por José do Vale Pinheiro Feitosa




Viva junto à alma mais próxima e compreenda que a proximidade é a medida da distância. Que a distância que os separa é este movimento maravilhoso da matéria e da energia. A maravilha é apenas esta surpresa porque esta proximidade é tão diminuta entre os dois e é a inesperada distância.

José do Vale P Feitosa



quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Precisa de um carinho



Esqueci o meu sorriso

em algum canto da vida

Até ontem estava aqui

Até ontem

em mim vivia

Não foi roubado ...

Perdi !



Perdi procurando

o sorriso do meu filho

Pensando no Natal

sem sonoridade ...



E aquele sorriso dos loucos

Muito pior do que choros ?

-Esses achei espalhados !



E resolvi perguntar-lhes :

Meu sorriso passou por aqui?

Assustado, um deles

também perguntou-me :

Não me reconheces mais?



Reincorporei-o !

A princípio tortamente ...

Olhei no espelho, e vi

que a tristeza de um sorriso

precisava de um carinho,

e por Ele , enfim sorri

numa doçura sem fim !

1992


Era o dia 23 de Dezembro de 1992. Trabalhava na Plataforma de Atendimento da Agência do Banco do Brasil , em Friburgo-RJ, como Gerente de Expediente. Apartamento novinho e decorado para o Natal e Ano Novo. Alegre com a visita de uma amiga de Fortaleza, que viera de longe para as festividades daquele ano.
Agência lotada. Movimento atípico! Entra minha amiga esbaforida, e avisa, sem meias palavras: Socorro, o teto da tua sala desabou. Existia no andar superior ( Apartamento de cobertura) , uma piscina, justo em cima da minha sala de visitas.Inundação.Tudo estragado. Foi um Deus nos acuda. Arrumamos todos os móveis da casa , num único aposento , que permaneceu no seco. Arrumei a mala com coisas pessoais e fui para um hotel.Minha amiga desabou logo para o Rio de janeiro, e eu fiquei matutando sobre o que faria da vida.
Peguei um ônibus para o Rio. Da rodoviária fui para o Aeroporto, e embarquei para Brasília. Cheguei de surpresa na casa de Eduardo, um grande amigo, justamente, no dia 24 de Dezembro. O coitado já estava de mochila pronta para passar o natal com a família em Goiás.
Lembrei nessa hora que tinha um amigo do Cariri, trabalhando numa Agência do Banco do Brasil em Brasília. Ainda tinha algumas horas. Liguei, para algumas delas, e enfim localizei-o. Meio dia, ele foi ao meu encontro.
-Vim te buscar. Também estou sozinho, e vai acontecer o natal dos órfãos. Você é minha convidada!
O espaço era familiar, casa grande, e os convivas eram todos solteiros, e sem vínculos de famílias. Éramos todos amigos! Naquela noite me diverti como nunca. O dia foi amanhecendo, e ainda estávamos dançando “Odara” de Caetano.
Mas eu ainda teria o Ano Novo pela frente... O que faria daquelas pequenas férias compulsórias? Estava sem teto!
Fui pra rodoviária, e pensei: vou aventurar uma viagem para qualquer lugar do Brasil. Sorteei umas cidades, e a resposta foi belo Horizonte. Meia hora depois estava a caminho.
Bati na porta de Odete, minha ex sogra, que tinha um endereço constante, no Centro, e bem pertinho da Rodoviária. Quem abriu a porta foi meu ex marido. Imediatamente desisti de ficar, e justifiquei. Estava na rodoviária, mas o meu ônibus só vai sair à noitinha, então resolvi visitá-los. Conversei e dei um tempo por lá... Mais algumas horas estava outra vez dentro de ônibus rumo ao Rio, e já era o dia 30 de dezembro. Amanheci no dia 31, na rodoviária do Rio. Peguei outro ônibus para Friburgo, e três horas depois cheguei ao destino (?).
Tirei o carro da garagem e rumei para S.Pedro da Serra. Aportei na casa de Anita ( uma grande amiga). Anita não estava, mas a casa estava aberta. Só chegaria a noite com o marido e filhos.
Corri no comércio atrás do material para fazer uma ceia diferente. Comprei trutas. Fiz o prato com molho de amêndoas; um arroz com brócolis, uma salada, frutas frescas e secas, vinho, e uma musse para a sobremesa. Colhi flores, acendi velas perfumadas, e fiquei esperando os donos da casa. A surpresa foi enorme. Naquela noite me harmonizei com as pessoas que o destino havia escolhido como companhia para mim... Dei uma volta depois nos barzinhos da cidade. Abracei rostos simpáticos e estranhos ( na maioria). Dia seguinte primeiro de janeiro de 1993, voltei para o hotelzinho em Friburgo, e fui procurar uma nova morada. Um cliente do banco cedeu-me uma casa , que vivia trancada e abandonada. Uma semana de limpeza, e a casa brilhava! Foi nessa casa, dentro de um bosque de orquídeas, que morei, até quando despedi-me de Friburgo, em definitivo, alguns meses depois.
O próximo destino foi Campina Grande, onde Victor estava terminando Medicina. Estávamos, no dia que cheguei, quase às vésperas do natal de 2003... Mas essa já é outra história...!
Uma história incrível, que poderia ter sido romântica... Conto qualquer dia !

Dias e noites




Dias e noites

Lembro, esqueço

vivo, desisto...

Não desamo .
Apresso um tempo

Antecipo um fim

Ele busca nas entrelinhas :

Acha o que não foi pensado

Cata o lixo do que não foi dito.

Ele corta a chuva

orando pra Santa Bárbara.

Mas a chuva cai

num barulhinho
cantante

Fecha a porta da entrada

Escancara uma saída

Se esconde na procura

Se tranca, na despedida.

E eu desando no caminho...
Sinto a moderação

imposta pela vida.

Mais uma vez eu quis,

e não fui feliz !

socorro moreira

De leve ...



Delicadeza

O vento barulha
nas folhas secas da serra
nos telhados e janelas
canta rouco, canta fino
sibilante como cobra
irritante como o grilo

Adoro a zoada que a natureza orquestra
Fico calma, delicada,
e penso numa orquídea, enfeitando
a minha casa!




Casamento poético

Namoro tudo que eu quero
Sem pensar, no juntar dos trapos
Penso apenas, no cruzar de versos...
Enxoval sem lençóis bordados !



Viola calada

Na boca da noite tem vinho
No vento da madrugada, poesia
Nas cordas do violão... Paixão!

Foi muita lua
Mas o sol sempre impõe
o clarão da razão!

Dezembro 2009



Começou Dezembro... Não visitei o centro da cidade. Iria procurar nas vitrines o toque dos natais antigos; ouvir músicas natalinas. Não quis arriscar. Aliás, ando um tanto chateada... Tenho reencontrado amigas do passado, em visita ao Crato, e é unânime: “Crato é uma princesa sem príncipe”!
Finais de semana, sexta, sábado e domingo, passearam nas praças, no calçadão, e só encontraram descuido e abandono. Escutei as lamentações: e você não se movimenta pra mudar a situação?
E acha que uma andorinha sozinha faz verão? Claro que a gente (população) é responsável, em parte, pela praça sempre suja de plásticos, papéis. Isso espelha a educação do seu povo.
E os buracos? E o chão pontilhado de negro, dos chicletes envelhecidos? Não, a praça nunca foi lavada; os canteiros não são cuidados, e a aparência é horrível. Até os artistas perderam a sua base, nos bancos da praça.
Entramos no “Olhar”, e fomos recebidas pela Gabriella. Outro desencanto. A moça tem intenções de criar um quartel cultural, mas tem sido podada, em todos os sentidos. Paramos no “Lá na praça”. Lugar agradável, onde é servido um lanche delicioso. Mas não se pode tomar uma cervejinha gelada (pedida do calor , nesse fim de ano), nem fumar (até entendo...); no Bem Doce tinha uma música alta... Inquietante! Eu que adoro música de todos os gêneros, descobri que nunca ouvira tocar nenhuma daquele repertório (alguém segredou: são das duplas sertanejas). A antiga Choupana estava um tanto sombria... Nem entramos. Voltamos para a praça. Ulisses Germano passou com um bandolim, e nos agraciou com uns chorinhos. O momento era mesmo nostálgico... Tipo hora da saudade. Gente era uma noite de sexta-feira, e a Praça da Sé, o coração pulsante de uma cidade interiorana estava feia, suja e triste. Como não lembrar um tempo, em que essa princesa foi linda?
Foi quando recebi o ultimato: escreva um texto, em que o título seja: Princesa sem Príncipe!
Fico bloqueada para falar de coisas tristes, na minha impotência de nada fazer.Só queria a minha cidade, pelo menos, limpa !
A foto é de Nilo Sérgio. Não tivemos coragem de fotograr o que vimos...

Natal 2009


A casa está vazia.
A rede desarmada
O varal sozinho
O fogão limpinho
Pingos do ontem...
Manchas no chão!


Existem momentos,
em que tudo fica mudo
Até o telefone...
Existem momentos
Em que o contato maior se faz
- Ele atende!
Traz amigos
Filhos
Netas
E até um amor...

Estou apartada de grandes afetos
Estou contigo
Na simplicidade de uma ceia
Regada a pão e leite!
E o coração transbordando amor
Deseja a todos
Um dia de paz

Eu tive natais inesquecíveis. Eles, se chamar, voltam correndo, nas lembranças. O mais marcante é o de hoje!
Em nenhum daqueles anteriores vivi a experiência, na essência, do verdadeiro natal.
E a palavra chave é SOLIDARIEDADE!
A nossa dor não é a maior de todas, nem a fura-bolo, nem a mindinha... A nossa dor é transformadora, e eu posso sentir o prazer de estar viva, e poder contribuir com sonhos , a partir de mim.
No nascimento de Jesus, Nossa Senhora sofreu as dores e as alegrias de uma mãe...
Eu tenho as dores e as alegrias; os mimos dos meus amigos... Eu tenho a vida, que teima em renascer, em forma de esperanças !

Amigo Luis, te convido para participar dos meus riscos poéticos ...

"...uma velha amizade é assim...e fim !"

Apagando a ilusão


A noite de ontem não findou
Trouxe comigo a tua dor
Invento o esquecimento
Falha, mas um dia pega.
Pego a ilusão ,
e dissolvo em paz.

Nova sorte .
Seguro as cordas
de um coração quieto
Diz que já não sente,
que nunca pensou ...
Cego, sempre amou!

E na tristeza do vazio
a chuva desmancha
as pegadas do caminho,
quando fui ao teu encontro.

Além ...
Uma ternura dirá
que não fomos tanto além
Nos separamos ,
justo no primeiro sinal.

Dois mundos


Abrem-se cortinas
Dois mundos avizinham-se
Em cada um
a procura da paz,
no sorriso.
E as almas separadas,
se consomem na saudade ...

Fome do inusitado
Fios não ligam
nós que a vida desata !

Nascente



sábado nascente

tangendo a poeira da sexta

feijão sem tempero

peixe frito no azeite

farinha que engasga a saudade

o banho de sal

a essência floral

e a preguiça mortal

de esquecer que estás vivo

a vida não é velório

ela precisa de um grito

ser desenho animado

ser filme !

Alma de gueixa



manhã chuvosa
mágoas lavadas
vivem o dom e o tom
novo dia !

água da chuva
lava teus pés cansados
na cânfora adormecidos

sem cereja na boca
sem graúna nos olhos
ocidental nos anelos
calos de rendeira
azeitado desejo

um cheiro de flor
lembra a nossa história
acorda,
tá na hora...
o sol voltou !

Ser Poeta




Poeta
é ser dono de todos os sonhos
e não ter nenhum

Viver por palavras :
bolas de sabão de vida curta e bela
Vão, explodem com o toque do olhar

Poeta é a árvore que teima nascer
na areia do sertão
A gritar sua sede
A sonhar
com a nuvem carpideira

Poeta é silêncio
martírio de ser
Dizer-se poeta
é blasfêmia
Sentir-se poeta
é prosaico, simples !

Renúncia
Deletar um projeto de amor
é matar uma célula amorosa
O efeito tristeza
esvazia por momentos ,
por dias, toda a nossa alegria.
Mas , já dizia minha vó:
Amor unilateral não tem função ...
É solidão braba,
corrosiva !
Renunciar é deixar que a solidão se dilua
escorra , e perca a noção da nostalgia.
Já, já...
o tempo muda...
Volta a primavera,
e com ela
as cores da fantasia !

Minha alma invade a madrugada


Alma boêmia...
Busca nas ruas
respingos do dia.
Passos na calçada
de gente criada...
Passos no astral
de gente imortal!

Vigia da madrugada
amante da noite
no cheiro de dama
jaz embriagada!

Sons noturnos
libertam esta alma
Um solar difuso
prende a sua cara

Metade dos sonhos
adormecem sem asas...
A outra metade,
nos sonhos se acha!

Alma invasora
dos anjos perdidos
alma azulada
sem halo, nem faro
carrega no bico
o som de uma flauta
Busca no espaço
sua lira amada!

Encontra na escala
um teclado mágico...
Expressa em melodia,
esta madrugada...
Até que o dia,
lhe encha de graça!

O Belo Rio da Vida
.
Riacho lácteo
de seixos, de seios
colo lavanda
balança no leito...

Pedras limadas
jogadas na beira
Iaras, ninfetas
no rio se ajeitam
no espelho das águas
arrumam os cabelos
Com fitas e rosas,
esperam Narciso...
Que tarda, e não chega!

Rio navegável
enluarado de loucos
nele se atira
meus sonhos de moço
esperam o feitiço
de um canto...
De um bicho...
De uma flor do mato
que um peixe fisga!

Rio sereno
águas turmalinas
acolhe o pescado
oferta uma isca
salga com choros
o veio que salta
nos mares bravios.

Rio cansado
das águas paradas
reduto esquecido
na orla florida
perfuma o gemido
dos ais afogados
de todos os sonhos
que encontram o destino!

Quando eu era Imortal
.
Imortal... Antes e depois da vida
Imortal é Deus, criança
fantasma, louco...
Um pouco imortal, somos...
Quase o tempo todo!
Mortal é o presente
sempre tão corrente
mortal é o passado
sempre acontecido!
Imortal é o futuro
eterno prometido!

Quando fui imortal
nem me percebi
quando amanheci,
morri todo dia...


E agora,
que faço com os amores,
que se imortalizam?
Mortais são os sonhos
que em mim, terminam!


NO SILÊNCIO DAS ÁGUAS
.
E as águas de março, no rio desaguaram?
Acomodaram-se no silêncio domingueiro
Fugiram do estresse de todas as feiras
Guardaram-se para os mares que não vêem.

Nos pequenos comas, nada parece existir
Com exceção dos próprios sonhos.

Quando desperto, procuro teus recados...
Uma palavra de mimo, um sorvete no verso

Silêncio de uma ponte quebrada é quase mortal
É um Deus nos acuda...
É medo do recomeço, sem a estrela principal.

Estou no caminho da fumaça...
E chego assim, naquela casa:
Toc, toc, toc... Tem gente?
A porta range...
A surpresa explode o abraço...
Encontro!

Fico calma, delicada,
e penso numa orquídea, enfeitando
a minha casa!

Dulce

Com Dulce não se discute
O pavio é curto
E o fogo é forte!
É pra matar ou morrer...
Mas quando seus olhos voltam
Lambuzados de mel
Fica linda a sua cara
Parece o povo do céu!
Distribui estrelas
No sorriso de marota
Se Dulce crescer,
vou à feira, e compro outra!

Ponte dos Suspiros
.
Tudo nos separa
Mas uma ponte invisível
sempre unirá a tua e a minha saudade!

Cheguei ao umbral do destino
porta estreita, sem caminho
encaro a viagem, sem os véus, que me atrapalham!
Sigo... Sem perder de vistas o rumo do infinito!
Tenho encontro com Osíris
Numa tarde de abril!

Lealdade




Sandoval foi a pessoa mais leal que conheci.
Quando se apercebeu do meu olhar, lembrou outro olhar.
Quando sentiu o gosto do meu beijo, lembrou outro beijo.
E , cada palavra dita , tinha o peso de um silêncio,
que dominava o instante seguinte ...

Sandoval foi fiel...
" mesmo em face do maior encanto" ,
ao seu amor de sempre !
.
Fechei meu olhar
Engoli palavras de ternura,
cruzei as mãos do carinho,
numa prece contrita ...
pela paz e pelo esquecimento !
...
E as minhas preces foram ouvidas !

O valor relativo das coisas




Uma vez troquei um carro por um aparelho de som Gradiente. A música tinha um lugar especial na minha casa. A garagem podia ficar vazia... As estradas podiam me esquecer.
Eu ligaria o som e a voz de Nana tomaria conta dos meus cantos. Mesmo que a melodia fosse triste eu viveria de alegrias.
Música nas primeiras horas da manhã. Um samba de Noel pra fazer o café; um de Nelson Cavaquinho pra varrer a casa. Cartola na vitrola pra regar as plantas do jardim; uma canção do Chico na hora de preparar o rango... Uma melodia de Tom pra lavar a louça, acumulada na pia. Uma bossa do João Gilberto pra estender a roupa no varal. Hora da sesta um chorinho de Pixinguinha ou de Waldir Azevedo... E um samba - canção de Lupicínio para chamar a melhor das saudades.
De tardezinha uma valsinha de Zequinha de Abreu. Na hora das estrelas se tornarem visíveis, uns tangos cantados por Nelson, intercalados por umas musiquinhas de Pat Boone... Afinal “Love is a many splendored thing” nunca saiu da minha estação.
Antes de dormir escutar Keith Jarret ou Diana Krall... Olhar desconfiado um vinil do Roberto, e resolver: é com ele que vou adormecer propor, cavalgar e sonhar!
Separar Elis, Leny de Andrade, Paulinho da Viola, Maysa para o dia de amanhá...

Ilhada



Chuva ilhando o convívio
Fertilizando a saudade
Nos corredores vazios
Mal-não-quero
Bem-me-faz
E o azul que se perde na chuva
Volta no amarelo solar.
Verde tinta, natureza
Espero você voltar
Lá adiante...
O tempo não sabe contar.
Roupa velha
Pano novo
Tesoura para cortar
Arrasto a sandália...
Pernas, pra que te quero?
Ajuda-me a chegar lá.
Meu pensamento dorme,
Aquieta-se, silencia
Tua voz, como escutar?
Quando foi?
Nunca mais...
-----------------------


"Dançando na Chuva"
.
Visitas diárias
É a chuva
Ela gosta dos últimos dias de Janeiro
De molhar nossos livros,
quando as aulas recomeçam
Já fazia parte do nosso enxoval:
Capa, sombrinha e galocha...
Chuva aumenta
a vontade de dormir
a vontade de comer, pegando fogo...
De tomar chocolate quente,
na beira do fogo...
Tempos úmidos
Quietude interior,
Queixo-me do cabelo molhado de suor...
Queixo-me do cabelo molhado de chuva...
Tudo me resfria,
mas que fazer com a natureza,
se ela faz parte do meu dia?
Imploro um raio de sol,
Pipocas!
Um filme de amor...
Com trilha sonora,
que me faça fechar os olhos...
Uma visita surpresa,
bolinhos de chuva,
e uma caneca de chá...
É pra já!
Espero assim,
o calor, e o inverno chegar...
Nos braços dos sonhos,
sempre acho o meu lugar!

Naquele mundo vivo
eu senti que preciso da luz
O escuro me adormece
e eu quero as cores do outro mundo
Quero achar quem partiu primeiro
Quero esperar, quem partirá...
Quero continuar
sem mandar em mim...
Entendendo , que ser livre
é não deixar de amar.
Estamos ainda aqui ...
o que fazer pra completar
o projeto divino?
Nada fazer...
Apenas viver !
Escrever é comer
É engolir , e mastigar,
o que nunca foi dito, nem visto.
Escrever é matar ou fazer nascer...
E essas duas coisas se alternam,
muitas vezes,
num único verso !

"Poetlástico"
Não , a palavra não existe... Mas existe a plástica poesia. Ela armazena o sentimento , e se amolda a uma estrutura imposta por regras que eu não sigo. Eu sei pensar, mas não sei fazer. Eu sou poeta em cadeiras de roda, sem asas, nem sequer tenras...

Estou vindo do show de Nando Reis. Pela primeira vez a multidão não me asfixiou. O espaço da Estação, apinhado de gente. Gente pra trocar alegria. Cantar e dançar junto.Ninguém vive sem música , sem festa, sem agrupamento . Fugir dessa mistura é parar na estrada da vida. O monge é peregrino. O eremita é andarilho. Não quero correr no mental... Quero chegar com calos nos pés, num pé de poesia , que não imagino. Colher pencas de sentimentos , sem a ansiedade da busca.Hoje foi uma noite de encontros . Declarações de amor... Amor amigo, amor único e uno. Ele não se diferencia no tamanho... Ele só muda, no jeito de expressão. É culpa do cheiro , e da compreensão.

Tá lá, ainda cantando...Nando Reis... para uma multidão !




sei dos teus cortes e
recortes.
da tua vontade incontida
do teu senso de justiça
da tua dor mal ouvida
Sei dos teus ais
que não se apaixonam mais !

A natureza da mágoa
qualifica a dor
Porisso não me reprimo :
Sou declarada de amor !

Faz silêncio , no escuro da tenda
e eu molho a tua pele
nas minhas águas vermelhas .


Você vive protegido
Que tecido é esse?
Quero um fio
pra entrar em tua teia.

Eu te amo
sem medo do porvir .

o mal é viver de mãos dadas
com o passado esgotado ...

Esqueço as letras
mas os números me reconduzem
a todos os mundos.

quando você chega
tudo em mim se ocupa.

Amo teus afetos
longe dos meus olhos
Eles te permitem
ser feliz sem mim.

Aposentadoria


Nunca me aposento por tempo de serviço. Aposento-me das funções que o mental consegue exaurir. Foi assim como bancária, como professora de Matemática, como culinarista. Agora é a vez do coração, que teimoso, resiste! Anda sonolento, desapaixonado pelos desencontros, pela falta de estímulo. O coração é o único órgão que só se aposenta com a morte.
Vida de aposentado não é moleza não... A gente acorda mais cedo porque dorme demais; sente todas as preguiças dos longos feriados; desaproveita as férias, que já não existem... Costuma tirar um dia pra nada fazer: não lavar a panela do leite, não fazer almoço, não lavar as roupinhas íntimas. Aposentados, nem todos vivem com uma sacola do lado, pra trazer de uma em uma, coisinhas que entopem a dispensa e a geladeira... Eu prefiro comprar uma recreativa, papel e canetas, alugar uns filmes; passar umas horinhas numa loja de disco ou livraria; comer batata frita, numa lanchonete ou restaurante, desafiando as taxas , que adoram uma alta , só pra limitar a nossa vida. Nos intervalos do ócio, eu me esqueço de fazer poesia. Até aprendi a jogar Poker, na internet... Ainda bem que o serviço pode ser gratuito, do contrário, não sobraria grana pras bananas, e pras pomadinhas de arnica.
Mas eu sei que esta vida pode ser mudada... Que ela pode ser mais saudável, e que o meu coração pode se aposentar, na felicidade... Não penso em ter alguém ao meu lado, mas de poder ficar ao lado de alguém, e ser itinerante, como a própria vida.
Quero aposentar-me das incompreensões, das questões minúsculas, e de tudo que eu rejeito , e não participo. Quero outras coligações amorosas e políticas, como esse blogue, que eu tanto ativo!
Quero as amizades que o tempo e a boa vontade construiu. Quero as afinidades reunidas!
Quero também uma varanda, uma rede e um jardim, e a lua faceira, olhando pra mim !
Quero ganhar todas as estrelas com um só olhar, e viver num céu azul, sombreado de branco , com a chuva molhando e aspergindo cristais de vida, em mim !


Parei de transformar
números em flores.
Números são adubos
letras são flores.
Parei de te chamar
reclamar, vigiar...
Parei de te esquecer.
Adormeci teu amor
no leito mais secreto.
Faço silêncio
Deixo ele sonhar!



Sonhar-te ...
És o sonho de tantas,
que te sonhar,
nem importa tanto
nem mais , nem menos.
Soprar-te ,
só de vez em quando ...
pra longe da terra
pra longe do mar
pra longe de mim
Querer-te
Não muito,
e de vez em quando.
É minha sina ,
voar como a minha saia
ora branca, ora negra ,
ora cinza!
É isso , e nisso ...
Vivo assim pairando
É isso que falo , canto
Ora voz e alma
Tudo em branco
Ora tudo negro
como um manto.

Sem projetos




Nem sequer um sonho
Sem projeto de saudades
Sem a dor nos intevalos

Entrei e sai
Me distanciei ,
e o mundo não sentiu

Volto pro novo cotidiano
Sem esperas , sem enganos
Sem ocupar a esperança

Abraço o tempo
que esquece
mas um pedaço de mim

Me deixei dispersa
sem amarras,
sem nós,
sem terra...

Mas precisava ver o mar,
sem ter visto o teu olhar

Sem propósitos


sei dos teus cortes e
recortes.
da tua vontade incontida
do teu senso de justiça
da tua dor mal ouvida
Sei dos teus ais
que não se apaixonam mais !

A natureza da mágoa
qualifica a dor
Porisso não me reprimo :
Sou declarada de amor !

Faz silêncio , no escuro da tenda
e eu molho a tua pele
nas minhas águas vermelhas .


Você vive protegido
Que tecido é esse?
Quero um fio
pra entrar em tua teia.

Eu te amo
sem medo do porvir .

o mal é viver de mãos dadas
com o passado esgotado ...

Esqueço as letras
mas os números me reconduzem
a todos os mundos.

quando você chega
tudo em mim se ocupa.

Amo teus afetos
longe dos meus olhos
Eles te permitem
ser feliz sem mim.

Tudo se transformou
da noite pro dia
Turva natureza
casa vazia
Meus sonoros pigarros
de repente, calaram
Isso é vida ou utopia?
Vou viver no preto e branco
mais uns anos...
Eu quero água...
Água das nascentes
pra lavar o que ficou guardado
Meu sonho adormecido,
embotado de fumaça,
agora se espreguiça,
apagado de saudade!


Ontem , na boca da noite , espreitamos a lua. Acendemos outras luzes, e tudo aceso ficou: cidade, saudade, e nuvens de lembranças.Senti falta do nada. O nada que comporta uma parte de mim que se foi.
Senti falta de tudo que de bom, já passou.
Não quis a volta de nada, mas quis a presença de tudo , mergulhando num nado de paz.
Estava serena , sem o mar do teu olhar. Estive serena , diante do caos, concentrado numa simples luz, que ilumina uma certa nuvem, num céu que ainda é azul, e azul sempre será.
Vejo o teu rosto refletido no espaço. Rosto desanuviado, inserido , nas palmas das carnaúbas. Agora que tudo é passado, te retiro , e te incrusto, num álbum de retratos.

Intervalo




Nem sequer um sonho
Sem projeto de saudades
Sem a dor nos intevalos

Entrei e sai
Me distanciei ,
e o mundo não sentiu

Volto pro novo cotidiano
Sem esperas , sem enganos
Sem ocupar a esperança

Abraço o tempo
que esquece
mas um pedaço de mim

Me deixei dispersa
sem amarras,
sem nós,
sem terra...

Mas precisava ver o mar,
sem ter visto o teu olhar.

Naquele mundo




Naquele mundo vivo
eu senti que preciso da luz
O escuro me adormece
e eu quero as cores do outro mundo
Quero achar quem partiu primeiro
Quero esperar, quem partirá...
Quero continuar
sem mandar em mim...
Entendendo , que ser livre
é não deixar de amar.
Estamos ainda aqui ...
o que fazer pra completar
o projeto divino?
Nada fazer...
Apenas viver !
Escrever é comer
É engolir , e mastigar,
o que nunca foi dito, nem visto.
Escrever é matar ou fazer nascer...
E essas duas coisas se alternam,
muitas vezes,
num único verso !

Perguntas



Naquele mundo vivo
eu senti que preciso da luz
O escuro me adormece
e eu quero as cores do outro mundo
Quero achar quem partiu primeiro
Quero esperar, quem partirá...
Quero continuar
sem mandar em mim...
Entendendo , que ser livre
é não deixar de amar.
Estamos ainda aqui ...
o que fazer pra completar
o projeto divino?
Nada fazer...
Apenas viver !
Escrever é comer
É engolir , e mastigar,
o que nunca foi dito, nem visto.
Escrever é matar ou fazer nascer...
E essas duas coisas se alternam,
muitas vezes,
num único verso !

Giras


Amor feiticeiro ,
onde escondes tuas magias?
Por que me encantas
com teus cantos?
De onde vens,
que forma tens?
(alienígena a me levar,
pro teu universo?)
Vais me transformar em energia,
e tomar conta de mim ...
Por mais efémera ,
que seja a minha vida?
----------------------------

Cada um diz o que pensa e quer
Já levei muita porrada,
coloquei rolhas nos buracos,
e estou a flutuar !
----------------------------
Sou mensageira de um sonho
Que viva em ti,
nos dias e nas noites
Que seja companheiro,
nas tuas andanças
Que seja melodia,
durante o teu dormir.
Fia meu sonho
Ajuda-me no errar
Muitos sonhos na vida
eu consegui fiar ...
Procure o melhor de todos
e certamente, lá você está !

--------------------------
Sinto que me escapas ,
e eu deixo ...
Já sem forças pra lutar
Só tu podes ler
o que habita nesta pauta
Só teus olhos sabem decifrar.
Fechei portas e janelas
mas uma réstia de luz,
ainda clareia o olhar.
Nem precisei do tempo
pra curar o desencanto
Foi tudo muito instantâneo
Você não quis arriscar ...
E eu respeitando o ponto
de vistas vou me afastar.
---------------------------

Sou como o pavio da vela
vela branca ou amarela
Na janela , na cabeceira , vela !
E se o tempo corre
o pavio termina
Como o tempo , tudo finda !

Sou fumaça que o vidro embaça
Sou nuvem que largou a lágrima
A lágrima que se tornou chuva
A chuva que se tornou gelo,
e de tanto ser ... Findou !
---------------------------
Não sou dócil
Não perco tempo
Sou andante, caminhante
Andarilha de caminhos.

Plantei sonhos
em beira de estradas
E os sonhos murcharam ...
Sonhos secos não renascem !

Mesmo assim
a vida jorra
em busca de outra magia
Alice atrás das maravilhas
Todo mundo atrás de todo mundo...



Naquela noite,
tudo azul ,
e o céu dourado.
Naquela noite
o vento não balançou meu olhar
Fiquei na mira ,
num horizonte longínquo ,
buscando você
tão afastado de mim.
Naquela noite esqueci
meu coração em algum lugar
Não brinquei de ser feliz
Esqueci de te aninhar.
Já nos despedíramos
tempos atrás ...
Era um dia escuro ,
que pedia chuva
Sem abraços
Suspiros no ar.



Definição
Gosto das historias bonitas
onde as perdas superam os ganhos
Gosto dos amores que ficam,
que se atrevem a entrar em campo
Gosto da compreensão maior
que minimiza o descuido,
e a falta de atenção
Gosto dos voos livres
que não deixam rastros,
e não retornam ao chão
Gosto do amor reconhecido
que não nega o olhar,
e ao beijo corresponde
Gosto da disposição de ficar
num tempo indefinido
Sem pressa de morrer,
e vivendo devagar .

De novo ...




Um ato que se repete .
Começa no primeiro instante,
no corte umbilical
E com isso a vida diz :
aprende a conviver, amar e separar !
Um amigo especial está fora de mim
Com ele se foi a poesia
ou a poesia persiste em mim?
Os amores não se perdem
quando as pessoas de nós
se despedem
O amor se inaltera, e até cresce...
Mesmo no silêncio !
Quem se desliga
não está impedido de sentir
e dizer : te amo !

Oculto




Silêncio

Quieto ou aflito?

propósitos firmes

atingem alvos

Tiros perdidos

podem ferir passarinhos ...

------------------------

Chuva

É a mais linda imagem

que o céu declina

Branda como a lágrima

quando expele a dor

e dela o coração se descola !

----------------------------

Preiro a terra

mas fico com o céu

Assim tenho o teu encanto,

teu perfume, tua voz...

pipa no vento !



Teu olhar - ponte de sedução

Com um deles

quando queres

o céu fica em tuas mãos.



Fujo de mim na tua busca

Encontro-te no passado

onde estavas ao alcance...

És ventania ?

----------------------------

O suor das chuvas de verão

chora nos telhados

escorre nas janelas

molha a grama

orvalha a cara



Enquanto existir vida

ainda posso lembrar



Nas folhas do trevo

desfolho o bem desejar



Folhas caídas ...

Sejam o caminho da paz !

---------------------------



beijo rápido e selado

como se fosse uma borboleta

pousando na alma !

------------------------

Alma alquebrada

Esconde a ruga sob o capuz

Firma a voz, declara-se amante

Alma amiga

ainda ontem ...


Maria que me gerou
na cumplicidade
do mistério divino
Maria esposa de artista
que o céu já convocou
Maria avó, bisa
mãe, santa, flor!
Maria da família
do Cristo
Maria de um único senhor !
Maria dos caminhos de chuva
Maria ardente de sol
Maria inflamada de amor
Maria das dores
da suprema fé
Maria de todas as cores !
Dona Valda , nos seus 81 anos de vida amorosa ...!