebe os fieis
A praça acolhe os rebeldes
E a nossa casa se entedia...
Até na cozinha
as panelas vadiam.
Hoje estou sem quereres
Sem afazeres
E com uma dorzinha de cotovelo.
II
Andei nas ruas enluaradas
silenciosamente azuis
Procurei não pensar
Apenas usei o olhar,
que vadiou no meu silêncio.
Perco o caminho do coração
Invento um caminho de paz
Sinto o vento
e desacelero os passos...
Minha casa é bem ali
Eu tenho a sua chave.

III

Ainda sem pensamentos
carregando no dorso
uns versos soltos ...
Deitam-se comigo
pra cantar um sonho
que eu imagino feliz !


E o sono não chega ...
Arrumo o travesseiro
sem confidenciar o que sinto
Sentimentos confusos
merecem a lixeira do esquecimento.