por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O Ventre Fértil da Coisa Imunda

 


Todos Vocês, atenção !

Melhor aprenderem a ver, em vez de apenas
Arregalar os olhos, e a agir, em vez de somente falar.
Uma coisa dessas quase chegou a governar o mundo!
Os povos conseguiram dominá-la, mas ainda
É muito cedo para sair cantando vitória:
O ventre que gerou a coisa imunda continua fértil!

                                                                           Bertolt Brecht

 

 

                        Um dos maiores mistérios do Século XX era a incógnita de como o Nazismo conseguiu prosperar na Alemanha ,  a partir dos anos 30. Isso com o apoio maciço da população e (pasmem!) com a chancela quase que total da intelectualidade alemã, pátria mãe da Filosofia moderna. Como foi possível tamanha barbárie: uma Guerra Mundial que ceifou mais de 80 milhões de vidas, o Holocausto que chacinou mais de seis milhões de judeus, além de ciganos, homossexuais e deficientes. Oitenta anos depois, vivemos essa realidade em parte do mundo desenvolvido, subdesenvolvido  e aqui nas nossas barbas tupiniquins.

                        Há pouco, seguindo um tsunami alarmante que varre o mundo, a Cadela do Fascismo volta de novo a entrar no cio. Vivemos no Brasil o gosto amargo desse viés fascistóide no governo Bolsonaro (2019-2023), quando mais de 700.000 brasileiros perderam a vida por conta de um irracional negacionismo . Logo depois, uma ameaça de golpe militar, que por pouco não aconteceu pela simples razão de parte das Forças Armadas não terem aderido aos porra-loucas. Junto do futuro projeto ditatorial, além do fechamento do congresso e do STF, vinha a sobremesa canibalesca: o assassinato do presidente Lula, do vice Alckmin e do Ministro Alexandre de Morais.  Nestes dias, o país viveu uma ameaça semelhante, depois de todas as agruras por que passou, correndo o sério risco de ver projetado o mesmo filme de terror, agora sob a égide do filho do Belzebu soluçante.

                                    O Brasil , num despertar súbito e inesperado, tomou as ruas com jovens novamente ativos e atuantes e idosos com fortes lembranças dos tempos de chumbo e, numa guinada linda e inesperada, fez com que valessem novamente o juízo e o equilíbrio. O mal foi afastado da presidência e da nossa convivência após uma fuga de ratazana doida, correndo para os braços do fascista mor: Donald Trump. Poucas vezes os ares do Brasil ficaram tão respiráveis, a esperança voltou a reluzir, metabolizamos o curare que nos vinha sendo injetado, pouco a pouco, nos últimos dez anos.

                                    No  meio da festa, no entanto, paira-nos uma sombra que não se desanuvia. Como quase sessenta milhões de brasileiros saíram de suas casas para votar num projeto declaradamente ditatorial e fascista? Conseguiram ampla maioria no Senado e na Câmara de Deputados. Evangélicos trocaram as bíblias por reluzentes armas de fogo com um novo princípio bíblico: “Armai-vos uns aos Outros” ; segmentos católicos sonharam o mesmo sonho. As propostas de campanha eram claras e inequívocas:  Fazer o Impeachment  de Ministros do STF não alinhados; militarizar as Escolas públicas; cortar verbas da Educação e da Saúde; dar licença livre para torturar e matar às polícias; cortar verbas de aposentadorias; perseguir estudantes e universidades sob a justificativa que são um antro de maconheiros e esquerdistas; cortar verbas para programas sociais de combate à pobreza e à fome; entregar as poucas riquezas minerais que nos restam aos EUA; entregar o país, de bandeja, ao Trump sob a justificativa de combater o terrorismo, disfarçado de Crime Organizado e de Tráfico; combater as campanhas de vacina; transformar o governo num Evangelistão e, principalmente, modificar a Constituição para ampliar o tempo de governo da Extrema Direita no Brasil. A receita fascista não era nada diferente  de Mussolini. Logo viriam a censura; a perseguição; prisão e eliminação de adversários políticos; o desmonte da Cultura e da Ciência; o fechamento de universidades e da Câmara e Senado, se necessário; a queima de livros e, logo a seguir, dos seus autores. O mais preocupante é justamente isso: 60 milhões de brasileiros escolheram esse remédio, sem nenhum pudor.

                        O filhote de Ditador se escafedeu com medo de responder aos processos que mancham sua Folha Corrida que tem cara de fossa séptica. Seus eleitores todos festejaram e defenderam a fuga. De lá de muito longe, sob as asas luciféricas de Trump, ele se autodenominou presidente e falou num fraude de uma eleição comandada por um juiz aliado seu no STF e que proclamou o processo eleitoral como limpo, justo e inquestionável. Quatro milhões de votos  de distância para Lula. Aqui muitos de seus seguidores começaram a perseguir os que optaram pela lucidez: prometem demitir funcionários não alinhados, perseguir empresas que tiveram juízo no pleito e alimentar preconceitos mil: contra gays, nordestinos, pobres, negros...

                        Conseguimos salvar o paciente que estava prestes a ser submetido ao tratamento derradeiro: uma distanásia. O doente cria um novo alento para os próximos dias, mas não devemos esquecer que o ventre que gerou a coisa imunda continua fértil, ninfomaníaco e no cio. Como na pandemia, o mundo e o Brasil continuam severamente  adoecidos.

 

Crato, 29/10/26

 

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