Porco (Dr. Demóstenes Ribeiro)
Final de tarde, com outros meninos, eu brincava na Rua das Laranjeiras. Era uma rua enlameada, sem calçamento e com casebres de barro batido, quando o carro de luxo parou e ele desceu. Eleazar, subserviente, abriu a porta e gritou: Maria, o doutor chegou!
Eu mal entrara na adolescência, mas desde o dia anterior, percebia algo diferente. Trocaram o colchão de palha, o meu pai se ausentara, e Luzia, a minha irmã de catorze anos, estava de batom. Minha mãe e Eleazar, disfarçaram os gemidos, conversando alto na calçada. Algum tempo depois, o doutor deixou cinquenta reais no chão, e foi embora.
Anoiteceu, e Luzia chorava desesperadamente. Completamente embriagado, o meu pai chegou: “Luzia, para com essa bobagem. Agora sabe como ganhar a vida. Não mais passaremos necessidade.”
O doutor se afastou. Eleazar, conhecido aliciador de meninas, o supria com outras mocinhas, e a vida não era fácil. Sem adolescência ou mocidade, a minha irmã terminou no cabaré da Otília, sofreu toda violência possível e morreu tuberculosa. Foi envolta em uma rede e jogada na cova rasa, mas isso não ficaria assim!
O meu pai se entregou de vez ao alcoolismo, e a minha mãe segurava a barra fritando e vendendo filhós na calçada do cinema. Beirando os dezoito anos, a minha vida não tinha o menor sentido, era inferno e desejo imenso de vingança até Deus se lembrar de mim.
Zé da Matarazzo fazia fretes pra São Paulo, o seu ajudante adoeceu, e ele me convidou pra ajudar no caminhão. Eu tiraria os documentos, e daria certo. Minha mãe ficou contente e, uma semana depois, veio a estrada: Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, indo, voltando e recomeçando tudo.
Mas, sem nada a perder, foi mais fácil do que eu pensava. Arranjei um emprego no Brás e fiquei em São Paulo. Estudava à noite, me alfabetizei, sentei praça na Força Pública e virei policial. PM muitos anos, até chegar à reserva.
Trinta anos depois, decidi: é agora! Cheguei cabeludo, barbudo, de bigode e com documentos falsos. Ninguém me reconheceu. Aluguei um carro potente - paguei em espécie, antecipadamente, e pesquisei a rotina do doutor.
Já noitinha, a atendente saiu e ele ficou. Subitamente, entrei no consultório: “É uma consulta urgente!” Muito depressa fui em sua direção. Foi bonito: ele estava de branco e a doze polegadas lhe atingiu o pescoço; o sangue esguichando no teto, tudo ficando vermelho, e ele caindo como os bacurins que o meu pai matava.
Rua deserta, fechei a porta por fora e entrei no carro. Joguei fora as luvas e saí a toda velocidade. Da madrugada, já estava em Salgueiro. Numa pensão barata, descansei um pouco, tirei a barba, o bigode, e fui em frente. Em Petrolina, cortei o cabelo bem curto, dormi um pouco e me mandei pra Salvador. No aeroporto, me desfiz dos documentos falsos, abandonei o carro e embarquei pra São Paulo.
No dia seguinte, a vizinha perguntou: Seu Zé Maria, estava viajando? Respondi, minha Santa, eu fui pagar uma promessa!
E desde então, nunca me senti tão feliz!