por José do Vale Pinheiro Feitosa
Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.
José do Vale P Feitosa
domingo, 7 de abril de 2013
sábado, 6 de abril de 2013
Previsível - José Nilton Mariano Saraiva
Depois do giro fracassado pela Europa, onde foi derrotada pela
Inglaterra (2x1) e empatou (com dificuldade) com a Itália (2x2) e Rússia (1x1),
dentro de alguns minutos a seleção do Felipão deverá obter sua primeira
vitória, e de forma convincente.
E o tal do Neymar deverá deitar e rolar, casar
e batizar pra cima dos esforçados jogadores da seleção boliviana, de forma que
as manchetes dos principais jornais do começo da semana o elevarão às alturas,
destacando que apesar da altitude o “craque” comandou o Brasil numa vitória
espetacular. Não se trata de palpite, mas algo bastante previsível (se não ganhar da Bolívia, ganhará de quem ???).
A reflexão acima é só pra lembrar que, no tempo do Botafogo de Garrincha
e do Santos de Pelé, nossa turma ia lá e enfiava extravagantes goleadas nos
adversários e nunca ninguém falou nessa tal de altitude.
É por essas e outras que o futebol nos dias atuais se acha tão
desgastado e sem credibilidade.
sexta-feira, 5 de abril de 2013
Por que não, D. Lúcia ?
Há uma grande polêmica no Brasil , atualmente, perceptível na
TV, nas ruas, nas Redes Sociais. Envolve o Deputado Federal, por São Paulo,
Marco Feliciano, do Partido Socialista
Cristão. Ele sempre foi combatido por posições retrógradas e eivadas de
preconceito, no que tange a assuntos
religiosos e morais. Vejamos, caros leitores,
algumas de suas pérolas, mesmo sob o risco de náuseas e de
engulhos: “A AIDS é o Câncer Gay !”; “A
podridão dos sentimentos homoafetivos , leva ao ódio, ao crime, à rejeição”
. Se o leitor ainda não vomitou, vão mais algumas para teste : “Os africanos descendem de um ancestral
amaldiçoado por Noé, isso é fato !” ;
“Depois da União Civil virá a adoção de crianças por parceiros Gays, a extinção
das palavras Pai e Mãe, a destruição da família “. Todas estas citações,
públicas, estão untadas de racismo e homofobia, inexplicáveis nos dias de hoje,
passíveis de pena nos tribunais , impensáveis de serem citadas por um louco
qualquer, muito menos por um representante do povo. Poderiam ter sido arrancadas
do “Mein Kampf” e correm o risco de
horrorizar o próprio Bolsanaro. Não bastasse esta idiotice particular , o
Congresso Nacional ( que tem dado seguidas demonstrações de incongruência e
fragilidade ) uniu-se à insanidade do seu membro e elegeu-o ( loucura das loucuras) : Presidente
da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara . Compara-se a eleger
Hitler como juiz no julgamento de Nuremberg. As minorias que se encontram em invejável nível de
organização nestes últimos dez anos, reagiram, como se deveria esperar, foram às ruas, invadiram reuniões da
Comissão e estabeleceu-se um impasse ainda sem solução no momento. Feliciano,
que é pastor evangélico, teve , de
início, apoio do segmento que o representa, mas –pouco a pouco – o desgaste
começa a corroer suas estruturas de sustentação. As críticas inicialmente
endereçadas a ele se espraiam para suas hostes religiosas e o incômodo passou a
ser nítido no setor evangélico. Feliciano resiste, mas não tem como se segurar
, a queda é previsível e dá-se como favas contadas.
Semana
passada, seguindo seu apostolado de insensatez, Feliciano confrontou , em Minas Gerais, um
protesto contra ele, com outra citação bombástica : "Essa manifestação toda se dá porque, pela primeira vez na
história desse Brasil, um pastor cheio de Espírito Santo conquistou o espaço
que até ontem era dominado por Satanás". O mal estar, desta vez, invadiu sua praia, havia vários
deputados de gestões anteriores e do setor evangélico na Comissão, e eles os
acusou de sócios de Belzebu. Desculpou-se , depois, dizendo que citara Satanás,
não como o Tinhoso, mas na acepção original do hebraico que , segundo ele,
significa “adversário”.
A
questão Feliciano suscita vários questionamentos. Acredito que não devemos ,
simplesmente, jogá-la na vala comum da questão meramente religiosa. O pensamento
dele representa, creio, um segmento expressivo dos evangélicos do Brasil, mas
não de todos. Corre-se o risco de iniciar, mais uma vez, uma Cruzada, sem
separar bem o joio do trigo. Há, a meu ver, duas vertentes interessantes para
se refletir, uma de ordem política e outra ligada à Laicidade do Estado.
Feliciano, amigos, foi eleito como o segundo mais votado em São Paulo. O Brasil
está agora correndo contra o prejuízo causado, mas vem a pergunta inevitável:
Por que elegemos um candidato com esse perfil ? Não teria sido mais fácil tê-lo
filtrado com a malha das urnas ? Faltou-nos amadurecimento político para tanto
ou , simplesmente, o seu pensamento retrógrado representa o de muitos nesse
país, transcendendo, inclusive, as fronteiras meramente religiosas ? Os que o
elegeram presidente da Comissão de Direitos Humanos foram, também, por sua vez,
igualmente eleitos por nós. Escolhemos bem ou será que assinamos um cheque em
branco e entregamos ao estelionatário e, agora, estamos reclamando porque o
saque foi muito alto ? É preciso compreender que fomos nós mesmos , brasileiros
mobilizados e nas ruas, que tentamos , agora, arrancar o microfone do insano,
mas permitimos, por outro lado, a
Feliciano o espaço para difundir suas idéias nazistas.
Fica
cada vez mais clara a importância da laicidade do Estado. A história demonstra
que os maiores crimes da humanidade foram cometidos sempre que se misturou de
forma incestuosa Política & Religião. Esta combinação é sempre explosiva.
Feliciano tem todo o direito de cuspir suas regras e suas sentenças para seus
fiéis, desde que não confronte o Estado de Direito. Cada um cuide do seu
rebanho ! Os Testemunhas de Jeová – com todo respeito que merecem-- têm o
sagrado direito de proibir a transfusão de sangue a seus seguidores , mas não
podem querer , por exemplo, influenciar o Congresso para criar uma lei
proibindo a hemoterapia em todo país. Cada macaco no seu galho ! As questões
atinentes , pois , ao Controle de Natalidade, ao Aborto, à Fertilização in
vitro, à Eutanásia, às Células Tronco, devem ser regulamentadas pelo Estado. Às
igrejas caberá a decisão de permitir ou não a utilização destes métodos( se
acessíveis pelo Estado) por seus fiéis e exclusivamente por eles.
Recentemente,
Feliciano revelou – em outra entrevista bombástica-- que D. Lúcia Maria, sua
mãe, era aborteira e que, ainda menino, “vira fetos serem arrancados, por ela, de dentro de mulheres”. Nem imaginou que , emitindo depois opiniões tão
preconceituosas, estava dando um grande argumento, indireto, a favor do aborto.
D. Lúcia bem que poderia ter procurado uma colega , devem estar pensando
algumas minorias... Em qualquer dos sentidos possíveis, no entanto, Feliciano terminou se tornando o grande Satanás
desse país.
J. Flávio Vieira
A "metamorfose" do Felipão - José Nilton Mariano Saraiva
Numa época em que o
futebol brasileiro andava de “crista baixa” e com perspectiva real de não
participar de uma Copa do Mundo pela primeira vez na história (tal o descalabro
reinante), às pressas convocaram, visando “arrumar a casa”, o treinador Luiz
Felipe Scolari, então brilhando num dos grandes clubes de São Paulo. E aí ele
chegou mostrando ter “luz própria”, objetivos definidos e tal, porquanto, mesmo
sob enorme pressão da torcida brasileira e, especialmente, da crônica esportiva,
não convocou o idolatrado (mas indisciplinado) jogador Romário. Foi um Deus nos
acuda que só cessou quando o time começou a ganhar, findando por se sagrar mais
uma vez campeão do mundo.
Ao tempo em que
resgatou o respeito do mundo futebolístico pela nossa seleção, Felipão viu-se
guindado à condição de top de linha, de estrategista genial, ícone de uma nova
era; tanto que sua carreira deu uma alavancada fulminante e ele foi parar “nas Oropa”,
onde dirigiu a seleção portuguesa, o respeitável time inglês do Chelsea e até
milionários times da Rússia; voltou “podre de rico” e... repaginado.
“Repaginação” que se
mostrou decepcionante agora, quando, novamente chamado às pressas para, de novo
“arrumar a casa”, se nos apresentou cheio de conivências, de conveniências, de
invencionices e de uma maleabilidade que outrora não possuía; assim, desde que reassumiu não teve a coragem
devida pra sequer substituir o “bibelozinho de luxo”, a nova coqueluche da
imprensa esportiva (aquele que a TV Globo já decretou ser o único craque do
time), o improdutivo e doméstico jogador Neymar, que quando tem pela frente os europeus
“se caga todo”, treme mais que vara verde, vira uma peça absolutamente nula
(mas, atenção: no próximo jogo enfrentaremos o “índios” da Bolívia e então tal
jogador deitará e rolará, de sorte que, hipocritamente, a imprensa no dia
seguinte o vangloriará e o elevará à condição de salvador da pátria); no mais e
como que pra provar que a metamorfose foi impressionante e pra valer, o Felipão
resolveu convocar para a seleção um goleiro que não é nem reserva do reserva do
reserva do seu time (ou seja, é o quarto goleiro); só que é jogador do
defensivo time do Corinthians, verdadeiro representante do anti-futebol, do
futebol de resultados, e que tem à retaguarda uma cambada de grandes empresários
sem escrúpulos e que não se importam em jogar sujo, desde que os fins, nem
sempre nobres, sejam alcançados.
A dúvida é: será que
até a Copa do Mundo o treinador Felipão se reciclará ??? Se não o fizer, estaremos
ferrados.
Definitivamente. Sem
choro e nem vela.
quinta-feira, 4 de abril de 2013
Universidade Federal do Cariri - José Nilton Mariano Saraiva
Quando da reunião final para a escolha da
cidade onde ficaria localizado o "campus-Cariri", da Universidade Federal do Ceará,
o então prefeito da cidade do Crato (Samuel Araripe), mesmo estando em
Fortaleza, deixou de comparecer à sede da Reitoria da UFC, manifestando, pois, absoluto
descaso para com a obtenção daquele importante preito. E, embora uma alentada caravana
de verdadeiros cratenses tenha se feito presente, o resultado todos nós
conhecemos: embora o Crato, por sua tradição no campo educacional, fosse o
cotado para sediá-lo, o componente político se fez presente e aquele empreendimento
foi “desviado” para Juazeiro do Norte.
A reflexão acima é só pra lembrar que, nesse
momento em que nos chega a notícia de que o "campus-Cariri" da UFC será transformado na Universidade Federal do Cariri, com sede em... Juazeiro do Norte,
é bom lembrar que a falta de visão, o desinteresse e o pouco caso para com a
Educação do então prefeito do Crato nos fez perder tão importante equipamento.
Não esquecer que, naquela oportunidade, os áulicos do então
mandatário da cidade, por miopia, insensibilidade, ignorância ou porque não
queriam mesmo nada, trataram de mascarar ou esconder o real significado de tão
importante perda, sob a alegativa estapafúrdia de que “... somos um só povo,
uma só Região Cariri”.
O resultado não poderia ser mais trágico: a alardeada
“capital da cultura do interland alencarino” dançou solenemente. De novo, outra
vez, novamente.
sábado, 30 de março de 2013
Pilatos
Cá estamos em plena Semana Santa,
já sem o g lamour de tempos passados.cada dia mais raro e distante. Os
comerciantes entendem a santidade desta semana como o momento oportuno para
aumentar o preço do peixe e do bacalhau e levar um pouquinho mais ao caixa da
empresa. Nas igrejas os santos se cobrem de roxo talvez mais pelo absurdo total
do que vêem a sua volta do que pelo peso plúmbeo e culposo da memória terrível
da crucificação.
Algumas cidades brasileiras aproveitam o
feriado da sexta feira para armar grandes festas perfeitamente profanas. A
maior parte do povo perdeu a ritualística cristã e já não sabe bem o que
significa o feriadão. Empanturra-se de vinho e aparenta um ar de santidade e
transcendência. As crianças ligam imediatamente a páscoa ao coelhinho e ao
chocolate. As classes mais desfavorecidas aproveitam a oportunidade para abastecer
um pouco a despensa vazia e saem mendigando víveres para um jejum
Desde os
tempos de juventude que a quaresma me suscita a imagem
de Pilatos. Sei que o nome Pilatos hoje remete imediatamente à
academia de fisicultura. Os mais jovens lembram-se de pronto daqueles aparelhos
para malhar e sair por aí bombados e
impressionando a garotada com músculos mais definidos. Assim, preciso explicar
: falo de Pôncio Pilatos. Bem, ele foi
prefeito da Judéia entre 26 dC e 37 dC . Teria passado totalmente despercebido
dos livros de história se não houvesse
participado de um dos mais importantes julgamentos de toda a história. Pilatos
foi o juiz do processo de Jesus e terminou acatando a opinião da maioria e ao
lavar as mãos condenou-o ao suplício no Gólgota. A sua decisão manchou
definitivamente a sua história e, certamente, contribuiu para um julgamento
histórico implacável de todas as condutas da sua vida. Tido como violento,
venal, corrupto e de uma ferocidade sem limites em todos os júris que
participou, segundo os historiadores Filão e Flávio Josefo. Nos séculos
seguintes surgiram inúmeras lendas envolvendo o seu nome. Desde um final
desastroso em Tevere ou em Vienne na França, o suicídio em 37 dC; até sua
conversão ao cristianismo, influenciado por sua esposa Prócula que é
considerada santa pela Igreja Ortodoxa. Ele mesmo foi santificado pelas Igrejas etíope e copta.
O “Credo”, oração surgida em torno de 200 dC,
no entanto, lhe macula
definitivamente a memória : “ padeceu sob Pôncio Pilatos, foi
crucificado, morto e sepultado...".
Em tempos de tanta liberalidade nos rituais religiosos da
Semana Santa por parte da população, me ponho a imaginar o papel singular de
Pilatos em toda a história sagrada ocidental. A primeira questão a ser
levantada por tantos juízes de plantão é simples. Se todo o suplício de Jesus
estava pré-estabelecido, inclusive previsto por profetas, é possível que o
papel de Pilatos assim, também, estivesse determinado e que ele apenas tenha
sido um veículo necessário à confirmação da profecia e dos desígnios divinos.
Mesmo afastando esta hipótese, nos coloquemos no papel do juiz romano. Julgava
um prisioneiro político que não conhecia e , como no direito romano, seguiu a
opinião dos jurados. Opor-se seria, em tempos atuais, afastar-se da decisão do
corpo de jurados e tomar uma decisão unilateral, um verdadeiro absurdo jurídico
na visão contemporânea. Mesmo assim , Pilatos hesitou na sentença e preferiu
tirar o corpo de fora. A posteridade escolheu o caminho mais cômodo e lhe
imputou a culpa pela crucificação. Em nenhum momento se volta para a grande
turba que preferiu Barrabás e que ano após ano, julgamento após julgamento,
continua politicamente escolhendo sempre a pior parte.
Basta olhar em volta, em meio aos tonéis de vinho
consumidos, ao comércio do jejum, às festas profanas reverenciando o sagrado,
para se perceber que se Cristo voltasse, se o julgamento fosse hoje, a
crucificação se repetiria. Os que hoje fazem a multidão e o corpo de jurados
são descendentes fiéis de Barrabás. Pilatos ao menos lavou as mãos, os juízes
de hoje as tingiriam, rapidamente, de rútilo sangue inocente.
J. Flávio Vieira
sexta-feira, 29 de março de 2013
Ele nasceu no Crato, interior do Ceará. Foi para o Recife. Lá, integrando o grupo Nuvem 33, fez-se músico vanguardista. Anos depois rumou para São Paulo. Depois de trabalhar com Tom Zé (poucos são tão vanguarda como TZ) e criar o grupo Papa Poluição, pôs-se ainda mais à frente, desta vez na Lira Paulistana de Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Premeditando o Breque (Premê) e Arrigo Barnabé. Resumidamente, essa é a trajetória do cara que pensou que poderia deixar a música de lado e embarcar no mundo da propaganda.
Em 1982 Tiago lançou Cabelos de Sansão, um LP marcante com o qual foi reconhecido por seus pares e por adeptos da vanguarda paulistana. E não só: impressionou também corações e mentes nos quais a modernidade latejava, impregnada do fruto tropicalista, e sonhavam em vê-lo frutificar e seguir calando fundo na alma da música popular.
Foi em Cabelos de Sansão que Zeca Baleiro ouviu Tiago pela primeira vez – e chapou. Passados trinta anos, dono de uma gravadora, a Candeeiro Records, Zeca relançou em CD o LP. E mais, agora em 2013 lança Baião de Nós, novo álbum de Tiago Araripe.
Abro um parêntese: Zeca Baleiro é um grande compositor. Ponto. Entretanto, e talvez por isso mesmo, sua atuação como diretor artístico do selo não tenha o merecido reconhecimento pelo bom trabalho. Graças ao faro apurado e a convicções musicais ímpares, Zeca volta e meia produz discos da maior relevância para a música brasileira. E não pensem que ele faz isso por dinheiro, não. Nem empata. Se bobear, põe grana do próprio bolso para lançar músicos nos quais acredita. Fecho o parêntese.
Em Baião de Nós, Tiago lança doze músicas inéditas, nove só dele, três em parceria com Paulo Costa e duas com Zeca Baleiro. Os arranjos têm a característica da obra que vestem. Misturam sons de órgão (tirados do teclado, que remetem aos anos 1970) com naipe de sopros, bateria, violões de seis, doze e sete cordas, cavaquinho, percussão, guitarras, baixo, gaita, piano, sintetizador, banjo, sampler, acordeom e coro.
A voz de Tiago tem personalidade. Diferente, ela empresta aos versos um timbre que os torna também peculiar. Assim é em “Feito Beatles” (TA): Todos os sonhos repousam no mar/ Em algum açude do sertão/ Memória das águas/ Nas linhas que traçam/ A palma da mão. E também em “Canção do Silêncio” (TA): A menor distância/ Entre a palavra e o silêncio/ Só o pensamento pode percorrer/ Só o pensamento.
Suas composições estão a serviço de um pensador que cria melodias. O ritmo tem de ser o que melhor se mostrar no ato da criação. Não há nada predisposto. Tudo soa natural como é da natureza do compositor assim ser. Um grande exemplo disso é “Nós” (TA), que no CD aparece em duas faixas, em versão original e atual.
A beleza desta e de outras músicas demonstra o talento que tem Tiago Araripe. Um cara que em boa hora volta do silêncio para entoar palavras, e que se atreve a voltar a esse olho do furacão que é o mercado discográfico.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4
segunda-feira, 25 de março de 2013
BERNARDO ARRAES VALENÇA
Bernardo (esquerda), com seu irmão gêmeo André.
Bernardo Arraes de Alencar Valença tem no DNA forte
tendência para artes. Pelo lado materno, é sobrinho de Guel Arraes, diretor da
Rede Globo, responsável por programas
inovadores e filmes de sucesso, e de Maurício Arraes, pintor consagrado. Do
lado paterno, é sobrinho de Alceu Valença e parente próximo de Raul e João
Valença, irmãos autores de muitos sucessos, o mais conhecido a marcha Teu cabelo não nega.
Com apenas 23 anos, vários trabalhos publicados e dois
livros escritos, o primeiro, com a idade de 12 anos, de circulação restrita. O
segundo, “Onomatopeia do Silencio”, escrito quando tinha apenas 15 anos,
editado pela Editora Bargaço.
Bernardo tem vínculos com o Ceará e com o Crato, pois é neto
do Ex-Governador Miguel Arraes.
Procura-se
emprego
Deposite a moeda
que acaba a preguiça
se a engrenagem enguiça
tenho a solução
Insira o cartão
assine o cheque
me abane com um leque de notas de cem
Aceito diamantes
ou barras de ouro,
tesouro pirata, moedas de
prata,
marfim africano, quadro de Picasso,
escritura de prédio, mansão ou
palácio,
pérola negra, barrís de petróleo,
direitos dos Beatles,
direitos dos Beatles,
ações da Natura,
iate, helicóptero, Ferrari, avião,
iate, helicóptero, Ferrari, avião,
um jato da Nasa que passe as
barreiras do som...
Tem não?
Então se tiver um lanchinho tá bom…
---
*para Totó
---
*para Totó
domingo, 24 de março de 2013
Objeto Sujeito
Paulo Leminski
você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade
pelo lado de dentro
como fazer um verso
um objeto sujeito
como passar do presente
para o pretérito perfeito
nunca saber direito
você nunca vai saber
o que vem depois do sábado
quem sabe um século
muito mais lindo e mais sábio
quem sabe apenas
mais um domingo
você nunca vai saber
e isso é sabedoria
nada que valha a pena
a passagem pra Passárgada
Xanadu ou Shangri-lá
quem sabe a chave
de um poema
e olha lá
Paulo Leminski
você nunca vai saber
quanto custa uma saudade
o peso agudo no peito
de carregar uma cidade
pelo lado de dentro
como fazer um verso
um objeto sujeito
como passar do presente
para o pretérito perfeito
nunca saber direito
você nunca vai saber
o que vem depois do sábado
quem sabe um século
muito mais lindo e mais sábio
quem sabe apenas
mais um domingo
você nunca vai saber
e isso é sabedoria
nada que valha a pena
a passagem pra Passárgada
Xanadu ou Shangri-lá
quem sabe a chave
de um poema
e olha lá
sexta-feira, 22 de março de 2013
Catecismo
Quando do ajuntamento dos “Apontamentos para a história mítico-sentimental
de Matozinho”, que terminaram publicados
em 2007, notamos uma pasta vermelha à parte, separada cuidadosamente no meio
dos manuscritos, etiquetada com letras garrafais : “Cuidado!” No processo de
pesquisa, terminamos por abri-la, não
sem algum receio, e encontramos no
interior a razão pela qual o colecionador as havia reservado. Tratavam-se de
histórias apimentadas da vila, puxadas para o erótico e o fescenino e, certamente, meu velho tio as isolou,
temendo identificarem-se alguns dos personagens e, também, resguardando um
certo pudor: poderiam cair nas mãos de moiçolas púberes, de crianças ou ferir
sensibilidades moralistas e religiosas. Aquilo parecia quadrinhos de Carlos
Zéfiro ! O certo é que o receio do meu
tio contaminou-me e, no processo de seleção dos textos do “Matozinho vai à Guerra”, preferi manter o pundonor do meu
parente e deixei a pasta vermelha intocada. Os anos passaram-se e, pouco a pouco,
fui percebendo que já não existiam razões
para tanto pejo. O BBB jogou no ventilador toda a intimidade da alcova, as
novelas escancararam o último reduto da decência, os adolescentes produzem seus
próprios vídeos pornôs e expõem no You Tube. A pasta vermelha, hoje, parece até
um catecismo, pode ser publicada até em livrinhos de missa de sétimo dia.
Recentemente,
reabri a pasta vermelha , reli alguns textos e resolvi publicar alguns que me
pareceram mais picantes. Em dias de hoje, sei que não existe mais o perigo de o
leitor degustá-los e comungar em seguida. Não há mais o risco de a hóstia
sagrada ferver na língua como um sonrisal. Pois aí vai a primeira dessas
histórias.
Ah, os homens ! Eternos atores no palco dessa
vida! Põem máscaras, vestem-se de ricos figurinos e encenam continuamente
aquele papel que os tornam mais reconhecidos e admirados pela platéia: o de Rico,
bonito, inteligente, compreensivo, valente,
bondoso, caridoso, virtuoso, santo ! Durante toda existência, buscam, incansavelmente, aperfeiçoar este
personagem perfeito que aqui e ali termina por mostrar outras facetas e arestas
bem menos admiráveis. Só existem dois lugares em que a máscara cai, a maquiagem
é removida e as fraquezas e deformidades aparecem sem a magia do palco : o Bar
e o Cabaré. Aí o homem é apenas o homem, com seus anjos e demônios bem
aparentes. O Bar e o Cabaré são o camarim da cidade ! Assim, as cafetinas e as putas conhecem como ninguém a alma de
uma vila. Têm a perfeita dimensão de onde começa e termina a santidade de cada
um de nós; conhecem as mínimas fraquezas, taras e deformidades dos habitantes ; preenchem com amor
o vazio de tantas solidões. Claro que com um amor negociado, mas existe
alguma coisa sem preço e código de barras numa sociedade de consumo ? O velho “Boca Boa” ,em Matozinho, já havia chegado à conclusão que o amor é puro
devaneio. Chegue eu – diz ele—com cinqüenta reais na Rua do Caneco Amassado !
Sou tratado como rei, vou ser amado e idolatrado ! Agora vá eu liso, como muçum ensaboado ! O
amor existe sim, mas é tabelado, meu senhor !
Existem,
no entanto, interpretações diferentes sobre a teoria do nosso “Boca Boa” . No
governo de Sarney, talvez os mais novos não lembrem, mas o preço dos produtos
foi tabelado. Quebrando todas as regras
da economia, não era permitido majorar o preço de qualquer item, sob pena de
prisão. Como era de se esperar, os víveres desapareceram das prateleiras e
começou a se estabelecer um mercado paralelo, misterioso, baseado na eterna lei da oferta e da procura.
Em Matozinho, os magarefes começaram a aumentar o preço da carne. Houve
denúncia, a polícia se mobilizou, invadiu o mercado municipal e prendeu os
insubordinados. Estabeleceu-se a maior algazarra, já fora do prédio, com os
soldados algemando os revoltosos e metade da população observando e comentando.
Nisso, atiçada pelo barulho, “Das Virgens”, uma das mais tradicionais quengas
da Vila, chegou em meio à balbúrdia, buscando informações sobre o que estava
acontecendo.
---
Que putaria é essa? O que diabos tá acontecendo ?
Uma
das suas pariceiras ,que estava no meio da multidão, explicou :
---
É a polícia que está prendendo os magarefes !
---
Oxente! Mas por que ? Cons seiscentos !
E que diabos foi que eles fizeram? – Quis saber Das Virgens .
---
Eles aumentaram o preço da carne e num pode! A carne tá tabelada !
Das
Virgens, surpresa, saltou um suspiro de alívio e comentou alto como se
estivesse numa difusora :
---
Ave Maria ! Ainda bem que priquito num
tá tabelado, meu deuso !
*********************************
Gumercindo
Carabina trabalhava como vendedor numa loja de confecções em Matozinho, chamada
de “Cambraia de Linho”. Gugu , como era
conhecido pela gandaia, era casado, tinha uns dez filhos, mas era viciado num
Cabaré. Escapava para lá sempre no horário de almoço que não dava tanto na
vista. À noite estava sempre com a família, como um fiel e exemplar cidadão! Gugu tornou-se freguês preferencial de um cabarezinho
na Rua do Amassado, naquele último lugar
para onde acorriam as putas já idosas e sem fama e que se conhecia pelo nome de
“Farinhada”. A intimidade era tanta com “Santinha”, a sua predileta, que ele
pagava por mês, como se fora o aluguel de um imóvel. Um dia, em plena
hiperinflação em fins do Governo Sarney, após terminar a transa com Santinha,
Gumercindo se arrumava para voltar ao expediente da tarde no “Cambraia”, quando
foi despertado por ela da terrível situação econômica do país:
---
Ei, Gugu ! Tu vem amanhã ? Num se esqueça , não, viu ? Cu subiu !
************************************
O
velho Sinfrônio Arnaud gostava de freqüentar o Bar conhecido por “Pentelho de Ouro”
, na mais mal afamada rua de Matozinho. Arnaud freqüentava por pura mania,
gostava do ambiente, das conversas e da proximidade das meninas de difícil vida
fácil. Já não tinha idade para maiores danações e libações eróticas, mas
restara nele aquela mania, aquele clima despojado do lupanar. Um dia, entre uma e outra dose de
pinga, ouviu uma confusão danada na rua. Vinha das bandas da “Farinhada”.
Deixou o copo no balcão, por um momento, e saiu à porta para testemunhar o
arranca-rabo. Viu, então, Jojó Fubuia, no meio da rua, tentando correr, ainda assungando
as calças e, logo atrás, uma quenga robusta, com uma trave da porta na mão,
sentando a pua no pobre do Fubuia. Sinfrônio ficou penalizado com a situação do
mais famoso deodato da vila. O que teria
acontecido ? A confusão veio de lá, na direção de Arnaud, o pau comendo no
centro : a quenga como um carcará atrás do pau d´água, a trave voando solta,
Jojó tentando escapar como podia. Ao passar , por fim, pelo bar, a puta parou
um pouco e explicou, por fim, as razões mais que justas para a surra :
---
Coronel, veja se eu não tenho razão ! O
senhor já ouviu falar, em algum lugar do mundo, em cu fiado ? Já ?
Cunegundes
Pé-de-Pato veio a Matozinho, na intenção
de fazer um empréstimo agrícola. Ano
eleitoral, antes do período invernoso, o Banco do Brasil montara um pequeno
posto temporário para ajudar , segundo divulgavam os políticos, os
agricultores. Cunegundes já tinha mandado um mundão de documentos e viera
naquele dia, pois havia a promessa da
liberação da verba. Enfrentou uma fila danada, depois um chá de cadeira de mais
de duas horas e, finalmente, botou a mão na bufunfa. Não era muito, uns
quinhentos cruzados, dava para comprar, talvez, umas duas vaquinhas. Dinheiro
no bolso, pensou em voltar para Bertioga, mas já não havia, àquela hora, sopas disponíveis. Dirigiu-se , então, à Loja “Cambraia
de Ouro” e procurou seu amigo Gumercindo. Explicou-lhe a pendência e
perguntou-lhe onde poderia pernoitar . Gugu, como era de se esperar, deu-lhe
uma idéia genial: O Cabaré de Maria Justa, o mais requintado de Matozinho.
Cunegundes gostou da dica e partiu para
lá. Estabulou conversa com uma das meninas, uma loirinha bonita, reboculosa,
perna grossa e bunda tanajúrica. Conversa vai, conversa vem, após umas doses ,uma
dancinha bochecha com bochecha e uns entrelaçados dos pés de pato de Cunegundes
com os troncos de aroeira da loirinha, terminaram na noite de núpcias. Pela
manhã, acordou um Cunegundes feliz e realizado. Arrumou-se e, depois, lembrou
que cometera um erro primal: não havia acertado o preço previamente , coisa
quase impossível de acontecer com os atilados bertioguenses. Cunegundes, então,
algo temeroso, pediu a conta :
---
Foi muito bom ! Quanto tô devendo, meu bem ?
A
loirinha, ainda deitada, refazendo-se um pouco sob os lençóis, respondeu-lhe
com voz sensual como locutora de aeroporto:
---
Cuné , eu cobro trezentos cruzados ! Mas para você, que é um freguês tão bom
e parece um jumento fogoso na cama, vou cobrar só duzentos
e cinqüenta, tá bom?
Pé-de-Pato
não pode conter a surpresa! Lá se ia metade do seu empréstimo, só numa noite.
Conteve-se um pouco, mas soltou :
---
Duzentos e cinqüenta, mas não tá muito caro não, minha filha ?
A
loirinha, não se enrolou:
----
Cunezinho, tá tudo pela hora da morte ! Agora mesmo a gasolina subiu!
Cunegundes
meteu a mão no bolso, contou as cédulas com uma pena danada e pôs em cima da
camareira. Quando abriu a porta para sair, a loirinha, feliz, perguntou
interessada:
---
Filhinho e agora quando você volta ? Quando te vejo de novo ? Já tô morrendo de
saudade !
Pé-de-Pato
fechou a porta lentamente, enquanto mandava-lhe a resposta:
---
Desse preço não dá ! Só volto agora quando você botar um priquito a óleo ou a
gás butano !
J. Flávio Vieira
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