por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sábado, 4 de abril de 2026

BANCO MASTER: A PROVA DEFINITIVA DA SAFADEZA – José Nílton Mariano Saraiva

Quando, após o imoral golpe perpetrado contra a democraticamente eleita Presidenta da República Dilma Rousseff, Michel Temer assumiu interinamente a Presidência da República, em maio de 2016, uma das suas primeiras providencias foi nomear o senhor Ilan Goldfajn para gerir o Banco Central.

Este, independentemente de ter ascendido ao cargo por escolha de um golpista (e até por isso mesmo), ficou na função de junho/2016 até o fim da gestão Temer, em dez/2018. Então, com a eleição e posse de Jair Bolsonaro, e após tramites burocráticos de praxe, dois meses depois, em fevereiro/2019, o comando do Banco Central foi entregue ao senhor Roberto Campos Neto, por indicação pessoal de Jair Bolsonaro.

Antes disso, no entanto, na fase de transição dos dois governos, Ilan Goldfajn mostrou pelo menos um pouco de dignidade e altivez quando, já nos estertores da sua atuação como presidente do Bacen, recebeu o senhor Daniel Vorcaro, que manifestou sua intenção de tornar-se “banqueiro”.

Após análise da situação, e elaboração do competente relatório técnico, o Banco Central (de Ilan Goldfajn) negou veementemente tal investida do senhor Vorcaro, por absoluta falta de provimento.

Em outubro/2019 (somente oito meses depois), e aí já na gestão de Campos Neto, no Bacen, o senhor Daniel Vorcaro, certamente que orientado por alguém do próprio novo governo Bolsonaro, voltou à carga na sua tentativa de tornar-se “banqueiro”, usando a mesma argumentação e papelada da solicitação anterior (que houvera sido rejeitada).

E aí, numa metamorfose impressionante e digna de esclarecimentos detalhados, o Banco Central da dupla Jair Bolsonaro/Campos Neto, resolve aprovar o mesmo pedido que houvera sido indeferido oito meses atrás, tornando o senhor Daniel Vorcaro, agora, sim, “banqueiro”, de fato e de direito.

Deu-se então que, durante os quatro anos do governo Bolsonaro o Banco Central de Campos Neto fez vista grossa ao jogo sujo e toda sorte de maracutaia do senhor Vorcaro (fraudes, desvios, corrupção e por aí vai). A troco de quê ???

Nisso tudo, há que se destacar a omissão criminosa da imprensa nacional, que, mesmo sabedora que o Banco Master, do senhor Vorcaro, foi fundado e atuou livremente no governo Bolsonaro (com Campos Neto, no Bacen), insiste em enganar a população ao sugerir que o atual governo tenha algo a ver com o descalabro descoberto.

Portanto, para que dúvidas não pairem e se acabe de vez com especulações infundadas, o líquido e certo é que: o Banco Master, do bandido Daniel Vorcaro, foi criado, homologado e atuou livremente e irregularmente desde o princípio, quando da gestão da dupla Jair Bolsonaro/Campos Neto.

A dupla Lula da Silva/Gabriel Galípolo fez apenas e tão somente o essencial e que deveria ter sido feito lá atras: liquidaram extrajudicialmente o Banco Master.

Alfim, metade do mundo e a outra banda gostariam de saber: depois da prisão do bandido Vorcaro, pela Polícia Federal, por qual razão não intimar o senhor Campos Neto para que explique a não tomada de providências durante seu tempo de presidente do Banco Central.         


 A SIMILITUDE (“MODUS OPERANDI”) ENTRE CIRO, CAMILO E  BOLSONARO  

Na arena política, com seus atores multiformes, vige aquele velho e assertivo adágio popular, segundo o qual... “o sujo não pode falar do mal lavado”.

Aqui no Ceará, por exemplo, temos o Ciro Gomes, que vive a falar mal do Jair Bolsonaro e do Camilo Santana, quando o seu “modus operandi” tem muita similitude com os dos dois, a saber: como deu um jeito de empregar na política toda a sua família (os irmãos Cid, Ivo, Lia e Lúcio devem a ele, sim, o ingresso na política), Ciro não pode criticar Bolsonaro por ter também empregado todos os filhos na política (Flávio, Carlos, Eduardo e Jair Renan, além da enteada (filha de Michele com um homem casado) e seu namorado que, mesmo morando no Rio de Janeiro, assinam ponto num órgão governamental em Santa Catarina, do governador Jorginho Melo).

Com relação a Camilo Santana, Ciro Gomes não pode nem de leve pensar em criticar seu ex pupilo por ter conseguido colocar a esposa Onélia Santana no cargo vitalício de Conselheira no Tribunal de Contas do Estado do Ceará, já que sua ex-esposa Patrícia Gomes de há muito está abrigada no mesmo cargo vitalício de Conselheira do Tribunal de Contas do Estado do Ceará (nos dois casos, a remuneração beira aos R$ 40.000,00 mensais).

É aquela velha história: um sujo não pode falar do mal lavado.

Post Scriptum:

Ainda sobre o Ciro Gomes, por qual razão ele omite, em suas falas, discursos e no próprio curriculum, ter sido Conselheiro da Acesita e da Itaipu Binacional, faturando uma quantia mais que razoável, no tempo em que era ministro no governo Lula da Silva ???

quinta-feira, 5 de março de 2026

“CONFIDÊNCIAS... NA MADRUGADA” - José Nilton Mariano Saraiva


Desde tempos imemoriais criamos o saudável hábito (ou seria pura insegurança ???) de, ao sentar para tentar redigir alguma coisa, termos ao lado um velho companheiro de luta: o dicionário.

Assim, logo após o seu lançamento no Brasil, em 2001, adquirimos o Dicionário Houaiss (embora já tivéssemos o do Aurélio) por entender tratar-se de uma grande, necessária e imprescindível obra.

Para que tenhamos ideia da sua grandeza, basta atentar que, na sua elaboração, nada menos que 200 (duzentos) lexicógrafos e especialistas no mister participaram da empreitada, e que em suas 2.924 páginas o “livrão” nos traz cerca de 228.500 verbetes, 376.500 acepções, 415.500 sinônimos, 26.400 antônimos e 57.000 palavras arcaicas, além de um sem número de consistentes informações técnicas, evidentemente que versando sobre a Língua Portuguesa (daí também ter sido lançado em Portugal).

Sem qualquer demérito ao “Dicionário Aurélio”, o Houaiss lhe dá de goleada, daí o termos como um companheiro inseparável, sempre que – como agora – queremos colocar o preto no branco, tentar passar alguma coisa pra você, aí do outro lado da telinha.

Pois foi exatamente numa dessas íntimas trocas de “confidências na madrugada” (vocês também conversam com o Dicionário, no silêncio da noite ???) que a porca torceu o rabo: a palavra que procurávamos (que não nos recordamos no momento), começava com a letra “P”, cujo vastíssimo banco de dados se encontra relacionado entre as páginas 2.099 a 2.340 do Houaiss, para onde nos dirigimos.

Uma primeira pesquisa e a surpresa desagradável: nadica de nada da dita-cuja. Pacientemente, creditamos o seu “não encontro” à zonzeira típica da chegada do sono àquela hora da madrugada, razão porque nos dirigimos à cozinha para bebericar um gole d’agua e “lavar a fuça”, objetivando acordar de vez.

Numa nova tentativa, nada da palavra. Ficamos um tanto quanto “baratinados” e murmuramos cá com os nossos botões: como é que pode, um “bichão” desse tamanho (2924 páginas) não ter essa simplória palavra. E assim fomos nos deitar com a pulga atrás da orelha.

Pela manhã, já descansado e alimentado, partimos pra encarar a fera de frente, convictos que dessa vez ela não nos escaparia. Ledo engano. A tal palavra, definitivamente, não constava do estupendo Houaiss. Assim, inconformados tomamos então uma decisão radical: como que a procurar uma agulha no palheiro, sofregamente conferimos, uma a uma, da página número 01 à página número 2.924, na perspectiva da falta de alguma página.

Xeque-mate.

Encontramos, não só no espaço dedicado à letra “P”, mas, também, em mais duas outras letras (N e O ???), quatro ou cinco páginas faltando (em cada uma das letras) e, em seu lugar, páginas repetidas, num imperdoável erro de impressão (ou organização, ajuntamento e por aí vai) para uma obra de tamanho vulto.

Imediatamente acionamos o site ao qual o havíamos solicitado via Internet (Livraria Saraiva) e fomos orientados a devolver o Dicionário, via sedex (evidentemente que sem custos) e, semanas depois, recebemos um outro exemplar de volta (e aí já completo), com o agradecimento da editora responsável (Objetiva), que alegou que no “lote” em que se encontrava o exemplar que adquirimos originalmente teria havido o tal problema (repetição e falta de páginas).

Se, por conta disso, houve um “recall” a posteriori (solicitação de devolução de um lote ou de uma linha inteira de produtos, feita pelo responsável pela impressão do mesmo), não sabemos e nem nos foi dado conhecimento (mas, aqui pra nós, se você chegou a adquirir um Dicionário Houaiss, confira pelo menos a letra “P” à procura de páginas repetidas e consequentemente à falta das que deveriam ali constar, ok ??? ).

No mais, tirante esse detalhe (atípico), vale a pena investir no Houaiss (e como vale).

terça-feira, 3 de março de 2026

 Senhores, 

O aracatiense José Nílton Fernandes foi, durante décadas, um competente, profícuo e honesto funcionário do Banco do Nordeste do Brasil (BNB). Tanto, que chegou a ocupar, por mérito, cargos de relevo dentro da instituição, mercê da dedicação à própria. 

Mas, como não era “jeitoso”, como não era “subserviente”, como não era “puxa-saco”, findou por ser “sacaneado” por pessoas que detinham exatamente tais “virtudes” (?) a fim de conseguirem algum cargo de chefia, alguma posição de maior relevância (e fomos testemunha disso). 

Assim, quase que obrigado (ou compulsoriamente), Zé Nilton (como seus amigos o conhecem) foi sumariamente destituído da função de Gerente da Agência Centro do BNB, em Fortaleza-CE, que exercia com competência e altivez, além de ameaçado de ser transferido para uma agência interiorana qualquer, não necessariamente no Ceará, onde já há anos a família era radicada; e o motivo foi, exatamente, o discordar de conceitos politico-ideológicos antagônicos, professados por pessoas desqualificadas, mas ocupantes, não por merecimento, de funções hierarquicamente superiores (tempos do malfadado e desonesto Byron Queiroz). 

Mas, como “dignidade” é algo que deve ser preservada a qualquer custo por pessoas sérias e honestas, só lhe restou, então, o caminho da aposentadoria antecipada, mesmo que financeiramente prejudicial. 

Se o setor bancário perdeu uma figura mui competente, surgiu para Zé Nílton a oportunidade de embarcar na exigente e sutil “arte literária”, qual seja, o alinhavar com desmedida competência, textos antológicos, versando sobre uma miscelânea de assuntos (vários livros de sua autoria foram publicados). 

A destacar, o fato da sua querida Aracati revelar-nos um memorialista de escol, num relembrar de figuras ilustres ou não, da cidade; mas, sobre qualquer assunto Zé Nílton discorre com imensa capacidade e precisão cirúrgica. 

O exemplo pode ser visto abaixo, quando trata sobre “O EXILIO DOS VELHOS”. Confiram, por favor. 

José Nílton MARIANO Saraiva

 

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O EXÍLIO DOS VELHOS – José Nílton Fernandes  

Há uma tragédia silenciosa acontecendo dentro de muitas famílias brasileiras. Ela não explode nos jornais, não provoca protestos nas ruas e raramente desperta indignação coletiva. Ainda assim, corrói lares, rompe vínculos e revela uma das faces mais duras da natureza humana: o abandono dos velhos.

Durante décadas, esses homens e mulheres trabalharam, criaram filhos, sustentaram casas, pagaram contas, enfrentaram doenças, crises econômicas e privações. Foram pais, mães, conselheiros e provedores. Carregaram nas costas o peso da sobrevivência da família e da educação dos filhos.

Mas chega o tempo da velhice. E chega rápido. De repente, aquele homem que sustentava a casa começa a andar devagar demais. Aquela mulher que resolvia tudo passa a esquecer coisas simples.

O velho fala demais. Conta histórias que ninguém quer ouvir. Pergunta o óbvio. Repete frases. Enche o saco, dizem alguns. Já não se veste sozinho. Já não toma banho sozinho. Às vezes, perde o controle do corpo, fica fedorento, seboso.

A dependência, que deveria despertar compaixão, muitas vezes provoca irritação. E assim começa um processo silencioso de desumanização.

Aquele que um dia foi o centro da família passa a ser visto como um problema doméstico. Uma presença incômoda. Uma mobília antiga que ocupa espaço que agora deveria servir aos jovens.

Então surge a solução prática, fria e aparentemente civilizada: — “Vamos colocá-lo num abrigo. Lá ele será bem cuidado.”

A frase é curta. Mas o efeito é cruel.

Quase sempre essa escolha não nasce do amor, mas da conveniência. É a forma socialmente aceitável de dizer: — Não queremos mais lidar com ele.

Em muitos casos, o próprio idoso sequer é consultado.

De uma hora para outra, ele é retirado da casa onde viveu décadas. Das fotografias nas paredes. Da cadeira onde costumava sentar. Dos móveis que comprou com o suor do próprio rosto. É arrancado de sua rotina, de suas lembranças e de sua história.

O que chamam de abrigo, para muitos, transforma-se em um exílio. Às vezes, um exílio elegante. Às vezes, um exílio triste. Para alguns, um matadouro lento. Ali passam a viver entre estranhos, aguardando visitas que raramente vêm.

No começo, os filhos aparecem. Depois, espaçam as visitas. Por fim, desaparecem. O telefone quase nunca toca. Em certos lugares, nem sequer é permitido.

O tempo passa a ser medido não pelos dias, mas pelas ausências.

Nos corredores de muitos abrigos, repetem-se histórias parecidas. Velhos que passam horas olhando portas que não se abrem. Esperando alguém que prometeu voltar no domingo passado. Alguns contam os dias pela frequência das visitas. Outros simplesmente param de esperar.

Há instituições sérias e dedicadas, é verdade. Mas também existem lugares onde a velhice é tratada com frieza mecânica: cuidadores sobrecarregados. Banhos apressados. Remédios distribuídos como numa linha de montagem. E, em alguns casos, maus-tratos.

Há ainda um elemento mais cruel nessa história. Em certas famílias, o abandono funciona como uma vingança tardia. Filhos que cresceram ressentidos de um pai severo, distante ou autoritário encontram na velhice daquele homem uma oportunidade silenciosa de ajustar contas.

— Ele nunca foi o pai que eu queria. Agora, pensam alguns, ele pagará por isso.

É uma justiça amarga, construída sobre ressentimentos acumulados ao longo da vida. A velhice transforma-se então em um tribunal sem defesa.

Mas seria injusto afirmar que todos os casos nascem da crueldade. A realidade social também pesa. Muitas famílias simplesmente não conseguem cuidar de seus velhos. Hoje o casal trabalha o dia inteiro. Não há quem fique em casa. As moradias ficaram menores. A renda familiar desabou com a aposentadoria. Nas casas surgiram novos moradores: os netos. Há famílias em que três gerações já disputam o mesmo espaço. Falta tempo. Falta renda. Falta estrutura.

Cuidar de um idoso dependente exige presença permanente, preparo emocional e, muitas vezes, recursos financeiros que simplesmente não existem. Nesses casos, o abrigo não nasce da indiferença, mas do desespero. A longevidade moderna também agravou o problema. Antigamente, as pessoas morriam mais cedo. Muitas partiam na própria casa, cercadas por filhos, netos e vizinhos. A morte era um acontecimento familiar.

Hoje, a medicina prolonga a vida — mas a sociedade ainda não aprendeu a prolongar o cuidado. Vive-se mais. Ama-se menos.

E assim cresce um fenômeno doloroso do nosso tempo: a solidão dos velhos.

O Brasil possui leis que protegem o idoso. O Estatuto do Idoso estabelece que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de garantir dignidade, respeito e convivência familiar.

Mas nenhuma lei do mundo consegue fabricar aquilo que deveria nascer naturalmente nas casas: o amor filial.

O Estado pode fiscalizar instituições. Pode punir negligências. Pode oferecer políticas públicas. Mas não pode obrigar um filho a amar o pai. Não pode fabricar carinho. A civilização sempre foi medida por um critério simples: como tratar suas crianças e seus velhos.

Se uma sociedade abandona aqueles que lhe deram origem, algo profundo está se quebrando em sua estrutura moral. O mais inquietante é que esse processo costuma seguir quase um algoritmo silencioso.

Primeiro vem a impaciência. Depois, a distância emocional. Em seguida, a decisão prática. Por fim, o abandono socialmente justificado. E assim o ciclo se conclui.

Os velhos, que um dia foram o centro da família, terminam a vida como hóspedes da própria história.

Mais do que políticas públicas, precisamos recuperar uma ética da gratidão. Porque toda família é uma corrente. Os velhos de hoje foram os jovens de ontem. E os jovens de hoje serão os velhos de amanhã.

Alguns perguntam, diante de tanto sofrimento, se a morte não seria, em certos casos, um alívio. Talvez seja. Para quem acredita na vida espiritual, a morte não é o fim, mas a passagem para outra etapa da existência. A dor termina. A jornada continua.

Mas, enquanto a vida permanece aqui, a velhice não deveria ser um castigo. Deveria ser o tempo da colheita. O tempo da gratidão. Porque existe uma lei antiga — conhecida pelos filósofos, pelas religiões e pela própria experiência humana: A lei da causa e efeito.

A vida costuma devolver, mais cedo ou mais tarde, exatamente aquilo que um dia praticamos. Quem hoje abandona, amanhã poderá ser abandonado. Quem hoje cuida, talvez um dia também seja cuidado. E talvez seja essa a verdadeira pergunta que cada geração deveria fazer a si mesma:

Como queremos ser tratados quando chegar a nossa vez de envelhecer?

Fortaleza, 02 de março de 2026

José Nilton Fernandes

 Senhores, 

O aracatiense José Nílton Fernandes foi, durante décadas, um competente, profícuo e honesto funcionário do Banco do Nordeste do Brasil (BNB). Tanto, que chegou a ocupar, por mérito, cargos de relevo dentro da instituição, mercê da dedicação à própria. 

Mas, como não era “jeitoso”, como não era “subserviente”, como não era “puxa-saco”, findou por ser “sacaneado” por pessoas que detinham exatamente tais “virtudes” (?) a fim de conseguirem algum cargo de chefia, alguma posição de maior relevância (e fomos testemunha disso). 

Assim, quase que obrigado (ou compulsoriamente), Zé Nilton (como seus amigos o conhecem) foi sumariamente destituído da função de Gerente da Agência Centro do BNB, em Fortaleza-CE, que exercia com competência e altivez, além de ameaçado de ser transferido para uma agência interiorana qualquer, não necessariamente no Ceará, onde já há anos a família era radicada; e o motivo foi, exatamente, o discordar de conceitos politico-ideológicos antagônicos, professados por pessoas desqualificadas, mas ocupantes, não por merecimento, de funções hierarquicamente superiores (tempos do malfadado e desonesto Byron Queiroz). 

Mas, como “dignidade” é algo que deve ser preservada a qualquer custo por pessoas sérias e honestas, só lhe restou, então, o caminho da aposentadoria antecipada, mesmo que financeiramente prejudicial. 

Se o setor bancário perdeu uma figura mui competente, surgiu para Zé Nílton a oportunidade de embarcar na exigente e sutil “arte literária”, qual seja, o alinhavar com desmedida competência, textos antológicos, versando sobre uma miscelânea de assuntos (vários livros de sua autoria foram publicados). 

A destacar, o fato da sua querida Aracati revelar-nos um memorialista de escol, num relembrar de figuras ilustres ou não, da cidade; mas, sobre qualquer assunto Zé Nílton discorre com imensa capacidade e precisão cirúrgica. 

O exemplo pode ser visto abaixo, quando trata sobre “O EXILIO DOS VELHOS”. Confiram, por favor. 

José Nílton MARIANO Saraiva

 

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O EXÍLIO DOS VELHOS – José Nílton Fernandes  

Há uma tragédia silenciosa acontecendo dentro de muitas famílias brasileiras. Ela não explode nos jornais, não provoca protestos nas ruas e raramente desperta indignação coletiva. Ainda assim, corrói lares, rompe vínculos e revela uma das faces mais duras da natureza humana: o abandono dos velhos.

Durante décadas, esses homens e mulheres trabalharam, criaram filhos, sustentaram casas, pagaram contas, enfrentaram doenças, crises econômicas e privações. Foram pais, mães, conselheiros e provedores. Carregaram nas costas o peso da sobrevivência da família e da educação dos filhos.

Mas chega o tempo da velhice. E chega rápido. De repente, aquele homem que sustentava a casa começa a andar devagar demais. Aquela mulher que resolvia tudo passa a esquecer coisas simples.

O velho fala demais. Conta histórias que ninguém quer ouvir. Pergunta o óbvio. Repete frases. Enche o saco, dizem alguns. Já não se veste sozinho. Já não toma banho sozinho. Às vezes, perde o controle do corpo, fica fedorento, seboso.

A dependência, que deveria despertar compaixão, muitas vezes provoca irritação. E assim começa um processo silencioso de desumanização.

Aquele que um dia foi o centro da família passa a ser visto como um problema doméstico. Uma presença incômoda. Uma mobília antiga que ocupa espaço que agora deveria servir aos jovens.

Então surge a solução prática, fria e aparentemente civilizada: — “Vamos colocá-lo num abrigo. Lá ele será bem cuidado.”

A frase é curta. Mas o efeito é cruel.

Quase sempre essa escolha não nasce do amor, mas da conveniência. É a forma socialmente aceitável de dizer: — Não queremos mais lidar com ele.

Em muitos casos, o próprio idoso sequer é consultado.

De uma hora para outra, ele é retirado da casa onde viveu décadas. Das fotografias nas paredes. Da cadeira onde costumava sentar. Dos móveis que comprou com o suor do próprio rosto. É arrancado de sua rotina, de suas lembranças e de sua história.

O que chamam de abrigo, para muitos, transforma-se em um exílio. Às vezes, um exílio elegante. Às vezes, um exílio triste. Para alguns, um matadouro lento. Ali passam a viver entre estranhos, aguardando visitas que raramente vêm.

No começo, os filhos aparecem. Depois, espaçam as visitas. Por fim, desaparecem. O telefone quase nunca toca. Em certos lugares, nem sequer é permitido.

O tempo passa a ser medido não pelos dias, mas pelas ausências.

Nos corredores de muitos abrigos, repetem-se histórias parecidas. Velhos que passam horas olhando portas que não se abrem. Esperando alguém que prometeu voltar no domingo passado. Alguns contam os dias pela frequência das visitas. Outros simplesmente param de esperar.

Há instituições sérias e dedicadas, é verdade. Mas também existem lugares onde a velhice é tratada com frieza mecânica: cuidadores sobrecarregados. Banhos apressados. Remédios distribuídos como numa linha de montagem. E, em alguns casos, maus-tratos.

Há ainda um elemento mais cruel nessa história. Em certas famílias, o abandono funciona como uma vingança tardia. Filhos que cresceram ressentidos de um pai severo, distante ou autoritário encontram na velhice daquele homem uma oportunidade silenciosa de ajustar contas.

— Ele nunca foi o pai que eu queria. Agora, pensam alguns, ele pagará por isso.

É uma justiça amarga, construída sobre ressentimentos acumulados ao longo da vida. A velhice transforma-se então em um tribunal sem defesa.

Mas seria injusto afirmar que todos os casos nascem da crueldade. A realidade social também pesa. Muitas famílias simplesmente não conseguem cuidar de seus velhos. Hoje o casal trabalha o dia inteiro. Não há quem fique em casa. As moradias ficaram menores. A renda familiar desabou com a aposentadoria. Nas casas surgiram novos moradores: os netos. Há famílias em que três gerações já disputam o mesmo espaço. Falta tempo. Falta renda. Falta estrutura.

Cuidar de um idoso dependente exige presença permanente, preparo emocional e, muitas vezes, recursos financeiros que simplesmente não existem. Nesses casos, o abrigo não nasce da indiferença, mas do desespero. A longevidade moderna também agravou o problema. Antigamente, as pessoas morriam mais cedo. Muitas partiam na própria casa, cercadas por filhos, netos e vizinhos. A morte era um acontecimento familiar.

Hoje, a medicina prolonga a vida — mas a sociedade ainda não aprendeu a prolongar o cuidado. Vive-se mais. Ama-se menos.

E assim cresce um fenômeno doloroso do nosso tempo: a solidão dos velhos.

O Brasil possui leis que protegem o idoso. O Estatuto do Idoso estabelece que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de garantir dignidade, respeito e convivência familiar.

Mas nenhuma lei do mundo consegue fabricar aquilo que deveria nascer naturalmente nas casas: o amor filial.

O Estado pode fiscalizar instituições. Pode punir negligências. Pode oferecer políticas públicas. Mas não pode obrigar um filho a amar o pai. Não pode fabricar carinho. A civilização sempre foi medida por um critério simples: como tratar suas crianças e seus velhos.

Se uma sociedade abandona aqueles que lhe deram origem, algo profundo está se quebrando em sua estrutura moral. O mais inquietante é que esse processo costuma seguir quase um algoritmo silencioso.

Primeiro vem a impaciência. Depois, a distância emocional. Em seguida, a decisão prática. Por fim, o abandono socialmente justificado. E assim o ciclo se conclui.

Os velhos, que um dia foram o centro da família, terminam a vida como hóspedes da própria história.

Mais do que políticas públicas, precisamos recuperar uma ética da gratidão. Porque toda família é uma corrente. Os velhos de hoje foram os jovens de ontem. E os jovens de hoje serão os velhos de amanhã.

Alguns perguntam, diante de tanto sofrimento, se a morte não seria, em certos casos, um alívio. Talvez seja. Para quem acredita na vida espiritual, a morte não é o fim, mas a passagem para outra etapa da existência. A dor termina. A jornada continua.

Mas, enquanto a vida permanece aqui, a velhice não deveria ser um castigo. Deveria ser o tempo da colheita. O tempo da gratidão. Porque existe uma lei antiga — conhecida pelos filósofos, pelas religiões e pela própria experiência humana: A lei da causa e efeito.

A vida costuma devolver, mais cedo ou mais tarde, exatamente aquilo que um dia praticamos. Quem hoje abandona, amanhã poderá ser abandonado. Quem hoje cuida, talvez um dia também seja cuidado. E talvez seja essa a verdadeira pergunta que cada geração deveria fazer a si mesma:

Como queremos ser tratados quando chegar a nossa vez de envelhecer?

Fortaleza, 02 de março de 2026

José Nilton Fernandes

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

 “CÃO DE BRIGA” - José Nilton Mariano Saraiva

O “click” do destravamento da estranha coleira mecânica (e sua posterior remoção do pescoço) representava a senha para que aquele aparentemente tímido e frágil ser humano se transmutasse numa fera ensandecida, capaz de aniquilar quem encontrasse à frente.

 

Na verdade, desde a meninice o pacato e “desligado” Danny (Jet Li) que experimentara precocemente a orfandade, fora exaustivamente treinado e programado (por um suposto “tio”) com um objetivo específico: nas arenas da vida, tornar-se uma potente arma de guerra, autentico matador profissional, capaz de trucidar o adversário em segundos, em troca de algum dinheiro. Ao final de cada combate, dinheiro no bolso do “empresário” e o retorno à jaula que lhe servia de moradia, à comida racionada e às humilhações de sempre. Um cachorro vadio e desprezível, na completa acepção do termo. 

Mas quando, em razão de um grave acidente (e a presumível morte do seu “tutor-tio”), o “encoleirado” Danny se vê sozinho no mundo, perambulando sem rumo pelas ruas, repentinamente é atraído pelo som de um piano; e aí ele conhece Sam (Morgan Freeman) que, apesar de cego, é um exímio afinador do instrumento. 

Desprovido da visão, mas dono de uma apurada acuidade extra-sensorial, Sam detectara a presença de Danny no ambiente, estimulara-o a aproximar-se, pedira sua ajuda no manuseio de algumas teclas do piano e, ao final da conversa que fizera questão de provocar, convencido de que tratava de alguém de boa índole (mas sozinho no mundo, sem eira e nem beira), convidara-o para ir morar em sua casa. Lá, o encontro com Victória, enteada de Sam, aluna concludente de um dos mais respeitáveis conservatórios de música (piano) dos Estados Unidos.

Pacientemente, os dois deixam que Danny aos poucos se liberte dos seus medos e apreensões, das suas angústias e temores e finde por integrar-se à “nova família”, até porque, segundo ouviria de Sam a posteriori... “as famílias devem permanecer unidas”; e assim, aos poucos, acompanhado por Sam ou Victória, Danny começa a descobrir os prazeres da vida, em coisas e situações aparentemente banais ao mortal-comum: tomar um sorvete e saber que é gelado, ir a um supermercado, detectar quando uma fruta se acha madura e, até, que um beijo na face, lhe dado por Victória em forma de saudação, é “molhado” e “gostoso”. Definitivamente, aquela era a “sua família”. 

De outra parte, os ensaios de Victória ao piano, em pleno recinto familiar, além de deixá-lo embevecido e extasiado, repentinamente o levam de volta ao passado e, via fragmentos memoriais, imagens começam a “pintar no pedaço”.  E aí ele obtém a resposta do “porque” da sua atração pelo piano: sua mãe fora pianista. Ajudado por Sam e Victória (através de um “retrato” que guardara e pesquisas posteriores), descobre não só a identidade materna, mas que fora uma pianista consagrada e famosa. 

Nisso, numa prosaica visita a um supermercado, eis que Danny é reconhecido por um dos comparsas do “tio” (que ele julgara morto e que o transformara num autêntico animal); descobre, então, que o próprio havia sobrevivido ao acidente e se vê “convidado” a comparecer à sua presença, imediatamente (sob a ameaça de que, não o fazendo, descobririam seu endereço e seus atuais protetores sofreriam as consequências). 

Volta, é obrigado a recolocar a coleira e, mesmo afirmando não mais querer matar ninguém, é jogado numa arena onde cinco profissionais, usando instrumentos contundentes, começam um autêntico “massacre”; por instinto de sobrevivência, a “fera” ressurge em todo o seu esplendor e letalidade, e assim Danny acaba com todos eles. Foge e, ferido, arquejante e cambaleante procura o abrigo de Sam e Victória, até porque... “as famílias devem permanecer unidas”. 

Surpreso, descobre que os velhos amigos (o “tio” à frente), já haviam descoberto seu “esconderijo” e, agora, subiam os lances de escada dispostos a trucidar com todos eles. Após colocar Sam e Victória num local presumivelmente seguro, dá-se a última batalha: um a um os comparsas são abatidos, impiedosamente, só restando o “tio”; já caído ao chão após uma luta sangrenta, incitando-o a que ele (Danny) mostre ser o que realmente é - “só um assassino” – provoca-o mais ainda ao afirmar que sua mãe fora uma prostituta que lhe servira sexualmente em ocasiões diversas; e aí, em feedback Danny revive a cena em que o “tio” matara sua mãe, à queima roupa, com um tiro na cabeça. 

Ainda assim, naquele momento crucial, o humano se sobressai, a fera sucumbe e Danny terminantemente se recusa a assassiná-lo; não, ele não é “aquilo”. Pressentindo o perigo, Sam sai do esconderijo e acaba com o marginal, ao acertá-lo com um vaso de plantas, na cabeça. 

Cena final: no conservatório, ao receber seu diploma de melhor pianista da turma de concludentes, Victória, ao ser convidada pra mostrar suas habilidades, toma do microfone e anuncia que a música a ser executada é dedicada a alguém muito especial, que se encontra na plateia; alguém cuja vida transformou-se quando encontrou a música. 

Um filmão !!!

Haja coração.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

 REMINISCÊNCIAS... ANTOLÓGICAS - José Nilton Mariano Saraiva 

Localizada ao oeste do Rio Grande do Norte, quase que fronteiriça com o estado do Ceará, Pau dos Ferros era (à época), uma dessas agradabilíssimas minúsculas cidades interioranas (já mudou bastante e hoje é uma cidade mais desenvolvida que o Crato, por exemplo), em razão, principalmente, da índole receptiva do seu povo e de um detalhe não tão comum em cidades do interior: a beleza brejeira e ao mesmo tempo esfuziante das suas mulheres e o extremo bom gosto e requinte com que se vestiam (até parece que os internacionais estilistas de moda, antes de lançarem suas famosas coleções em Paris, Roma ou Milão, faziam de Pau dos Ferros uma espécie de laboratório experimental às suas criações; como luxavam aquelas jovens e belas mulheres pauferrenses). 

Vivenciamos tudo isso em meados da década de 70, quando, atendendo convite de um colega que já conhecia nossa capacidade de trabalho e que houvera sido nomeado gerente da agência do BNB (então a única agência bancária da cidade), para lá nos deslocamos a fim de cumprir uma “adição” de 90 dias; e, embora realmente o trabalho fosse muito (a ponto de cumprirmos expediente de 10 a 12 horas por dia), a “diária” que recebíamos compensava plenamente, além do que havia uma espécie de “irmandade” entre os que compunham a equipe beenebeana e a população da cidade. 

Ao final da jornada de trabalho diário, a parada obrigatória era a “Sorveteria do Sales” (próspero comerciante local, que vendia inclusive sorvetes), onde sorvíamos uma geladérrima, ao tempo em que as paqueras se sucediam, furtivas ou abertamente; os fins-de-semana, então, eram, literalmente, uma festa: num deles, por exemplo, tínhamos a escolha da “Miss Olhos” (obviamente uma disputa entre aquelas que tinha os “olhos” mais bonitos); na outra semana, a escolha do casal que melhor dançava; na outra, a escolha daquela que melhor desfilava e por aí vai; enfim, momentos eminentemente interioranos. O certo é que a “coisa” era tão legal e gostosa que, não mais que de repente, o tempo voou, os 90 dias exauriram-se e tivemos que voltar para Fortaleza (bem que houve uma tentativa de prorrogação, mas não colou). 

Antes da volta, entretanto, foi firmado um compromisso, uma profissão de fé, um autêntico pacto de boêmios: sempre que houvesse uma festa que compensasse, seríamos acionados, tempestivamente. E assim, todos nós (mesmo os casados), que por lá passamos na condição de “adidos” (uns oito colegas, não necessariamente no mesmo período), findamos por voltar, várias vezes. 

Os ônibus que faziam o percurso até Pau dos Ferros eram os famosos “pinga-pinga”, que, além de desconfortáveis, eram desprovidos de banheiro. Pois foi numa dessas viagens que “a porca torceu o rabo”: já saímos da rodoviária de Fortaleza um tanto quanto “melados” (muita “birita” – vejam só que desculpa - pra puder ter coragem de enfrentar a buraqueira, já que parte da estrada era de piçarra). 

Na chegada a Pau dos Ferros, cedo da manhã, os notívagos “recepcionistas” (colegas do Banco) já estavam a nos esperar com um “churrasquinho no ponto e aquela cervejota geladinha” (é que a “parada do ônibus” ficava estrategicamente localizada frente a um bar, que aos finais de semana funcionava 24 horas por dia). Os trabalhos se iniciavam ali mesmo, sem nem escovar os dentes. De lá e durante todo o dia de sábado, os reencontros, na Sorveteria do Sales, na Churrascaria do Anísio e no meio da rua, com aquelas mulheres fabulosas. 

À noite, após uma passada na “república” (a fim de tomar um banho, mudar de roupa, passar uma “brilhantina” no cabelo e colocar o perfume “Lancaster”), festa no único clube da cidade, que se prolongava até o sol raiar; depois do famoso “caldo de misericórdia”, servido num posto de gasolina, todo mundo se mandava pra “barragem” (na verdade, o açude que abastecia a cidade e onde existia uma “palhoça” que servia o melhor “tucunaré” do mundo); e tome “mé” (aí já na base do famoso “cuba-libre” – mistura de Ron Montila e Coca-Cola). 

Naquela tarde de domingo, Rivelino, famoso jogador que houvera se destacado no Corinthians, faria sua estreia (no Maracanã), pelo time do Fluminense, jogando contra o ...Corinthians. Mesmo diante de uma televisão preto-e-branco com uma imagem sofrível, na sala da casa do prefeito da cidade formamos uma grande torcida do Fluminense (pra agradar o homem). E tome Ron Montila com Coca, com exóticos tira-gosto: panelada, buchada, tucunaré, o escambau.  O certo é que o tempo, de novo, voou, e de repente chegou a hora do retorno. 

Já chegamos na “parada do ônibus” mais pra lá do que pra cá, puto de raiva por ter que voltar e lá encontramos a colega do BNB Julieta (que também houvera ido passar o fim de semana). Sentamos na poltrona (?) e...apagamos. 

Lá pras tantas, após uma parada abrupta do coletivo a fim de desembarcar algumas pessoas que moravam na zona rural ao lado da estrada, ressuscitamos e, pior, com uma vontade ou necessidade imperiosa, miserável mesmo de “descarregar”, “arriar a massa” (e o ônibus não tinha o famoso toylette). Falamos com o motorista e o trocador (existia um, sim, encarregado de recolher o dinheiro das passagens) e eles sugeriram que descêssemos o barranco e fizéssemos o “serviço”, enquanto eles procuravam e entregavam a bagagem do pessoal. E só deu tempo mesmo descer o barranco às pressas, arriar as calças e ... tome merda, muita merda, merda em profusão, em pleno estado líquido e em “chicotadas” brabíssimas, monumentais (o Ron Montila e os tira-gostos finalmente cobravam seu preço). 

Até hoje não conseguimos lembrar é se nos deixamos absorver pelo esplendor da lua cheia no céu (em pleno meio da caatinga) ou se, simplesmente, dormimos de cócoras; o certo é que, de repente, conseguimos “captar” a zoada de um carro acelerando; ao olhar, desesperado, pra cima, rumo à estrada, divisamos o ônibus se afastando, lentamente; não houve tempo para raciocinar: num átimo, nos despojamos da bermuda e da cueca, pegamos essa última e passamos de forma apressada no traseiro, a jogamos fora, vestimos novamente a bermuda e subimos a ribanceira feito um louco. 

Contando com a solidariedade do pessoal que havia descido (umas oito pessoas) que se puseram a urrar em plena três horas da manhã, o ônibus parou mais à frente; resfolegando, suando em bicas por todos os poros, a língua pra fora e extensa como se fosse uma gravata, alcançamo-lo e, evidentemente, reclamamos do motorista e cobrador; eles alegaram que haviam “esquecido” e pediram desculpas. Quando sentamos na poltrona (?), uma réstia da luz da Lua nos permitiu observar que Julieta (ainda dormindo) imediatamente virou o rosto para o outro lado. Deixamos pra lá. Sentamos e... apagamos (de novo). 

Oito horas da manhã, rodoviária de Fortaleza. A muito custo e após nos sacolejar bastante, a dupla caipira (motorista e cobrador), consegue finalmente nos “trazer de volta”. De mau humor, com um terrível gosto de “cabo-de-guarda-chuva” na boca, doido pra chegar em casa, não ligamos para a cara feia dos dois, pegamos nossa sacola que estava na parte de cima e saímos. 

E foi aí, ao tentar nos despedir da colega Julieta, que vimos a “merda” (literalmente) que tínhamos armado: é que ela (e demais passageiros), não só se recusava a aceitar o nosso cumprimento, como, também, olhava(m) fixamente para nossa mão estendida; já com um certo receio, um pressentimento estranho a nos percorrer a espinha, acompanhamos o seu mortífero olhar e, só então, entendemos a dimensão da coisa: não só nossa mão, mas partes do antebraço, coalhadas estavam de merda, em transição do estado líquido para sólido. É que, ao passarmos a cueca apressadamente no traseiro, ela não dera conta do recado e o “produto” (merda) havia vazado, em profusão, para a mão e adjacências. 

Imagine o que é ter vontade de morrer, sumir, meter-se em algum buraco, sumir do mapa, ir parar na China, no outro lado do planeta. Uma tragédia. Pra completar, quando tentamos dá um passo à frente, sentimos, aí sim, a bermuda um tanto quanto apertada, muito presa ao corpo, obstando estranhamente nossa locomoção; é que ela simplesmente houvera “pregado” na bunda, tal a quantidade de merda e a extensão da área em que se propagara. 

Resultado ??? A vergonha foi tão grande que ficamos “baratinados”, perdemos a noção do tempo, espaço e do ridículo, e sequer conseguimos atinar que na Rodoviária tinha um banheiro onde poderíamos fazer uma “meia-sola” (mini-banho). E assim, como nenhum taxista compreensivelmente nos aceitou como passageiro, tivemos que fazer o percurso do Bairro de Fátima até o apartamento, no Centro da cidade, no pé-dois, sol a pino, cantando amor febril e sob os olhares desdenhosos dos transeuntes, que cortavam caminho, tratavam de passar por longe daquele “lixo-humano” a se debater com um exército de moscas, muitas moscas, a prossegui-lo insistentemente. É que a fedentina era tão grande, o odor à nossa volta tão insuportável, até para a mais das insensíveis narinas, que poderíamos e merecíamos ser cognominados como uma “fossa ambulante”. 

Quanto à colega Julieta, passou um certo tempo amuada, cabreira, sem querer papo nenhum, intrigada mesmo; hoje, casada, mãe de filhos, reside em Mossoró e nas suas raras incursões à cidade de Fortaleza, nas vezes em que a encontramos, nos saúda efusiva e festivamente, embora um tanto quanto diferente, esquisito até: “Diga lá... seu cagão”. E haja risadas. 

Coisas da vida...