por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



sábado, 11 de outubro de 2014

Carta para além do muro (ou por que Dilma agora) - Jean Wyllis

Aécio representa uma coligação de partidos de ultradireita, com uma base ainda mais conservadora que a do governo Dilma no Parlamento.( Por Jean Wyllys)

O muro não é meu lugar, definitivamente. Nunca gostei de muros, nem dos reais nem dos imaginários ou metafóricos. Sempre preferi as pontes ou as portas e janelas abertas, reais ou imaginárias. Estas representam a comunicação e, logo, o entendimento. Mas quando, infelizmente, no lugar delas se ergue um muro, não posso tentar me equilibrar sobre ele. O certo é avaliar com discernimento e escolher o lado do muro que está mais de acordo com o que se espera da vida. O correto é tomar posição; posicionar-se mesmo que a posição tomada não seja a ideal, mas a mais próxima disso. Jamais lavar as mãos como Pilatos – o que custou a execução de Jesus – ou sugerir dividir o bebê disputado por duas mães ao meio. Sei que cada escolha é uma renúncia. E, por isso, estou preparado para os insultos e ataques dos que gostariam que eu fizesse escolha semelhante às suas. Por respeito à democracia interna do meu partido, aguardei a deliberação da direção nacional para dividir, com vocês, minha posição sobre o segundo turno. E agora que o PSOL já se expressou, eu também o faço.
Agora, no segundo turno, a eleição é entre os dois candidatos que a população escolheu: Dilma Rousseff e Aécio Neves. E eu não vou fugir dessa escolha porque, embora tenha fortes críticas a ambos, acredito que existam diferenças importantes entre eles.
A candidatura de Aécio Neves – com o provável apoio de Marina Silva (e o já declarado apoio dos fundamentalistas MAL-AFAIA e Pastor Everaldo; do ultrarreacionário Levy Fidélix; da quadrilha de difamadores fascistas que tem por sobrenome Bolsonaro e do PSB dos pastores obscurantistas Eurico e Isidoro) – representa um retrocesso: conservadorismo moral, política econômica ultraliberal, menos políticas sociais e de inclusão, mais criminalização dos movimentos sociais, mais corrupção (sim, ao contrário do que sugere parte da imprensa, o PT é um partido menos enredado em esquemas de corrupção que o PSDB), mais repressão à dissidência política e menos direitos civis.
Mesmo com todos as críticas que eu fiz, faço e continuarei fazendo aos governos do PT, a memória da época do tucanato me lembra o quanto tudo pode piorar. Por outro lado, Aécio representa uma coligação de partidos de ultradireita, com uma base ainda mais conservadora que a do governo Dilma no Parlamento. Esse alinhamento político-ideológico à direita entre Executivo e Legislativo é um perigo para a democracia.
Vocês, que acompanham meus posicionamentos no Congresso, na imprensa e aqui sabem o quanto eu fui crítico, durante esses quatro anos, das claudicações e recuos do governo Dilma e do tipo de governabilidade que o PT construiu. Mas sabem, também, que tenho horror a esse antipetismo de leitor da revista marrom, por seu conteúdo udenista, fundamentalista religioso, classista e ultraliberal em matéria econômico-social. Considero-o uma ameaça às conquistas já feitas, que não são todas as que eu desejo, mas existem e são importantes, principalmente para os mais pobres. As manifestações de racismo e classismo que vi nos últimos dias nas redes sociais contra o povo nordestino, do qual faço parte como baiano radicado no Rio, mais ainda me horrorizam.
Por isso, aderindo à posição da direção nacional do PSOL, que declarou "Nenhum voto em Aécio", eu declaro que, neste segundo turno das eleições, EU VOTO EM DILMA e a apoio, mesmo assegurando a vocês, desde já, que farei oposição à esquerda ao seu governo (logo, uma oposição pautada na justiça, na ética, nas minhas convicções e no republicanismo), apoiando aquilo que é coerente com as bandeiras que defendo e me opondo ao que considero contrário aos interesses da população em geral e daqueles que eu represento no Congresso, como sempre fiz.
Hoje, antes de dividir estas palavras com vocês, entrei em contato com a coordenação de campanha da presidenta Dilma para antecipar minha posição e cobrar, dela, um compromisso claro com agendas mínimas que são muito caras a mim e a todas as que me confiaram seu voto.
E a presidenta Dilma, após argumentar que pouco avançou na garantia de direitos humanos de minorias porque, no primeiro mandato, teve de levar em conta o equilíbrio de forças em sua base e priorizar as políticas sociais mais urgentes, garantiu que, desta vez, vai:
1. fazer todos os esforços que lhe cabem como presidenta para convencer sua base a criminalizar a homofobia em consonância com a defesa de um estado penal mínimo;
2. fazer todos os esforços que lhe cabem como presidenta para mobilizar sua base no Legislativo para legalizar algo que já é uma realidade jurídica: o casamento CIVIL igualitário (ela ressaltou, contudo, que vai tranquilizar os religiosos de que jamais fará qualquer ação no sentido de constranger igrejas a realizarem cerimônias de casamento; a presidenta deixou claro que seu compromisso é com a legalização do CASAMENTO CIVIL – aquele que pode ser dissolvido pelo divórcio – entre pessoas do mesmo sexo);
3. realizar maior investimento de recursos nas políticas de prevenção e tratamento das DSTs/Aids, levando em conta as populações mais vulneráveis à doença;
4. dar maior atenção às reivindicações dos povos indígenas, conciliando o atendimento a essas reivindicações com o desenvolvimento sustentável;
5. e implementar o Plano Nacional de Educação (PNE) de modo a assegurar a todos e todas uma educação inclusiva de qualidade, sem discriminações às pessoas com deficiências físicas e cognitivas, LGBTs e adeptos de religiões minoritárias, como as religiões de matriz africana.
Por tudo isso, sobretudo por causa desse compromisso, EU VOTO EM DILMA e apoio sua reeleição. Se ela não cumprir serei o primeiro a cobrar junto a vocês.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

NEM OS MEGATONS E AS CASTRAÇÕES QUÍMICAS EXTERMINAM - José do Vale Pinheiro Feitosa


Eita povo das gerais. Sul da Bahia. Descambando para o São Francisco.
Eita povo que nem nóis. Que contorna os abrolhos só prá sentir os teus ói.
Eita povo deste meu Brasil, negro, branco e mulato, índio das raízes,
Eita povo dos sertões do Mato-Grosso, a fulô na espera do Cuitelinho,
Eita povo das segadas do café, neste São Paulo do tombo para ficar em pé,
Eita povo dos pampas, das montanhas, das dunas, das matas, das marés.
Eita povo que nem nóis. Aqui pru modi nóis a linguagem Catrumana.
A linguagem que nem castração química conseguirá acabar,
A linguagem que resiste à megatons de tanta besteira vinda do hemisfério norte.

Catrumano - a palavra vem de quadrúmano, que tem quatro mãos. Foi usada para se referir aos primatas que têm pés assemelhados às mãos. No dicionário existe a escrita variante quatrumano que deu origem à escrita da linguagem Catrumano. A linguagem especial do norte de Minas Gerais e do Sul da Bahia. Tem até dicionário, como foi feito o dicionário do cearensês. Mas escutem como as palavras são as mesmas usadas por nós.

Nós, viu gente boa, os nordestinos.

NÃO PEÇA AUMENTO E TENHA UM BOM CARMA - José do Vale Pinheiro Feitosa

Todo mundo sabe que patrão quer sempre ganhar nas costas dos trabalhadores. Que também é verdade que trabalhador quer ganhar mais e que as condições de trabalho melhorem.

Quando se organizaram em sindicatos, os trabalhadores sabiam que sem uma pressão coletiva não receberiam o salário justo. Patrão nenhum vai querer pagar o justo pois é da convenção econômica do capital que ele deve ganhar cada vez mais sobre o mesmo.

A verdade é que o ganho de produtividade, em que pese a era da informação, está sendo conseguido sobre o achatamento do ganho dos trabalhadores. Daí a enorme concentração de renda em toda a cadeia produtiva.

Agora leiam o que disse um executivo da Microsoft numa Celebração da Mulher na Computação. Antes uma explicação: a questão principal na Celebração era o fosso salarial das mulheres em relação aos homens em se tratando do mesmo serviço.

Se não é, deve ter origem Hindu, Satya Nadella, executivo da Microsoft: “Mulheres que não pedem aumentos salariais possuem “superpoderes” e aquelas que se submetem calada a um cenário de defasagem salarial para seus colegas homens têm “karma bom” e são dignas de confiança...”

Maria Klawe que mediava a mesa no momento da frase de Satya contou que quando trabalhava numa universidade descobriu que ganhava menos $50 mil por ano do que devia e dirigindo-se às mulheres na plateia disse: “Faça seu trabalho. Não seja estúpida como eu.”


Satya Nadella caiu na arapuca que os arautos do Mercado trombeteiam a todos ouvidos. São estes os que querem voltar montados no cavalo alazão da corrupção. Dos outros, não a nossa de cada dia.  

PÃO, TERRA E LIBERDADE - José do Vale Pinheiro Feitosa

As semelhanças simbólicas são reais nos dias de hoje e nas decisões eleitorais que tomaremos nos próximos dias. E tomaremos tais decisões em relação a governadores e à Presidência da República. As semelhanças são com a dicotomia logo após a Revolução de Trinta que impregnava o debate político não apenas aqui no Brasil. Era o debate entre esquerda e direita.

Um debate agudizado por posições extremadas advindas de tempos difíceis que no desespero levavam a soluções autoritárias como na União Soviética e no Eixo (Alemanha, Itália e Japão). Mas não excluamos o que acontecia de conservadorismo de direita exacerbada na Inglaterra (um rei que veio abdicar que era simpático a Hitler) e na França.

No debate agudo tudo se resumia a Fascismo e Comunismo. No entanto é preciso que ao descer ao íntimo dessas coisas perceba-se que aí vai encontrar forças políticas que jogam de um lado e outro nem sempre com arraigada convicção ideológica. E isso por que?

É que o sectarismo ideológico é músculo apenas, enquanto a realidade é inteligência e capacidade de construir algo mesmo diante de contradições. De qualquer modo o debate continua superando impregnações de modo que é sempre possível que se observe o campo das ideias como mais do que um cérebro ou um corpo. As ideias são construções de muitos e refletem como este coletivo sofre, interpreta e procura interagir com a realidade.

Há muito que saí da minha terra e do meu lugar. Aquele bairro que se formava virou uma grande aglomeração. Uma aglomeração muito diferente da que vivi, e vivi em cada casa, em cada rua, como se vive um lugar. A diferença deve ser muito grande em quantidade, mas a qualidade do povo e de suas necessidades continua uma questão a ser superada. Superada pela vontade deste povo e o seu primeiro passo é o voto. O voto no lado simbólico que lhe cabe.

Agora pegando o lema dos Integralistas naqueles tempos remotos: “Deus, Pátria e Família”. É o lado autoritário e conservador de ser: pensa em Deus não como o criador, mas o feitor, o capitão do mato de todos os trabalhadores. Pensa na Pátria não como a união de nordestinos a todas as regiões, mas como a República Piratininga que submete todos a sua vontade. Pensa na família não como nossas raízes afetivas e genéticas, pensa nas famílias poderosas que precisam se unir para controlar a gentinha sem hereditariedade ducal.


Pão, terra e liberdade. Pensa no Pão porque a fome é o primeiro passo a ser superado para que se tenha um tempo neste mundo. Pensa na terra porque é nela que se realiza a vida na sua unidade familiar, na duração histórica e na identidade cultural (eita nós, os nordestino). E pensa na Liberdade porque esta é a raiz de tudo, especialmente da juventude e sua capacidade de incomodar o banquete dos bem postos. 

Everardo Norões!

 
OS CINCO ELEMENTOS
Por que água?, perguntas.
Porque se insinua entre fendas,
brota entre pedras,
confunde as esferas,
toma a forma do Mundo.
Por que vento?
Esvai-se entre ramos,
desliza entre abismos,
canta a voz que cede.
Por que fogo? inquires.
Circunda o nome,
labareda a sombra,
desintegra a alma:
e tudo torna cinza.
Por que terra? interrogas.
Porque submete os passos,
e quando a olhamos,
do alto,
sabemos do pó
a humana condição.
Por que céu?
Um silêncio alisa tua pele:
entre folhas,
um sopro se desprende.
Fogo e água…


NAUSEA MATINAL
Restos de falas na mesa
e a náusea matinal.
O bule, a xícara, os copos.
A mão, submersa no sal,
da tarde, na planície,
tão clara, dessa mesa,
onde deslizam os repastos
da habitual tristeza
que cobre a toalha branca
de rendas. E essa fome,
bordada sobre a mesa
como as iniciais de um nome.
O jarro com flores e
as cinzas do outro dia,
fugindo aos arabescos
das rendas, tão frias,
como as coisas distantes
que nos aguardam à mesa:
o leite, o bule, o café,
o sono, a morte, a incerteza.

Na noite de ontem...

Palestra do  renomado escritor  RONALDO CORREIA DE BRITO .
Auditório  do SESCRATO, lotado, na noite de ontem.
Aplaudidíssimo!
Nos fez mergulhar no mar das histórias. Relevou a importância da Tradição Oral.
Estado do Araripe, Nação Cariri, cidade do Crato...Nossas memórias em movimento- Incentivo!




 

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Só para lembrar que somos nordestinos - José do Vale Pinheiro Feitosa

Só para recordar que somos todos nordestinos. Nascido em toda brecha que este chão inventou. Até em lajedo, nas rachaduras de seu espinhaço, nós somos mandacuru, xique-xique ou coroa-de-frade. Somos nordestino porque foi aqui que o Brasil começou. Foi daqui que todos nós amamos este imenso território, a linda amazônia onde desbravamos sua rede fluvial a cata de borracha. Ao extremo sul de onde recebemos todo o charque produzido nas charqueadas de Pelotas. Do Paraná onde abrimos a trilhas para a ocupação das terras roxas. Deste lindo e grande estado de São Paulo onde levantamos edifícios, criamos estradas, movimentamos as fábricas. Onde fomos ser sanitaristas e médicos especialistas da melhor ética que se pode imaginar a um profissional.

Só para lembrar que somos nordestinos, nos limites de Ponta Porã, no miolo do Centro-Oeste, somos este fazedor de riqueza. Somos esta ampulheta de inventar o futuro. Só para lembrar. 

Vamos cantar juntos! E junto vamos espantar estas carapanã que sugam nosso sangue.

TUDO QUE VOA CONTRA TUDO QUE SE MOVA - José do Vale Pinheiro Feitosa

Uma política de submissão aos EUA, como promete o candidato Aécio Neves é apenas isso. Submissão. O Brasil continua com grandes dificuldades, todas superáveis, e não precisa tirar os sapatos para passar nos controles da fronteira produtiva imperial.

Não precisa porque nossos problemas poderão ser superados. Seja pelo camponês, pelo empregado da indústria, pelo professor, pelo taxista, pelo profissional da atenção básica da saúde e até por especialistas bem formados em alguma universidade do exterior. Seja por qual longitude ou latitude habite neste grande país habite e lá tenha suas famílias.

Aliás ao contrário do que pensa FHC não somos nordestinos apenas porque estamos em alguma posição geográfica. Somos nordestinos porque temos descendência, temos história, temos vida e não precisamos tomar lições de quem quer que seja para compreendermos que o mundo é aqui e dessa maneira.

Que os EUA não sejam confiáveis como modelo para nós isso é pacífico. Não para Aécio Neves e para o empregado de George Soros, Armindo Fraga porque aí o negócio é outro. Não é bem sermos o que somos com nossas dificuldades e até nossas capacidades de superar.

Para sentirmos o modus operandi do Estado americano tomemos a estratégia adotada contra o Camboja supostamente uma rota de abastecimento dos vietcongues. Richard Nixon manda bombardear e Kissinger diz: “Tudo que voe, contra tudo que se mova”. Ou seja bombardeio massivo. E não esqueçamos que os bombardeios sobre as cidades alemães no final da Segunda Grande Guerra foram de uma violência equivalente aos da Luftwaffe.

Sobre uma zona rural atrasada do Camboja os EUA lançaram bombas equivalentes a cinco Hiroshima. Arrasaram tudo que ficava embaixo, destruíram vila a após vila, deixando cadáveres à mostra visto do alto das aeronaves. Iam até à base, reabasteciam, e voltavam para jogar mais bombas sobre ruinas e cadáveres. Aí o tal do Kmer Vermelho foi o efeito colateral. Basta comparar a história do Vietnã e do Camboja para compreender a diferença.


Não precisamos entregar nosso futuro a este modelo de civilização. Ao contrário temos que compreendê-lo muito bem para tomarmos as nossas próprias decisões. O ódio estimulado pela campanha de Aécio Neves contra nordestinos, que atingiu alguns siderados de jaleco branco é a imagem exata deste horror imperial pensando na “castração química dos nordestinos” ou em “jogar uma bomba atômica para que por lá não nasça nada por setenta anos.”


No dia do compositor....Salve, Pachelly Jamacaru!



No dia do compositor...,



No dia do compositor...



quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O acordo ou a corda

J. Flávio Vieira

Nas últimas semanas,  o Crato se viu assaltado por uma onda de seguidos suicídios. Alguns deles em pessoas jovens que deviam carregar nos olhos o dourado sonho da existência.  Este ato extremo, que leva pessoas a fugirem pela porta dos fundos, põem toda a cidade em polvorosa. Parentes e amigos jamais tirarão da mente um certo sentimento de culpa : -- Eu poderia ter pressentido os primeiros sintomas e , quem sabe, evitado a catástrofe ! Os conhecidos e transeuntes embebem-se num certo blues, como se perguntassem : o que há de errado neste mundo que ninguém o suporta sem algum tipo de anestesia ?
                                   Longe de ser um questão meramente doméstica, os suicídios alcançam, no mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde, quase 900.000 mortes ao ano. Este valor numérico , pasmem vocês, ultrapassa as mortes por guerras, os homicídios e desastres naturais somados ! E, o pior de tudo, desde a década de 70, os suicídios cresceram mais de 60 % e, ultimamente, têm tomado um vulto totalmente inesperado. Acredita-se que a crise econômica global possa ter contribuído para o aumento. O desemprego, o arrocho salarial, principalmente em países europeus, a instabilidade da economia em nações outrora prósperas, impulsionam o desencanto junto à juventude. Acredita a OMS que a urbanização desenfreada , certamente, tem exposto a população às agruras e estresse das cidades e megalópoles. Desde 2010, pela primeira vez, a maior parte da humanidade vive em zonas urbanas e não nas rurais.  Deixamos o campo e sua plácida tranquilidade,’ para a violência da rua, do trânsito, a competição terrível no mercado de trabalho. E mais que tudo, perdemos a identidade e passamos, na cidade grande, a ser apenas um número, no meio da manada, com a clara sensação de que corremos em disparada para o abismo logo à frente.
                                   Estudos têm demostrado que os laços sociais são fortes aliados na prevenção dos suicídios. Amigos, namorados e namoradas, parentes,  esposas, maridos,  filhos, companheiros de trabalho  e  de farra são os liames imprescindíveis que nos prendem à vida e lhes dão algum significado. Estudos feitos nos EUA demonstram que quase metade dos adultos se consideram solitários e este preocupante percentual é exatamente o dobro da década de 80. Este isolamento proporcionado pela urbe , certamente,  estaria impulsionando os casos de depressão responsável esta  por mais da metade de todos os suicídios.
                                   Basta refletir sobre os destinos da modernidade , para se perceber que nós mesmos destilamos nossa própria cicuta. As pessoas fogem dos relacionamentos sérios, como o trombadinha da polícia. As relações passaram ser na sua maioria transitórias e eventuais : amizades coloridas, rolos, ficas. Mulher ou homem que consiga uma certa ascensão econômica prefere a cueca ou calcinha do parceiro na cadeira, nunca no guarda roupa. Casamentos se dissolvem como gelo em Teresina: a primeira cara feia, o primeiro bate-boca ou arranca –rabo é motivo para o divórcio. Já há incontáveis casais que simplesmente optam por não ter filhos, sob a alegação de que atrapalha demais e dá muita dor de cabeça. A explosão da comunidade global fez com que a comunicação ficasse, aparentemente,  mais fácil, mais rápida com o Smartphone, a Internet, o WhatZapp, as Redes Sociais. A tecnologia aproximou absurdamente os distantes, mas afastou terrivelmente os próximos. Nas rodas de bar , já não se conversa: se tecla. Passamos a ter incontáveis amigos virtuais, mas praticamente deletamos os amigos reais. O Curtir substituiu o bate papo, o olho no olho, o toque, o abraço. Não bastasse isso, a vida profissional se tornou um verdadeiro campo de guerra. Já não temos companheiros mas competidores. O objetivo de todos é o mesmo do Flamengo :  vencer, vencer, vencer. Como em toda maratona poucos vão ao pódio e muitos são os derrotados.  Viver é consumir e aí daqueles que ferirem esse mandamento básico. De repente, uma grande turba percebe-se só no mundo aniquilada : sem família, sem amigos, sem agregados, sem companheiros.  O parto atravessado da vida não se suporta sem anestesia: álcool, lexotan, tabagismo, cocaína, fanatismo, religião,  moralismo...  A solidão no meio da turba talvez seja a mais cruciante solidão. Vale a pena continuar a jornada ?
                                   Há algo errado na viagem, quando tantos desembarcam antes da estação final.  É preciso mudar o roteiro, aproximar o grupo de viajantes para que possam dividir a estafa do caminho e desfrutar juntos a paisagem que passa definitiva na janela. Como o trem   segue sempre  para o descarrilamento inevitável, o companheirismo, a solidariedade, a  amizade , no final, serão a única atração verdadeira do nosso roteiro turístico. Não dá para viver sozinho, nem existe felicidade individual. São as nossas relações interpessoais que nos atam ao vazio da existência. Só temos duas opções neste mundo : o acordo ou a corda.


Crato, 08/10/14 

O RUMO NORTE É O NOSSO DESATINO - José do Vale Pinheiro Feitosa

Quando nos apontam o rumo norte para o nosso destino, a morte abre as suas asas sobre o nosso desatino. Esta frase deveria ser um eco de razão a toda vez que um político, um líder ou um cidadão nos aponta os EUA como o nosso modelo de civilização.

Mesmo que o sonho do sucesso, a segunda chance, o mérito da conquista, o imenso prazer do consumir e pertencer a uma sociedade em que se agradece pelos empreendedores privados esteja a alavancar um desejo como compreensão da liberdade. Mesmo que seja isso, sempre imagine que o Brasil é grande, somos uma sociedade de mais de 200 milhões, temos uma cultura própria e capacidade de viver os nossos próprios sonhos e através da liberdade de nos realizarmos pelo nosso próprio conhecimento e arte.

Já temos problemas demais a enfrentar para desejarmos ser o gasoduto a alimentar a energia dos problemas dos outros. Os EUA formam um grande povo, a humanidade deve muito às suas instituições, à sua ciência e cultura. Mas o mundo tem sido vítima do imperialismo americano com suas agressões, golpes políticos, usurpação das riquezas, atraso e exploração dos povos e nem por isso os EUA têm a melhor sociedade. Nem muito inferior aos nossos problemas.

Os EUA inventaram, FHC e o PSDB embarcaram em seu ideário, a maneira mais soft de implantar seu “estilo” através do enriquecimento das suas empresas sobre a economia dos povos como o Brasil. As empresas vêm com toda a concorrência, mas com o estilo americano de ser (lobbys, holdings, oligopólio etc.) e para garantir um mercado fluído e sem conflito: inventaram as Agências Reguladoras. O papel delas é “controlar” o desejo dos consumidores por melhores serviços e menores preços. Dar um colchão de apoio ao “mercado”.

Leia o primor como os EUA defendem suas empresas através de trechos de um documento de empresas de fracking de gás de xisto para Ucrânia (aí toda briga com a Rússia): “Empresas norte-americanas podem investir diretamente na Ucrânia, levando com elas sua tecnologia. Empresas ucranianas podem contratar perfuradores norte-americanos com experiência, podem licenciar perfuradoras norte-americanas e empresas de tecnologia de sondagem sísmica por imagem, e podem importar equipamento norte-americano sofisticado de perfuração. O governo dos EUA pode estimular este desenvolvimento com programas patrocinados pelo Estado, como o Programa para Engajamento Técnico Não Convencional para Gás do Departamento de Estado.

É até óbvio, mas o Governo financia com impostos do povo dos Estados Unidos as suas empresas para que explorem as riquezas e a economia dos outros países. E fazem isso por cima de pau e pedra, por isso toda a briga na Ucrânia. Por isso eles bombardeiam países pelo mundo todo e acusam a Rússia pela anexação da Criméia como vestais numa noite sem lua. Na verdade toda esta guerra é que os EUA querem substituir o papel da Rússia como fornecedora de gás natural para a Europa,pela hegemonia da produção de gás de xisto por fracking.   

Nesta altura da nossa história a nossa principal reflexão, crítica e construção do futuro tem por base a nossa própria história. Não vamos seguir os passos de ninguém, os nossos problemas precisam ser resolvidos e não vamos adotar políticas que aumentem estes problemas ou então, retardem as suas soluções.
Os EUA não servem de espelho para nós os brasileiros. Vejam alguns dados do seu modelo de ser em alguns tópicos. A) Dois terços da população de Detroit não pode pagar as suas necessidades básicas e 46 milhões de americanos estão na pobreza; B) a taxa de mortalidade infantil dos EUA é a quarta mais alta entre 29 países mais desenvolvidos; C) a taxa de analfabetismo nos EUA entre adultos é de 14%, 21% dos americanos têm um nível de leitura inferior à 5ª série de estudo e 19% do diplomados do ensino médio não sabem ler; D) o sistema de saúde americano ocupa o último lugar em eficiência entre os 10 países mais desenvolvidos e tem o maior gasto per capita entre eles ($8.508).

Ora os EUA são um país bem sucedido e rico. Qual a sua questão? O modelo político, social e econômico com base puramente no liberalismo de mercado. Os números que lemos parecem até enganosos pois jamais imaginaríamos que eles fossem assim, mas são. São pelo excesso de individualismo, de exploração privada, de acesso por renda, de negócios lucrativos, de intermediações onerosas como advocacia, segurança e guerras geopolíticas.

Este modelo, por exemplo, transformou a educação numa mera fábrica de performance, sem preparar o ser humano e levando a que mães em desespero usem medicamentos nos filhos abaixo de 10 anos de idade apenas porque as professoras não encontram a performance que esperam. Isso sem contar a inúmeras fórmulas para atrair “consumidores”. E como consumidores os americanos ficam fora do ensino e tem tanta gente crítica ao governo brasileiro pelos nossos baixos níveis de educação.

O sistema de saúde americano, baseado em planos de saúde, é uma verdadeira esteira da era fordista, como as faculdades de medicina preparando especialistas, os laboratórios organizando o ensino, congressos e sociedades e as operadoras criando fundos que financiam a farra de médicos ultra-especializados. O grande problema, por exemplo, comparando-se com o sistema estatal inglês como gasto per capita de $3.405, é que não existem cuidados primário de saúde, não existe atenção básica, prevenção e promoção da saúde.

O Brasil precisa de um caminho próprio, especialmente longe de modelos que se mostram errados. Se não evoluímos para o modelo totalitário da União Soviética, igualmente, não precisamos adotar este capitalismo do Deus Mercado. Precisamos de uma união forte e de preparar lideranças que compreendam esta união e não se torne apenas meros empregas dos grandes negócios americanos.

Uma visão da política do governo Obama, dos presidentes de vários países por ai, incluindo ex-mandatários é de um salve-se quem puder onde todos se vendem para os grandes negócios e não atendem às verdadeiras decisões das sociedades. A posição dura da Polônia contra a Rússia na questão da Ucrânia é porque todo mundo estava “comprado” para empurrar o negócio do fracking de xisto. O filho de Joe Binden, vice-presidente dos EUA que lutou muito para a “democratização” da Ucrânia é diretor da principal empresa ucraniana de energia.


Esse é o mundo da decadência da sociedade de mercado.  

COMUNIDADE DE EXTERMÍNIO VESTINDO BRANCO - José do Vale Pinheiro Feitosa

Generais e líderes nazistas no tribunal internacional de Nuremberg foram condenados por suas ações de guerra e extermínio. Ultrapassaram qualquer marca de humanidade mesmo no papel que lhes cabe que é a guerra. O mesmo pode ser dito a militares brasileiros que participaram de tortura a presos (nem sempre políticos ou militantes de esquerda) durante a ditadura militar. Eram soldados, guerreiros treinados para matar, mas mesmo assim cometeram crimes pois matar e torturar não é a missão específica mesmo parecendo ser.

Agora peguem um médico, ou outro profissional de saúde e o ponha na mesma função de um Mengele ou de assistente de tortura nas selas dos porões dos quartéis para acompanhar o limite e atestar com laudos falsos as causas da morte. Este é criminoso contra a humanidade e fere essencialmente a função quase divina de sua razão de ser: que é curar.

Médicos como Mengele são piores que a perversidade do guerreiro. Eles são traidores da função, da humanidade e praticam um ato que ultrapassa qualquer apresentação digna que possa ter. A respeito de que isso tudo?

Uma comunidade no facebook, com mais de cem mil seguidores, chamada “Dignidade Médica” acumpliciou-se aos porões da ditadura e aos banheiros dos campos de extermínio com Auschwitz na manifestação de alguns dos seus. Ao Conselho Federal de Medicina não basta responder com notas condenatórias, precisa buscar autores e punir exemplarmente. O MPF precisa agir com o mandato do direito.

O que manifestaram nesta comunidade do Face? Postaram frases como: “70% de votos para Dilma no nordeste! Médicos do nordeste causem um holocausto por aí! Temos que mudar esta realidade.” “Meus amigos, infelizmente temos de ser terroristas e nos colocarmos no nível de conversa que pobre entende!” “Colegas que votaram em Marina nesse primeiro turno, podemos contar com o apoio dos senhores para o segundo turno votando no Aécio.”

No dia em que grupos médicos chegaram a termos como estes, a profissão com um todo foi enlameada no fosso do maior nível de desinformação, analfabetismo e absoluto desprendimento da realidade. Aí temos a prova que mesmo a formação científica superior não é suficiente a promover humanidades como já sabíamos desde a Alemanha Nazista.

   

terça-feira, 7 de outubro de 2014

DILMA DEVE PROMETER O BOLSA INFORMAÇÃO - José do Vale Pinheiro Feitosa

Fora um ou outro troll que frequenta os comentários, este blog tem opinião. Tem informação e, claro, pluralidade de pensamento. Nem sempre as pessoas se estapeiam porque pensam diferentes e isso pode estimular ainda mais o senso crítico de todo mundo.

Já nas denominadas “redes sociais” o pau come. As pessoas extravasam ódios, preconceitos e acusam nordestinos de não terem informação, serem pobres e comporem os bolsões de miséria que votam em que lhes dar esmola. Aí a questão central é o Programa Bolsa Família.

Junto com as malditas palavras de FHC, os jornais das famílias oligarcas também acusaram o nordeste e no resto um bando de paulistas idiotas diziam que trabalhavam enquanto os nordestinos passavam a vida deitados na rede só recebendo a grana para votar no PT.

Eis aqui alguns dados do Bolsa que não é a Bolsa que sobe e desce conforme as pesquisas eleitorais: o Estado de São Paulo (1,2 milhão) é o segundo estado em número de benefícios, perde para a Bahia (1,8 milhão) e está à frente de Minas, Pernambuco e Ceará cada um com 1,1 milhão. Outro dado: 49% dos benefícios são para pessoas com menos de 18 anos, portanto 42% tem menos de 16 anos e nem vota. Tira a criança do trabalho infantil.

E sobre receber a grana para manter a preguiça? 75% daqueles com mais de 18 anos trabalham e quem não trabalha é por falta de oportunidade. E tem mais, cara pálida: o valor médio do Bolsa Família é de R$ 168,00, isso qualquer preconceituoso gasta numa balada bebendo e comendo coisas caras. Isso não permite ninguém parar de trabalhar. R$ 5,6 por dia é ruim de viver sem outros ganhos.

Agora é preciso que se faça uma denúncia grave. É necessário, para uma boa condução do futuro do país, para que tenhamos um progresso verdadeiro, que o negligente governo Dilma crie um programa para melhorar o nível de informação de pessoas como FHC e toda a marola preconceituosa das “redes sociais”. Dos jornais das grandes famílias não é necessário a adesão ao programa, basta que eles paguem o imposto que devem ao país. 

Números em profusão - José Nilton Mariano Saraiva

Mesmo com a vitória insofismável da presidente Dilma Rousseff no primeiro turno (vantagem de 8.370.242 votos), os analistas globais já “decretaram” que os votos da candidata Marina Silva, no primeiro turno (22,1 milhões) deverão migrar para o candidato Aécio Neves e, assim a eleição será decidida a favor do tucano, no segundo turno (como se Marina Silva tivesse carisma ou poder de transferir tudo para quem decidir apoiar).

Se houvesse a preocupação de pelo menos analisar e comparar com imparcialidade os números atuais com as da eleição passada, veriam que naquela oportunidade os 19.6 milhões de votos da mesma Marina Silva não foram agregados na totalidade aos votos obtidos pelo candidato José Serra, no segundo turno, e que decidia a eleição com Dilma Rousseff.

Assim, enquanto Serra subiu de 33,1 milhões de votos para 43,7 milhões (10,6 milhões), quase que na mesma proporção a candidata Dilma Rousseff saltou de 47,6 milhões para 55,7 milhões (8,1 milhões), gerando uma diferença de 12,04 milhões para a candidata Dilma, ao final da contenda (ante os 14.5 milhões do primeiro turno).

Observa-se que a votação de Aécio, agora no primeiro turno (34,8 milhões ou 33,55%), praticamente se assemelha à votação de Serra naquela oportunidade (33,1 milhões ou 32,61%), embora caiba destacar que a votação de Dilma Rousseff, na época, foi de 47,6 milhões (46,1%) e, agora, tenha sido 43,2 milhões (41,59%), resultando que a diferença pró-Dilma no primeiro turno tenha oscilado negativamente de cerca de 14,5 milhões para 8,3 milhões, agora (em razão da votação paulistana).

No mais, Dilma Rousseff venceu em 15 estados da federação (inclusive na terra de Aécio Neves, Minas Gerais, no Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul), Aécio Neves em 10 estados e Marina Silva em 02.

Há que se destacar, ainda, que tivemos a omissão de impressionantes 38.797.556 eleitores ou 29,03%, a saber: se abstiveram de votar (27.698.475 ou 19,39%), anularam o voto (6.678.592 ou 5,80%) ou o deixaram em branco (4.420.489 ou 3,84%). Segundo os famigerados institutos de pesquisa, aqui a candidata Dilma Roussef foi a mais prejudicada, e se houver um retorno de parte deles ela colherá dividendos.

Enfim, se não surgir alguma novidade capaz de produzir efeitos devastadores, nada que um ajuste bem dado e uma maior participação da militância (principalmente em São Paulo) garantirão a permanência da atual ocupante do Planalto. Afinal, no cara-a-cara (debate) entre os dois candidatos, não poderá ser olvidado a comparação entre os dois modelos de governo em confronto: o do desenvolvimento inclusivo, onde se prioriza a redistribuição de renda, via inclusão social e a remoção das desigualdades sociais (Dilma Rousseff) e aquele excludente, que entrega de mão beijada ao mercado, via capital financeiro, o gerir da economia (Aécio Neves).   

Restaria a pergunta: pelos grosseiros e clamorosos erros cometidos (inclusive na “boca de urna”), os diversos institutos de pesquisa (que já anunciam novos dados a partir de amanhã), merecerão alguma credibilidade ou capazes serão de induzir o voto do eleitorado, a partir de agora ???




segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Completando a postagem abaixo, reproduz uma postagem do jornalista Mário Magalhães em seu blog antes mesmo de FHC iniciar a campanha contra o marmiteiro

Um breve preâmbulo, sem intenção professoral: com o fim da ditadura do Estado Novo (1937-1945), sobreveio a eleição presidencial direta, em 2 de dezembro 1945. Os dois candidatos mais fortes eram altos oficiais das Forças Armadas: Eurico Dutra, do Exército, e Eduardo Gomes, da Aeronáutica. Deposto, o ditador Getulio Vargas apoiou Dutra. Sem traquejo político, o brigadeiro falou com desprezo da malta getulista que sufragaria o marechal. Um acólito de Vargas copidescou com malícia a declaração, espalhando que Eduardo Gomes zombara dos “marmiteiros''. Isto é, maldissera o povo simples, que levava comida em marmita para o trabalho.
A versão pegou, e ajudou Dutra a jantar Eduardo Gomes nas urnas.
Desde então, embora a expressão marmiteiros tenha caído no esquecimento, em todas as eleições os eleitores mais pobres são menosprezados como ignorantes que, como diria o Pelé, não sabem votar.
Isso vai acontecer de novo agora. Muitos sabichões tripudiarão sobre cidadãos _sem muitos direitos da cidadania, mas cidadãos_ como aqueles que ganham até dois salários mínimos, sejam eles eleitores da presidente Dilma Rousseff, que vai ganhar fácil o primeiro turno (mas provavelmente com menos de 50%), ou do governador Geraldo Alckmin, que em proporção terá ainda mais votos.
Para certos ditos bem esclarecidos, o povão inculto não sabe escolher.
Não imaginam esses demofóbicos, para empregar a sacada do jornalista Elio Gaspari, que os brasileiros mais pobres provavelmente têm mais consciência ao votar.
Porque da sua decisão pode depender um prato de comida, a escola para o filho e a chance de transformar em realidade o sonho de uma casa.
Nem o tempo apaga a intolerância: determinada intelligentsia vai continuar detonando os marmiteiros, que como sempre sabem o que fazem e querem ao digitar os números nas urnas.

FHC (Faculdade Harmônica de Confundir) - José do Vale Pinheiro Feitosa

A integridade é uma das coisas mais difíceis no ser humano. Falando em integridade como a capacidade até de mudar de opinião, mas tendo a capacidade de demonstrar que esta mudança faz parte da ordem geral e não do arranjo individual e oportunista.

Fernando Henrique Cardoso foi eleito Presidente da República por duas vezes em razão do plano de estabilização econômica do país. FHC foi eleito duas vezes no primeiro turno. Quem deu a vitória a ele foi o povão, o povo do nordeste, do norte, o povo das camadas sociais mais sofridas que se viam beneficiados com o fim a terrível inflação que corroía seus ganhos antes mesmo deles começarem a comprar as suas necessidades.

Mas FHC tem dois defeitos fatais. Um de personalidade: é um oportunista na raiz da medula. O outro é intelectual: pertence à cátedra do “paulistanismo” adversário mortal de um projeto nacional, preconceituoso, que tem horror a nordestino migrante e tudo que é crescimento e distribuição de renda é populismo. É a ideologia que defende a “meritocracia” e que voto em Aécio Neves cuja carreira é produto de sua família, incluindo o avô.

Como diz Carlos Orsi num jornal da Unicamp: “A Semana de Arte Moderna de 1922 foi, no plano ideológico, a iniciativa de uma “oligarquia racista, reacionária e ao mesmo tempo modernista”, para servir aos interesses de classe da elite cafeicultora e a um projeto de hegemonia paulista, que via o Brasil como uma colônia a ser explorada pela metrópole de Piratininga.”

Eis a declaração do prestidigitador no blog do Josias de Souza, portal do UOL: “O PT está fincado nos menos informados, que coincide de ser os mais pobres. Não é porque são mais pobres que apoiam o PT, é porque são menos informados.” De uma tacada só o Príncipe dos Sociólogos tenta separar o inseparável, uma vez que informação (midiática é o que ele quer dizer) é acesso e acesso é riqueza monetária.


Além de tentar uma frase que não irrite os pobres, ele também comete outro erro sociológico: informação não depende apenas do Jornal Nacional, da Folha ou do portal UOL. O povo do nordeste tem seus métodos para se informar, tem capacidade para analisar e sobretudo sente o imediato de suas vidas com mais agudeza do que a crônica de um sociólogo rico que ganha fortunas dando palestras a empresários com horror a uma ordem social que os comprometam além dos seus negócios.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

O DEBATE QUE O TRABALHADOR NÃO PÔDE VER - José do Vale Pinheiro Feitosa

Comecemos pelo principal. Desde a segunda metade dos anos 60 do século XX a Rede Globo de Televisão é a “mídia” nacional. A mediação dos fatos, fenômenos e ideias que acontecem e norteiam a sociedade brasileira. O jornalismo, especialmente o Jornal Nacional, as novelas e programas de auditórios deram a base para uma “identidade” nacional sujeita ao capitalismo industrial e financeiro e aliada aos EUA nos conflitos subjacentes à política internacional.

Existem muitas análises que demonstram que, agora já no andamento da segunda dezena do século XXI, a Rede Globo esteja em baixa em razão da mudança de paradigma do próprio papel das mídias. A rede mundial de computadores faz mais do que o telefone fez em termos de diálogos entre as pessoas. O telefone era ponto a ponto enquanto a rede de computadores se dissemina, viraliza como é do jargão.

Quando as empresas de mídia faziam a mediação da comunicação social e do conhecimento público fatalmente atendiam a uma sociedade de massa carreando-a ideologicamente num determinado rumo. Quando a rede de comunicação interpessoal surgiu o primeiro fato foi a diversidade de rumos, de interpretações e de entendimentos ideológicos.

Numa sociedade em crise econômica o fenômeno da rede é mais agudizado, existem mais análises, interpretações do que nos cursos acalmados da história. Como consequência desta crise já observamos perigosamente um quadro de aglutinações e alianças bélicas que prometem grandes conflitos, muita morte, doença e miséria. Basta observar a grande aliança “ocidental” para atacar o território do Oriente Médio onde grupos em desespero lutam. Acrescente a forte tensão ente EUA/União Europeia e a Rússia vazando tensões no rumo da China.

E agora o que me interessa nesta postagem. Alguém entre nós pode compreender o motivo que levou a rede Globo de Televisão a realizar um debate entre candidatos à Presidência da República depois das onze horas da noite e terminando depois de uma hora da madrugada? Haveria aí a necessidade de apenas ela ser detentora do fato para que pudesse, sozinha, fazer a mediação entre os candidatos já ausentes e a sociedade?

Nos dias seguintes, na ausência dos candidatos a rede Globo em seu jornalismo e na sua programação dramática (Hollywood é a grande escola ideológica do pensamento dominante) poderá “repercutir” o debate que ninguém viu? Deseja ela continuar tendo o bastão da mediação do conhecimento público?


Pode ser isso mesmo, como não pode. Pode apenas ser uma decadência que já não consegue mediar a própria grade de programação. Afinal a rede mundial de computadores se encontra ativa até o minuto final da apuração dos votos.