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Foto de Pachelly Jamacaru
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DO EDITORIAL DO ESTADÃO, DE 21 de maio de 2026
BANCO MASTER: A PROVA
DEFINITIVA DA SAFADEZA – José Nílton Mariano Saraiva
Quando, após o imoral golpe
perpetrado contra a democraticamente eleita Presidenta da República Dilma
Rousseff, Michel Temer assumiu interinamente a Presidência da República, em
maio de 2016, uma das suas primeiras providencias foi nomear o senhor Ilan
Goldfajn para gerir o Banco Central.
Este, independentemente de ter
ascendido ao cargo por escolha de um golpista (e até por isso mesmo), ficou na
função de junho/2016 até o fim da gestão Temer, em dez/2018. Então, com a
eleição e posse de Jair Bolsonaro, e após tramites burocráticos de praxe, dois
meses depois, em fevereiro/2019, o comando do Banco Central foi entregue ao
senhor Roberto Campos Neto, por indicação pessoal de Jair Bolsonaro.
Antes disso, no entanto, na
fase de transição dos dois governos, Ilan Goldfajn mostrou pelo menos um pouco
de dignidade e altivez quando, já nos estertores da sua atuação como presidente
do Bacen, recebeu o senhor Daniel Vorcaro, que manifestou sua intenção de tornar-se
“banqueiro”.
Após análise da situação, e
elaboração do competente relatório técnico, o Banco Central (de Ilan Goldfajn) negou
veementemente tal investida do senhor Vorcaro, por absoluta falta de
provimento.
Em outubro/2019 (somente oito
meses depois), e aí já na gestão de Campos Neto, no Bacen, o senhor Daniel
Vorcaro, certamente que orientado por alguém do próprio novo governo Bolsonaro,
voltou à carga na sua tentativa de tornar-se “banqueiro”, usando a mesma
argumentação e papelada da solicitação anterior (que houvera sido rejeitada).
E aí, numa metamorfose
impressionante e digna de esclarecimentos detalhados, o Banco Central da dupla
Jair Bolsonaro/Campos Neto, resolve aprovar o mesmo pedido que houvera sido indeferido
oito meses atrás, tornando o senhor Daniel Vorcaro, agora, sim, “banqueiro”, de
fato e de direito.
Deu-se então que, durante os
quatro anos do governo Bolsonaro o Banco Central de Campos Neto fez vista
grossa ao jogo sujo e toda sorte de maracutaia do senhor Vorcaro (fraudes,
desvios, corrupção e por aí vai). A troco de quê ???
Nisso tudo, há que se destacar
a omissão criminosa da imprensa nacional, que, mesmo sabedora que o Banco Master,
do senhor Vorcaro, foi fundado e atuou livremente no governo Bolsonaro (com
Campos Neto, no Bacen), insiste em enganar a população ao sugerir que o atual governo
tenha algo a ver com o descalabro descoberto.
Portanto, para que dúvidas não
pairem e se acabe de vez com especulações infundadas, o líquido e certo é que: o
Banco Master, do bandido Daniel Vorcaro, foi criado, homologado e atuou livremente
e irregularmente desde o princípio, quando da gestão da dupla Jair
Bolsonaro/Campos Neto.
A dupla Lula da Silva/Gabriel
Galípolo fez apenas e tão somente o essencial e que deveria ter sido feito lá
atras: liquidaram extrajudicialmente o Banco Master.
Alfim, metade do mundo e a
outra banda gostariam de saber: depois da prisão do bandido Vorcaro, pela Polícia
Federal, por qual razão não intimar o senhor Campos Neto para que explique a
não tomada de providências durante seu tempo de presidente do Banco Central.
A SIMILITUDE (“MODUS OPERANDI”) ENTRE CIRO, CAMILO E BOLSONARO
Na arena política, com seus
atores multiformes, vige aquele velho e assertivo adágio popular, segundo o
qual... “o sujo não pode falar do mal lavado”.
Aqui no Ceará, por exemplo,
temos o Ciro Gomes, que vive a falar mal do Jair Bolsonaro e do Camilo Santana,
quando o seu “modus operandi” tem muita similitude com os dos dois, a saber: como
deu um jeito de empregar na política toda a sua família (os irmãos Cid, Ivo,
Lia e Lúcio devem a ele, sim, o ingresso na política), Ciro não pode criticar
Bolsonaro por ter também empregado todos os filhos na política (Flávio, Carlos,
Eduardo e Jair Renan, além da enteada (filha de Michele com um homem casado) e
seu namorado que, mesmo morando no Rio de Janeiro, assinam ponto num órgão
governamental em Santa Catarina, do governador Jorginho Melo).
Com relação a Camilo Santana,
Ciro Gomes não pode nem de leve pensar em criticar seu ex pupilo por ter conseguido
colocar a esposa Onélia Santana no cargo vitalício de Conselheira no Tribunal
de Contas do Estado do Ceará, já que sua ex-esposa Patrícia Gomes de há muito
está abrigada no mesmo cargo vitalício de Conselheira do Tribunal de Contas do
Estado do Ceará (nos dois casos, a remuneração beira aos R$ 40.000,00 mensais).
É aquela velha história: um
sujo não pode falar do mal lavado.
Post Scriptum:
Ainda sobre o Ciro Gomes, por
qual razão ele omite, em suas falas, discursos e no próprio curriculum, ter
sido Conselheiro da Acesita e da Itaipu Binacional, faturando uma quantia mais
que razoável, no tempo em que era ministro no governo Lula da Silva ???
“CONFIDÊNCIAS... NA MADRUGADA” - José Nilton Mariano Saraiva
Senhores,
O aracatiense José Nílton Fernandes foi, durante
décadas, um competente, profícuo e honesto funcionário do Banco do Nordeste do
Brasil (BNB). Tanto, que chegou a ocupar, por mérito, cargos de relevo dentro
da instituição, mercê da dedicação à própria.
Mas, como não era “jeitoso”, como não era
“subserviente”, como não era “puxa-saco”, findou por ser “sacaneado” por
pessoas que detinham exatamente tais “virtudes” (?) a fim de conseguirem algum
cargo de chefia, alguma posição de maior relevância (e fomos testemunha disso).
Assim, quase que obrigado (ou compulsoriamente), Zé
Nilton (como seus amigos o conhecem) foi sumariamente destituído da função de
Gerente da Agência Centro do BNB, em Fortaleza-CE, que exercia com competência
e altivez, além de ameaçado de ser transferido para uma agência interiorana
qualquer, não necessariamente no Ceará, onde já há anos a família era radicada;
e o motivo foi, exatamente, o discordar de conceitos politico-ideológicos
antagônicos, professados por pessoas desqualificadas, mas ocupantes, não por
merecimento, de funções hierarquicamente superiores (tempos do malfadado e
desonesto Byron Queiroz).
Mas, como “dignidade” é algo que deve ser
preservada a qualquer custo por pessoas sérias e honestas, só lhe restou,
então, o caminho da aposentadoria antecipada, mesmo que financeiramente
prejudicial.
Se o setor bancário perdeu uma figura mui
competente, surgiu para Zé Nílton a oportunidade de embarcar na exigente e sutil
“arte literária”, qual seja, o alinhavar com desmedida competência, textos
antológicos, versando sobre uma miscelânea de assuntos (vários livros de sua
autoria foram publicados).
A destacar, o fato da sua querida Aracati revelar-nos um memorialista de
escol, num relembrar de figuras ilustres ou não, da cidade; mas, sobre qualquer
assunto Zé Nílton discorre com imensa capacidade e precisão cirúrgica.
O exemplo pode ser visto abaixo, quando trata sobre
“O EXILIO DOS VELHOS”. Confiram, por favor.
José Nílton MARIANO Saraiva
&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&
O EXÍLIO DOS VELHOS – José Nílton Fernandes
Há uma tragédia silenciosa acontecendo dentro de
muitas famílias brasileiras. Ela não explode nos jornais, não provoca protestos
nas ruas e raramente desperta indignação coletiva. Ainda assim, corrói lares,
rompe vínculos e revela uma das faces mais duras da natureza humana: o abandono
dos velhos.
Durante décadas, esses homens e mulheres
trabalharam, criaram filhos, sustentaram casas, pagaram contas, enfrentaram
doenças, crises econômicas e privações. Foram pais, mães, conselheiros e
provedores. Carregaram nas costas o peso da sobrevivência da família e da
educação dos filhos.
Mas chega o tempo da velhice. E chega rápido. De
repente, aquele homem que sustentava a casa começa a andar devagar demais.
Aquela mulher que resolvia tudo passa a esquecer coisas simples.
O velho fala demais. Conta histórias que ninguém
quer ouvir. Pergunta o óbvio. Repete frases. Enche o saco, dizem alguns. Já não
se veste sozinho. Já não toma banho sozinho. Às vezes, perde o controle do
corpo, fica fedorento, seboso.
A dependência, que deveria despertar compaixão,
muitas vezes provoca irritação. E assim começa um processo silencioso de
desumanização.
Aquele que um dia foi o centro da família passa a
ser visto como um problema doméstico. Uma presença incômoda. Uma mobília antiga
que ocupa espaço que agora deveria servir aos jovens.
Então surge a solução prática, fria e aparentemente
civilizada: — “Vamos colocá-lo num abrigo. Lá ele será bem cuidado.”
A frase é curta. Mas o efeito é cruel.
Quase sempre essa escolha não nasce do amor, mas da
conveniência. É a forma socialmente aceitável de dizer: — Não queremos mais
lidar com ele.
Em muitos casos, o próprio idoso sequer é
consultado.
De uma hora para outra, ele é retirado da casa onde
viveu décadas. Das fotografias nas paredes. Da cadeira onde costumava sentar.
Dos móveis que comprou com o suor do próprio rosto. É arrancado de sua rotina,
de suas lembranças e de sua história.
O que chamam de abrigo, para muitos, transforma-se
em um exílio. Às vezes, um exílio elegante. Às vezes, um exílio triste. Para
alguns, um matadouro lento. Ali passam a viver entre estranhos, aguardando
visitas que raramente vêm.
No começo, os filhos aparecem. Depois, espaçam as
visitas. Por fim, desaparecem. O telefone quase nunca toca. Em certos lugares,
nem sequer é permitido.
O tempo passa a ser medido não pelos dias, mas
pelas ausências.
Nos corredores de muitos abrigos, repetem-se
histórias parecidas. Velhos que passam horas olhando portas que não se abrem.
Esperando alguém que prometeu voltar no domingo passado. Alguns contam os dias
pela frequência das visitas. Outros simplesmente param de esperar.
Há instituições sérias e dedicadas, é verdade. Mas
também existem lugares onde a velhice é tratada com frieza mecânica: cuidadores
sobrecarregados. Banhos apressados. Remédios distribuídos como numa linha de
montagem. E, em alguns casos, maus-tratos.
Há ainda um elemento mais cruel nessa história. Em
certas famílias, o abandono funciona como uma vingança tardia. Filhos que
cresceram ressentidos de um pai severo, distante ou autoritário encontram na
velhice daquele homem uma oportunidade silenciosa de ajustar contas.
— Ele nunca foi o pai que eu queria. Agora, pensam alguns,
ele pagará por isso.
É uma justiça amarga, construída sobre
ressentimentos acumulados ao longo da vida. A velhice transforma-se então em um
tribunal sem defesa.
Mas seria injusto afirmar que todos os casos nascem
da crueldade. A realidade social também pesa. Muitas famílias simplesmente não
conseguem cuidar de seus velhos. Hoje o casal trabalha o dia inteiro. Não há
quem fique em casa. As moradias ficaram menores. A renda familiar desabou com a
aposentadoria. Nas casas surgiram novos moradores: os netos. Há famílias em que
três gerações já disputam o mesmo espaço. Falta tempo. Falta renda. Falta
estrutura.
Cuidar de um idoso dependente exige presença
permanente, preparo emocional e, muitas vezes, recursos financeiros que
simplesmente não existem. Nesses casos, o abrigo não nasce da indiferença, mas
do desespero. A longevidade moderna também agravou o problema. Antigamente, as
pessoas morriam mais cedo. Muitas partiam na própria casa, cercadas por filhos,
netos e vizinhos. A morte era um acontecimento familiar.
Hoje, a medicina prolonga a vida — mas a sociedade
ainda não aprendeu a prolongar o cuidado. Vive-se mais. Ama-se menos.
E assim cresce um fenômeno doloroso do nosso tempo:
a solidão dos velhos.
O Brasil possui leis que protegem o idoso. O Estatuto
do Idoso estabelece que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de
garantir dignidade, respeito e convivência familiar.
Mas nenhuma lei do mundo consegue fabricar aquilo
que deveria nascer naturalmente nas casas: o amor filial.
O Estado pode fiscalizar instituições. Pode punir
negligências. Pode oferecer políticas públicas. Mas não pode obrigar um filho a
amar o pai. Não pode fabricar carinho. A civilização sempre foi medida por um
critério simples: como tratar suas crianças e seus velhos.
Se uma sociedade abandona aqueles que lhe deram
origem, algo profundo está se quebrando em sua estrutura moral. O mais
inquietante é que esse processo costuma seguir quase um algoritmo silencioso.
Primeiro vem a impaciência. Depois, a distância
emocional. Em seguida, a decisão prática. Por fim, o abandono socialmente
justificado. E assim o ciclo se conclui.
Os velhos, que um dia foram o centro da família,
terminam a vida como hóspedes da própria história.
Mais do que políticas públicas, precisamos
recuperar uma ética da gratidão. Porque toda família é uma corrente. Os velhos
de hoje foram os jovens de ontem. E os jovens de hoje serão os velhos de
amanhã.
Alguns perguntam, diante de tanto sofrimento, se a
morte não seria, em certos casos, um alívio. Talvez seja. Para quem acredita na
vida espiritual, a morte não é o fim, mas a passagem para outra etapa da
existência. A dor termina. A jornada continua.
Mas, enquanto a vida permanece aqui, a velhice não
deveria ser um castigo. Deveria ser o tempo da colheita. O tempo da gratidão.
Porque existe uma lei antiga — conhecida pelos filósofos, pelas religiões e
pela própria experiência humana: A lei da causa e efeito.
A vida costuma devolver, mais cedo ou mais tarde,
exatamente aquilo que um dia praticamos. Quem hoje abandona, amanhã poderá ser
abandonado. Quem hoje cuida, talvez um dia também seja cuidado. E talvez seja
essa a verdadeira pergunta que cada geração deveria fazer a si mesma:
Como queremos ser tratados quando chegar a nossa
vez de envelhecer?
Fortaleza, 02 de março de 2026
José Nilton Fernandes
Senhores,
O aracatiense José Nílton Fernandes foi, durante
décadas, um competente, profícuo e honesto funcionário do Banco do Nordeste do
Brasil (BNB). Tanto, que chegou a ocupar, por mérito, cargos de relevo dentro
da instituição, mercê da dedicação à própria.
Mas, como não era “jeitoso”, como não era
“subserviente”, como não era “puxa-saco”, findou por ser “sacaneado” por
pessoas que detinham exatamente tais “virtudes” (?) a fim de conseguirem algum
cargo de chefia, alguma posição de maior relevância (e fomos testemunha disso).
Assim, quase que obrigado (ou compulsoriamente), Zé
Nilton (como seus amigos o conhecem) foi sumariamente destituído da função de
Gerente da Agência Centro do BNB, em Fortaleza-CE, que exercia com competência
e altivez, além de ameaçado de ser transferido para uma agência interiorana
qualquer, não necessariamente no Ceará, onde já há anos a família era radicada;
e o motivo foi, exatamente, o discordar de conceitos politico-ideológicos
antagônicos, professados por pessoas desqualificadas, mas ocupantes, não por
merecimento, de funções hierarquicamente superiores (tempos do malfadado e
desonesto Byron Queiroz).
Mas, como “dignidade” é algo que deve ser
preservada a qualquer custo por pessoas sérias e honestas, só lhe restou,
então, o caminho da aposentadoria antecipada, mesmo que financeiramente
prejudicial.
Se o setor bancário perdeu uma figura mui
competente, surgiu para Zé Nílton a oportunidade de embarcar na exigente e sutil
“arte literária”, qual seja, o alinhavar com desmedida competência, textos
antológicos, versando sobre uma miscelânea de assuntos (vários livros de sua
autoria foram publicados).
A destacar, o fato da sua querida Aracati revelar-nos um memorialista de
escol, num relembrar de figuras ilustres ou não, da cidade; mas, sobre qualquer
assunto Zé Nílton discorre com imensa capacidade e precisão cirúrgica.
O exemplo pode ser visto abaixo, quando trata sobre
“O EXILIO DOS VELHOS”. Confiram, por favor.
José Nílton MARIANO Saraiva
&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&
O EXÍLIO DOS VELHOS – José Nílton Fernandes
Há uma tragédia silenciosa acontecendo dentro de
muitas famílias brasileiras. Ela não explode nos jornais, não provoca protestos
nas ruas e raramente desperta indignação coletiva. Ainda assim, corrói lares,
rompe vínculos e revela uma das faces mais duras da natureza humana: o abandono
dos velhos.
Durante décadas, esses homens e mulheres
trabalharam, criaram filhos, sustentaram casas, pagaram contas, enfrentaram
doenças, crises econômicas e privações. Foram pais, mães, conselheiros e
provedores. Carregaram nas costas o peso da sobrevivência da família e da
educação dos filhos.
Mas chega o tempo da velhice. E chega rápido. De
repente, aquele homem que sustentava a casa começa a andar devagar demais.
Aquela mulher que resolvia tudo passa a esquecer coisas simples.
O velho fala demais. Conta histórias que ninguém
quer ouvir. Pergunta o óbvio. Repete frases. Enche o saco, dizem alguns. Já não
se veste sozinho. Já não toma banho sozinho. Às vezes, perde o controle do
corpo, fica fedorento, seboso.
A dependência, que deveria despertar compaixão,
muitas vezes provoca irritação. E assim começa um processo silencioso de
desumanização.
Aquele que um dia foi o centro da família passa a
ser visto como um problema doméstico. Uma presença incômoda. Uma mobília antiga
que ocupa espaço que agora deveria servir aos jovens.
Então surge a solução prática, fria e aparentemente
civilizada: — “Vamos colocá-lo num abrigo. Lá ele será bem cuidado.”
A frase é curta. Mas o efeito é cruel.
Quase sempre essa escolha não nasce do amor, mas da
conveniência. É a forma socialmente aceitável de dizer: — Não queremos mais
lidar com ele.
Em muitos casos, o próprio idoso sequer é
consultado.
De uma hora para outra, ele é retirado da casa onde
viveu décadas. Das fotografias nas paredes. Da cadeira onde costumava sentar.
Dos móveis que comprou com o suor do próprio rosto. É arrancado de sua rotina,
de suas lembranças e de sua história.
O que chamam de abrigo, para muitos, transforma-se
em um exílio. Às vezes, um exílio elegante. Às vezes, um exílio triste. Para
alguns, um matadouro lento. Ali passam a viver entre estranhos, aguardando
visitas que raramente vêm.
No começo, os filhos aparecem. Depois, espaçam as
visitas. Por fim, desaparecem. O telefone quase nunca toca. Em certos lugares,
nem sequer é permitido.
O tempo passa a ser medido não pelos dias, mas
pelas ausências.
Nos corredores de muitos abrigos, repetem-se
histórias parecidas. Velhos que passam horas olhando portas que não se abrem.
Esperando alguém que prometeu voltar no domingo passado. Alguns contam os dias
pela frequência das visitas. Outros simplesmente param de esperar.
Há instituições sérias e dedicadas, é verdade. Mas
também existem lugares onde a velhice é tratada com frieza mecânica: cuidadores
sobrecarregados. Banhos apressados. Remédios distribuídos como numa linha de
montagem. E, em alguns casos, maus-tratos.
Há ainda um elemento mais cruel nessa história. Em
certas famílias, o abandono funciona como uma vingança tardia. Filhos que
cresceram ressentidos de um pai severo, distante ou autoritário encontram na
velhice daquele homem uma oportunidade silenciosa de ajustar contas.
— Ele nunca foi o pai que eu queria. Agora, pensam alguns,
ele pagará por isso.
É uma justiça amarga, construída sobre
ressentimentos acumulados ao longo da vida. A velhice transforma-se então em um
tribunal sem defesa.
Mas seria injusto afirmar que todos os casos nascem
da crueldade. A realidade social também pesa. Muitas famílias simplesmente não
conseguem cuidar de seus velhos. Hoje o casal trabalha o dia inteiro. Não há
quem fique em casa. As moradias ficaram menores. A renda familiar desabou com a
aposentadoria. Nas casas surgiram novos moradores: os netos. Há famílias em que
três gerações já disputam o mesmo espaço. Falta tempo. Falta renda. Falta
estrutura.
Cuidar de um idoso dependente exige presença
permanente, preparo emocional e, muitas vezes, recursos financeiros que
simplesmente não existem. Nesses casos, o abrigo não nasce da indiferença, mas
do desespero. A longevidade moderna também agravou o problema. Antigamente, as
pessoas morriam mais cedo. Muitas partiam na própria casa, cercadas por filhos,
netos e vizinhos. A morte era um acontecimento familiar.
Hoje, a medicina prolonga a vida — mas a sociedade
ainda não aprendeu a prolongar o cuidado. Vive-se mais. Ama-se menos.
E assim cresce um fenômeno doloroso do nosso tempo:
a solidão dos velhos.
O Brasil possui leis que protegem o idoso. O Estatuto
do Idoso estabelece que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de
garantir dignidade, respeito e convivência familiar.
Mas nenhuma lei do mundo consegue fabricar aquilo
que deveria nascer naturalmente nas casas: o amor filial.
O Estado pode fiscalizar instituições. Pode punir
negligências. Pode oferecer políticas públicas. Mas não pode obrigar um filho a
amar o pai. Não pode fabricar carinho. A civilização sempre foi medida por um
critério simples: como tratar suas crianças e seus velhos.
Se uma sociedade abandona aqueles que lhe deram
origem, algo profundo está se quebrando em sua estrutura moral. O mais
inquietante é que esse processo costuma seguir quase um algoritmo silencioso.
Primeiro vem a impaciência. Depois, a distância
emocional. Em seguida, a decisão prática. Por fim, o abandono socialmente
justificado. E assim o ciclo se conclui.
Os velhos, que um dia foram o centro da família,
terminam a vida como hóspedes da própria história.
Mais do que políticas públicas, precisamos
recuperar uma ética da gratidão. Porque toda família é uma corrente. Os velhos
de hoje foram os jovens de ontem. E os jovens de hoje serão os velhos de
amanhã.
Alguns perguntam, diante de tanto sofrimento, se a
morte não seria, em certos casos, um alívio. Talvez seja. Para quem acredita na
vida espiritual, a morte não é o fim, mas a passagem para outra etapa da
existência. A dor termina. A jornada continua.
Mas, enquanto a vida permanece aqui, a velhice não
deveria ser um castigo. Deveria ser o tempo da colheita. O tempo da gratidão.
Porque existe uma lei antiga — conhecida pelos filósofos, pelas religiões e
pela própria experiência humana: A lei da causa e efeito.
A vida costuma devolver, mais cedo ou mais tarde,
exatamente aquilo que um dia praticamos. Quem hoje abandona, amanhã poderá ser
abandonado. Quem hoje cuida, talvez um dia também seja cuidado. E talvez seja
essa a verdadeira pergunta que cada geração deveria fazer a si mesma:
Como queremos ser tratados quando chegar a nossa
vez de envelhecer?
Fortaleza, 02 de março de 2026
José Nilton Fernandes
“CÃO DE BRIGA” - José Nilton Mariano Saraiva
O “click” do destravamento da estranha coleira mecânica (e sua posterior remoção do pescoço) representava a senha para que aquele aparentemente tímido e frágil ser humano se transmutasse numa fera ensandecida, capaz de aniquilar quem encontrasse à frente.
Na verdade, desde a meninice o pacato e “desligado” Danny (Jet Li) que experimentara precocemente a orfandade, fora exaustivamente treinado e programado (por um suposto “tio”) com um objetivo específico: nas arenas da vida, tornar-se uma potente arma de guerra, autentico matador profissional, capaz de trucidar o adversário em segundos, em troca de algum dinheiro. Ao final de cada combate, dinheiro no bolso do “empresário” e o retorno à jaula que lhe servia de moradia, à comida racionada e às humilhações de sempre. Um cachorro vadio e desprezível, na completa acepção do termo.
Mas quando, em razão de um grave acidente (e a presumível morte do seu “tutor-tio”), o “encoleirado” Danny se vê sozinho no mundo, perambulando sem rumo pelas ruas, repentinamente é atraído pelo som de um piano; e aí ele conhece Sam (Morgan Freeman) que, apesar de cego, é um exímio afinador do instrumento.
Desprovido da visão, mas dono de uma apurada acuidade extra-sensorial, Sam detectara a presença de Danny no ambiente, estimulara-o a aproximar-se, pedira sua ajuda no manuseio de algumas teclas do piano e, ao final da conversa que fizera questão de provocar, convencido de que tratava de alguém de boa índole (mas sozinho no mundo, sem eira e nem beira), convidara-o para ir morar em sua casa. Lá, o encontro com Victória, enteada de Sam, aluna concludente de um dos mais respeitáveis conservatórios de música (piano) dos Estados Unidos.
Pacientemente, os dois deixam que Danny aos poucos se liberte dos seus medos e apreensões, das suas angústias e temores e finde por integrar-se à “nova família”, até porque, segundo ouviria de Sam a posteriori... “as famílias devem permanecer unidas”; e assim, aos poucos, acompanhado por Sam ou Victória, Danny começa a descobrir os prazeres da vida, em coisas e situações aparentemente banais ao mortal-comum: tomar um sorvete e saber que é gelado, ir a um supermercado, detectar quando uma fruta se acha madura e, até, que um beijo na face, lhe dado por Victória em forma de saudação, é “molhado” e “gostoso”. Definitivamente, aquela era a “sua família”.
De outra parte, os ensaios de Victória ao piano, em pleno recinto familiar, além de deixá-lo embevecido e extasiado, repentinamente o levam de volta ao passado e, via fragmentos memoriais, imagens começam a “pintar no pedaço”. E aí ele obtém a resposta do “porque” da sua atração pelo piano: sua mãe fora pianista. Ajudado por Sam e Victória (através de um “retrato” que guardara e pesquisas posteriores), descobre não só a identidade materna, mas que fora uma pianista consagrada e famosa.
Nisso, numa prosaica visita a um supermercado, eis que Danny é reconhecido por um dos comparsas do “tio” (que ele julgara morto e que o transformara num autêntico animal); descobre, então, que o próprio havia sobrevivido ao acidente e se vê “convidado” a comparecer à sua presença, imediatamente (sob a ameaça de que, não o fazendo, descobririam seu endereço e seus atuais protetores sofreriam as consequências).
Volta, é obrigado a recolocar a coleira e, mesmo afirmando não mais querer matar ninguém, é jogado numa arena onde cinco profissionais, usando instrumentos contundentes, começam um autêntico “massacre”; por instinto de sobrevivência, a “fera” ressurge em todo o seu esplendor e letalidade, e assim Danny acaba com todos eles. Foge e, ferido, arquejante e cambaleante procura o abrigo de Sam e Victória, até porque... “as famílias devem permanecer unidas”.
Surpreso, descobre que os velhos amigos (o “tio” à frente), já haviam descoberto seu “esconderijo” e, agora, subiam os lances de escada dispostos a trucidar com todos eles. Após colocar Sam e Victória num local presumivelmente seguro, dá-se a última batalha: um a um os comparsas são abatidos, impiedosamente, só restando o “tio”; já caído ao chão após uma luta sangrenta, incitando-o a que ele (Danny) mostre ser o que realmente é - “só um assassino” – provoca-o mais ainda ao afirmar que sua mãe fora uma prostituta que lhe servira sexualmente em ocasiões diversas; e aí, em feedback Danny revive a cena em que o “tio” matara sua mãe, à queima roupa, com um tiro na cabeça.
Ainda assim, naquele momento crucial, o humano se sobressai, a fera sucumbe e Danny terminantemente se recusa a assassiná-lo; não, ele não é “aquilo”. Pressentindo o perigo, Sam sai do esconderijo e acaba com o marginal, ao acertá-lo com um vaso de plantas, na cabeça.
Cena final: no conservatório, ao receber seu diploma de melhor pianista da turma de concludentes, Victória, ao ser convidada pra mostrar suas habilidades, toma do microfone e anuncia que a música a ser executada é dedicada a alguém muito especial, que se encontra na plateia; alguém cuja vida transformou-se quando encontrou a música.
Um filmão !!!
Haja coração.