Senhores,
O aracatiense José Nílton Fernandes foi, durante
décadas, um competente, profícuo e honesto funcionário do Banco do Nordeste do
Brasil (BNB). Tanto, que chegou a ocupar, por mérito, cargos de relevo dentro
da instituição, mercê da dedicação à própria.
Mas, como não era “jeitoso”, como não era
“subserviente”, como não era “puxa-saco”, findou por ser “sacaneado” por
pessoas que detinham exatamente tais “virtudes” (?) a fim de conseguirem algum
cargo de chefia, alguma posição de maior relevância (e fomos testemunha disso).
Assim, quase que obrigado (ou compulsoriamente), Zé
Nilton (como seus amigos o conhecem) foi sumariamente destituído da função de
Gerente da Agência Centro do BNB, em Fortaleza-CE, que exercia com competência
e altivez, além de ameaçado de ser transferido para uma agência interiorana
qualquer, não necessariamente no Ceará, onde já há anos a família era radicada;
e o motivo foi, exatamente, o discordar de conceitos politico-ideológicos
antagônicos, professados por pessoas desqualificadas, mas ocupantes, não por
merecimento, de funções hierarquicamente superiores (tempos do malfadado e
desonesto Byron Queiroz).
Mas, como “dignidade” é algo que deve ser
preservada a qualquer custo por pessoas sérias e honestas, só lhe restou,
então, o caminho da aposentadoria antecipada, mesmo que financeiramente
prejudicial.
Se o setor bancário perdeu uma figura mui
competente, surgiu para Zé Nílton a oportunidade de embarcar na exigente e sutil
“arte literária”, qual seja, o alinhavar com desmedida competência, textos
antológicos, versando sobre uma miscelânea de assuntos (vários livros de sua
autoria foram publicados).
A destacar, o fato da sua querida Aracati revelar-nos um memorialista de
escol, num relembrar de figuras ilustres ou não, da cidade; mas, sobre qualquer
assunto Zé Nílton discorre com imensa capacidade e precisão cirúrgica.
O exemplo pode ser visto abaixo, quando trata sobre
“O EXILIO DOS VELHOS”. Confiram, por favor.
José Nílton MARIANO Saraiva
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O EXÍLIO DOS VELHOS – José Nílton Fernandes
Há uma tragédia silenciosa acontecendo dentro de
muitas famílias brasileiras. Ela não explode nos jornais, não provoca protestos
nas ruas e raramente desperta indignação coletiva. Ainda assim, corrói lares,
rompe vínculos e revela uma das faces mais duras da natureza humana: o abandono
dos velhos.
Durante décadas, esses homens e mulheres
trabalharam, criaram filhos, sustentaram casas, pagaram contas, enfrentaram
doenças, crises econômicas e privações. Foram pais, mães, conselheiros e
provedores. Carregaram nas costas o peso da sobrevivência da família e da
educação dos filhos.
Mas chega o tempo da velhice. E chega rápido. De
repente, aquele homem que sustentava a casa começa a andar devagar demais.
Aquela mulher que resolvia tudo passa a esquecer coisas simples.
O velho fala demais. Conta histórias que ninguém
quer ouvir. Pergunta o óbvio. Repete frases. Enche o saco, dizem alguns. Já não
se veste sozinho. Já não toma banho sozinho. Às vezes, perde o controle do
corpo, fica fedorento, seboso.
A dependência, que deveria despertar compaixão,
muitas vezes provoca irritação. E assim começa um processo silencioso de
desumanização.
Aquele que um dia foi o centro da família passa a
ser visto como um problema doméstico. Uma presença incômoda. Uma mobília antiga
que ocupa espaço que agora deveria servir aos jovens.
Então surge a solução prática, fria e aparentemente
civilizada: — “Vamos colocá-lo num abrigo. Lá ele será bem cuidado.”
A frase é curta. Mas o efeito é cruel.
Quase sempre essa escolha não nasce do amor, mas da
conveniência. É a forma socialmente aceitável de dizer: — Não queremos mais
lidar com ele.
Em muitos casos, o próprio idoso sequer é
consultado.
De uma hora para outra, ele é retirado da casa onde
viveu décadas. Das fotografias nas paredes. Da cadeira onde costumava sentar.
Dos móveis que comprou com o suor do próprio rosto. É arrancado de sua rotina,
de suas lembranças e de sua história.
O que chamam de abrigo, para muitos, transforma-se
em um exílio. Às vezes, um exílio elegante. Às vezes, um exílio triste. Para
alguns, um matadouro lento. Ali passam a viver entre estranhos, aguardando
visitas que raramente vêm.
No começo, os filhos aparecem. Depois, espaçam as
visitas. Por fim, desaparecem. O telefone quase nunca toca. Em certos lugares,
nem sequer é permitido.
O tempo passa a ser medido não pelos dias, mas
pelas ausências.
Nos corredores de muitos abrigos, repetem-se
histórias parecidas. Velhos que passam horas olhando portas que não se abrem.
Esperando alguém que prometeu voltar no domingo passado. Alguns contam os dias
pela frequência das visitas. Outros simplesmente param de esperar.
Há instituições sérias e dedicadas, é verdade. Mas
também existem lugares onde a velhice é tratada com frieza mecânica: cuidadores
sobrecarregados. Banhos apressados. Remédios distribuídos como numa linha de
montagem. E, em alguns casos, maus-tratos.
Há ainda um elemento mais cruel nessa história. Em
certas famílias, o abandono funciona como uma vingança tardia. Filhos que
cresceram ressentidos de um pai severo, distante ou autoritário encontram na
velhice daquele homem uma oportunidade silenciosa de ajustar contas.
— Ele nunca foi o pai que eu queria. Agora, pensam alguns,
ele pagará por isso.
É uma justiça amarga, construída sobre
ressentimentos acumulados ao longo da vida. A velhice transforma-se então em um
tribunal sem defesa.
Mas seria injusto afirmar que todos os casos nascem
da crueldade. A realidade social também pesa. Muitas famílias simplesmente não
conseguem cuidar de seus velhos. Hoje o casal trabalha o dia inteiro. Não há
quem fique em casa. As moradias ficaram menores. A renda familiar desabou com a
aposentadoria. Nas casas surgiram novos moradores: os netos. Há famílias em que
três gerações já disputam o mesmo espaço. Falta tempo. Falta renda. Falta
estrutura.
Cuidar de um idoso dependente exige presença
permanente, preparo emocional e, muitas vezes, recursos financeiros que
simplesmente não existem. Nesses casos, o abrigo não nasce da indiferença, mas
do desespero. A longevidade moderna também agravou o problema. Antigamente, as
pessoas morriam mais cedo. Muitas partiam na própria casa, cercadas por filhos,
netos e vizinhos. A morte era um acontecimento familiar.
Hoje, a medicina prolonga a vida — mas a sociedade
ainda não aprendeu a prolongar o cuidado. Vive-se mais. Ama-se menos.
E assim cresce um fenômeno doloroso do nosso tempo:
a solidão dos velhos.
O Brasil possui leis que protegem o idoso. O Estatuto
do Idoso estabelece que a família, a sociedade e o Estado têm o dever de
garantir dignidade, respeito e convivência familiar.
Mas nenhuma lei do mundo consegue fabricar aquilo
que deveria nascer naturalmente nas casas: o amor filial.
O Estado pode fiscalizar instituições. Pode punir
negligências. Pode oferecer políticas públicas. Mas não pode obrigar um filho a
amar o pai. Não pode fabricar carinho. A civilização sempre foi medida por um
critério simples: como tratar suas crianças e seus velhos.
Se uma sociedade abandona aqueles que lhe deram
origem, algo profundo está se quebrando em sua estrutura moral. O mais
inquietante é que esse processo costuma seguir quase um algoritmo silencioso.
Primeiro vem a impaciência. Depois, a distância
emocional. Em seguida, a decisão prática. Por fim, o abandono socialmente
justificado. E assim o ciclo se conclui.
Os velhos, que um dia foram o centro da família,
terminam a vida como hóspedes da própria história.
Mais do que políticas públicas, precisamos
recuperar uma ética da gratidão. Porque toda família é uma corrente. Os velhos
de hoje foram os jovens de ontem. E os jovens de hoje serão os velhos de
amanhã.
Alguns perguntam, diante de tanto sofrimento, se a
morte não seria, em certos casos, um alívio. Talvez seja. Para quem acredita na
vida espiritual, a morte não é o fim, mas a passagem para outra etapa da
existência. A dor termina. A jornada continua.
Mas, enquanto a vida permanece aqui, a velhice não
deveria ser um castigo. Deveria ser o tempo da colheita. O tempo da gratidão.
Porque existe uma lei antiga — conhecida pelos filósofos, pelas religiões e
pela própria experiência humana: A lei da causa e efeito.
A vida costuma devolver, mais cedo ou mais tarde,
exatamente aquilo que um dia praticamos. Quem hoje abandona, amanhã poderá ser
abandonado. Quem hoje cuida, talvez um dia também seja cuidado. E talvez seja
essa a verdadeira pergunta que cada geração deveria fazer a si mesma:
Como queremos ser tratados quando chegar a nossa
vez de envelhecer?
Fortaleza, 02 de março de 2026
José Nilton Fernandes
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