por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sábado, 26 de setembro de 2026

 

KASSIO NUNES NO TSE É INSUSTENTÁVEL

A ascensão do bolsonarismo fez o país se acostumar com as aberrações na política. Não que antes fossem inexistentes, mas é que esse extremismo fuleiro que sequestrou a direita brasileira levou a coisa para um outro patamar. Os absurdos são tão grandes e numerosos, que o país vai se anestesiando e muita coisa importante vai passando batido. 

 

Faltando uma semana para o primeiro turno, parece que ainda não nos demos conta de que o Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, está sendo presidido por um juiz cercado de suspeitas gravíssimas de corrupção e comprometido com o grupo político que tentou dar um golpe de estado em 2023. 

 

De tudo o que se sabe da promiscuidade entre juízes do Supremo Tribunal Federal e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, Kassio Nunes é o que tem o caso mais grave. Nem Alexandre de Moraes, nem Dias Toffoli, nem André Mendonça apareceram tão enrolados no celular do Vorcaro quanto Kassio Nunes, que era chamado pelo criminoso de “KN”.

Turma do KN

Nesta semana, ficamos sabendo da existência de um contrato de advocacia de R$ 427 milhões entre o Banco Master e a “Turma do KN” — o termo era usado para se referir à patota do Kassio, mais especificamente o desembargador Newton Ramos, do TRF-1, e sua esposa, a advogada Camilla Ramos.


A Polícia Federal suspeita que o objetivo do contrato era o de promover ações de interesse de Daniel Vorcaro nos tribunais superiores. Caso a “Turma do KN” conseguisse destravar R$ 8,5 bi em precatórios, ganharia a bolada de quase meio bilhão prevista em contrato. A suspeita é de um caso de venda de sentenças.

 

O desembargador repassava a uma funcionária do banco Master alguns pedidos para Daniel Vorcaro, como esse: “Ministro Kassio me pediu para ver se vocês conseguem para ele uma tarifa promocional para o Fasano. Só uma diária. Entrando sexta e saindo sábado”.
Vorcaro respondeu prontamente: “pode colocar na minha conta". As suspeitas que rondam KN têm requintes de pornochanchada. Além de diárias em hotel de luxo, as mensagens revelam que o banqueiro
contratou uma prostituta para KN. Os pombinhos teriam se encontrado no apartamento de Fabiano Zettel, que é pastor da Igreja Lagoinha e operador financeiro da quadrilha criminosa de Vorcaro. 

 

Também não nos esqueçamos do filho do ministro, que, em apenas dois anos de carreira como advogado, acumulou R$ 27,7 milhões de patrimônio. Só de Daniel Vorcaro ele recebia R$ 500 mil por mês, como apontam as mensagens trocadas entre o banqueiro e o diretor jurídico do Banco Master. 

 

Tudo ainda está sendo investigado, mas os indícios são fortes o suficiente para que houvesse um clamor popular pelo afastamento de KN do TSE. Enquanto não surge, o ministro vem demonstrando empenho em defender no tribunal o grupo político que lhe deu a toga. 

Comitê eleitoral do candidato bolsonarista

KN tem emplacado uma série de decisões absurdas em favor de Flávio Bolsonaro. No início de junho, o seu ato de estreia na presidência do TSE foi o de proibir uma pesquisa eleitoral da Atlas/Intel a pedido de Flávio Bolsonaro, que aparecia despencando nas intenções de voto. 

 

Ainda antes do início da campanha eleitoral, o senador publicou um vídeo nas redes dizendo que Lula viajou aos EUA como “defensor do PCC e do Comando Vermelho” e que fez “mais pelo crime do que pelo povo brasileiro". Disse ainda ter “Deus” ao seu lado, enquanto Lula teria “o diabo”. A candidatura de Lula entrou com pedido de remoção do vídeo pela grave acusação sem provas, mas KN negou.

Segundo ele, não houve imputação de crime ao presidente da República na fala de Flávio, apenas o uso de linguagem "contundente, hiperbólica e retórica". O caso acabou indo para plenário e, por 5 a 2, os juízes derrubaram a decisão vergonhosa do presidente do tribunal. 

 

Nesta semana, KN atendeu a mais um pedido da candidatura de Flávio e determinou que o presidente Lula tirasse do ar um vídeo em que fala sobre o caso Master. É realmente impressionante ver KN julgando conteúdos eleitorais envolvendo o escândalo protagonizado por Daniel Vorcaro. O juiz suspeito de ter transado com uma prostituta de luxo contratada pelo banqueiro não viu problema em proibir a veiculação de conteúdos negativos para ele. 

 

Uma apuração da Folha revelou que pelo menos cinco  ministros e técnicos do TSE dizem ter identificado um alinhamento de KN com as posições da equipe jurídica de Flávio Bolsonaro. O TSE parece ter virado um comitê eleitoral do candidato bolsonarista. Enquanto a “Turma do KN” é suspeita de blindar Vorcaro nos tribunais, o próprio KN é suspeito de blindar o candidato do banqueiro no TSE.

O candidato do banqueiro

Quando foi julgar Alexandre de Moraes no caso Master, KN se declarou impedido. A justificativa é curiosa. O ministro alegou que não se sente confortável em participar da sessão na posição de presidente do TSE. "Eu entendo que tenho uma missão, e que para mim eu entendo que essa missão é mais importante, que é assegurar o equilíbrio nas eleições de 2026. O TSE tem se mantido equidistante de todos que rondam o processo eleitoral. Eu não tenho dúvida, e os debates vão influir, que esse julgamento pode impactar o processo eleitoral. Então não me sinto confortável de participar desse julgamento. Eu me declaro impedido", disse o ministro. 

 

Ora, ora. KN não se sente confortável em julgar o caso Master no STF, mas não vê problema em julgar o candidato favorito de Daniel Vorcaro no TSE. O descaramento é grande, mas coerente com alguém que foi indicado pelo bolsonarismo. 

 

O escândalo do Master é a principal pauta desta eleição e tem potencial para decidi-la. E o juiz, responsável por determinar como o jogo será jogado, está soterrado sob suspeitas por sua relação pornográfica com Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro.

 

Às vésperas de uma nova eleição, o Brasil tem à frente do seu tribunal eleitoral um nome indicado pelo mesmo grupo político que, na eleição anterior, não aceitou o resultado das urnas e tentou um golpe de Estado. É esse o nível de bizarrice em que se encontra a democracia brasileira. O golpismo segue à espreita e com ainda mais força que na última eleição. Além de Donald Trump, eles contam com as canetadas de KN.

Negando o inegável

Flávio Bolsonaro é um homem acostumado a mentir, tanto que estreou na política com uma mentira. Aos 19 anos, ele recebia um salário da Câmara dos Deputados, em Brasília, mas no mesmo período fazia faculdade de Direito, no Rio de Janeiro. Flávio se lambuzou no funcionalismo fantasma, uma tradição familiar.

 

De lá pra cá, foram muitas as mentiras criadas para acobertar uma série de trambiques. Mas, em 2026, Flávio está batendo seus próprios recordes, especialmente sobre sua relação com Daniel Vorcaro. Segundo um levantamento da agência de checagem Aos Fatos, o bolsonarista contou 43 mentiras sobre Vorcaro 

 

Primeiro, ele disse que “nunca teve contato” com o ex-banqueiro quando o seu contato apareceu na agenda do celular dele. Dois meses depois, quando foi questionado pelo Intercept sobre o financiamento de Vorcaro para o filme “Dark Horse”, negou e gargalhou na cara do repórter. Horas depois, após a publicação da Vaza Flávio, se viu obrigado a confessar que conhecia o banqueiro desde dezembro de 2024. 

 

Mesmo depois de tudo escancarado, ele seguiu se fazendo de inocente e tentando jogar o dono do Master no colo do Lula e do PT. Em julho, ele jurou que nunca havia entrado no avião do Vorcaro: 

"Vocês não vão ver eu [sic] em festinha de Vorcaro, em clubes de whisky de Vorcaro. Vocês não vão me ver viajando para Londres, Estados Unidos, para Paris, para tudo que é lugar. Nunca entrei em avião do Vorcaro". 

No último domingo, quando foi revelado que Alexandre de Moraes voou no avião do banqueiro, Flávio compartilhou a notícia com indignação. Quatro dias depois, veio à tona que o senador viajou dos EUA para o Brasil com a família no mesmíssimo avião. E, como de costume, ele meteu o louco e fingiu que não sabia que Vorcaro era dono do jato. 

O fato é que a PF extraiu do celular do Vorcaro três meses de conversas dele com o senador e identificou pelo menos seis encontros entre os dois. Eles tinham uma relação íntima. Mas Flávio continuará se fazendo de desentendido.

E assim, de golpe em golpe, Flávio vai levando o seu eleitorado na flauta. Ele não teme ser desmascarado pelos fatos. Não sente vergonha de negar o inegável. Mas não estamos falando de alguém com transtorno de mitomania. Flávio mente com método. Mente com agenda. Afinal, estamos falando de alguém que foi criado por Jair Bolsonaro. 

Negando o inegável - parte II

José Medeiros é deputado federal pelo PL, do Mato Grosso, e candidato a senador do estado. Essa não é a primeira vez que ele tenta o Senado. Em 2010, Medeiros virou um senador de um jeito, digamos, pouco republicano. Ele era o segundo suplente da chapa que elegeu Pedro Taques, do PSDB. Quando o tucano saiu para assumir o governo de Mato Grosso, Medeiros fraudou a ata eleitoral e se colocou como primeiro suplente, vaga que era de Paulo Fiúza. Simples assim. O TRE acabou cassando o seu mandato por unanimidade.  

 

Com essas credenciais morais, não se pode esperar muito desse deputado. Mas a fauna bolsonarista sempre consegue nos surpreender. Nesta semana, um áudio vazado de Medeiros revelou exatamente o que políticos bolsonaristas pensam no seu íntimo: “Você sabe que o meu eleitor é aquele eleitor que ora para alienígena e bebe detergente”

 

É realmente fascinante a sinceridade dessa gente no escurinho do Whatsapp. Em público, eles louvam a tradicional família brasileira e seus bons valores. No privado, admitem que o seu eleitorado é formado por idiotas. E ainda tiram um sarro da cara deles. 

 

Após o vazamento do áudio, Medeiros seguiu o script bolsonarista e fez o que todos eles fazem quando são constrangidos com a realidade dos fatos: meteu o louco. 

 

“O áudio foi cortado, tiraram o começo, tiraram o fim e jogaram os pedaços para a imprensa para gerar ódio dentro da nossa própria casa”, afirmou o deputado. Desesperado com a bomba jogada às vésperas da eleição, mandou um recado pros eleitores que se sentiram ofendidos: 

 

“Você está pensando em não votar em mim por causa de piada sem graça, tirada do contexto, e denúncias que não afetam em nada a minha honestidade e a minha honra? Você está caindo justamente na cilada dos meus inimigos”

 

O deputado acusa seus adversários políticos de vazarem o áudio e descontextualizá-lo. Mas ele não fez a mínima questão de explicar qual é o contexto em que a barbaridade foi dita. No fundo, Medeiros sabe que não precisa. Ele tem certeza que o bebedor de detergente e o crente em alienígenas vão engolir esse papinho. 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

 Porco (Dr. Demóstenes Ribeiro)

        Final de tarde, com outros meninos, eu brincava na Rua das Laranjeiras. Era uma rua enlameada, sem calçamento e com casebres de barro batido, quando o carro de luxo parou e ele desceu. Eleazar, subserviente, abriu a porta e gritou: Maria, o doutor chegou!

        Eu mal entrara na adolescência, mas desde o dia anterior, percebia algo diferente. Trocaram o colchão de palha, o meu pai se ausentara, e Luzia, a minha irmã de catorze anos, estava de batom. Minha mãe e Eleazar, disfarçaram os gemidos, conversando alto na calçada. Algum tempo depois, o doutor deixou cinquenta reais no chão, e foi embora.

         Anoiteceu, e Luzia chorava desesperadamente. Completamente embriagado, o meu pai chegou: “Luzia, para com essa bobagem. Agora sabe como ganhar a vida. Não mais passaremos necessidade.”

         O doutor se afastou. Eleazar, conhecido aliciador de meninas, o supria com outras mocinhas, e a vida não era fácil. Sem adolescência ou mocidade, a minha irmã terminou no cabaré da Otília, sofreu toda violência possível e morreu tuberculosa. Foi envolta em uma rede e jogada na cova rasa, mas isso não ficaria assim!

        O meu pai se entregou de vez ao alcoolismo, e a minha mãe segurava a barra fritando e vendendo filhós na calçada do cinema. Beirando os dezoito anos, a minha vida não tinha o menor sentido, era inferno e desejo imenso de vingança até Deus se lembrar de mim. 

         Zé da Matarazzo fazia fretes pra São Paulo, o seu ajudante adoeceu, e ele me convidou pra ajudar no caminhão. Eu tiraria os documentos, e daria certo. Minha mãe ficou contente e, uma semana depois, veio a estrada: Pernambuco, Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, indo, voltando e recomeçando tudo.

        Mas, sem nada a perder, foi mais fácil do que eu pensava. Arranjei um emprego no Brás e fiquei em São Paulo. Estudava à noite, me alfabetizei, sentei praça na Força Pública e virei policial. PM muitos anos, até chegar à reserva.

        Trinta anos depois, decidi: é agora! Cheguei cabeludo, barbudo, de bigode e com documentos falsos. Ninguém me reconheceu. Aluguei um carro potente - paguei em espécie, antecipadamente, e pesquisei a rotina do doutor.

         Já noitinha, a atendente saiu e ele ficou. Subitamente, entrei no consultório: “É uma consulta urgente!” Muito depressa fui em sua direção. Foi bonito: ele estava de branco e a doze polegadas lhe atingiu o pescoço; o sangue esguichando no teto, tudo ficando vermelho, e ele caindo como os bacurins que o meu pai matava.

         Rua deserta, fechei a porta por fora e entrei no carro. Joguei fora as luvas e saí a toda velocidade. Da madrugada, já estava em Salgueiro. Numa pensão barata, descansei um pouco, tirei a barba, o bigode, e fui em frente. Em Petrolina, cortei o cabelo bem curto, dormi um pouco e me mandei pra Salvador. No aeroporto, me desfiz dos documentos falsos, abandonei o carro e embarquei pra São Paulo.

         No dia seguinte, a vizinha perguntou: Seu Zé Maria, estava viajando? Respondi, minha Santa, eu fui pagar uma promessa!

         E desde então, nunca me senti tão feliz!