A “MAGIA”
DO FUTEBOL - José Nilton Mariano Saraiva
Sob um
mesmo teto, dentro de um mesmo evento, só que em duas frentes distintas, acontece
a “magia” do futebol: coletivamente, nas arquibancadas das arenas da vida,
através do outrora impensável e democrático congraçamento dos mais distintos e
díspares atores sociais (do médico ao engraxate, do biscateiro ao industrial,
da empregada doméstica à deslumbrada socialite, e outros tantos) que, deixando
de lado temporariamente suas idiossincrasias, problemas, soberbas e frustrações,
em uníssono e irmanados põem-se a roer unhas, vibrar com o desempenho do time
do coração, vaiar, aplaudir, premiar a senhora mãe do árbitro com adjetivos os
mais “carinhosos”, “paparem” o mesmo anti-higiênico e gostosíssimo “cai-duro”
ou mesmo a macaxeira cozida, preparados ali mesmo, na hora, sem importar-se de
que venham acompanhados daquele maravilhoso suco repleto de coliformes fecais, antes
de, até que enfim – momento supremo e apoteótico – se enroscarem na comemoração
do gol tão esperado.
Ali, não
tem essa de seletividade, de um ser maior que o outro, de alguém se afirmar e
se impor em razão de ostentar um anel de “doutor” ou um vistoso cordão de ouro no
pescoço; não, ali não tem essa de autoridade, de excelência, de rei do gado e
outras frescuras mais.
A “magia”
do futebol os faz, mesmo que momentaneamente, iguais, unos, irmãos, complementares,
até. Ou, como diria Nelson Rodrigues, um dos nossos grandes dramaturgos e
apaixonado por futebol: “todos os torcedores de futebol se parecem entre si
como soldadinhos de chumbo; têm o mesmo comportamento e xingam com a mesma
exuberância e os mesmos nomes feios, os juizes, os bandeirinhas, os adversários
e os jogadores do próprio time” (pelo menos até a saída do estádio,
acrescentaríamos).
Já lá
embaixo, entre as quatro linhas do “tapete verde” de um Maracanã ou Castelão da
vida, ou mesmo no campo de terra batida dos “estádios” interioranos, a “magia”
do futebol se nos apresenta solo, individualizada, personalista, de um só e
único dono: o craque, o fora-de-série, aquele que faz a diferença, que desequilibra,
magnetiza e é capaz de, numa fração de segundo, deixar o adversário esparramado
de quatro no chão, após um drible desmoralizante, ou aplicar-lhe um
“banho-de-cuia” magistral, deixando-o a ver navios, antes de aninhar a bola no
fundo da rede.
E ninguém
mais emblemático para representar tão esfuziante personagem que o nosso saudoso
Mané Garrincha, titular absoluto do time do Botafogo e na seleção brasileira
Recorramos,
novamente, ao que escreveu Nelson Rodrigues, ao final da batalha decisiva da
Copa do Mundo de 1962, Brasil 3 x 1 Tcheco-Eslováquia, realizada no Chile, quando
nos sagramos bicampeões:
(aspas) “Amigos,
a bola foi atirada no fogo como uma Joana D’Arc. Garrincha apanha e dispara. Já
em plena corrida vai driblando o inimigo. São cortes límpidos, exatos, fatais.
E, de repente, estaca. Soa o riso da multidão - riso aberto, escancarado, quase
ginecológico. Há, de novo, em torno de Mané, um batalhão de tchecos. Novamente,
ele começa a cortar um, outro, mais outro. Iluminado de molecagem.
Garrincha
tem nos pés uma bola encantada, ou melhor, uma bola amestrada. O adversário
pára também. O Mané, com quarenta graus de febre, prende ainda o couro. A
partida está no fim. O juiz russo espia o relógio. E o Brasil não precisa
vencer um vencido. A Tcheco-Eslováquia está derrotada, de alto a baixo, da
cabeça aos sapatos.
Mas
Garrincha levou até a última gota o seu olé solitário e formidável. Para o adversário, pior e mais humilhante que
a derrota, é a batalha desigual de um só contra onze. A derrota deixa de ser
sóbria, severa, dura como um claustro.
Garrincha
ateava gargalhada por todo o estádio. E, então, os tchecos não perseguiam mais
a bola. Na sua desesperadora impotência, estão quietos, imóveis. Tão imóveis
que pareciam empalhados. Garrincha também não se mexe. É de arrepiar a cena. De
um lado, uns quatro ou cinco europeus, de pele rósea como nádega de anjo; do
outro lado, feio e torto, o nosso Mané.
Por fim,
o marcador do brasileiro, como única reação, põe as mãos nos quadris como uma
briosa lavadeira. O jogo acabava ali. Garrincha arrasara a Tcheco-Eslováquia,
não deixando pedra sobre pedra. Se aparecesse, na hora, um grande poeta, havia
de se arremessar, gritando: O homem só é verdadeiramente homem quando brinca. E
não houve, em toda a Copa, um momento tão lírico e tão doce. Aqueles quatro ou
cinco tchecos, parados diante de Mané, magnetizados, representavam a Europa.
Diante de um valor humano insuspeitado e deslumbrante, a Europa emudecia, com os
seus túmulos, as suas torres, os seus claustros, os seus rios.
A última
jogada de Mané, no adeus aos Andes, foi uma piada linda e plástica. No mais
patético das batalhas, a seleção brasileira soube brincar. E esse toque de
molecagem brasileira é que deu à vitória uma inconcebível luz (aspas)”.
Taí, a
essência da “magia” do futebol.